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Ao reencontrar Villanelle um súbito alívio tomou conta de mim, tínhamos destruído Os Doze, claro que ela fez a maior parte e fez questão de me lembrar isso, mas tinha acabado. Eu finalmente podia seguir minha vida sem me preocupar se as pessoas que amo estavam em perigo, o jogo havia terminado e durante esse período descobri que meus verdadeiros inimigos eram eles, não ela. A ligação que tínhamos não era apenas sobre assassinato, claro que vê-la fazer isso despertava algo em mim, essa adrenalina que me fazia sempre querer mais, mais sangue, mais emoção, mas eu percebi que não era o que ela realmente queria, apesar de todo o exagero, ela tentou mudar, ela procurou a igreja, por mais irônico que isso parecesse, e até mesmo ameaçou um terapeuta para ajudá-la. Tudo isso faz eu me lembrar de nossa conversa em seu apartamento em Paris, quando eu a esfaqueei. Acho que ela estava sendo sincera sobre querer uma vida normal, era tudo o que ela procurou desde o início e de alguma forma ela viu isso em mim, ela queria isso comigo, e para ser completamente honesta, talvez Carolyn não estivesse errada, talvez quando tudo isso acabasse eu realmente quisesse um pouco de paz na minha vida, talvez eu e Villanelle poderíamos dar certo, sei que disse que nos consumiríamos antes de envelhecermos juntas, mas acho que estávamos cansadas demais para isso.
Toda essa aventura com ela ao meu lado me mostrou que podemos ser algo real, os beijos que trocamos era algo que eu deveria ter feito há muito tempo atrás, mas não queria pensar nisso agora, estávamos ali e poderíamos trocar quantos beijos quiséssemos, com isso em mente sinto seu corpo pesar sobre o meu me deixando completamente confusa, só entendendo o que tinha acontecido ao ver o machucado causado pela bala ali, não sabia o que fazer, correr para dentro não parecia uma opção, parecia tão longe e não podia arriscar que V se machucasse ainda mais, não costumava ter reações rápidas, como sempre era ela quem cuidava disso e dessa vez não foi diferente, mesmo machucada foi ela que me guiou até a beira do barco e gritou para pularmos e eu obedeci, não sabia mais o que fazer e de fato seria difícil nos acertarem ali. Mesmo ao mergulharmos os tiros não pararam, até que quando Villanelle estava nadando até mim ela novamente foi acertada, fiquei completamente desesperada, e o segundo tiro me fez ter certeza que ela não iria sobreviver, de qualquer forma eu precisava dela, precisava ao menos tentar salvá-la, usei toda a adrenalina acumulada para nadar para perto, mas quando estava quase alcançando-a seu corpo foi afastado novamente me fazendo perceber que não aguentaria prosseguir, precisava de ar.
Ao chegar à superfície não a vendo ao meu lado fez tudo parecer real, minha mente foi invadida pelo exato momento em que ela perdeu a força e seu corpo parecia já sem vida, ela parou de respirar e havia sangue ao seu redor, isso doía fisicamente em mim, finalmente me dei conta de que tinha perdido tudo, tinha perdido a pessoa com quem queria recomeçar, todo aquele alívio de antes não compensou o que acabara de acontecer, tudo o que podia fazer naquele momento era colocar para fora o que sentia, chorar até não conseguir mais, não me importava com mais nada. Queria conseguir achá-la, mas ao mergulhar novamente já não podia enxergar nada, então a única saída foi tentar nadar até a beira, como estava longe precisei parar algumas vezes para tomar fôlego e quando finalmente cheguei ainda não acreditava no que tinha acabado de acontecer.
“Villanelle...” Murmurei completamente desgastada sem forças para me levantar, sem forças para nada naquele momento, o cansaço físico e psicológico tomou conta de mim fazendo-me fechar os olhos, tinha a sensação que era um pesadelo, que iria passar e com esse pensamento acabei desistindo de lutar para me levantar, estava muito tonta e com muito frio.
Mal percebi o momento real que desmaiei, só percebi que já não estava mais congelando e que meu corpo estava sobre algo confortável, para ser sincera assim que despertei demorei alguns segundos para me lembrar de tudo o que tinha acontecido e quando o fiz questionei se aquilo tinha sido real. Onde diabos eu estava? Tento me levantar e ao perceber que não conseguia abro os olhos ficando completamente assustada ao perceber que estava em um quarto de hospital. Tinha algumas pessoas por perto, provavelmente o médico e uma enfermeira, que assim que me viram despertar se aproximaram com certo cuidado, quase como se precisassem dizer que tudo o que aconteceu foi realmente real, mas eu não queria ouvir.
“Você conseguiu, Eve! - Ouvi uma voz familiar me aclamar, meu olhar seguiu a direção da voz dando de cara com Hugo. Não tive notícias dele desde Roma e achei até mesmo que ele guardava rancor sobre aquele tempo, mas aparentemente não, aparentemente eu tinha feito algo certo dessa vez.
“O qu— O que aconteceu?" Questionei completamente confusa pela reação dele esperando que me contasse como tinha ido parar ali e queria saber sobre... “E Villanelle?” Falei no mesmo instante em que pensei e Hugo tinha uma feição positiva que por um instante me fez pensar que tudo estava bem, que tinham conseguido resgatá-la.
“Você conseguiu! Carolyn disse que vocês duas se arriscaram em algum plano louco e conseguiram destruir os Doze e Villanelle, não achei que fosse o que você queria depois de...” Ele engoliu em seco, parecia que de fato tinha certa mágoa daquela época, mas deu de ombros no mesmo instante. “Bem, não importa, você a derrotou, você é tipo uma heroína aqui.”
Assim que percebo que ele não estava falando sobre Villanelle quando disse ‘as duas’, minha feição mudou completamente para choque.
“Ela está morta?” Fiz a pergunta que mais temia, porém precisava saber, precisava saber o que estava acontecendo.
“Sim! Acharam o corpo e tudo está sendo investigado agora, mas não se preocupe eles são os caras realmente perigosos nessa história, nada vai recair sobre você. Aparentemente todos estavam armados, inclusive sua ‘amiga’, ex amiga, ah, não sei... De qualquer forma tudo o que você e Carolyn fizeram foi em legítima defesa.”
“Ela não estava com uma arma!” Falei de forma cortante achando tudo aquilo um completo absurdo.
“Bem... Não é o que dizem por aí, acharam uma arma com as impressões digitais dela no barco, você sabe como funciona.”
É, eu sabia exatamente como funcionava, tudo era feito por debaixo dos panos e provavelmente era a história que iriam vender agora. Minha cabeça ainda doía com as informações que recebia, me sentia completamente sem rumo.
“O que vai acontecer agora?”
“Você é tipo uma heroína, aproveite isso. Principalmente o governo agradece seu trabalho, era a organização mais sigilosa e mais procurada. E bem, você está viva, e pelo que o médico disse logo terá alta.”
“Onde está Carolyn?”
Carolyn era a única pessoa que sabia sobre a reunião além de mim e de Villanelle, ela teria as respostas de que precisava.
“Bem... Ela está um pouco ocupada. Por um momento achei que ela era uma traidora, mas aparentemente nos enganamos, ela também é uma heroína aqui e recuperou seu posto, a reputação dela nunca esteve melhor...”
E foi nessa parte que comecei a entender o que estava acontecendo, ela era a única que sabia, ou seja, a única que poderia ter feito tudo aquilo acontecer para recuperar a confiança do MI6 e do governo, ela estava de volta no jogo e aparentemente ela queria que aquelas mortes acontecessem por algum motivo que eu ainda desconhecia.
“Eu preciso falar com ela!” Ao erguer a voz a enfermeira me olha explicando que não deveria me exaltar, pois poderia fazer mal naquele momento.
“Creio que não será possível, ela não está nem aqui, mas temos algo para você. Como recompensa pelo seu trabalho para o governo você receberá um pagamento mensal vitalício, está claro que depois disso não estará apta para missões. Também terá um apartamento já mobilhado, celular, roupas... Tudo.” Ele falou como se fosse realmente algo muito legal.
Suspiro resignada, pelo menos naquele momento não tinha nada que eu pudesse fazer. Observo-o retirar do bolso um celular e me entregar. Olho ainda um pouco confusa, mas pego o aparelho.
“Quando eu vou sair daqui?” Minha pergunta chamou atenção do médico que se aproximou falando sobre alguns exames, mas que provavelmente só precisaria de mais uma noite de repouso, o suficiente para descansar e ver como meu corpo reagiria nesse período.
“Eu te darei uma carona, não se preocupe, passarei a noite aqui.”
“Por que?” Estava verdadeiramente confusa com aquele tratamento, não sabia se queriam me ajudar ou me manter calada.
“Só sigo ordens, mas será bom uma companhia... Dessa vez não poderemos... É, você sabe”
A tentativa de piada de Hugo trazendo à tona nossa noite me fez revirar os olhos e agradecer que só estávamos nós dois naquele quarto agora.
“Ew, só para”
“Não foi tão ruim...”
“Hugo! Por favor me deixe sozinha por um momento, vai sei lá, tomar um café, só vai.”
Aquilo estava ficando estranho, mas realmente precisava de um momento a sós com meus pensamentos, eu estava de luto sobre alguém que nem podia falar, merecia ter um instante de paz. Assim que ele ergueu os braços se rendendo e saindo deixei escapar um suspiro pesado. As lágrimas finalmente banharam meu rosto deixando toda aquela frustração sair e mesmo assim aquele vazio não desaparecia, quanto mais eu chorava, mais sentia que estava perdida. Tudo o que estava em minha mente eram os cabelos loiros dela, se eu fechasse os olhos podia jurar que ainda conseguia sentir aquele toque suave quase com medo de se aproximar. Depois de tudo o que passamos era apenas natural que ela não quisesse me assustar, mas eu a queria mais do que qualquer coisa no mundo, só descobri isso tarde demais. Acho que nunca me perdoaria por isso, por não aproveitar todas as chances que tive de estar com ela, mas ao menos tivemos momentos tão bons antes do acontecido, isso me fazia pensar que ela tinha ido se sentindo amada apesar de eu não ter dito essas palavras. Outra coisa que me arrependia.
Ainda parecia estar muito cansada, então após um tempo chorando meu corpo precisava de descanso me rendendo a um cochilo, era tudo o que eu conseguia naquele momento, porque toda vez acordava desesperada. O mesmo pesadelo. Da última vez pude ver que Hugo estava de volta e tudo estava escuro, ele pareceu despertar assustado com meu grito.
“O que aconteceu? Você está com dor?!” Ele perguntou preocupado quase apertando o botão para chamar alguma enfermeira, mas neguei com a cabeça fazendo-o parar em seu caminho.
“Foi apenas um pesadelo...”
“Oh...”
“Não estou conseguindo descansar... Acho que não consigo passar por isso novamente.” Falei mais para mim mesma do que para ele, mas mesmo assim ele respondeu.
“Eve, o que você passou foi... Uau, acho que ninguém chegaria aqui sem traumas. Acho que vai passar algum dia, também ofereceremos consultas para ajudar com o estresse pós traumático, vai ficar tudo bem”
Não ia. Eu poderia aguentar qualquer coisa se ela estivesse ali, mas ela não estava. O que eu faria da minha vida? Simplesmente seguiria em frente como se nada disso tivesse acontecido? Como se não tivesse perdido pessoas importantes no caminho? Eu não tinha mais nada. Aparentemente estava fadada a ser uma pessoa solitária, não sentia vontade de continuar. Comecei a pensar como seria se eu tivesse morrido naquele momento, junto com ela, eu queria tanto que tivesse sido assim, mas aparentemente quando estamos em momentos como esse, a adrenalina nos faz querer salvar nossas vidas, se fosse um pouco antes eu acreditaria que era algo do destino, um sinal, mas agora eu parei de acreditar nisso, parei de acreditar nos significados por trás dos acontecimentos, era impossível ver o lado bom ou levar como aprendizado, eu perdi a pessoa que eu mais amava. Eu ainda amo Villanelle mais do que qualquer coisa, não é como se eu pudesse simplesmente esquecer isso e ir para um karaoke, voltar a trabalhar, achar um hobby, eu não podia depois de tudo o que tinha acontecido. Eu não queria.
Após os pesadelos decidi que o melhor era me manter acordada e assim fiz, peguei o celular que Hugo me deu mais cedo para me distrair, na verdade fui pesquisar sobre o acontecido, era grande coisa, afinal, um navio estava cheio de corpos, tinha que ter alguma coisa na internet. Não foi muito difícil, cliquei na primeira notícia que mostrava uma foto do navio, aparentemente o MI6 tinha chego antes para montar a cena perfeita, mas isso não estava escrito, só estava escrito que Carolyn e sua equipe foram os verdadeiros heróis, procurei por mais fotos e encontrei algo sobre os Doze, Villanelle fez aquilo e eu estava orgulhosa, um meio sorriso apareceu em meu rosto, mas desapareceu logo em seguida ao vê-la. Eles resgataram seu corpo e a colocaram como uma das maiores vilãs da história, sendo que ela quem deveria receber agradecimentos por prestar serviço ao governo, mesmo que não fosse realmente seu intuito. Tudo aquilo me fez ter ainda mais raiva de toda situação, por um momento pensei até mesmo em fugir do hospital, mas do que adiantaria? Então decidi contra essa ideia e passei o tempo todo pensando em todos meus arrependimentos até que o quarto clareasse. Logo enfermeiras apareceram para me checar e o médico explicou alguns cuidados que ainda deveria tomar, para ser sincera não ouvi muito do que ele disse, só precisava sair dali.
Hugo me acompanhou, me dando uma carona até meu novo prédio. Do jeito que ele tinha falado antes parecia ser um local admirável, mas era simples, eu preferia uma casa, mas acho que deveriam achar isso mais seguro e econômico. Principalmente econômico. Ele se ofereceu a subir, mas neguei dizendo que estava bem e que precisava de um tempo sozinha. Estava aliviada assim que saí do carro o deixando para trás, era tudo o que eu precisava agora, pelo menos eu achava isso. Claro que não era nada saudável me lamentar o tempo todo, mas era tudo o que eu podia ver para o meu futuro.
Subi as escadas já que o elevador não funcionava, pelo menos ainda era o terceiro andar, de qualquer forma estava exausta. Peguei a chave que Hugo me deu assim que chegamos e abri o apartamento. Era tudo tão triste. O que estava sentindo se assemelhava o período que passei me recuperando do tiro dado por Villanelle, agora ela realmente acertou meu coração. Ao ver um espelho junto meus cabelos com a mão com o intuito de prende-los, mas logo me vem a memória nosso primeiro encontro no banheiro de um hospital. “Wear it down”. Nesse momento fiz exatamente isso, ela gostava do meu cabelo assim, eu queria me apegar nessas pequenas coisas que ainda faziam eu me sentir viva.
Tinha perdido a conta de quantos dias passei daquela forma, apesar dos armários e geladeiras estarem cheios, comi somente o necessário para não ter que ir ao hospital novamente, tudo o que eu comia descia com dificuldade, isso quando eu não precisava vomitar. Depois de acabarmos com os Doze eu estava tão aliviada e achei que conseguiria finalmente ser feliz, mas estava enganada, tudo perdeu o sentido, lembrei até mesmo da conversa com Martin sobre achar prazer nas pequenas coisas, eu não conseguia fazer isso mais. A única coisa que me mantinha viva era minha sede de vingança por Carolyn, eu ia arranjar uma forma de acabar com ela, nem que demorasse para eu coletar todas as provas possíveis, o pior é que ela sabia que eu faria isso. Isso me fez pensar em nossa conversa, podíamos prever os movimentos uma da outra, então tinha certeza que ainda nos reencontraríamos.
Após alguns dias trancada naquele cubículo finalmente decidi que estava na hora de enfrentar o mundo lá fora, precisava pelo menos me acostumar a lidar com as pessoas se quisesse achar Carolyn. Reuni todas as minhas forças e desci enquanto mandava uma mensagem para Hugo perguntando sobre Carolyn, mas ele sempre dizia que ainda não a tinha visto, mas que deixaria um recado. Perguntei também pelo número dela, mas isso foi algo que ele não podia me dar. Meu plano era ou invadir o escritório do MI6 ou a casa dele, por isso queria conhecer o bairro, talvez descobrisse algo, porém me arrependi no mesmo instante, era difícil ver pessoas se divertindo enquanto aquela tragédia ainda ocupava minha mente, eu achei que iria surtar, então decidi parar, me sentando em um dos bancos que vi no caminho. Abaixei a cabeça por um instante, tentando me forçar a ficar melhor, pelo menos para voltar para o prédio, mas então meu celular tocou, somente Hugo tinha meu número, provavelmente era uma novidade sobre Carolyn, então atendi rapidamente.
“Descobriu alguma coisa?” Perguntei afobada, sentindo minha energia voltar.
“Sinto que não faço ideia do que você está falando...” Não era Hugo, pelo contrário, era a pessoa com quem queria falar desde o início.
“Merda, onde você está Carolyn?! O que você fez com ela? O que está acontecendo?”
“Eu não tenho essas respostas agora, na verdade eu só não quero falar. Não por telefone.”
“Você quer me ver? Você quer ver a minha derrota de perto?”
“Venho fazendo isso a algum tempo. Achei que seria recebida melhor ao te ligar, você é a heroína Eve, aproveite.”
“Aproveite? Qual o seu problema Carolyn?! Por que todos estão me dizendo isso? Eu não queria isso, você sabe!” Exaltei-me completamente incapaz de manter uma conversa civilizada com uma pessoa que estava praticamente banalizando tudo o que aconteceu, usando isso ao seu favor.
“E o que você queria, Eve? Achei que queria acabar com os Doze, você fez isso. Parabéns.”
“Villanelle fez isso. Villanelle é quem eu queria!” Finalmente admiti em voz alta, afinal Carolyn era a única que sabia sobre nossa proximidade, e a única com quem eu podia falar sobre isso, apesar de ela ser o motivo de Villanelle estar morta.
“Eu disse que faria exatamente o que esperava, mudaria minha tática.” Grunhi em frustração e aparentemente ela antecipou meus movimentos, porque antes de conseguir desligar em sua cara, ela me mandou esperar. “Não desligue ainda, não tive a oportunidade de falar o verdadeiro motivo desse telefonema.”
“O que você quer? Você já estragou a minha vida e vou fazer questão de fazer o mesmo com a sua!”
“Você pode tentar, mas veremos sobre isso. Enfim, quero responder todas as suas perguntas chatas para superarmos isso, então me encontre onde isso acabou as oito em ponto.”
“O que?” Perguntei confusa ainda muito nervosa para raciocinar direito, a coisa que mais odiava era os joguinhos de Carolyn. “Você acha que isso é engraçado, eu não vou aonde quer que isso seja! Eu estou cansada dos seus jogos.”
“Eu acho que é o oposto, meus jogos que deram algum sentido a sua vida... Você deveria ir. Eu te desafio.”
Quando ela disse isso senti que estava tendo um deja vu, já tinha ouvido isso antes, mas não conseguia me lembrar, e assim que ia responder ela tinha desligado, minha primeira atitude é retornar à ligação, mas sou avisada que o número não estava mais recebendo ligações. Apesar de estar acostumada com isso ainda era surpreendente a rapidez que eles se livravam de provas. Levantei-me dali finalmente encontrando forças para voltar para meu apartamento. Penso sobre a conversa que tive a pouco tempo, apesar de estar tentada a não ir, eu precisava disso, eu precisava saber de tudo, mas ainda não sabia onde seria esse encontro.
“Onde isso acabou” Repeti em voz alta pensando em quando finalmente senti que estava livre, ainda estava no navio, mas onde tudo acabou foi quando eu a perdi. “A ponte!” A não ser que ela quisesse se encontrar na água, apesar de não duvidar dessa hipótese, a ponte fazia mais sentido. Foi quando eu e Villanelle percebemos que não podíamos ficar uma sem a outra e foi onde nossa história acabou.
Passo o resto do dia pensando sobre isso, sobre as perguntas que faria para Carolyn, minha vontade era de jogar ela daquela ponte, mas tento tirar isso de minha mente, se quisesse me vingar precisava pensar direito, precisava manter a calma, e agora não era um bom momento, ela acabou de recuperar a reputação, está em alta, qualquer acontecimento chamaria uma atenção que eu não queria agora. Toda a minha raiva precisaria aguentar um pouco mais, reuniria provas suficientes para acabar com ela, nem que demorasse para isso acontecer.
Perto do horário visto uma roupa de frio, tinha passado alguns dias um pouco resfriada, provavelmente pela água gelada em que me atirei, mas já me sentia melhor, ainda assim decidi por me agasalhar e prevenir daquele resfriado chato de voltar.
Reclamei comigo mesma de ter que descer aquelas escadas, também reclamei quando o primeiro táxi passou direto, para ser sincera reclamei o caminho toda, talvez porque eu estivesse com pavor de voltar para aquele lugar e lembrar de tudo. Dessa vez o táxi parou para mim, indiquei que ficaria perto da Tower Bridge. Estava nervosa, sentia que iria vomitar a qualquer momento, ver Carolyn com toda certeza embrulharia ainda mais meu estômago. Respiro fundo após chegar, pagando o motorista e caminhando até ali. Cada passo era doloroso, só de olhar para baixo eu queria pular. Pular e dessa vez não voltar nunca mais. Eu queria estar com ela, queria que nossos caminhos se cruzassem novamente mesmo que eu precisasse estar morta para isso. Ao chegar no centro da ponte tomo coragem para olhar para a água, a sensação era a pior que já senti em toda minha vida, minha respiração acelerou e minha cabeça doía. Uma crise de pânico não era o ideal ali. Fechei os olhos por alguns instantes tentando recobrar minha compostura e peguei o celular para ver as horas, já passava das oito e isso me irritava, parecia que ela estava brincando comigo propositalmente, como se isso fosse sua diversão agora que o jogo tinha acabado. Deixo escapar um grunhido frustrado me afastando devagar ainda tentando saber se ela apareceria, pensei até mesmo em ligar para o número, mas provavelmente era um número descartável e por isso já não funcionava logo após termos conversado.
Eu desisti. Foi um erro vir até ali, foi um erro achar que eu poderia ter respostas de alguém como Carolyn, ela queria me testar e fiz exatamente o que ela esperou. Era sobre isso a conversa. Ela queria reaprender meus movimentos. Ao me afastar ouço uma voz que faz com que meu corpo congele no lugar, estava toda arrepiada, era impossível, eu estava provavelmente ficando louca, tinha que ser o lugar. Isso só me confirmou que não tinha sido uma boa ideia, mas eu tinha que virar, eu tinha que provar que isso era minha mente pregando peças, que eu provavelmente estava cansada demais por mal estar dormindo.
“Oi, Eve”
Mas ao me virar, sinto minhas pernas ficarem fracas, agora além de ouvir coisas estava vendo coisas? Ela estava da mesma forma de quando a perdi, porém estava com alguns curativos e isso fez eu me perguntar se realmente era sonho, ou aquilo estava acontecendo. Fiquei alguns segundos na mesma posição, boquiaberta, enquanto ela parecia emocionada, isso faz com que eu avance, mesmo quase tropeçando em meus próprios pés. Ela ri em meio ao choro, não é como se estivesse rindo do que aconteceu, mas sim um riso nostálgico, como se também não estivesse acreditando naquilo. Tudo se passou pela minha cabeça naquele instante, eu realmente poderia estar vendo coisas, poderia estar sonhando, ou poderia estar morta, o encontro com Carolyn poderia ter acontecido e ela me matado, ou eu mesma fiz isso, mas ainda assim me sentia completamente viva e acordada, o vento batia em meu rosto e assim que estava cara a cara com Villanelle levei minha mão ao seu rosto querendo tocar para saber se era verdade.
“Eu sinto muito, Eve. Eu sinto muito, eu juro que não queria fazer isso com você.”
Demorei um tempo para responder, nem entendia o que ela estava falando, pelo que estava pedindo desculpas.
“O que? Eu pensei que estivesse morta...”
Antes que ela pudesse dizer algo passei meus braços ao redor do corpo dela a apertando um pouco e comecei a chorar, não sabia se era alívio, felicidade ou tudo junto.
“Eu sei, eu vou te explicar tudo, eu prometo. Eu queria tanto te ver.”
“Como...?”
Como ainda estávamos abraçadas pude ver uma figura com cabelos avermelhados atrás. Carolyn. Ela não parecia que iria se aproximar, ela só queria que eu a visse, aparentemente ela realmente fez algo que eu não esperava. Suas motivações ainda me faziam suspeitar, mas acho que ela queria me calar, ela tinha planos muito grandes que eu provavelmente arruinaria e toda aquela história dos Doze me faz pensar se era realmente eles, bem, tinham pessoas muito notáveis no meio, mas Carolyn fazia parte do grupo original, ela tinha um plano, mas para ser honesta eu não queria saber... Eu não queria saber de mais nada disso, eu tinha recebido uma segunda chance, uma segunda chance de ver o quanto fui idiota em achar que acabaria com uma organização como aquela, o quanto fui idiota em tentar, isso era muito maior que todos nós, eu deveria começar a focar em minha própria vida, na vida que eu queria ter com a mulher que abraçava naquele momento.
Isso doeu, mas talvez foi necessário para me fazer acordar, eu estava consumida por esse jogo e eu não queria mais jogar, Carolyn estava certa, eu queria um pouco de tédio agora, só um pouco, porque eu sabia que viver com Villanelle não seria nada parecido com o que minha vida era antes de conhecê-la.
“Ainda bem que confiou em mim...”
“Eu te amo”
Senti seu corpo enrijecer em meus braços e nos afastamos um pouco para olharmos uma para outra. Eu não planejei dizer aquilo, tudo o que planejei eram as coisas que diria para Carolyn, mas ao ver a loira ali fez com que eu abrisse meu coração, não poderia deixar para depois, eu já tinha perdido muito tempo.
“Ama?” Seu rosto passou de choque para felicidade, ela parecia uma adolescente ao ter seu amor correspondido, isso também me lembrou do beijo repentino e amedrontado que ela deu em minha bochecha, parecia que não queria ir além dos meus limites, queria que eu soubesse que me respeitava. Todos esses atos eram tão puros e confirmavam a minha teoria que ela só precisava de amor. Eu não fazia ideia sobre seu passado, mas tinha certeza que ela nunca teve isso, ela não sabia como era amar e era tudo tão novo, teríamos um tempo para nos acostumarmos. “Eu te amo, Eve, você não faz ideia.”
“Você me disse isso uma vez, não se lembra?” Finalmente o sorriso tinha voltado para meu rosto, aquele que achei que nunca mais apareceria novamente.
“Eu me lembro bem... E eu já te amava, mas agora é diferente.”
“Diferente?”
“Tudo o que a gente passou juntas, tudo o que aconteceu... Eve, eu daria minha vida por você, mas eu jamais tentaria tirar a sua novamente.”
“Você errou daquela vez.”
“Eu sei, acho que bem no fundo eu não queria que você morresse, eu não erro um tiro.” Ela se gabou um pouco, mas de uma forma mais leve e divertida.
“Mas eu nem te machucaria agora.”
“Você fez isso...”
“Para poder ficar com você. Só por isso.”
Isso foi o suficiente para que agora minhas mãos fossem até o rosto dela segurando com delicadeza e iniciando um beijo completamente apaixonado. Senti as mãos dela em minha cintura me puxando mais para perto, então aprofundei o beijo pedindo passagem com a língua, naquele momento só tinha eu e ela ali, o resto era plano de fundo da nossa história de amor.
Mas como nem tudo é conto de fadas precisamos nos afastar quando o ar foi necessário, acabamos por ambas soltar uma leve risada aliviadas tentando acreditar que aquilo era real.
“Você está morando em algum lugar? Eu não tenho onde ficar...” Villanelle quebrou o silêncio e a olhei como se estivesse louca.
“Claro que você vai ficar comigo, mesmo se tivesse outro lugar para ficar.” Ambas rimos com isso e então olhei em seus olhos novamente para continuar a falar. “Não quero mais me arrepender, não quero perder tempo. Fora que se eu acordar sozinha não vou acreditar que isso realmente aconteceu.”
“Eu sinto que estou sonhando...”
“Eu sinto o mesmo.”
De mãos dadas caminhamos pela ponte, os sorrisos bobos ainda estavam lá e por vezes apertava sua mão com mais força para ter certeza que não tinha sido um sonho, ela me olhava com um sorriso de canto, como se soubesse o motivo pelo qual eu fazia isso. Nunca senti esse tipo de conexão com ninguém antes, era como se mesmo se tivéssemos uma vida simples, eu poderia ser eu mesma, ela não se assustaria se eu descrevesse a forma exata em que a mataria, pelo contrário, ela provavelmente veria as falhas em meu plano e se não houvesse, ela contaria que faria isso de uma forma mais divertida, ela não mudaria de assunto, ela me aceitaria, assim como eu tinha tanta curiosidade pela mente dela.
Tínhamos tantas possibilidades agora. Acordei essa manhã sem esperança alguma, assim como todas as outras vezes, mal sabia que teria minha felicidade de volta, que em um período tão curto minha vontade de viver se restauraria, eu me sentia completa.
Ao chegarmos em meu prédio, assim como previ, ela reclamou de ter que subir as escadas, éramos tão parecidas de formas tão diferentes. Ela parecia uma criança emburrada a cada degrau que subia, fazendo um certo drama no meio do caminho, mas finalmente chegamos em meu andar. Peguei a chave ainda um pouco atrapalhada, mas consegui abrir porta, ela estava rindo e mal percebi quando me empurrou contra a porta agora fechada.
“Villanelle, não acho que deveria fazer isso agora...” Olhei para seus curativos como se fosse óbvio que isso não era uma boa ideia.
“Eu acho que posso fazer uma exceção quando o assunto é você, eu já passei por coisa pior.”
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer com isso e realmente fazia sentido, uma vez descrevi seu olhar como de um gato, mas não era somente isso, ela também parecia ter sete vidas. Não foi a primeira vez que achei que ia perdê-la, mas foi a primeira vez que temi isso mais do que qualquer coisa, chegamos em um nível que nos preocupávamos uma com a outra, que queríamos mais do que um jogo, mas sim algo real.
“Você realmente quer isso, huh?”
“Você não faz ideia... E agora temos uma cama.”
Aquele tom divertido estava lá, fazendo-me lembrar de nosso breve momento atrás do trailer, não era um cenário nada romântico, mas posso afirmar com toda certeza do mundo que ela me fez sentir mais coisas do que qualquer outra pessoa.
“E ainda assim você me prende contra a porta.”
“Você fala muito, Eve.”
Revirei os olhos com sua reclamação e antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, senti seus lábios sobre os meus fazendo meu corpo fraquejar por um instante, ainda era uma sensação que me pegava completamente desprevenida, da primeira vez que senti isso, em nosso confronto no ônibus, odiei me sentir tão atraída e achei que o melhor a fazer era me afastar, era um sentimento que me assustava, mas depois de tudo o que passamos, inclusive pensar que ela estava morta, me fez ver as coisas por outro ângulo, não a vi mais como uma ameaça e sim como algo que eu deveria agarrar, um sentimento que eu deveria explorar, era impossível não pensar que tudo isso era algo do destino, mesmo em um momento tão turbulento fomos destinadas a encontrar uma à outra e o passado já não importava, eu só queria pensar no presente e no futuro que teríamos juntas, sentia que tudo isso aconteceu para ficarmos juntas, fui muito tola achando que salvaria o mundo quando tudo o que eu verdadeiramente queria estava bem na minha frente.
Antes que eu pudesse me perder completamente em pensamentos senti seus lábios roçarem por meu maxilar descendo até meu pescoço, ela conseguia me excitar facilmente, mesmo tendo acabado de receber a notícia mais chocante de minha vida, mas era um bom motivo para comemorar, foi também a melhor notícia que recebi. O jeito que ela me tocava era diferente de qualquer coisa, suas mãos firmes pareciam saber exatamente do que eu gostava, ela já me conhecia apesar de termos tido um contato mais íntimo apenas uma vez, acho que tudo o que vivemos todos esses anos de perseguição nos levaram a ter essa familiaridade uma com a outra.
Suas mãos empurram meu quadril contra a porta, a destra passeando suavemente por entre minhas pernas, apesar do jeans atrapalhar um contato maior, ainda era extremamente excitante ser estimulada daquela forma, não conseguia manter uma postura após isso, então apenas me deixo levar, queria isso tanto quanto ela, precisava usar toda essa adrenalina restante em meu corpo de alguma forma.
“Eu quero te ver...”
Naquele momento, quando ela me disse isso me senti muito mais ousada, estava claro o quanto ela me desejava, eu não sentia que deveria suprir expectativa alguma, eu simplesmente deveria agir sobre meus sentimentos e desejos, não seria julgada. Ela me ajuda a retirar o casaco grosso envolto ao meu corpo e a blusa de gola alta que usava, não foi atrapalhado como da primeira vez, ela levou seu tempo fazendo isso apesar de sua ansiedade aparente.
“Não estou fazendo isso sozinha” Sussurrei em desafio para ela que devolveu um sorriso malicioso puxando a regata que usava mantendo apenas o top que vestia por baixo.
Meu olhar se demorou em seu corpo, tudo nela parecia perfeito, para ser honesta nunca pensei na possibilidade de me atrair por uma mulher antes, na época em que ainda estava casada, era estranho até mesmo pensar sobre isso, mas assim que a vi eu comecei a notar características que muitos ignorariam, tudo sobre ela era hipnotizante e agora poder agir sobre esses desejos que tentei a todo custo evitar era simplesmente incrível.
“O resto eu vou deixar você fazer as honras...” Ela sussurrou perto do meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele já tinha um efeito provocativo sobre mim.
Apesar de adorar a forma que ela me tocava tudo aquilo me deixava ainda mais ansiosa, tudo sobre ela me fazia querer tomar o controle, e assim o fiz, puxando-a para perto pelo cós de seu jeans, então minhas mãos viajaram de seu estômago até seus seios cobertos pelo top, segurei ali com firmeza apertando levemente afim de provocá-la, então após poucos segundos a peça já estava no chão, me deixando admirá-la com mais clareza, todo seu corpo era pura arte, tudo sobre ela me fazia querer que esse momento durasse para sempre, então tento inverter as posições tendo sucesso nisso, ela parecia querer ver do que eu era capaz, podia sentir a emoção em seus olhos ao me ver agir, eram emoções semelhantes a se eu cometesse um assassinato e isso me fez pensar que talvez eu devesse ter cedido a dormir com ela muito antes.
“Você é tão...” Não conseguia encontrar palavras para descrevê-la, mas ao ver o sorriso travesso em seu rosto, sabia que ela diria algo espirituoso.
“Perfeita? Sim, já me disseram isso antes.” Seu tom era claramente de diversão, o que me fez revirar os olhos.
“Oh, cale a boca.”
“Esse é seu trabalho...”
Ela provocou, aquele tom rouco de sua voz me causava sensações indescritíveis e o que ela disse foi tudo o que eu precisava para avançar contra seus lábios novamente, fazendo como ela, descendo beijos pela extensão de seu pescoço, mas dessa vez fui mais ousada, distribuindo também sobre seus seios, subo meu olhar a procura de reações, e quando a vejo de olhos fechados gemendo manhosa sabia que estava fazendo algo certo. Meus lábios entreabertos capturam seu mamilo já rijo provocando ali com minha língua em movimentos circulares e então sugando o local avidamente, cada gemido me incentivava a ir além, tudo era muito novo, mas de alguma forma sabia o que estava fazendo e sentia confiança para isso, não era apenas uma tensão insuportável entre a gente, tínhamos sentimentos reais e por mais bagunçado que isso fosse agora eu acreditava nessa força que sempre nos aproximava. Quando realizei o casamento dos dois rapazes naquele dia tudo o que disse foi sincero e era sobre o relacionamento que eu e Villanelle tínhamos, podia não ter um nome correto para isso, mas era algo intenso e real, passamos por muitas coisas, principalmente tragédias, ela me magoou e eu a magoei, mas de alguma forma isso só nos tornou mais fortes e mais maduras, a beleza em nossos reencontros compensava cada tragédia, principalmente dessa última vez, que eu realmente esperava que fosse o último susto, meu coração não era tão forte para suportar mais do que isso, ainda era difícil acreditar que ela estava mesmo ali, o destino às vezes parecia gostar de brincar com a gente, mas desde que a tivesse ao meu lado eu não me importava, passaria por tudo isso novamente se isso significasse que no final poderíamos enfim ter uma vida juntas.
Dou a mesma atenção para seu outro seio, sugando e mordiscando de leve, sabendo que aquilo a deixava ainda excitada, percebi isso por suas reações, a forma que gemeu meu nome. Amava ouvi-la proferir meu nome em qualquer ocasião e dessa forma se sentia ainda melhor, o tom rouco e arrastado que atingiu em cheio meu núcleo, me deixando completamente encharcada por ela, pressionei minhas pernas juntas por um momento, mas o que eu queria agora era senti-la, ela pôde me ver desmanchar por ela uma vez e dessa vez queria causar o mesmo nela, queria ouvi-la implorar por mim. Continuo a descer os beijos, assim como desci meu corpo devagar até que estivesse de joelhos em sua frente, era uma troca de posições interessante, lembrou-me de quando a vi pela primeira vez depois de um tempo separadas, tentando me convencer de sua redenção. Besteira. Eu entendia essa procura para ser uma pessoa melhor, mas não acreditava que a igreja faria isso por ela, talvez outro tipo de oração poderia ajudar e eu ia mostrar para ela isso. Olho para cima sentindo uma certa ansiedade em antecipação ao momento, apesar de termos uma cama esperando por nós, não podia esperar para fazer isso. Ela agarra meu maxilar com firmeza, mas ainda assim podia sentir certa suavidade em seu toque, era uma sensação nova e já estava viciada.
“O que está esperando?” Aquele seu tom convencido me fez querer revirar os olhos, mas mantive nossos olhares conectados e quando ela soltou o aperto, minhas mãos foram até o cós de sua calça abrindo o botão para, por fim, abaixar o zíper puxando o tecido lentamente, podia senti-la ficar impaciente, mas não reclamou. “Toda vez que pensei sobre isso eu sempre estava te chupando.” Era perceptível o tom provocativo que fazia questão de me deixar em péssimas condições.
“Quanto você pensou?” Apesar de toda a sentença me afetar, foquei mais ainda nessa parte, só de imaginar ela se tocando por mim fazia meu centro latejar.
“O tempo todo...” Sua sinceridade ainda me pegava desprevenida por vezes.
A atmosfera que tomou conta do ambiente tornava tudo muito mais quente, aquela tensão que pairava sobre o ar só a espera de mais um movimento, então o faço. Puxo o fino pano da última peça que usava e então ela ergue uma perna e depois a outra para deixar aquelas roupas de lado e finalmente dou plena atenção para sua nudez, sua pele pálida e suave tão convidativa, não podia deixar de pensar no tempo perdi para ter tudo isso somente para mim. Minha boca se abre em admiração e posso sentir seus dedos mergulharem em minhas mechas, sabia que isso sempre tinha chamado atenção dela, mas dessa vez ela queria me sentir mais perto, sua mão direciona meu rosto entre suas pernas me fazendo soltar um riso baixo.
“Eu vou dar o que você quer, paciência...”
“Eve, eu jur--” Antes mesmo que ela pudesse reclamar passo a distribuir beijos e mordiscar o interior de suas coxas usando um pouco mais de força, também deixando algumas marcas avermelhadas ali e por fim cheguei onde ela mais precisava. Descobri que adorava preliminares apesar de meu jeito tão decidido e rápido, mas foi apenas com ela que percebi isso, sexo antes era apenas uma obrigação, algo sem significado, agora isso tinha mudado completamente, apesar de não termos tido momentos tão românticos no passado, tínhamos todo o tempo do mundo para recuperar o que parecia tão fora de nosso alcance uma vez.
“Você vai fazer o que? Você sabe que nenhuma ameaça me assusta, eu meio que gosto disso.”
“Meu Deus, eu te amo” Ela disse com um sorriso de canto e essa declaração naquele instante foi o suficiente para que eu fechasse a distância entre minha boca e seu centro.
Acabei por gemer abafado ao sentir seu sabor, fazendo movimentos lentos e provocativos com a língua, deixando-a me guiar já que não tinha qualquer experiência com isso, cada vez que ela dava leves puxões em meus fios, isso me incentivava a intensificar os movimentos, e a cada gemido, eu provocava ainda mais o ponto que causou isso em primeiro lugar, estava conhecendo seu corpo e faria questão de tomar meu tempo para isso. Tudo entre a gente foi muito mais que sexo, mas ainda assim seu corpo e suas reações me excitavam mais do que qualquer coisa, não era algo chato, pelo contrário, provavelmente a coisa mais excitante que já tinha feito, passei tempo demais negando isso.
“Eve!” Seu grunhido impaciente fez com que intensificasse os movimentos de minha língua, sugando seu clitóris em minha boca, então resolvi aproximar minha destra sentindo o calor entre suas pernas e decidindo então provocar sua entrada.
Apesar da minha falta de experiência com outras mulheres, não era tão inexperiente assim em me tocar, mesmo tendo um casamento aparentemente perfeito antes, não me sentia muito satisfeita nesse quesito, e depois de conhecer Villanelle senti um desejo ainda mais intenso, por vezes até imaginava ser ela quem me tocava, mas nunca contei sobre isso, na verdade tentei enganar até a mim mesma fingindo que nada tinha acontecido.
Apoiei sua perna em meu ombro e aprofundei meu dedo médio em seu interior, testando suas reações, pude sentir seu corpo estremecer ao toque, sabia o quanto ela tinha esperado por isso, ela tinha a sexualidade muito mais fluída que a minha e não se envergonhava em dizer o quanto pensava em mim, na verdade ambas pensávamos muito uma na outra, mas da primeira vez que ela me disse que se masturbava muito pensando sobre mim isso me pegou de surpresa, porque até aquele momento minha obsessão não tinha explorado esse lado. Ao senti-la mover os quadris como se pedisse por mais, penetro também meu indicador, dessa vez indo fundo em seu interior e devagar, pegando ritmo aos poucos, testo curvar um pouco meus dedos atingindo um ponto mais esponjoso onde passo a provocar mais frequentemente ao perceber que isso tirava gritos da loira que não se importava com isso, ela simplesmente sentia e se expressava, isso era tão lindo.
“Eve... Não ouse parar!” Aquele jeito exigente ainda estava lá, guiando-me, aumentando o aperto em meus cabelos, mas era algo que me excitava ainda mais, a forma que gostava de controlar as coisas.
“Não sou tão má como pensa.” Afasto-me apenas para respondê-la, rindo baixinho ao fazer isso e então voltando a enterrar meu rosto entre suas pernas.
Sentia que o movimento de meus dedos combinados com minha língua estava quase fazendo-a perder a cabeça, ela se contorcia de uma forma tão bela, tudo sobre ela me fascinava. Ela empurrou o quadril para frente, pressionando seu íntimo ainda mais contra minha boca, quase implorando por mais e assim o fiz, meus dedos aceleraram um pouco mais os movimentos, mas ainda assim mantendo-os precisos enquanto minha boca sugava seu clitóris de maneira faminta provocando-o com a língua.
“Eu estou tão perto...” Ela murmurou em meio aos gemidos escandalosos, era difícil vê-la daquela posição, mas a forma qual contorcia seu corpo dizia muito, fora alguns leves espasmos indicando que não duraria muito mais.
“Merda! Eu quero te sentir, Villanelle, goza pra mim.” Talvez tivesse sido a forma que falei isso, que provavelmente causou esse choque fazendo-a me obedecer quase no mesmo instante.
Senti seu interior se se comprimir contra meus dedos, mesmo assim não parei, querendo senti-la em seu limite, cada vez mais seus gemidos e gritos se tornavam estridentes, finalmente deixando-se levar pelo momento e se desmanchando em minha boca, retirei os dedos ao senti-la relaxar afim de prová-la, minha língua continuou se movimentando contra ela tomando cada gota de seu líquido antes de me afastar para olhá-la. Ela tinha aquele sorriso orgulhoso em seu rosto, como se finalmente tivesse conseguido algo que queria muito, e de fato foi o que ocorreu, seus cabelos também pareciam um pouco bagunçados, provavelmente pela forma que ela se contorcia, para ser sincera ela parecia uma bagunça total e ainda assim era a mulher mais linda que eu já tinha visto. Deixo um beijo no interior de sua coxa e então me levanto, agora encarando-a de perto, como se quisesse saber o que ela sentia, mas não querendo perguntar porque pareceria bobo demais.
“Você sabe... Foi melhor do que qualquer experiência, sonho ou pensamento que tive, eu não esperava isso.” Era exatamente o que eu precisava para me sentir mais confiante.
“Você realmente é impossível.”
“O que? É sério, nada se compara a você Eve... Você sabe, cheguei a achar que isso era apenas uma obsessão, não era. Não é.”
“Eu sei.” Respondi baixinho, porque eu realmente sabia do que ela estava falando, mas antes que pudesse falar mais alguma coisa ela me puxou.
“Vamos, é injusto que esteja usando tantas roupas assim, você é muito sexy, eu estou prestes a mudar isso.”
Apesar de me puxar foi eu quem a guiei até o pequeno cômodo em que ficava meu quarto, claro que demoramos um pouco para chegar mesmo o apartamento sendo literalmente minúsculo, mas paramos algumas vezes para nos beijarmos, ou para que ela tirasse alguma peça da minha roupa. Ao chegarmos no quarto eu já estava vestindo apenas roupas íntimas e o olhar dela sobre mim era de adoração, agora que tínhamos mais tempo, ela podia tomar seu próprio tempo e fazer o que quisesse comigo.
“Por que demoramos tanto tempo?” Ela perguntou com um sorriso travesso me segurando com firmeza e me empurrando contra o colchão com um pouco mais de força, sendo completamente sincera era algo que eu gostava, não suportava monotonia na cama e mesmo assim algo mais violento não tirava nem um pouco a paixão da situação. A combinação dessas duas coisas era algo que não tinha experimentado antes, não dessa forma, mas agora estava tendo esse gostinho e só queria mais.
Ela abriu meu sutiã facilmente, jogando a peça longe então olhou para baixo puxando minha calcinha com mais brutalidade de uma só vez antes de se posicionar por cima de mim. Agora nossos corpos, ambos desnudos, entraram em contato me fazendo gemer com o calor que pareciam irradiar, a forma que ela se movimentava sobre mim já estava me deixando muito mais encharcada, e ela parecendo ler minha mente direcionou sua mão entre minhas pernas querendo sentir o quanto a desejava e pela sua feição percebi que a deixei satisfeita.
“Tão molhada pra mim... Eu te deixava assim antes?”
“Hm...”
“Diga isso Eve, eu preciso ouvir.”
“Muito...” Admito o que ela já sabia, mas de alguma forma ela precisa se sentir no controle naquele momento e deixei que ela tivesse isso, só de senti-la em minha boca isso me deixou completamente encharcada e precisa de meu próprio alívio. Villanelle começou a fazer movimentos circulares com seus dedos em meu centro e ela sabia exatamente o que estava fazendo, isso deixava o momento ainda mais erótico. Ela parecia fazer questão de estudar todas as minhas reações e por vezes parar me olhando fixamente, já não estava em meu melhor juízo, também decidi por não me controlar, eu queria me doar totalmente àquele momento, ser sincera com meus sentimentos.
Quando ela para com os movimentos, deixo escapar um gemido frustrado, mas então sua boca cobre a minha iniciando um beijo quente, e sua mão que estava entre minhas pernas busca apoio no colchão sendo substituída por sua perna ali. Aparentemente ela já estava pronta para outra e não era eu quem iria reclamar, por Deus, eu queria experimentar todas as posições com aquela mulher. Assim que encaixa nossas pernas, ela deixa suas costas ereta se afastando do beijo e mantendo uma posição sentada sobre mim, só esse contato já me fez arfar completamente chocada com o quanto aquilo me excitou, sua carne pressionando contra minha trazia sensações que jamais sentira, mas então quando sua mão procura por meu pescoço se torna quase demais para lidar.
“Pode lidar com isso?” Eu não sabia se ela realmente estava preocupada ou se estava me provocando naquele momento, mas acenei com a cabeça em concordância.
“Você sabe que eu posso... Já passamos por coisas piores.” Respondo em um tom rouco carregado de luxúria e isso parecer ser o suficiente para ela ser um pouco mais áspera. Seus dedos agarram meu pescoço de uma maneira muito específica, de forma que não me sufocava, mas ainda assim fazia certa pressão ali, e então ela começou a se movimentar sobre mim, muitas vezes com impulsos mais firmes, que faziam eu me contorcer, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos tamanho prazer que me causava.
“É só isso que pode fazer?” Não sei por que diabos disse isso, mas tinha essa coisa sobre nós, a forma que sempre provocávamos uma à outra e eu simplesmente não conseguia evitar. Isso também pareceu acender uma chama no olhar dela e sabia que estava perdida.
A provocação realmente a incentivou a intensificar os movimentos, seu rosto por um momento desceu até a altura de meus seios, provocando e mordiscando ali, puxava meu mamilo entre seus dentes de forma provocativa enquanto me provocava com seu joelho por um tempo, até voltar à posição movendo os quadris sobre mim um pouco mais rápido, mas não rápido demais a ponto de tornar aquilo frívolo, eram movimentos simplesmente perfeitos, suaves e precisos ao mesmo tempo. Seus cabelos loiros com leves ondulações caíam sobre seu rosto por conta da posição e por Deus, eu não queria, ou melhor, não podia fechar meus olhos, precisava observá-la, somente aquilo já era o suficiente para me desmontar, ter aquela mulher sobre mim parecia até mesmo um de meus sonhos, mas finalmente era real. Ela aperta um pouco mais meu pescoço e posso sentir seu corpo mais tenso por vezes, aquela posição estava se tornando uma de minhas favoritas, a forma que ela se movia dando prazer a ambas era incrivelmente quente, nossos gemidos ecoavam pelo quarto e era muito provável que eu recebesse uma reclamação de algum vizinho no dia seguinte, mas eu não dava a mínima, eu estava com a mulher que eu amava e isso era motivo de comemoração e não tinha forma melhor de fazer isso do que deixar todo aquele sentimento fluir.
“Quer mais?” Grunhi em resposta, mas então ela negou com a cabeça. “Diga isso, eu quero te ouvir, Eve.”
A forma que ela dizia meu nome era tão erótica, sempre foi, mas naquele momento me afetava mais do que qualquer coisa. Ela soltou um pouco o aperto de minha garganta e esperou que eu dissesse exatamente o que ela queria ouvir, dessa vez eu não lhe neguei esse pedido, já tinha feito isso muitas vezes.
“Eu quero mais, eu quero você, quero tudo o que você tem a me dar, não se segure, não precisa fazer isso comigo...” Pedi em um tom rouco, erguendo um pouco meu quadril fazendo ambas grunhir com o contato e a pressão repentina.
“Eu vou dar o que você quer... Eu quero te fazer gritar.” Seu sotaque russo estava muito mais forte agora, quase como se ela deixasse essa parte mais vulnerável de si participar.
E assim ela o fez, seus movimentos já tão provocativos se tornaram ainda mais intensos e precisos, ela agarrou meu maxilar com firmeza, forçando-me a olhá-la e entendi o que queria, então mantenho contato visual o tempo todo, essa era uma intimidade que jamais experimentei, mas era boa. Suas unhas curtas raspam por minha pele, descendo até meu seio onde ela agarra um tanto mais áspera em seu toque, ela segura ali com mais força, afundando suas unhas enquanto sua outra mão fazia o mesmo em minha coxa, já que minha perna estava flexionada por conta da posição. Não tinha outro lugar em que eu queria estar naquele momento. A cada impulso me sinto cada vez mais perto, e ela parecia sentir isso também, mas desconfiava de que ela precisava me ver primeiro, isso a excitava, a levava ao limite, então não adio mais isso, minhas mãos procuram por algo para segurar, encontrando suas coxas, onde aperto com força e o que Villanelle faz em seguida me deixa completamente entorpecida, ela afrouxa o aperto em minha garganta fazendo com que a súbita onda de oxigênio intensifique ainda mais meu orgasmo, algumas lágrimas escorrem por meu rosto e pela primeira vez não tinha anda a ver com tristeza. Minhas reações parecem deixar a loira admirada, porque sinto seus músculos mais rígidos seguidos de espasmos assim que atinge seu orgasmo logo em seguida ao meus e durante todo esse momento não ousamos fechar os olhos, talvez isso tenha tornado tudo ainda melhor.
Nós duas estávamos cansadas, mas pela primeira vez era por um bom motivo, ela parecia aguentar ainda mais algumas rodadas, mas queria mais do que isso naquele instante, queria saber tudo sobre ela e sobre o que aconteceu. Nosso momento juntas me permitiu esquecer momentaneamente sobre isso, mas agora essas dúvidas me incomodavam novamente.
Villanelle brincava distraidamente com meus cachos, por vezes aproximando seu rosto do meu deixando alguns beijos suaves em minha pele, apesar de parecer espontâneo, eu não achava que ela fazia muito isso, ela parecia testar alguns gestos esperando obter alguma reação minha, e apesar de ser um tanto estranho eu realmente achava fascinante e queria que ela se sentisse livre para isso.
“Hey...” Chamei com a voz mais grave e ela apenas murmurou preguiçosamente em resposta. “Quando vai me contar tudo?”
“Podemos marcar um horário para isso, o que acha?” Ela respondeu em um tom bem humorado deixando escapar um riso, então revirei os olhos. “Eu estou apenas brincando, Eve, tenha um pouco de senso de humor, acabamos de fazer sexo, eu tive dois orgasmos, eu ainda estou processando isso.”
“Parece que morrer te deixou mais divertida.”
“Hey, eu sempre fui divertida, você que não apreciava meu senso de humor...” Ela sabia como chegar até mim, aquela voz tão perto do meu ouvido e tão suave era capaz de fazer eu me calar na hora. “Eu vou te contar tudo, não foi justo o que aconteceu, mas eu precisei ser egoísta, só assim poderíamos ter isso... E eu não contava com isso, digo, o sexo... Eu provavelmente teria feito isso muito antes.”
Ela riu em um tom baixo, e dessa vez eu podia sentir algo além de provocação, ela estava verdadeiramente bem com tudo isso, ela estava feliz.
“Eu aposto que sim, você só quer me levar pra cama...” Meu tom também foi voltado para brincadeira, mas ela ficou um pouco séria e olhou em meus olhos.
“Eu quero até as coisas mais entediantes ao seu lado, Eve. Quando você estava lá, dançando tão despreocupada, eu pude ver que essa era a vida que você queria também, algo simples, você pode gostar de emoção, mas no fundo você só queria que tudo acabasse... E então eu percebi o que eu fiz com voc—”
“Não foi você, eu quis isso.” Interrompi falando com mais firmeza, mas ela apenas negou com a cabeça, como se quisesse que eu me calasse por um momento.
“Nós duas sabemos o que fizemos uma com a outra, eu não estou dizendo que você não quis... Como você mesma disse, nós duas nos machucamos nisso. Mas quando eu olhei pra você eu soube que eu também queria isso...”
Sua confissão me surpreendeu e agora entendi o porquê de ela querer que eu me calasse, ela não se sentia mal por entrar em minha vida, ela queria uma vida simples comigo. O choque provavelmente ficou muito aparente em minha expressão, porque ela com cuidado aproximou a mão do meu rosto em uma carícia suave.
“Isso está bem pra você? Você e eu...” Ela parecia não saber formular muito bem, mas eu entendia, entendia exatamente o que ela sentia e o que ela queria.
“Você está dizendo que quer ter essas coisas chatas comigo?” Incentivei-a a falar, percebendo que ela parecia um pouco sem jeito.
“Sim... Mas o sexo com você não é chato, então eu quero coisas bem legais e as chatas também”
“Então quer dizer que você quer... Namorar comigo?” Perguntei com uma careta porque isso parecia tão juvenil.
“Você quer?”
Ela parecia muito assustada, como se estivesse louca para me perguntar isso, mas ao mesmo tempo temendo minha resposta, ela não sabia lidar muito bem com essas coisas.
“Eu vou pensar sobre isso...”
“Eve!!”
“Eu estou brincando, é claro que eu quero, acho que talvez você tenha razão... Eu quero minha vida de volta, mas eu quero mais do que tudo você nela...”
“Foi o que eu fiz com os dedos não foi? Eu deveria ter usado eles antes...”
“Meu Deus!”
“Eu estou brincando, mas eu realmente deveria...” Ambas rimos e então ela suspirou entrelaçando nossos dedos enquanto voltava a falar. “Eu vou te levar para um encontro real... E vamos ter todas essas coisas melosas... Eu nunca fiz isso antes.”
Essa admissão não me surpreendeu, mas percebi que o que ela queria dizer era muito mais profundo, que talvez ela precisasse que eu ensinasse as coisas mais básicas sobre um relacionamento, e eu iria, mas sabia que seria tudo espontâneo, ela estava se saindo muito bem já.
“Vamos descobrir isso juntas, eu prometo. Agora me conte sobre Carolyn, por que ela fez isso?”
“Eve, não tinha outra maneira, se tivesse eu teria optado, mas todo mundo que se envolve com eles não tem mais saída, e por isso é melhor que achem que estou morta.”
“Mas não faz sentido, acabamos com eles...”
“Você realmente acha isso? Nem todos eles se foram e Carolyn sabia muito bem o que estava fazendo... Isso nunca vai acabar, mas pode acabar para a gente... Eu quero mudar.”
Pela primeira vez realmente acreditei nisso e não a contrariei, apenas acenei com a cabeça em concordância enquanto falava.
“Isso é muito maior do que imaginávamos, se atingirmos alguns, eles voltarão a crescer e eu não quero essa vida, eu quero finalmente poder assistir a um filme com a pessoa que eu amo e falar coisas sem sentido, eu quero viver.” Seu desabafo parecia ser necessário para ela seguir em frente. “Então, vamos dizer que encontrei com Carolyn esses dias que você esteve beijando minha chefe...”
“Villanelle!”
“Está tudo bem, é só que você demorou tanto pra fazer isso comigo...”
“Você está com ciúmes?” Ao perceber sorri de forma provocativa e seu rosto mudou completamente um pouco indignada que eu tivesse falado isso.
“Não seja boba! Deixa eu continuar a história.”
“Vá em frente, foi você quem fez questão de falar essa parte...”
“Cala a boca, meu Deus!” Ela exclamou me fazendo rir, mas então revirou os olhos continuando o outro assunto, provavelmente para que eu esquecesse sobre isso. Spoiler: Eu não iria. “Então eu deveria matar Carolyn, Helene me disse para fazer isso, e eu quase fiz, mas ela me convenceu o contrário, no caminho disse que me devia uma e eu nem levei muito a sério... Me contou uma história estranha sobre alguém de seu passado que morreu afogado, foi interessante, eu gosto de histórias sobre morte, então prendeu minha atenção, ela começou a explicar que era possível não morrer em uma situação como essa, foi tão bizarro e por fim disse que eu deveria tentar algum dia.”
“Não acredito... Esses enigmas...”
“Certo? Eu também não tinha entendido nada, mas não falamos mais sobre isso, como nossa brincadeira de verdade ou desafio foi interromp—”
“Jura? Verdade ou desafio?”
“E você fez o mesmo, me interrompeu, não me interrompa.” Revirei os olhos e deixei que continuasse. “Então teve aquele último encontro em que ela disse que me devia um desafio, porque bem na hora tivemos um imprevisto, acho que o cara da história estava vivo, não entendi de primeira, mas fiquei com isso na cabeça e foi só quando eu levei um tiro que eu entendi.”
“Como isso fez sentido?”
“Eve, qualquer atirador descente teria explodido minha cabeça, eu era um alvo fácil. Então toda aquela história passou pela minha cabeça, a forma que ela simplesmente saiu do nosso caminho... E então eu percebi que era o que ela queria dizer, era uma luta real, ela não pegou leve, mas deixou essa possibilidade em aberta para mim, eu tinha que te salvar, não confiava nela, então falei para pularmos, eu não sabia muito o que pensar, mas sabia que tinha alguma coisa nessa história. Lembra da Pam? Ela me ajudou depois, depois que me tiraram da água. Acho que ela não queria nada com a Carolyn, mas ela me devia uma... Por Konstantin. Oh, eu não te contei, ele morreu. Esse bastardo tinha que servir de algo.” Aquilo realmente me pegou de surpresa, e apesar da forma que ela falou isso, sabia como ela deveria estar chateada, ele era o mais perto que ela tinha de um amigo. “Então ela me ajudou, eu estava me recuperando esse tempo, ela não pegou leve, disse que tinha que parecer real, Pam ajudou a parecer real também, ela é boa nisso, é bizarro...”
“Mas por que Carolyn te ajudaria?”
“Eve! Passamos muito tempo juntas, ela gosta de mim”
“Claro, definitivamente é isso.” Zombei tentando encontrar algum sentido, até que uma lâmpada pareceu acender em minha cabeça, tudo começou a se encaixar, eu tinha resolvido o quebra-cabeça. “Ela sabia que eu ia tentar destruir ela... Ela sabia que eu conseguiria, fui mais longe do que ela esperava e agora ela queria ter certeza que me manteria calada. E os Doze... Ela tirou alguns do caminho para ela voltar a ter controle sobre isso. Filha da mãe...”
“Eu ainda prefiro a minha versão...”
“Mas ela estava certa, eu não quero mais isso, eu quero algo novo, eu quero recomeçar...”
“Faremos isso... Sem mais assassinatos... Só de vez em quando para apimentar a relação.” Ela riu e apesar de eu não saber se ela estava falando sério ou não, eu ri com ela, era nossa forma de sermos românticas e eu gostava.
Após entender os motivos de Carolyn pude vê-la crescer novamente, ela tinha a confiança do governo, ela tinha tudo o que queria, mas isso já não importava mais para mim, eu estava feliz, claro que dividir um mini apartamento com Villanelle as vezes se tornava demais, ela era muito espaçosa e reclamava da minha bagunça, também era difícil recomeçar em Londres, foi então que novamente ela falou sobre irmos para o Alaska, não entendia muito bem essa fixação que ela tinha, mas eu gostei da ideia, era um lugar que eu gostava e ela já tinha comprado as passagens, não era como se eu pudesse negar de qualquer forma, mas precisava admitir que foi a melhor coisa que fizemos, tínhamos uma vida completamente nova, conhecemos pessoas novas que não sabiam nada sobre nossa história, às vezes planejávamos assassinatos quando odiávamos alguém em comum, mas nunca colocaríamos em prática, não era mais a nossa vida.
Comecei a estudar psicologia e às vezes percebia que meus olhares mais demorados, como se estivesse analisando-a a irritavam, mas fazia mesmo assim, cada vez aprendia mais sobre como a mente funcionava, acho que o que eu mais queria era entendê-la. E por conta disso também compartilhamos coisas ainda mais pessoais uma com a outra, ela me falou sobre sua família, aquele dia eu podia sentir um leve medo do que eu pensaria, mas queria deixar tudo isso pra trás, tudo o que ela fez não dava para ser desfeito, fora que ao entender sua dinâmica familiar, isso explicou muito, ela merecia ser cuidada e eu faria exatamente isso, daria todo o carinho que ela não teve a chance de receber, a ensinaria como amar. Ela também resolveu se ocupar, ela era a pessoa mais irritante quando estava entediada, ficava o tempo todo choramingando, então mencionei a conversa que tivemos há um tempo atrás, em que ela disse que provavelmente teria feito design de interiores, só de falar sobre isso como uma opção sabia que era o que ela gostaria, afinal, ela montou todo nosso novo apartamento e nem tínhamos muito dinheiro para isso, ela conseguiu ser econômica e moderna, o que me surpreendeu um pouco. Estávamos indo muito bem, e ela decidiu que iria estudar, toda noite conversávamos sobre como as aulas estavam indo e uma vez em que fui buscá-la na universidade assisti o final de sua aula, os alunos precisariam fazer duplas para um trabalho e o rapaz que faria com ela parecia um pouco assustado, era um pouco engraçado, mas podia ver como ela estava se esforçando e o quanto ela era única e especial. Ao me ver ali, ela abriu o maior sorriso do mundo indo até meu encontro.
“Eve! Está querendo me envergonhar na frente da turma?” Ela sussurrou de brincadeira fazendo-me revirar os olhos e balançar a cabeça.
“Eu sei que você ama quando eu venho te buscar”
“Talvez... Um pouquinho...”
“Villanelle...”
“Certo... Eu amo isso.” Ela admitiu com um sorriso adorável e segurou em minha mão. Percebi um olhar torto por uma das garotas e isso me fez pensar que talvez ela quisesse se aproximar de V. Sim, eu estava em minha era mais pacífica, não queria voltar a entrar em confusão por causa dos Doze, mas eu arrumaria uma confusão se tentassem alguma coisa com a minha namorada. “Porque isso significa que você quer sair comigo... Para onde vamos?”
“Esperta. Bem, eu já alimentei Konstantin e pensei que pudéssemos fazer o mesmo e sairmos para jantar, o que acha?”
Sim, tínhamos um gato chamado Konstantin, o gato foi minha ideia, ela odiou, disse que tinha um passado com gatos, eu nem quis perguntar, mas quando fomos a uma feira de adoção ela não conseguiu resistir e ele realmente parecia gostar dela dessa vez, até ela se surpreendeu, e o nome foi ideia dela, ela disse que ele parecia velho como Konstantin era, mas eu acho que ela só sentia falta dele, e foi assim que o adotamos.
“Eu acho uma ótima ideia.”
Percebi que os olhares da garota eram persistentes, não desgrudavam de nós, então em um ato muito impulsivo, que eu sabia que depois teria que explicar, beijei a loira propositalmente enquanto a olhava, pude ver o quão desconfortável a menina ficou e deviou o olhar se afastando dali.
“O que foi isso?” Ela franziu o cenho com curiosidade.
“Eu te explico no caminho, vamos?”
Eu realmente tive que explicar no caminho e ela me provocou sobre isso o tempo todo, e claro que eu tive que trazer Helene à tona, foi um jantar divertido apesar de tudo. Quando voltamos ela escolheu um filme, o mais meloso possível para assistirmos, fazíamos caretas e reclamávamos o tempo todo, mas também nos emocionamos com o final e eu fiquei acariciando seus cabelos até senti-la adormecer em meu colo. Acho que desde o começo isso era tudo o que ela queria e agora eu podia dar isso a ela, no final queríamos as mesmas coisas, isso funcionava, nossa relação era formada por coisas fofas e estranhas e de alguma forma fazia sentido, estávamos felizes.
