Chapter Text
15 de novembro de 2021
Departamento da polícia investigativa de Seul, ROK
Park Chanyeol observava a pasta com fotos aterrorizantes até mesmo para ele, que estava tão acostumado com casos extremos. Era bastante meticuloso em suas investigações; e não somente com elas, tudo em sua vida era baseado nas minúcias. Apesar de ser uma pessoa expansiva, era bastante observador, características que, muitas vezes, não eram associadas umas às outras pela maior parte das pessoas.
Uma grande parte das que conheciam Chanyeol pela primeira vez se surpreendiam com sua personalidade. Ser um dos delegados mais conhecidos de Seul fazia com que as pessoas esperassem por alguém introspectivo, ou até mesmo arrogante. Park passava bem longe de qualquer um desses atributos. Era um rapaz muito social, que gostava de conviver e buscava, mesmo que inconscientemente, por experiências vibrantes. Julgava que por essa última questão, e outras que mergulhavam bem mais fundo em seu interior, se envolveu tanto na área de investigação criminal. Possuía uma ânsia interminável por desvendar o desconhecido; acreditava em explicações palpáveis e racionais, mesmo que fosse movido bastante pelo emocional. Essa visão o tornava um grande cético em suas resoluções, o oposto de Byun Baekhyun, seu detetive-assistente direto, que era seu parceiro de trabalho há três anos. Contrastavam completamente quando o assunto eram crenças, apesar de serem muito parecidos na personalidade.
Park teve dificuldade para encontrar um parceiro e a delegacia na qual trabalhava exigia que os investigadores operassem sempre em duplas. Ele compreendia, afinal, era uma profissão que poderia receber bastante holofote e, consequentemente, ameaças. Trabalhou inicialmente como assistente, mas, após seu delegado-chefe se aposentar, conseguiu nota máxima em um exame que o colocou no cargo aos vinte e sete anos. Não era tão comum alguém tão novo nessa posição, o que causou bastante dor de cabeça para o rapaz durante um ano todo. Costumava confiar nas oportunidades e principalmente em seu olhar atento, porém, sua maneira incomum e até um pouco individualista — costumava ser muito teimoso quando colocava algo na cabeça — de realizar o trabalho não trouxeram apenas a parte boa do reconhecimento. Muitos o consideravam novo e inconsequente demais para um cargo tão alto, mesmo que os resultados dissessem o contrário.
Byun Baekhyun, já em seu primeiro dia, chegou dizendo que aquilo era pura inveja dos demais. Park preferia nem discutir a pauta, mas sabia bem que teve muitos desentendimentos com parceiros de trabalho por razões fúteis demais. Nunca se importou com tal questão hierárquica, só a seguia pela pura necessidade empresarial do departamento. Sentiria-se mal em culpar qualquer um dos antigos parceiros, era uma pessoa realmente sensível; fato que também foi motivo de crítica, já que em sua área muitos procuravam pelo distanciamento sentimental. Baekhyun foi sua sorte. Uma transferência inesperada do rapaz um ano mais velho, mas que tinha uma visão muito parecida com a sua para o trabalho e vida, sem se importar com status ou idade, e tão obstinado quanto o próprio Park; o que os fazia dialogar muito para chegar a soluções. A dinâmica com Baekhyun permitiu que ambos tivessem uma liberdade incontavelmente maior para avançar com os casos em aberto e as coisas começaram a fluir como nunca.
Suas personalidades afáveis dificultavam para que as pessoas os levassem a sério; porém, isso não os impediu de se tornarem os mais requisitados em Seul para crimes de difícil solução. Byun era um grande instigador, ele sabia exatamente quais palavras usar e sempre tinha uma boa resposta. Por isso, acabava por sempre ficar com a missão de persuadir e convencer pessoas. O mais baixo era cara de pau o suficiente para qualquer coisa. Ele tinha certo charme que Park invejava.
Chanyeol era melhor com ações do que com palavras; ousado o suficiente para saber como reagir às mais diversas situações, mas perspicaz o suficiente para não ser imprudente. Porém, era bem mais sensível sentimentalmente do que Byun parecia ser. Park tinha facilidade de atrair pessoas para o seu lado, elas geralmente se sentiam confortáveis em sua presença de uma maneira tão natural que, quando se davam conta, já estavam falando mais do que deveriam.
Eram a dupla perfeita. Exceto quando Baekhyun entrava no que Chanyeol costumava chamar de "papo místico".
De qualquer maneira, as idades próximas, o senso de humor parecido e facilidade na sincronização dos pensamentos os fizeram muito mais que parceiros de trabalho. Park tinha em Byun um amigo e vice-versa. Além de tudo, havia algo bem forte em comum: a dedicação minuciosa ao trabalho. Eram até mesmo associados às famosas histórias dos personagens ingleses Sherlock Holmes e John Watson; coisa que os divertia e até virou uma piada interna. Mas sabiam bem que tudo o que presenciavam na vida real lhes deixava ligeiramente mais assustados sobre o mundo. Não era um serviço formidável como o dos contos glamourosos de Holmes; era aterrorizante.
Aquela manhã de novembro começou chuvosa e fria, o que denunciava o fim do outono para a chegada do inverno. Park gostava do fim do ano, dos feriados, que, por mais que fossem de cunho religioso, ainda lhe permitiam ter um pequeno descanso para a cabeça. Às vezes, decidia visitar o pai em Busan. Não era tão próximo do progenitor. Desde sempre, o mesmo era de uma postura rígida e distante, mas as coisas pioraram depois que a mãe de Chanyeol foi assassinada em um assalto à mão armada.
O culpado nunca foi pego. Tanto ele, como o pai não estavam na casa, que foi invadida quando Park ainda tinha dezesseis anos. O mais velho estava no trabalho, enquanto o garoto tinha ido ao cinema com alguns amigos. Chanyeol não conseguia nem mesmo explicar como se sentiu quando seu pai o ligou gritando que não podia tê-la deixado sozinha. Apostava que o pai o culpava, julgando pela forma como se fechou para a relação de ambos. Ele mesmo se culpou por muito tempo, foi de onde surgiu a determinação principal para se tornar delegado; a ânsia por compensar o culpado que nunca foi pego e lhe tirou a coisa mais preciosa que teve. A mãe era como a cola que mantinha a conexão familiar. Agora já não era uma relação conturbada ou caótica como a de muitos, mas era fria como gelo.
Park era repleto de sorrisos e simpatia como a mãe o ensinara a ser, mas carregava um ódio velado dentro de si, pelo assassino desconhecido e pelo pai, que lhe jogou toda a responsabilidade. Havia dias em que isso voltava a pesar o peito, como naquela manhã de novembro, data em que sua mãe estaria comemorando o aniversário se nada disso tivesse acontecido. Chanyeol sentiu por muito tempo que perdeu sua família toda quando perdeu a mãe, mas esse vazio mudou depois de conhecer Baekhyun.
O cenário era diferente para o amigo, mas não menos complicado. Fora criado com a avó, nem mesmo conheceu os pais. Porém, tinha um contato constante com a mesma, tanto que passou a incluir o Park nesse contexto. A avó carinhosa de Byun tratava o mais novo da mesma maneira que tratava o neto. Ela morava a cerca de trinta minutos de Seul, então Park estava sempre dando caronas para o parceiro de trabalho até lá, já que tinha um carro e o outro não. Foi assim que, aos poucos, acabou incluso.
Chanyeol havia acordado cansado naquele dia, não dormiu tão bem e não gostava muito daquele vento frio que parecia facas afiadas em sua pele. Até não ligava para a mudança de temperatura, mas a ventania era um castigo para si. Queriam combinar com a dor emocional que sentia naquela data. Não esperava, de forma alguma, que a pasta repleta de folhas que receberia no fim daquela tarde fria de outono, o entregaria o caso mais complicado com o qual já se deparou em todo o tempo de trabalho.
Como era de se esperar, Baekhyun surgiu um pouco depois de Park pela porta da delegacia e foi direto até a mesa do amigo com um copo descartável de café.
— Seu mocca, chefe! — O sorriso quadrado tomou conta de seu rosto.
— Baekhyunee — chamou-lhe de maneira mais carinhosa, como de costume. — Faz três anos que eu falo para não me chamar assim.
O sorriso arteiro no rosto do mais velho somente se alargou. Byun era do contra, quanto mais Park dizia para que não fizesse alguma coisa, mas ele o fazia. Chanyeol precisou se acostumar com aquilo naqueles anos de amizade, mas não era algo que realmente o incomodava, só gerava pequenas discussões. Foram pouquíssimas vezes que tiveram brigas para valer e, até mesmo essas, não duravam muito tempo.
— Você foi até a cafeteria nesse vento gelado? Eu poderia ter te dado uma carona — Park continuou.
— Pare de reclamar, eu sei que você adora quando eu trago café.
Chanyeol não conseguiu evitar de soltar um riso anasalado, Baekhyun sempre tinha a resposta na ponta da língua. No fundo, o mais novo sabia que aqueles pequenos gestos do amigo eram para mostrar que estava por perto em um dia difícil. Viu o rapaz ir para a área de fumantes acender a maldita nicotina e ele, com certeza, já havia feito isso no caminho até ali. Park já o incentivou a parar, mas ele dizia que não era tão fácil assim.
Um dia completamente comum, exceto pelos traumas passados de Chanyeol, mas, para si, aquilo também se tornou corriqueiro depois de tantos anos. Sempre havia pequenos crimes para resolver, mas raramente recebiam situações que levavam mais de uma semana. Geralmente, estavam apenas fazendo o trabalho que qualquer policial faria. Porém, aquele dia não trouxe apenas a amostra do frio de inverno.
Park folheava a pasta um tanto desacreditado, mesmo que já tivesse visto muito na vida. Ou o assassino teve uma motivação muito grande para o feito ou era um psicopata que mata por diversão. Uma família inteira esquartejada; pai, mãe e duas crianças. Foi o que aconteceu a família Choi, em 1981. As partes dos corpos enterradas em valetas no quintal da própria mansão, descobertas três dias depois, quando o irmão do pai da família, Choi Dong-gun, acionou as autoridades por não ter notícias do homem. Uma atrocidade antiga sem resolução, já que o criminoso, ou os criminosos, nunca foram encontrados.
Lee Sungchan, o filho mais novo de uma família que residia no terreno ao lado da Mansão Choi — fechada há quarenta anos —, havia encontrado uma fita cassete, etiquetada com o sobrenome da família assassinada, dentro de um saco plástico, enterrada próximo ao rio que beirava ambos os sítios. O caso fechado por falta de informações, foi reaberto e caiu diretamente nas mãos da dupla conhecida de Seul pelos casos impossíveis.
Chanyeol e Baekhyun ainda precisavam conversar com o garoto, mas as informações iniciais eram de que ele estava no rio com alguns amigos e o pacote estava quase exposto na areia. Estava úmido, pois havia uma pequena fenda no plástico. Seria necessário um trabalho de recuperação das informações contidas na mesma, se fosse possível reconstruir esses dados; o que poderia demorar algumas semanas.
Quando Park inspecionou, puxou a ficha de informações sobre os Lee — a família que o filho encontrou a fita —, um detalhe ativou sua sensação de desconforto. A família era composta pelo pai, Lee Dongwook, de trinta e um anos; mãe, Lee Youngae, de vinte e nove anos; Sungchan, o filho mais novo de dezessete anos e a filha mais velha, Minjeong, de dezoito. A questão era: seus nomes eram exatamente os mesmos dos da família assassinada, exceto pelo sobrenome. Não havia absolutamente nenhuma relação de parentesco, proximidade ou coisa assim entre elas, além do fato de os Lee morarem na propriedade bem ao lado.
O que não agradava nada a Chanyeol, era a repercussão que o caso da Mansão Choi ganhou na mídia da época, pois isso criava fãs alucinados da história e poderia trazer um problema grande para as investigações, já que era possível que surgissem informações falsas de pessoas que não tinham nada a ver com a situação, mas queriam dar um jeito de participar. Não duvidava de absolutamente nada que viesse do ser humano, então, era suspeito o suficiente para si que o nome da família toda fosse o mesmo dos que foram assassinados no passado.
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18 de novembro de 2021
Departamento da polícia investigativa de Seul, ROK
No dia seguinte ao que os delegados receberam o caso, a família Lee foi chamada na delegacia para serem interrogados um a um. Chanyeol queria saber exatamente todas as versões da descoberta da fita. Esperava encontrar alguma ponta solta, mas as histórias batiam completamente, o discurso não destoava nem mesmo com os jovens de dezenove e dezoito anos. Pareciam todos bastante tranquilos ao relatarem o acontecido, o que deixou Chanyeol intrigado. Se fossem do tipo de pessoa que tentava se intrometer apenas por serem obcecadas pelo crime, estavam fingindo extremamente bem, porque raramente Park deixava passar os detalhes. Ainda assim, era como se estivessem escondendo alguma coisa.
O que fez os pais de Sungchan abrirem uma denúncia não foi a etiqueta com o sobrenome Choi na fita, mas o fato de o saco plástico conter também uma quantidade significativa em dinheiro vivo. Os wons sul-coreanos estavam parcialmente danificados pela umidade, mas uma parte se preservou. Foi apreendido como prova e guardado nos arquivos da delegacia.
Park usou da sua simpatia para ganhar a confiança da família. Era dessa maneira que conseguia arrancar informações. Quando os confrontou, despretensiosamente, sobre a questão dos nomes, todos reagiram da mesma maneira, aparentemente surpresos, pois desconheciam o caso ocorrido há quarenta anos. Park não sentia-se satisfeito em aceitar o detalhe como uma mera coincidência, mas, por hora, deixou para voltar a averiguar isso em outro momento.
No terceiro dia de investigação, considerado o primeiro que apenas estudaram as informações arquivadas na delegacia, Baekhyun estava fora, em busca de contato com Choi Dong-gun, o irmão ainda vivo, agora com setenta e cinco anos, que descobriram estar morando em uma casa de repouso para idosos. Byun também estava atrás do mandado para entrar no terreno dos Choi, já que Park não conseguiu resolver por telefone. Os dois achavam importante visitar os locais onde os crimes aconteceram, a fim de ter uma visão do ocorrido e, geralmente, buscar por pistas. Com um intervalo de quarenta anos, poderia ser raro que algo tivesse sido deixado para trás no espaço, porém, o pacote desenterrado era uma prova de que era possível.
— Chefe! — Baekhyun entrou, chacoalhando um papel no ar. Antigamente, quando tinha reações assim, a delegacia inteira o acompanhava com os olhos, mas agora estavam habituados demais para isso. Chanyeol deu uma rápida olhada. — Consegui o mandado para entrarmos na mansão.
Ele jogou o papel por cima dos outros que Park encarava em sua mesa de trabalho, sobrancelhas cerradas e as mãos juntas, apoiadas no queixo, o cabelo escuro levemente ondulado quase cobria os olhos, absorto em possibilidades. Passou a observar o amigo novamente enquanto este sentava na cadeira de frente para si, antes de pegar o papel para analisar.
— Você realmente tem lábia, Baek. Eles não queriam me liberar por telefone.
— Eu sei que sou o máximo — Byun piscou e Chanyeol soprou um riso.
Com o mandado em mãos, era possível que os rapazes andassem livremente pela propriedade que foi cenário do banho de sangue. Ninguém mais havia morado no espaço durante aquele tempo. A propriedade ficou para o irmão, que decidiu pelo distrato do terreno, não ficando na posse do mesmo na época, alegando que o causava lembranças ruins. Os bens ficaram para o mesmo, já que não havia o preenchimento de outros requisitos da cadeia sucessória e nem testamento. Por essa razão, Donggun foi considerado suspeito na antiga investigação, mas foi retirado por não haver provas e por cooperar completamente com a polícia no caso, além de doar a maior parte dos bens.
A casa antiga tinha um terreno amplo, mas não era em si tão grande, mesmo que fosse considerada uma mansão. As paredes estavam descascando, as folhas dançavam secas no chão e a aparência abandonada faria qualquer um pensar nos filmes de terror.
— Esse lugar me dá arrepios — Baekhyun disse depois de se recuperar de uma crise de tosse que teve após adentrar a porta da frente, devido a poeira acumulada.
Colocou de volta a máscara, antes abaixo do queixo, na posição certa sobre o nariz. O espaço poderia dar arrepios a qualquer um, com móveis deixados para trás cobertos com capas que um dia foram brancas, o papel de parede corroído pelo tempo, um relógio parado ainda pendurado na parede do hall de entrada. Mas essa sensação não chegava a Park, ele não acreditava em assombrações, acreditava em evidências concretas. Observaram os pontos marcados na ficha criminal em que os fatos se deram. Chanyeol queria dissecar a visão do assassino, saber seu passo a passo, apesar de nunca compreendê-la de verdade. Não gostava da violência, por isso trabalhava para fazer justiça por quem fora vítima dela.
— Como é possível que tenham exatamente os mesmos nomes? — Chanyeol puxou assunto com o amigo sobre a família Lee.
— Parece uma piadinha de mal gosto — Baekhyun comentou.
Ambos tinham as lanternas dos celulares ligadas, pois as janelas estavam fechadas com pedaços velhos de madeira e não havia energia nas lâmpadas.
— Escutou isso? — Baekhyun perguntou e Park parou até de respirar por um segundo, para conseguir escutar.
Eram risos de crianças.
Fez sinal para o mais velho para que fossem para os fundos, as armas ainda guardadas, mas preparados para retirá-las do coldre se necessário. As risadas pareciam distantes, pois ecoavam pelo enorme casarão vazio.
Ao finalmente conseguirem encontrar uma passagem para a parte de trás da casa, não encontraram nada, porém, o barulho continuou, agora em direção às árvores que rodeavam o local. Perceberam que provavelmente as crianças que antes estavam ali correram para lá.
— As crianças gostam de brincar aqui — uma voz de repente falou às suas costas, fazendo ambos os policiais levarem um susto.
Chanyeol recuperou a postura depois de perceber que era apenas Minjeong, a filha da família que tinha interrogado no dia anterior. Eles moravam na propriedade ao lado, então não era tão incomum encontrar a garota ali, apesar de Park considerar bastante bizarro que ela vagasse pelo local como se fosse sua própria residência.
— Acham que é mal assombrado. — Um risinho que Chanyeol não sabia identificar o sentido surgiu no rosto da garota e desapareceu com rapidez.
Ela parecia cansada, o semblante sério demais para uma jovem de dezoito anos.
— Este local está restrito à polícia, senhorita Lee. Não pode ficar passeando por aqui — Baekhyun repreendeu.
Ele sabia como dar sermões bem melhor do que Chanyeol, apesar de terem a mesma atmosfera descontraída na maior parte do tempo. Um novo sorriso surgiu no rosto da menina, mas agora permaneceu.
— Desculpe, delegado — ela usou o mesmo tom educado. — Vou para casa.
Afastou-se, enquanto Baekhyun e Chanyeol se entreolharam, sabiam que pensavam o mesmo sem dizerem nada. Precisavam falar novamente com Dongwook e Youngae, os progenitores da família Lee, tanto para alertá-los sobre não utilizarem o local, tanto para que prestassem atenção nos filhos quanto a isso.
O celular de Park vibrou no bolso. Era a perícia, que começou a conseguir recuperar o filme registrado na fita encontrada.
"Ainda não temos muito, precisaremos continuar o trabalho, mas, pelas cenas recuperadas, a filmagem foi feita pelo próprio assassino" , a voz disse ao telefone.
Chanyeol encerrou a conversa pedindo para que enviasse essas imagens para o acervo digital da delegacia. Continuava entre a mesma probabilidade de ter sido um maníaco que via diversão na tortura ou alguém com pretextos para fazer o que fez; em qualquer um dos casos, filmar o acontecido ou o processo era doentio. De qualquer maneira, poderia ajudar na investigação.
Quando Park assistiu, bastante desconfortável, percebeu que a fita realmente remontava passos que o assassino fez, ainda que desconexos. Parecia utilizar a filmagem para registrar a rotina familiar. Aquilo poderia ser valioso para suas análises. Foi enterrada longe, no meio da floresta, mas próximo do rio e esse foi o erro do criminoso. A erosão do tempo fez o objeto ser parcialmente desenterrado e vir à tona. Talvez tivesse escolhido um local que seria fácil de se lembrar, a questão era o porquê nunca voltou para recuperar aquelas filmagens e o dinheiro. O que lhe impediu. Havia uma voz agora para reconhecer, mesmo que com a baixíssima qualidade; e talvez amostras de DNA, isso estava sendo verificado.
Park estava quase absorto; ocupou totalmente a cabeça com dados e situações sobre o crime durante o restante da semana. Byun sabia bem disso, porque há algum tempo não via o amigo tão focado, trabalhando dias a fio, encarando o esquema que desenhou na lousa que funcionava como seu mural na delegacia.
— Chanyeol, você sabe que precisa dormir, não é? — Baekhyun perguntou no décimo dia de investigação, em que encontrou o outro no departamento com a mesma roupa do dia anterior, meio descabelado e com algumas olheiras.
Park mal piscou, seu cérebro não estava processando os arredores.
— Yeol? Ei! — Baek estalou os dedos e tirou o outro do quase transe. — Você precisa descansar, 'tá pior que os zumbis do mv do Twice...
Byun tinha uma particularidade muito forte: era um grande fã de girlgroups de kpop, principalmente SNSD e Twice. Muita gente zoava com a cara dele por isso, um delegado que gostava de "música de menininha". Para Chanyeol, aquilo sempre foi uma qualidade; gostava de ver como o outro se empolgava com o assunto. Comparações como aquela dos zumbis no music video eram bastante comuns, isso quando ele não cantarolava ou imitava as coreografias.
Com ou sem piada, Park sabia que precisava descansar. Não conseguiria trabalhar direito, muito menos encontrar o que precisava, se estivesse cansado daquela maneira, mas também não conseguia fazer o cérebro desligar. Queria desesperadamente entender como nunca encontraram nenhuma outra pista que entregasse um suspeito.
Após a insistência de Baekhyun, o mais novo estava finalmente decidido a voltar para casa e se dar uma folga quando saiu do escritório, mas seu cérebro estava tão vidrado na investigação que, quando se deu por conta, estava na direção de onde o casarão ficava, bem afastado da direção de sua casa. Passou a prestar mais atenção no trajeto e seus olhos encontraram Lee Dongwook andando na beira da estrada com algumas sacolas na mão. Se Baekhyun estivesse consigo diria algo sobre destino, mas Chanyeol não acreditava nessas coisas. Diminuiu a velocidade e abriu o vidro do lado do passageiro, se inclinando um pouco.
— Quer uma carona? — disse e o outro pareceu ligeiramente assustado, antes de perceber de quem se tratava. Chanyeol soltou um sorriso acolhedor enquanto parava o carro.
— Delegado Park… Imaginei que viria.
Chanyeol franziu levemente as sobrancelhas para aquela frase. Aquela família era, no mínimo, misteriosa. Se não até um pouco sinistra, ele diria. Ainda assim, até o momento, eles eram apenas pessoas comuns expostas a uma situação complicada; e que, talvez, na percepção do delegado, pudessem estar escondendo coisas. Ter um tempo para conversar com aquelas pessoas fora do ambiente do departamento de polícia poderia render algo. Park gostava de fazer dessa maneira em alguns casos, mesmo que seus superiores desaprovassem o método. Chanyeol não se importava em criar laços até certo ponto, na verdade, era justamente esse contato que geralmente deixava as pessoas mais abertas; sempre mantendo um limite profissional. Baekhyun sempre lhe apoiava nessas, também por isso se davam tão bem na maneira de trabalhar.
— Por causa da investigação e tudo… — o homem tentou se justificar, mas Chanyeol permanecia desconfiado, mas não deixara transparecer.
— Ah, claro. Na verdade, hoje estava apenas de passagem mesmo, mas vi você com as sacolas.
— Passei em uma pequena feira. É mais fácil que precisar ter que ir até o mercado.
— Realmente — Chanyeol concordou com sua simpatia natural.
Um silêncio não tão agradável se estabeleceu, enquanto o homem encarava o delegado sem muita expressão. Park sentia como se o outro estivesse em constante análise, como se soubesse de coisas que ele não conhecia. Isso deixava Chanyeol inquieto como há muito não se sentia. O frio na espinha não lhe abandonava, havia algo diferente naquele caso que ele não sabia explicar. O homem finalmente aceitou a carona, mas o silêncio permaneceu até a entrada do terreno.
— Você gostaria de tomar um café conosco, delegado? Como agradecimento pela carona. — O homem abriu um sorriso largo, bem diferente da falta de expressão de antes.
Park pensou em recusar, mas algo dentro de si dizia que deveria entrar. Não seria nada mal tentar retirar alguma informação adicional. Buscava sempre estar neutro em relação aos sentimentos quando se tratava do trabalho, apesar de ser uma pessoa que sempre se doava demais. Deixou os sapatos na entrada do casarão que, de primeira impressão, era bastante comum, mas quando Chanyeol adentrou percebeu muitos elementos ligados à questão espiritual.
— Nós somos bastante adeptos de amuletos de proteção — o homem explicou percebendo a expressão curiosa no rosto de Park. O sorriso permanecia, porém fazia com que o delegado se sentisse mais desconfortável do que acolhido. — Você acredita? Em espiritismo.
Chanyeol apenas movimentou a cabeça, dizendo que não, o que fez o outro soltar um riso soprado. Park não gostou daquela reação, era como se o outro achasse que sua opinião não fosse válida. Apenas respirou fundo, precisava acalmar os ânimos e lembrar que estava ali com um propósito. O celular vibrou e ele o pegou do bolso para verificar se era algo importante. O nome de Baekhyun estava na tela de bloqueio com a notificação de uma mensagem que começava com “conseguimos algo importan…”.
Park foi arrancado de seu desvio de atenção pelo barulho de algo se quebrando; o que lhe causou um leve sobressalto. Percebeu Dongwook se movimentar rapidamente até a cozinha e o seguiu. A esposa, Youngae, estava agachada recolhendo cacos de vidro do chão, ela cumprimentou o marido.
— Que bom que veio, delegado, estávamos o esperando. Me perdoe pela situação. — Ela apontou para o chão, sorrindo, sem jeito.
Porém, o que prendeu a atenção de Park não foi o copo quebrado no chão, mas novamente a frase que já escutou do homem quando o encontrou na estrada, "estávamos esperando”. Poderia parecer normal, já que eles estavam envolvidos no caso que estava sendo investigado, mas a maior parte das pessoas não espera que alguém da polícia compareça a sua casa por essa razão. No máximo, espera ser chamado na delegacia para depor ou no júri, mas não informalmente daquela maneira. Eles agiam como se já o conhecessem de alguma maneira e soubessem como iria agir; o que deixava Park receoso, era como pisar em ovos.
