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Category:
Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-05-07
Completed:
2024-05-07
Words:
10,930
Chapters:
2/2
Comments:
3
Kudos:
9
Hits:
147

O Diário do Menino Morto

Chapter 2: Capítulo 2 – Segundo Dia

Chapter Text

Desperto após um sono estranho. Depois de tudo o que li e lembrei na noite passada, adormeci entre lágrimas. Tive um sonho com meus pais. No sonho, eu era novamente o menino deitado em minha cama grande. Eles estavam deitados comigo, eu no meio dos dois, um livro de histórias em meu colo, ambos lendo para mim. Papai Mu conduzia a ação como um narrador muito sério, enquanto Papai Alde fazia vozes diferentes para cada personagem. Eu ouvia tudo, maravilhado, até que me lembrei que não sou mais o menino. Então, eu gritei e, como Alice, eu cresci, me tornando essa coisa que sou hoje. Meus pais se entreolharam e então sorriram para mim. “Você se tornou um rapaz forte e gentil, Kiki”. “Não!”, eu gritei, “Não! Não sou uma coisa nem outra!” Eles acariciaram meus cabelos até que eu me acalmasse. “Sim, você é. Você sempre foi. Apenas precisa aceitar que as coisas não são mais como antes”. Não sei qual deles falava comigo, pois era como se suas vozes fossem uma só. “Aceitar é o mesmo que esquecer vocês!” “Não, Kiki. Aceitar é seguir adiante, sempre lembrando de nós”. Então eu chorei, pedi perdão, chorei ainda mais... disse mil vezes que os amava e que sentia saudades. “Nós também te amamos, por isso, queremos que siga adiante. Estaremos com você sempre”. Eu despertei em meio ao quarto escuro, coberto de lágrimas, procurando por qualquer rastro da presença deles. O quarto estava aconchegante, cheirava a flores. Acabei dormindo novamente, em paz, como há muito não ocorria.

O quarto continua aconchegante. Há algo no ar, algo que me acalma. Apoio-me nos cotovelos para poder olhar ao redor e me deparo com a figura da Deusa diante da porta, encarando-me com um sorriso gentil. Mais do que depressa, salto da cama e ajoelho em sinal de respeito. O diário, que repousava em meu colo, vai ao chão. Muito respeitosa, Athena se abaixa para pegar o caderno surrado. Meus olhos acompanham, em desespero, cada movimento, temendo que ela abra o livro da minha vida. A Deusa, porém, o entrega em minhas mãos trêmulas. Ela pede desculpas por invadir minha privacidade e confessa que o fez por preocupação. Disseram a ela que sequer apareci para jantar e a informação faz meu estômago roncar. Polida, ela ignora o ruído, e se desculpa mais uma vez, agora, por ter se atrasado para chegar ao Santuário. Diz que não foi a intenção, que o mau tempo impediu que o avião a trouxesse da ilha até o Santuário. Digo que não é nada, que está tudo bem. Ela olha para o labirinto de objetos antigos que a Casa de Áries se tornou. Talvez não entre aqui há muito tempo. Talvez pensasse que eu mantinha o local em ordem, mesmo vivendo em Jamiel. Sinto tamanha vergonha, de modo que não consigo lhe encarar. É a minha vez de pedir desculpas... Desculpas por ter entendido que apenas Tatsumi viria ao meu encontro. Desculpas pela bagunça. Desculpas por... Ela me toca as mãos, gentilmente, fazendo com que eu me acalme de imediato. “Decidi vir junto pois já faz muito tempo que não nos vemos. Não se preocupe. Eu te aguardo lá fora para conversar”. Sinto ainda mais vergonha, tal qual uma criança travessa que fez alguma bobagem e é pega no flagra. Deve ser a isso que se referem quando falam que Athena é bondosa como uma mãe: mesmo com todas as razões para me reprimir, me oferece sua compaixão. Trata-se de um verdadeiro artigo de luxo, tão raro quanto ter uma família. Em silêncio, ela sorri e se retira.

            Desisto de buscar alguma explicação nas ações da Deusa. Além do mais, não fica bem deixá-la esperando. Posso não ser o mais exemplar dos soldados, porém, eu jamais me permitiria ser insubordinado de uma maneira tão tosca. Abro minha mala e busco uma roupa decente. Meus pais me vestiam com minhas melhores túnicas quando íamos visitar a Deusa em seu Templo. Sempre me disseram que estar na presença de Athena era uma ocasião especial. Eu não me sinto especial. Talvez eu precise refletir mais sobre o que meus pais me ensinaram. Eles certamente me prepararam para ser um homem muito melhor do que o que me tornei. De dentro da Caixa de Pandora, Áries conversa comigo, animada por reencontrar a Deusa. Perdão, minha amiga. A você, que sempre foi tão paciente comigo, peço um pouco mais de calma. O banheiro está empoeirado, como é de se esperar. Giro as torneiras do chuveiro, mas a água demora a vir. Há ar nos canos. Os primeiros jatos têm uma tonalidade marrom, que logo cede lugar à água transparente. Está gelada, sinal de problema na caldeira ou algo do tipo. Entro debaixo do chuveiro de uma vez, o frio me arrancando um gemido. Bastam alguns minutos para que meu corpo se ajuste à temperatura da água. Deixo que ela me lave o cansaço e o suor. Quero estar apresentável para conversar com a Deusa – senão por mim, por honra aos meus pais, por respeito a Athena.

            Busco a toalha para me livrar do frio. Enquanto me enxugo, me deparo com a imagem assustadora de meu rosto refletida no espelho. Meus olhos estão inchados, denunciando que chorei por sabe-se lá quando tempo na noite passada. Abro a torneira da pia e, com alguma demora, a água começa a chegar. Jogo mais água contra o rosto, na esperança de melhorar minha expressão, contudo, não é como se isso fosse resolver. Respiro fundo. Volto ao quarto, onde deixei minha túnica de gala estendida sobre a cama. Foi um presente de meus pais. “Você usará essa túnica quando receber Áries”, eles me disseram, quando eu ainda era pequeno demais para vesti-la. Fiquei bastante surpreso quando, anos depois, descobri que ela me caía perfeitamente. Naquele dia, antes da cerimônia, olhei para os céus, desejando que eles pudessem me ver de algum lugar lá de cima. Agora, outros tantos anos mais tarde, a mesma túnica continua parecendo talhada sob medida para o meu corpo. Novamente, me pego olhando para o céu, pedindo aos meus pais força para não estragar tudo. Irradiando um calor amistoso, Áries busca me acalmar. Eu agradeço à minha amiga, a quem também devo perdão pela negligência.

            Athena me aguarda junto a uma das colunas da entrada do Templo de Áries. Faz um dia ensolarado lá fora. Ela observa Tatsumi brincando no pátio com uma criança – o que é bastante irônico, considerando que esse troglodita espancava órfãos até alguns anos atrás. Os dois parecem alheios ao olhar atento de Athena. A Deusa se volta para mim e, de modo quase automático, eu a saúdo com uma reverência. Ela repete a mesura. “Está um dia bonito”. Concordo. O sol brilha e os pássaros cantam. A criança, uma menininha, corre atrás de Tatsumi, num jogo de pega-pega. Athena contempla cada pequeno detalhe à sua volta, maravilhada. Parece que até mesmo os Deuses se surpreendem com a mortalidade. Ela me olha e sorri. É o suficiente para que eu desmonte. Num piscar de olhos, minhas pernas fraquejam, meu corpo cessa de obedecer ao comando para ficar de pé. Cairia ao chão não fossem os braços que me amparam, acolhendo-me tal qual uma mãe acolhe a um filho – como mamãe me acolhia, como meus pais me acolhiam. Mais uma vez eu choro. Um jorro de palavras sai de minha garganta, aliviando o aperto no peito que há anos me acompanhava. Eu peço perdão, peço piedade, digo tudo o que penso sobre mim, a criança mimada, o menino assustado. Choro, sem conseguir me conter, choro lágrimas que não sei de onde vêm, pois já chorei muito ontem à noite. Deixo que tudo saía de dentro de mim, tudo, até que esteja arfando em busca de ar. O que me sobra é uma sensação de alívio. E os braços de Athena me envolvendo num abraço carinhoso.

            “Quando vovô morreu, eu me senti da mesma forma. Tinha por volta de uns dez anos na época... Fiquei furiosa por ele ter ido embora de repente, por ter me deixado sozinha, por não termos feito juntos tantas coisas que havíamos planejado. Levada pela dor, fiz coisas das quais não me orgulho. Por isso, eu não te julgo. Perder uma pessoa amada é difícil. Eu mal consigo imaginar a dor de perder ambos os pais ao mesmo tempo”. Se ela quer me tranquilizar, está tendo o efeito contrário. Torno a chorar, um choro baixo e triste. Agarro-me aos ombros de Athena, pois sinto como se fosse despencar num despenhadeiro. Apenas os seus braços me dão segurança. Levo algum tempo, não sei precisar o quanto, até conseguir me pôr de pé outra vez. Athena tem os olhos marejados de água, porém, continua sorrindo. “Apenas não se esqueça que você tem muitos amigos aqui, pessoas que se importam com você. Quando você estiver pronto para voltar, estaremos de portas abertas para te receber”. Engulo o choro, abanando a cabeça, indicando que sim, que entendo. Ainda assim, não vejo motivos pelos quais alguém ainda seria meu amigo ou aguardaria meu retorno. Se essas pessoas ainda existem – devem existir, pois a Deusa não ousaria mentir – voltar talvez não seja tão difícil. Um amigo calharia bem nessas horas. Meus pais sempre preferiram o sol grego ao frio de Jamiel.

            Nos recompomos. Digo à Deusa que estou às ordens, pronto para cumprir qualquer missão. Ela ri, levando a mão direita à boca, sem conseguir abafar o riso. Fico um tanto encabulado, porém, sei que ela não está caçoando de mim. Com sua voz tranquila, diz que não me chamou a respeito de uma missão. “Na verdade, gostaria que você conhecesse alguém”. Gesticulando levemente com a cabeça, Athena pede que eu a siga. Descemos os degraus de mármore, lado a lado. Observo cada passo da Deusa, que parece flutuar. Estendo a mão para lhe oferecer apoio, um gesto impensado e tolo. Ela me observa com gentileza e entrelaça os dedos aos meus. Caminhamos lado a lado até ganhar o pátio.

            “Raki! Venha aqui, por favor. Gostaria de lhe apresentar um amigo!” A garotinha, que até então apresenta uma dança improvisada para Tatsumi, para de imediato. Um sorriso brilhante surge nos lábios da menina, que dispara em nossa direção como um foguete. O velho Tatsumi vem logo atrás, caminhando com certa dificuldade. A criança para diante de Athena, une as mãos junto ao peito e abaixa respeitosamente a cabeça, numa reverência improvisada. A Deusa lhe afaga os cabelos, fazendo a menina sorrir. “Este é meu amigo Kiki”. A menininha me olha com espanto, como sequer tivesse notado minha presença até a Deusa dizer que eu estava ali. Seus olhos se arregalam e ela se agarra ao vestido comprido de Athena, cobrindo o rosto a fim de se esconder. Por detrás do tecido branco, mas consigo distinguir sua face, mas sinto seu olhar intenso pesando sobre mim. Devo estar com um aspecto horrível, tamanha a impressão que causei nesta criança. Sorrio buscando consertar o estrago e me ajoelho devagar para poder conversar com ela face a face.

            - Olá, criança. Meu nome é Kiki.

            A frase me causa assombro. Foi assim que Papai Mu me recebeu, muitos anos atrás. Na ocasião, era eu quem me escondia por detrás da silhueta cansada de mamãe, temeroso diante do lemuriano desconhecido e de seu estranho companheiro, tão mais alto e imponente. A Deusa olha para menina com carinho, como se dissesse “está tudo bem”. De súbito, a menina, Raki, solta a barra do vestido para se revelar. “O senhor tem sobrancelhas iguais às minhas!”, ela dispara, antes que eu possa processar a informação. Meus olhos se detêm sobre os pontinhos vermelhos logo acima de seus olhos. Meu espanto é tamanho que acabo por cair sentado no chão, fazendo a garotinha gargalhar. A Deusa estende as mãos para me ajudar, mas a menina se interpõe entre nós, com seus olhos curiosos fixos em mim. Talvez eu tenha encarado meus pais da mesma maneira – Papai Mu por se parecer tanto comigo, Papai Alde por não se parecer em nada comigo. “O senhor quer ver um truque?”, ela pergunta, como se eu fosse o espectador em meio a um espetáculo circense. Indico que sim com a cabeça. É o suficiente para que a criança me brinde com um sorriso travesso, desses de quem está prestes a aprontar alguma coisa. Ela sai correndo, procurando por algo no chão do pátio. Não tarda a voltar com uma pequena pedra entre as mãos. “Contemple!” Ela olha para Tatsumi, como se quisesse saber se pronunciou corretamente aquela palavra tão difícil. O velho sorri orgulhoso. Realmente passei muito tempo longe daqui... Tatsumi sorrindo! Logo volto minha atenção para a garotinha, que franze a testa, como que fazendo um grande esforço mental. De forma um tanto trôpega, a pedra começa a se erguer, bailando no ar pouco acima das palmas das mãos de Raki. Decido que dois podem jogar esse jogo. Sorrio, fazendo com que a pedra flutue cada vez mais alto, para então, dançar em torno da pequena, tecendo círculos no ar. Raki observa a tudo, maravilhada. “O senhor sabe fazer truques também!” Confirmo as suspeitas da criança com um leve aceno com a cabeça. Como se eu fosse alguma espécie de herói mágico, ela diz, animada, que meu truque é muito mais legal.

            Athena propõe a Raki que tomemos café-da-manhã, todos juntos, deixando a criança ainda mais animada. Ela mal cabe em si! Pelas mãos, ela puxa Tatsumi escada acima, pedindo ao lacaio para escolher o melhor assento da mesa para mim, seu amigo, o Sr. Kiki. Como se imitando a criança, Athena toma meu braço novamente. Dessa vez, porém, é ela quem parece me conduzir. Traçam meu destino por mim. Pela primeira vez em muitos anos, deixo-me levar. Sinto-me seguro do caminho para o qual me guiam. Começamos a subir as escadas. Raki vai à frente, junto de Tatsumi. Por vezes, se detém e olha para trás, como que para ter certeza de que a Deusa e eu vamos em seu encalço. Em voz baixa, pergunto se ela gostaria que eu treinasse a menina. Athena sorri. “Eu gostaria que você a conhecesse. De onde ela veio, as outras crianças tiravam sarro de suas sobrancelhas. Por isso, ela assustava a todos com truques de levitação”. Assinto com a cabeça, contudo, insisto: “se a Senhora desejar que eu a treine...” “Eu jamais ousaria lhe exigir nada dessa natureza, Kiki. Meu objetivo é mostrar a Raki que ela não está sozinha. E não há ninguém melhor do que você para fazer isso”. Concordo. Ambos somos lemurianos, afinal. A Deusa cessa de caminhar para me lançar um olhar contemplativo. “Isso é o que menos importa, na verdade”. Olho para Athena, sem compreender. Já estou prestes a implorar seu perdão novamente, seja lá qual for o motivo, quando ela se adianta: “Você conheceu o amor de uma família de verdade. Raki precisa disso”. Engulo em seco. Não sei o que dizer. Tantas coisas passam por minha cabeça. Imagens, perguntas. “Eu não sei se estou pronto”. “Raramente estamos. Seus pais não estavam e fizeram um excelente trabalho com você. Aprendi muito com eles. Também tenho uma família agora, de certa forma. Uma criança para cuidar. Só que Raki ainda é muito jovem e é perigoso viver perto de mim. Confio em você mais do que qualquer outra pessoa, porém, entenderei caso você não queria assumir essa responsabilidade”. Estou sem palavras mais uma vez. Athena jamais condenou meus pais. Jamais me condenou. Ela, que poderia me fazer cumprir qualquer ordem, vem a mim com um pedido, me oferecendo a chance de escolher.

            Uma voz retumbante nos chama a atenção. Ao virar-me em direção ao seu dono, me deparo com ele, o homem que usa a Armadura de Touro, hoje devidamente vestido com seu traje dourado. Quem esse imbecil pensa que é, gritando desse jeito? Não passa de um grosseirão que em nada lembra Papai Alde. Ele se ajoelha diante da Deusa, que lhe concede permissão para pôr-se de pé. Gostaria de lhe dizer umas boas coisas sobre a falta de polidez, mas que moral tenho eu para fazer isso? Athena o cumprimenta. Seu nome é Harbinger. “Bom dia, Senhora. Áries”. Faço um leve cumprimento com a cabeça. Ele não merece muito mais do que isso, afinal, sequer sabe meu nome. Mas quem sou eu para julgá-lo? Também desconhecia o dele até segundos atrás... “Peço desculpas, pois sei da sua agenda ocupada, mas a Senhora me permitiria uma palavrinha com meu vizinho por um instante?” Ora, que audácia! Que falta de compostura! “À vontade. Iremos na frente, Kiki. Por favor, junte-se a nós quando terminar”. Me sinto enojado na presença deste homem desprezível, porém, Athena já caminha à frente, indo ao encontro de Raki. Suspiro de forma que meu “vizinho” possa captar meu descontentamento, embora um homem estúpido como ele provavelmente não consiga interpretar qualquer ato sútil. Oh, ele percebeu! Encara-me com desgosto, como que arrependido daquela aproximação. Num rompante, dá as costas, pronto para retornar ao Templo que um dia pertenceu a Papai Alde. Sorrio. Afinal de contas, não há nada para tratar!

Estou prestes a retomar minha subida quando um grunhido me assusta. Viro-me para encarar Harbinger novamente. Ele parece bastante irritado e cerra o punho direito com força antes de arremessar algo em minha direção. No susto, sequer lembro de utilizar a telepatia para congelar o objeto no ar. Minhas mãos se abrem como uma concha, recebendo o pequeno corpo metálico. Uma chave. No chaveiro, de qualidade duvidosa, lê-se “8J”. Olho para o delinquente sem entender, forçando-o a me fornecer alguma explicação. “É uma chave”. “Estou vendo”. Por mais curioso que eu esteja, quero também irritá-lo. Parece funcionar. “Ora, seu... É a chave de um dos depósitos do Santuário. As coisas de Aldebaran estão lá”.         Corro em direção a ele, valendo-me de toda a força para me deter antes que eu possa me arrepender de algo. Espero que esse filho da puta não esteja brincando comigo, ou terá a pior das mortes! “O que está dizendo?” “As coisas de Aldebaran... Eu guardei tudo lá”. “Você disse que havia jogado tudo fora”. “Claro que eu disse! Você invadiu o meu Templo como se fosse dono do lugar! Nem sequer se apresentou ou qualquer coisa que valha! Acha que eu sei que você é você? Todo mundo fala que Áries vive isolado numa montanha. Quando eu cheguei, você já havia partido. Como queria que eu reagisse ao ver um estranho andando pela minha Casa Zodiacal, botando defeito em tudo e clamando por livros e não sei mais o que? Então, eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça. Só queria tirar você de lá”.

            Calo-me. A vergonha toma conta de mim. Eu, que fui ensinado a ser humilde, me julgo muito superior a outro Cavaleiro de Ouro. Talvez, eu continue sendo um menino. Peço perdão, embora saiba que o simples pedido não é o suficiente para explicar meu chilique ontem. Por Zeus, a que papel ridículo me prestei!” “Me perdoe. Eu... A Casa de Touro... Ela foi como um lar para mim, por muito tempo. Me perdoe”. Minha voz mal sai da boca. Tenho vontade de sair correndo, tamanha a vergonha. Harbinger me observa, cruzando os braços musculosos. Ele suspira e apoia-se contra uma coluna. “Aldebaran foi como um pai para você, certo?” “‘Como’ não. Ele era meu pai. Mu e ele”. Ele fica em silêncio por um longo tempo. “Só ouvi coisas boas de seus pais. Seiya sempre nos conta histórias sobre eles. Aldebaran deixou um grande legado. Todos falam como ele era forte, porém gentil”. “Se a Armadura lhe escolheu, ela sabe que você pode continuar o legado do meu pai”. Touro me encara. Parece surpreso com minhas palavras. Também estou. Parece ainda haver algo de bondade dentro mim.

            Finalmente nos apresentamos de maneira adequada e apertamos as mãos. Peço desculpas a Harbinger por ter invadido o Templo de Touro, e ele também se desculpa por ter me enxotado de lá. Nada mal após um primeiro encontro desastroso. Olho para a chave entre meus dedos e agradeço a ele por ter tido o cuidado de guardar as coisas de Papai Alde. O grandalhão parece corar, sem jeito. Despeço-me, pois não devo deixar Athena esperando. Meu vizinho, todavia, me detém mais uma vez. “Tenho um último pedido!” Ele vasculha um dos bolsos, retirando dali um pequeno pedaço de metal dourado: a ponta do chifre da Armadura de Touro que Seiya cortou durante a batalha das Doze Casas. “Quando puder, poderia consertar isso para mim?” Harbinger é o novo protetor da Casa de Touro. Com certeza, quer e merece que seu traje esteja impecável. Eu, como ferreiro da tropa, devo acatar seu pedido. Abro a boca para lhe responder, mas não emito som algum. Coro de vergonha. Preciso lhe dar uma resposta afirmativa, porém, fracasso. Ele me pergunta se estou bem.

            - Você se importaria se eu ficasse com isso?

            Ele me encara, surpreso, processando minhas palavras irresponsáveis. O que estou dizendo? Que vergonha... Harbinger tem todo o direito de explodir comigo, de fazer uma reclamação formal junto a Athena. “Está bem. Como quiser”. Ergo os olhos buscando qualquer sinal de ironia ou desprezo na face de Touro, entretanto, Harbinger apenas me observa intrigado. Tomo o pequeno pedaço de metal, prestes a chorar novamente. Aperto-o em minhas mãos, junto com a chave. Sinto as lágrimas prestes a escorrer novamente, quando a mão forte de Harbinger pesa sobre meu ombro – ele se despede e diz que devo aparecer de vez em quando. Antes que ele adentre a Segunda Casa Zodiacal, o convido a visitar o Templo de Áries. “Não enquanto tudo estiver uma bagunça!” O tom inicialmente sério dá lugar a uma gargalhada. Esse delinquente está dando uma bronca – e o pior de tudo é que eu a mereço! Nos despedimos. Guardo a chave no bolso. A ponta do chifre, ah, não consigo deixar de admirá-la. Papai Mu tentou consertá-la tantas e tantas vezes, mas no fundo, entendia o valor que o chifre quebrado tinha para Papai Alde.

            Raki aparece diante de mim, me chamando mais uma vez de “Sr. Kiki”. É estranho que me dirijam a palavra dessa forma, contudo, algo dentro de mim diz que devo me acostumar, preparar-me para ouvi-la me chamar assim por muitas e muitas vezes. A irritação presente em seu rosto ecoa em sua voz. “O Senhor está demorando!” Tento conter minha risada, suplicando a ela mil perdões. Como que duvidando de minhas palavras, a menina vem até mim e me toma pela mão, conduzindo-me escada acima.

            - O Senhor mora aqui?

            - Já morei. Ainda tenho uma casa aqui, mas não moro nela há muito tempo.

            - Por quê?

            - Tenho outra casa, bem longe daqui.

            - O Senhor mora lá sozinho? Morava aqui sozinho?

            - Vivi com meus pais. Lá e aqui.

            - Como seus pais eram?

            - Eram homens muito bons! Muito fortes e inteligentes também!

            - O Senhor teve dois pais? Isso é bom! É melhor do que não ter nenhum!

            - Sim, é verdade. Eles me amaram muito e eu sinto muita saudade deles.

            - Também sinto saudades da minha mamãe. Ela tá no céu agora.

            - Meus pais também estão lá.

            - Será que eles são amigos?

            - Provavelmente.

            - Depois o Senhor me fala mais sobre os seus pais?

            - Claro! Tenho muitas histórias sobre eles.

            - Eba!

            Raki continua a me puxar pelas escadas acima, com uma força surpreendente para a idade. Ela fala demais, é curiosa demais, não tem qualquer senso de espaço pessoal. Ela também parece teimosa... do tipo que, quando coloca uma ideia na cabeça, não a abandona por nada. Mas eu gosto de ouvi-la. Tem a voz melodiosa e alegre, cativante, capaz de fazer amigos em segundos. Ela se parece muito com um menino que eu fui um dia. Talvez, ainda haja algo dele adormecido aqui, dentro de mim.

 

Notes:

A ideia inicial dessa fanfic é que ela fosse parte de uma trilogia narrada em fluxo de consciência (stream of consciousness), uma estratégia literária que nos faz mergulhar na cabeça de uma personagem, misturando pensamentos, impressões e realidade de forma bastante livre. Tecnicamente, esta seria a terceira e última parte da trilogia, porém, terminei-a primeiro e não resisti ao desejo de postar. Quem sabe, um dia eu escreva as outras duas partes?