Chapter Text
"Santa, tell me if you're really there
Don't make me fall in love again
If he won't be here next year"
(Santa, tell me - Ariana Grande)
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• ensaio sobre a correlação improvável entre pisca-piscas, ex-namorados, namorados falsos e fotografias •
Para entender como James Buchanan Barnes acabou escondido embaixo do balcão excessivamente rosa e enfeitado por guirlandas verdes ridiculamente grandes da confeitaria em que trabalha, é preciso, antes de mais nada, saber três coisas básicas sobre ele: a primeira, e talvez a mais importante de todas, é que ele é um idiota; a segunda é que, além de ser idiota, ele tem ideias idiotas; e a terceira é que, não bastasse ser um idiota que tem ideias idiotas, ele põe em prática noventa por cento dessas ideias. E, para um melhor entendimento de toda a situação, é preciso que seja frisado que James Buchanan Barnes é um idiota por Steve Rogers, o seu primeiro em absolutamente tudo; inclusive, como seus amigos gostavam de ressaltar nas noites de sexta-feira em que ele decidia encher a cara para afundar as mágoas desse amor que já deveria ter sido há tempos esquecido, o primeiro a traí-lo. E o mesmo Steve Rogers que também o trocou por Peggy, uma mulher que ele mal conhecia, que, ironicamente, foi trocada por sua prima Sharon que, depois de alguns beijos, foi trocada por Tony, que odiava James, porque, bem, a vida é uma grande sacana. E talvez Steve também fosse um pouco já que, no final das contas, sem se despedir adequadamente de quase ninguém ou, sequer, terminar definitivamente com Tony, ele atravessou o país para retomar seu relacionamento com Peggy. Mas, ei, como James gostava de apontar nem um pouco graciosamente com o dedo indicador em riste enquanto seu último neurônio estava sendo carcomido pelo excesso de álcool em seu sangue nas noites de sexta, há males que vêm para o bem porque Sharon hoje é uma de suas melhores amigas, mesmo que a loira não admita isso nem sob tortura física.
Paralelamente a todo esse drama shakespeariano, apesar de não ser tão idiota quanto Bucky, talvez seja seguro afirmar que Samuel Thomas Wilson é um pouco azarado, mas, em contrapartida, como ele poderia imaginar que seu namorado que, vale ressaltar, ele conhecia há menos de vinte e quatro horas e não tinha ideia do nome, trabalhasse nessa confeitaria e que o ex-namorado do seu namorado falso, o causador indireto de toda essa confusão, estaria bem ali como um poste no meio da confeitaria e que o reconheceria por causa daquela maldita foto? A questão é que Samuel é um cara legal no geral, mas ele fica excessivamente mais legal quando caras bonitos aparecem na sua frente pedindo favores, o que foi justamente o que aconteceu quando Barnes surgiu com um celular na mão e uma história confusa sobre esse tal Steve, e a única coisa na qual Sam conseguia prestar atenção era na intensidade do olhar azul do desconhecido e se viu concordando em fazer tudo o que saia da boca dele; o que levava ao momento atual, com Steve confuso parado no meio da confeitaria, James escondido embaixo do balcão pedindo perdão a todas entidades existentes por todas as falhas cometidas e Samuel na porta reavaliando mentalmente todas as escolhas que havia feito no últimos dez anos ou mais. E, apesar de James afirmar de maneira convicta que tudo começou a dar errado por causa da segunda ideia idiota que ele teve para resolver a idiotice que os colocou ali em primeiro lugar, se perguntassem a Sam, ele responderia que tudo começou a dar errado no momento em que ele se deixou levar pelos malditos olhos azuis de cachorrinho.
Mas, além de saber os três pontos básicos sobre a confusão que é James Buchanan Barnes e do quão azarado e suscetível a homens bonitos é Samuel Thomas Wilson, para realmente entender o porquê disso tudo, é preciso voltar quase vinte e quatro horas atrás quando Sharon apareceu na porta do apartamento de Barnes, sem ser convidada, anunciando em uma única respiração:
— Bucky-o-Steve-está-voltando-e-vai-pedir-a-Peggy-em-casamento-no-jantar-de-natal — o que fez com que, de repente, tudo ao redor de Bucky se transformasse em excessivo, mesmo que do lado esquerdo do seu peito, um vazio começasse a se formar e a se alastrar, ameaçando a tomar conta de todos os seus órgãos de uma só vez porque, ainda que tivessem se passado quase cinco anos, para Bucky, o natal ainda era uma data importante por causa de Steve. Tudo começou no Natal quando Steve se declarou na virada do dia vinte e quatro para o dia vinte e cinco debaixo de um visco que fedia a banheiro químico, e tudo terminou no Natal com Bucky encontrando Steve beijando Peggy.
Não que James tenha se tornado um celibatário depois de toda a situação Steve-Peggy-Sharon-Tony-Peggy — porque ele definitivamente não se tornou — mas é que certas coisas realmente ficam e, até hoje, ele se perguntava o porquê de Steve não ter ficado por e com ele. O dia de Natal era uma dessas coisas que ficam e que são carregadas por toda a vida porque realmente deixam essa cicatriz esquisita que, por mais que esteja visualmente curada, ainda faz com que o corpo se estremeça e se retese todo quando alguém passa a mão por cima.
E, enquanto o vazio começava a se tornar espaçoso demais dentro de si, James se questionava se só ele carregava essa cicatriz e se só ele seria condenado a passar toda uma vida com o corpo retesado por alguém que havia se afrouxado e se libertado de suas mãos antes mesmo dele ser informado que deveria soltar. Não era justo. Não era justo que Steve fizesse isso com ele, simplesmente não era. Era completamente injusto que Steve errasse e James carregasse consigo as consequências e a lembrança que o engatilhavam constantemente de tudo o que poderia ter sido. Era completamente injusto que Steve estivesse a um passo de arruinar mais um Natal seu. Então, foi por isso que Bucky empurrou o vazio-excesso de coisas para debaixo do tapete, completamente disposto a ignorar a sensação incômoda e nauseante que retumbava por todos os seus poros e saiu de casa, sem se dignar a direcionar uma resposta decente a Sharon, para ver a maldita árvore de natal gigante que estava no meio da maldita cidade porque Steve maldito Rogers não iria estragar mais um maldito Natal seu.
E tudo teria dado realmente certo e ele poderia ter virado um maldito coach de relacionamento se a literalmente dez passos da entrada do lugar em que ficava a árvore de natal gigante, o seu celular não apitasse com a notificação de três mensagens de Steve:
[Steve • 19:18]
Ei, Bucky, tô aqui na cidade
Posso passar pra te buscar no seu trabalho amanhã?
Queria que você me ajudasse com alguns preparativos :)
Então, quaisquer resquícios de determinação para a coisa certa foram diretamente para o ralo porque tudo o que James queria era que qualquer uma das três pessoas pelas quais ele foi trocado estivesse recebendo essa mensagem e que fosse ele quem estivesse prestes a ser pedido em casamento. A sensação nauseante voltou com toda a força e tudo o que ele queria era voltar para seu apartamento e se esconder debaixo das cobertas pelos próximos dez anos. E é preciso reconhecer que a mágoa sempre foi um excelente combustível para que idiotices fossem feitas, e isso se aplicava perfeitamente para James que, em menos de cinco minutos, começou a arquitetar o plano mais idiota de todos os tempos: deixar Steve Rogers, seu ex-namorado quase noivo, com ciúmes. Com a motivação completamente errada, ele atravessou triunfante o arco enfeitado de piscas-piscas coloridos mais do que disposto a encontrar um namorado falso naquele lugar.
Se o perguntassem, ele diria que não sabia o que o levou a parar o homem de suéter natalino vermelho, mas a verdade era que ele era um idiota sentimental que escolheu parar Sam, dentre tantos na multidão, porque ele estava completamente alheio debaixo de um maldito visco idêntico ao que Steve o beijou pela primeira vez. E para uma mentira funcionar da maneira certa, ela precisava começar com a verdade; com isso em mente, Buchanan se aproximou do homem, o tocando no cotovelo e disse:
— Ei, eu sei que você não me conhece mas eu realmente preciso da sua ajuda porque tem esse cara, o Steve, que é meu ex-namorado e que me traiu algumas vezes mas que está prestes a se tornar noivo e ele meio que voltou para a cidade porque, apesar de tudo, a gente manteve uma amizade e eu acho que ele quer que eu o ajude a pedir a namorada em casamento e eu realmente preciso mostrar o que ele perdeu e tentar deixar ele com ciúmes. Será que você poderia fingir ser meu namorado por alguns minutos e a gente tira uma foto meio aesthetic natalina com romance para eu postar, enquanto eu ignoro deliberadamente a mensagem que ele me mandou? — e só Deus poderia julgá-lo se ele deu seu melhor olhar de cachorrinho chutado e sua melhor aparência inofensiva para esse desconhecido.
E, completamente encantado por aqueles olhos azuis, tudo o que Samuel pôde responder foi:
— Sim, é claro que eu posso.
Então, com o celular em mãos, tendo como fundo os piscas-piscas desfocados, James deu um beijo na bochecha do homem que sorriu de dentes abertos e olhos fechados para o flash que o cegava e, pronto, a foto foi tirada e postada com a legenda "meu tudo". Sorrindo para o celular, James deu um adeus silencioso para o homem que o retribuiu com o mesmo sorriso da foto e, para ambos, tudo acabaria ali. Uma mentirinha bondosa que não afetaria a vida de ninguém. Exceto que no dia seguinte, as exatas três horas, dezenove minutos e quarenta e um segundos da tarde, enquanto James repunha no balcão os cupcakes de papais-noéis, o sino da porta tocava anunciando a chegada de Steve que foi ofuscada pelo sino soando pela segunda vez só que, dessa vez, anunciando a chegada do desconhecido que era seu namorado falso. Steve, por causa da ressonância seguida do sino, olhou para trás e reconheceu o homem da foto que o amigo e ex-namorado postara na noite anterior e, mais do que depressa, foi em direção a ele, com um sorriso brilhante e disse:
— Ah, oi! Eu sou o Steve. Você deve ser o novo namorado do Bucky. — enquanto Sam lhe dava um olhar completamente em branco, com mil e uma coisas se passando dentro da sua cabeça.
E a única coisa que James conseguiu fazer foi abaixar-se rapidamente, escondendo-se embaixo do balcão rosa e fazendo repetidas vezes o sinal da cruz. E, se na mente está para que entenda, na boca para que anuncie e no coração para que se viva, James entendeu que precisava, não só anunciar o seu namoro falso pela foto postada, mas vivê-lo de fato. Movido pela fé, levantou-se para colocar em prática a segunda ideia idiota que teve em menos de um dia, e, ignorando a presença de Steve, foi diretamente para o desconhecido, sussurrando apenas um "Eu sou o Bucky", antes de tomar os lábios do outro em um beijo completamente exagerado.
O que quer que fosse acontecer depois disso, poderia ter corrido quase que bem, se o sino da porta não soasse pela terceira vez, anunciando a chegada de Sarah, irmã de Samuel, dizendo:
— Sam, eu não disse que era pra você me esperar? — enquanto guardava as chaves dentro da bolsa, antes de olhar para cima e perceber seu irmão completamente estático enquanto um homem o beijava afoitamente — Mas que merda é essa?
Tudo deu errado ali.
