Chapter Text
Era para ser um dia comum, como todos os outros da metódica vida de Karênin, que andava ainda mais tediosa agora aos vinte e três anos. Mas o palácio estava agitado naquele dia. Podia ver Irina correndo com várias cortinas nas mãos, o que era um tanto incomum já que sua madrasta só trocava as cortinas quando recebiam alguém. Se bem que não deveria ter se surpreendido, visto que andaram recebendo visitas regularmente.
Ficou um tempo na ponta da escada, segurando no corrimão e tentando não rir de Yuri e Ivan, que brigavam por conta do posicionamento dos sofás da imensa sala de estar, e de Natasha, que parecia pedir desculpas repetidas vezes para Enya, a cozinheira. Era um hobby que não sabia que tinha, observar os empregados de vez em quando. Era divertido.
Vestiu suas luvas e jogou os cabelos loiros, quase esbranquiçados para o lado, enquanto saía do castelo. Seus pés afundavam na neve branca e ao observar o céu com várias nuvens carregadas, soltou um suspiro de descontentamento. Era pra ser um dia bonito, já era final do inverno… Mas era sempre assim. O clima na Rússia era algo inconstante e ele já havia se acostumado com isso.
Não demorou a chegar até o estábulo, uma cena comum e quase diária para os soldados que percorriam as dominâncias como maneira de proteção, que o cumprimentavam ao longo do caminho em sinal de respeito. Karênin acariciou o focinho de Ekaterina com carinho e suavidade, ouvindo a égua relinchar. Seus pelos eram de cor amarelada, quase dourada e era tão bem cuidada que era como se brilhasse. Checou o horário e selou a fêmea com cuidado, saindo em disparada logo depois.
Ao chegar na metade do caminho, percebeu Keane se aproximando ao longe com seu garanhão negro. Para sua sorte, Ekaterina era uma égua mansa e gentil.
— Está atrasado. — Grunhiu para o outro, dando disparada mais uma vez, mas o melhor amigo não demorou para emparelhar consigo.
— Problemas no reino ao lado, meu caro. — Karênin fingiu que não escutou, dando de ombros e organizando as rédeas em suas mãos.
— Vamos acelerar. Uma tempestade está por vir.
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Estava ganhando de algum maldito mau perdedor que só fazia reclamar a cada jogada sua com as cartas, enquanto Keane aproveitava de um bom vinho do porto naquele dia frio. Estavam no bar mais próximo à fronteira, luxo que ousavam se permitir quando queriam fugir das próprias obrigações. Apesar de estar em seu próprio território, era um risco Karênin se expor daquela forma, sendo o príncipe Romanov. Tinha certeza que qualquer homem daquele daria a vida por ele. Até mesmo aquele sentado à sua frente, dizendo-lhe palavrões terríveis.
— Estão sabendo dos rumores? — Ele fingia não prestar atenção, concentrado nas cartas, mas seus ouvidos estavam atentos.
— O quê? — Respondeu Keane, que estava mais próximo.
— Um guarda da família real acabou por me contar que vamos receber visitas do reino ao lado. Ao que parece, foi concedido pelo grande cnezo . — Karênin apertou a carta em suas mãos, logo suavizando, tentando não se mostrar tenso ao adversário. Mas por que diabos ele era o último a saber daquelas coisas?
— Tem previsão para chegarem? — Keane tomava um gole de seu vinho, perguntando como quem não quer nada.
— Esta noite.
Com uma última jogada, Karênin se levantou, sorrindo para o adversário e encerrando o jogo, mas não pegou o prêmio em dinheiro que era seu por direito, já que ganhou a partida. Do lado de fora, ajeitou as luvas de maneira irritada e Keane veio correndo atrás de si, ambos subindo rapidamente nos cavalos.
— Por que eu tenho certeza que você não ficou feliz com a notícia? — Disse o mais alto de maneira divertida e Karênin o ignorou.
Pelo visto, ele tinha pouco tempo. O sol começava a se pôr.
Despediu-se rapidamente do amigo com um grito ao chegarem onde deveriam seguir caminhos distintos e continuou em disparada até o castelo. Deixou Ekaterina na mão de algum soldado e chegou no castelo bufando como um touro, vendo a decoração impecável. Sua madrasta estava em meio ao hall, exuberante e primorosa como sempre, mas quase passou direto por ela, fazendo somente uma reverência.
— Karênin, onde você estava? Precisa ficar pronto…
Ignorou a mulher, ainda que a amasse como uma mãe e foi direto ao escritório de seu pai, abrindo as portas sem cuidado.
— Como você não me avisa que vamos receber nossos inimigos pro jantar? — Disse de maneira sarcástica enquanto tirava as luvas e seu pai olhou para si por um momento, baixando a cabeça. — Não era algo que eu deveria ser o primeiro a saber, papai?
— É somente a tentativa de uma negociação. Um acordo. — Disse o homem mais velho, como se não estivesse preocupado.
— Ou uma armadilha. — Disse Karênin entre os dentes. — Quantas realezas já não foram derrubadas por causa de acordos como esse?
O homem suspirou, retirando os óculos e massageando os lados do nariz. — Karênin, eu já tomei a devida precaução para nada disso acontecer… E há algo maior em jogo, então não se preocupe. Nada disso vai acontecer. — Karev se levantou, abraçando o filho que parecia temeroso e beijou sua testa. — Não se preocupe. Nada vai nos acontecer.
Seu pai era provavelmente um dos únicos que realmente entendia seu medo da família Veryasky, já que havia sido sequestrado quando criança por um deles. Apesar do trauma, nada lhe aconteceu e foi resgatado antes de algo pior acontecer, mas seu ódio por aquela família nunca passou.
Subiu as escadas de maneira resignada e suas criadas já o esperavam para toda a superprodução. Revirou os olhos, dispensando todas. Nem fodendo que iria parecer todo pomposo para aqueles merdas.
Vestiu uma roupa mais apresentável, junto às suas insígnias de capitão enquanto soldado russo e passou um pouco de maquiagem. Não demorou para alguma criada bater em sua porta, avisando que seu pai solicitava sua presença. Desceu as escadas com o olhar mais estóico possível em seu rosto, sem forçar sorrisos. Haviam várias pessoas do condado, grãos príncipes e era como se fosse uma verdadeira festa. Assim que surgiu, seu pai tratou logo de apresentá-lo a Kian Veryasky, imperador de um vasto domínio russo e apertou sua mão sem vontade. Seus olhos se voltaram para um jovem que também estava ali, parecendo o avaliar. Provavelmente ele tinha a idade parecida com a sua e não era um soldado, já que se mantinha sentado e não em pé ao lado do imperador. Ele tinha um olhar intenso que atingiu o fundo de seu estômago. Ficou um tanto desconfortável.
— Este é meu primeiro filho e herdeiro, Sage Veryasky. — O garoto alguns centímetros maior que ele se levantou, colocando um sorriso cordial nos lábios e também apertando sua mão.
Esperou ser apresentado a esposa e a filha mais velha, Vivienne, despejando um beijo forçado em sua mão. Ela não era bonita e não o interessou nem um pouco, mantendo uma postura distante. Logo sentou-se junto aos seus pais, fingindo prestar atenção na conversa.
A única coisa que fizera prender sua atenção foi quando o tópico da conversa, já na hora do jantar, chegou na literatura recorrente dos últimos tempos e alguém elogiava Tolstói enquanto outra pessoa esnobava as obras americanas. Não conseguia distinguir quem dizia, a conversa estava rápida demais para ser acompanhada.
— É simplesmente ridículo, — Alguém disse — que isso possa até ser comparado. A escrita Russa é deveras superior.
— O Sr. Karênin não parece se agradar da sua opinião, Sr. Karov. Veja a careta que ele está fazendo. — Sage comentou de maneira divertida enquanto brincava com seu garfo sem modos algum.
— Realmente, não concordo com tal opinião. Acho que ambas as literaturas devem ser valorizadas e vistas da mesma forma. Afinal de contas, foi com a literatura americana que se criou o conceito recorrente de imigração que nos ajudou tanto a progredir. — Disse quase entredentes e com o queixo levantado. Ele era desafiador e não iria cair nas provocações daquele Veryasky de merda.
Voltaram à sala de estar e até ali absolutamente tudo já havia sido discutido, de política a religião. Até que Vivienne lhe desferiu uma pergunta frívola, questionando sobre sua obra americana preferida. Respondeu seus títulos preferidos, mas sem citar o maior deles. Sage ainda o encarava com aquele brilho divertido no olhar que somente o irritava cada vez mais.
— Se considera um homem orgulhoso, Sr. Karênin? — A pergunta cínica de Sage foi direcionada para si e infelizmente, havia pegado a referência.
Então, naquele momento, o rapaz deu um salto inesperado, ficando de pé e lhe estendendo a mão. Olhou para o seu pai, que parecia curioso, e para a mão dele novamente. Lembrou-se da sensação. Segurou a mesma e enlaçaram os braços, ainda que aquilo fosse algo totalmente incomum de sua cultura, com exceção da dança.
— Por que está fazendo isso? — Cochichou para ele, sem entender o motivo de estarem revivendo a cena de um livro. O jantar revirava em seu estômago.
— Estou tentando achar um defeito em você. — Trincou os dentes. Tinha vontade de esmurrá-lo.
— Você está perdendo seu tempo. Uma vez que ache difícil perdoar os erros e as tolices dos outros. E uma vez que pedir minha opinião…
— Vai perdê-la para sempre. — Ele finalizou, o encarando de soslaio de maneira tranquila. — Não posso caçoar quanto a isso. O que é uma pena, pois…
— Eu adoro rir. — Balbuciou, estancando no lugar onde estavam. Agora afastados de onde os sofás estavam posicionados e perto do piano. — Você ainda não me respondeu.
— Você me causa curiosidade, Sr. Karênin. Espero vê-lo em breve, afinal, passarei alguns dias aqui.
— Dias? Vocês não deveriam ir embora pela manhã? — Ele sorriu daquela forma que começava a odiar.
— Bem, talvez minha família. Eu ficarei mais uns dias para algumas negociações.
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Mal conseguiu dormir aquela noite. Um misto de sensações ruins invadiam seu peito, pois não encarava aquela visita como algo bom. Ficou sentado na cama, em alerta, praticamente a noite inteira e segurando uma faca em mãos. Se fosse uma armadilha…
Acabou por cair no sono ao amanhecer de um dia ensolarado e não quis levantar nem tão cedo. Seu valioso sono foi interrompido por batidas na porta e Irina, que entrou em seu aposento. Acabou se assustando, mas relaxou ao ver a criada, que parecia nervosa.
— Sr. Karênin, já passa das três horas da tarde… O Sr. Veryasky filho solicita sua presença lá embaixo. — O Romanov nem se moveu. Quase respondia um “E eu com isso?”. Até a criada prosseguir: — Acho que o Sr. gostaria de saber que ele deseja se direcionar aos estábulos e…
— O quê? — Disse, levantando a cabeça de forma confusa e ao assimilar, ficou furioso, pulando da cama na mesma hora.
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Já devidamente apresentável, puxava suas luvas com força em suas mãos para não cometer uma traição ali mesmo dentro do palácio. O futuro imperador das terras ao lado parecia imponente no final das escadas, já vestido para cavalgar e segurando um chicote preto junto a luvas negras. Merda. Por que ele tinha que ser tão bonito?
— Achei que haviam te avisado que é proibido o acesso aos estábulos sem minha autorização. Nem mesmo meu pai entra lá. — Disse entredentes. Havia feito o possível para esconder suas olheiras com maquiagem, esperando não ter falhado miseravelmente na tarefa.
— Não sabia desse fato, apesar de achar extremamente interessante. De qualquer forma, eu esperava por você. Aprecia cavalos tanto assim? — Disse o maior enquanto se dirigiam ao estábulo.
— São todos meus. Tenho em torno de quinze. E todos são bem cuidados. — Ele havia tocado em um ponto de conversa que era impossível ter respostas curtas de si. Todos no reino sabiam que o amor de Karênin por cavalos era inestimável.
— É quase uma coleção. — Brincou Sage e Karênin o ignorou, chegando até Ekaterina, que relinchou, abaixando a cabeça para si. A égua já estava selada daquela vez.
— Vai escolher algum…? — Perguntou Karênin de maneira desconfortável, não queria dividir seus cavalos com ele. Era um inimigo, de qualquer forma.
— Oh, não se preocupe. Eu trouxe o meu. — Disse de maneira tranquila. Ele ainda segurava o chicote, avaliando ao redor como se estivesse distraído.
Montaram em seus respectivos cavalos pouco tempo depois, cavalgando sobre as terras, tão diferentes do dia anterior, com apenas alguns amontoados de neve desfazendo-se. Acabou descobrindo que era um ano mais velho que ele enquanto Sage falava aleatoriamente sobre si e ele fingia não prestar atenção.
Levou o Veryasky até a cerejeira mais famosa do reino, quase como se a árvore fosse um ponto turístico do local. Karênin saltou de Ekaterina, vendo o mais alto fazer o mesmo e pensando em manter distância. Será que seria um plano? Alguma emboscada? Sua espada estava ao seu lado, então, não morreria sem lutar, mas… Como confiar naquele homem?
Ao contrário de si, ele parecia bem tranquilo. Avaliava a árvore e se ele esticasse a mão, poderia tocá-la. Ainda não haviam frutos, sendo somente o começo da primavera.
— Você vem sempre aqui? — Perguntou ele, casualmente.
— Hmmm, não com muita frequência. Mas sempre passo rapidamente quando… — Estava falando demais novamente e parou, fazendo Sage encará-lo com um sorriso.
— Quando? Vamos lá, Karênin. Você pode conversar comigo, eu não mordo.
— É Sr. Karênin pra você. E tudo que eu possa vir a falar pode ser usado contra mim, portanto, tento dispensar essa variável. — Disse num tom sarcástico, recebendo um olhar divertido vindo dele. Estava quase debochando de si.
— Você é deveras desconfiado, apesar de entender os motivos. Esteve pensando nisso o tempo inteiro? Que tento me aproximar para reter informações ou…
— Acho que você é um profundo risco. Não sei as intenções de vocês, mas jamais ficarei com as guardas baixas. Vocês, Veryasky, são traiçoeiros e sujos, jogam baixo. Pessoas que sequestram inocentes certamente não são confiáveis. Irei descobrir suas intenções, Sr. Veryasky… — Disse se aproximando a cada palavra furiosa, os punhos firmemente fechados. — E então, te farei provar do próprio veneno.
Não estava preparado para o que veio em seguida. Sage Veryasky estendeu o braço, puxando-o firmemente e colando-o contra si. Seu olhar era maduro e sério naquele momento, fazendo Karênin arregalar os seus em resposta. Sentia os dedos dele afundando em seu quadril, como se fosse um movimento costumeiro e seu corpo incendiou naquele exato momento com a proximidade. Os lábios se bateram de maneira bruta e de alguma forma, naquele momento, o mundo parou de girar. Amoleceu, ainda que tentasse empurrá-lo sem força alguma, enquanto era segurado, ficando na ponta dos pés.
Sage aproveitou de um ofego seu para invadir a língua em sua boca e cravou seus dedos no pescoço dele, entrelaçando o músculo alheio com o seu, num ósculo molhado, proibido e tão conhecido . É como se tivesse provado daquela boca antes. Era a sensação de comer algo que gostava na infância. Era como rir de alguma brincadeira que seu pai fazia consigo. Era como se…
O ósculo já durava há algum tempo e Kârenin saiu de seu torpor, empurrando-o com força e limpando a boca, onde havia um fio da saliva de ambos escorrendo do canto desta. — Você…
— Você deveria saber. — Foi o que ele disse, tão ofegante quanto ele, porém menos abalado. Mais decidido. — Deveria saber, Karênin Romanov. Sou seu noivo. As negociações, o motivo que estou aqui… Iremos nos casar.
Seu pensamento estava em branco e um ruído fino fazia barulho em seu ouvido, como uma linha que nunca acabava. Uma dor de cabeça eclodiu bem no meio de sua testa e levou as mãos até a mesma, virando de costas para ele. Não. Ele estava mentindo. Seu pai nunca aceitaria… Não com um Veryasky. Um homem Veryasky. Mas se fechasse firmemente os olhos e parasse pra pensar… Fazia sentido.
De maneira amuada, montou novamente em seu cavalo e não disse mais nada. Sage parecia respeitar o seu momento e ficou calado. Seus lábios formigavam o tempo inteiro. Aquela sensação… Algo dentro de sua cabeça queria protestar sobre aquele casamento, acusar o Veryasky de mentir, mas por qual motivo seu pai daria tanta abertura para eles? É claro . A junção dos dois reinos perante um contrato de casamento. Nada mais clichê.
Queria conversar com o pai sobre aquilo, chorar, bater em seu peito. Como ele pôde traí-lo dessa forma? Como… Era ele. O maldito primogênito Veryasky estava manipulando seu pai de alguma forma e ele iria descobrir. Estava de cabeça cheia, então foi direto para seu quarto, pedindo para não ser incomodado por ninguém.
Em algum momento da noite, Karênin se revirava na cama novamente, sem conseguir dormir. Só conseguia pensar no beijo. Levou a mão até os lábios, que começaram a formigar e fechou os olhos, sentindo as bochechas esquentarem. A forma como as bocas haviam eclodido tão brutalmente e ele… Karênin mal percebeu ter ficado semi-duro, levando a mão até a boxer que usava, vestindo somente uma blusa branca de mangas por cima. Os lábios dele com os seus… Era como um apocalipse. Não conseguiu conter o gemido, envolvendo seu membro semi duro e começando a bombear lentamente, ainda envolvido com a lembrança como se ela fosse uma velha conhecida, familiar. Mas como, se nunca havia visto um Veryasky na vida? Aquele em particular… Gemeu, lembrando da mão firme o envolvendo e chegou ao ápice por cima das roupas, assustado e envergonhado com sua súbita atitude. Céus… O que estava acontecendo consigo?
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O clima no café da manhã do outro dia estava pesado. Sage ignorava-o de certa forma e comia suas frutas quase que forçadamente. Assim que seu pai se retirou da mesa, Karênin levantou, seguindo-o. Sage levantou a cabeça, preocupado e seguiu atrás, ainda que não tivesse entrado na sala. Retesou e voltou. Não deveria se meter nisso.
— Então você já sabe. — Disse seu pai de maneira divertida, fazendo Karênin encará-lo de maneira incrédula. — Veio me pedir a benção? Por que ele não veio junto?
— Você só pode estar brincando comigo. — Disse de maneira chocada. — Você oferece minha mão ao Veryasky sem minha permissão e espera que eu esteja feliz com isso? Papai! Você me traiu! Que tipo de besteiras você está falando —
Seu pai o encarou, quase confuso e depois suspirou. Os olhos do mais novo encheram de lágrimas e soluçou, vendo o mais velho aproximar-se para lhe abraçar e levá-lo até a janela. — Não foi uma besteira, nem um ato imprudente, Karênin. Você pode não entender, mas… Eu sinto. Eu vejo. E me admira que você não tenha visto também. — Olhou para o pai de maneira confusa. — Você já viu… A maneira como ele olha pra você? Tu facilmente se tornarás o motivo para ele respirar, Karênin. É como se a órbita só estivesse bem se ele estiver pairando ao seu redor.
— Está falando besteiras para eu achar que isso dará certo. É como dançar sem nenhuma música, papai. Não estou nem um pouco certo disso. — Disse, desvencilhando-se. Não conseguia acreditar em tais palavras.
Acabou se afastando e indo para alguma varanda do castelo. O que seu pai dizia pesava em sua mente e seu coração, por um lado, concordava. Mas sua razão queria realmente afastar tais ilusões.
A última pessoa que queria ver se materializou ao seu lado naquele momento, encarando-o de maneira preocupada. Sua expressão dizia que queria perguntar sobre algo, mas não sabia se deveria. Karênin soltou um foda-se na própria mente. Ele precisava sentir aquilo novamente. Precisava saber se seu pai tinha razão. Precisava entender o que se passava em sua cabeça.
Andou a passos rápidos até ele, fazendo os lábios se chocarem mais uma vez. Um gemido quis escapar de seus lábios quando Sage o içou para cima, fazendo-o rodear as pernas em sua cintura e andou até apoiá-lo contra a sacada. A única coisa que pensava era sobre o gosto dele. Céus, estava pegando fogo. Era tão… Os corpos friccionaram um contra o outro, desejosos, necessitados e Karênin podia sentir que estava perdendo a linha ao sentir o maior mordiscar a pele sensível de seu pescoço, fazendo assim o loiro ondular contra ele com vontade, mordendo o lábio com força para não gemer. Os dedos de Sage apertavam firmemente sua bunda, cada mais mais apertado contra ele e o Romanov conseguiu dizer, entre vários ofegos e tentando não pensar na sua ereção latejando junto com a do maior:
— Hoje, às 23h… No meu quarto. — E o puxou com força pelos cabelos para afastá-lo de si, beijando-o pela última vez e saindo dali.
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Não era como se estivesse nervoso. Não, não estava nervoso. Ele poderia nem aparecer. Mas algo dentro de seu cérebro discordava da sua própria opinião. Levantou-se, indo até a janela. Usava as roupas de sempre, apenas uma boxer, sem calças e uma blusa branca com mangas. Era a única maneira como gostava de dormir. Ouvir a porta bater fez seu coração falhar uma batida, não sabia se de medo ou de ansiedade. Naquele dia, estava preparado, mas era de uma forma totalmente diferente.
Não deu espaço para cumprimentos ou nada do tipo, avançando na boca do mais novo e o puxando para dentro do quarto, fechando logo em seguida. Eles não funcionavam falando, mas a linguagem corporal de ambos dizia muita coisa. Puxou a blusa preta que Sage usava sem muito esforço, expondo o peitoral liso e ele puxava sua camisa de botões com violência, ambos pêndulos até chegarem na cama. Encarou dentro dos olhos dele, ofegante e sentiu ambas as ereções roçarem. Não conseguiu segurar o gemido que irrompeu de sua garganta. Ambos os corpos estavam nus agora e Sage beijava seu peitoral com delicadeza, apoiando suas pernas contra os ombros dele para ter mais acesso onde realmente queria.
Fechou os olhos ao senti-lo dentro de si e ambos gemeram ao mesmo tempo. A sensação era surreal. Era algo que Karênin nunca conseguiria explicar em palavras. Era como se sentir finalmente completo. Em uma conexão, em uma ligação… Que ia muito além daquela vida. Como se aquele ato estivesse sendo repetido pela milésima vez. Segurou o rosto dele, de maneira inebriada, acompanhando o ritmo enquanto ele estocava contra si e gemia, totalmente envolvido no que acontecia naquele momento. Como se fosse um fato histórico. Como se… Será que ele sentia o mesmo? Será que conseguiria explicar? Mas o olhar de Sage já dizia tudo. Ele sentia. Ele o amava a partir do momento que coexistiu naquele mesmo mundo com ele. Eles foram feitos para ser.
Não demorou a vir por cima do próprio abdômen de tanto tesão que sentia, acumulado como se fossem de épocas. E não teve medo quando sentiu ele gozar dentro de si e desabar ao seu lado, tão exausto quanto ele. Não disseram nada. Karênin somente entrelaçou a mão com a dele e virou-se, adormecendo com ele abraçado junto a si.
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Era o começo da primavera. Karênin recebia visitas em casa para um chá, sendo estes Keane e seu noivo, Morgan, junto com Chaos e Bash, que agora se provocavam e faziam a sala inteira rir. Asylum chegara atrasado, como sempre solitário, mas sempre uma boa companhia. Não havia convidado Sage. Não achava que estava realmente preparado para isso. Até ele aparecer no recinto e começar a cumprimentar todos, mesmo sem ter sido convidado. Karênin quis se fundir com o sofá.
— Já que meu noivo não me apresenta, apresento-me eu mesmo. — Disse da maneira cínica que o Romanov tanto odiava. Começou a ser zoado de inúmeras formas pelos amigos até começar a ameaçar bater em todos eles e do nada, Sage estendeu a mão para si novamente. Revirou os olhos, mas não negou. Eles começaram a dançar, ainda que não houvesse música. E Karênin soube que havia mordido a própria língua sobre aquele conceito ser algo sem sentido. Fazia muito sentido agora, enquanto estava nos braços dele.
— Você é maluco. — Murmurou para ele, tentando não sorrir de felicidade.
— Por você, eu suponho. — E agora ele sabia muito bem como arrancar um riso seu. Estava rindo alto nos braços dele de alguma coisa, totalmente esquecido do ambiente quando a sala foi invadida às pressas por Ivan, que dizia ter um recado importante para o Veryasky.
Não se conteve em segui-los, de maneira preocupada e Sage lia uma carta, logo amassando-a em suas mãos e correndo para algum lugar.
— O que houve? — Gritou sem entender, ainda tentando acompanhá-lo.
— Atacaram minha família na fronteira. Eu preciso ir.
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A cidade parecia como uma revolução. Muitos cidadãos reagiram mal à notícia da junção das famílias Romanov e Veryasky, ainda que seu pai houvesse justificado com a paixão avassaladora que havia preenchido os herdeiros. Não adiantou.
Karênin estava preocupado, queria ir junto, seu coração batia na boca o tempo inteiro. Em algum momento, começou a chorar e não conseguiu parar mais, falando palavras desesperadas para Keane, que tentava acalmá-lo. Não sabia onde Sage estava naquele momento, mas provavelmente se preparando para ir embora. Ele iria se despedir, não iria…?
Só percebeu que não quando viu a comitiva de Sage no portão, pronta para partir. Karênin deu o maior grito que poderia sair de sua garganta e se desvencilhou do melhor amigo, correndo até onde o herdeiro Veryasky estava. Tremia inteiro, não só de frio devido ao rosto molhado e as lágrimas que não paravam de descer. Ele não faria isso consigo. Ele não iria embora sem se despedir. Sage desmontou do cavalo ao mesmo tempo que ele havia chegado perto, muito ofegante e se jogou nos braços dele. — Eu vou com você. Eu vou, só me espere. Você ia embora se sem despedir de mim? — Gritou de maneira alterada e batendo no peito do maior, sua voz falha devido ao choro.
— Não, Karênin. Me escute, meu amor. — Ele segurou em seu rosto com suavidade, fazendo-o olhar para si. — Eu vou voltar tão rápido que nem sentirás minha falta. Céus, por isso não queria me despedir, não posso te ver assim. Por favor, não chore. — Disse lamentando e o loiro somente soluçou ainda mais. Sage desferiu vários beijos contra o rosto molhado. — Você estará seguro aqui. Eu voltarei, Karênin Romanov. Casarei com você e farei você ter meus filhos. Por favor… Espere por mim.
Acabou engolindo com dificuldade, mas assentiu e tomou seu último beijo como uma esperança e vendo-o se afastar. Não sabia por quanto tempo havia ficado ali, encarando os portões sem responder ninguém que tentava conversar consigo e reagindo mal para quem tentava o arrastar. Todos haviam feito suas tentativas, inúteis. O sol estava nascendo quando seu pai se colocou ao seu lado e finalmente conseguiu sair do seu estado de torpor, encarando-o. O mais velho sorriu para si.
— Ele vai voltar. Se ele não voltar, eu terei perdido você, então eu não posso imaginar que isso vai acontecer.
O mais velho foi o único que conseguira o levar para cama e Karênin se deitou, sem conseguir fechar os olhos. Seu coração batia ao mesmo ritmo que o de Sage. Ele voltaria. Tinha certeza que sim. Assim como o mar era vasto e o horizonte longínquo. Ele iria voltar.
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Não sabia quantos dias se passaram ou quanto tempo levou. Karênin ostentava uma barriga de três meses agora, sempre em sua janela observando o horizonte. Estava proibido de montar, mal saía de seus aposentos. Recebia visita corriqueira de seus amigos e familiares, tentando não parecer tão afetado com a saudade, preocupação e medo que o assolava. Tinha medo de ser uma situação permanente. Tinha medo de nunca mais vê-lo. Tinha tantos anseios...
Até ver as bandeiras Veryaskys vermelhas no horizonte e cada vez mais próximas, vibrantes no adorno dourado que haviam nestas. Elas tremulavam com o vento, estendidas e bem erguidas para o céu, anunciando que o herdeiro primogênito e seu tão esperado noivo... Finalmente havia chegado.
