Work Text:
What’s the day without a little night?
1-800-273-8255 一 Logic
1.
Quando Kazutora pede aos namorados que eles também usem pronomes femininos quando se referindo a ele, espera tudo, menos os apertos gentis em suas mãos e a fala de Baji.
“Você quer que usemos em público também? Algum nome?”
“Tudo bem… e… eu gosto do meu nome e dos apelidos que vocês me dão”, ela responde.
Na cabeça da Hanemiya, as coisas são mais complicadas. Têm uma conversa cheia de porquês e o quês para qual não está preparada. Só sente uma necessidade em avisá-los que esse pequeno novo desejo a há ganhado de corpo e alma sem complicação (sem confessar as idas ao banheiro para apenas testar como será chamar a si própria de garota), afinal, para Baji e Chifuyu, não é grande coisa, é apenas uma letra — talvez uma palavra 一 que, para Kazutora, significa muito. Mas vê-los aceitar sem questionar coisas desconfortáveis o traz uma surpresa boa, daquelas que aquecem.
Ele até fica um pouco desnorteado, pois em nenhum momento anterior ele pensa que essa seja a reação dos garotos. Ele espera as perguntas, ainda que não tenha as respostas. Então Kazutora deixa que o assunto mude após receber beijos na bochecha e ser chamado de perfeita e ouvir que é amada em qualquer circunstância. Os garotos ficam alheios ao marejar dos olhos castanhos, mais animados com o comercial colorido que passa na TV, mas Hanemiya prefere assim. Tudo está melhor que bem.
2.
Kazutora conhece Inui há poucos meses, no casamento de Takemichi, mas o laço é forte. Eles têm mais em comum do que aparentam, para a felicidade de ambos 一 e tristeza de Draken, que odeia ter que dividir o noivo com qualquer um.
Seishu é a terceira pessoa a saber sobre seus pronomes e, igual aos seus namorados, não o questiona. Kazutora lida melhor com essa situação, pois espera que Inui não seja nada além de compreensivo, que se veja nela, então diz que conversa com os namorados e que, por enquanto, só os três sabem sobre (provavelmente são os únicos). O que não espera é que Inui lhe ofereça saltos. Muitos saltos.
Ele tem uma coleção grande e diversa e confessa que deve se livrar de alguns dos sapatos, então vê em Kazutora a oportunidade perfeita. Contudo, ela hesita. Nunca coloca esse tipo de sapato no pé, tem medo de cair e…
“Ninguém aqui vai te julgar, cara. Eu posso pedir pro Draken descer e nós vamos ter a casa toda só pra gente. Você pode cair quantas vezes quiser. Caso realmente não queira prová-los, tudo bem.”
Os ombros de Kazutora relaxam. Ela aceita.
[...]
No dia seguinte, Kazutora pede para seus namorados o acompanhar ao shopping. Ela quer comprar um salto preto, pois gosta bastante de como a cor abraça sua pele.
Inclusive, Inui é um ótimo auxiliar e professor. Dá-lhe instruções e dicas que ela sequer lembra e indica uma loja que tem produtos mais adaptados para eles. E Seishu é rápido em tranquilizá-la e dizer que nenhum dos atendentes a julgam pelo que quer que compre. Por não estar muito certa disso, chama os namorados, que fazem papel de belos cães de guarda se preciso.
Enquanto um atendente mostra os modelos para Kazutora, Baji e Chifuyu olham os sapatos mais excêntricos da loja, como as botas que chegam até o joelho e têm, no mínimo, dez centímetros de plataforma. Ela observa a cena com curiosidade, ignorando completamente a pessoa falante ao seu lado. Chifuyu aponta para os sapatos pretos e diz que Keisuke ficará lindo usando um daqueles, e tudo o que Baji pode fazer é continuar com uma carranca na cara e a vontade de estrangular o próprio namorado. Kazutora ri.
Quando acha um sapato que o interessa, o atendente diz que terá que buscar o número de Kazutora nos fundos, então ele aproveita para checar os namorados agora fora de vista. Ele os acha perto de uma arara cheia de roupas bufantes e coloridas, brigando sobre algo.
“O que o Baji estragou, Fuyu?”, ele pergunta.
“Nada!”
“Nada ainda, a gente só tá olhando umas saias.” Chifuyu recebe o que parece ser o décimo olhar sanguinário da tarde e revira os olhos.
Kazutora arqueia uma sobrancelha.
“Olha essa, eu achei que você pudesse gostar”, ele continua, mostrando uma saia xadrez, nas cores branco e rosa claro.
“Mas eu falei que ela não gosta de rosa!” Baji queixa.
“É melhor do que esse cosplay de Patricinhas de Beverly Hills que você tá segurando, idiota.”
“Quer transformar a Kazu em uma Regina George, é? Maluco.”
Kazutora gargalha até precisar limpar lágrimas no canto dos olhos. Sai da loja com um par de sapatos pretos e as duas saias que os namorados sugerem.
[...]
Só em casa ela prova as saias.
“Caralho!”, exclama em frente ao espelho. “Tô tão gostosa que, se eu pudesse, eu me pegava!”
Ao som da última frase, Baji e Chifuyu entram no quarto, deparando-se com Kazutora olhando sua bunda no espelho, com as mãos na cintura. Esse é o mais radiante que ele já é em meses.
“Vou te dar o crédito, Chifuyu, rosa cai muito bem nele.”
“Muito bem é pouco, caralho.”
“Ai, porra!”
A bunda de Kazutora é atacada com tapas e perseguida por mãos curiosas, mas ele não liga. Ri com tudo que tem no peito.
3.
Depois de algumas semanas de plena alegria, Chifuyu pergunta se mais alguém sabe sobre os pronomes. Kazutora é direto e diz que apenas eles e Inui sabem, mas que Draken talvez saiba por tabela. O Matsuno só acena com a cabeça. Ela sabe a origem da pergunta: vão encontrar os membros da Toman essa noite.
Kazutora ainda se sente deslocado quando está perto dos membros mais novos, visto que, para ele, a Toman sempre será Mikey, Draken, Baji, Mitsuya e Pah-chin. Mas ele se esforça para enturmar com os outros depois de tantos anos, especialmente porque Takemichi e Keisuke o encorajam, mas também o tranquilizam sempre que preciso. Basta lembrar que ele conhece Chifuyu de verdade depois de ambos se derem uma chance e ela esquece tanta ansiedade.
Na festa, Chifuyu ouve Takemichi tagarelar do filho que espera com Hinata, ao lado de Hakkai e Mitsuya. Já Baji conversa com Draken sobre animais de estimação e as vendas no pet shop. Kazutora ouve Inui falar do conserto complicadíssimo da moto de Pah-chin, ao lado do próprio.
Cada um em seu canto com um amigo, mas, ainda assim, a distância (e discussão entre os homens a sua frente) não impede Hanemiya de ouvir Baji dizer “O Chifuyu morre de vontade de adotar um gato, mas nossa namorada tá com medo, cê sabe como a Tora é”.
A atenção da Tora é completamente tomada pela interação dos homens. Vê a expressão confusa de Draken e consegue ler o “namorada?” cair pelos lábios dele.
“É, a Kazutora”, Baji murmura o que lhe é óbvio, como se também o seja para o amigo. Se Kazutora pode chutar, diz que o namorado está até meio puto, o que não melhora quando a face de Draken se ilumina em compreensão e ele diz um “ah, perdão” sem jeito, bebendo de seu copo para que a pequena vergonha vá embora goela abaixo com o líquido alcoólico.
“Suave…” É tudo que a Hanemiya ouve antes que eles continuem com os assuntos anteriores.
Kazutora quase tem de explicar a Inui a origem do seu sorriso gigante e o rubor nas bochechas, além de todas as vezes que ela se distrai com a lembrança das falas de Baji. Algo em seu peito se torna pesado e a sensação só foi embora quando abraça Keisuke como se sua vida dependesse disso. (Ele nunca explica a nenhum dos namorados o porquê do abraço de urso.)
4.
A época dos carregamentos novos chega, e, dessa vez, Kazutora é o responsável por organizar as prateleiras e colocar as etiquetas nos produtos. Não é um trabalho ruim e nem pesado, afinal, são só brinquedinhos, acessórios e sacos pequenos de diferentes tipos de refeição para animaizinhos.
Enquanto arruma os produtos para cachorros, a conversa particular que tem com Inui na festa ronda sua mente. Seishu pergunta sobre os saltos e como é toda a experiência na loja. Kazutora o conta como é importante ter o apoio dos namorados e ver que eles pensam a frente e… Ele tem que enxugar as lágrimas que embaçam sua visão e isso é o bastante para fazer o próprio Inui emocionado. Abraçam-se e a questão da vez é lançada: o que você acha de acessórios e maquiagem?
Com a expressão atordoada de Kazutora, Seishu se desculpa e diz que não precisava responder, mas ela responde mesmo assim 一 um “eu não sei” em sua forma mais sincera, e que também sugere que ela está o cogitando a partir do momento em que se imagina com gargantilhas e batom.
As poucas experiências de Kazutora com acessórios acontecem na adolescência, onde ele mesmo fura a orelha com Baji a fim de ganhar uma aparência intimidadora. Todos os membros de gangues que se prezam têm ao menos um brinquinho ou tatuagem, ele escolhe ter os dois, oras. Ele se lembra dos cabelos coloridos, as correntes douradas e alguns caras com anéis esquisitos, mas não passa disso.
Sua experiência com maquiagem é mais recente, quando, num ensaio fotográfico de Hakkai, Baji é convidado para assistir (seja lá por que caralhos Baji de todas as pessoas) e Kazutora e Chifuyu podem acompanhá-lo. As lembranças que ele tem são que o cenário é bem simples, as roupas coloridas e… aquela tinta azul que contornava a região dos olhos de Hakkai. Ele explica à Hanemiya que aquilo é um delineado, um estilo que está tava em alta, e promete ensiná-la como fazer um qualquer dia 一 que nunca chega devido a agenda abarrotada do modelo.
Kazutora não tem mais acessórios que alguns brincos simples, um colar da Kuromi e uma pulseira da amizade ridícula que Takemichi o presenteou há anos. E ela não se lembra da última vez que viu um batom em casa.
Contudo, a pergunta certamente deixa Kazutora curiosa. Ela pesquisa sobre o tal delineado num momento mais tranquilo do seu dia no caixa e acaba olhando o site da loja em que compra seus saltos, passando pela sessão das saias, as de perucas, as de acessórios mirabolantes, para, enfim, chegar à sessão dos cosméticos. Que não são poucos. Teria passado horas navegando pelos artigos que explicam para que servia tal produto, como aplicá-lo e onde comprá-lo por um bom preço, mas com bastante qualidade. Ele hesita quando pensa em falar com Inui, Hakkai ou qualquer pessoa sobre, então prefere deixar para depois.
O depois talvez fosse agora, com embalagens metálicas nas mãos, fazendo movimentos tão monótonos que não o tiram da linha de raciocínio embolada que leva.
Pergunta-se se consegue aprender a usar tantos cosméticos, combinar acessórios com suas roupas, se seus namorados não se importam com tantas mudanças repentinas, se Inui o ajuda, se ele mesmo não está fazendo tudo por impulso, se pode usar tudo em público, se os outros ex-membros da Toman o excluem por isso, se…
“Tora.”
…Seus namorados se importam se alguém disser algo maldoso?
Uma mão agarra seu braço e ela sai dos seus pensamentos em um susto.
“Kazutora, você tá bem?” Chifuyu.
“Vocês acabaram lá em cima?”, pergunta Kazutora, ignorando a fala do namorado porque… Eles já passaram desse ponto, sinceramente.
“Baji pediu pra eu ver como você tava indo.” Chifuyu se move para que fiquem cara a cara, mostrando seu sorriso perito.
Kazutora revira os olhos. “Não preciso de supervisão.”
“Você sabe como ele é.” O Matsuno dá de ombros. “Mas você tava olhando fixamente pra isso.” Aponta para o pacote nas mãos do namorado. “E você sabe que não precisa ler os rótulos dos produtos, né?”
“Só viajei na maionese por dois segundos e meus chefes já estão sendo uns pés no saco”, ele ironiza, suspirando dramaticamente.
Chifuyu ri e é inevitável para Kazutora não sorrir, é um som contagiante, ainda que breve.
“Quer ajuda?”, pergunta quando se recompôs, já abrindo outra caixa ao seu lado.
“Se Baji-sama não se importar…”, fala baixinho.
“Ele ficará mais do que feliz”, Chifuyu expressa sinceridade na voz e no sorriso dessa vez, acalmando o até então estado de desordem em Kazutora.
O casal não demora a terminar o serviço de desempacotar e organizar, restando apenas a tarefa de pôr as caixas nos fundos, o que Kazutora faria se não tivesse sido interrompido por uma voz.
“Vem cá”, Matsuno diz, com as mãos escondidas atrás de seu corpo e um sorriso beirando ao maquiavélico no rosto.
“O que cê tá aprontando, hein?”, ela pergunta, desconfiada, mas se aproxima da mesma forma.
“Nada, só queria ver como você fica com um lacinho!” Em um movimento rápido e inesperado, Chifuyu prega dois lacinhos, em cada uma das mechas frontais do cabelo da namorada, tapando a boca em seguida para esconder sua risada.
“Isso é de cachorro, seu bosta!” Kazutora praticamente grita quando arranca um dos laços de forma brusca. Arremessa o acessório no namorado risonho, que inicia sua fuga.
“Que gracinha, Kazutora-chan!” Ele ironiza enquanto corre por entre as prateleiras, aproveitando-se da lerdeza de um Kazutora irritado em persegui-lo em linha reta.
“Volta aqui, Matsuno Baji Hanemiya Chifuyu!”, Hanemiya grita em meio aos xingamentos que balbucia, pois, quando chega bem próximo ao seu alvo, o bastardo começa a correr em direção ao escritório e às escadas.
“Seja uma boa garota, Kazu-chan~” Chifuyu devolve, afinando a voz e sorrindo de ponta a ponta, vitorioso, satisfeito. E, como se toda a bobagem de Matsuno não seja o bastante, uma voz do além, porém tão conhecida, soa, descrente.
“Mas que putaria é essa, Chifuyu?!”
[...]
Dias depois, os dois pilantras que Kazutora tem como namorados confessam ter visto a aba esquecida de “20 dicas para não errar seu delineado NUNCA MAIS!” no computador do pet shop quando estão fechando a loja, e Chifuyu quer demonstrar que não tem problema nenhum em querer um colar ou uma sombra. Ele até diz que serve de modelo para os testes de Kazutora e que, quando ela estiver craque naquilo, os três podem sair com uma bela maquiagem. Kazutora aceita as desculpas dos idiotas, guardando a vontade de abraçá-los forte para dizer que, se mais um lacinho de cachorro pousar em sua cabeça, ambos estão fodidos.
+1.
Não estavam sequer próximos de uma data comemorativa, então Kazutora julga os presentes dos namorados como mais uma forma de selar a promessa de que o apoiam em tudo, nada daquilo é estranho e ele deve fazer as coisas que gosta ou que simplesmente sente vontade.
O interior do embrulho consiste em produtos de skincare, um lápis de olho, um delineador, pelo menos cinco tons diferentes de batom e uma paleta de sombras com pelo menos um tom de cada cor básica.
A reação de Kazutora, contudo, é um tanto desanimada.
“Isso… parece muito caro.”
Ele balbucia uma frase que não deve ser ouvida, mas que ele quer que seja. Especialmente quando encara com olhos vítreos os dois corpos de pé à sua frente, ambos irradiando expectativa. Precisa ter certeza de que suas expectativas são as mesmas que as deles: que tudo é um teste, daqueles que você se esforça para pensar na resposta certa, mas tudo que há em sua mente é uma tela em branco, que bloqueia os pensamentos lógicos de virem à luz.
Ainda é difícil para Kazutora ter que se abrir sobre as coisas que ele sente. Por mais superficial que sejam suas respostas, todos os três já sabem que há muito mais por trás das palavras singelas e, às vezes, evasivas do Hanemiya. No entanto, eles sabem que era melhor não continuar cavando, demandando respostas indesejadas, e Kazutora é imensamente grato por isso. Talvez esse seja um dos motivos para ainda estarem juntos, afinal. Um dos motivos para ele não ter perdido tudo de vez (ou mais uma vez).
Mas… às vezes, eles não podem caminhar no tempo de Kazutora, pois sabem que, quanto mais espaço dão à ela, maiores as chances de pensamentos angustiantes florescerem, em vez dos devaneios e lembranças confortantes que tentam a todo custo criar. Atitude que Hanemiya também é grata por, exceto no momento em que eles precisam ter uma conversa um pouco mais séria.
Os medos vêm à tona. As inseguranças alcançam o teto imaginário de sua cabeça, soterram todas a esperança de ver as partes boas das coisas, de esperar que ele esteja errado quanto ao teste. Ele teme que seja um teste.
“E isso não importa”, Baji soa frio, mas Kazutora sabe porquê 一 o que não torna nada mais fácil. “Você gostou?”
“Tá brincando?” Ela devolve, sentindo as lágrimas virem para seus olhos em tempo recorde. Sente-se impotente a partir daí, com a vontade de se encolher até que vire um dos átomos perdidos pelo ar, carregados pelo vento; com a certeza de que, se abrir a boca, soará miserável como uma criança que não ganha um brinquedo; com a sensação das mãos gentis sobre seus ombros, descendo pelas costas, subindo e descendo. Não precisa continuar a falar, a encará-los.
“Nós devíamos ter sido diretos desde o começo, Tora. Devíamos ter conversado sobre isso desde o início”, Keisuke murmura, mantendo o contato físico nas costas curvadas. “Mas”, continua, “se não estiver confortável com a conversa, com o presente ou qualquer coisa, nós vamos te deixar sozinho.”
O coração de Kazutora aperta com as palavras. Eles são bons demais para serem reais, para serem permanentes. “Prometem?”
“Sempre, Kazu.” Ela pode ouvir aquele pequeno sorriso especialmente honesto na voz de Chifuyu. O sorriso que é só para ela, como ele diz.
“Eu gostei”, ele pausa, “gostei muito, só não precisavam me dar nada disso. Eu não faço ideia do que fazer com isso tudo.” Ri, limpando as bochechas com as costas da mão e fungando para continuar: “Eu tenho medo de-de estar indo muito rápido em algo que eu não sei que porra é. Tenho medo de descobrir o que é isso e vocês me deixarem, de ser muito pra vocês. Eu não quero ficar sozinho, não quero que me vejam como uma esquisita esquisita.”
Ela sabe que soa como uma criança, falando tão rápido e expressando toda sua angústia, mas é inevitável não querer que tudo isso acabe. Não sabe dizer com certeza quando a plena alegria de ter ótimos namorados se transforma na preocupação de ser deixada, de estar apressando as coisas, mas também não quer descobrir. Só quer que acabe.
“E por que você seria esquisita? Você é a pessoa mais linda que eu conheço, nada não fica bonito em você. Você só precisa ver isso, Kazutora. Só tem que parar de ouvir as vozes e tomá-las como verdades. Imagino que não seja fácil, mas é só olhar em volta e ver tudo o que você conquistou e o que ainda pode conquistar. Você pode fazer tudo o que quiser, nós vamos te apoiar, a menos que queira esfaquear Baji de novo.”
“Ah, cala a boca.” Kazutora estapeia o ombro de Chifuyu, rindo.
“E eu concordo com cada palavrinha que o Chifuyu disse.” Baji segura o queixo da namorada em sua direção, trocando a expressão da mulher de risonha para surpresa. “Você, mais do que ninguém, merece ser feliz, Tora, não importa como.”
Kazutora odeia chorar. Há algum tempo, lê alguma coisa bobinha sobre chorar ser uma merda por entupir o nariz, e usa essa frase como modo de tentar parar suas próprias lágrimas e a vontade de desabar 一 especialmente por motivos ruins. Mas, agora, não há outra resposta para dar-lhes.
Não é a primeira vez que eles discursam palavras como estas, e provavelmente não será a última. Contudo, as palavras nunca o atingem com a mesma intensidade de quando as ouve pela primeira vez e, agora, isso é superado, de uma outra forma, sim, mas ainda dói um pouco.
Agora, ele sabe que ambos estão certos do que falam, de que mantêm a promessa de apoiá-la no que ela quiser. E machuca de uma forma amarga pensar que ele nunca irá conseguir retribuir toda a gratidão pelo apoio, pela compreensão, por amarem-no. Mas é o que eles sempre dizem desde antes de ter sua liberdade de novo: ninguém os obriga a aceitá-lo e é disso que o amor é feito. Confiança, paciência e honestidade. Tudo que Kazutora acredita que não pode ter ou retribuir por tantos anos, mas que sempre está dando, ainda que em sua forma errônea e extremista.
Agora, ele pode tentar se achar de novo nesse novo contexto. Preencher lacunas que até mês passado ele não sabia que existiam. Talvez, assim, ele possa retribuir e ajudar seus namorados como eles sempre fazem e afirmam que ela também faz por eles, mas que nunca a satisfaz.
Agora, ela pode afirmar com todas as letras, lágrimas, saltos, sorrisos, saias, batons e abraços que…
“Eu amo vocês.”
[...]
“Cê tá atrasada.”
De fato, Kazutora sai da cama mais tarde que os outros dois, mas eles deixam que ele fique mais cinco minutinhos descansando, logo, que culpa tem ele em querer aproveitar seu privilégio?
“Pega na minha, Chifuyu.” Amargurado, devolve, amarrando seu avental e, em seguida, os cabelos longos.
“Você ficou bonita com essa maquiagem do olho, Kazutora-kun.”
Oh. Takemichi está do outro lado do balcão, ao lado de Baji, apontando para o olho com um sorriso. O injusto da situação é que Hanemiya é pega com a guarda baixa, em seu momento pós-acordar, então não tem reação 一 nem para a fala de Hanagaki, nem para as falas seguintes dos namorados.
Até porque a maquiagem do olho havia sido feita no dia anterior, depois de um longo dia no pet shop, apenas para se distrair e tentar algo novo. Kazutora deve ter esquecido do demaquilante, e talvez a sombra não tenha borrado por um milagre. Ou talvez Hanagaki seja gentil demais e a cor verde está espalhada em seu olho, testa e nariz.
“Não ficou? Ela também fez as unhas, olha.” Chifuyu pega uma de suas mãos e a vira para que o cliente possa vê-la.
“As nossas também.”
“Uau, parabéns, cara. A Hina amaria uma dessa.”
“Qualquer dia pede pra ela aparecer por aqui, Kazu pode tentar fazer algo.”
“Ou a Hinata talvez dê uma aula para ele.”
Chifuyu está certo, porém, no momento, a única coisa que Hanemiya Kazutora consegue fazer é ficar de pé, observando a interação entre os três homens, ainda preso nos elogios e olhos brilhantes de seus namorados, um rubor crescente em seu rosto e olhos levemente arregalados.
