Chapter Text
Os anos passaram com uma música constante, crescendo em camadas com intensidade. A casa continuou a mesma, pequena e aconchegante, no mesmo bairro simples e silencioso na medida do possível. Mas por dentro, raízes se aprofundaram e fortaleceram.
O Pomba cresceu. Não repentinamente, mas em pequenos saltos que Kemi e Elou acompanharam com orgulho silencioso. Aos 16, ele se tornou mais que a mãe, voz mais encorpada, mas ainda era o mesmo Pomba tímido com gente nova, que gosta de rpg e jogos. Aos 17 começou sair mais com os amigos, para rolês além de campanhas de rpgs, se apaixonou pela primeira vez como também se decepcionou pela primeira vez. Aos 18, uma mudança radical e silenciosa veio com a formatura.
O ginásio da escola estava lotado, luzes fortes, música alta demais. Junior subiu ao palco de beca preta, cabelo cacheado finalizado com cuidado pela Kemi, sorriu timidamente quando seu nome foi chamado mas verdadeiro.
E do canto direito veio gritos animados.
— VAI, POMBA! — berrou Cindy, de pé, balançando um cartaz improvisado com “Meu mini-mestre formou!!!”.
Ao lado dela, toda a banda do psikolera ocupava uma fileira inteira, Caio a acompanhava com outro cartaz, mas com uma foto do Pomba mais novo.
—É ISSO AI MOLEQUE.
Franco batia palmas fortes com vergonha pelo amigo, Ale batia as palmas mais sutilmente, mas com um sorriso suave constante. E não se enganem que a banda eram os únicos barulhentos, Kemi e Eloy também se destacavam.
Junior subiu ao palco, pegou o diploma, olhou pra plateia. Viu a mãe chorando sem disfarçar, Eloy com um sorriso que iluminava o rosto inteiro, a banda inteira de pé aplaudindo como se ele tivesse ganhado Grammy. Ele acenou pequeno, tímido, mas verdadeiramente feliz. Quando desceu, foi direto para os braços da mãe.
Kemi abraçou ele forte, beijando o topo da cabeça.
—Meu garoto incrível.
Depois da cerimônia, se encontraram no pátio da escola, muitas fotos foram tiradas, com amigos, sozinho, com os pais, só com a banda, em grupo e até algumas selfies do trio Pomba, Ale e Franco. A favorita do mais novo era a que todos estavam. Com ele bem no meio, Kemi e Eloy dos lados, a banda atrás fazendo pose exagerada.
Cindy abraçou ele forte:
— Meo, você tá tão lindo! Agora é faculdade, namorada, turnê com o padrasto…
Junior corou.
— Calma, vamos com calma Cindy.
Rafa chegou de surpresa no dia seguinte. Voo de última hora de Portugal. Trouxe um livro antigo de fantasia assinado por um autor que Junior amava, e abraçou o filho com força.
— Meu pomba virou homem — disse, voz embargada. — Mas continua sendo meu pomba.
Junior riu.
—Por que todo mundo está tão emocional? Eu só terminei o ensino médio
—Você vai entender que é agora que sua vida toma rumo, abre mais as asas e se afasta do ninho, mas não esquece de nós
—Obvio que não.
O pomba só foi entender plenamente o significado por trás das palavras do pai com os próximos anos. Com a admissão na faculdade, consequentemente mudança para uma casa que ficasse mais perto e a conciliação dos estudos com um emprego freelancer como ilustrador. Mesmo assim, não deixou de ser presente no que importa.
Sua família, que religiosamente se reúne aos fins de semana. Uma família que para ele já se resumiu somente à duas pessoas, seus pais, agora era tão grande quanto jamais pensara antes.
Sentou-se na beirada da antiga cama, de frente para o espelho. O cabelo estava mais comprido agora, e ele usava um terno preto simples impecável que sua mãe fez questão de passar duas vezes na véspera de hoje. A gravata vermelha contrastando.
O espelho refletia o jovem adulto que mal reconhecia o antigo dono do quarto. Encarou, encarou e respirou fundo. O sentimento não cabendo no peito.
Seus últimos anos de adolescência, teve a experiência de uma presença masculina constante por perto. Diferente da presença periódica do pai, mas um sentimento semelhante entre os dois. Foi como aprender a tocar um instrumento novo: devagar, com erros, repetições, até o ritmo se tornar natural.
Antes, a casa era só ele e a mãe. um duo sólido, como uma campanha de RPG com dois jogadores que se conheciam tão bem que antecipavam os movimentos um do outro. E Rafa, era o convidado especial: ligações diárias cheias de histórias de viagens, conselhos que vinham de longe, como cartas de um aliado distante no jogo. Ele amava a voz do pai contando de templos em Kyoto ou mercados em Istambul, as perguntas que faziam ele se sentir visto, mesmo a quilômetros de distância.
Mas havia isso, distância. Um pai que aparecia a cada mês ou dois, trazendo presentes e abraços apertados, mas indo embora logo depois, deixando um vazio que não era ruim, só… vazio.
Com Eloy, o vazio começou a se preencher de um jeito que Junior nem esperava. Não foi de repente, foi gradativo. Foi nos pequenos rituais do dia a dia. Como quando Eloy chegava do ensaio à noite e, em vez de ficar direto na sala, parava na porta do quarto dele e perguntava como foi o dia dele.
Crescer com um homem em casa significava aprender coisas que o pai distante não podia ensinar. Não porque Rafa não quisesse, ele ligava todo dia, escutava tudo, dava conselhos profundos sobre sentimentos e medos. Mas porque o dia a dia pedia presença. Foi com Eloy que o pomba aprendeu a consertar pequenas coisas dentro de casa, a dirigir, a fazer churrasco. E foi com Eloy que ele terminou de moldar seu senso de caráter e moralidade.
Lembrou da primeira vez que chamou Eloy de pai. Totalmente sem pensar, só saiu naturalmente numa discursão, e quando percebeu corou inteiro. Sentiu culpa e receio do pai pensar que ele o estivesse o trocando, o que ele não tinha vontade nenhuma. Precisou muito da mãe para entender que não estava trocando o seu pai por isso, mas reconhecendo mais um para a sua vida.
E agora, ainda encarando o espelho, a porta do quarto abriu com um homem alto e forte entrando.
— Tá na hora. Pronto?
—Pronto, pai.
Disse naturalmente, e mesmo assim o mais velho ainda se emocionava toda vez.
—Vamos, paçoca.
Desceram as escadas lado a lado.
Kemi, no final da escada onde esperava os dois, sorriu grande. Mesmo com um vestido branco simples, cabelo solto, maquiagem suave e anel de compromisso brilhando. Ela estava radiante.
Ela olhou para os dois como quem observa a própria vida se materializar diante dela. O filho, agora um homem, de terno, postura firme e olhos marejados. Eloy ao lado dele, alto demais para o espaço da casa, mas perfeitamente encaixado ali. Nada parecia improvisado. Tudo parecia… certo.
— Vocês dois vão me fazer chorar antes da hora — ela disse, rindo, a voz falhando só um pouco.
Junior desceu os últimos degraus e a abraçou com cuidado, como se ainda fosse o menino de antes, apesar da gravata vermelha apertando o peito.
— Você tá linda, mãe.
— Você sempre diz isso.
— Porque sempre é verdade.
Eloy observava em silêncio. Sempre observava. Era uma das coisas que percebeu amar.
Ele se aproximou e estendeu a mão para ela.
— Pronta?
Ela assentiu.
— Com você, sim.
O cartório era pequeno, simples, com paredes claras e um cheiro discreto de papel e café antigo. Não havia plateia. Não havia imprensa. Só quem importava. Família e amigos.
Rafa estava lá também. Chegará até mais cedo que todo mundo. Durante a cerimônia, Pomba ficou logo atrás deles, segurando os documentos, mãos levemente trêmulas. Ele prestava atenção em cada palavra como se estivesse registrando uma cena importante demais para ser esquecida.
E era realmente o caso.
Quando o juiz falou sobre escolha, parceria e compromisso, Junior entendeu, com uma clareza nova, que aquilo não era sobre o fim de uma fase. Era sobre continuidade.
Quando Kemi disse “sim”, a voz saiu firme. Quando Eloy respondeu, foi sem hesitação. O som da caneta no papel ecoou como um ponto final bonito.
Do lado de fora, o sol de fim de manhã aquecia tudo com uma luz mansa. Kemi respirou fundo assim que cruzou a porta, como se só agora o corpo tivesse entendido.
Eloy segurou a mão dela.
Junior observou os dois por um segundo, depois abriu os braços.
— Ok — disse. — Agora pode abraço coletivo.
Os três se juntaram ali mesmo, na calçada, rindo, meio desajeitados emocionados.
Perfeitamente família.
