Chapter Text
Há um tipo de raiva que não vem do ódio.
Vem do desejo de querer demais. Vem de saber que, se você deixar, aquela pessoa vai ocupar cada centímetro do seu peito e não vai sobrar espaço para mais nada. Nem para o orgulho. Nem para a sobrevivência.
Jiang Cheng conhecia essa raiva. Ela o acompanhava desde antes de saber o próprio nome. Era a mesma que o fazia gritar com quem amava, que o fazia empurrar as pessoas para longe antes que elas pudessem decidir ir embora por conta própria.
No Hanshi, naquela tarde em que a luz dourada entrava pelas janelas como mel derretido, Jiang Cheng sentiu aquela raiva crescer outra vez. Mas dessa vez, ela não veio sozinha.
Veio acompanhada de algo pior: medo.
O tratamento tinha terminado havia duas horas.
O cheiro das ervas ainda estava no ar, misturado ao silêncio pesado do Hanshi. Os médicos Lan, com suas roupas brancas e rostos tão expressivos quanto estátuas, disseram que Jiang Cheng já podia viajar. Claro, avisaram que o melhor seria esperar mais um dia — um conselho que o líder Jiang não tinha a menor vontade de seguir.
Os ferimentos da caverna não eram graves. A pancada nas costas deixou um hematoma roxo e feio, mas o corpo de Jiang Cheng, acostumado a anos de guerras e perdas, já estava se recuperando sozinho.
— Vou embora hoje. — Anunciou, em pé no meio do quarto.
A luz da tarde entrava pelas janelas, espalhando um brilho dourado pelo chão de tatame. Era um daqueles dias tranquilos que dão vontade de sentar e ficar vendo o tempo passar. Mas o clima ali dentro não ajudava. O ar parecia pesado, parado, como se até o tempo tivesse medo de seguir em frente sem permissão.
Lan Huan estava sentado à mesa de chá, com as mãos apoiadas nos joelhos. Seu rosto era calmo como a superfície de um lago congelado. Perfeito. Imóvel.
Mas seus olhos dourados não estavam tranquilos. Havia neles uma tensão contida, um sentimento que ele tentava esconder atrás da postura educada, mas que Jiang Cheng já sabia reconhecer de longe. Além, é claro, da preocupação evidente com o filho e o sobrinho. Diferente de Jiang Cheng, os dois continuavam desacordados na enfermaria, embora estivessem estáveis e fora de perigo.
— Você mal consegue ficar em pé sem sentir dor, Jiang-zongzhu. — disse Lan Huan. — Um dia não vai mudar nada. Amanhã eu mesmo consigo uma escolta para...
— Não preciso de escolta. — Interrompeu Jiang Cheng, mais ríspido do que queria. — Não sou um discípulo novato, nem um velho.
— Nunca disse que era. — respondeu o líder Lan, inclinando a cabeça. A luz do sol iluminou seu rosto de lado, destacando o maxilar e o leve desenho dos lábios. — Só disse que você está ferido. E ferimentos precisam de cuidado, cuidado precisa de tempo e tempo é o que não falta neste lugar.
— O que falta é paciência. — O líder Jiang começou a andar de um lado para o outro, as botas batendo no tatame com evidente irritação. — Falta ar. Falta cor. Tudo aqui é branco demais, silencioso demais, parado demais. Vou acabar enlouquecendo se passar mais uma noite olhando para essas paredes vazias.
— Você sempre esteve perto da loucura, Jiang Wanyin. — Retrucou o mais velho. Levantou-se devagar e ajeitou as mangas compridas das vestes. — A diferença é que, aqui, você não tem com quem descarregar sua raiva. Só comigo, já que sou seu alvo favorito.
As palavras fizeram Jiang Cheng parar. Ao encarar Lan Huan, sentiu algo apertar em seu peito, uma sensação estranha e difícil de entender. Lembrou dos sonhos, das pinturas na caverna. O imperador e o guerreiro. Um quarto em chamas. Um lago escuro refletindo a lua. Essas imagens apareciam cada vez mais fortes sempre que estava perto dele.
— Quero levar Jingyi para passar alguns dias no Píer de Lótus. — As palavras saíram antes que pudesse pensar. — Quando ele melhorar. Uma semana, talvez duas.
O silêncio que veio depois foi tão pesado que quase pareceu cair sobre seus ombros. Do lado de fora, o vento balançava os bambus do pátio, e o som das folhas parecia vir de muito longe.
O herdeiro de Gusu não se mexeu nem piscou, ainda assim, sua expressão mudou: os cantos dos olhos ficaram mais tensos e a linha da boca endureceu, algo que Jiang Cheng raramente via nele.
— Para quê? — perguntou por fim.
— Para conhecer ele de verdade. — A resposta veio depois de uma breve hesitação. A garganta de Jiang Cheng apertou. Por que era tão difícil falar certas coisas de forma direta? — Ele foi meu filho em outras vidas, nesta eu quero tentar me aproximar mais dele.
Por um longo momento, Lan Huan apenas o observou em silêncio. O ar parecia carregado de tudo aquilo que nenhum dos dois conseguia dizer.
— Certo. — Lan Huan deu um passo à frente.
A distância entre eles diminuiu até ficar pequena demais para o conforto de qualquer um. Jiang Cheng conseguia sentir o calor que vinha dele e o perfume suave de sândalo preso às suas roupas.
— Se Jingyi quiser ir, tudo bem. Ele precisa de ar fresco, de espaço, de algo longe deste lugar cheio de regras e silêncio. E é sempre bom treinar com outros clãs. — Mais um passo, e aqueles olhos dourados ficaram ainda mais próximos. — Mas com uma condição.
O líder Jiang estreitou os olhos violetas. Sem motivo aparente, seu coração começou a bater mais rápido.
— Qual?
— Eu vou junto.
Por um instante, pareceu que o ar do Hanshi tinha sumido. Como se todas as janelas tivessem sido fechadas ao mesmo tempo.
Ele só pode estar brincando.
— De jeito nenhum. — respondeu o mais novo, recuando meio passo. As mãos se fecharam ao lado do corpo, os dedos tão brancos de tensão quanto as roupas dos médicos de Gusu. — Você não é bem-vindo no Píer de Lótus.
— Por quê? — perguntou Zewu-jun, avançando outra vez e recuperando a distância perdida com facilidade irritante. — Por que eu lembro você do que perdeu? Por que sou uma lembrança de uma vida que você não quer encarar? Porque...
— Porque você me irrita! — explodiu Jiang Cheng, empurrando os ombros do líder Lan com força.
O outro deu um passo para trás, mas não caiu nem desviou os olhos. A luz da tarde ainda iluminava o quarto, mas as sombras já estavam mais longas, fechando-se aos poucos ao redor dos dois.
— Porque você fica aí com esse sorriso de santo, com essa cara de quem já perdoou o mundo inteiro. — As palavras saíram de uma vez, a voz tremendo de raiva. — E eu sei que, por baixo disso tudo, você é tão quebrado quanto eu. Isso me dá raiva. Isso me dá...
— Raiva? — repetiu Lan Huan.
A calma de sempre tinha desaparecido de sua voz. No lugar dela havia algo mais duro, mais cortante. Como se a imagem perfeita que ele mostrava ao mundo finalmente estivesse rachando.
— Ou medo, Wanyin? Medo de admitir que, em outra vida, você me amou? Medo de descobrir que, nesta vida, talvez...
— Cale a boca!
O movimento veio antes do pensamento.
Jiang Cheng não sabia dizer se queria empurrá-lo de novo, socá-lo ou fazer qualquer outra coisa que seu corpo exigia e sua mente se recusava a admitir. Num instante, suas mãos já tinham agarrado a gola das vestes brancas de Lan Xichen.
Os dedos apertaram com tanta força que pareciam feitos de pedra. O tecido amassou sob suas mãos, e ele conseguiu sentir o peito do outro subir e descer rápido logo abaixo.
— Você não sabe de nada. — A voz saiu baixa e afiada. Estavam tão perto que sua respiração batia no rosto de Xichen. — Não sabe o que eu sinto quando acordo e ainda consigo sentir o cheiro da fumaça daquele incêndio. Não sabe o que é olhar para Jingyi e, por um segundo, ver o rosto de uma criança que morreu nos meus braços enquanto eu não fazia nada.
— Eu sei. — A resposta veio sem hesitação.
O líder Lan não tentou se afastar nem se soltar. Seus olhos continuaram presos aos de Jiang Cheng, cheios de algo que não era pena, nem raiva, nem desafio.
— Porque eu me pergunto todas as noites se eu poderia ter feito algo diferente. Se poderia ter voltado mais cedo. Se poderia ter salvado vocês.
Devagar, uma mão subiu e envolveu o pulso de Jiang Cheng. O toque era leve, gentil, e, por algum motivo, aquilo doía mais do que qualquer aperto. Zewu-jun o segurava como se ele fosse algo precioso demais para quebrar e o calor daquela mão contra sua pele fez seu coração disparar de vez.
— Eu sei, Wanyin. — A voz baixou até virar quase um sussurro. — Porque quero consertar nesta vida todos os erros das vidas anteriores. E, mais do que tudo, quero fazer você parar de sofrer.
O aperto na gola enfraqueceu. Talvez Jiang Cheng tivesse afrouxado os dedos. Talvez eles simplesmente tivessem escorregado. De qualquer forma, quando percebeu, já não segurava mais o tecido das vestes, seus dedos tocavam a pele quente do pescoço de Xichen.
Eles ficaram assim por um instante, ou por uma eternidade.
O silêncio dentro do Hanshi era tão completo que parecia possível ouvir o próprio sangue correndo pelas veias. Ninguém saberia dizer quem se moveu primeiro. Talvez tenha sido Jiang Cheng. Talvez Lan Huan. Ou talvez os dois ao mesmo tempo, cedendo a algo que parecia existir muito antes de seus nascimentos. O fato é que, num instante, os lábios de Lan Huan encontraram os seus, e o mundo ao redor ficou tão confuso e intenso que Jiang Cheng quase esqueceu quem era.
O começo foi desajeitado. Os dentes se tocaram de um jeito desconfortável, seus narizes bateram mais de uma vez, e as respirações desencontradas faziam tudo parecer mais uma discussão do que um momento de carinho. Uma ponta de irritação surgiu no peito de Jiang Cheng. Afinal, nada em sua vida parecia acontecer de forma simples, nem aquilo.
Mas então algo mudou. Como duas peças que finalmente se encaixavam depois de muito tempo separadas, os movimentos de Lan Huan passaram a acompanhar os seus com naturalidade. O beijo se tornou mais calmo, mais quente e mais intenso.
Sem perceber, Jiang Cheng levou as mãos aos cabelos escuros do outro e o puxou para mais perto, precisando sentir sua presença para acreditar que aquilo era real. Entre os fios, seus dedos encontraram a fita branca. A mesma fita da seita Lan que sempre o irritara, aquela marca de disciplina e orgulho, e sem pensar muito, ele a puxou.
A seda escorregou com leveza. Os cabelos de Lan Xichen caíram soltos sobre os ombros, cercando o rosto de uma forma que Jiang Cheng nunca tinha visto. Havia surpresa ali, mas também algo mais profundo. Os olhos dourados estavam semicerrados, e toda a sua postura parecia mais aberta e sincera do que nunca.
O líder de Yunmeng perdeu de vez o controle dos próprios pensamentos. Já não existiam líderes de seita, regras, rivalidades antigas ou qualquer outra barreira. Existia apenas o calor daquele momento. Um som baixo escapou de sua garganta quando suas costas encontraram a parede de madeira. As mãos de Lan Huan já estavam em sua cintura, segurando-o com firmeza, mantendo-o perto.
Em algum momento, as vestes de Lan Huan se afrouxaram. O tecido branco caiu um pouco sobre os ombros, revelando a pele marcada por cicatrizes antigas que brilhavam sob a luz dourada da tarde.
Com dedos trêmulos, Jiang Cheng tocou aquelas marcas mais de uma vez. Sentia o calor daquela pele enquanto seu coração batia tão forte que parecia ecoar pelo quarto inteiro. O perfume de sândalo ainda estava no ar, agora misturado ao calor dos dois.
Foi então que sentiu uma pressão em seu pescoço, próxima ao ombro, seguida por um toque suave que fez um arrepio percorrer sua espinha. A sensação foi tão inesperada que suas pernas quase perderam a força.
A realidade voltou como um balde de água fria.
Jiang Cheng só percebeu a situação quando a razão voltou de vez. Estava sentado no colo de Zewu-jun. Em que momento aquilo tinha acontecido? Como tinha acabado ali, com as pernas de cada lado dos quadris de Lan Xichen, as mãos presas em seus cabelos soltos e as próprias vestes roxas completamente fora do lugar? Com o peito descoberto e a respiração ainda irregular, ele baixou os olhos para os próprios dedos.
A fita branca ainda estava ali, enrolada em seu punho.
A fita.
Ele sabia muito bem o que aquilo significava. Todo cultivador sabia. Os membros da família principal de Gusu Lan usavam aquela fita na testa e só permitiam que ela fosse tocada — ou entregue — à pessoa com quem pretendiam se casar. Era um símbolo de confiança e autocontrole, algo tão importante que nem pais ou irmãos podiam tocar. E ele, Jiang Cheng, líder de Yunmeng, simplesmente a tinha arrancado como se fosse apenas um acessório qualquer.
O corpo do líder Jiang travou.
Lan Huan também ficou imóvel. Seu rosto estava corado, os lábios avermelhados e os olhos dourados carregados por emoções que Jiang Cheng não conseguiu entender de imediato. Mas, quando o olhar de Xichen acompanhou o dele e pousou sobre a fita, sua expressão mudou.
— Esquece. — Disparou Jiang Cheng, empurrando o peito do outro com força. Levantou-se tão rápido que os músculos doloridos reclamaram na mesma hora. — Esquece que isso aconteceu.
— A-Cheng...
— Eu mandei esquecer! — gritou o Sandu Shengshou. Puxando as vestes roxas de volta para os ombros com movimentos bruscos, ele tentava recuperar a compostura, mas suas mãos tremiam demais. A respiração continuava descontrolada, e as palavras saíam com dificuldade. A vergonha queimava seu rosto, seu peito e seu estômago. — Não foi nada. Não significou nada.
Ele não se virou. Sabia que, se olhasse para Lan Xichen naquele momento, perderia completamente o controle. Então saiu do Hanshi às pressas, como se o pavilhão estivesse pegando fogo. Seus passos ecoavam pelo corredor de madeira, e o coração batia tão rápido que parecia capaz de chamar a atenção de todo o Recesso das Nuvens.
O vento frio do começo da noite atingiu seu rosto, mas não foi suficiente para apagar a sensação do calor de Lan Huan, que ainda parecia marcada em sua pele.
Só quando chegou ao quarto que dividia com Jin Ling, trancou a porta e escorregou até o chão, apoiando as costas na madeira fria, permitiu-se finalmente esconder o rosto entre as mãos. O quarto estava escuro e silencioso. As camas continuavam desarrumadas desde a manhã, e algumas roupas do sobrinho estavam largadas sobre uma cadeira. Era uma cena comum, mas naquele momento aquilo também doía, porque nada mais parecia normal.
A fita continuava com ele. Tinha trazido o tecido sem nem perceber, os dedos fechados em volta da seda branca como se ela tivesse vontade própria. O pano estava amassado e morno pelo contato com sua pele. Quando respirou fundo, sentiu o cheiro de sândalo, o cheiro de Lan Huan. O cheiro de algo que não deveria querer. O perfume permanecia em seus dedos como uma lembrança da qual não conseguia escapar.
— Maldito. — Murmurou contra as mãos, com a voz baixa e trêmula, que ecoou pelo quarto vazio. — Maldito seja você, Lan Huan.
No fundo, já não sabia se estava xingando o outro ou a si mesmo.
Talvez estivesse xingando o mundo inteiro por ter colocado aquela maldita fita e aquele homem em seu caminho. Por deixar lembranças de outra vida invadirem seus sonhos e, agora, ocuparem também seus pensamentos.
Encolhido contra a porta como um animal ferido, permaneceu ali por muito tempo. As costas doíam pelo esforço, mas a dor física quase não importava. Era apenas mais uma velha companheira, daquelas que a gente aprende a ignorar para conseguir seguir em frente.
Jin Ling não apareceu. O sobrinho provavelmente ainda estava na enfermaria, onde tinha passado as últimas horas. Pela primeira vez em muito tempo, Jiang Cheng sentiu um tipo amargo de alívio por estar sozinho. Não queria que o garoto o visse daquele jeito — abalado, sem defesas, com a testa apoiada na porta como se o mundo lá fora fosse pior do que a escuridão do quarto.
O silêncio do Recesso das Nuvens, que sempre o incomodara por parecer frio e parado demais, agora parecia alto demais.
Ele puxou o ar fundo uma vez. Depois outra. O peito doía, mas não por causa do hematoma.
Precisava falar com alguém. Precisava colocar tudo aquilo para fora antes que apodrecesse dentro dele, virasse veneno e acabasse guardado junto de tantos outros segredos. E havia apenas uma pessoa no mundo com quem o Sandu Shengshou conseguia falar sobre coisas que não contaria a mais ninguém.
No pátio dos fundos, Wei Wuxian estava sentado nos degraus de madeira que levavam ao jardim de inverno. Uma jarra de Sorriso do Imperador descansava ao seu lado, enquanto Chenqing repousava sobre seus joelhos. A lua ainda não tinha aparecido, mas as primeiras estrelas já brilhavam no céu.
Ao ouvir os passos pesados se aproximando, o Patriarca de Yiling nem se virou.
— Demorou. — comentou antes de tomar mais um gole de vinho. — Estou esperando você aparecer desde que saiu do Hanshi correndo, como se estivesse fugindo do próprio diabo.
Jiang Cheng parou a poucos passos dele, com os ombros tensos.
— Metade do Recesso das Nuvens viu você saindo de lá com cara de quem queria matar alguém e as roupas todas amassadas. — Só então Wei Wuxian virou o rosto. Seus olhos brilhavam na penumbra com uma curiosidade que ele nem tentava esconder. — E depois o Zewu-jun apareceu para falar com meu marido com o cabelo solto. Você faz ideia do que significa o líder da seita Lan aparecer em público sem a fita da testa?
O líder Jiang sentiu o sangue subir para o rosto na mesma hora. As orelhas queimavam tanto que ele apostaria que tinham ficado roxas — exatamente a cor do seu clã.
— Isso não quer dizer nada. — Rebateu, mas sua voz perdeu força no final.
— Não? — Uma sobrancelha se ergueu numa mistura de diversão e descrença. — Quando aconteceu comigo, significou muita coisa. Não é à toa que hoje sou casado com Hanguang-jun.
Jiang Cheng abriu a boca para responder alguma coisa atravessada, mas nenhuma palavra saiu.
— Senta aqui. — Wei Wuxian bateu a mão no degrau ao lado. Não era exatamente uma ordem, mas também estava longe de ser um convite formal. Era o jeito dele: insistente sem pressionar demais, cuidadoso sem demonstrar afeto de forma óbvia.
O líder de Yunmeng hesitou. Olhou para o lugar vazio ao lado do irmão, para a jarra de vinho em suas mãos e para o céu escuro, completamente indiferente à confusão que carregava no peito. Então, soltando um resmungo que não enganava ninguém, sentou-se ao lado dele.
Por um longo minuto, nenhum dos dois falou. O vento frio balançava os bambus do jardim, e o som das folhas secas raspava sobre as pedras.
Ao longe, algumas risadas denunciavam discípulos voltando dos treinos da noite. A vida continuava normalmente do lado de fora. Mas ali, naquele pequeno canto do mundo, tudo na vida de Jiang Cheng parecia ter virado de cabeça para baixo.
— Eu beijei ele. — Soltou de uma vez, como quem arranca um curativo. Foi rápido, direto, antes que sua própria cabeça pudesse impedi-lo. Ainda assim, doeu. — Pior. Eu... a gente... quase...
A frase morreu no meio do caminho. As palavras ficaram presas em sua garganta. Ao seu lado, Wei Wuxian congelou.
Por um instante, Jiang Cheng chegou a pensar que ele não tinha ouvido direito. Ou talvez tivesse entrado naquele estranho estado de distração que cultivava desde criança, para desespero da irmã mais velha.
Então, bem devagar, o Patriarca de Yiling virou a cabeça na sua direção. Os olhos estavam arregalados e a boca ligeiramente aberta. A jarra de Sorriso do Imperador continuava pendurada em sua mão como se ele tivesse esquecido que a segurava.
— Você... — Wei Wuxian engoliu em seco. — O quê?
— Eu beijei Lan Huan. — Repetiu o líder Jiang, agora com a voz mais baixa, sem conseguir tirar os olhos das próprias mãos. A fita de testa ainda estava ali, enrolada entre seus dedos como prova de tudo o que tinha acontecido. O tecido branco contrastava com sua pele. — E ele me beijou de volta. E a gente... a gente quase...
— Quase o quê? — A voz do mais velho subiu imediatamente. Ele largou a jarra no chão e se virou por completo para o irmão. Um pouco de vinho derramou na grama, mas nenhum dos dois prestou atenção. — Cheng-cheng. Meu irmão mais novo. A pessoa mais teimosa e emocionalmente fechada que eu conheço, está me dizendo que você e o Zewu-jun...?
— Nós não fomos para a cama! — interrompeu Jiang Cheng, mais brusco do que pretendia. O rosto queimava de vergonha. Sentia que estava ficando da mesma cor roxa das vestes de Yunmeng. — Quase. Mas não aconteceu. Eu... eu parei. Vi a fita na minha mão e parei.
— Você tirou a fita de testa do Lan Xichen...
— Eu não tirei! — As orelhas do líder Jiang queimavam tanto que pareciam pegar fogo. A voz saiu estranha, quase um protesto indignado, e isso só piorou sua vergonha. — Ela... meio que saiu sozinha. Quando eu estava... mexendo no cabelo dele.
Wei Wuxian piscou.
O silêncio durou alguns segundos.
Então, com a expressão de alguém que acabara de receber a melhor notícia possível, o homem de preto explodiu.
— Ah, pelos céus! — Ele pulou do degrau como se tivesse levado um choque e começou a andar em círculos pelo gramado, passando as mãos pelos cabelos. A grama molhada afundava sob seus pés, mas ele nem percebia. — Finalmente meu irmãozinho se rendeu ao amor!
— Para de gritar! — Jiang Cheng olhou ao redor, alarmado, sentindo o coração disparar. Por sorte, o pátio dos fundos continuava vazio. — Alguém vai ouvir!
— Eu quero que ouçam! — rebateu Wei Wuxian, sem baixar a voz. Seus olhos brilhavam na escuridão. Ele parou de andar e apontou um dedo para o irmão. — Quero que o mundo inteiro saiba que o temido Sandu Shengshou, o homem que passou anos dizendo que odiava os Lan, arrancou a fita de testa do Zewu-jun e quase...
— WEI WUXIAN! — Jiang Cheng saltou do degrau, agarrou o irmão pelo colarinho e o puxou com tanta força que quase derrubou os dois. Com os rostos tão próximos, conseguia sentir o cheiro doce do vinho em seu hálito. — Se você não calar a boca agora, eu juro que...
A ameaça morreu antes de terminar, não porque faltassem palavras, mas porque sua voz simplesmente falhou.
Suas mãos começaram a tremer sobre a túnica escura de Wei Wuxian. Os olhos arderam. Não. Não ia chorar. Não na frente de ninguém. Nem mesmo na frente do irmão.
— Eu não sei o que fazer. — Admitiu por fim.
A confissão saiu tão baixa, tão carregada de cansaço, que Wei Wuxian precisou se inclinar para ouvir.
— Passei anos odiando ele. Construí uma muralha inteira de raiva e provocações só para não precisar encarar...
A palavra morreu em sua garganta.
— Não precisar encarar o quê? — perguntou Wei Wuxian.
Todo o tom brincalhão tinha desaparecido. Agora sua voz era calma e gentil, lembrando tanto Jiang Yanli que o peito de Jiang Cheng apertou ainda mais.
— Para não precisar admitir que... que talvez... — Jiang Cheng fechou os olhos com força.
— Talvez o quê, Jiang Cheng?
— Talvez eu sempre tenha querido isso.
As palavras escaparam antes que pudesse segurá-las. Com os olhos fechados, era muito mais fácil encarar a escuridão atrás das pálpebras do que o rosto do irmão.
— Desde o começo. Desde a primeira vez que vi aquele sorriso nas reuniões intermináveis entre os clãs, eu queria... queria que ele olhasse para mim daquele jeito. — Confessou o líder Jiang, enquanto o vento fazia os bambus balançarem ao redor deles. — Mas ele nunca olhava. Olhava para Jin Guangyao, para o irmão, para qualquer outra pessoa, menos para mim. E eu fiquei com raiva. Raiva por não ser escolhido. Raiva por ficar sempre em segundo lugar. Raiva de...
Ele parou de repente. Sua garganta estava seca, mas Jiang Cheng não tinha intenção de aliviar aquele aperto com lágrimas. Já tinha chorado o bastante para uma vida inteira. O silêncio voltou a se espalhar entre os dois, pesado e difícil de ignorar, até que Wei Wuxian completou o pensamento com suavidade:
— E agora você descobriu que, em outra vida, ele foi seu marido. Que vocês tiveram um filho, que ele perdeu vocês dois por causa de uma guerra sem sentido e de um subordinado desgraçado demais, e que talvez esteja tão perdido quanto você.
Voltando a se sentar no degrau, o Patriarca de Yiling se aproximou um pouco mais, ficando quase ombro a ombro com o irmão. Jiang Cheng não respondeu. Continuou apenas segurando a fita branca de Gusu Lan entre os dedos, sentindo o tecido macio contra a palma da mão enquanto, lá no alto, a lua seguia seu caminho pelo céu, indiferente a tudo aquilo.
— Ele não está perdido. — Murmurou depois de um longo silêncio. Sua voz estava rouca, como se tivesse passado horas discutindo. — Nunca esteve. Lan Huan sempre soube o que queria. A diferença é que agora...
— Agora o que ele quer é você. — Concluiu Wei Wuxian.
Não havia provocação nem brincadeira em sua voz. Era apenas uma verdade simples, dita sem rodeios. Jiang Cheng engoliu em seco.
— Eu não sei lidar com isso.
— Você nunca soube lidar com alguém escolhendo você, Jiang Cheng. — A resposta não soou como crítica, mas como uma verdade que só um irmão poderia dizer. — Você passou tanto tempo acreditando que ninguém ficava ao seu lado, que ninguém escolhia você, que agora, quando alguém finalmente escolhe...
— Eu procuro uma forma de estragar tudo. — Completou o líder de Yunmeng, com amargura.
Wei Wuxian não discutiu. O vento voltou a soprar, mais frio dessa vez, e as nuvens cobriram a lua por alguns instantes, mergulhando o pátio em sombras como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.
— O que você sente por ele? — perguntou o mais velho, com uma seriedade rara. Toda a descontração tinha desaparecido, deixando apenas Wei Wuxian, sem piadas e sem esconder o que pensava. — Não me diga o que acha que deveria sentir, nem o que sentiu na outra vida. Estou falando de agora, hoje. Ele está ali, do outro lado do Recesso das Nuvens, provavelmente com o cabelo bagunçado por sua causa. O que você sente?
Jiang Cheng abriu a boca, fechou e tentou outra vez, mas as palavras demoraram a aparecer.
— Raiva. — respondeu por fim, mas até ele percebeu como aquilo soou falso.
— Mentiroso.
O líder Jiang soltou uma risada breve e sem humor antes de finalmente admitir a verdade:
— Medo. Eu sinto medo. Um medo idiota. Medo de que amanhã ele olhe para mim e perceba que eu não sou tudo aquilo que minha outra versão foi. Medo de que eu não seja suficiente. Medo de machucá-lo de novo, mesmo sem querer. Porque é isso que eu faço, Wei Wuxian. Eu machuco as pessoas. Machuquei você, machuquei Jin Ling mais vezes do que consigo contar. Eu não sei fazer diferente.
Sua voz falhou no final, como algo prestes a se partir. Wei Wuxian permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo aquilo. Depois, ergueu a mão e a pousou no ombro do irmão. Não apertou nem tentou puxá-lo para um abraço. Conhecia Jiang Cheng bem demais para isso. Apenas ficou ali, oferecendo companhia em meio à escuridão.
— Você não é mais a mesma pessoa de antes. — disse Wei Wuxian em voz baixa, quebrando o silêncio. — E não estou falando da outra vida. Estou falando de agora. Do Jiang Cheng que veio sentar aqui ao meu lado em vez de sair descontando a raiva em alguém. Do Jiang Cheng que está segurando a fita de um Lan como se fosse a coisa mais importante do mundo. Do Jiang Cheng que sentiu medo e, mesmo assim, o beijou.
— Eu quase fui para a cama com ele. — Rebateu o mais novo, usando o sarcasmo para se proteger, embora sentisse o rosto esquentar. — Isso não me transforma em um romântico.
— Não. — Concordou o Patriarca de Yiling com um leve aceno. — Só prova que você sente alguma coisa. E você passou tanto tempo fingindo que não sentia nada que, agora que tudo veio à tona...
— Está doendo. — A sinceridade daquela resposta surpreendeu até o próprio Jiang Cheng. — Dói o tempo todo, Wei Wuxian. Toda vez que lembro do rosto dele. Toda vez que fecho os olhos e vejo aquela outra vida. Toda vez que penso no que poderíamos ter tido se... se eu fosse diferente. Se eu tivesse nascido menos quebrado.
Os dedos sobre seu ombro apertaram de leve, oferecendo apoio.
— Você não é quebrado, Jiang Cheng.
— Sou.
— Não. — A voz de Wei Wuxian ficou mais firme. Não havia irritação nela, apenas convicção. — Você está machucado, e isso é diferente. Um osso quebrado pode sarar. Uma ferida pode fechar. Mas, para isso acontecer, você precisa parar de fingir que a dor não existe.
O líder de Yunmeng não respondeu. Nesse momento, a lua voltou a surgir entre as nuvens, espalhando sua luz prateada pelo pátio. Ao longe, o sino do Recesso das Nuvens tocou uma vez, anunciando o recolher noturno. Os discípulos provavelmente já estavam voltando para seus quartos, e logo as luzes começariam a se apagar, deixando todo o complexo mergulhado no silêncio exigido pelas regras dos Lan.
— O que eu faço agora? — perguntou Jiang Cheng, odiando o quanto sua voz pareceu insegura. Soou mais como a de um garoto perdido do que a de um líder de seita.
Wei Wuxian ficou pensativo por alguns segundos antes de responder.
— Quer um conselho de irmão mais velho?
— Você vai dar de qualquer jeito.
— Justo. — Um sorriso pequeno, cansado, mas sincero apareceu em seus lábios. — Então aqui está: vá falar com ele. Agora. Antes que perca a coragem. Bata na porta dele, olhe nos olhos dele e diga tudo. Não precisa ser bonito nem perfeito, só precisa ser verdadeiro.
— E se ele... me rejeitar? — perguntou Jiang Cheng.
A reação do irmão foi erguer uma sobrancelha, claramente sem acreditar na possibilidade.
— Não vai.
— Você não tem como saber disso.
— Tenho, sim. — respondeu com aquela confiança irritante que sempre teve. — Eu vi a cara do Zewu-jun quando você estava desacordado naquela caverna. Vi como ele segurava sua mão. Vi que ele se recusou a sair do seu lado mesmo quando os médicos mandaram. Aquele homem não vai rejeitar você, Jiang Cheng. Ele está esperando por você há duas vidas.
A respiração do líder Jiang falhou por um instante. A fita branca pareceu ficar mais pesada em sua mão. Mais quente também, como se ainda carregasse um pouco da presença de Lan Huan.
— E se eu estragar tudo? — perguntou mais uma vez. Era sempre o mesmo medo. O mesmo receio de falhar que o acompanhava desde jovem.
— Então você tenta de novo. — respondeu Wei Wuxian de forma simples. — E depois tenta outra vez. E outra. Porque é isso que a gente faz quando ama alguém. A gente não desiste.
Jiang Cheng ficou em silêncio por um longo momento, pensando em tudo aquilo. Então, por fim, levantou-se.
— Se der errado, a culpa é toda sua. — Avisou, sem se virar, tentando preservar o pouco de dignidade que ainda restava.
— Pode colocar a culpa em mim. — Wei Wuxian soltou uma risada baixa, que ecoou suavemente pelo pátio. — Só não esquece de me convidar para ser o padrinho do casamento.
O líder de Yunmeng revirou os olhos, mas não respondeu. Apertando a fita de testa com firmeza, deu as costas ao irmão e seguiu em direção ao Hanshi.
O caminho até o Hanshi levou menos de cinco minutos, mas Jiang Cheng contou cada passo. Prestou atenção em cada pedra sob as botas e em cada folha seca que o vento empurrava pelo chão. A lua estava alta e brilhante, cobrindo o Recesso das Nuvens com um silêncio estranho — bonito, frio e delicado, como se qualquer palavra mais alta pudesse quebrá-lo.
A fita de testa continuava enrolada em seus dedos como uma pulseira. A seda branca contrastava com a pele marcada por anos de batalhas. Ele precisava senti-la ali, apertando o tecido sem perceber, para se convencer de que o beijo e o toque de Lan Huan tinham sido reais.
Quando parou diante da porta do pavilhão, sentiu o peito apertar. Bata logo antes que perca a coragem, ordenou a si mesmo. Então bateu duas vezes na madeira.
A porta se abriu quase na mesma hora. Do outro lado estava Lan Xichen, sem a fita na testa. Os cabelos negros caíam soltos pelos ombros, brilhando sob a luz das velas. Ver Zewu-jun daquele jeito, tão diferente da imagem impecável que sempre mostrava ao mundo, fez o coração de Jiang Cheng apertar.
— Jiang-zongzhu. — A voz de Lan Huan saiu rouca. Seus dedos permaneceram na borda da porta, como se estivesse segurando a vontade de tocá-lo. — Você voltou.
Jiang Cheng ergueu a mão, ainda um pouco trêmula, mostrando a fita branca.
— Vim devolver isso.
Os olhos dourados de Lan Xichen baixaram para a seda. Um leve tremor passou por sua expressão, e sua mandíbula se contraiu quando engoliu em seco.
— Entre.
O líder de Yunmeng atravessou a porta. O Hanshi estava exatamente igual. As velas iluminavam o ambiente com sua luz suave, uma caneca de chá continuava esquecida sobre a mesa, e o ar parecia pesado, como se o tempo tivesse parado. Parados um diante do outro, separados por pouco mais de um braço de distância, Lan Xichen observava cada detalhe de seu rosto.
— Você não devia ter saído. — O Lan foi o primeiro a falar. Havia preocupação em sua voz, mas também algo próximo de ressentimento. Suas mãos abriam e fechavam ao lado do corpo. — Já está tarde. Você ainda está se recuperando.
— Não vou desmaiar no caminho. — respondeu Jiang Cheng, mais seco do que pretendia. A fita parecia queimar em sua mão. — Só vim devolver isso. E conversar.
— Conversar? — repetiu Zewu-jun, como se estivesse testando a palavra. Deu um passo lento para o lado sem tirar os olhos dele.
— Sobre o que aconteceu. Sobre o beijo. Sobre a outra vida. Sobre essa fita... — As palavras começaram a sair sem controle, e Jiang Cheng sentiu o calor subir pelo pescoço. Odiava perder o controle perto dele. — Sobre como eu não faço ideia do que fazer com tudo isso.
Lan Xichen ficou em silêncio por alguns segundos. Seus olhos pareciam cansados, carregados de esperança e medo ao mesmo tempo. Devagar, levou uma mão ao peito.
— Você está bravo.
— Eu estou sempre bravo. Faz parte de quem eu sou. — Jiang Cheng soltou uma risada curta e sem humor. — A diferença é que agora não sei se estou com raiva de mim mesmo ou de nós.
— De nós? — perguntou o Lan, a voz falhando levemente enquanto inclinava a cabeça. Uma mecha de cabelo caiu sobre seu ombro, e Jiang Cheng precisou fazer um enorme esforço para não acompanhar o movimento com os olhos.
Por um instante, o chão pareceu desaparecer sob seus pés.
— De nós. — Confirmou, rendendo-se àquela verdade. — Porque existe um nós, pelo visto. Eu sinto coisas que não deveria sentir.
— Por que não deveria? — Xichen deu mais um passo à frente. Suas mãos se ergueram um pouco, como se quisesse tocar seu rosto, mas pararam no meio do caminho.
A pergunta atingiu Jiang Cheng sem piedade.
— Porque eu não sei ser assim, Xichen! — explodiu, apertando a fita até os dedos ficarem pálidos. — Eu não sei ser gentil. Não sei ser paciente. Não sei ser o tipo de pessoa que merece alguém como você. Eu grito. Eu quebro coisas. Eu acabo machucando todo mundo que se importa comigo.
Lan Xichen diminuiu de vez a distância entre eles. O calor de seu corpo e o perfume de sândalo envolveram Jiang Cheng por completo.
— Você não precisa ser nada além de quem já é. — disse o Lan, com uma firmeza que fez seu peito apertar. — Eu só quero que você fique.
— Eu não sei ficar!
— Então aprende.
A resposta de Lan Xichen veio sem hesitação. Havia tanta urgência em sua voz que Jiang Cheng acabou dando meio passo para trás. Foi então que percebeu algo que o deixou sem reação.
O mais velho estava com medo, tão assustado quanto ele próprio.
— A gente aprende, A-Cheng. A gente tenta. — Insistiu o Lan, quase implorando. — Não precisa ser perfeito. Só precisa ficar.
O líder de Yunmeng desviou o olhar e travou a mandíbula. Os olhos voltaram a arder, e ele amaldiçoou a própria fraqueza.
— Você não entende. — Murmurou, com a voz baixa e cansada. — Eu não consigo te dar o que você quer. Nem o que você precisa. Nem o que minha outra versão te deu naquela vida. Eu não sou ele. Eu sou... menos. Sempre fui menos.
As palavras ficaram suspensas entre os dois.
Zewu-jun fechou os olhos por um instante e respirou fundo. Quando tornou a abri-los, a ternura de sempre continuava ali, mas agora vinha acompanhada de um cansaço antigo e de uma determinação impossível de ignorar.
— Você fala como se eu não soubesse exatamente quem você é. — respondeu Lan Huan, com a voz baixa e firme. — Como se eu tivesse sido enganado. Como se eu não tivesse escolha.
Jiang Cheng ergueu a cabeça, surpreso.
O outro se aproximou mais uma vez, acabando com a pouca distância que ainda existia entre eles. Tão perto, Jiang Cheng conseguia sentir o calor de seu corpo e perceber detalhes que normalmente passariam despercebidos: os cílios escuros, a luz das velas refletida em seus olhos e os lábios que ele tinha beijado há pouco.
— Eu conheço sua teimosia. Conheço seu temperamento. — Continuou Xichen. Sua mão se ergueu devagar, mas parou sobre os dedos de Jiang Cheng, que ainda seguravam a fita branca. — Conheço sua crueldade quando está ferido. Conheço seu orgulho. Conheço seus erros. E mesmo assim eu escolho você.
O coração de Jiang Cheng falhou uma batida.
— Lan Huan...
— Eu ainda escolho você, Wanyin.
Aquelas palavras machucaram mais do que qualquer discussão, porque eram sinceras.
Era possível ver isso nos olhos dourados, na forma como suas mãos tremiam de leve e em como sua voz quase falhou ao terminar a frase. Jiang Cheng sentiu as lágrimas subirem novamente.
Não. Não na frente dele.
A primeira lágrima escapou mesmo assim, quente e rápida, descendo por sua bochecha.
Seus dedos perderam a força e a fita escorregou de sua mão e caiu no chão com um som quase imperceptível. A seda branca ficou entre os dois, destacando-se sobre o piso escuro do Hanshi.
Abandonada. Como eu, pensou Jiang Cheng, como eu sempre faço com tudo.
Algo se rompeu dentro dele.
— Eu só vim devolver. — Sussurrou. Sua voz estava rouca e estranha até para seus próprios ouvidos. — Ela está aí. Agora eu vou...
— Jiang Cheng... — Xichen estendeu a mão, mas não tentou segurá-lo. Apenas manteve os dedos abertos, oferecendo uma escolha.
— Não. — Jiang Cheng deu um passo para trás. Depois mais um, até sentir a porta atrás de si. — Eu não consigo. Não sei fazer isso. Nunca da maneira certa.
O líder da seita Lan avançou num último esforço. Seus dedos tocaram de leve o pulso de Jiang Cheng por um breve instante. Um toque tão suave que quase poderia ter sido imaginado.
— Por favor. — pediu Lan Huan. Sua voz quase se perdeu no silêncio do quarto, e seus olhos estavam cheios de emoção. — Não faz isso. Não vamos repetir nesta vida os mesmos erros da primeira. Eu não quero perder você de novo. Não vai.
Mas Jiang Cheng já estava virando as costas. A porta se fechou atrás dele com um clique seco. Antes que conseguisse afastar os pensamentos e seguir em frente, ouviu um som vindo do outro lado. Um soluço abafado, como se Lan Huan tivesse tentado escondê-lo no mesmo instante em que escapou.
Aquilo quase o fez voltar. Quase.
Por muito tempo, Jiang Cheng caminhou sem rumo pelo Recesso das Nuvens. Primeiro andou rápido, as botas ecoando pelas varandas de madeira. Depois diminuiu o passo, como se cada movimento exigisse um esforço enorme. Em seguida acelerou de novo, tentando fugir dos próprios pensamentos. Mas não adiantava. Nada mudava. O rosto continuava molhado, o peito continuava apertado, e a imagem de Lan Huan com a mão estendida não saía de sua cabeça.
Passou pelo lago iluminado pela lua, pelos pavilhões silenciosos e pelos bosques de bambu. As folhas balançavam com o vento da noite e, por um instante, ele teve a impressão de ouvir passos atrás de si.
É só coisa da sua cabeça, repreendeu-se. Ele não veio atrás de você. Por que viria? Você deixou bem claro o que queria.
Quando levou a mão ao rosto, percebeu que as lágrimas ainda escorriam. Irritado, enxugou-as com a manga da túnica, mas outras vieram logo depois.
— Ridículo. — Murmurou para a escuridão.
A voz saiu mais fraca do que gostaria.
Parou no meio de uma pequena ponte de pedra sobre o riacho. A água escura corria lá embaixo, levando consigo o reflexo tremido da lua. Apoiado no corrimão, apertou os dedos até sentir as juntas doerem. Fechou os olhos e pensou na fita de testa caída no chão do Hanshi.
Pensou na forma como Lan Huan tinha dito "não vai". Duas palavras simples, mas que carregavam mais peso do que qualquer discurso. E pensou naquele soluço abafado atrás da porta. O estômago revirou. Lan Huan quase nunca deixava suas emoções escaparem daquele jeito. E eu fui o motivo, percebeu, eu fui quem fez isso.
Pela primeira vez em muitos anos, o líder de Yunmeng não queria ficar sozinho.
A percepção o atingiu de repente.
Não era de Wei Wuxian que precisava naquele momento. Nem de Jin Ling. Nem dos discípulos do Píer Lótus ou dos anciãos que o respeitavam como líder.
Ele queria Lan Huan.
Queria voltar correndo. Queria atravessar aquelas varandas e abrir a porta outra vez. Queria pegar a fita do chão e dizer alguma coisa que prestasse. Desculpa. Eu vou tentar. Eu fico. Me ensina. Qualquer coisa que o fizesse parar de olhar daquele jeito.
Mas seus pés continuaram imóveis.
Porque ele era Jiang Cheng. Um homem que cresceu cercado pela sensação de não ser suficiente. Que aprendeu a esperar perdas antes mesmo das despedidas. Que, no fundo, sempre acreditou que acabaria sozinho.
E talvez esse fosse o seu pior defeito. Porque no fim, fugir sempre pareceu mais fácil do que ficar.
