Work Text:
All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?
Don't call me by my name
All of this is temporary
Watch as I slip away
For your sake
Take what you want, take what you can
Take what you please, don't give a damn
It's in the blood and this is tradition
Rare is this love, keep it covered
I need you to run to me, run to me, lover
Run until you feel your lungs bleeding
And I know it's over
A parting of ways
And it's done
But didn't we have fun?
Don't say it was all a waste
Didn't we have fun?
Desde o primeiro dia em Hogwarts, os professores informam que o sétimo ano seria, de longe, o mais complexo. Você estudando ou não, você tendo boas notas ou não, você sendo de uma longa linhagem de bruxos ou não. Ninguém se salva do sétimo ano sem alguma cicatriz.
James riria e Sirius reviraria os olhos para os avisos de Minerva McGonagall. Eles dois tinham crescido em famílias que não usavam varinhas para feitiços complexos, nada poderia os desestruturar. Exceto o que podia.
Começando, primeiro, pelo fato de que James estava namorando.
Depois de tantos anos insistindo que conseguiria atravessar a parede de concreto duplo, Sirius se impressionava sempre que via seu melhor amigo de mãos dadas com Lilian Evans!
Muito bem, James estava namorando assim como Sirius estava há mais de um ano, assim como Remus estava há mais de um ano também, assim como Peter não estava tecnicamente ainda, mas no caminho. Isso não significava que tudo ia mudar.
É claro que só um namoro não poderia desestruturar James. Mas um namoro, o posto de capitão do time de quadribol e de monitor chefe poderia. Sem falar nos detalhes externos que Sirius não gostava muito de pensar, como a saúde de Euphemia Potter e a ascensão de Voldemort.
Tudo isso junto conseguiu provocar uma cena que Sirius nunca imaginou ver: James chorando antes de dormir.
28 de março de 1978
A Páscoa tinha sido dois dias atrás e o aniversário de James no dia anterior. Nenhum dos marotos tinha ido para casa no feriado, por isso nada parecia muito diferente.
Remus passava o dia estudando, se não em aula, nos grupos de estudo. Peter tinha se matriculado em um workshop de duelos que aconteceria todos os finais de semana até os NIEMs, marcados para o final de maio.
James, infelizmente, precisou ficar, afinal ele era o monitor chefe. E, sem ele, Sirius não via motivo para voltar para Godric’s Hollow. Mentira, motivos ele tinha, mas ainda sentia que não era tão da família assim para visitar os Potter sem seu filho.
Sirius estava sentado na cama de seu namorado revisando as anotações que tinha feito das aulas daquele dia. Sabia que Remus só voltaria do grupo de estudos de Transfiguração depois da meia noite, mesmo assim, cada barulho dentro do dormitório enchia Sirius de esperança. Naquela altura do ano, ele e Remus se viam somente nos almoços e jantares e nas três aulas que tinham juntos durante a semana: Estudos Avançados de Poções, Defesa Contra as Artes das Trevas e Estudos Avançados de Aritmancia.
A porta do dormitório abriu e James entrou sem levantar os olhos do chão, caminhando até a cama, sem responder a saudação de seu amigo. Chutou os sapatos, despiu-se da capa da Grifinória e caiu de cara no travesseiro, acenando com a mão para que as cortinas fechassem.
Sirius olhou naquela direção por alguns segundos, ponderando se deveria ou não checar seu amigo, quando ouviu um soluço.
Escorregou para fora da cama de Remus em silêncio e caminhou até James. O dormitório estava quieto por enquanto, Peter provavelmente dormindo, Frank no banho. Ainda em silêncio, Sirius ergueu uma mão para a cortina ao redor da cama de James, abriu, entrou e fechou novamente.
- Prongs…
O outro murmurou algo contra o travesseiro.
- Desculpa, eu não falo essa língua…
James levantou o rosto do travesseiro e repetiu. - Só preciso dormir, Black.
- Oh, uau. Se você acha que me chamar assim vai me mandar embora, tenta mais. Vai pro lado, Potter.
James bufou, mas rolou na cama mesmo assim. Sirius deitou ao lado dele e os dois ficaram naquela posição, como dois ás de paus , olhando para o teto do dossel. Frank saiu do banheiro e Sirius silenciou as cortinas.
- A gente deveria ter ido para casa. - James falou, de repente. - Ou pelo menos você.
- Eu não ia te deixar aqui sozinho. E você não tinha como ir.
- Mamãe é mais importante do que me fazer companhia ou um distintivo de monitor...
Sirius engoliu em seco.
- Desculpa, você tem razão, eu deveria ter ido, desculpa…
- Eu não… - James bufou de novo. Dois dedos apertaram seus olhos por baixo dos óculos e Sirius sabia que ele estava tentando segurar o choro. - Eu não quero te culpar, não era a intenção. Eu só…
Ele parou de falar e Sirius virou a cabeça no travesseiro para encontrar os olhos de James em si.
- Tenho medo de não conseguir mais ver ela.
- James…
- E eu não tenho como ir agora… As provas são daqui dois meses, ou sei lá quantos dias. Quatorze? Lily acabou de me contar. E eu não vou conseguir ver ela até lá…
- Euphie vai ficar bem.
- Papai me mandou uma carta hoje, dizendo que ele não conseguiria vir para o último jogo de quadribol.
- Tudo bem, Jamie, ele esteve em tantos outros. Com certeza ele estaria aqui se pudesse.
- Mamãe me mandou uma carta também falando sobre uma amiga dela que está desaparecida. Ela é uma bruxa de sangue puro, uma senhora um pouco mais velha.
- Talvez ela tenha se mudado e esqueceu de avisar.
- Você está me ouvindo, Sirius? - James explodiu, de repente. Sirius pulou em um susto e os olhos de James encheram de lágrimas de novo. Ele mesmo tinha se assustado com aquela reação.
Sirius respirou algumas vezes e finalmente puxou James para deitar em seu peito. Circulou os dois braços nele, sentindo sua camisa do pijama molhar com um choro descontrolado, mas não se importou realmente. Nos últimos dias, Sirius teve que relevar muitas coisas que ouviu de seus amigos, assim como seus amigos tiveram que relevar muitas coisas suas também. Sabia que a tensão e o medo poderiam causar tudo isso.
Alguns minutos passaram quando sentiu que James não chorava mais. Outros minutos passaram quando sentiu que James ficou leve em seu peito, permitindo que o sono o levasse tranquilamente. Sirius sentiria o mesmo sono abraçar ele depois de um tempo, quando sua mente finalmente relaxou dos cenários surreais e macabros que sempre criava antes de dormir.
Se não fosse por Remus abrindo a cortina da cama de James, sabia que só levantaria dali na manhã seguinte.
- Ei, amor. Eu estava te chamando… Não tinha te encontrado na cama, nem no banheiro…
- Eu silenciei as cortinas. - Sirius sussurrou, percebendo que sua boca estava coberta pelos cabelos de James.
Remus olhou para o peito de Sirius e suspirou.
- Ele está bem? - sussurrou de volta.
- Não muito.
- Você quer ficar aí?
- Não! - Sirius falou rápido demais e se odiou. Talvez James ainda precisasse dele. - Quer dizer, eu quero. Mas também quero ficar com você.
Remus sorriu e se ajoelhou no chão ao lado do travesseiro. Passou os dedos no rosto de Sirius, tirando os cabelos de James do meio do caminho, e beijou sua boca de leve.
- Tá bem, mas pode ficar aí mais um pouco, enquanto eu tomo banho.
Sirius assentiu e sorriu. Remus fechou de volta as cortinas e seus olhos caíram em James. Não conseguia ver muito mais do seu rosto além dos cabelos e da sombra escura que tinha na cama. Respirou com dificuldade e o empurrou devagar de volta para o travesseiro. James tinha dormido com seus óculos, o que era mais comum do que ele gostaria.
Sirius tirou os óculos de seu rosto, deixando-os na cabeceira ao lado da varinha. Cobriu os ombros de seu amigo e saiu em um suspiro. Fez seu caminho de volta para a cama de Remus e começou a recolher todos os livros que tinha deixado espalhados sobre as cobertas.
Sua cabeça trabalhava em outro lugar, no futuro, onde todos eles passariam nas provas e os Potter estariam bem de saúde. Onde todos eles soubessem que não estudaram 7 anos só para morrer em uma guerra pronta para explodir.
- Terra para Sirius… Você foi longe dessa vez, querido.
Sirius levantou os olhos dos materiais que recolhia e encontrou Remus no outro lado da cama, a calça do pijama solta em sua cintura, a toalha úmida em suas mãos.
- Eu nem sei pra onde fui, Moons. - Sirius falou e sorriu sem graça.
Remus estreitou os olhos, mas aceitou. Pendurou a toalha no dossel, nos pés da cama, e escorregou para debaixo das cobertas, puxando Sirius consigo.
Os dois suspiraram, Sirius frustado, Remus extremamente exausto.
- Tem dias que eu me pergunto se meus músculos tem mesmo 18 anos ou 65. - Remus riu - Não consigo aceitar que eu esteja tão cansado sempre. Parece que acabei de caminhar por todo castelo, e correr ao redor do lago, e escalar todas as árvores da Floresta Proibida… E carregar Hagrid da cabana até aqui!
Sirius riu com a indignação de seu namorado e se levantou.
- Você só está estudando demais, amor. Vira, vou te fazer uma massagem…
Remus já tinha virado e mergulhado o rosto no meio dos travesseiros.
- Você é perfeito, Padfoot. Eu te amo. - Sirius ouviu. Claro que o que quer que Remus tivesse falado foi abafado pelas fronhas, mas Sirius gostava de imaginar.
- Eu também amo você. - Ele descansou um joelho em cada lado de Remus e sentou em suas coxas, com cuidado. Suas mãos estavam geladas em contraste com a pele quente do banho recente de Remus, o que tirou dele um gemido.
- Silenciador!
- Desculpa, Pete!
Sirius silenciou a cama e riu sozinho, sentindo Remus relaxar embaixo de si.
- Queria poder ajudar James de algum jeito.
Seu dedão passou por um músculo fora do lugar e Remus gemeu de novo.
- Aí, amor! - ele falou, afastando a boca dos travesseiros. - Exatamente aí! - Sirius apertou de novo e Remus choramingou; algum músculo no seu pescoço estalou em resposta. - O que você falou? - ele murmurou e voltou seu rosto para os travesseiros.
- Prongs, queria ajudar ele de alguma forma… Ele chorou, Moony, nunca vi ele chorar! Merlin!
Sirius acertou outro músculo e deixou um beijinho na pele de Remus quando o ouviu chorar com dor.
- Ele sente saudades de casa. Não pôde ir no Natal, nem na Páscoa. Euphemia tem mandado cartas para ele, atualizando sobre como está bem, se recuperando aos poucos, sabe? - Remus assentiu, mostrando que estava ouvindo - Ela também manda cartas para mim, você sabe. Sempre falando como está bem e feliz. Mas nas últimas duas semanas só pediu que eu cuidasse de James, pois ele parece sempre muito estressado. E eu não sei o que fazer.
“Normalmente uma pegadinha o acalmaria. Agora nem mais um beck faz isso. Eu peguei um seu, amor, mas prometo que vou repor”.
Remus suspirou, acenando uma mão no colchão, como se aquilo não fosse importante..
- Queria só… Fazer alguma coisa, sabe?
Remus assentiu, respirou fundo e afastou a boca do travesseiro de novo.
- Levanta um pouco, Pads.
Sirius levantou sobre seus joelhos e Remus se virou entre suas pernas. Sirius sentou de novo nas coxas de seu namorado e deixou suas mãos escorregarem pelo peito de Remus até seu pescoço, massageando com calma.
Remus fechou os olhos e suspirou de prazer. Ainda sentia dor, mas não tinha muito mais o que pedir de Sirius naquele momento. Não tinha muito o que oferecer também.
- Vem cá.
Sirius se curvou até deitar no ombro de Remus, alinhando suas pernas debaixo das cobertas já bagunçadas.
- Tenho certeza que você vai pensar em algo, com essa sua cabeça brilhante. - Remus começou e deixou um beijo na testa de Sirius - Você conhece ele melhor do que qualquer um aqui dentro. Até mais do que ele mesmo. Talvez se vocês estudassem mais tempo juntos ou…
- Estudar, há! Isso ele já faz e eu não vou ser a pessoa que vai cobrar ele disso, Evans já faz isso o suficiente.
- Sirius…
- Ok, desculpa, eu sei que você gosta dela, que ela é sua amiga…
- Ela é minha amiga, mas ela é sua amiga também.
- Ela era. Ela era ótima, fora do grupo. Agora tudo que ele faz é porque ele quer impressionar ela e tudo que ela faz é pra colocar pressão nele. Ela me lembra um alarme ambulante. Qualquer um que não esteja sendo sua melhor versão não é bom o suficiente.
Remus não respondeu àquilo. Ele não tinha nada para adicionar ali que não fosse só colocar mais combustível na raiva que Sirius estava vomitando. Depois de quase um minuto em silêncio, Sirius suspirou e mergulhou o rosto no pescoço de Remus.
- É só porque, talvez, ele tava muito melhor solteiro.
- Você sabe que muita gente pode pensar isso de você, ou de mim, né?
Sirius assentiu e suspirou de novo.
- Pelo menos nenhum de nós dois estragou o grupo.
- Lily não estragou o grupo, Sirius. Ela só deu uma remexida. É compreensível que você esteja inseguro sobre isso, faz pouco mais de dois meses que eles começaram a sair de verdade, que ela realmente começou a fazer diferença em James. Mas, se você pensa que seu melhor amigo é outra pessoa por causa da nova namorada dele, talvez eu esteja errado. Talvez você não conheça ele tão bem.
Sirius levantou o rosto um pouco e olhou Remus, alarmado.
- Não acho que ele esteja diferente, só acho que talvez ele esteja sob muita pressão e que ela está causando isso.
- Ou, talvez, vocês precisem de um tempo juntos. Você e James. Talvez vocês precisem só de um tempo sem estudar então, mas pra te dar espaço de ser essa âncora para ele. Talvez Lily não possa ser isso. Ela está muito sob pressão.
- Eu também estou!
- Mas, talvez , ela não tenha clareza emocional para controlar o quanto derruba isso em James. E talvez ele esteja muito apaixonado para se proteger.
Remus tinha jogado sua isca e sabia que Sirius morderia. Ele sempre mordia quando o colocava em um pedestal de superioridade.
- Clareza emocional... É, você tem razão, Moony.
Alguns diriam que Remus era manipulador. Ele diria que não, que só conhecia seu namorado muito bem.
Na manhã seguinte, James acordou antes das 5h para treinar, como sempre. E se impressionou quando encontrou com Sirius, acordado também, no salão comunal.
- Você ficou comigo até que horas ontem?
- Até você começar a babar em mim. - Sirius respondeu em um bocejo.
James riu.
- Eu vou pro campo agora. Vai lá deitar com seu namorado, vai saber quando vocês vão ter a chance de transar de novo antes dos NIEMs.
Sirius sorriu e negou.
- Eu vou com você.
- Pro campo?
- É.
- Você não é do time, Sirius…
- E desde quando eu preciso ser do time para treinar? Além disso, eu sei que você vai treinar sozinho. Ninguém é louco de acordar essa hora e ainda se manter firme em uma vassoura.
- E você é? Louco, eu digo.
- Completamente insano, Prongs. Tenha fé em mim.
James riu e acenou para que Sirius o seguisse porta afora do dormitório da Grifinória.
O problema do namoro de James ser um pilar desestabilizando na vida de Sirius estava sendo resolvido. A partir de abril, ele acordaria cedo com James, esperando que o tempo de uma hora e meia de treinos fosse o suficiente para que sua clareza emocional acalmasse as tensões de seu melhor amigo.
Porém, nesse meio tempo, outro pilar importante começaria a desmoronar. Um pilar que ele não esperava que tremesse tão cedo: Remus.
Os minutinhos que passavam juntos de manhã cedo não existiam mais. Sirius veria Remus somente ao meio dia, nas aulas da tarde e na hora do jantar.
Nos primeiros dias da sua nova rotina de acordar cedo, Sirius esperaria seu namorado voltar dos grupos de estudo da noite. Porém, depois de uma semana e meia, ele começou a achar impossível se manter acordado e pegaria no sono antes das 22h, agarrado em algum livro que não estava realmente prestando atenção. Remus chegaria uma hora depois, guardaria o livro e puxaria Sirius, com muito cuidado para não acordá-lo, para deitar debaixo das cobertas.
Esse não era realmente o problema. Remus estava achando muito nobre o esforço que Sirius estava fazendo para ajudar James a manter sua ansiedade o mais longe possível. No entanto, junto com esse relaxamento de James, veio o relaxamento de Sirius. E com o relaxamento de Sirius, vinha seu tédio. E com seu tédio… Bom, digamos que Sirius tinha um termômetro de perturbação e inconsequência, e o tédio sempre foi o maior gatilho para aumentar essa temperatura.
15 de abril de 1978
- O que você sabe sobre os bloqueios eternos de feitiço ? - Marlene perguntou e Sirius bocejou.
- Que são complicados.
- Ninguém vai aceitar essa resposta, Sirius.
Ele bufou e levantou a cabeça do tapete, checando o olhar apavorado de sua melhor amiga. Então ele riu.
- Você leu até agora e não sabe a resposta?
- Claro que eu sei, Black.
- Mesmo? Me conta então…
- Há! Você que não sabe e quer que eu te explique.
- São feitiços complicados, Lene, quer explicação melhor? - ela assentiu, desafiadora. Sirius começou a recitar as palavras do livro.
“O Feitiço de Bloqueio Eterno possibilita ao bruxo alvo que se defenda de uma classe completa pré definida e personalizável de feitiços. O bruxo se torna imune. Porém essa defesa não se estende para todos os feitiços que o atingirem, mas de um outro bruxo específico”.
- Viu, é disso que eu estou falando. Não entendi porra nenhuma. E como você lembra tão certinho?
- Remus diz que eu tenho… memória fotográfica. Deixa eu ver suas anotações.
Marlene passou seus pergaminhos para Sirius, que leu uma vez, depois outra, e fez suas próprias anotações.
- É que você anotou tudo ao contrário, Lene, deixa que eu te explico. São dois bruxos, - Sirius pegou dois pedacinhos de lenha da lareira. - um deles amaldiçoa o outro, confundus! , - ele falou com uma voz fininha - mas esse daqui, há um tempo atrás, fez o feitiço de Bloqueio Eterno para se defender especificamente desse outro bruxo que lançou um confundus nele. Esse feitiço é complexo e não muito usado porque funciona para você se defender de uma classe de feitiços lançada por uma pessoa específica. Além disso, ele envolve uma poção, que a outra pessoa deve tomar com consentimento. Só depois que ela toma essa poção que você pode lançar o feitiço, ou outra pessoa, o que vai garantir que você fique salva. Pronto, você vai ficar protegida para sempre. Bom, não para sempre, porque feitiços são criados toda hora. Sem falar nas Maldições Imperdoáveis.
Sirius jogou os pedacinhos de gravetos no fogo e devolveu os papéis para Marlene, que o olhava de boca aberta.
- Já te disse que se eu fosse hétero, eu namoraria você?
- Já, e eu te disse que, se eu fosse hétero, eu ainda namoraria meu namorado.
Sirius falou, deitando no tapete de novo, e Marlene riu. Depois de alguns minutos em silêncio, a garota falou de novo.
- Você já fez esse feitiço?
- Já.
- Sério?
- Eu sou sempre sério, Mckinnon.
- Em quem? - ela perguntou, o ignorando, e sentou ao seu lado no tapete.
- Remus.
Marlene o olhou de novo, assustada.
- Você fez um feitiço para se proteger do seu namorado?
- Não. Eu fiz um feitiço para proteger meu namorado. Snape bebeu a poção.
Marlene ficou em silêncio, o analisando por cima.
- Remus sabe disso?
- Não. - Sirius riu. - Imagina se ele descobre. Não, é melhor deixar que ele não saiba, por enquanto.
- Então você pretende contar?
- Contar o quê?
Sirius e Marlene levantaram os olhos para o corredor de entrada do salão comunal, por onde Remus tinha entrado.
- Puto. Que susto - Marlene xingou, sua voz trêmula.
Remus não a olhou, seus olhos estavam colados em Sirius, que ainda estava deitado no tapete, em cima das mãos.
- Eu vou subir agora, Dorcas deve estar voltando. Boa sorte com seus estudos. - Sirius assentiu e acenou em tempo de agarrar o livro que Marlene jogou em sua cara. - Boa noite, Remus.
- Boa noite, Lene. - Ele respondeu, ainda sem olhar para ela.
Estavam sozinhos no Salão Comunal, o que quase não acontecia. Sirius se encontrar sozinho ali era mais comum. Ele abriu o livro que Marlene tinha jogado e folheou curioso. Não tinha nada que complementasse seus estudos. Já tinha procurado. Ele não precisava daqueles livros avançados, já sabia de tudo.
Deixou-o de lado e suspirou. Virou-se para Remus e o encontrou-o olhando para o fogo, visivelmente chateado.
- Como você está, amor? Madame Pomfrey te deu algum remédio?
Remus assentiu, mas quando abriu a boca para falar, o assunto foi outro: - O que você não está me contando?
- Como assim?
Remus o olhou, debatendo se valia a pena discutir ou não. Em um suspiro cansado, ele saiu do corredor e sentou ao lado de Sirius que, instantaneamente, deitou em seu colo.
- Eu sinto saudades de você. - Sirius choramingou depois de um tempo em silêncio.
- Eu também sinto saudades de você, Pads.
- Você poderia largar todos esses grupos de estudos e passar um tempo comigo.
- Uhm.
- Uhm, o quê? - ele virou no colo de Remus para que pudesse o ver. Os dedos em seus cabelos desceram por seu rosto e apertaram seu nariz.
- Uhm, eu acho que você poderia ir para os grupos comigo…
- Fazer o que lá?
- Estudar talvez…
Sirius bufou e virou de novo, de frente para o fogo que morria devagar.
- Eu não preciso…
-... "estudar, eu já sei tudo". Já sei, já conheço essa frase.
Sirius riu.
- Então!
- Mas você não precisa prestar atenção no conteúdo, você pode prestar atenção em mim.
- Eu posso prestar atenção em você deitadinho sem roupas do meu lado.
Remus parou o carinho que fazia nos cabelos de Sirius e suspirou.
- Ok, tenho uma ideia. Você gosta de desafios…
- Tô ouvindo…
- Se você for comigo no grupo de estudos amanhã de manhã, antes do café, eu falto o da noite.
- Mesmo? - Sirius se virou de novo.
- É, mas você tem que ficar até o fim. E sem tirar sarro com as pessoas lá.
- Por que eu faria isso?
Remus se curvou sobre Sirius para o olhar nos olhos.
- Porque é o que você faz! Agora me dá um beijo de boa noite.
- Você não vai subir?
- Não, Lily tá me esperando na biblioteca.
Sirius, que estava se esforçando para encontrar a boca de Remus, parou no meio do caminho, se afastou e o olhou extremamente sério.
- Você está com dor.
- Não muita.
- Eu não gosto da ideia de você descer com dor…
- Não estou sentindo nada!
- Mentiroso!
- Há, fala a pessoa que está guardando coisas de mim.
Sirius abriu a boca e fechou de novo. Não guardava nada de Remus, a não ser coisas que ele não precisava saber .
Remus o olhou, respirou fundo e sorriu.
- Tudo bem, eu vou descer mesmo assim. Ela precisa de ajuda com feitiços de levitação, vamos revisar isso.
- Feitiços de levitação… - Sirius riu. - Isso é do primeiro ano, Moony. Quer me dizer que a brilhante Lilian Evans não sabe levitar as coisas?
Remus o encarou em silêncio. - Não sei, não sei se ela sabe, mas ela pediu ajuda e…
- Será que ela está namorando James só pra ficar mais perto de você?
- Sirius!
- Só tô pensando. - Sirius ergueu as mãos em rendição, rindo.
A porta do Salão Comunal abriu de novo e Lily apareceu, seu rosto vermelho depois de escalar 7 andares.
- Eu te esperando como uma retardada e você namorando, sr. Lupin.
Sirius revirou os olhos e escorregou para fora do colo de Remus, ajudando-o a levantar do tapete. Lily o olhou, apática.
- Black.
- Evans.
- Merlin, vocês são estranhos.
Lily deu um sorriso fechado e recolheu a bolsa de Remus do sofá, colocando em seu ombro, como um sinal para que ele a seguisse. Sirius precisou de muita força interior para não revirar os olhos de novo. Se ergueu na ponta dos pés e puxou Remus para que pudesse lhe dar um beijo.
- Sabe que, se você quiser realmente treinar seus poderes de erguer as coisas, eu vou estar no dormitório.
Lily limpou a garganta e Sirius caminhou até o pé das escadarias do dormitório masculino. Antes de começar a subir, se virou de volta e soprou um beijo exagerado para seu namorado, que pegou no ar com uma mão e colocou no meio das pernas.
Outro problema do tédio de Sirius era que, com sua cabeça vazia, os pensamentos ruins tinham espaço de sobra.
Na manhã seguinte, ele contaria para James sobre sua conversa com Marlene e o feitiço secreto que Remus quase descobriu. James jogou a cabeça para trás em uma gargalhada, sem desequilibrar da vassoura.
- Ele vai lembrar disso logo, logo, então se prepara pra contar. E se prepara pro sermão em outra língua que você vai ouvir.
- Ele não vai lembrar. Ele está muito ocupado aprendendo feitiços de primeiro e segundo ano para isso.
- Sabe… continua pressionando ele sobre isso, que logo ele explode na sua cara.
- A gente tá bem, por mais incrível que pareça. Não esperava que a gente fosse estar bem ainda.
- Como assim? Por que vocês não estariam bem?
Sirius abriu a boca e fechou pelo menos três vezes antes de desistir. Queria falar que Lily era uma grande filha da puta que sempre dava um jeito de enrolar Remus em seus cabelos antes que ele tivesse a chance de dizer bom dia.
Pensou em dizer sobre como Lily de repente parecia tão interessada em ter Remus com ela em todos os lugares que fosse. Mas sabia que aquilo tudo soaria muito estranho nos ouvidos do namorado dela.
E a verdade é que, se Sirius não a tivesse mandado para o inferno com seus cadernos de anotações algumas semanas atrás, ela o chamaria para estudar também.
- Ah, ele acha ruim que eu não esteja estudando como todo mundo.
Não era verdade, Remus não podia estar mais foda-se para a situação escolar de Sirius. Repetia várias vezes que, além de não ser sua mãe, não duvidava também de sua inteligência.
- Entendi, e você vai estudar com ele hoje? Para compensar.
- Sim, e também porque ele disse que se eu ficasse até o final, faltaria o grupo de hoje à noite.
James o olhou, urgente.
- Me lembra de não voltar para o dormitório tão cedo.
Sirius o derrubou da vassoura.
Eram passadas das 7h quando Sirius entrou na biblioteca, caminhando até uma das mesas ao lado das janelas, onde sabia que Remus tinha denominado como sua mesa.
Imaginava que naquele horário já encontraria mais pessoas lá, como Peter, provavelmente esmagado entre Lily e Remus, agarrado em seus próprios pergaminhos.
Sabia que não valia a pena subir 7 andares para checar se alguém estava descendo e decidiu, com dificuldade, ser paciente e esperar.
Um dos vários livros em cima daquela mesa, que alguém esqueceu de guardar na estante no dia anterior, era sobre feitiços de beleza. Sirius abriu e folheou entediado. Já tinha lido esse uns dois anos atrás, quando procurava um encantamento de tatuagens.
Sabia que ele estaria descrito nas últimas páginas, instruindo que a pessoa falasse o feitiço com a varinha colada no coração e acreditasse que, a partir daquele momento, imagens floresceriam na sua pele, dependendo dos seus sentimentos. James disse que era um feitiço arriscado, afinal, e se aparecesse algo que ele não gostasse. Mas Sirius o convenceu de que isso não aconteceria. E realmente não tinha acontecido até o momento.
A primeira tatuagem que floresceu em si foram as pegadas do Mapa do Maroto, no seu antebraço esquerdo. Depois dela, uma lua, que mudava de fases, no seu pulso. Depois dela, uma série de runas traçando de seu peito até seu umbigo. Essa era com certeza sua preferida, pois era nela que Remus mais se divertia.
Ele folheou por mais alguns minutos, lendo tudo o que já tinha lido de novo, sua varinha rolando entre seus dedos.
- Senhor, por favor, abaixe sua arma. Por favor, senhor, abaixe a arma e se afaste do livro.
Sirius levantou os olhos do texto e encontrou Remus de pé na sua frente, suas mãos enfiadas nos bolsos das calças, a bolsa descansando em seu ombro, seu rosto redondinho de quem acabou de acordar. Sirius riu.
- Você tem medo que eu faça o quê, bote fogo no livro?
- Tenho medo que você bote fogo na biblioteca, amor.
Remus respondeu, rindo. Deu a volta na mesa e deixou a bolsa em cima de uma cadeira. Caminhou até Sirius e sentou em seu colo.
- Você é mais alto que eu, Moony.
- Isso significa que eu nunca vou poder sentar em você?
Sirius sorriu e franziu os olhos para o comentário de duplo sentido de seu namorado. Remus se inclinou em direção ao rosto de Sirius, que jogou a cabeça para trás, dando espaço para ganhar um beijo de bom dia.
- Como você está hoje?
- Um pouco melhor… Você me ouviu sair no meio da noite? - Sirius assentiu e seus lábios roçaram devagar nos de seu namorado.
Remus normalmente levantava da cama no meio da noite quando sentia dor. Ele acordaria para tomar um remédio ou sentar no salão comunal por alguns minutos até se sentir muito cansado e voltar para a cama só para desmaiar ao lado de Sirius.
- O que você está fazendo aqui agora?
- Estou cumprindo com nossa aposta.
Sirius não conseguia tirar os olhos da boca de Remus. Passou a ponta da língua no contorno de seus lábios, se deliciando com o gosto de pasta de dente e chá que ele tinha.
- Uhm, eu não achei que você fosse ser tão resiliente assim. Na biblioteca antes das 8h? Acho que entrei em uma dimensão paralela.
- Eu não faço ideia do que você acabou de dizer… - Sirius sussurrou, sorrindo, e puxou Remus pela cintura para mais perto - Mas vou interpretar como algo bom.
Remus riu e assentiu, beijando seu namorado de novo, dessa vez com mais interesse em onde isso poderia levar eles.
- Eu só não precisava ver vocês quase se comendo na biblioteca às… 7 e 20 da manhã.
- Vai chupar um pau, Evans. - Sirius falou frustrado ao sentir Remus se afastar.
- Eu falaria a mesma coisa, mas não duvido que você faça isso. Comigo, a Madame Pince e os alunos do primeiro ano assistindo.
- Não tem ninguém aqui… - Sirius começou e Remus levantou de seu colo. Ele tirou os olhos de seu namorado e olhou para Lily como se estivesse pronto para assassiná-la. Então sorriu. - Quando você tiver a chance de assistir, vai se arrepender de não ter feito isso antes.
- Ah, sim, Lily amaria te ouvir gemer, Pads. Mas, por mais exibicionista que eu seja, não gosto de pensar que a namorada do meu melhor amigo pode se apaixonar pelo meu namorado.
Sirius abriu a boca para responder, mas Lily foi mais rápida.
- Vamos estudar feitiços agora, Sirius, cai fora. Você tira muita atenção do meu parceiro de estudos.
- Ele vai ficar hoje, Lily. Disse que estava com dificuldades em transfiguração.
- Eu não disse nada… - Sirius começou, sentindo seu orgulho, de animago com sucesso antes dos 16 anos, ferido.
- Ah, perfeito! Tem uns alunos do quinto ano que também estão precisando de ajuda neste tópico. Mas fica quieto Black, por favor, nem todo mundo entende seu senso de humor.
24 de abril de 1978
- Ok, hoje vamos começar com o feitiço de iluminação. - Lily falou, riscando algo em seus papéis. Sirius só conseguiu rir. - Qual a graça?
- Você quer que a gente treine Lumos ?
- É.
- Você tá brincando, né?
Todo o grupo ficou em silêncio de repente. Ao lado de Lily, Remus ficou estático.
Faziam quase duas semanas que Sirius estava “estudando” com Remus em troca de noites juntos e ele não aguentava mais. Estudar, no caso, pois as noites eram ótimas.
- Por que eu estaria brincando com isso? É um feitiço essencial e é normal que as pessoas fiquem com dúvida sobre como começar…
- É um feitiço essencial, realmente, Evans. Tão essencial que é o primeiro que vemos quando chegamos aqui.
- Sim, - Lily mexeu nas folhas, sua voz ainda bastante estável - é um dos primeiros. Por isso vamos revisar. Durante os anos, nós não praticamos mais ele em aula e muitas pessoas ficam com vergonha de questionar isso.
- Muitas pessoas? Nós estamos no sétimo ano! Se você tem vergonha de perguntar isso, então você talvez nem deva fazer os NIEMs.
- Sirius… - Remus chamou.
- Não, sério. Isso é regressão. O mínimo que você pode fazer aqui é falar sobre conjurar uma lanterna, que é mais avançado do que Lumos.
- Mesmo, Black? E você sabe fazer esse feitiço?
- Óbvio.
- Então faça.
- Eu não preciso me provar para você, Evans.
- Claro que não precisa. Você não precisa se provar para ninguém, você é o grande e autossuficiente.
- Ok! - James interrompeu quando viu que Sirius já tinha aberto a boca para rebater. - Esse não é um grupo de debates. Vamos voltar para a tarefa, ok?
- Claro, se o rei da Grifinória me permitir.
- Lily! - Remus chamou, dessa vez.
- Vamos tentar fazer isso de um jeito mais fácil, que deixe todo mundo satisfeito. - James falou de novo, puxando as rédeas do encontro para si, de forma que os olhares assassinos entre Lily e Sirius fossem ignorados. - Vou repassar o movimento da varinha para conjurar luz, assim… - James movimentou sua varinha nas mãos até a ponta brilhar em uma luz amarela. - E vou ensinar como fazer sem a varinha, assim… - Ele movimentou o pulso da mão vazia e uma bolha de luz surgiu logo acima de sua palma.
- Uau! - foi uma expressão geral. - Está queimando? - um dos alunos mais novos ali perguntou.
- Não! Aí é que está, quando você conjura sem a varinha…
Cinco minutos depois de algumas explicações, todos estariam praticando, com e sem varinha. Lily e James passavam por cada estudante, para verificar e ajudar. Sirius estava escorado em uma parede da biblioteca, assistindo tudo com sua expressão de puro desdém, quando sentiu Remus o puxar para longe do grupo.
- Que merda foi tudo aquilo?
- Oi?
- Por que você falou aquilo?
- Por que eu questionei Lilian, você quer dizer?
- Questionar? Aquilo, todo aquele teatro, foi questionar?
- Ela fez a mesma coisa.
- Não me interessa o que ela fez, não é dela que eu estou falando aqui.
- Você quer me dizer então que você não está descansando de uma lua cheia para aprender um feitiço que você usa, DIARIAMENTE, para ler antes de dormir?
Sirius não percebeu, mas sua voz tinha se elevado um pouco.
- Quem está berrando qualquer coisa sobre lua cheia, Sirius?
Os dois garotos olharam para a entrada do corredor, onde James os encarava, levemente estressado.
- Ninguém. Ninguém falou nada sobre isso.
- Eu ouvi, mas eu também ouvi tanta bobagem sair da sua boca hoje que nem estou impressionado.
- Ok, entendi, vocês dois estão defendendo a princesinha da escola. Parece até que não é só você que ela está fodendo, James.
- O quê? - James perguntou, caminhando até Sirius com raiva - O que você disse?
- Você me ouviu… Não duvido de nada, afinal, nem é você que passa todos os períodos livres estudando com ela aqui.
- O quê?
Dessa vez, quem falou foi Remus. Ele encarava Sirius como se tivesse acabado de tomar um tapa na cara.
Aí estava o pilar Remus desmoronando completamente. E não havia nada que Sirius pudesse fazer agora. Ele tinha falado demais, tinha pensado demais sobre algo que ele sabia que nunca aconteceria. Mas nas noites em que acordava de madrugada e sua cabeça criava o perfume de Lily no pijama de Remus, tudo parecia possível.
Ele respirou fundo algumas vezes, seu batimento cardíaco aumentando cada vez que olhava entre James e Remus, raiva e mágoa, respectivamente.
- Acho melhor eu sair daqui…
- É. É melhor mesmo. - James falou. Remus só olhava em sua direção, mas seu foco estava em outro lugar.
Sirius esperou que algo acontecesse. Esperou que talvez seu namorado dissesse “ você só falou isso porque está brabo, sob pressão, e realmente Lily pode ser meio saco às vezes ”. Mas nunca ouviria isso, principalmente porque quem estava errado ali era ele, sabia disso.
Sem mais demora, pediu licença e saiu da biblioteca. Não queria ir para o dormitório, nem para qualquer lugar que tivesse pessoas. Caminhou sem rumo até chegar no lago negro. Seu pilar Remus estava bambo e despedaçando. Seu pilar James, que ele achou que estava conseguindo estabilizar, provavelmente voltou para a estaca zero.
Queria sentir raiva de Lily, afinal era por causa dela que ele estava metido naquela situação. Ela e sua vontade de se meter na vida dos outros, com seu rosto perfeito e sua voz perfeita e seu corpo perfeito e sua bússola moral perfeita. Mas a culpa não era dela.
Ele quis chorar. A culpa era sua por todo o drama; por ter insultado a namorada de seu melhor amigo, por ter duvidado do comprometimento de seu próprio namorado. Se Remus realmente se apaixonou por Lily, como em seus pesadelos, então ele merecia aquilo, merecia estar sozinho.
Sentiu algo queimar em seu peito e poderia jurar que era raiva se não conhecesse o sentimento de formigamento, como se mil agulhas o fizessem cócegas. Desabotou a camisa e se curvou sobre a borda do lago, na esperança de que conseguisse ver qual desenho floresceria em si naquele momento.
Da base de seu pescoço até um pouco antes das runas, uma adaga ornamentada e de cabeça para baixo apareceu. Era fina na lâmina, um pouco mais curta que uma espada, mas seu punhal era longo e detalhado.
Sirius não saberia dizer porque ela apareceu ali, o que ela significava, qual era a grande importância de uma adaga em sua vida, principalmente naquela posição. Concluiu que era algo que ele ainda descobriria.
Na manhã seguinte, ele desceu com James para o campo.
- Lily me convenceu de que você não falou nada daquilo com intenção.
- Mas eu falei.
James parou no meio do caminho. - É sério?
- Sim.
- Você acha que Lily e Remus…
- Não.
- Não entendi então.
- Eu não acho que sua namorada perfeita esteja dando em cima do meu namorado perfeito. Eu realmente não acho. Quer dizer, a parte racional de mim não acha.
James começou a caminhar de novo. Depois de um tempo, ele perguntou:
- Você sonhou com isso?
- Eu não sonho.
- Você teve pesadelos?
Sirius assentiu e ficou em silêncio, lembrando do pesadelo daquela noite, que era muito parecido com todos os das últimas duas semanas. Ele ouviria Remus entrar no dormitório, só para puxar Lily para sua cama, ao lado de onde Sirius estava dormindo, e fazer doce amor com ela no escuro, ignorando que seu braço estaria pressionando o peito de Sirius, bem em cima do seu coração.
Todas as vezes, ele acordaria com Remus enrolado em seu corpo, das mãos aos pés. Mesmo assim, sentiria como se estivesse sozinho, largado na cama velha e quebrada da casa dos gritos.
Aquela noite não foi diferente. Remus não tinha falado com ele sobre o que aconteceu na biblioteca, nem tinha percebido a nova tatuagem, ou, se percebeu, não comentou. Mesmo assim, dormiu agarrado em Sirius, como se tudo estivesse bem.
- Nunca pensei que você se sentisse assim. - James falou, cortando a linha de pensamento de Sirius - Quer dizer, sobre mim e Lily eu entendo. A gente não passa mais tanto tempo juntos. Mas Remus… Ele faz tudo por você, e você faz tudo por ele. Não imagino isso acontecendo, nem com Lily, nem com ninguém.
- Não é algo que eu posso controlar, sabe.
- Eu sei. - James destrancou a sala de equipamentos e passou uma vassoura para Sirius. - Você se sente ameaçado por ela?
- Eu não tenho medo dela.
- Pode até não ter medo dela em si… Mas talvez do que ela representa.
- E o que seria isso, doutor Potter?
James suspirou, montou na vassoura e se impulsionou no ar com facilidade.
- Ela é sangue novo em um grupo muito unido. Ela representa o fim de uma era, onde eu aceitaria qualquer coisa, onde Remus aceitaria qualquer coisa… Agora nós estamos diferentes, nossos planos são diferentes, objetivos… até Peter está mais exigente.
- Quer dizer que vocês amadurecem e eu fico ciumento?
- Você sempre foi ciumento, Pads. Mas antes isso era entre nós. Agora isso envolve outras pessoas… Você tem medo que Remus conheça alguém diferente depois da escola?
- Ok, quando isso virou sessão de terapia?
- Quando você disse que a minha namorada estava transando com o seu namorado na biblioteca.
- Eu nunca disse…
- Foi o que eu entendi e com certeza foi o que Remus entendeu.
- Eu não quero falar disso.
A última fala era de Sirius, James sabia disso. Principalmente se ele não queria sair brigado. Mesmo assim, tentou uma última vez:
- Uma pessoa que pode te ouvir e conversar sobre isso é Lily. Talvez ela seja um bom lugar para começar, antes de você se autodepreciar. Antes que você conclua que terminar com Remus, antes que ele faça isso, é a preservação da espécie.
- James, se você não calar a boca, eu vou enfeitiçar um balaço em você no próximo jogo.
Sirius não queria assumir, mas sabia que James estava certo. Sua cabeça funcionava de jeito diferente e ele precisava entender o que fazer antes que fosse tarde, antes que tomasse uma decisão idiota.
Ter Lily no dormitório quando voltaram dificultou muito.
- Bom dia, flor, o que você está fazendo aqui tão cedo?
James caminhou até sua cama e beijou sua namorada, que esperava sentada ali. Sirius não olhou para Lily, um pingo de vergonha em seu rosto e um oceano de possessividade em seus ossos. Ele abriu as cortinas da cama de Remus só para encontrá-la vazia.
- Ele está no banho.
Lily falou simples e Sirius assentiu, subindo na cama e fechando as cortinas.
Remus saiu do banheiro pouco tempo depois. Deu bom dia para Lily e James e abriu as cortinas de sua cama.
- Uhm, eu torcia que você estivesse aqui já.
Falou enquanto subia na cama. Enrolou um braço em Sirius e fechou a cortina com outro. Seus lábios buscaram os do outro, mas ele nunca achou.
- Você vai ter energia para isso de novo?
Remus abriu os olhos, que tinha fechado esperando por um beijo, e olhou Sirius confuso. Tinha quase certeza que eles não tinham feito isso ainda naquela manhã.
- Como assim?
Sirius suspirou, seu rosto estava vermelho, seus dedos cutucavam suas cutículas. Remus sabia que ele estava ansioso.
- O que Lily está fazendo aqui?
- E você quer que eu saiba? - Remus respondeu e riu, mas continuou quando percebeu que aquilo não era o suficiente para Sirius. - Pads, o namorado dela dorme nesse dormitório, você sabe, não é?
- Desde quando ela está aqui?
Remus parou no meio do caminho para se vestir e encarou Sirius, percebendo onde ele queria chegar. Sentiu seu interior queimar, mas decidiu por forçar sua paciência e continuar sua abordagem gentil.
- Eu vi ela agora… Ela deve ter chego quando eu estava no banho…
- Como ela sabia que você estava no banho.
- Sirius… O que é isso?
- Nada, só quero saber porque você decidiu tomar banho de manhã, se você sempre toma à noite.
- Você não pode estar falando sério…
Sirius continuou o encarando. Remus riu amargo.
- Eu acordei cedo, de pau duro. Fui tomar um banho e bater uma imaginando você nesse seu uniforme de quadribol. Posso fazer isso? - Sirius piscou finalmente, sua expressão antes dura e apática agora macia - Por Merlin…
- Está tudo bem aí dentro?
Os dois se assustaram ao ouvir James chamar eles. Remus respondeu qualquer coisa e lutou para terminar de se vestir mais rápido. Sirius tentou o segurar no lugar, mas Remus se desvencilhou. Quando falou de novo, sua voz era um sussurro.
- Por que nós estamos juntos, Sirius?
- Porque a gente se ama.
- Eu sei disso. Eu sei que eu amo você. Mas você sabe? Porque toda vez que você me olha desse jeito, parece que você está procurando motivos para terminar isso.
Sirius franziu a testa, como se Remus tivesse o estapeado. Não conseguiu falar nada de novo e queria se atirar da janela por causa disso. Por que não conseguia responder seu namorado? Era como se tivessem uma faca na sua garganta… oh.
- É melhor você voltar para sua cama essa noite. Acho que preciso me afastar um pouco desses seus pensamentos.
Remus escorregou para fora da cama e para fora das cortinas. Lily falou algo sobre estudar, ao que ele respondeu negativamente. Informou que hoje estudaria sozinho.
- Oi, a gente pode conversar?
Sirius quase deixou seu cigarro cair com o susto que levou. A voz que falou atrás de si era tão baixinha que ele poderia ter confundido com as vozes da sua cabeça.
Alguém tinha acabado de escalar a Torre de Astronomia em completo silêncio e essa pessoa obviamente era seu namorado. Ninguém conseguiria ser mais silencioso do que Remus.
Ele e James tinham criado a teoria de que Remus não caminhava como as outras pessoas, mas deslizava pelos ambientes como se fosse parte da escola. Remus já tinha explicado que provavelmente seu instinto de caça o tinha ensinado isso, mas Sirius e James gostavam mais da sua própria teoria.
Quando olhou para seu namorado, o encontrou olhando de volta, impassível. Assentiu e viu o outro se curvar até sentar ao seu lado no piso de pedras.
- Acho que eu te devo um pedido de desculpas. - Remus começou devagar.
- Você me deve um pedido de desculpas?
- É. - Ficou em silêncio mais um pouco e então continuou. - Eu não percebi que tinha te deixado inseguro. Eu nunca percebi que você me acha infiel.
- Eu não…
- Deixa eu falar, Sirius. Eu não percebi que todo esse tempo que passei estudando com Lily, na intenção de tirar boas notas, para talvez diminuir o impacto da minha licantropia nos meus futuros empregos, fosse te fazer pensar que eu te trairia. Com ela ou com qualquer pessoa.
Sirius abriu a boca várias vezes, como um peixinho, mas não falou nada. Não sabia o que poderia falar que o fizesse parecer menos idiota do que se sentia.
- Eu amo você, Sirius. Você sabe disso. Você sabe o quanto eu quero você, o quanto eu confio em você, o quanto eu imagino a nossa vida juntos. Isso nunca aconteceu antes, pelo menos não que eu saiba. Você sempre desconfiou de mim?
- O quê? Não! Eu nunca… É que Lily é uma pessoa… Ela e James são…
Sirius não sabia ao certo o que queria dizer. Estava se perguntando se sempre duvidou que seu namorado o amava. Remus o olhava na esperança de que aquilo tudo fosse explicado, mas a falta de resposta de Sirius indicava que talvez ele estivesse certo.
- A culpa não é de ninguém a não ser minha própria se você se sente inseguro nesse relacionamento. Se você precisa que eu assegure sempre o quanto eu te amo e o quanto você é a minha pessoa. Se você se sente assim, Sirius, a culpa é minha.
Sirius não respondeu. Não sabia ao certo o que aquilo tudo significava e tinha medo de falar a coisa errada. Porém, muitas vezes, não falar também era uma resposta.
Se sentia inseguro, não porque duvidava dos sentimentos de Remus, mas porque sentia que nunca seria suficiente. Se sentia inseguro pois nunca seria o que Remus precisava que ele fosse. Remus provavelmente queria alguém que pensasse como ele, que se importasse com as mesmas coisas que ele, que tivesse os mesmos sonhos. Enquanto isso, do outro lado, Sirius choraria de ciúmes.
Sentiu seus olhos arderem com mais lágrimas, o que pareceu resposta suficiente para Remus. Ele fez menção de levantar, mas foi impedido pelas mãos de Sirius em seus pulsos.
- Fica aqui. - falou, quase sem voz.
- Eu só estou cansado, Pads. - Remus parecia prestes a chorar também e Sirius balançou a cabeça, concordando.
- Eu sei, eu sei… Talvez você deva dar um tempo dos grupos de estudos.
Remus riu. Mas não foi uma risada divertida. Seus olhos encharcaram de lágrimas e Sirius sabia que sua próxima fala seria cheia de remorso e extremamente controlada.
- Eu não posso dar “um tempo”, Sirius. Se você não quer estudar, se você quer gastar seu tempo com outras coisas, isso é uma escolha sua. Se você se garante, porque tem um QI alto e habilidades mais evoluídas que qualquer um, que bom para você. Eu te apoio em tudo isso, eu te incentivo a fazer o que você acha melhor. Qual o problema de você fazer a mesma coisa por mim?
“Se você se garante depois da escola, com seu apartamento, sua pequena enorme fortuna e anos sem precisar trabalhar, que bom para você! Mas eu não consigo garantir isso para mim, Sirius. Meus pais não conseguem garantir isso para mim. O pior é que você sabe disso e continua não me apoiando.
“Na sua cabeça deve existir uma fantasia sensacional onde eu e você vamos viajar o mundo sem precisar nos preocupar com nada. Onde eu vou morar com você e viver às suas custas. Onde eu vou ser dependente de você para sempre, vou ser preso a você, vou estar sempre com você, mesmo quando eu não quiser mais estar.”
Sirius derrubou os olhos para o chão ao mesmo tempo que Remus percebeu que o que falou machucaria e também era verdade.
Eles ficaram quietos um ao lado do outro. Remus sabia que aquela seria marcada como a primeira briga séria deles desde o início do namoro. Não que todas as outras não tivessem sido importantes, mas essa era mais real, era mais mundana. As consequências para o relacionamento eram palpáveis, assim como as inseguranças de Sirius.
- Eu não quero deixar de te apoiar, nunca foi isso que eu quis fazer. Eu também não quero que você seja dependente de mim, não quero que você se sinta preso aqui.
Remus sentiu seu peito arder. Ouvir as mesmas palavras que disse, mas da boca de Sirius, era dolorido. Eles ficaram em silêncio de novo. Só que dessa vez o silêncio era confortável e necessário.
Ficaram assim até o relógio bater para o meio dia. Nenhum deles se levantou, apesar de saberem que precisariam logo.
- Eu só estou cansado. - Remus repetiu em um suspiro - E não é dos grupos de estudos. É dessa pressão toda que eu coloco em mim e que eu sei que a vida coloca em mim e que eu sei que você coloca em mim. Preciso ser bom, o melhor, por mim. Preciso ser útil e controlado para o Ministério e meus futuros empregadores. Preciso ser presente e compreensivo, para você. Preciso estar aqui para você e ouvir você e te dar atenção e te entender e entender que o que você sente é válido. Preciso te devolver tudo o que você fez e faz por mim, preciso te lembrar dos motivos para ficar e não ir embora, mas também preciso me lembrar desses motivos e eu não sei se isso está certo. Quer dizer, se eu preciso te lembrar e me lembrar, preciso reforçar tudo isso, será que devemos ficar?
- O que isso significa? - Sirius perguntou em um sussurro, seus olhos marejados de novo.
- Não sei. Eu nunca falei nada disso com ninguém, nunca pensei sobre isso… - Remus se virou e pegou as mãos de Sirius entre as suas. - Olha, a culpa não é sua, nem minha. Nós não fizemos nada de errado. Eu só não sei o que estou sentindo e acho que você também não.
- Isso não precisa significar nada de ruim… - Sirius continuou e Remus negou rápido. - Só precisamos entender, talvez. Não quer dizer que a gente tenha que…
- Não, não, não quer dizer.
O coração dos dois batia forte demais para ser aceitável.
- Você quer que eu pare de estudar com ela?
- O quê?
Remus se aproximou de Sirius, apertando ainda mais seus dedos.
- Se você quiser, se você for se sentir melhor… - Remus falou sério. - Se isso vai te fazer se sentir seguro, eu faço isso…
- Eu não acho que seja necessário.
- … Porque eu não quero perder você.
Eles falaram ao mesmo tempo.
- Não por isso, não porque você suspeita que eu vou…
- Você não tem que mudar por causa minha!
- … Dormir com outra pessoa.
Sirius sentiu seu coração pular uma batida e as imagens dos seus pesadelos o atingiram como um tsunami. Não, aquilo não era real.
- Não, não! Nada disso vai acontecer. Eu vou resolver isso. Não quero que isso aconteça na base do medo.
- Você tem medo…
- Tenho! - Sirius riu sem graça. - Eu fico aterrorizado só de pensar. Mas eu prefiro terminar isso do que te prender aqui.
Remus assentiu.
- Talvez eu precise resolver isso sozinho dessa vez. E eu não quero que você deixe de estudar ou sinta que me deve alguma coisa. Você não me deve nada, tudo que eu faço por você, eu faço porque te amo, ok?
Remus assentiu, de novo, sentindo o silêncio cair entre eles. Mas antes que se tornasse confortável, Remus voltou a falar.
- Ainda acho que seria bom você dormir na sua cama.
- Tudo bem.
- E, talvez, não ir mais para os grupos de estudo comigo e com Lily, de manhã.
- Ok.
Calculando as solicitações de Remus, não sobrava mais nenhum momento para que pudessem ficar juntos e sozinhos. Nem mesmo as refeições. Será que era isso que Remus queria?
- Podemos ainda comer juntos?
- Sim, sim, a gente pode. - Remus sorriu e o coração de Sirius errou outra batida. Será que aquilo era o início do fim?
O que eles não sabiam era que, considerando as promessas de Sirius, mais as solicitações de Remus, eles estariam entrando no que algumas pessoas determinam como “tempo do relacionamento”.
O que eles também não sabiam era que, somando todas as vezes que eram vistos separados, mais a briga na biblioteca (que se tornou parte do conhecimento da escola), as pessoas juravam de pé junto que eles teriam terminado.
Se soubessem dessa última parte, Sirius entenderia mais facilmente os motivos para receber pedidos para sair a todo o momento.
Se soubessem dessa última parte, Remus entenderia porque de repente tinham mais pessoas nos seus grupos de estudo pedindo por aulas particulares.
10 de maio de 1978
- Você viu o que estão falando de você e Moony? - Peter perguntou, sem tirar os olhos do tabuleiro de xadrez enfeitiçado de James.
- Desde quando eu e Moony nos importamos sobre o que estão falando de nós?
- Aí é que tá, eles não estão falando de vocês juntos, mas de vocês separados.
- Ok… E desde quando eu ou Moony nos importamos sobre o que estão falando de nós, separadamente ?
Peter riu e perdeu o bispo.
- Segundo fontes, vocês terminaram. Mas ninguém sabe o que eu ouço no meio da noite. Se bem que… - Peter parou de falar e olhou Sirius, que não o olhava - Ultimamente vocês não têm dormido juntos, né?
- A gente ainda dorme juntos…
- Não estou falando de transar em armários de vassoura, estou falando de dormir juntos, na mesma cama.
Sirius cutucou as cutículas e suspirou. Estava lembrando que, além de não estar dormindo com Remus há mais de duas semanas, eles também mal se beijavam. Quando voltou a falar, decidiu mudar de assunto para um que Peter com certeza se interessaria mais:
- Eu estava pensando em uma festa pós NIEMs.
Como esperado, os olhos de Peter brilharam e ele escorregou para fora da cama, deixando o jogo para trás e esquecendo do assunto sobre o relacionamento de Sirius.
Uma manhã e um almoço perdido depois, Sirius e Peter já tinham recrutado Mary, A Organizadora de Festas da Grifinória , para garantir que o que fizessem fosse inesquecível, e relaxante, óbvio, mas principalmente inesquecível.
- Temos que decidir qual o tema da festa antes de escolher o lugar. - Mary falou, rabiscando em um pergaminho o seguinte: “temas possíveis”.
- Eu queria muito fazer lá fora. - Peter choramingou. - Já é quase verão, se a gente encher o campo de quadribol de feitiços aquecedores.
- Podemos fazer algo com relação a estrelas e luas e, Sirius, você sabe sobre isso mais do que nós.
- Tá, anota aí: Baile das Estrelas Cadentes, não, Baile de Buracos Negros, não! Ahn… Ah sim, só porque meu nome é o mesmo que o de uma estrela, não quer dizer que eu tenha me aprofundado em astronomia.
- Imbecil. AH! - Mary falou e a ponta da sua pena quebrou. - Bom, o que vocês acham de a gente fazer algo baseado naquele quadro que a Lily tanto fala. Ela foi passar as férias em Amsterdam e vive falando… Esperem aqui, vou pegar a foto que ela me mandou.
- Você guarda uma foto da Lily com você? - Sirius falou, uma sobrancelha arqueada.
Mary deu meia volta e encarou Sirius, muito cética. - Se eu te pedisse quantas fotos você tem de James, qual seria sua resposta? - ela sorriu quando notou as bochechas vermelhas de Sirius.
- Touché…
A garota voltou pouco depois carregando duas fotos diferentes e entregou uma para cada um, que observaram e se trocaram depois.
Em uma delas, Lily posava parada na frente de uma pintura majoritariamente azul, um sorriso fechado no rosto. A pintura tinha um céu com ondas que pareciam macias ao toque. Sirius teve que se segurar para não meter o dedo na fotografia trouxa e acariciar. Ali também tinham montanhas e estrelas e algo como um vilarejo. Era um quadro muito bonito, ele deveria dizer.
Na outra foto, uma figura registrada por uma câmera bruxa, ela sorria, apontava para o quadro e cobria a boca para tentar esconder quão obviamente feliz estava ali.
Sirius sorriu inconscientemente. Aquela arte era um tesouro trouxa, dava pra ver, e fez uma anotação mental de levar Remus ali algum dia.
- “Réplica de ‘A Noite Estrelada’, de Vincent van Gogh, 1889. A obra original pode ser encontrada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque”. A Noite Estrelada? Esse é o tema?
- É incrível, não é? Tem cada elemento especial nesse quadro que podemos usar na decoração. A lua decrescente vai estar certinha com o dia da última prova, então não precisamos nos preocupar com isso. Podemos fixar estrelas e luzinhas, e as plantas é só transfigurar…
- Eu apoio. - Peter falou.
- Pode ser por mim também. - Sirius concordou.
- Perfeito! Vou mandar uma carta para minha irmã, pedir pra ela já olhar se tem algo nesse tema lá por casa e peço pra ela me enviar. No final de semana podemos ir para Hogsmeade antes do jantar. Temos que pegar bebidas antes que não tenha mais. Os NOMs acabam antes dos NIEMs, e vocês sabem como o pessoal do quinto ano é atacado com álcool.
- Você não tem que estudar?
Mary olhou surpresa para Peter e sorriu. - Virou a Lily agora?
Sirius riu.
- Eu sempre vou bem nas minhas notas. E se eu não for, meu pai tem uma empresa e já disse que vai me contratar. Algumas pessoas aqui esquecem que não existe só o mundo bruxo pra se ter uma vida.
Mary levantou, jogou sua pena no lixo do dormitório e saiu sem falar mais nada.
Sirius sorriu satisfeito enquanto lia as anotações que Mary tinha feito. Organizar uma festa em menos de duas semanas seria insano, mas também seria uma válvula de escape para tudo o que estava sentindo. Ele disse que faria isso sozinho, que descobriria o que era exatamente em si que estava se fantasiando de insegurança. Disse que faria isso pela sua saúde mental e pela saúde de seu relacionamento. Mas não quer dizer que tinha que fazer só isso. Além do mais, sabia que sua cabeça trabalhava melhor quando estava multi atarefada.
Peter teve que correr para a aula de Herbologia, ignorando os chamados por comida de sua própria barriga. Sirius prometeu que o levaria um sanduíche de almôndegas na próxima aula que teriam juntos, que era de Defesa Contra as Artes das Trevas. O que significava que ele, James, Peter e Remus estariam em uma mesma sala de aula.
- Onde você esteve? - foi a primeira coisa que Sirius ouviu ao sentar na sua carteira. Ele nem precisou olhar para o lado para saber que Remus o encarava não só curioso, mas provavelmente irritado.
- TPM, Moony?
Aquela tinha sido uma péssima abordagem. Sim, a lua cheia seria na próxima semana, sim, Remus estava sob os efeitos iniciais do lobo, Sirius conseguia dizer. Mesmo assim, foi a pior coisa que poderia ter falado. Sabia que Remus se fecharia para ele e, nas circunstâncias atuais, não o daria espaço para se retratar.
- Depois eu te conto, amor. - falou, mas Remus já era uma fortaleza de concreto.
- Ei, Pads, hoje temos treino de noite. Quer ir?
James sussurrou do seu outro lado.
- Por que de noite?
- Porque foi o horário que consegui marcar com o time todo! - James falou como se fosse óbvio. - É depois da janta… Bem depois da janta, lá pelas 11h. Michael insistiu que eu te chamasse porque ele quer aprender novos passes…
Remus bufou ao lado de Sirius e Peter engoliu todo o sanduíche um segundo antes do professor chamar atenção da conversa “alta demais naquele canto”.
Depois daquela aula, tinha o treino de duelos. Sirius escapou com Mary entre os alunos, pois ela contou que tinha encontrado um lugar perfeito para fazer a festa, e que não envolvia alunos bêbados destruindo o campo de quadribol.
- Você não vai pro treino?
Sirius virou, deixando que Mary continuasse o caminho, e deu de cara com seu namorado. Se em algum momento Remus esteve irritado, agora ele usava uma expressão difícil de interpretar. Parecia cuidadoso.
- Eu vou, daqui a pouco, só tenho que ver uma coisa antes… - Sirius mentiu. Não tinha intenção de voltar para a aula, mas também não queria contar isso.
- Ok, eu vou te esperar, então. Você sabe que é a única pessoa que consegue chegar perto de me derrotar em um duelo.
Sirius riu e esticou o braço para pegar a mão de Remus. Quando suas peles se encostaram, ambos levaram um choque. Remus ainda usava aquela expressão indecifrável, que Sirius tentou ignorar deixando um beijinho nos seus dedos.
Sirius não voltou. Era o horário de jantar quando ele e Mary entraram no Salão Principal, discutindo animadamente todas as possibilidades que aquele lugar permitia. Ela se despediu e ele caminhou reto até seu lugar ao lado de Remus.
Ele tinha chego no meio de uma conversa animada entre os outros três marotos sobre como Peter tinha conseguido, pela primeira vez, derrubar Remus.
- Eu ainda acho que você fez isso de propósito, Moony. - Peter falou, ignorando Sirius, um sorriso contente em todo seu rosto.
- Ele não fez, eu vi, juro. A porta abriu e ele foi olhar quem tinha entrado e baixou a guarda. Ainda acho que você poderia só ter desarmado ele, mas foi um bom ataque, Peter. - James falou, orgulhoso.
- Concordo com a parte do desarmar, não precisava ter me estuporado. Mas que bom que você fez isso, deu pra ver que seu feitiço não está estável ainda. Eu deveria ter desmaiado também. - Remus falou. Ele também parecia orgulhoso, mas tinha algo atrapalhando sua fala.
Sirius esqueceu completamente o que ia falar quando virou para Remus e viu o pedaço enorme de pano que tinha contra a boca. Ele segurava meio desajeitado, sem saber exatamente onde deveria pressionar para estancar o sangue.
- Aqui, deixa que eu te ajudo…
Sirius falou e tirou o pano de Remus, que só então percebeu sua presença, ou esteve fingindo muito bem.
- Você tinha que ter visto, Pads. Remus voou uns três metros para trás, você teria surtado.
De fato, Sirius teria provavelmente comido Peter vivo, mas ele duvidava que seu susto fosse maior do que o que sentia agora, sabendo que Remus só baixou a guarda porque esperava por ele. O corte não era tão profundo, mas tinha reaberto uma cicatriz e o sangue não parava de pingar ali, mesmo que Sirius o secasse.
- Posso fechar para você?
Remus assentiu e Sirius lembrou de respirar. Ele puxou a varinha e apontou para o rosto de Remus, logo acima do corte.
- Você tem alguma coisa pra nos contar, Pads? Tipo, onde você esteve…
- Não é importante.
Ele falou e se concentrou em lançar o feitiço. Naquela noite, Remus não foi para o grupo de estudos. Ele não estava a fim.
- Me desculpa por não ter ido pro treino hoje. - Sirius falou quando Remus entrou no banheiro ao mesmo tempo que ele saiu do chuveiro.
Remus o olhou de cima a baixo, do cabelo molhado até a toalha enrolada em sua cintura. Estranhamente, talvez pelo distanciamento dos últimos dias, ele se sentiu culpado por olhar daquela forma. Sentiu seu rosto aquecer e Sirius riu baixinho.
- Você pode olhar, sabe. Não é como se fosse errado. - falou e circulou os braços na cintura de Remus, que ficou estático para seu toque. O moreno percebeu, mas decidiu ignorar. - Como está seu corte? Arde ainda?
Remus assentiu, seus olhos caíram para os lábios do outro e suas pupilas ajustaram. Sirius de repente percebeu como estava quente naquele banheiro. Para quem transava uma média de duas vezes no dia, duas semanas sem um toque mais elaborado era tortura.
Ele se esticou para Remus no mesmo momento que o outro se curvou, seus lábios se encontrando no meio do caminho.
Sirius sentiu as mãos de Remus em sua cintura e ele arfou animado quando seu namorado o puxou para perto da pia, o levantou sem muito esforço e o fez sentar na bancada de porcelana, se posicionando entre suas pernas.
Queria tirar sua toalha do meio do caminho e o uniforme de Remus, mas como aquela distância não tinha sido causada por ele, sabia que não era sua escolha.
Independente se Remus tiraria ou não os tecidos entre eles, Sirius poderia ficar naquela posição a noite toda sem reclamar.
- Por que você não foi? Eu quis explodir Peter…
Remus falou, com o lábio de Sirius entre os dentes.
- Eu quis explodir Peter… Quem ele acha que é para fazer isso com você? - Sirius lambeu o corte fechado de Remus, que gemeu em resposta. - Ele não sabe que não pode mexer com o que é meu, pelo jeito.
- Seu? - Remus se afastou para questionar, uma sobrancelha arqueada enquanto suas mãos afastavam a toalha de Sirius. - Você já ouviu falar sobre o boato?
- Hm…
- Que você foi encontrado chupando Michael Keane, no banheiro do quarto andar.
- Mentira… - Sirius gemeu, sentindo as mãos de Remus acariciando o alto de suas coxas.
- É verdade, - Remus continuou, sua voz abafada contra a pele do pescoço de seu namorado. - disseram que já era seu terceiro encontro com ele. Antes disso vocês foram vistos na Torre de Astronomia e na sala de Transfiguração.
- Hm, péssimos cenários. As pessoas romantizam a Torre da Astronomia sem saber que você vai congelar antes de gozar, ah, Moony!
- Por Merlin, eu senti saudades de te ouvir assim.
Sirius não duraria muito com as mãos de Remus agarradas em si, os lábios colados nos seus, o perfume, os gemidos baixinhos pela falta de estimulação, os fios de cabelo acariciando a testa de Sirius.
No fim, Remus lambeu seus próprios dedos e piscou para Sirius antes de perguntar - Você engoliu?
- Você sabe que eu nunca engoli ninguém a não ser você, amor. - Sirius respondeu, ainda no tom de brincadeira.
Remus sorriu e deu um passo para o lado, permitindo que Sirius pulasse para fora da pia.
Sirius esperava que qualquer que fosse o boato que estivessem espalhando sobre ele, Remus não acreditasse. Sabia que isso não ia acontecer, mas também sabia que eles estavam distantes. Se perguntava qual seria a sua reação quando ouvisse algum boato sobre o que Remus estava fazendo no seu tempo livre.
- Você não precisa sentir saudades. - Sirius começou.
- Do que estamos falando agora? - Remus sabia o que estava ouvindo, mas não sabia o que responder.
- De mim, você sabe, eu durmo na cama ao lado. O que nos separa são dois passos.
Remus riu sem graça e lavou as mãos.
- É só porque, ahm, eu volto cansado e você normalmente está dormindo. Eu volto muito cansado, mesmo.
Sirius assentiu e sorriu fechado para Remus pelo espelho. Sabia que o que estava ouvindo era uma desculpa, mas estava determinado a não se magoar com aquilo, por mais que ainda doesse a ideia de que seu namorado, também conhecido como o amor da sua vida, precisava de um tempo longe dele.
Sem responder, Sirius vestiu a toalha novamente e caminhou para a porta.
- Pads, escuta… - ele virou, não muito esperançoso e Remus vestia uma expressão cheia de pena. - Até as provas, vai ser assim. Mas depois, tudo vai ficar melhor e…
- Não precisa explicar, Moony. Eu entendo e eu te apoio, ok? - Remus assentiu e Sirius sorriu novamente, o mesmo sorriso falso que Remus já conhecia e nunca esperou receber. - Quando você precisar de mim, me deixa eu saber. Estou te devendo uma por hoje.
- Você fala como se eu estivesse te fazendo um favor entre amigos.
Sirius riu e abriu a porta, sem antes dizer. - É tipo isso.
Sabia que tinha sido venenoso, desnecessário, vingativo. Ele estava tentando ser a melhor pessoa, a pessoa madura que Remus esperava que ele fosse, mas aquela jornada era definitivamente mais difícil do que imaginava.
No dormitório, James já estava de uniforme, esperando.
- Nossa, hoje foi rápido. - seu sorriso indicava que ele sabia exatamente o que tinha acontecido no banheiro, ao que Sirius respondeu revirando os olhos - Vê se faz rápido agora também e se veste de uma vez. Precisamos descer.
Sirius tinha aceitado assistir o treino porque não gostava da ideia de ficar no dormitório, sentado na cama, sabendo que Remus estaria assim também, mas em outra cama e querendo ficar sozinho.
E também porque era James, ele não precisaria pedir mais de uma vez, isso era motivo o suficiente.
- Michael não falou contra os boatos de você e dele. Não sabia que ele era gay…
- Ele não é gay. Ele só está adorando seu nome na boca dos outros.
- Como Moony está com relação a isso? Vocês ainda estão… estranhos.
- Bem, eu acho. - Sirius não queria falar sobre isso, então não deu continuidade.
James seguiu escadaria abaixo, seu uniforme de treino não envolvia a capa, o que Sirius dava graças a Merlin, pois sempre tropeçava nela quando o seguia.
Alguns quadros os saudaram, outros os olharam com cara feia.
- Faz meses que a gente não faz uma pegadinha, eles ainda acham que estamos fazendo nada de bom. Achei que esses caras iam melhorar desde que eu me tornei monitor chefe, mas é sempre pior, principalmente perto do dormitório da Sonserina.
Sirius sorriu e deu dois tapinhas nas costas de James.
- Não me diz agora que você está se arrependendo do seu legado.
- Nunca! - James respondeu orgulhoso e pulou os últimos degraus.
- Ei, Potter, Black, vocês estão indo para o campo?
Michael Keane era o novo batedor do time da Grifinória, que substituiu Sirius quando ele foi expulso no quinto ano. Só por esse motivo, Sirius já o odiava. James também não era muito fã do garoto, mas ele era um bom jogador e isso importava muito mais.
- Eu tinha esquecido meu blusão. - Michael falou, arfando. James assentiu e caminhou na frente, pedindo que eles fossem logo.
Sirius no entanto não conseguiu tirar os olhos do blusão idêntico a um dos de seu namorado que Michael usava. Estava se perguntando se ele tinha comprado ou pedido emprestado para Remus e não percebeu que ainda olhava o garoto.
- Está vendo algo que gosta, Black? - ele perguntou e riu com a careta que Sirius fez.
Nunca entenderia como alguém conseguiria se sentir atraído por pessoas ruivas. Ignorava todas as vezes que James descrevia a beleza de Lily ou que Peter explicava que, teoricamente, Remus tinha algumas mechas ruivas. Mas não era só pela cor do cabelo, sinceramente. Pessoas ruivas, Sirius já tinha concluído, eram cheias de si. O melhor exemplo disso, depois de Lily e Molly, era Michael.
Outra coisa que ele também não entenderia é como alguém conseguia gostar de mullets . A primeira coisa que pensava sempre que via esse penteado era naqueles cachorros brancos e peludos… Poodles, segundo seu namorado, que sempre caia na risada com a comparação.
Ele sorriu, inconscientemente, lembrando da risada de Remus.
- Se você continuar sorrindo assim para mim, vou transformar aqueles boatos em história real.
Dessa vez, Sirius riu. James continuava caminhando na sua frente, mas estava atento à conversa.
- Você gostaria disso?
Michael demorou um pouco para responder. Sirius achou que fosse por vergonha, mas quando sentiu a mão do outro no meio das suas costas, concluiu que talvez estivesse errado sobre as intenções ali.
- Eu confio que você faz um bom trabalho.
Sirius engoliu amargo e riu de novo, tentando se desvencilhar do toque insistente.
- Você quer dizer então que você me quer de joelhos chupando seu pau no banheiro?
- Não precisa ser no banheiro, sabe, pode ser ali embaixo, no vestiário.
Sirius respirou fundo, sua vontade bater nas coisas de repente muito palpável. Estava tentando ser a melhor pessoa, mas às vezes era mais difícil do que parecia. Respirando fundo de novo, ele respondeu:
- Eu namoro, Keane. Se você não consegue me respeitar, tenta respeitar meu namorado.
A mão escorregou do meio das suas costas até sua lombar e Sirius fechou as mãos em punhos.
- Ei, Michael, o que acha de focar essa energia em acertar os sonserinos ao invés das pessoas comprometidas?
A mão de Michael sumiu das costas de Sirius no momento que Lilian passou entre eles, caminhando em direção a James, que a saudou com um beijo cinematográfico.
Michael deu dois passos para longe de Sirius quando Lily o olhou de novo, sua íris verde flamejante. Sirius pensou que ela era capaz de lançar uma Maldição da Morte com os olhos.
Quando o grupo chegou no campo, Lily subiu uma arquibancada e Michael entrou, claramente puto, no vestiário, sozinho .
- Você não me disse que ela ia vir.
- Você não me disse que demoraria tanto assim para defender seu relacionamento.
Sirius franziu os olhos para James.
- O que isso tem a ver com o fato de Lily ter vindo?
James bufou, abriu o armário de vassouras e pegou a sua.
- Ela soube que você ia vir e se convidou.
- E você não sabe dizer não.
- Ela quer conversar com você, Sirius! Olha, você disse pra mim que prometeu para Moony que ia resolver o que quer que precisar resolver. Mas até o momento, você só fortaleceu um boato e deixou Remus na mão.
Sirius olhou para o chão. Não sabia porque não tinha socado Michael no mesmo momento que ele colocou as mãos em suas costas. Sabia que não tinha nada a ver com o fato de estar carente fisicamente, ou com o fato de que um cara aleatório deu mais atenção para ele do que seu próprio namorado no mês inteiro.
James se aproximou e colocou uma mão em seu ombro.
- Você tem que tomar uma decisão sobre isso, Sirius. Remus pediu um tempo para ele poder estudar. Não é difícil de entender, mas se você acha complicado então talvez tenham outras coisas escondidas aí. Se esse for o caso, nem eu, nem Moony, nem você mesmo vão poder ajudar.
- Nada vai ajudar.
- Talvez nada ajude mesmo. Se for assim, qual o problema de tentar de novo, mas com Lily dessa vez? Entende o que eu quero dizer?
- Bem pouco… - Sirius suspirou. - Ok, vou sentar lá com ela, mas eu não quero falar nada.
James assentiu, sabendo muito bem que Lily conseguiria tirar tudo de Sirius com poucas palavras, e assistiu seu melhor amigo escalando as arquibancadas, antes de se lançar no ar para passar coordenadas.
Lily estava enrolada em uma cobertinha, seus olhos grudados em James no chão, seu cabelo preso dentro do casaco, parecendo que ela tinha cortado chanel.
Sirius a olhou por um tempo, mesmo sabendo que encarar as pessoas assim poderia ser um pouco estranho. Ele decidiu caminhar até a garota, devagar e cuidando para não tropeçar nas madeiras soltas do piso.
- Você não precisava ter feito aquilo. Eu estava no controle.
Lily levantou os olhos de James até Sirius e os revirou, se abraçando mais debaixo da cobertinha.
- Eu não fiz por você. Fiz por Remus.
Sirius sentou e a olhou, assustado.
- Remus viu?
- Claro que não, ele está estudando. Não foi isso o que eu quis dizer.
- Óbvio que não foi, você fala em códigos.
- E você tem zero empatia. - ela se virou para encarar Sirius. - Se ele tivesse visto, o que ia acontecer?
Sirius não respondeu, mas sabia a resposta para aquilo. Remus entenderia que sua hesitação significava interesse e provavelmente teria cortado ainda mais contato. Ele ficaria distante e evitaria falar sobre isso. No fim do dia, por mais bem resolvido que Remus fosse, ele iria implorar para que Sirius tomasse uma atitude de uma vez e não ficasse brincando com seus sentimentos.
- Ele se fecharia ainda mais, e dessa vez nada passaria por ele, nem eu, nem James, muito menos você. Em momentos como esses, você não pode esperar que a outra pessoa respeite você ou seu namorado. Você tem que fazer esse trabalho. E já que você claramente não estava fazendo, eu fiz. Pelo bem da minha amizade, não do seu namoro.
Sirius assentiu e não respondeu. Lilian tinha razão. Um a zero para ela.
Eles assistiram um pouco do treino quietos. Sirius fez alguns comentários para si mesmo, ao que Lily respondeu com “uhm”. James berrava de vez em quando e quase caia da vassoura toda vez que olhava para as arquibancadas, o que tirava risadinhas de Lily.
Foi só quando a apanhadora do time se aproximou de James no ar, para conversar, que Lily falou algo de fato.
- Eu sei que ela não está dando em cima dele, sabe, mas mesmo assim, não dói menos. É como se meu peito queimasse, como se eu quisesse arrancar aqueles dedos - que no momento estavam agarrando o uniforme de James - e servir de aperitivo no jantar.
Sirius riu alto, o que levou Lily a rir também.
- Acho que não vai de encontro com os gostos das pessoas… - ele falou, ainda rindo. Depois de alguns segundos, quando os dois estavam mais tranquilos, Sirius continuou. - Não posso te julgar, porque eu entendo. Qualquer pessoa que se aproximava de Remus, antes da gente começar a namorar, se tornava o alvo da próxima pegadinha. Agora eu consigo controlar isso um pouco melhor.
- Ah, com certeza isso é verdade. - Lily comentou, sarcástica, e Sirius concluiu que James tinha falado sobre o seu ciúmes para Lily.
- Com você é diferente. Na verdade, tudo agora é diferente.
- Como diferente?
- Diferente do tipo, - Sirius respondeu sem hesitar - agora é sério. Se alguém der em cima dele e ele reagir, eu não vou conseguir defender nosso relacionamento com uma pegadinha… Eu nem devo. Eu não posso esperar que ele me ame para sempre.
As palavras saíram de sua boca com facilidade e Sirius se questionou se o perfume doce de Lily era feito com Veritaserum .
- Por que é difícil imaginar que ele possa te amar pra sempre?
Sua voz era distante, baixa, delicada. Ela era uma bruxa, óbvio, o seu jeito de falar parecia um encantamento e Sirius se viu mergulhado em seus próprios sentimentos.
- Amor incondicional não existe, e eu tenho uma lista de condições para amar.
- Por que você acha que amor incondicional não existe?
- Porque é tóxico. É como meus pais pedindo que eu continue amando eles e a família, apesar de. É doentio.
- Para você é doentio, porque não vai de acordo com o que você acredita. Mas para Regulus não é.
Como ela sabe sobre Regulus? Sirius fez uma anotação mental para esfolar James no meio da noite.
- Ele não sabe quais são essas condições…
Lily riu nasal e balançou a cabeça.
- Acho que você está subestimando ele. Acho que ele sabe quais são as condições, ele vê quão mal faz, mas ele ainda ama seus pais incondicionalmente, sendo contra ou a favor dos atos deles. É possível reconhecer os demônios de alguém e ainda amá-los.
- Mas não é uma coisa que você pode obrigar a pessoa.
- Amor incondicional não é obrigação. É algo que acontece, que floresce, e que não vem de você, mas do outro. Se alguém não consegue te amar apesar de, então essa não era sua pessoa desde o início.
Sirius olhou para Lily. Ele poderia discutir mais sobre isso, mas sentia que ela ainda tinha coisas para falar.
- Se James saísse de Hogwarts e se tornasse um seguidor de Voldemort, eu não conseguiria mais estar ao lado dele, pois eu valorizo a vida, sou contra o preconceito, e todo o resto. Mas isso não significa que eu vou deixar de amá-lo. Muitas vezes você acha que ama a pessoa certa até ela fazer algo que vai contra a sua existência, e daí você percebe que nunca a amou de fato.
Sirius sabia que ela estava falando de Snape agora.
- Eu estou levando muito para o lado exagerado da coisa. James não vai trocar de lado. Assim como você também não vai. E eu duvido que suas condições sejam tão ruins assim.
- Você não sabe de nad…
- Sobre a pegadinha do quinto ano? Remus me contou sobre isso.
Sirius fez uma anotação mental para esfolar seu namorado.
- Foi na vez que ele me contou que… tinha uma condição. Eu perguntei se era verdade que Severus sabia, e ele contou o que aconteceu. Ele ficou reforçando a cada frase que o que você fez não foi por mal. Que por mais que parecesse, que por mais que fosse fácil de acreditar nisso, você não imaginou as consequências. No lugar dele eu teria te matado, sinceramente. Mas é porque eu não te amo incondicionalmente. Eu não falei nada sobre isso, claro, quem sou eu para dizer algo sobre o relacionamento dos outros, mas naquele dia eu entendi realmente o que era o tal do amor incondicional que eu sentia e nunca via na prática. Eu sinto pela minha irmã, apesar de. Eu sinto por James, apesar de. E Remus claramente sente por você, apesar de.
Sirius ainda olhava para Lily, impressionado. Disse para James que não falaria, mas acabou falando e ouvindo. Lily sorriu e se virou novamente para o jogo. James abanou para ela e ela abanou de volta, seu sorriso ainda maior. Sirius sentiu vontade de chorar.
- E se o “apesar de” dele tiver limite ou prazo de validade?
- Você vai continuar amando ele, apesar do amor dele ter prazo de validade?
- Vou.
- Então qual o seu medo? Você não vai ficar sozinho, James nunca deixaria isso acontecer. - Lily agarrou a mão de Sirius entre as suas e as escondeu dentro da cobertinha - Eu acho que ser amado é tão bom quanto amar. Acho que todo amor é bom, mesmo que não seja recíproco. Eu não sei o que vai acontecer no futuro, mas se Remus te ama apesar da pegadinha com Severus, acho que ele consegue te amar apesar de qualquer outra coisa.
- Você não me conhec…
- É, talvez. Talvez eu não conheça suas partes ruins, mas eu também acho que não conhece elas, nem suas partes boas.
Eles não falaram mais nada até o final do jogo. Pelo menos, nada além dos comentários que Lily fazia sobre as jogadas e Sirius respondia com “uhm”.
22 de maio de 1978
A lua cheia de maio caiu no primeiro dia de provas do NIEMs. Nenhum dos marotos conseguiu estar presente, porque Remus recebeu toda a supervisão que deveria ter recebido desde o início das aulas em Hogwarts.
No dia seguinte, ele fez a prova de Defesa Contra as Artes das Trevas e voltou para a Ala Hospitalar, onde ficou o resto do dia.
- Aposto que Minerva convenceu Dumbledore em colocar a prova de Poções para o final da semana por causa do Remus. - James comentou enquanto ele e os outros dois caminhavam em direção à Ala Hospitalar.
- Como assim? - Peter pediu, confuso.
- Ele não é muito bom em Poções. Seria uma merda se a prova fosse hoje, sabe…
Sirius não ouvia eles, caminhava na frente, seus sentidos todos focados no trajeto que precisava fazer.
Ele coçou um olho e quase tropeçou em um degrau.
- Você precisa ir dormir depois, Padfoot.
- Eu tô bem.
- Você não dormiu a noite toda.
- A gente nunca dorme nas noites de lua cheia, James.
- Não dormir porque você está correndo no meio do mato é muito diferente de não dormir de preocupação.
Sirius riu robótico e apressou o passo.
Remus estava apagado quando eles chegaram, coberto por um lençol fininho, um pano úmido na testa.
- Ele sente muito calor nessa época do ano. Sr. Pettigrew, abre aquela janela se possível? Sr. Potter, tem um atrás de você também, se puder…
James e Peter abriram antes que Madame Pomfrey conseguisse terminar sua frase. No mesmo momento, uma brisa fresquinha de primavera passou no salão e Remus parecia satisfeito, se possível.
- Acredito que ele vá acordar depois do jantar, sr. Black. Bem depois do jantar… Pode ser que ele volte para o dormitório no início da manhã. Quantas provas vocês têm amanhã?
- Ahm, Defesa foi hoje… Amanhã é Aritmancia? - James estava contando nos dedos.
- Eu decorei a matéria, não a sequência das provas. - Peter riu.
- É que as provas dele são diferentes das nossas, Poppy. Não sei de cabeça as dele… - James explicou.
- Ele tem a prova de Aritmancia com a gente e depois de Transfiguração.
Madame Pomfrey sorriu para Sirius e assentiu.
- Muito bem. Se vocês quiserem, podem ficar um pouco, mas imagino que eu não precise pedir para que vocês não tentem acordá-lo. Ele precisa descansar.
Os três marotos assentiram e se aproximaram de Remus.
- Será que é melhor já deixarmos as coisas arrumadas para ele no dormitório? - James questionou, mexendo na bolsa de Remus. Peter listou os motivos do porque concordava, afinal, dessa forma, Remus poderia tomar o banho dele em paz, sem precisar se preocupar se tudo já estava pronto.
Sirius sorriu com os comentários. Nos últimos meses, ele viu seus amigos desenvolverem o mesmo tipo de preocupação que ele sempre teve desde que descobriram sobre Remus.
Agora, enquanto James e Peter pensavam nas burocracias, Sirius conseguia dedicar suas visitas para cuidar de seu namorado. Claro que seus treinamentos com Poppy no início do ano serviriam para que sua ajuda fosse muito mais do que só psicológica.
Uma mão sua envolveu outra de Remus, suada pelo calor que ele sentia. Suas mãos eram maiores que as de Sirius, mas naquele estado, elas pareciam menores, desmaiadas pelo cansaço.
Mesmo em sono profundo, o corpo de Remus sempre correspondia a toques e um de seus dedos enrolou entre os de seu namorado.
A porta da Ala Hospitalar abriu e os três garotos saíram de seus transes para olhar a nova pessoa. Madame Pomfrey também apareceu ali e acenou a varinha para a cortina que envolvia a cama de Remus se fechar. O rosto avermelhado de Lily apareceu atrás da madeira pesada da porta e todos pareceram relaxar de repente.
- Desculpa, tem problema eu estar aqui?
- Claro que não, srta. Evans.
- A gente só tenta evitar que as pessoas vejam Moony. O que você faz aqui, flor?
Lily sorriu para James, explicou que veio visitar e caminhou para dentro da cama acortinada, onde Sirius brincava com os dedos de Remus. Ela acenou para ele e olhou o garoto deitado, curiosa. Desde o final do sexto ano, Lily tem aparecido para checar Remus, mas todas as vezes ela ficava ainda mais impressionada, o que Sirius não julgava. Ele mesmo se impressionava, às vezes.
- Ele parece menos pior do que eu esperava.
Sirius assentiu. Sabia que James já tinha contado para ela como ele e seus amigos conseguiam impedir que Remus se destruísse por completo nas luas cheias. De início, ficou puto que James tenha contado esse segredo. Eles não namoravam a tanto tempo assim e Lily foi amiga de Snape por muitos anos. Se o sonserino soubesse dessa informação, eles três poderiam ser presos e Remus com certeza sumiria do mapa.
Mas, desde o treino de James, onde ele e Lily conversaram, Sirius se sentia mais à vontade perto da garota. Estava começando a entender porque seus amigos não tiveram tanta dificuldade de aceitá-la como parte do grupo.
- Mesmo nas melhores luas, ele é capaz de dormir o dia inteiro.
Lily sorriu e pescou, dentro da capa, uma barra de chocolate. Ao invés de deixar na mesinha ao lado da cama, entregou para Sirius.
- Você sabe mais do que qualquer um quanto ele pode comer sem passar mal. - Sirius a olhou com dúvida - Ele me contou que chocolate ajuda nas dores…
Lily parou de falar quando Sirius estourou em uma risada. Madame Pomfrey o xingou do lado de fora das cortinas e James enfiou o rosto para dentro, seguido por Peter, que riram quando viram o chocolate nas mãos de Sirius.
- Ele te mentiu, Evans. A única coisa que melhora as dores são poções analgésicas e um beck bem bolado.
Lily abriu a boca chocada e Sirius riu ainda mais se possível.
- Mas não se preocupa, a gente caiu nessa também até o quinto ano.
- O chocolate não faz nada então?
- Quer dizer, claro que faz. O chocolate aumenta as taxas de glicose dele, que normalmente caem na lua cheia. Além disso, aumentam a serotonina, o hormônio da felicidade, sabe? - Lily assentiu, incerta, enquanto James e Peter ouviam a explicação complicada de Sirius, sem entender uma palavra. - Ele sente dor, mas pelo menos fica feliz. Obrigado, pode deixar que eu vou entregar para ele.
Sirius falou e jogou o chocolate para James, que enfiou na bolsa de Remus.
Eles saíram de lá alguns minutos depois, Lily e Peter batendo suas respostas da prova. Quando chegaram no Salão Comunal, Peter concluiu que não tinha ido tão mal assim.
- Sirius! Peter! - Mary chamou do sofá, Marlene sentada ao seu lado, muito concentrada em alguma anotação.
Sirius caminhou até ela, e Peter o seguiu logo depois.
- Tenho novidades sobre…
- Shhhh.
- Ok, ok, - ela sussurrou - tenho novidades sobre as decorações. Minha irmã comprou tudo que precisávamos e me enviou agora de noite. Vocês querem ver?
Sirius assentiu, não tão animado quanto Peter. Apesar de não querer pensar na festa, que teoricamente precisava estar pronta para o final da semana, ele acompanhou seus outros dois amigos até o armário de vassouras dentro do salão comunal, onde Mary tinha guardado as decorações.
- Precisamos mover isso daqui antes que Filch encontre.
Os dois garotos olharam a caixa grande, supostamente cheia de decorações para uma festa grande o suficiente para todos os alunos de todas as casas. Sirius não conseguia acreditar que estava tudo ali.
- Obviamente eu usei um feitiço de extensão. Minha irmã foi mais do que sensacional em mandar absolutamente tudo que a gente precisa. Ela disse que no dia vai me enviar alguns doces trouxas também. Vamos levar para onde isso?
- Vamos decorar agora já? - Sirius questionou.
- Acho que podemos decorar no dia anterior, para não atrasarmos demais. - Peter racionalizou e os outros dois concordaram.
- Bom, se for o caso, acho que podemos levar para o dormitório. Posso colocar dentro do meu baú. Ninguém mexe lá mesmo. E daí na quinta de noite nos encontramos depois do jantar para fazer isso, pode ser?
Mary e Peter assentiram e ajudaram Sirius a levar a caixa para cima. James não estava presente para questionar, nem Lily, e Marlene parecia entretida demais com seus estudos de Aritmancia para sequer notar a movimentação no salão comunal. Frank obviamente já estava acostumado com caixas pelo dormitório, então não interrompeu que Peter e Mary assistissem Sirius guardando aquilo em seu baú.
25 de maio de 1978
A prova de Poções passou e com ela o peso nas costas de Remus se foi. Pelo menos era isso que Sirius esperava.
- Você acha que podemos conversar hoje antes da janta?
Sirius tinha pensado muito nos últimos dias, sobre seus temores, sobre suas esperanças, sobre seu futuro com Remus. Ele não queria admitir isso, mas Lily ajudou bastante com isso.
James não gostava de se envolver, pois Remus também era seu amigo. Marlene era prática demais para ouvir ele choramingar sobre como seu namorado não o dava atenção. Lily no entanto o ouvia e falava de volta, muitas vezes falava coisas que Sirius não esperava, ou não queria, ouvir.
Por isso julgava que já estava na hora de conversar com Remus.
- Hoje? Não pode ser amanhã?
- Por que não pode ser hoje?
- Porque…
O que Sirius não sabia era que, do outro lado, Remus tinha medo que essa conversa significasse um término e por isso o evitava a todo custo. Enquanto não falassem, estariam juntos ainda, certo? Quando pensava no quão problemático era isso, Remus tinha vontade de dar um tapa na testa.
Precisava deixar Sirius ir, se era isso que ele queria. Mas não antes das provas terminarem. Ele não conseguiria fazer o teste final de Astronomia, indicando onde sirius ficava no céu, quando seu namorado tinha decidido juntar os trapos e ir embora.
- Porque eu preciso estudar.
Remus sabia que o outro não se oporia a isso, principalmente depois da vez em que disse que ele não o apoiava. Era verdade, Sirius não o apoiava naquela época, mas odiava usar isso contra ele de novo e de novo e de novo…
- Tudo bem…
- Amanhã então?
- É, ahm, não sei se amanhã vai dar, mas pode ser.
- Por que amanhã não daria? - Remus sentiu sua mão suar. Quais os planos de Sirius para sexta-feira à noite?
- Porque o jogo é no domingo e eu ainda não pensei no trote que vamos passar na Sonserina quando eles perderem.
- Eu posso te ajudar com isso!
Remus falou tão rápido que Sirius só conseguiu rir. De repente a festa surpresa pra toda a escola que ele, Mary e Peter estavam organizando não era tão importante.
- Tá! Amanhã de noite então!
- Ok!
Sirius ficou em dúvida se beijava Remus ou não. No início da conversa, as pessoas estavam saindo da sala de Poções, mas agora a escadaria da masmorra estava vazia e eles teriam privacidade para isso. Pelo menos até os agentes do Ministérios aparecerem.
Remus sorriu, também hesitante, e começou a subir as escadas.
- Você vai fazer o que agora?
- Não sei ainda, acho que vou sentar no gramado um pouco… - Sirius respondeu, entendendo que aquilo era sua deixa para seguir seu namorado.
- Ok, talvez eu encontre vocês lá depois. Mas não tenho certeza.
Sirius assentiu e Remus sorriu de novo, estranho, sussurrou um tchau antes de continuar seu caminho contrário ao de Sirius, em direção à biblioteca.
- Moony! - Remus virou e Sirius tomou um pouco de coragem para dizer: - Você foi ótimo nos testes hoje. Eu amo você.
- Ahm. - Remus piscou e seus olhos brilharam, como se marejados. - Você também foi, ahm, ótimo. Você sempre é. Eu também amo você.
Sirius sorriu robótico e Remus sorriu, seu rosto contraído, como se ele sentisse dor. Os dois seguiram seus caminhos e se questionaram, individualmente, se era esse o destino da conversa do dia seguinte.
Mary arrastou Sirius, Peter e a caixa de decorações para o lugar da festa um pouco antes da janta acabar.
A ideia deles de fazer uma festa de fim de ano inspirada na Noite Estrelada era usar de todos os elementos naturais que poderiam ter acesso, ou seja, as estrelas e a lua decrescente no céu.
Mesmo assim, quando Sirius debateu com Mary que usar luzinhas e lanternas iam apagar o brilho das estrelas, ela só respondeu com:
- Você quer que as pessoas dancem e se divirtam ou fiquem olhando pro céu, Black?
No fim, eles enfeitiçaram luzinhas, como as de Natal, dentro de balões que flutuaram entre estrelas de plástico, também enfeitiçadas para ficarem bem presas.
O lugar da festa seria em uma clareira logo na estrada do bosque que cercava as estufas, do outro lado do campo de quadribol, o que era bom, afinal ninguém iria mexer por ali até serem chamados.
Peter tinha dado uma ideia para a entrega dos convites: eles apareceriam na frente de cada bruxo e bruxa, exceto os professores, quando o último aluno finalizasse a última prova. Sirius riu com a possibilidade de que algumas pessoas levariam sustos com a chegada dos convites e concordou com a ideia. Mary concordou também, desde que Peter não esquecesse de avisar no convite que o traje era de gala.
- Onde as pessoas vão arranjar um traje de gala para uma festa em 3 horas, Mary?
- Elas que se virem.
- Não, não, isso não vai acontecer. Vamos falar o tema da festa e pedir que as pessoas usem algo no tema, mas sem gala.
- Você quem sabe, mas eu vou usar meu vestido de formatura.
Sirius não quis admitir que ele mesmo já tinha arranjado a roupa ideal para o evento. Para ele e Remus. Teria procurado algo para James também, mas quando contou o segredo da festa para Lily na semana anterior, pediu que ela se responsabilizasse por isso.
- Eu tenho o vestido perfeito pra mim, e eu vou procurar algo para ele nesse estilo. - ela falou, convencida.
- Ok, mas é melhor você falar com Euphie. Eu disse para ela que precisava das minhas roupas e de Remus, então ela provavelmente já pensou em algo para James e para você.
Os olhos de Lily dobraram de tamanho. Ela não tinha conhecido os Potter ainda, mas tinha completa noção de que eles sabiam mais do que o suficiente sobre ela.
- Euphemia tem um vestido pra mim?
- Provavelmente.
- Eu definitivamente vou guardar o meu e não mexer nele nunca mais se isso for verdade.
Sirius riu com a lembrança. Ele terminou de ajustar as plantas que emolduravam a clareira, de forma que criassem cobertura em espaços específicos, ao mesmo tempo que Mary espalhava alguns tapetes pelo gramado. Peter precisou de ajuda para terminar de montar a pista de dança e, depois disso, tudo estava arrumado.
As comidas ficariam por responsabilidade de Mary, que iria adicionar antes da festa para que não houvesse problemas em estragar, e Peter tinha uma lista nova de mais bebidas.
- Devo dizer que ficou muito melhor do que eu esperava para quem preparou isso em menos de um mês.
- Você chamou profissionais, sr. Black.
Mary bateu as palmas com Peter e se encaminhou para fora do espaço. Quando ficaram sozinhos, Sirius viu Peter se aproximar e parar ao seu lado, observando o espaço decorado com orgulho.
- Eu acho que ele vai gostar disso.
- Ele?
- Remus. Quer dizer, eu sei que sua intenção é uma festa para toda a escola. Mas também sei que você queria impressionar ele. Então, acho que ele vai gostar, bastante.
Sirius sorriu com a percepção de Peter e assentiu. - Espero que sim. Vamos ver.
26 de maio de 1978
No café da manhã, Remus não falou nada. No almoço também não. A prova de Astronomia seria no final do dia, início da noite, por isso tinha ficado por último.
No horário certo, Remus foi fazer seu teste final, com Lily. James foi treinar uma última vez antes do jogo que seria no domingo. Peter tinha descido para o lugar da festa, com as bebidas a mais.
Isso tudo significava que Sirius estava sozinho no dormitório. Ele achou melhor assim, pois dessa forma poderia finalmente ver como era sua roupa para a noite. Tinha escondido o pacote, que Euphemia enviou e chegou na manhã anterior, debaixo da cama. Embaixo do seu pacote, tinha o de Remus. Decidiu pegar esse primeiro.
Sirius tirou a tampa firme aveludada, passando as mãos pelo blazer branco perolado e os dedos sobre as estrelas bordadas. Quando recebeu os correios, teve que ter muito cuidado para que nem James, nem Remus, mexericassem, por isso escondeu os pacotes sem abrir e não mexeu mais desde então.
O traje de Remus era com certeza uma das coisas mais lindas que ele já viu. Imaginava como seu namorado ficaria vestindo aquilo e sorriu. O sentimento melancólico do dia anterior estava sendo afogado pela ansiedade e esperança de que, quando Remus colocasse os olhos no seu traje, que combinava perfeitamente com o de Sirius, tudo ficaria bem.
Sirius fechou a caixa de novo e colocou-a em cima da cama de Remus, com uma notinha informando que aquela roupa era para a festa da noite.
Quando voltou para sua cama, agarrou o seu pacote, que era um pouco maior, graças aos acessórios, e tirou cada peça dali. Primeiro os colares e correntes, decoradas com pingentes de estrelas. Depois a calça branca perolada, igual ao traje de Remus. Por fim, a capa de tule preto bordada com mais estrelas. Afinal, o tema era A Noite Estrelada. Se ele não fosse vestido como uma, para honrar seu nome, era preferível que nem fosse.
Vestiu cada peça no seu devido lugar: a calça antes, depois os colares, depois a capa preta e, então, as correntes. Ele não prenderia o cabelo, não usaria nenhuma outra peça que cobrisse seu peito. A ideia era exatamente aquilo que via no espelho. Segundo a carta de Euphemia, transparência combinava com ele.
De repente estava muito curioso para saber qual roupa sua mãe e Lily escolheram para James.
Sirius desfez todo seu traje, guardou no pacote de novo e vestiu o uniforme. Iria ajudar Mary a finalizar as organizações antes do jantar.
O dia já tinha virado noite fazia tempo e nas escadarias os alunos do sétimo ano se encontravam para falar sobre as últimas provas do dia, da semana, do ano e de toda a vida escolar.
O último aluno terminou a prova de Astrologia no meio do jantar, e um grande vush assustou o Salão Principal, inclusive Peter, o que foi, para Mary e Sirius, um motivo de rir.
- Isso é uma festa?
- É o que diz no convite, Prongs, “Baile/Festa de fim de provas”. - Remus leu. - Um baile? Quem tem traje para um baile?
- Também diz no convite, Moony, “O traje é o que você quiser no tema”. - James respondeu em vingança. - Eu posso pegar aquela sua camisa do Bowie para a festa, Sirius?
- Por que você faria isso?
- Porque tem uma estrela na frente.
Aos poucos, o salão foi ficando barulhento com a intensidade das pessoas discutindo sobre quem ia com quem, vestido com o que.
- Onde é isso?
- Diz aqui que o convite serve como uma… bússola.
- Não, não, diz que é só seguir leste…
- Vocês acham que é uma segunda prova de Astrologia?
Sirius começou a duvidar se o que Peter escreveu no convite faria sentido para que as pessoas encontrassem o lugar. Mas ao mesmo tempo, Peter ajudou muito na criação do Mapa, e ele sabia que não podia fazer nada óbvio demais, para que os professores não soubessem.
- Eu não sei se vou. - Remus comentou de repente.
- O quê? - Sirius falou, ao mesmo tempo que James e Peter.
- É tarde, eu tô cansado… Só queria dormir um pouco, sabe.
- Sem essa, Moony. As provas passaram já, você tem o resto da vida para descansar. - James abanou a mão no ar, como que desconsiderando tudo que o outro tinha falado.
- É! Além disso, essa é provavelmente a última festa em Hogwarts.
- Tem a festa de quando ganharmos a Taça no domingo.
Peter e James começaram uma discussão muito elaborada sobre se a aglomeração pós Taça era considerada festa ou só bagunça. Mas Sirius não estava ouvindo. Ele olhava Remus chocado consigo mesmo sobre não ter pensado na possibilidade de ele não querer ir.
- Eu achei que você quisesse conversar… - Remus falou baixinho.
- Eu quero. Mas a gente pode fazer isso depois. - Remus não respondeu, só remexeu no seu purê de batata. Sirius pensou em uma alternativa que o machucaria. - Nós não precisamos ir juntos. Podemos, podemos ir sozinhos, se você quiser.
Remus olhou para cima rápido.
- É o que você quer?
- Não. Mas se você quiser… Quer dizer, eu entendo, queria muito que você fosse comigo, mas queria mais que você fosse, mesmo que sem mim.
Remus assentiu, pensativo.
- Tudo bem, só preciso passar na biblioteca antes. - ele levantou. - Vocês podem ir se arrumando que eu encontro vocês lá. Ainda preciso achar uma roup…
- Você sabe onde é, Moony? A gente pode te esperar.
- Eu sei onde é. Atrás das estufas, isso? - James assentiu, impressionado e Remus sorriu. - Nos vemos lá.
Antes de sair, Remus deixou um beijo nos cabelos de Sirius.
- Isso quer dizer que vamos juntos?
- Isso. Vamos juntos.
Sirius descobriu que Euphemia não tinha comprado uma roupa nova para James e Lily. Ao invés disso, enviou para os dois os trajes que ela e Fleamont tinham usado na própria festa de formatura, muitas décadas antes. Ou seja, tanto o terno de James, quanto o vestido de Lily, decorado com pérolas, entregava muito bem não só a estética de O Grande Gatsby , como o tema da festa.
James e Lily, no momento que entraram na clareira decorada com luzes e balões no teto, taças baixinhas, whiskey na mesa e tapetes no chão, eram o retrato do casal que todos esperavam que eles fossem. Se aquela fosse uma festa de formatura realmente, seriam coroados rei e rainha.
Partindo desse cenário, o resto poderia ser facilmente imaginado: depois da escola, eles casariam cedo, movimentados pelo fogo da paixão ainda adolescente, e teriam o primogênito em menos de um ano. A partir daí, James seria um homem inspirador, envolvido com a sociedade bruxa e dedicado para a família, como seu pai foi. Lily seria uma mulher excepcionalmente poderosa, envolvida em causas sociais e de conservação da sua história, também seria muito dedicada para a família.
Os dois morreriam idosos e juntos, seus filhos sempre por perto e mantendo as tradições da família.
Eles entregavam tudo isso pelo simples fato de escolherem usar uma roupa inspirada nos anos 30. Sirius via isso claramente, qualquer um veria.
Mary tinha levado a história mais a sério, pois usava um vestido branco azulado, rodado e bem cheinho, como o da Cinderela, dizia ela, na esperança de que seus colegas bruxos entendessem alguma coisa.
Marlene tinha confessado para Sirius que tinha um macacão neon, mas que ele não cobriria seus seios. Depois de provocá-la o suficiente por isso, ele sugeriu que colocasse uma blusa qualquer e ofereceu aquela que James tinha pedido. Dorcas, para contrastar bastante com o look de Marlene, usava um vestido branco com estrelas desenhadas com tinta que ela tinha feito meia hora atrás, enquanto esperava para poder usar o chuveiro.
Remus demorou para aparecer. O lugar já estava lotado quando ele chegou, mas Sirius não o viu de início pois estava no meio da pista, com a varinha na garganta em um feitiço amplificador, agradecendo Mary e Peter por fazerem quase tudo.
Quando terminou, Sirius escapou do meio de todo mundo e encontrou Remus que, quando viu mais de perto sua roupa, abriu a boca impressionado.
- Você está sem camisa.
- E desde quando você é puritano?
Remus riu e Sirius o olhou de cima a baixo, agradecendo de novo por Euphie ter escolhido um traje que deixaria seu namorado mais lindo do que o normal.
- Você quer beber algo? - Remus assentiu e Sirius disse que iria buscar.
Era estranho que se sentisse como se aquilo fosse seu primeiro encontro. Principalmente quando eles estavam a alguns meses de completar dois anos juntos. Decidiu deixar aquele pensamento de lado, afinal, independente do tempo que ele e Remus namorassem, Sirius sempre se sentiria anestesiado por tê-lo ali.
Voltou para o mesmo lugar que tinha saído, e Remus já estava cercado.
- Devo dizer que fiquei impressionado pelo fato de Sirius ter guardado isso de nós. - James comentou enquanto mordia uma das balas longas e azedas que Mary tinha arranjado.
- Ele é dedicado para os segredos dele. - Remus respondeu, distraído.
- Vocês vão conversar hoje? - Lily perguntou, sua voz baixa.
- Sim. Eu tentei evitar, mas acho que vai ser inevitável.
- O que é inevitável? - James perguntou, seus olhos o dobro do tamanho. Os olhos de Lily caíram em Sirius, que os observava, dois copos nas mãos.
- Por que não vamos dançar, Potter?
James parecia hesitante a aceitar, mas quando viu Sirius também, seguiu Lily para a pista de dança montada.
- Te trouxe Firewhiskey. - Sirius falou quando se aproximou, dando um susto em Remus. Ele sentia seu coração doer e se perguntava se ele ia explodir ou era só ansiedade. - Você quer sair daqui?
- O quê? Não! A festa tá perfeita, vocês fizeram um ótimo trabalho. - Remus bebeu um gole e pareceu hesitante em se aproximar. - Você está lindo, não precisamos sair…
Sirius engoliu em seco e Remus olhou seu peito, seus colares escondidos pelo tule. Finalmente, olhou a tatuagem nova no pescoço do outro. - Isso é novo. Você quer dançar?
Sirius engoliu em seco de novo, o “inevitável” ainda ecoando em sua cabeça. Ele demorou para responder e Remus finalmente se aproximou, não entendendo.
- O que houve?
- O que é inevitável?
- Como assim?
- Você falou que era inevitável, algo sobre nós.
- Podemos conversar depois, Pads…Você ajeitou essa festa, arranjou um traje para mim que combina com o seu. Eu estou aqui como seu par, inclusive. A gente não precisa falar sobre isso agora.
- Ok, eu só não quero que seja difícil para você.
- O que seria difícil para mim? - Remus estava muito confuso e se perguntava se estava ouvindo Sirius bem. Ao mesmo tempo, só a ideia de algo ser difícil para ele quebrava seu coração. - Você quer conversar aqui? Podemos ir em algum canto para conversar, se preferir.
- Você quer usar a festa que eu planejei para conversar sobre nosso inevitável término?
Remus franziu as sobrancelhas, como quem não ouviu bem.
- Você vai mesmo terminar comigo? Aqui?
Sirius franziu as sobrancelhas também. Ele estava confuso, de repente o distanciamento, mais a hesitação de Remus ao seu redor, não fazia mais sentido. Remus não ia terminar, mas achava que ele fosse? O que era inevitável?
- Sirius…
- Eu estou confuso. O que é inevitável?
- Nossa conversa. Nossa conversa é inevitável. Eu acho que a gente não tá na mesma página, por que você acha que eu vou terminar com você?
Sirius franziu as sobrancelhas de novo. Olhou para as suas costas e de repente o espaço parecia muito mais lotado do que o normal. James estava dançando com Lily, mas olhava para a direção dele e de Remus.
- Vamos sair daqui. - Remus falou e puxou Sirius pelo pulso. - Tem um lugar que a gente pode conversar. Mas é dentro do castelo, você se importa?
Sirius não respondeu, só deixou que Remus o puxasse. Se perguntava como ele poderia estar tão tranquilo ao mesmo tempo que falavam a palavra com t.
Remus subiu vários degraus, carregando e puxando Sirius de forma silenciosa. Eles entraram em um corredor no sexto andar e subiram mais uma escada secundária, em caracol.
Quando finalmente chegaram no último piso, estavam em um lugar que com certeza Sirius já visitou, mas não lembrava. Era um andar inteiro aberto, sem corredores, nem salas, como um auditório. Algumas armaduras estavam ali, alguns troféus velhos, mas nada mais além de pedra, janelas longas e vitrais coloridos. Uma brisa leve corria de uma última janela que tinha um vitral aberto. Sirius olhou naquela direção e sua boca abriu, em choque.
O canto, perto da janela, era como um cenário montado. Um cenário que Sirius conhecia muito bem naquela altura.
Começando pela vista que tinham de Hogsmeade naquela altura. As montanhas e as árvores altas na borda da Floresta Proibida. A lua minguante estava subindo no céu já, amarelada, as estrelas brilhavam como se aquela noite fosse específica para elas, e com certeza era.
Seguindo o céu estrelado de fora, as paredes e o teto naquele lado estavam enfeitiçados para espelhá-lo, como o feitiço do teto do Salão Principal, mas mais próximo.
- Por que você fez isso? - Sirius perguntou, sentindo seu corpo inteiro tremer.
Remus abriu a boca várias vezes, sem saber como responder. Sirius esperou.
- Eu sabia que a gente ia precisar conversar em algum momento, e queria que fosse especial. Lily me sugeriu fazer algo no tema da Noite Estrelada. Ela disse que viu você andando com uma foto do quadro por aí. Claramente a gente entendeu errado o motivo disso. Mas só descobri isso hoje de noite.
Remus tentou sorrir, mas Sirius não o acompanhou, só o olhou. Ainda tremendo, ele falou simples:
- Você queria que nosso término fosse especial?
- Para de falar isso se você não vai terminar comigo! Eu não vou, essa não era a intenção da conversa, ou do distanciamento, ou de qualquer coisa.
Remus explodiu. Ele deixou seu olhar cair para o chão e caminhou até a janela aberta, derrotado, sentando no parapeito e deixando Sirius de pé, no meio do corredor. Quando levantou os olhos de novo, sabia que Sirius estava magoado, havia mágoa ali, e ele também sentia. E sabia que precisava tomar as rédeas naquele momento ou não tiraria nada de seu parceiro.
- Você achou mesmo que eu fosse te abandonar? - os olhos de Sirius brilharam e Remus pressionou os lábios em uma linha reta. - Vem cá, Padfoot.
Ele esticou uma mão, ao que Sirius hesitou para pegar, mas quando o fez, foi puxado para que sentasse também no parapeito.
Uma mão de Remus pousou na coxa de Sirius e a outra segurou seu rosto. Remus se aproximou, testando a reação de Sirius e, quando esse não pareceu hesitar, ele se aproximou mais até seus lábios tocarem. Sirius estava muito rígido, mas nem por isso Remus desistiu de tentar aprofundar o beijo, o que, para sua surpresa, foi correspondido instantaneamente.
Eles se beijaram por poucos segundos e Sirius se afastou finalmente. Remus arfou e colou suas testas.
- Fala comigo, amor.
Sirius não falou inicialmente. Ao invés disso, ele olhou ao redor, para as estrelas, para Hogsmeade à distância. Os feitiços que Remus adicionou ali fazia com que ele sentisse que estivesse flutuando no céu noturno. E talvez fosse aquilo, sua proximidade com o divino e as estrelas, que sentiu a clareza emocional que procurava se completar.
- Você gostou daqui? - Remus perguntou em um sussurro quando Sirius demorou para falar algo. - É um feitiço bem simples, não achei que fosse ser tão fácil. Enquanto fazia ele pensava que poderíamos colocar no apartamento. Você ia gostar disso? Gostaria que eu colocasse isso na janela do quarto?
Sirius assentiu, tímido, e Remus sorriu, assentindo também. Ele sabia que tinha a honra de conhecer o lado quieto de Sirius, por mais melancólico que fosse.
Ficaram em silêncio por mais alguns minutos e Remus começou a se questionar se Sirius estava mesmo ali ou já tinha entrado em um de seus devaneios. Suas expectativas aumentaram quando ele ouviu um suspiro.
- Eu pensei que você quisesse terminar. E, pra ser sincero, torci que fosse isso.
- Por quê? - por mais que tentasse, Remus não conseguiu deixar o tom triste longe de sua voz.
- Porque seria mais fácil. Seria mais fácil você ir embora e encontrar outra pessoa. Seria mais fácil eu ficar triste e culpar você. Seria mais fácil se você me achasse substituível, se você não me amasse tanto quanto eu te amo.
Sirius fez uma pausa e agradeceu por Remus não o interromper, pois não tinha terminado.
- Seria mais fácil se, assim como meus pais e Regulus, você fosse embora e me deixasse resolver as coisas do meu jeito. Seria mais fácil se eu fosse embora e te deixasse longe disso. Mas, eu cheguei a conclusão, que fácil não é necessariamente o melhor. Que, talvez, eu estivesse lutando a pessoa errada até hoje. Eu sei que sentia um medo. No caso, tinha medo de que você escolhesse o fácil. Mas eu conheço você. Assim como conheço James. Fácil nunca foi o caminho para vocês. James luta comigo pra não ir embora, você luta comigo para não ir embora.
“Quando eu percebi isso, meu medo mudou. Tive medo que eu escolhesse o fácil e fosse embora. Mas agora, Moony, tenho medo de não ir. Tenho um terror completo de ficar e deixar que você veja. Que eu veja.
“Lily disse que eu não conheço minhas partes boas, mas eu percebi que não conheço minhas partes ruins também. Eu não sei se confio em mim. Não sei se quero que você confie em mim. Eu não sei o que vou encontrar se ficar e lidar com isso, com todo esse sentimento de insuficiência e com o medo de ser abandonado. Eu sabia que meus pais estavam me abandonando e fui embora antes que eles tomassem essa decisão. Na minha cabeça, dói menos quando eu vou embora, quando eu faço a escolha. E era isso que eu achei que fosse acontecer. Achei que você fosse me dar os motivos para eu ir embora, mas você só me dá motivos para ficar.
“Agora meu medo é ficar, lidar com o que quer que venha com essa decisão e, quando eu estiver confortável, você perceber que seu amor incondicional tinha condições. E você simplesmente vai embora, sem avisar antes, sem me dar a escolha de tomar essa decisão antes.”
Remus esperou um pouco antes de falar, pois não sabia dizer se ainda tinha algo para ouvir.
- Amor incondicional não garante que uma pessoa fique, Sirius.
- Você acredita nesse tipo de amor?
- Sinceramente, eu nunca acreditei. Minha situação não me deixa eu acreditar. Para mim, qualquer pessoa que esteja comigo está porque sente que me deve algo, como meu pai sente que me deve a proteção que ele não me ofereceu quando eu fui mordido. Por mais que eu não acredite, por mais que seja difícil de aceitar, eu sei que existe, porque eu sinto. Sinto de você, sinto de James e Peter, sentia de Hope. Eu também sinto por você. Sinto muito amor incondiscional por você, Sirius. Se eu não sentisse, eu só ficaria aqui porque sinto que te devo isso. Se eu não sentisse, então por que meu peito queima quando estou contigo? Por que eu sinto que preciso estar aqui, preciso de você aqui, preciso te tocar o tempo todo e ouvir a sua voz? Você me faz ter certeza que eu fui amado incondicionalmente e que eu sou capaz disso também, Sirius. Mas isso não garante que eu fique. Ou que você fique. Isso só garante que, se alguma coisa acontecer, algum dia, e nos separar, eu vou sentir tudo isso ainda, para sempre. Independente do que acontecer. Você pode decidir uma manhã que não está pronto para lidar com tudo o que vem quando você decide ficar. Pode decidir ir embora e me deixar para que eu me junte de novo, sozinho, e ainda assim eu vou te amar. É disso que você tem medo? Porque eu também tenho.
Sirius assentiu, seus olhos nas mãos de Remus, que seguravam firme as suas.
- Não é fácil escolher ficar. Muitas vezes é mais difícil do que escolher ir, principalmente para você, que viu esse padrão. Mas se você escolher ficar, eu vou me certificar de que vamos encarar o que vem depois juntos, sem abandono. Pelo menos, até o momento que ficar não seja mais a melhor opção. Ok?
Sirius assentiu de novo, mas não foi em concordância.
- Tem muita coisa aqui que eu não olhei ainda, Moony.
- Eu sei.
- Você promete que vai ficar só enquanto ainda for bom?
- Prometo... Você promete que vai me falar se não me quiser aqui?
- Prometo que você nunca vai ouvir isso.
Remus sorriu e trouxe as mãos de Sirius para seus lábios, deixando um beijinho em cada nó de seus dedos.
Eles ficariam ali por mais alguns minutos. Sirius contaria sobre as conversas que teve com Lily e Remus ouviria tudo ao mesmo tempo que segurava seu namorado contra si, seus dedos mergulhados nos cabelos negros dele.
Sirius interromperia sua fala para olhar alguma estrela cadente que passava do céu de fora até sumir dentro do céu enfeitiçado dentro do castelo. Cada vez que isso acontecia, ele repetia sobre como o quarto deles ficaria perfeito com esse encantamento. E cada vez que repetia isso, Remus concordaria com um “uhum” e deixaria um beijo em seu rosto, na intenção de assegurá-lo de que viveriam o suficiente para ver isso acontecer.
Mais tarde, quando Sirius ficou com frio e vestiu o blazer de Remus, eles desceram para a festa. O lugar estava ainda mais lotado, se possível, e as pessoas estavam mais loucas. Remus puxou a carteira de cigarros de Sirius do bolso da calça e acendeu dois.
- Você mexeu nas minhas coisas? - Sirius falou, o filtro balançando entre seus dentes.
- Primeiro que esses eram meus para início de conversa e você roubou. Segundo, eles estavam na sua cabeceira e eu sabia que você ia querer.
Sirius riu, sugou o cigarro de forma que suas bochechas aprofundaram, respirou fundo e soprou a fumaça para cima. Remus de repente achou o dormitório muito mais divertido do que a festa. E Sirius parecia ter lido sua mente, pois o puxou pelo pescoço para um beijo.
- Eu ia querer, ou você ia querer que eu quisesse?
- Você é muito complicado. - Remus comentou, rindo. Sirius se ergueu na ponta dos pés para beijar seu namorado de novo, mas logo se afastou, lembrando de um detalhe importante que deixou escapar:
- Eu preciso te pedir... Você acreditou nos boatos?
- Ahm, quer dizer, passou pela minha cabeça. Principalmente quando eu pensei naquela vez que peguei você e Marlene conversando sobre alguma coisa que eu não deveria saber. Mas daí lembrei que vocês estavam falando sobre os feitiços bloqueadores que você lançou em Severus. Além disso, você nunca faria isso.
- Você sabe? - Sirius sussurrou urgente.
- Que você nunca me trairia? Sim, sei sim.
- Não isso... O feitiço no ranhoso.
- Você achou mesmo que eu não fosse descobrir? - Remus riu quando Sirius só o olhou - Amor, eu percebi no momento que você lançou o feitiço. Toda vez que uma bombinha fedorenta explodia na cara do Snape eu sabia que ele estava tentando me atacar. Sinceramente, ter criado um feitiço para me proteger, e não para atacar ele, foi uma das coisas mais maduras que você já fez.
- Achei que vocês não fossem mais vir.
Lily falou surgindo do meio da multidão, seu vestido de pérolas ainda muito bem no lugar, diferente do traje de James, que já estava sem o blazer e com o colete aberto.
- Ah, Prongs, esqueci de te dizer...
- Eu amo muito vocês! - James gritou e interrompeu Sirius, se jogando nos seus braços. Uma mão sua agarrou Remus e o puxou para o abraço. - Muito mesmo. Amo vocês mais que tudo. Por favor, não me deixem e por favor não briguem, vocês são tudo pra mim.
- Ele bebeu um pouco demais.
Lily comentou quando James deixou um beijo babado nas bochechas de seus amigos. Sirius quis dizer que não era a bebida, pois ele agia dessa forma sóbrio também.
James se virou para Lily muito de repente e segurou suas mãos com mais delicadeza. Mesmo bêbado e fora de si, James era um cavalheiro.
- Eu amo você demais também. Eu quero que você conheça meus pais… - Lily abriu a boca e seus olhos dobraram de tamanho com aquela declaração. - Não me olha assim, eu estou falando sério. Nas férias…
- Então, é sobre isso que eu queria falar. Talvez vocês não precisem esperar até as férias.
James se virou para Sirius de novo, sem soltar Lily, que parecia ainda chocada.
- O que você fez?
- Eu posso ter convencido Dumbledore de deixar que Fleamont e Euphemia usassem uma lareira de Hogwarts para vir ao jogo no domingo.
Sirius tinha de fato conseguido, mas sua luta não tinha sido tão grande. O diretor tinha reconhecido que James estava envolvido demais com a escola, tinha conhecimento também da situação de saúde de Euphemia e tinha consciência de que ela e o marido não eram mais tão jovens para ficar se movimentando para cá e para lá. Por esse motivo, concordou que os Potter viessem para o jogo como seus convidados, de forma que sentariam ao seu lado nas arquibancadas.
Antes que Sirius pudesse terminar de explicar, James estava agarrado nele novamente. Aquela ficaria marcada como a segunda vez que James choraria na sua presença. Mas dessa vez, ele tinha certeza que as lágrimas que molhavam suas costas era de pura gratidão e felicidade.
- Eu tenho sorte de te ter aqui. Eu te devo tudo, Pads. Você é literalmente tudo para mim. Obrigado por ficar.
Sirius sentiu seus próprios olhos encharcarem com a última fala de James. Naquele momento, não sentiu medo do que viria a partir de agora. Naquele momento, soube que estava cercado das pessoas que o amavam e que ele amava de volta. E isso era o suficiente.
