Chapter Text
James abriu a porta da casa com dificuldade; as sacolas em suas mãos não ajudavam muito. Ele empurrou a porta e a fechou com o pé. Olhou ao redor, mas não havia sinal do fantasma rabugento.
James andou lentamente pelo pequeno corredor até chegar à sala de estar. Ele ergueu as sobrancelhas e inclinou a cabeça ao encontrar Regulus. O garoto estava deitado no chão, os braços abertos, encarando o teto com uma tristeza no olhar.
— Regulus? — James chamou sua atenção.
Regulus usou os braços para se sentar rapidamente e encarou James como se ele fosse o fantasma.
— James? Você voltou — Regulus ainda parecia surpreso, mas abriu um sorriso discreto.
— É claro. Por que tanta surpresa? —
James balançou a cabeça com um sorriso.
Regulus desviou o olhar de James, preferindo encarar o chão.
— Eu não vi você saindo… achei que tivesse ido embora sem dizer adeus.
— Ei… — James se aproximou, deixando as sacolas no sofá. Sentou-se no chão, escorando as costas no estofado, e olhou para Regulus sentado à sua frente. Ele ainda não o encarava. — Regulus!
O garoto ergueu o olhar lentamente, encontrando os olhos dele. James sorriu docemente.
— Eu não faria isso, Reggie. Não te deixaria assim sem dizer nada, tudo bem?
Regulus não parecia totalmente convencido, mas acenou com a cabeça mesmo assim.
O silêncio caiu sobre eles. James quase podia ouvir o som das ondas se quebrando na praia. Depois de uma eternidade, James finalmente quebrou o silêncio.
— É isso?
James pôde ver Regulus se sobressaltar com o som da sua voz.
— O que você quer dizer? — perguntou Regulus, com a testa franzida.
— É isso que vamos fazer por todo o tempo que eu estiver aqui?
Regulus o encarou mais profundamente.
— Como é? Você quer o quê? Não é como se eu tivesse outra opção. Não posso sair dessa casa, e—
— Você já tentou? — James o interrompeu.
— O quê?
— Sair dessa casa. Você já tentou fazer isso?
Regulus abriu e fechou a boca algumas vezes antes de desviar o olhar para o chão.
— Eu imaginei — disse James, levantando-se com um sorriso.
Regulus ergueu o olhar, confuso, enquanto James começava a se afastar lentamente, ainda olhando para ele.
— James? — sua voz saiu quase como um sussurro, e aquele terror de antes voltou aos seus olhos.
James sorriu para ele.
— Tudo bem, venha.
Regulus hesitou um pouco, mas se levantou e o seguiu.
James virou de costas, seguindo até a porta da frente.
— James, o que você está fazendo? — Regulus perguntou atrás dele, a voz fraca.
James não respondeu. Apenas abriu a porta, deixando a fraca luz do sol — que lutava para passar através das nuvens cinzentas — entrar. Ele parou no parapeito e olhou para Regulus, que se aproximava lentamente, os olhos levemente arregalados e a boca entreaberta.
Regulus parou na porta e olhou para o mundo lá fora como se fosse a primeira vez que o via. James apenas o observou em silêncio, analisando como os raios de sol tocavam sua pele pálida e seus cabelos negros, que quase chegavam aos ombros.
Regulus desviou o olhar lentamente para James e franziu as sobrancelhas ao perceber que ele o encarava.
— James? — o jeito como o garoto sussurrou seu nome roubou o ar de seus pulmões por um segundo.
James engoliu em seco e sorriu para ele. Colocou um pé para fora da casa e ficou de frente para Regulus, do outro lado da porta. Então, ofereceu-lhe a mão.
Regulus olhou para a mão de James entre eles e depois para seu rosto. A incerteza era visível em seus olhos, mas ele esticou a mão lentamente, pousando-a sobre a de James, que sentiu um arrepio subir pela nuca.
James fechou a mão na dele e deu um passo para trás. Regulus hesitou antes de dar um passo à frente. Fechou os olhos ao pisar para fora da casa à qual estivera preso por anos.
Ele esperou, ainda de olhos fechados, aguardando que algo acontecesse. Quando nada aconteceu, abriu-os lentamente. Olhou para James, que exibia um grande sorriso.
— Oh… — Regulus sorriu, uma pequena risada escapando de seus lábios. — Deu certo.
James riu também e continuou andando para trás, puxando o garoto com ele. Regulus ainda caminhava devagar, observando tudo ao seu redor, mas James não tinha pressa alguma.
James apenas continuou andando de costas, sem ter certeza de onde exatamente estava indo, mas sem soltar a mão de Regulus em nenhum momento.
— Ei, Reg? — Regulus olhou para ele. — Acha que consegue ir até a praia?
Regulus arregalou os olhos.
— Eu… não tenho certeza. Talvez?
James sorriu e puxou sua mão, começando a andar novamente. Virou-se para frente. Eles passaram pelo velho portão e atravessaram a rua vazia. James sorriu ainda mais quando pisaram na areia; fazia muito tempo que não ia à praia.
O mar estava calmo naquele dia. James andou mais rápido em direção a ele, até parar bruscamente. Olhou para trás e viu que Regulus havia parado, encarando fixamente o mar.
— Regulus?
O garoto parecia não tê-lo escutado.
— Regulus?!
Dessa vez, Regulus olhou para ele. O medo era óbvio em seus olhos. Ele não disse nada; apenas continuou olhando para James.
Demorou um pouco para o reconhecimento chegar, mas quando chegou, James sentiu o coração apertar.
— Reg, eu… eu sinto muito. Eu não devia ter te trazido aqui. Eu não estava pensando direito, eu—
— James!
James se calou, olhando para ele.
Regulus tentou sorrir, mas não foi muito convincente.
— Tudo bem. Não foi sua culpa. Eu só… achei que conseguiria.
Ele olhou para o chão.
James apertou sua mão, fazendo-o olhar para ele.
— Você quer voltar?
Regulus olhou para o mar, depois para a mão que ainda segurava a de James e, por fim, encarou seus olhos com um sorriso mais verdadeiro.
— Ainda não.
James sorriu para ele.
Eles se sentaram na areia, onde a água não alcançava, e apenas observaram o mar em silêncio. Regulus havia soltado a mão de James e agora abraçava as pernas junto ao peito. James o observava de soslaio de vez em quando, mas Regulus mantinha o olhar fixo no horizonte.
— Eu sempre gostei daqui — Regulus disse em algum momento.
James olhou para ele, um pouco desorientado após o longo silêncio.
— Da casa?
Regulus fez uma careta.
— Não. Da praia.
James assentiu.
— Eu e meu irmão sempre corríamos direto para cá quando voltávamos para essa casa. Nossos pais não gostavam muito da praia, então era quando finalmente tínhamos um momento de paz.
Ele voltou a olhar para o mar.
— Passávamos horas aqui, apenas sentados na areia em silêncio… como agora.
James percebeu um pequeno sorriso triste no canto dos seus lábios.
Regulus olhou para James ao notar seu silêncio.
— Eu costumava ir à praia com meus pais quando era mais novo. Não tenho mais tempo para isso agora, mas sinto falta desses momentos.
James sorriu melancolicamente com a lembrança.
Regulus sorriu suavemente.
— E como eles são? — perguntou em um sussurro.
— Meus pais? — Regulus assentiu. James suspirou, olhando para as ondas. — Eles são pessoas incríveis. Sempre foram gentis e fizeram de tudo por mim. Nunca me deixaram faltar nada. Eu os amo tanto…
James olhou para Regulus, que descansava a cabeça sobre os braços apoiados nos joelhos, encarando-o com um sorriso caloroso.
James ergueu uma sobrancelha, tímido, sentindo o coração bater mais rápido.
— O quê?
— Eu não esperava uma resposta diferente.
— Como assim? — James inclinou a cabeça, franzindo a testa.
— Para terem criado alguém como você, eu não esperava que fossem muito diferentes disso.
James encarou o garoto, sentindo o calor subir às bochechas. Desviou o olhar.
— Que droga, Regulus… — sussurrou, levantando-se.
— Tudo bem? — Regulus se endireitou.
— Sim! Eu só… acho que vou entrar na água.
Ele falou apressadamente, sem encará-lo. Tirou os tênis e puxou a camisa, jogando-a na areia.
— Eu já volto.
Arriscou um olhar para Regulus, que arregalou os olhos, desviou o olhar e assentiu.
James estremeceu ao sentir a água gelada atingir seus tornozelos, mas não parou até que ela chegasse ao peito. Então, mergulhou, tentando afastar pensamentos que não deveriam estar ali. Ficou submerso até não aguentar mais.
Ao emergir, segurou os óculos que quase foram levados pela água. Procurou Regulus na praia e o encontrou em pé, na beira da água, com os braços cruzados. Mesmo com a visão embaçada pelas gotas, James viu os ombros de Regulus relaxarem ao avistá-lo.
— Não faça isso de novo, seu idiota! —
Regulus gritou por cima do barulho do mar.
Em seguida, virou-se e voltou para o lugar de antes, ainda de braços cruzados.
James nadou de volta e sentou-se ao lado dele, que mantinha o olhar distante.
— Ei, Reg… tudo bem?
Regulus o encarou com uma expressão difícil de decifrar.
— Não faça isso de novo — pediu em um sussurro.
James engoliu o nó que se formou em sua garganta e assentiu lentamente.
— Eu não vou, Reg. Eu prometo.
Regulus não respondeu.
James pousou a mão aberta na areia. Regulus a observou por um momento antes de colocar a sua por cima. James entrelaçou os dedos aos dele. O encaixe era perfeito.
— Vamos.
James se levantou, puxando Regulus junto. Com a mão livre, pegou suas coisas da areia.
— Você tem certeza? Podemos ficar mais, se você quiser — Regulus disse timidamente.
James olhou para trás e sorriu.
— Claro! Pra ser sincero, estou morrendo de fome.
Regulus sorriu suavemente, olhando para baixo.
James guardaria aquela visão na memória para sempre, para usá-la sempre que se sentisse para baixo.
