Chapter Text
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Aquele cheiro já familiar encheu suas narinas, era uma leve mistura de queimado, cigarro e algum perfume suave, os olhos escuros se abriram lentamente, olhando em volta sem se mexer - mesmo já reconhecendo o ambiente. Ainda era noite.
Pomba abraçava com força um travesseiro envolto por uma fronha acinzentada, o nariz estava enterrado ali, a respiração calma enquanto o cheiro dele lhe deixava um pouco tonto. Era a fronha do Franco, um dos itens mais recentes que havia “pego emprestado”.
Pomba sempre pegava, mas não para ficar, até porque, depois de um tempo, o cheiro dele saía, e pomba devolvia - pelo menos a maioria das coisas. Ele se levantou de forma silenciosa, indo até o banheiro, fechando a porta atrás de si e indo em direção do box de vidro.
…
Pomba se movia com rapidez, seus passos apressados enquanto corria naquele caminho tão conhecido. 40 minutos até estar no centro da cidade, 5 minutos até rodear a casa, 10 minutos escalando aquela árvore perto do quarto dele, 2 minutos até conseguir destrancar sua janela.
Ele era sempre silencioso, foi se aperfeiçoando com o passar dos meses - 24 meses, para ser um pouquinho exato -, ele se aproximou da cama de solteiro, sua silhueta tampando a luz que entrava. Ele pegou a câmera em seu bolso, a mirando na posição que ele dormia, ativou o flash e tirou uma foto de seu amado dormindo.
O antebraço acima da cabeça, enquanto seu braço pendia para fora da cama, os cobertores estavam quase caindo na cama, ele provavelmente havia os chutado a alguns minutos atrás. A boca estava aberta, sua respiração suave saia dos lábios finos, a expressão calma como sempre. Pomba estendeu a mão, tocando sua bochecha com cuidado, acariciando com o polegar.
Suas bochechas esquentaram suavemente e o coração pulsava com força. Ele amava tanto aquele ruivo, sonhava com o dia que iriam finalmente conversar, com o dia que ele olhasse na sua cara, não importava se receberia um olhar de nojo, medo, asco, ele só queria poder fazer mais do que tirar fotos dele. Ele tirou mais uma foto, agora com a mão na bochecha do ruivo, ele podia sentir cada detalhe daquela pele sensível.
Ficou algum tempo encarando ele, ouvindo sua respiração suave, via seu peito subindo e descendo. Seus passos logo eram leves no chão, caminhando pela casa como se morasse ali, como se conhecesse a anos. Ele abriu a porta do banheiro, acendendo a luz e entrando no cômodo, suas mãos encontraram as gavetas do gabinete, franzindo as sobrancelhas em irritação ao só ver maquiagens e produtos de higiene básica. Ergueu os olhos redondos e as íris encontraram o porta escovas…
Uma idéia lhe surgiu à mente.
…
Ele corria rapidamente de volta para sua casa, os olhos fixos no horizonte, o sol começando a levantar, ele pulou a cerca de sua própria casa para evitar fazer barulho abrindo o portão, ele deu passos silenciosos em direção a árvore dos fundos, escalando e entrando rapidamente no próprio quarto. Ele olhou em volta, ouvindo um barulho no quarto ao lado - o de coruja -, ele havia feito barulho?
Não. Claro que não, aquilo não acontecia.
Ele andou calmamente até o banheiro, fechando a porta atrás de si, ele abriu a gaveta do gabinete e pegou um pequeno pacote zip lock, abrindo e colocando a escova de dentes ali dentro. Após não ouvir nenhum barulho de batidas na porta, saiu, indo em direção do guarda-roupa, abrindo a porta e tateando o fundo até encontrar a parte solta, empurrando um pouquinho e arrastando para o lado.
Um pequeno varal de fotos - todas de Franco, dormindo, afinando as guitarras, ouvindo música, escrevendo, conversando com Cindy -, o primeiro moletom que havia pego dele, uma pequena mecha de cabelo ruivo presa num elástico rosa, a escova de cabelo, o Nívea morango, sem falar nas outras coisas pequenas que havia pego - uma caneta preta qualquer e um minúsculo lápis rosa.
Ele colocou delicadamente a escova de dentes, ao lado do porta retrato com a foto de Franco. Tudo era perfeitamente organizado, em seu devido lugar.
Seu amado não merecia confusão, nem bagunça
…
