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Groselha

Chapter 2: abc tão fácil quanto 123

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Estavam no ensino fundamental. A sala era tão silenciosa que a voz do professor ricocheteia nas paredes. Com o queixo apoiado na mão, Minho tinha seu olhar preso no céu, sem ouvir o professor. Seus ouvidos se prendiam ao exterior, onde a manhã se esvai, os pássaros diminuem o canto, mas sem deixar de se comunicar, e uma folha caída vinha descendo para descansar no chão do pátio.

Passos apressados cortaram a paz do pátio. O garoto em desespero fugia, suando, os tênis raspando o concreto, sem ser visto por Minho ou pelos alunos que tinham aula no segundo andar. O alarme do almoço soou. Minho mal fechou o livro e um berro tomou conta da sala:

“Os irmãos das docas vão dar uma surra no Han Jisung!” berrou um aluno na porta. Ele era o menor aluno da classe e quando não era o saco de pancadas, avisava quem era o saco de pancadas da vez.

Devia ser um rumor, assim como nas últimas semanas. Eles estavam há menos de dois meses de concluir o ensino fundamental, recheados de preocupação por conta da escola nova e outros poréns, por isso, ninguém sabia explicar claramente a onda de brigas assolando a escola. Os valentões entediados começaram uma Caça às Bruxas que consistia basicamente em bater em qualquer um que eles quisessem.

Han Jisung era uma presa ótima. Ninguém acertava de primeira que ele era do último ano, porque tinha a mesma altura desde os dez anos — 1,55m —, enquanto todo mundo fez dezesseis e esticou lá para os 1,65m, suas pernas pareceram não entender a puberdade. Usava um óculos de retângulo e, por causa de uma marca de nascença no pescoço(ela fez sucesso no primeiro ano, por lembrar uma mordida de vampiro, mas, de repente e sem explicação, virou motivo de piada), usava um cachecol verde oliva, para combar com o cabelo liso escorrido batendo no ombro. Em qualquer colégio que frequentasse, seria a presa.

A princípio, Minho absorveu a informação. As classes se dirigiam para o pátio em peso, o burburinho atravessando as portas de correr. Nessas horas, os professores desapareciam. Ele não queria fazer nada, pois tinha pavor a qualquer atitude que fugisse dos seus padrões de escola-casa-escola, contudo, viu Han Jian ao levantar o olhar. A garota parecia completamente apavorada.

“Ajuda ele, hyung, por favor”.

Lee Minho e Han Jian eram como o pote e a tampa. Ou, pelo menos, era o que Changbin dizia com certo divertimento na voz, daqueles que se orgulha de uma amizade que não é a sua, como quando você descobre que seus dois cantores favoritos são amigos.

Jisung ria e alegava ter comparações melhores, como as “dos livros”. Tudo para ele era esse negócio de livro. Changbin pedia pra ele fazer uma comparação melhor e ele ficava com cara de paisagem, travado como um computador velho. Já Minho e Jian riam e debatiam sobre quem seria o pote e quem seria a tampa. Jian sempre era a tampa, por ser racional. Uma trava para que os sonhos de Minho não escapassem. E eles continuavam inseparáveis.

Apesar de ser irmão de Jian, morar na mesma casa que ela, irem à escola juntos e sempre abrir a porta para receber Minho e ouvir ele e Jian rindo até tarde no quarto dela, nunca fora realmente próximo dele. Secretamente, tinha a impressão de que Jian e Minho se uniam para tirar sarro dele, o que não era completamente mentira. É verdade que Jian, como qualquer outra garota no mundo que tem um irmão gêmeo, fala mal do processo de puberdade de Jisung, acontece.

Em menos de um segundo, Minho disparou em direção ao pátio, o coração apertado no peito. Nos corredores, encontrou Changbin e Chan esperando por ele, pois eles eram como seu punho esquerdo e direito, sempre dispostos a ajudar.

“Faz tempo que eu quero enfiar a porrada nesse tal de Jungwon” Changbin disse enquanto corriam para a lateral do pátio, um sorriso perverso nos lábios.

No entanto, ao chegarem, encontraram um grupo de quatro ao redor de Jisung, Jungwon entre eles. Diálogo era uma palavra extinta e a briga generalizada foi rápida. Jisung, leigo, foi de pouca ajuda, transformando a conta em quatro contra três. Chan lidou com dois, porque era bom em desviar. Era a terceira vez que Changbin brigava na semana e seus braços magros faziam com que o oponente o subestimasse, o que lhe dava muitas aberturas. Já Minho era o Rocky Balboa do grupo, apanhou, mas nunca parou de bater. O grupo de Jungwon perdeu pelo cansaço.

A confusão acabou, Minho caiu deitado no chão frio de madeira, respirando pesado. Um filete de sangue escorria por sua bochecha e pingava no chão. Encheu a boca de saliva e cuspiu longe uma poça vermelha.

“Semana que vem eu enfio a porrada no Jungwon! Agora é sério! Eu juro pela minha mãe!” Changbin ergueu o punho no ar. Continuava empolgado, praticamente brigando com o nada, com socos e chutes no ar. Poderia fazer isso mil vezes. Eles tinham treze anos, o mundo era do tamanho de Sangju e brigavam sem consequências.

“Aí, vamos lavar o rosto antes da próxima aula, cê vem?” Chan disse, colocando as mãos nos bolsos. Sua sobrancelha sangrava um pouco do único soco que não conseguiu desviar.

“Depois eu vou,” Minho murmurou, espreguiçando o corpo no chão.

Apoiou o antebraço na testa e esperou sua respiração canalizar. Um sol tímido de fim de tarde entrava pela claraboia. Com os olhos semicerrados, via a poeira flutuando, dançando nos raios de sol. Finalmente, sentiu uma pontada fantasma de algum chute e a dor veio. Estava tão cansado que poderia cochilar ali mesmo. Jisung se agachou ao seu lado, observando-o com certa curiosidade.

“Não precisava vir, sei me defender sozinho.”

Entediado e cansado, Minho abriu os olhos devagar. Diante de si, viu os olhos enormes e curiosos de Jisung, que cobriam toda a área da lente dos óculos ao serem ampliados por ela. Era engraçado, mas ele não riu. Só ergueu um canto da boca e nem foi por achar graça, mas por ele recordar um personagem querido por Minho na infância.

Era incrível essa sensação de familiaridade que tinha ao ver Jisung, como se ele sempre o lembrasse de algo, embora na maioria das vezes Minho não saiba dizer o quê. Essa deve ser uma das maneiras de amar.

“Você iria arrumar um olho roxo e levar uma surra do seu pai.”

“E agora você arrumou um machucado e vai apanhar da sua mãe. Grande ideia”.

Parando para pensar, realmente, Minho iria apanhar da mãe. Na verdade, era melhor assim, antes ele do que Jisung. Ficou quieto, afinal, sua mãe batia para dar uma lição. O pai de Jisung batia para machucar. Ele estava salvando a pele de Jisung duas vezes no mesmo dia.

“Minha mãe bate fraco. Eu não ligo.”

Uma das piores sensações era ver Jisung cabisbaixo nos dias seguintes à surra do pai, murmurando de dor pelos cantos sem deixar que ninguém visse. Sorria largo quando alguém o cumprimentava, mas Minho percebia o quanto ele estava fraco e machucado.

Minho sempre ouvia, pois o senhor Han gritava alto e Jian se sentava na calçada com seu caderno de desenho, fingindo não ouvir.

Para sua surpresa, Jisung estendeu um lenço de papel para ele. Minho, aceitando que não poderia simplesmente dormir, se sentou e usou o lenço para limpar a bochecha.

“Eu sei que você não gosta de mim, mas… Obrigado,” murmurou Jisung.

“Quem disse isso?” Minho entreabriu os lábios. “Você que não fala comigo!”

“Eu? É você que não fala comigo!” 

Exacerbado, Jisung abriu os braços de indignação e sem querer esbarrou na mão que Minho se limpava, machucando o machucado de novo e fazendo voltar a sangrar mais. Jisung arregalou os olhos ao ver o que fez.

“Desculpa, desculpa,” ele tentava tocar em Minho, mas sem realmente tocá-lo, com medo do que ele poderia fazer.

“Seria bem melhor se você não fosse uma minhoca!”

Ao ouvir isso, Jisung parou de se mexer. Parou de tentar ajudar. Devagar, se sentou ao lado dele e murchou. De cabeça baixa, mirou Minho com uma certa cautela, como se sua existência fosse um problema enorme, quase pedindo desculpa por existir.

“Desculpa. Eu só causo problema para todo mundo. Queria saber como me comportar, mas, mesmo que eu não faça nada, as coisas ruins ainda acontecem.”

Com fome por ter perdido o almoço, Minho se pôs de pé. Deu uma olhada em seu uniforme, vendo umas sujeirinhas aqui e ali, deu umas batidinhas no joelho, nada que pudesse atrapalhar o resto do dia. Amassou o lenço e guardou no bolso, estendendo uma mão para ajudar Jisung a se levantar.

“Escuta, garoto-problema-que-não-realmente-causa-problemas, só tenta irritar eles menos de duas vezes por semana. Mais do que isso eu não aguento.”

Os lábios de Jisung se entreabriram para responder, hey, mas eu não faço nada, esses caras que grudam em mim, mas desistiu de falar. Nada mudaria, de qualquer maneira. Deveria agradecer a boa vontade de Minho, Chan e Changbin em defendê-lo, pensou. Teve uma ideia brilhante para demonstrar sua gratidão.

“Olha, Minho, se você quiser namorar minha irmã, eu não vou me opor.”

Com um sorriso diabólico, Minho estendeu o punho no ar e fez menção de socar ele. Só com a sombra do ato Jisung levou um susto e se encolheu inteiro. Era para ter sido cômico, mas ao invés disso, Minho teve um pressentimento ruim. Abaixou a mão na mesma hora.

“Namorar a Jian? Que nojo!” A língua de Minho caiu entre os lábios.

“É que você vive lá em casa então eu pensei…”

“Jamais.”

A barriga de Minho fez um barulho que ecoou entre eles.

“Quer pudim de uva?” Minho pergunta, enfiando as mãos nos bolsos e se dirigindo à máquina de lanchinhos.

“Claro! É meu sabor favorito.” Jisung o segue saltitante.

Minho paga por dois pudins e duas caixas de leite e entrega para ele. Eles se sentam na escada para aproveitar os cinco minutos antes de voltarem para a aula.

“Gosta de uva?” Minho pergunta, brincando com a colher do pudim em seus lábios. Jisung assente, distraído com seu próprio pudim. “Quer ver as melhores uvas do mundo depois da aula?”

“Hum… Quero!”

 

[...]

 

“Oi, senhora Sieun!” Jisung cumprimentou a mulher com um sorriso.

Adiante, Minho seguia em direção ao depósito. Jisung pousou as mãos nos ombros dele. Normalmente, esse gesto incomodaria a alma de Minho, mas, sem saber a razão, não conseguia se aborrecer com Jisung. O garoto já tinha problemas demais.

“Ei, quase todo mundo da nossa rua tá aqui, por que você não fala com eles?”

“Nah, eu vejo eles todo dia”, Minho respondeu entediado. Entregou uma das tesouras a Jisung. “Vou te ensinar a cortar só uma vez, entendeu?”

Pararam em um dos corredores da plantação, sob uma enorme videira cheia de uvas ainda não colhidas, apesar de maduras. Os trabalhadores também eram gente da vila Sangju, acostumados com Minho, o filho da dona da empresa agrícola da região, a Chácara Doce. Eles passavam e cumprimentavam Minho, observando a dupla de amigos com certa curiosidade. Nunca haviam visto Minho com um amigo.

O dia estava perto do fim, o sol brilhava cegante caindo no fim do horizonte como se não quisesse alcançar seu grand finale. Minho vestiu Jisung devidamente com umas roupas velhas que encontraram no galpão e ele parecia bastante habituado no traje e ao local, exceto pelos enormes óculos contrastando com a roupa. 

Ele frequentemente os empurrava para trás pelo nariz, mas, por estar com as luvas de proteção, acabava sujando a lente. Reclamava baixinho com um tsc, um estalar de lábios só para, menos de dois minutos depois, fazer o mesmo. Minho ria dele todas as vezes.

Explicou a Jisung a maneira certa de colher as uvas. Várias pessoas se espalhavam pelo vinhedo, nenhuma realmente próxima dos dois. E os dois próximos um do outro. Vez ou outra, Minho erguia o olhar e via sua mãe os observando por entre as vinhas, seu olhar severo habitual e usado para tudo. 

Por fim, Minho viu uma brecha e entregou dois potes a Jisung. A instrução era a seguinte: ele devia encher os dois potes, mas esconder um. Fácil, era pequeno e franzino, passaria despercebido.

No entanto, Jisung ficou afobado antes mesmo de Minho terminar de explicar. Começou a suar, colheu as uvas suando pelas têmporas. No final, deveriam entregar os potes cheios na saída do vinhedo — escondendo um, é claro. Aqui era onde morava o ponto-chave e o de maior temor em Jisung.

Dito e feito, ele afobou no momento. Entregou um pote e deixou o outro à vista. O olhar de Minho foi imediatamente para a mãe. Sentada em um banquinho para ter mais conforto, ela cravou a tesoura de jardinagem na terra e ia se levantando para brigar com Minho se, por acaso, ele não tivesse disparado pelo vinhedo.

Era uma corrida caótica pela vida. Minho segurou com força o pulso de Jisung que, felizmente, entendeu o código de que deveria correr pela sobrevivência. Atravessavam o vinhedo, de corredor a corredor, até, por fim, caírem nas plantações. A terra se quebrava debaixo das botas, e o sol continuava cegante, apesar do céu em tons de crepúsculo. 

Minho esbarrou no cesto de um agricultor e continuou. Sem parar de correr, Jisung berrou um “me desculpe, tio!” para tentar amenizar o impacto. Virou o rosto para trás uma vez, como se arrastar Jisung pelos arados não fosse suficiente, e ele mal podia ver Jisung por causa do sol, via apenas um sorriso largo de moleque.

E eles correram, o pote de uvas balançando debaixo do braço de Jisung, corações também brincando de correr no peito, Minho segurando seu pulso com tanta força que suas peles poderiam grudar para sempre.

Dessa mesma maneira, na semana seguinte, corriam atrás do ônibus da escola. A mãe de Jisung costumava levar ele e Jian de carro, no entanto, Jisung abdicou. Jian não quis abrir mão do conforto e passou a desfrutar os momentos sozinha com a mãe. Agora, Jisung ia com Minho. Às vezes Chan e Minho, mas Chan sempre pegava o ônibus no horário certinho, diferente da dupla.

Jisung não sabia por que Minho se atrasava. E Minho não entendia quando Jisung se atrasava. O problema é que eles nunca chegavam ao mesmo tempo, o que, de certa forma, soava proposital para que, de algum jeito, sempre precisassem correr atrás do ônibus.

Se jogavam na escada de qualquer jeito, pedindo desculpas ao motorista. Sentavam nas duas cadeiras atrás do motorista, Jisung sempre na janela porque Minho dizia que ele sonhava mais alto. O ônibus não estava nem a dez minutos da escola e eles já suavam igual dois desgraçados, compartilhando adrenalina, quicando no banco enquanto discutiam o último episódio do shonnen que passava todo sábado na televisão. 

Minho sempre via o cadarço desamarrado de Jisung e se abaixava para amarrar, assustando levemente um Jisung distraído pela paisagem de campos vastos. 

Depois, próximo ao final da rota do ônibus, eles apenas ficavam em silêncio para recuperar as energias. Isto é, se Minho não ficasse brincando de bater sua coxa na de Jisung, ou Jisung resolvesse contar algum super enredo de um livro que conheceu, mesmo que Minho se perdesse no meio da história pelo simples fato de encarar o rosto de Jisung — era como se, sim, de fato, perdesse algo no rosto de Jisung e tivesse uma urgência horrível para encontrar, urgência essa que silenciava o mundo: adeus motor ranzinza do ônibus, adeus gritaria do fundão, adeus as palavras do próprio Jisung.

Olá, vasto mundo novo e desconhecido que surra bem no fundo do peito, e era como se Minho ficasse sem ar e, de novo, sem ar, mergulhando. Havia Jisung, seu cabelo bagunçado e suado, o óculos remendado do lado depois de quebrar em uma das correrias deles, um par de bochechas muito fofos — sem ar e sem ar, garganta seca, ele é tão fofo, deve estar contando uma história importante, mas eu… não sei? Simplesmente não consigo prestar atenção… Preciso olhá-lo pelo tempo que puder. Tenho medo que esse tempo acabe.

“Minho, tá me ouvindo?” Sentiu uma mão em seu ombro e percebeu que Jisung olhava para cima de sua cabeça. 

Era Chan e, pelo seu semblante preocupado, conseguia adivinhar o que viria. As brigas viraram rotina. Era um tipo de clube da luta dos meninos, então eles faziam isso durante o recreio e não se atrasavam para a aula. Havia um acordo mútuo de começar a briga depois de todo mundo almoçar e cessar com o toque do sinal.

Por competição entre garotos de treze anos ou puro esporte(ou pela plateia feminina que se formava), o que importa era que estava ficando sério. No último passeio, encheram a marmita de Changbin com comida podre e eles imediatamente sabiam que foi o grupinho da sala C. Por ter acontecido na sexta, nada foi feito. No entanto, era segunda.

“Depois da aula, não esqueçam” Chan reforçou. Ele parecia ter extrapolado o limite da paciência, pois desceu do ônibus sem olhar para trás.

Geralmente, brigavam nos espaços entre o almoço e o lanche. O lance com Changbin demandou algo mais sério, depois da aula significaria que não teriam hora para parar de brigar. Seria até o último homem. Por isso, antes de se separarem no corredor, Minho bateu no peito com uma força que Jisung fez até uma careta.

“Vou te ensinar umas novas técnicas no almoço!”

Jisung concordou sem muita empolgação, seu sorriso só estava largo porque Minho parecia realmente empenhado em ensinar algo para um pamonha como ele.

O grupinho da sala C cansou dessas lutas que terminam sem ganhadores. Queriam vencer. A hora chegou e lá estavam Changbin, Minho, Chan e Jisung no coliseu escondido no pátio posterior. Olhavam ansiosos para a escadaria, esperando o momento de descida dos rivais.

“Gente”, Jisung mexeu em seu relógio. “Se a gente demorar muito, pode perder o ônibus.”

Algo pareceu estalar na mente dos outros três.

“Eita.” Changbin soltou.

“Pois é,” acrescentou Jisung.

“Quer dizer, não tem como isso aqui passar das cinco, né?” Chan tentou ser racional. Todos eles respeitavam as regras de esperar o término do almoço e o sinal, então era fácil deduzir que respeitariam o horário do último ônibus, não é?

Vacilantes, nenhum deles pareceu confiante com a pergunta retórica de Chan. Principalmente quando Jisung comentou:

“Mas e se passar?”

Nessa hora, a porta da escadaria se escancarou com um chute e lá estava o grupinho C.

“Vai passar, com certeza.” Minho se manifestou. “Tive uma ideia. Jisung, vem comigo. Segurem eles aí!”

Ele mal dava tempo para o Han pensar, como sempre, apenas segurou com força o pulso dele. De tanto que corriam juntos, brincavam juntos e se machucavam juntos, Jisung já era capaz de se emparelhar a Minho bem rápido. Ao fundo, ouviram um dos C gritar “dois já estão fugindo?!”.

“O que estamos indo fazer?” Jisung perguntou enquanto corriam, como se não fosse correr atrás de Minho para qualquer lugar do mundo, mesmo que eles fossem Orfeus no submundo.

Quando pararam no portão da escola, Minho apertou os olhos e encontrou o que queria. Havia um senhorzinho que sempre passava naquele horário para fuxicar as lixeiras. Correu até ele, tirou algo do paletó do uniforme e entregou ao moço, que sorriu com as bochechas barbudas. Voltou para Jisung.

“O que você fez?” perguntou Jisung enquanto voltavam às pressas para o pátio posterior. 

“Paguei o almoço dele.”

Sem entender, Jisung apenas continuou correndo com ele.

Chan e Changbin estavam em maus lençóis. Muito, muito maus.

“Agora podemos brigar à vontade!” Minho disse gritando ao longe, estragando todo seu plano de chegar de surpresa com uma voadora, o maior do grupo C logo veio com tudo para dar um soco em seu rosto. 

Desviou por pouco, a confiança inteira restaurada nesse desvio, apenas para levar um soco menos de três segundos depois.

Quinze ou vinte minutos depois — para eles foi como seis dias em Esparta — haviam seis espectros caídos no chão, respirando tão pesado que a gravidade resolveu entrar na briga para punir seus pulmões, e dois fantasmas — Changbin e o maior do grupo C(era pessoal) —  ainda tentando se socar, lentos como dois gigantes colossais. As pernas de Minho simplesmente pediram arrego e ele estava estirado no chão.

O resultado era cansaço coletivo e, como não tinham uma maneira de contar pontos — alguém do grupo C deu essa sugestão e Chan concordou — de novo, não haviam vencedores.

“Que horas são?” Minho perguntou.

Nesse momento, todos olharam para Jisung, prendendo até as respirações aceleradas para ouvir.

“Cinco e um.”

Pernas para que te quero e não havia cansaço ou rivalidade que os segurasse naquele momento de tombarem como monstros, tropeçando pelo caminho para pegar o ônibus. 

Ao chegarem no ponto, viram o ônibus ainda parado. O senhor ajudado por Minho tinha uma perna na escada e a outra no chão, conversando com o motorista.

Entre risadas e respiração de desespero, entraram no ônibus, barulhentos, os tênis ecoando na lataria, as reclamações do motorista. Jisung danou a rir.

Changbin, Chan, Minho e Jisung se espremeram nos bancos e acompanharam Jisung na risada. Isso, é claro, até um membro do grupinho C passar pelo corredor e dizer:

“Amanhã é definitivo.”

A graça acabou rapidinho. O ônibus disparou e o sangue deles começou a esfriar. Definitivo no dia seguinte. O problema é que naquele dia eles estavam realmente arrebentados. Até Changbin parou de fazer gracinha e se sentou emburrado no banco.

“Se eu frequentasse a academia, cara, você ia ver, eu seria igual o Jotaro na parte três, dezessete anos de vida, mas bastante história nos músculos,” murmurou Changbin.

Havia um troço na mão de Jisung que você nunca poderia dizer que era um óculos, mas era. E, como se não fosse possível, um lado de sua bochecha estava inchado como nunca, quase saindo para fora do rosto. Minho levou um susto, mas decidiu não dizer nada, não tinha jeito. Ele mesmo só tinha um corte na mão dessa vez.

Jisung olhou para Minho e, vendo tudo embaçado pela primeira vez em bastante tempo, riu. A única coisa pior do que usar óculos era não usar.

“O que você fez, sabe…” Jisung falou baixinho, inclinando a cabeça em direção a Minho. “Achei muito bonito você ajudar aquele moço. Eu acho que, mesmo que você não desse nada a ele, ele teria segurado o ônibus do mesmo jeito. Porque você tem um jeito naturalmente gentil, Minho.”

Bonito.

Naturalmente gentil, Minho.

Não era exatamente o que Minho pensava enquanto encarava o próprio reflexo no espelho do banheiro. O dedo cortado na briga já tinha um curativo em cima. Lá fora choveu naquela noite, o que não abafou completamente a surra que Jisung levou do pai, dessa vez em dobro por causa do óculos quebrado.

Minho olhou pela janela, para a casa tradicional de Jisung, montada acima de uma pequena colina, por isso dava para vê-la devido ao muro baixo. Em uma das janelas, a luz acesa, duas sombras brigavam em uma forma que não dava para distinguir quem era quem ou o que faziam, mas Minho sentiu medo.

Fechou a cortina, não quis olhar. Era um covarde. Como pode atrair Jisung para esse mundo? Como, se desde o primeiro momento o maior objetivo era defendê-lo, e agora parecia apenas ter piorado tudo? O que aconteceu dentro da janela naquela noite era sua culpa. Jisung ter faltado no dia seguinte era sua culpa.

Felizmente, ele apareceu logo, entrou na sala com um sorriso radiante. Minho estava sozinho, sentado na mesa do professor, encarando a pilha de provas que ficou encarregado de organizar por ordem alfabética.

“Tá fazendo o quê aqui? O horário de aula da sua tur-”

Na ponta dos pés, Jisung jogou os braços sobre os ombros de Minho e o abraçou, abafando completamente sua voz, seu tom repreensivo, tudo isso foi pelos ares.

Eles poderiam ter cambaleado para trás, Minho até sentiu seu equilíbrio falhar por meio segundo antes de firmar o calcanhar e segurá-los no lugar, e manter todo o apoio necessário para esse jeito expressivo de Jisung como se Minho estivesse se preparando a vida inteira para aquele abraço.

“Obrigado, Minho.”

Ele estava tão em choque que precisou parar e assimilar. Havia o cheiro dele, algo como recém-saído do banho e sabonete de frutas vermelhas, preencheu o nariz de Minho. Aos poucos, suas mãos saíram de seu bolso, um pouco perdidas, se direcionando para abraçar Jisung de volta. No entanto, antes que pudesse fazer isso e agarrá-lo de volta, Jisung se afastou. Suas mãos ficaram perdidas no ar, como se tentassem segurar a corda de um balão que voou para longe.

“Pelo quê?”

Jisung parecia muito feliz. A bochecha esquerda, ainda um pouquinho inchada, estava tão vermelha quanto a direita.

“Contei a verdade para o meu pai sobre as brigas e, ele estava bravo, mas eu disse a ele que apanhei, mas também bati! E que você me ajudou!”

“Meu Deus, agora ele vai me odiar!”

“Impossível! Ei, você me ensinou a me defender sozinho. Meu pai gostou muito. E agora vem a melhor parte, agora você pode ir ao meu quarto! E posso te mostrar minha coleção de mangá!” sorriu e, em seguida, seu tom de voz e rosto adotaram um aspecto engraçado. “Também vai poder passar mais tempo com a Jian…”

Minho riu e empurrou o ombro dele.

“Deixa de ser bobo!”

“Preciso te mostrar as técnicas que aprendi.”

“O quê?” Incrédulo, Minho desviou o olhar. “Não, deixa isso para lá. Eu sei que agora seu pai te deixa brigar, mas, chega. Acabou, se ninguém colocar um ponto final, isso só vai piorar.”

“Aqui é que está, Minho. Ficou faltando esse tal definitivo. Não sentiu falta de Chan hoje?”

“Chan?” Minho pensou alto. Realmente, não havia o visto no ônibus, nem nos corredores.

“É, Minho. Eles pegaram ele. O uniforme dele estava cheio de lama no varal, você não ficou sabendo? E por isso não pôde vir. Essa nem é a pior parte. Eles sabem nossos endereços. Como?”

“Vai ver só sabem o do Chan.”

“Que fica na mesma rua que a nossa. Eu não quero esperar para ver.”

“Isso precisa acabar.”

No dia seguinte, Minho está preparado para encerrar aquilo. Ele dá cabo sozinho, esse é seu maior ato de bravura. Vai descer o sarrafo no grupinho C inteiro. Se isso não acontecer, faria uma tentativa de trégua boca a boca mesmo, sem briga. Mas algo precisava acontecer.

O problema é que Minho queria ir sozinho e se esquivou de seus amigos o dia inteiro nos corredores. Chan e Changbin estavam acostumados, Minho era um pseudo solitário que havia dias em que preferia ficar sozinho. Mas Jisung não, Jisung tinha uma pulga atrás da orelha e surfou nessa pulga atrás de Minho após o último horário, quando o viu entrar em um beco lateral na escola.

De pernas cruzadas, Minho está sentado no chão, fazendo desenhos invisíveis no asfalto. Ele acompanha o falatório da escola diminuir à medida que os alunos vão embora. Certa hora, fica silencioso o suficiente para que escute passos se aproximando e estufa o peito. Porém, são poucos passos e devagares demais, então ele ergue o rosto e encontra Jisung.

“O que tá fazendo?” Jisung pergunta, um vinco entre as sobrancelhas. “Pretende enfrentar eles sozinhos?”

“Não é nada demais.”

Jisung abre a boca para contestar, argumentar que ele não conseguirá, que não deveria tentar sozinho pois amigos servem para isso, mas, verdadeiros passos pesados se aproximam.

Um dos  garotos do grupinho C segura uma barra de ferro. Os olhos de Jisung se arregalaram e ele congelou no lugar, olhando para Minho de rabo de olho. O grupinho para frente a eles, formando um semicírculo ao redor de Minho que, parado com as mãos nos bolsos do uniforme, em momento algum aparenta sentir medo.

“Olha, eu só quero acabar isso, falou? Olha tudo o que vocês já fizeram. Será que conseguem me listar?”

O grupinho C se entreolha em risadas e o que parece ser o líder deles começa a falar.

“Comida estragada na marmita do gordo!” eles dão risada, e o garoto da barra de ferro aponta para um dos amigos. “Meu querido Intak aqui sujou todas as roupas do varal daquele cabeção narigudo, e a nossa última e melhor de todas: colocamos sapo morto na mochila do Jisung!”

Enquanto eles riam de se acabar contando seus feitos, Minho direcionou um olhar baixo a Jisung com demasiada culpa. Ele não sabia disso, por que ele não os contou? Mas provavelmente não contou para evitar mais brigas por sua causa.

“Vocês fizeram mesmo tudo isso?” Minho perguntou alto. “Apenas digam que sim.”

“Claro que fizemos. Quer mais? Vou ter mais criatividade na próxima.” O garoto da barra de ferro a estendeu e pousou sobre o peito de Minho. “Aliás, essa tua amiguinha, vocês namoram?”

“Deixa a Jian fora disso!”

Jisung irrompeu a formação e se colocou na frente de Minho.

“Ela é minha irmã!”

O grupo explodiu em risadas. 

“Como que alguém tão merda como você nasceu grudado com uma gostosa!”

“Ela só tem treze anos!” Jisung gritou de volta, as orelhas vermelhas de raiva.

“Ei, ei,” Minho empurrou Jisung levemente e a barra de ferro voltou a tocar seu peito. “Não tem nada, assim, que você queira de nós quatro para nunca mais nos perturbar?”

O líder deu uma risada de escárnio.

“Você acha mesmo que queremos alguma coisa de vocês, panacas? A graça é ver a vergonha que vocês idiotas passam aqui na escola. Ninguém vai lembrar de nada daqui a dez anos? Isso é uma mentira.” O garoto pegou uma sacola das mãos de um dos amigos e estendeu com um sorriso. “Eu vou lembrar de Lee Minho com cocô de cavalo na cabeça, indo para a casa andando por que o ônibus acabou.”

Desesperado, Jisung olhou para Minho, pois esse era um dos momentos em que ele perdia a cabeça e partia para cima. A possibilidade deixada no ar do que poderia acontecer assustou Jisung, porém, antes que qualquer um se movesse, ouviram um par de saltos vindo da outra extremidade do beco. 

“Diretora Ahn?” exclamou um dos garotos do grupinho C.

A moça chegou devagar, observando com calma o rosto dos infratores antes de pousar a mão no ombro de Minho.

“Obrigada, Lee Minho,” a moça ajeitou os óculos, balançando um pequeno gravador. “Uma confissão deles era tudo o que eu precisava. Você, você e você, vão para a casa, estão suspensos e só podem comparecer à escola novamente com  a presença dos pais. E, se por acaso, pensarem em fazer mais uma gracinha por aí, nem sou eu quem vai punir vocês, é a polícia. Quero que se distanciem do Minho e dos amigos dele como se ele fosse uma bomba. Agora já pra a casa antes que escureça!”

Isso, talvez, fosse uma vitória para o grupinho B. Jisung estava tão empolgado que Minho via o momento dele dar pulinhos, mas manteve o semblante sério.

O líder do grupinho C encarou Minho por bastante tempo antes de se virar para ir embora. Aquele olhar era uma promessa de que ele “voltaria”, mas, pelo menos Minho tinha a diretora ao seu lado e era, de certa forma, reconfortante.

Quando eles sumiram no fim do beco, finalmente, Minho relaxou a postura. A diretora ainda trocou algumas palavras com eles, elogiando as atitudes. Quando a diretora se foi, eles se entreolharam com o mesmo pensamento.

“O ônibus!” Jisung estapeou a própria testa. O senhor que Minho ajuda estava virando no fim da rua. “Ele não podia te ajudar de novo? Você não está pagando o almoço dele?”

“Desde aquele dia.”

“Então ele podia segurar o ônibus de novo!” 

Com uma pequena risada e um sorrisinho leve nos lábios, Minho pegou Jisung levemente pelos cotovelos.

“Vamos, não é uma caminhada tão longa assim.”

Os primeiros minutos foram em silêncio, pensando na besteira que haviam feito e em maneiras de resolver, Jisung cogitou pedir carona, mas eles tinham medo demais para isso. A verdade é que Minho estava tranquilo por ter, supostamente, acabado com aquilo fazendo a coisa certa. Eles enterraram o sapo na beira da estrada e a mochila de Jisung fedia tanto que ele simplesmente descartou tudo.

E ia escurecendo, a estrada perdendo forma, os carros diminuiam. Deviam ser umas sete horas, as estrelas se acentuavam e Jisung ia distraído pela paisagem dos campos enormes, vez ou outra adornando conjuntos de casas ou lojas de beira de estrada.

Em uma dessas fileiras de casas, Minho parou de caminhar, olhando para cima. Jisung olhou também, procurando o que poderia ter feito Minho parar abruptamente.

“Já devemos estar na metade do caminho. Ei, Minho-hyung, no que você está pensando?”

Minho suspirou.

“Eu tô pensando, Jiji, que aquela manga ali deve estar deliciosa.”

Agora com um alvo em mente, Jisung olhou e viu: uma manga enorme em um pé do outro lado do muro. 

“E como se faz isso?”

“Vou subir no seu ombro.”

“Você vai subir no meu ombro” Jisung repetiu, mas mais para assimilar do que para contestar. 

Antes que pudesse tomar qualquer atitude, Minho jogou a mochila no chão e já estava escalando desajeitadamente o corpo de Jisung. Foi horrível, mas rápido. Minho se sentou sobre o muro e esticou o braço, quase não conseguindo alcançar. Precisou inclinar um pouco mais o corpo, quase caindo no quintal do desconhecido.

Jisung pensou que fosse morrer a qualquer momento, olhando para todos os lados, pensando em onde se esconderia caso alguém chegasse. Simplesmente largaria Minho para trás, ele sabe se virar, pelo menos mais do que Jisung. E se alguém resolvesse sair no quintal e visse um garoto aleatório sentado em cima de seu muro roubando sua manga do seu pé de manga? Péssimo, eles poderiam acabar muito encrencados, ainda mais do que demorar parar chegar em casa depois da escola.

Nenhum dos medos de Jisung se concretizou devido à rapidez de Minho. Na verdade, durou menos de um minuto e os tênis dele já batiam na terra após o pulo. Ele estendeu uma manga para Jisung.

“Tinha outra atrás daquela”.

Eles se viraram ali, em um estábulo de cavalos aberto, e se sentaram no feno em uma das três cabines de modo que, quem passasse, não conseguiria vê-los.

“Como…?” Jisung apontou para a manga.

“Com a mão mesmo. Olha.”

Minho furou a manga com o dedo, abriu e começou a comer. Jisung o espalhou e gemeu de satisfação. Estava mesmo deliciosa e eles sorriam um para o outro. Conseguiam se enxergar sob a luz prateada da lua e um poste velho próximo. Foi uma ótima pausa.

Cheio, Minho se acomodou no feno, as mãos atrás da cabeça, observando as estrelas, curtindo seu saciamento. Foi pouco, mas estava tão gostoso que era como se tivesse comido um saco inteiro.

“Eu podeira comer um quilo disso tranquilamente,” Minho murmurou, os olhos piscando devagar.

“Não gostei muito, mas é bom.”

Jisung terminou e deitou ao lado dele, o uniforme sujo de respingos na parte do peito, também encarando o céu. 

“Nunca tinha comido manga?”

“E nem uvas direto do pé, na verdade.”

Em um gesto inconsciente, Minho se virou para olhar Jisung. Mal sabia ele que, após isso, jamais conseguiria tirar os olhos dele e voltar a olhar as estrelas.

“Minha mãe não gosta de frutas, então ninguém come lá em casa.”

“E tem eu, cuja mãe é dona de uma fábrica de frutas.”

Começaram a rir, uma risada lenta e sem pressa que também terminou sem pressa. Assim, deitado de lado para poder olhar Jisung, piscando cada vez mais devagar, Minho cochilou. Jisung se assustou em um primeiro momento, eles não estavam em uma situação para lá de calma, mas, nossa, até que ele achou o feno confortável.

Calculou para deixar Minho dormir uns trinta minutos, depois chamaria ele e iriam embora. O problema é que no primeiro quarto de hora, Jisung acabou pegando no sono também. 

Sonhou. Eles corriam nas plantações, escondidos onde tem uvas, correndo pelos canaviais e depois correndo pra pegar o ônibus da escola. Corriam, dessa vez, fugindo de uma versão gigante da mãe de Minho, mas ele não sentia medo. Sentia uma vontade estúpida de rir. Eles também não corriam tão rápido e, em determinado momento, estavam apenas caminhando em direção ao horizonte. 

Sem a preocupação de uma mãe enorme atrás, nem o seu pequeno exército de trabalhadores, Jisung olhou para baixo e viu que eles tinham as mãos entrelaçadas. Minho parece ter se dado conta ao mesmo tempo e, por isso, sorriram um para o outro, voltando a caminhar.

Então, Jisung despertou. Eles ainda estavam no feno e o escuro índigo do céu parecia ter intensificado. Deveriam ser umas nove, dez, que importa? Eles estavam muito ferrados. Minho ainda dormia profundamente. Ele parecia tão pleno… Jisung não conseguiria acordá-lo nem se quisesse muito.

Sentiu medo. Medo do silêncio da noite e do céu, por isso, depois de se revirar bastante e temendo incomodar mais o amigo, Jisung fez algo que pareceu simplesmente certo para sua mente e seu corpo. Deitou sobre o peito de Minho e, então, era como se suas auras tivessem alinhado. 

Era mais confortável do que deveria ser e Jisung pensou no sonho. De certa forma, parecia que estavam de mãos dadas. A sensação era a mesma. Minho murmurou algo e, em seguida, pousou a mão sobre sua cabeça. Foi bem fácil para Jisung pegar no sono novamente.

Notes:

esse capítulo é chatinho assim mesmo. me lembra daily lives of high school boys e, quando escrevi ele, tava lendo 19 days então acho que fiquei um pouco com essa parada de porradaria na escola na cabeça kkkk