Chapter Text
Twinkle, twinkle, little star, how I wonder what you are (brilha, brilha, estrelinha, como eu me pergunto o que você é)
Mas a coisa é, a gente não faz mais isso. Se perguntar. A gente já não faz isso por um tempo porque a ciência já tem tudo descoberto. A humanidade foi longe demais, muito, muito longe, ultrapassou muitos limites sem retorno e continuaram puxando os limites até que os últimos pedaços e fragmentos da imaginação foram quebrados. As pessoas não se perguntam mais. As pessoas não sonham. As pessoas somente sabem.
Nós sabemos que tem outras 42, não 48, civilizações na nossa galáxia; Douglas Adams deve estar tão orgulhoso (e a equação de Drake foi sempre uma suposição de qualquer jeito, nem um pouquinho tão preciso quanto Ficção Cientifica). Mas de qualquer forma, a realidade sempre foi mais estranha que a mente tinha capacidade de imaginar. Talvez essa foi a razão pela qual ela parou de imaginar. Ela se cansou de ter sido superada.
“Jimin! Vamos! Você vai perder o jogo!”
“Cala a boca, eu já estou indo!” Jimin desce as escadas pulando e saltando, pulando pra tocar na moldura da porta de madeira mesmo quando ele se aproxima para se jogar no sofá velho e usando em frente de um projeto holográfico. Jungkook está sentado perto do sofá, roendo unhas. Jimin dá um tapa nele.
“Para com isso.”
“Você não é minha mãe.”
Jimin levanta uma sobrancelha, encarando o Jungkook. “Sério? Você realmente quer falar sobre isso?”
“Tá bom, tá bom, eu vou parar. Pera, pera, tá começando—eu juro por todas as galáxias do universo inteiro que se a Rússia ganhar outra copa eu vou enfiar um ônibus inteiro no meu cu.”
Jimin solta uma gargalhada e cutuca o Jungkook com o cotovelo, “Você tem certeza que conseguiria enfiar um ônibus ali? Sua cabeça já tá tomando tanto espaço ali dentro.”
Jungkook enfia a cabeça do Jimin pelo holograma e parece que a abertura do programa passa por sua testa.
Futebol zero-gravidade (algumas pessoas chamavam de futebol) está um pouco antigo, mas ainda é o favorito do público. Bem, o que resta do público. A maioria das pessoas já saíram da Terra e eles não conseguem receber sinais depois de Júpiter então não tem nenhuma chance da Classe alta assistir esse jogo. Não que a Classe Alta ainda assista futebol zero-gravidade. Eles provavelmente inventaram algo muito mais clássico e muito mais caro por agora.
“Eu costumava querer ser um jogador de futebol,” Jimin fala, se ajeitando no sofá, alcançando o pacote de salgadinho que estava perto do Jungkook.
“Pensei que você queria ser um piloto.” Jungkook nem tira os seus olhos do jogo, mas seus dedos continuam dentro do pacote de salgadinho e ele enfia uma mão dos biscoitos dentro da sua boca. Jimin dá de ombros. Ambos torcem quando a Coreia chuta a bola.
“Não você queria ser um piloto,” Jimin o corrige. Jungkook pausa com outra mão de salgadinho quase dentro da sua boca, sua testa franzindo um pouco.
“Ah, verdade, eu queria.” Então ele enfia os salgadinhos que estavam em sua mão, os comendo. Jimin está lambendo os dedos para limpar o sal, lambendo os beiços.
“Gol!” Jungkook soca o ao ar e Jimin amaça o saco vazio de batatinhas e joga sobre o holograma direto no lixo. O projetor chia enquanto o pacote se desintegra deixando uma pequena nuvem de oxigênio.
Em 22010, não tem muita coisa que os humanos ainda não tenham alcançado, não tem muita coisa que não tenhamos conquistado ou destruído. Não mais última fronteira da ciência porque isso foi anos atrás, literalmente. Porém uma coisa que não mudou – as coisas vivem, e as coisas morrem. E bom, se a Terra é um corpo vivo, então os humanos foram o câncer que a Terra não conseguia achar a cura. Portanto, ela está morrendo.
Mas não antes do universo lutar fortemente contra. Como você luta contra o câncer? Bom, radiação claro.
Quando a primeira onda de raios gama da estrela Eta Carinae atingiu, as pessoas não estavam preparadas, apesar de acharem que estavam. Bilhões morreram, milhões foram diagnosticados com doenças que acabaram em fatalidades. Plantas murcharam, pássaros e animais invadiram as estradas pelas centenas de milhões, os poucos cientistas que sobraram não somente riscaram o nome de espécies das listas, mas também arrancaram páginas inteiras e as queimaram. A população mundial foi cortada pela metade em uma noite praticamente, essa metade foi novamente dividida após os abalos da radiação, e dividida novamente pela chuva radioativa, reduzindo a população mundial para quase um oitavo do que costuma ser.
Todo mundo pensou que finalmente era a hora dos humanos partirem.
Mas câncer não é tão fácil de ser curado. Muito menos a humanidade.
Podemos chamar de resiliência, o mundo pode chamar de pestilência. De qualquer jeito, as pessoas que conseguiram sobreviver montaram planos, respostas, jeitos, como sempre fizemos, e a vida continuou, debaixo de roupas feitas para defletir os raios gama. Mecânicos e cientista até desenvolveram um jeito de transformar a radiação em energia utilizável e a civilização prosperou de novo.
Up above the world so high (Acima acima do mundo tão alto).
E foi aí quando realmente começamos a olhar para as estrelas. Foi aí que as pessoas começaram a perceber que nosso tempo aqui estava chegando ao final, e que se a gente não sair, o mundo iria morrer, e nós iriamos morrer junto com ele. Algumas pessoas podem chamar isso de um jeito nobre de ir embora, mas a maioria das pessoas só queria uma saída, a nobreza pode ir se ferrar no banco de trás.
Então, a Assembleia Mundial montou um plano, um plano desesperado, maluco, mas um plano de qualquer forma -mandar 42 embarcações no espaço, para as civilizações desconhecidas da nossa galáxia e rezar na esperança que alguns consigam sobreviver. É claro que existe civilizações mais seguras, aquelas que as pessoas conseguiram fazer contato, os sinais de rádio eram fracos, as mensagens eram estranhas, demoraram para ser decodificadas, mas contato foi feito. E, considerando a pequena população do mundo, não teria perigo dividir o resto do que sobrou do mundo em 42 embarcações diferentes e manda-los para fora. E foi exatamente isso que aconteceu.
Só que, é mais complicado que isso. Sempre é mais complicado do que isso. Como você decide quem vai primeiro? Quem pode ir para as civilizações mais “seguras”, e quem será mandado para a beira da galáxia sem saber se a embarcação vai conseguir chegar na civilização que a gente nunca nem conseguiu fazer contato?
Rebobina 20 mil anos, mais ou menos um século ou algo assim e uma embarcação chamada Titanic afundou para o fundo do oceano.
E, mesmo que a história não se repita ela com certeza rima.
Os ricos e influentes vão primeira, vão para o mais seguro. Os menos fortunados vão por últimos. É como sempre foi por toda a humanidade, e assim será até os últimos dias do mundo. Literalmente. Ah, as belezas das classes sociais.
Uma embarcação sai a cada 6 meses, mais ou menos, já que esse é o tempo que leva para recarregar a usina de energia com energia suficiente para lançar uma embarcação para o espaço longe o bastante para alcançar aonde ele tenha que chegar, a penúltimo embarcação saiu 6 meses atrás.
“3 pontos! A gente está na frente por três pontos!” Jungkook está balançando os ombros do Jimin. Ambos estão pulando para cima e para baixo no sofá. Ele range sobre o peso dos dois, mas aguenta.
“Mais 5 minutos e a gente vai terminar o primeiro tempo com vantagem de 3 pontos” Jimin grita para o Jungkook, e realmente, 5 minutos depois, o par está dando cambalhotas para fora do sofá, rindo e berrando. É a primeira vez em dois séculos inteiros que qualquer um a não ser a Rússia conseguiu vencer o Campeonato Mundial.
“Tem uma festa acontecendo na casa do Jackson hoje,” Jimin fala quando os comerciais aparecem. Eles estão repassando comerciais antigos de coisas ultrapassadas – tele portadores, aero deslizadores, etc.
“Sempre tem uma festa acontecendo na casa do Jackson.” Jungkook está procurando na cozinha por mais lanches, mas não acha nada. “Precisamos ir às compras.”
Jimin ri. “Com que dinheiro?”
Jungkook revira os olhos. “Quem precisa disso quando temos o desconto da mão boba?”
Jimin suspira. Jungkook pausa em sua última procurada na cozinha e olha para o Jimin.
“Ah, vamos lá, estamos fazendo isso por anos. Pensei que você já estaria acostumado por agora.”
Jimin resmunga e se joga de volta para o sofá, “Me chame de conservador, mas, sei lá, roubar não é algo certo pra mim.”
“E a gente tem outra escolha?” Jungkook volta para o sofá e se inclina nas costas do sofá, olhando para o Jimin. Os olhos dele estão iluminados com algo perigoso, algo demoníaco.
“Acho que não...” Jimin olha de relance para o Jungkook e bem nesse momento, Jungkook deixa uma maçã cair em seu rosto.
“Ai! Merda--! Isso doeu--ei, aonde você conseguiu uma maça?” Jimin levanta, esfregando seu nariz, a maça em sua mão, dura, macia e brilhante.
“Um cara na rua abaixo tinha um pomar-- Eu venho tomando conta de algumas coisas lá a noite, você sabe aquelas arvores que são perto o bastante para puxar a lona de gama? E você disse que sente falta de frutas e tal, então... é.” Ele vai diminuindo a voz no final, enrugando seu nariz e arrastando seu pé pelo chão.
“Aonde você aprendeu a jardinar?” Jimin pergunta, sobrancelha em perigo de desaparecer por entre sua franja, mesmo quando ele morde um pedaço da maçã e quase geme de satisfação. É tão doce, tão crocante, e agora, é a última coisa boa que resta nessa merda da Terra, exceto por Jungkook é claro.
Jungkook acena e desvia seu olhar, mencionado para Jimin o seguir. Eles andam pelo longo corredor da casa abandonada, chegando na porta que leva ao porão. Pela maior parte da estádia nesta casa, eles ainda não foram ali-- tem apenas algumas semanas que eles se mudaram e esticar lona sobre todo o teto é um trabalho muito entediante, mas completamente necessário para casas velhas como essa.
O porão é úmido e escuro. Jungkook aperta seu fusível de bolso e a sala se ilumina com uma suave iluminação azul.
“Uou...” Os olhos do Jimin crescem.
“Né?” Jungkook responde, sorrindo enquanto ele levanta o fusível mais alto para iluminar a sala. O porão é de calcário cheio de livros. Envoltos em acrílico e fechados fortemente em caixas transparente de liga metálica. Livros, como aqueles que eles viam somente em museus e em projetores holográficos (antigamente quando eles ainda iam para as aulas da escola pública). Centenas e centenas de livros, seus títulos empilhados em letras, alguns reconhecíveis, outros em línguas que foram perdidas pela devastação dos tempos e a cruel mudança.
“Esse aqui, é sobre jardinagem. Eu achei noite passada quando você me acordou por ter roncado muito alto,” Jungkook diz, se agachando para puxar a tampa de uma caixa de acrílico, tirando um livro esfarrapado com uma capa amarela com listras pretas. Jardinagem para idiotas.
“Idiotas?” Jimin lê, rindo, mas Jungkook dá uma cotovelada nele e olha novamente para o livro. As páginas cheiram como história, história de verdade, e estórias. Muitas, tantas estórias.
“Bem aqui tem um capitulo sobre macieiras, e bem aqui... tem essas frutas que se chamavam “cerejas” antes da primeira onda. Você sabe.”
“Eles parecem gostosos.”
“Parecem mesmo,” Jungkook fala enquanto vira outra página, os dois sentam no chão coberto de poeira, um fusível de bolso entre eles, amontoados sobre as páginas do livro que possui histórias sobre as pessoas de mil anos atrás.
Eles perdem o jogo inteiro de futebol e a festa do Jackson, mas nenhum dos dois se lembram de se importar com isso.
Like a Diamond in the sky (Como um diamante no céu).
A noite é o único tempo que é realmente seguro sair sem ter que usar uma roupa pesada cheia de tecidos. Normalmente a noite Jungkook e Jimin se encontram deitados sob o telhado, olhando paras as estrelas, e hoje à noite, não há nada diferente.
“Qual você acha que a gente vai?” Jimin pergunta.
“Aquela,” Jungkook responde, apontando.
“Hm... aquela não parece tão boa assim, que tal aquela?” Jimin aponta para outra estrela.
“Qual o problema com a que eu escolhi?” Jungkook deixa sua mão cair.
Jimin dá de ombros, “Nada, eu só gostei mais daquela.” A mão dele cai também e suas palmas se acham, se apertando, dedos entrelaçando.
“E se eu quisesse ir praquela que eu escolhi?”
“Então eu iria com você.”
“Mesmo você gostando mais da outra?”
“Claro.”
Silêncio.
Jungkook aperta os dedos do Jimin, se virando para olhar pra ele.
“A gente pode ir pra sua estrela.”
“Eu pensei que você tinha gostado mais da outra,” Jimin sorri, virando sua cabeça para poder olhar nos olhos do Jungkook.
“Nah, mudei de ideia.”
Jimin aperta a mão dele de volta. Eles fecham os olhos e adormecem ao som do vento pelo ar, mais denso do que era antes, mais solido ao deslizar por suas bochechas e por sua pele, puxando seus cabelos com seu longo, magro dedo, puxando bem nas beiradas dos seus sonhos. Eles dormem com o som da respiração de ambos -a última música que o mundo vai cantar.
A manhã vem com o raro som do canto dos pássaros, já que os humanos não são as únicas criaturas resilientes, e Darwinismo ainda é relevante, com radiação gama ou sem. As coisas aprendem e morrem e se adaptam, as coisas crescem e mudam e se transformam. As coisas procuram mais formas de sobreviver, para viver.
“Acorda, vamos, o sol vai aparecer logo e a gente vai queimar aqui se a gente não entrar logo.” Jungkook está puxando os braços do Jimin. Jimin se move bocejando alto e pisca os olhos em direção ao Jungkook, um sorriso pequeno em seu rosto.
“Bom dia.” Sua voz está pesada e pegajosa.
“Bom dia,” Jungkook fala sem emoção ao puxar de novo o braço do Jimin, olhando para o horizonte. A cada segundo que passa fica mais claro e eles precisam entrar dentro de casa rápido se eles não quiserem queimaduras de segundo grau. A atmosfera se deteriorou tanto ao longo dos 20 mil anos que a única razão pela qual o oxigênio ainda é o suficiente é por causa da grade fina de nano fibras entrelaçadas e colocadas por cima do mundo inteiro para manter os átomos de oxigênios dentro, mas elas não foram feitas para manter os raios solares prejudiciais fora. As roupas e as lonas foram feitas por essa razão e ficar no sol por muito tempo, até mesmo pelo tempo que eles ficaram, pode ser fatal.
“Tá bom, tá bom, eu já acordei, estou em pé.” Jimin se levanta, juntando as colchas, quase caindo quando Jungkook o puxa para beirada do telhado, saltando para a escada que leva para o solo, pulando os dois últimos degraus e caindo no chão e rolando. Jimin o segue depois, ainda bocejando, em um ritmo definitivamente mais lento, e Jungkook está batendo o pé um quilometro por hora, segurando a porta aberta para o Jimin para quando ele entrar.
“Tão cavaleiro,” Jimin fala, a voz ainda sonolenta e macia.
“Eu tento,” Jungkook responde, revirando os olhos.
Jimin coloca a colcha no sofá e se enrola nela de novo, lá fora o sol já está saindo, as janelas estão escurecendo para deixar os raios prejudiciais fora da casa, Jungkook balança o Jimin pelos ombros.
“Levantaa, eu pensei que a gente ia ler hoje.”
Jimin resmunga algo e bate na mão do Jungkook, o qual suspira e se aproxima.
“Mais uma vez numa língua que eu entenda?”
“Você pode... ler... eu vou... dormir.”
“Ugh,” Jungkook deixa um grunhido exasperado e se empurra para fora do sofá. Jimin quase não registra o tumtumtum dos passos do Jungkook descendo pelas escadas para o porão, ou os passos, definitivamente, mais lentos quando ele sobe as escadas de volta para a sala. Mas, sim, ele sente o sofá afundando sob um peso muito mais pesado que ele sabe que o Jungkook pesa. Jimin espia Jungkook com um olho meio aberto. Jungkook tem uma pilha de livros em seu colo, o Jardinagem para Idiotas no topo, com a cara enfiada nele.
Jimin fecha seus olhos, “O que ele fala?”
“Eu pensei que você queria dormir.” A voz do Jungkook é sem emoção, mas seu tom mostra que ele está orgulhoso de si. Ele ama se sentir orgulhoso.
“Eu quero.”
“Então por que você quer saber o que o livro fala?”
“Curiosidade.”
“Como você vai ler se você está dormindo?”
“Lê em voz alta.”
“O quê?”
Jimin abre um olho de novo, um sorriso escapando de seus lábios, “Leia em voz alta. Então eu vou saber o que o livro fala e eu não vou precisar lê-lo sozinho. E eu gosto da sua voz-- você tem uma voz boa. Eu escuto você cantando nos banheiros públicos o tempo todo.”
Jimin não saber dizer se é a luz da manha atingindo o rosto do Jungkook no ângulo certo, ou se ele está corando muito forte, mas o efeito é legal. As bochechas do Jungkook estão em um tom suave de rosa matinal mergulhando em ouro enquanto ele respira fundo e abaixa seus olhos para a página.
Jimin nunca soube tantas coisas sobre flores de cerejeira, mas ele acha que mesmo que elas sejam tão lindas assim, elas nunca vão ser mais bonitas que o rosto corado do Jungkook naquela manhã.
“Eu decidi que as flores de cerejeira são minhas flores prediletas,” Jungkook diz aquela noite, seus ombros encostados, olhando para o céu à noite.
“Você ainda nunca viu um em vida real.”
“Sim, eu sei, mas eu os vi naquele livro e eles são bem bonitos. E talvez quando a gente chegar no novo planeta e fazer novos amigos com as pessoas de lá, a gente pode convencê-los a plantar alguns.”
“Jungkook, você sabe que eles estão extintos né? Aonde você vai conseguir as sementes?”
Jungkook vira sua cabeça para encarar Jimin, “Você quer me dizer que a gente foi capaz de construir geneticamente seres humanos, controlar o genoma inteiro até a última letra, e a gente não é capaz de reproduzir uma semente de árvore de cereja para plantar em qual planeta que for que a gente vai pousar?”
“Espero que seja- eu estou tentando começar o primeiro time de futebol zero gravidade lá.”
“Tudo que você precisa é de uma bola e um espaço zero gravidade. Isso pode ser feito literalmente em qualquer lugar no espaço porque sem gravidade no espaço, lembra?”
“É, mas imagina o quão legal seria ter jogos, tipo, aliens contra humanos?” Jungkook está sorrindo grande.
“Você é tão estranho-- um segundo você está falando sobre plantar árvores de cereja, no outro você está falando em orquestrar jogos de futebol sem gravidade entre duas espécies.” Jimin balança a cabeça e solta um riso.
“O que posso dizer? Eu sou um homem de muitos interesses.”
Jimin ri, mas acaba se tornando em outra gargalhada e ele está acenando com a cabeça, “É claro que você é-- ei,” ele levanta a cabeça da colcha e alcança um livro atrás do Jungkook, um livro fino, e abre a capa, pegando um fusível de bolso para iluminar as páginas.
“Qual é esse?” Jungkook pergunta, virando de estômago para baixo, queixo pousando no ombro do Jimin.
“O Pequeno Príncipe,” Jimin responde, apontando para uma imagem de um menino pequeno e louro encima de um planeta com flores e pequenas montanhas.
“Ele é bom?” Jungkook perguntas enquanto o Jimin vira a primeira página. Ele dá de ombros.
“Não sei ainda.”
Quando eles terminam o livro, os dois sentem que seus corações vão sair por suas bocas e eles vão dormir prometendo que irão sempre amar o amanhecer mais que o pôr do sol. E Jimin decide que aquele é seu livro preferido de todos os tempos.
Noticias voam por todos os dispositivos holográficos no mundo inteiro-- a ultimo embarcação irá sair em dois dias. Traga somente o necessário e nada mais. Suprimentos serão providenciados na embarcação e particionado depois que a contagem per capta for terminada. Por favor chequem para ter certeza que você está registrado na lista de nomes que confirmam o seu espaço dentro da nave espacial.
“A gente confirmou, né?” Jimin pergunta, olhando por cima do Aventuras de Sherlock Holmes. Jungkook está sentado do outro lado do sofá, acelerando sua lida em Harry Potter e as Relíquias da Morte.
“Hm? Ah-- sim, estamos. A gente tem o espaço atribuído confirmado também, a mesma cama beliche. Mas eu usei nossos nomes que estavam na certidão de nascimento,” Jungkook fala com um sorriso tímido, “então a gente vai ter que checar em linhas diferentes, mas a gente vai se encontrar depois lá dentro.”
“Ótimo,” Jimin diz, os olhos abaixando de volta para as páginas do livro.
Dois dias se passam cheio de palavras, mais rápido que uma passada de página.
O horário limite para check-in estão bloqueados, sobretudo para que as estações de tele portagem não sobrecarreguem, e muitas pessoas tentando acessar o mesmo lugar pode causar erros no sistema (terríveis acidentes no passado). Jungkook e Jimin estão programados para o ultimo lote de pessoas saindo.
“Órfãos, duh,” Jungkook diz quando Jimin pergunta o por quê de eles sempre serem os últimos da fila em tudo.
“Ah sim, claro,” Jimin diz, se escorando em Jungkook, assistindo o relógio da parede contar as últimas horas da Terra. É estranhamente simbólico que as últimas pessoas da Terra sejam aquelas na última camada social, desajustados e órfãos.
Quando finalmente chega a hora, eles decidem deixar os livros para trás. Eles são pesados e não vale a pena ao teleportar-- pode ferrar com o algoritmo se as suas massas estiveram muito diferentes e eles não podem usar um tíquete inteiro de teleportagem só para os livros, eles só possuem dois tíquetes.
“Eu vou te encontrar lá certo, okay?” Jungkook fala, acenando sua mão enquanto ele entra na fila dos J’s.
“Sim!’ Jimin entra na fila dos P’s. As linhas são longas, mas elas andam em um ritmo moderado. Mesmo assim, já passou uma hora e Jimin sente que eles não se moveram tanto assim. Algo se move embaixo do seu pé ao andar na fila e ele olha para baixo. É um tíquete de teleportagem. Ele se abaixa para pega-lo e sorri se virando para o homem velho que está atrás dele.
“Será que você poderia guardar esse lugar pra mim? Eu esqueci algo em casa e eu preciso correr pra pegar.”
O homem acena com a cabeça e sorri. Jimin se curva e corre para a estação de teleportagem mais próxima.
Jungkook finalmente consegue passar pelo mar de pessoas dentro da embarcação, puxando as pessoas até ele chegar no quarto beliche deles. É pequeno, tão pequeno quanto um guarda-roupa, com apenas duas camas e uma pequena luminária anexada em cada cama juntamente com necessidades básicas para o dia a dia. Tem dois conjuntos de roupas dobradas impecavelmente colocadas na coberta da cama. Nenhum dos dois foi tocado ainda. Jungkook está inquieto, ele olha para cima e para baixo no corredor estreito antes de decidir se trocar e depois ir procurar Jimin.
A sala bagunçada é só isso, uma bagunça e Jungkook pega duas maças, colocando uma em seu bolso, já mastigando a outra enquanto ele anda pelas vastas mesas e bandejas rotativas, enchendo seus braços com mais comida que ele jamais teve. Ele despeja tudo em uma mesa e então olha ao redor da sala-- nenhum Jimin a vista. Seu estomago aperta, mas ele deixa pra lá. Tem praticamente 10 mil pessoas nessa embarcação, é claro que ele não vai achar o Jimin assim tão rápido. Mas seria bom se ele conseguisse.
Ele vai estar aqui quando formos dormir, ele adora demais dormir para perder isso, Jungkook pensa enquanto termina de comer sua maça e procede em comer o resto da comida até ele não poder colocar mais nada para dentro. A espaçonave grunge ao dar inicio e as pessoas começam a comemorar quando finalmente começa a levantar. Jungkook pega o tanto de comida que ele consegue em seus braços e volta para o quarto beliche, jogando toda a comida na cama mais baixa antes de subir na escada portátil para espiar a cama do Jimin.
As roupas ainda estão dobradas, as linhas ainda impecáveis e sem rugas.
O rosto do Jungkook se contorce. Por que o Jimin não se trocou ainda? Ele não pode aproveitar isso estando nessas roupas velhas que eles estavam vestindo. Algo preocupante e cada vez mais desagradável surge no fundo da mente do Jungkook, mas não pode ser. Ele suspira fundo e vai em direção ao comando central.
A cabine está protegida por um conjunto baixo de cordas metálicas para que as pessoas sentadas no salão gigante possam ver o que está acontecendo dentro, até falar com a equipe se quiserem, ficar de olho no horário de chegada e checar o processo pela galáxia. A embarcação limpou a atmosfera da Terra e está lentamente indo em direção a Marte. Quando eles passarem pela última lua de Júpiter, e somente aí eles poderão viajar em velocidade-luz. Qualquer tempo antes disso e a energia da embarcação pode afetar as forças gravitacionais dos primeiros quatro planetas e a meta é deixar tudo o mais intacto possível.
“Ei, licença? Hum, todo mundo conseguiu entrar nessa embarcação?” Jungkook se coloca dentro da plataforma elevada e é acolhido por um rapaz com um rosto gentil de sorriso firme.
“Não tivemos a oportunidade de recontar os dados ainda, mas isso não deve levar mais que uns minutinhos. Tem alguém que você está procurando?”
“Sim, Jimin, Park Jimin,” Jungkook fala, levantando seus dedos para os lábios com a intenção de roer suas unhas, mas ele se para no último segundo e abaixa sua mão.
“Um nome bem comum,” o home diz, pegando a lista com os nomes e os lendo. Jungkook o observa, inquieto.
“Você sabe a idade dele?”
“Hm... não? Somos órfãos... não contamos isso.”
“Ah, eu sinto muito por ouvir isso,” a voz do homem se torna mais suave junto com seus olhos ao abaixá-los de volta para a lista. Pequenas marcas verdes marcam cada nome e Jungkook está na esperança de que um deles seja o Jimin. Seu Jimin.
“Da onde ele é?”
“Busan. É um pequeno distrito—nós dois somos de lá—”
“Ah sim,” o homem responde, acenando enquanto a deslizamento da lista diminui e ele pausa em uma pequena marca X vermelha do lado de Park Jimin, Busan. Seu rosto se contorce, “Parece que ele perdeu o check-in, mas eu tenho certeza que depois da segunda rodada de confirmações nós vamos o encontrar. Ninguém nunca perdeu a embarcação desde que a terceira partiu.”
Jungkook respira fundo pelo nariz. Seu coração está batendo forte podendo ser sentido em suas têmporas e seus dedos estão gelados, seu pescoço fervendo, o espaço em sua volta não tem oxigênio suficiente e ele sente sua visão saindo e entrando de foco.
“Só mais um minuto antes da segunda rodada de confirmação chegar,” o homem diz, clicando no botar de atualizar no topo do lado direito da lista.
Jungkook fecha seus olhos e tenta se manter calmo, tenta não tropeçar e cair da beirada da plataforma elevada. Isso não pode estar acontecendo.
“Ah...” o tom de voz do homem não está nada bem.
“O quê” Jungkook pergunta, olhos abrindo. Ainda tem um pequeno x vermelho do lado do nome do Jimin.
“Parece... parece que ele não entrou na embarcação. E a contagem de pessoas final bem que veio com uma pessoa faltando.”
“O que você quer dizer ele não entrou na embarcação?” Os dedos do Jungkook se fecham, sua voz grave e tremula enquanto sua mente se enche de barulho e se apaga em um campo de ruído branco, fogo colidindo e derretendo até ele não conseguir pensar por causa da onda de sangue atrás das suas orelhas.
“Ele... ele não está na embarcação. Me desculpa.”
“Desculpa? Por que você está se desculpando?” Jungkook pisca e se força a respirar de novo, sua mente tentando desenrolar pedaços de logica que estão se amarrando em sua garganta a apertando forte, “a gente só tem que virar a embarcação e ir pegar ele.”
“Eu... eu sinto muito mesmo, mas não podemos fazer isso.”
“Por que não?” Seus dentes estão rangendo tanto que as palavras quase não saem com coerência.
“A gente não pode voltar e pousar a embarcação de novo—”
“Por que caralho não pode?” Jungkook anda um passo a frente e imediatamente, outro homem aparece ao seu lado, alto e com ombros largos, colocando uma mão firme no braço de Jungkook.
“Por favor, senhor, seria inteligente se você se acalmasse.”
“Você deixou meu amigo para trás” Meu amigo está lá” Na Terra, a última pessoa na Terra e você o deixou lá!” A garganta do Jungkook dói com as palavras que saem já que ele está berrando, mas ele não consegue as ouvir porque o som do seu medo, sua agitação, sua descrença, toda santa emoção que ele nunca achou que poderia sentir estão surgindo em suas artérias e ossos, borbulhando por cima e descendo em sua espinha, curvando em sua caixa torácica comprimindo seu pulmão, sua garganta, seu coração, seu coração, seu coração.
Tem lágrimas escorrendo em seu rosto. Ele não percebe até que ele começa a senti-las em seus lábios.
“A gente tem que voltar! Meu amigo—meu melhor amigo está lá! A gente precisa voltar!” Ele está tentando escalar para a cadeira do piloto, como se ele pudesse fazer a embarcação virar ele mesmo, mas o outro homem está prendendo-o fortemente, segurando ele com uma mão em sua cintura.
“Não podemos,” o primeiro homem diz, voz embargando mas com um tom final, “porque vai levar outros seis meses para o bloco de lançamento recarregar de novo, e...e” sua voz diminui e ele engole em seco—Jungkook deixa um soluço quebrado e enraivado sair—“e a gente desligou os geradores da grade atmosférica quando saímos. A gente assumiu... assumimos que não seria mais necessário, dadas as... circunstancias. Então o suprimento de oxigênio vai estar esgotado pela manhã.”
“V-você... você desligou o...” O choro do Jungkook fica preso em sua garganta.
“Eu sinto muito... não tem nada que podemos fazer.”
“Que se foda—que se foda—nós vamos voltar! Eu não ligo se vai levar outros seis meses—nós podemos ficar nessa merda de embarcação se tivermos que—” ele está balançando sua cabeça como se isso irá livrá-lo de todas as verdades que estão derramando em sua bochecha para o chão, balançando sua cabeça como se isso fosse ajudar a limpar as inúmeras memorias com o Jimin. Jimin e seu riso como aquele espaço entre fechar os seus olhos e adormecer. Jimin com suas mãos que são tão pequenas mais forte o suficiente para tirar o ar do peito do Jungkook como daquela vez que eles tentaram se ensinar a boxear de um livro. Jimin com seu sorriso como o amanhecer e seus olhos como estrelas. Como diamantes no céu.
“Ele é só uma pessoa,” o primeiro homem diz, e parece que ele está tentando se convencer mais do que ninguém, “não podemos botar em perigo a vida de milhares de pessoas por causa de uma pes—”
“Mas ele é minha uma pessoa—ele é minha única pessoa...” O corpo do Jungkook se amolece e o braço em sua cintura afrouxa. Uma multidão está reunida no salão, assistindo a cena inteira se desenrolar como um espetáculo nojento de show de circo.
“Ele é a única família que eu tenho... que eu jamais tive,” ele quase não ouve suas próprias palavras sob o som da sua respiração, mal consegui senti-las sob a tristeza que está se colocando em sua língua e o sabor que resta tem gosto de um ruim, ruim pesadelo que se recusa a ir embora.
“Cê... não tá falando de um gurizinho, da sua idade... menor, com bochechas gordinhas, num é?” Um homem velho saiu da multidão. As pessoas estão cochichando e resmungando, dando um passo atrás para dar espaço.
A cabeça do Jungkook se levanta e ele quase cai da beirada da plataforma. “Sim! Esse é ele! Você o viu? Ele está aqui? Cadê ele? Ele—”
“Falou que tinha que pegar um negócio que deixou numa casa... parecia super importante e pediu pra guardar seu lugar na fila. Nunca o vi de novo.” O senhor mexe no chapéu em sua cabeça e dá um longo suspiro.
“E você o deixou ir assim mesmo?” Jungkook tenta se jogar pra frente, mas os braços fortes do segundo homem acham seu lugar em sua cintura novamente e tira o ar do seu corpo.
“Podemos tentar fazer contato com rádio,” a voz do primeiro homem diz atrás do Jungkook. É suave, implorando, quase desesperador. Eles podem tentar o quanto quiserem, mas corações ainda são feitos de coisas macias, tecido e sangue e músculo. Coisas que se machucam com facilidade. Coisas que tendem a deixar uma cicatriz ao invés de curar. “Isso seria bom?”
Jungkook está buscado por ar que não está ali, mas ele acena sua cabeça. Ele acena e acena e acena.
Depois de sussurros agitados em uma língua que o Jungkook jura que não conhece, e uma bagunça de bips e cliques e estática, o primeiro homem fala em um pequeno microfone com uma corda longa.
“Olá? Tem alguém aí? Alguém me escuta?”
E aí, como um fragmento penetrante de claridade, doloroso o suficiente para esvaziar a mente, a voz Jimin aparece.
“O-olá? Tem alguém aí? Alô?”
“Jimin! Jimin, porra, Jimin, você consegue me escutar? Você consegue me escutar? Jungkook agarra o microfone quando o homem o entrega e o aperta sobre sua boca como se pudesse salvar ele e todo mundo dentro dessa embarcação.
“Não vamos poder te colocar numa linha privada porque o sinal está muito fraco,” o homem sussurra, perto do ouvido do Jungkook, “e assim que passarmos da lua de Júpiter nós vamos perder o sinal de rádio... mas você tem um pouquinho de tempo.”
Jungkook acena sem realmente ouvir as palavras, muito atento no barulho de respiração que está saindo dos grandes alto falantes no alto. Ele quase pode ouvir a batida do coração do Jimin, consegue senti-la embaixo da sua bochecha enquanto pressiona seu rosto na parede fria tentando acalmar seus soluços.
“Jungkook? Merda—é você?”
“S--sim, sou eu. Que merda você voltou pra pegar? Você sabe que perdeu a embarcação, né?”
“Sim... descobri isso sozinho. Eu... eu peguei um tíquete de teleportagem no chão e achei que... bom, você disse que queria plantar cerejeiras quando chegássemos nesse novo planeta, certo? Então... Eu voltei pra pegar seu livro de jardinagem.” Ele soa tímido; Jungkook quase consegue ver o pequeno sorriso envergonhado em seu rosto enquanto ele coça a parte de trás do pescoço.
“Você voltou pra pegar um livro?” Jungkook solta uma risada engasgada e deixa sua cabeça cair de volta na parede, suas costas pressionadas nela, joelhos pressionando seu peito.
“Eu queria te fazer uma surpresa.”
Jungkook sente lagrimas dançando nas beiradas dos seus olhos de novo ao pegar um pequeno, fino livro do maior bolso da sua nova calça. O Pequeno Príncipe. “Eu também.”
Silêncio enche a sala; ninguém está falando, todos estão olhando para o garoto agachado na parede, segurando o telefone em sua bochecha, um livro em seu colo e um oceano inteiro preso em seus cílios.
“Nós estamos voltando pra você,” Jungkook diz, limpando suas lagrimas. O primeiro homem vira e está quase para falar algo, mas o Jungkook passa a mão em seu pescoço algumas vezes—não faça nada. O homem se acalma e fica quieto.
“Estão?”
“É claro que estamos. Eu mesmo vou pilotar essa merda de embarcação se eu tiver que.”
“Você sempre quis ser piloto.”
“Eu queria,” Jungkook diz, um pequeno sorriso apertando seus lábios. Jimin sempre se lembrava, mesmo quando Jungkook não se lembrava, “e agora eu vou—eu acho que sonhos realmente se tornam realidade.”
Dessa vez, Jimin ri. E para Jungkook, isso soa como condenação. Soa como salvação.
“Mas vai levar um tempo, nós estamos bem longe, então... você deveria dormir ou sei lá. Você ama dormir.”
“Sim...”
“Jimin?”
“Sim?”
“A gente... nós vamos chegar aí pela manhã. O capitão prometeu.” Jungkook morde forte sua língua. O capitão tem um par de fone de ouvido, mas ele olha de relance com um pequeno triste sorriso antes de seus olhos voltarem a focar nas 20 ou 30 telas em sua frente. Um erro momentâneo e todo mundo nessa embarcação já era. Jungkook pensa que talvez isso não seja tão ruim agora.
“Ele prometeu?”
“Sim, ele prometeu, então você deveria descansar. Você tem que acordar no meio da madrugada e eu sei que você é péssimo em acordar sem mim.”
Jimin ri de novo e Jungkook engole em seco, deixando seus olhos fecharem. “E é melhor você segurar esse livro. Nós vamos precisar dele quando pousarmos no novo planeta.”
“Eu não vou perde-lo, eu juro.”
“Ótimo.”
Outro silêncio. Jungkook absorve os sons da respiração do Jimin e se pergunta se ele poderia desistir da sua por Jimin. Se ele segurasse sua respiração por tempo o suficiente, ele poderia de alguma forma enviar sua última respiração pelo auto falante para Jimin, para deixá-lo vivo até—
“Que estrela você está indo?” Jimin pergunta, quebrando o silêncio. A voz dele está confusa com a estática. O homem aponta para uma tela com o mapa do sistema solar. A embarcação passou da primeira lua de Júpiter.
“Sua estrela. Estamos indo para sua estrela,” Jungkook responde, deixando sua cabeça cair por entre seus joelhos tentando controlar sua respiração, “Aquela que você escolheu naquela noite que a gente estava no telhado.”
“Sério?”
“Sim, vai ser uma viagem longa então você deveria—”
“Descansar bem, eu sei, eu sei,” A voz do Jimin é indulgente e se infiltra na pele do Jungkook, pegajosa como o suco da maçã que escorrega por entre seus dedos quando você dá uma mordida muito grande.
“É o pôr do sol agora, sabia,” Jimin diz depois de um pequeno intervalo. A estática está ficando pior, silabas sendo cortadas. Jungkook olha para a tela—quase na metade do caminho pela última lua de Júpiter.
“É bonito?” ele pergunta, passando seu dedo pela capa do Pequeno Príncipe, tracejando o título.
“Muito bonito.”
“Amanhecer ainda é mais bonito,” Jungkook responde, mas ele ouve sua própria voz embargando e engole em seco de novo.
“Tá ficando escuro... e frio,” Jimin diz, e pela primeira vez, Jungkook consegue ouvir a voz do Jimin vacilar, e não é por causa da estática.
“Você deveria dormir, fecha os olhos e durma. Você está em casa, né?
“S-sim... o sofá é bem grande quando você não está me puxando pra fora dele.”
Jungkook ri e fecha sua mão livre tão forte que suas juntas ficam brancas, “Bem, você tem ela só pra você hoje.”
“Jungkook?”
“Tô aqui.”
“Eu... eu tô com medo.”
“Não fique,” Jungkook luta e luta e luta para que sua voz fique estável. Mais três luas. “Eu estou bem aqui, tudo bem? Bem aqui. Hum...” ele tenta achar algo para falar, olhos pousando na grande janela que mostra o universo a fora. “Fecha seus olhos e tenta dormir. Eu vou cantar pra você, tudo bem? Você disse que sempre quis me ouvir cantar.”
A respiração do Jimin vem em um pequeno soluço, “Sim... Eu acho que sonhos realmente se tornam realidade.”
“Se deite e feche seus olhos, okay?” Mais duas luas. A multidão se desloca. O senhor que está na frente tira seu chapéu e o pressiona em seu peito, olhos no chão.
“Okay.”
“Brilha, brilha, estrelinha—” Jungkook deixa um pequeno soluço escapar. Eles estão passando pela última lua. A voz do Jimin ecoa com estática do auto falante—
“Como eu desejo saber o que você é—"
