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Português brasileiro
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Published:
2022-06-19
Words:
4,572
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1/1
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722

Ikahanah

Summary:

A doença do amor, após contraída, faz você vomitar pétalas de flores. Os sintomas são uma forte dor corporal e flores nascendo em seu interior que, com o tempo, tomam todo seu corpo e deixam apenas seu coração. Vivo, pulsando, batendo por quem você ama. Até que um dia você sufoca. Há duas curas: ser correspondido ou uma cirurgia de remoção que apaga todas as memórias e sentimentos relacionados ao amado.

Mas eu jamais tiraria você de mim.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Seu coração, um dia, irá parar. E se perguntará o motivo de ter vivido em meio a tanta pressa.

Admirava você bem devagar. Lento, apreciativo. O suficiente para policiar meu sorriso antes dele crescer. Bem queria imaginar como seria se soubesse a quantidade de felicidade que eu escondia, simplesmente porque você era minha razão para estar contente. Me fez experimentar algo que não posso comparar a nada que passou pela minha vida nesses vinte e cinco anos.

Dizem que o entardecer em Santorini é um espetáculo dos deuses, um presente. Me questiono se ninguém sente medo, afinal, localiza-se no centro de uma caldeira vulcânica. Acontece que o turismo aumenta a cada ano, eles não têm medo.

Eu tinha. Ao perceber que, dentre bilhões, não somos indivíduos tão especiais assim, a vida torna-se mais intensa.

A vida me deu um entardecer em Santorini. Ele era um amanhecer, porque era a estrela do meu universo, meu Sol. Tinha nome e sobrenome e tampouco era uma caldeira vulcânica. Eu tinha medo de ser turista em seu sorriso, tinha mais ainda de ser turista em sua vida. Ainda assim, ele era um amanhecer espetacular. 

Queria que fosse lava dentro do meu estômago ao invés de flores com um cultivo demorado. Pelo menos eu morreria mais rápido. 

O restaurante ao nosso redor era um misto de vultos. Parafraseando minha filosofia, confesso que não dava uma migalha de importância para os garçons ou os outros clientes. Há sete bilhões de pessoas no mundo. Eu, tolo, via apenas uma. Via apenas a sua felicidade, num silêncio agradável onde eu bloqueava tudo ao redor e focava em você. 

Por estar constantemente te olhando, vi quando afrouxou a gravata, vi quando pediu outro martini e um copo de água para balancear o álcool no sangue. De nada adiantava, embriagou-se de qualquer maneira. Durante a comemoração, lembrou da minha existência. Sei que nunca a esqueceu, mas… Eu não era o centro da sua galáxia. Enquanto isso, você era meu Sol.

“Um brinde a esse cara aqui,” apontou para mim e nossos colegas de empresa vibraram. “Hwang Hyunjin! Somos amigos desde antes de começar a andar!”

Sua mão em minha cintura me puxou para um abraço, meu corpo estremeceu. Vi você sorrir, vi meu fôlego esvair e desaparecer como pétalas no ar. Infelizmente, nunca te disse isso, mas a cada instante que você me abraçava ou beijava suavemente minha testa, eram os momentos mais doces. E eles nunca mudavam. Meus sentimentos não mudariam nem mesmo debaixo de uma ameaça de morte. Quis agradecer a existência do seu perfume. Junto aos outros, brindei nossa querida amizade. 

Naquela época, era apenas um broto. Eu não precisava de remédios para dor no abdômen, mal tinha conhecimento de que crescia dentro de mim.

Bendita tarde de sábado que você, como fazia quando estava entediado, me sequestrou do escritório para passear pela cidade. Bastava um olhar por cima do computador, seu sorriso fácil. Me carregava pelo pulso até o elevador, fugindo dos olhares dos nossos supervisores. Almoçamos num restaurante chique.

“O que há com você?” Sua mão contradizia o inverno rigoroso, quente e macia quando tocou minha testa. Suavemente, arrumou minhas mechas para trás. “Nunca te vi tão vermelho.”

“Estou bem” escarrei uma última vez, olhos inundados pelo esforço. “O que você queria me dar?”

De repente empolgado, riu e tirou algo do bolso. Uma caixa pequena. Se eu fosse um pouco mais sonhador, teria achado que era um pedido de casamento. A ideia me passou pela cabeça, mas fugiu rapidamente.

“Seu relógio?” Minha testa franziu. Algo no modo como você segurou meu pulso de porcelana e encaixou um pouquinho de você me fez pensar em quanto te queria. “Por quê? Você o ama tanto.”

“Um presente de sorte para o seu alistamento.”

“Faltam uns dois anos, não precisava.”

“Eu sei.” Você penteou suas madeixas para trás, preocupado. “Hyunjin, eu vou embora. Vou voltar para nossa cidade natal.”

“Felix…” sussurrei, incrédulo com sua recente decisão. “Mas e o seu pai? A empresa?”

“Lembra quando você dizia que queria largar tudo aqui em Seul, voltar para o interior e passar o resto dos seus dias em paz, trabalhando na floricultura da sua mãe? Eu não dei bola porque tinha medo de enfrentar o meu pai. Mas estou com toda a coragem do mundo agora.”

Suas mãos envolveram as minhas e nossos olhares se acariciaram por um instante.

“Eu vou de qualquer jeito, e quero saber se você vem comigo. Esse relógio é caso você não queria, daí não sei quando vamos nos ver de novo.”

Vibrei ao lembrar de nossa infância em Yongin. Corríamos o dia inteiro e, após o crepúsculo, usávamos o brilho da lua para nos guiar de volta para a vila. Os vagalumes rodeavam você como um salvador, embora nenhum deles estivesse mais maravilhado do que eu. Era óbvio que aquele lugar era meu refúgio dos sonhos, e ir com você…

“Claro que quero!” respondi, quebrando o silêncio que perdurava.

Puxei você para um abraço, minha bochecha amassada em seu ombro. A vida era injusta a partir do momento em que não podíamos ficar para sempre abraçados.

“Caramba, faz tipo, quase dez anos que não vejo a minha mãe…” Escondi meu rosto com as mãos. É claro que minha visão nublou úmida. Aquele pacote de nostalgia me fez chorar. Contudo, você não me deixou cobrir o rosto por muito tempo. É claro que você limpou minhas bochechas e segurou meu rosto em suas mãos. Porque você me amava.

“Mas é para o resto da vida, viu? Eu pretendo ir para lá e nunca mais sair.”

“Sim, para o resto da vida.” Bufei. Um sorriso nasceu entre o choro. “Você fala como se tivéssemos duzentos anos pela frente quando são, sei lá, só uns cinquenta.”

Você bagunçou meus cabelos. 

“É o suficiente para ter uma vida feliz.”

“Quando nós vamos?” Um canto atrevido em meus pensamentos torcia para você responder imediatamente, ou amanhã.

“Em sete meses…” Avistou a hora no visor do relógio e levantou-se, sempre com a pressa de Seul na bagagem. Tudo bem, em breve estaríamos num lugar calmo e confortável para viver sem pressa. “Preciso ir!”

Te segurei pela borda do terno.

“E a outra surpresa?”

Seu sorriso se iluminou. 

“Esteja aqui, amanhã, no mesmo horário.” Disse antes de sair correndo contra a chuva de vento da capital. 

 

Almoçamos, de novo, num restaurante chique. Puxamos uma papelada enorme, uma garrafa de vinho antigo. A taça dançava em seus dedos. Eu tentava não ficar mexido com seu braço passando por cima do meu ombro e os lábios perigosamente perto do meu ouvido. Tentava me persuadir na escolha de sobremesas. Seu perfume me fez, pela primeira vez em vinte e cinco anos, chegar ao meu limite. Fechei o cardápio num baque que te deixou apreensivo. Era a hora. 

“Vamos mesmo voltar para Yongin?” perguntei, pausadamente. “Eu e você…” Apontei para mim e para você, consecutivamente. “Juntos?”

Meus olhos disseram tudo, você lhes deu ouvidos e, depois de compreender a carga semântica daquelas palavras, arrepiou-se por inteiro. Claro que você entendeu, não era lento nem bobo.

Esperei ser amado por você. Isso, no entanto, não aconteceu.

Porque meu tempo acabou. Era tarde demais. 

Numa vontade súbita de vomitar, corri para o banheiro. Você me chamou uma vez, ignorei. 

Achei que era algo na minha sopa, minha garganta coçava como o inferno. Entre o charme e a elegância do banheiro, tive uma crise de tosse até sangrar na palma da minha mão. 

A primeira pétala. Era branca, fruto da imprecisão de uma natureza que ainda não sabia qual cor escolher. Coloquei-a em meu bolso. Ainda me sentia mal quando voltei para nossa mesa. Você prometeu duas surpresas e eu, de coração cheio e lotado até a tampa de esperanças, não podia perder por uma tosse boba.

Sai do banheiro e, subitamente, tive medo de caminhar. Te deixei sozinho à mesa e agora você estava acompanhado e ocupado num beijo devagar e um bocado apaixonante. Tinha certeza que o chão sob meus pés iria se desintegrar. De novo, me forcei a ser forte. Eu não queria ser forte, eu queria seu amor.

Jamais diria que ela era uma parede entre nós dois. A ideia de um muro implicava a existência de dois lados e um empecilho central, o que não era nossa história. Não há como separar uma cidade de apenas um lado. Era unilateral, balada de um homem só. Um amor não correspondido não é nada mais que um culto de um homem só.

Não, nunca a culparia pela causalidade da vida. Aconteceu. Você era perdidamente apaixonado por ela, e ela por você. E ponto. Vi isso em seus olhares. Como não reconheceria? Se era exatamente do jeitinho que sempre imaginei que olharia para mim.

Também não culparia você. Aliás, culpa não era a questão. Se fosse, eu era a vítima do meu coração, o verdadeiro culpado. E do meu corpo e da maneira como ele reagiu a uma situação tão simples que, de acordo com revistas de autoajuda, poderia ser resolvido em menos de um ano com força de vontade e resiliência. Deve amar a si mesmo o suficiente para não sofrer por um amor não-correspondido, diziam. Sim, fiz de tudo para lutar contra e ser feliz. Mas, tenho dito, meu corpo reagiu negativamente.

Me contou que se casariam em seis meses, depois, um mês de lua de mel em Bangkok e, finalmente, morariam na casa de campo em Yongin, “pertinho de você, Hyunjin, vai poder nos visitar sempre que quiser”. Queria que eu fosse padrinho. Aceitei.

A tosse voltou. Pedi desculpas. Cuspi a segunda pétala. Essa era preta como cinzas nos escombros de um incêndio. Amassei-a na palma da mão. Teria jogado fora no banheiro se, no segundo em que levantei, tudo não tivesse escurecido.

 

Encarava o teto como se aquele mar branco e suas luzes cegantes fossem capazes de me dar uma resposta. Suando frio por baixo das cobertas caras.

Febril de amor por você.

Não era grave, apenas um susto, mas o médico insistiu na observação por um dia. Você arcou com as despesas sem nem me perguntar. Ela, tão bonita e carinhosa quanto você, me entregou um remédio que carregava na bolsa de couro, de alívio rápido e que poderia ajudar com a febre.

Morri de medo no exame da ressonância, voltei para meu quarto e dormi. Nunca fui de chorar, sempre me senti patético nesses momentos. Naquela noite fria, sofri nas mãos de um choro incontrolável, ninguém no mundo ouviu meus suspiros debaixo daquele cobertor.

Se soubesse da notícia que viria pela manhã, teria dado meu melhor para não ter acordado nunca mais. O médico, em sua postura profissional, cuspiu tudo de uma vez. Eu tinha, com sorte, três anos de vida.

De um amor unilateral severo, nasce um pequeno broto em seu interior. A doença, silenciosa e crônica, permite que meus genes, pouco a pouco, se misturem aos genes do pequeno broto intruso. Há apenas uma única cura, um mártir tão péssimo que chamá-lo de cura é ser gentil. Disse ao médico que iria pensar, fui para a casa com uma sacola de remédios. Pedi que ele não contasse a ninguém.

 

Até o quarto mês, apenas tossi pétalas. Piorava quando estava perto de você, mas dava para disfarçar. Dei a desculpa de ter um problema na garganta. Às vezes, elas eram de um elegante rosa claro. Os conhecimentos florais deixados por minha mãe nunca foram embora, eram pétalas de astromélia. Os ensaios para o casamento começaram.

Certa vez, sua noiva avisou que não iria ao ensaio por estar cansada. “Peça ao Hyunjin para me substituir, ele sabe o discurso.” Eu memorizei cada verso, afinal, era minha criação. Um segredo confidencial entre eu e ela. Para você, sempre seriam as palavras de carinho da sua noiva. Mas quando ela subisse ao altar e olhasse em seus olhos, estaria dizendo as minhas palavras de amor.

Ensaiamos e, naquela tarde, me dei o luxo de imaginar cada detalhe de como seria meu casamento com você. Seriam apenas nossos amigos e parentes próximos — ao invés de distribuir convites online, fato que fez você e ela discutirem por um dia inteiro. Você se doava tanto por isso, não me deixava um segundo sem pensar na liberdade que teria se fosse comigo. Mas eu não dava gás a esses pensamentos. Você estava feliz, então eu também deveria ficar.

No ensaio, sugeri uma mudança no roteiro. Que você segurasse as mãos dela durante os discursos. Ali, meu desejo egoísta se sobrepõe a tudo. Não me importei. Queria suas mãos nas minhas. Me fez sentir como se não pudesse viver sem você.

Em casa, deixei um rastro de amores-perfeitos e gotículas de sangue pelo caminho da porta ao banheiro. Senti que morreria sufocado, exatamente como o médico disse. Chorei no chão frio de porcelanato, naquele apartamento luxuoso e caro que batalhei a vida inteira para ter, perto do jardim botânico que você dizia ser o seu lugar favorito no mundo. Era grande demais, silencioso demais.

Das nossas noites de boliche aos sábados, para meu alívio, você não abriu mão. Disse que se importava com nossa tradição do colegial. Viciei em viver das migalhas de importância que você deixava cair pelo caminho. Amava a aura do boliche, agíamos como se ainda fossemos adolescentes e, às vezes, sentia que era apenas eu e você contra o mundo.

Ela começou a ir junto, levar amigas, você também levou amigos. Me disse que eu era sozinho, me apresentou alguém. Beijei Jisung, seu amigo, num desses sábados, atrás do armário dos sapatos de boliche. Imaginei que era você. Não me arrependo. 

A frequência dos vômitos aumentou. Ora girassóis, ora tulipas amarelas — sua flor favorita e, consequentemente, a mais dolorosa de expelir. Eu não sabia que as tulipas eram suas favoritas, quem me contou foi ela. Geralmente, a gente não sabe a flor favorita das pessoas que amamos, e poucas pessoas têm uma flor favorita. Você tinha e eu nunca sequer perguntei.

Dois dias antes do casamento, percebi algo que me deixou perplexo por dias. Estiquei bem as  pálpebras no espelho uma, duas, três vezes sem acreditar. As veias das escleras dos meus olhos eram de um vívido verde lima. A doença, finalmente, consumia minha aparência. Em breve, tomaria tudo o que eu tinha. 

Eu estava ao seu lado no altar. A distância entre nós era de vinte mil milhas. E vinte mil milhas não era nem metade do tamanho do seu sorriso. Dava meu melhor para não tossir e estragar o momento mais feliz da sua vida.

Minhas lágrimas eram um presságio. Senti que iria chorar e abandonei o altar. Felizmente, ninguém deu muita atenção. O padrinho foi correndo para o banheiro num momento tão importante, deve ser dor de barriga. Minhas lágrimas eram pura seiva de acônito. Arde, envermelhece, queima ao mínimo toque. Deixa cicatrizes para a vida. Veneno do mais puro e límpido, vindo direto do meu coração. Você podia se machucar se tentasse limpar minhas lágrimas. Alguém podia se machucar se tentasse me ajudar. Você podia se machucar.

Me tranquei no banheiro dos funcionários, onde tinha a liberdade de poder chorar à vontade. Deixei uma porção de lágrimas venenosas na frente de um espelho manchado e sujo. Meu reflexo, corrompido, nunca estático — tremia o tempo inteiro, uma tosse incessante para tentar me livrar do incômodo na garganta. Os gatos devem se sentir assim com bolas de pêlo. Ali, soube que jamais seria cantor. Maltratava as paredes da minha garganta e, muito em breve, minhas cordas vocais seriam apenas espinhos. Um dente de leão-inteiro me deixou sem voz.

Os convidados deviam estar distraídos celebrando, curtindo a banda animada que você contratou. Era o momento perfeito para que eu escorregasse, sorrateiramente, para a saída. Assim que abri a porta do banheiro, te vi. Te ofereci um olhar mínimo e continuei meu caminho, não faria diferença. Ficar, ir embora, meros conceitos, leigos demais para definir minhas ações.

Você segurou meu braço quando corri. Minha pele queimou. Percebi algo novo. Aquilo, a doença, avançava sem controle por causa das fortes emoções. Depois que você passou a mão pelo meu braço, a pele desfez em farelos como raspar um tronco com uma pedra. Uma farpa minha cortou seu dedo. Sempre quis pedir perdão, mas nunca pude. Também não disse nada, afinal, não tinha voz. Te machuquei no dia do seu casamento e, do fundo do meu coração, espero que um dia me perdoe.

Eu queria ficar. As cores dos seus olhos insistiam que eu não fosse embora quando olhei para eles pela última vez. 

Se a pessoa for correspondida, consegue que a doença não seja nada além de um truque como conseguir criar flores na mão. Isso é uma consequência mínima diante de descobrir que seu amor não é unilateral. A única cura era ter esse amor correspondido… Impossível. A outra, o mártir, era fazer uma cirurgia para remover a planta do meu estômago. Quando removida, leva com ela todas as lembranças e sentimentos do meu amor. Claro que neguei.

Em breve, essa doença tomaria tudo o que eu tinha. Mas eu jamais deixaria que ela me tirasse você.

Corri de volta a Hannam-dong mas, antes de colocar os pés em meu apartamento, meu corpo travou. Como voltaria para a casa, se minha casa era você?

Atormentado. Completamente perturbado, fui embora para você não me ver aos pedaços.

 

Meses se passaram num lugar onde ninguém poderia me encontrar. Ali, definhei e me desfiz, junto à casa abandonada. Caímos aos pedaços juntos. Ela, no papel de parede descascando. Eu, perdendo os dentes um a um, imerso em noites de horror. Não podia nem gritar, minha voz foi corrompida para sempre.

Peônias, jasmins, hortênsias, magnólias. Eu decorei a casa toda contra minha vontade.

Sinto falta do meu cabelo, você sabe o quanto eu o amava, era meu atributo favorito. Sinto falta de correr na beira da praia, de airpods, me sentia bonito. O cheiro do mar e o Sol que me cegava até encontrar você, jogando vôlei na areia e brilhando mais do que ele. Agora, quando vejo a luz do Sol me tocar pela janela, lembro do quanto ele não chegava aos seus pés. Sinto saudade. 

Eu estou feio. Sou a criatura mais grotesca que já fui capaz de pôr os olhos. Minhas pernas e braços são troncos longos, secos e pontiagudos num formato humanóide. Um crânio distorcido de textura amadeirada, um buraco preto e vazio onde um dia tive olhos para te admirar. As crianças teriam medo. Há dias que penso estar num pesadelo e estou apenas olhando para o espelho. Me desfiz de todas as fotografias, não lembro mais quem fui. Lembro só de você. É melhor assim. 

Entre os troncos secos, resta apenas ele, meu coração. Bate cada dia mais lento, como se arrancasse forças da esperança já morta. Ele esperava por você, uma idiotice total. Tantas vezes quis arrancá-lo, perguntar o que queria de mim. Faria um pacto com o diabo para ele te esquecer... Mas o coração quer o que ele quer.

Não me arrependo de nutrir sentimentos tão bonitos, você os merece em cada parte que eles ousavam florescer. Eu podia sentar e dizer que tive esperança de sair dessa situação em algum momento, que sentei com a mão no coração e rezei para sobreviver. Nunca fiz isso. Como era bom viver de amor e, por ele, morrer. 

Os dias estavam acabando, eu sabia, devido aquele sentimento torto de ter consciência de que está próximo do fim. Me acostumei à dor, aos mosquitos que pousam e não sugam sangue, pois não há mais carne. Me sentia estressado. Com medo. Cansado. Tive uma vida ruim, você era a única coisa boa nela e, de certa forma, você estava me libertando disso.

Firmei um acordo silencioso com a morte.



— Cheguei! — anunciou Felix, batendo a porta atrás dele. Encontrou a casa mergulhada num silêncio confortável de fim de tarde e foi até a cozinha. Deixou as compras no balcão. — Trouxe os morangos que pediu.

Ninguém respondeu. Ele foi procurar no quintal. Hari brincava perto do início das árvores.

— Lee Hari! — Ele abriu os braços ao ver a menina.

— Papai! — Ela cedeu aos afagos do pai, que beijou sua testa. — Vem ver o que encontrei na floresta.

— Oh… okay. — Era difícil recusar quando a garotinha saudável de oito anos grudou em sua cintura e o arrastou floresta adentro. — Sua mãe não te disse para não ir tão longe sozinha? 

Ela não se preocupou em responder, pois chegaram ao destino.

A velha casa Hwang. Ou o que sobrou dela. Meros esboços arquitetônicos podiam ser vistos por entre videiras infinitas de tulipas amarelas que a cobriam. A porta estava aberta, a madeira rangeu desconfortável sob seus pés quando ele entrou, com cuidado ao desfazer as trepadeiras para abrir passagem. Frestas de luz invadiam pelos buracos envelhecidos no telhado da casa esquecida. Os móveis, do jeitinho que Felix lembrava na infância, apesar dos efeitos brutos do passar dos anos.

— Parece a mesma de antes…

Olhando para o balcão tomado por folhas, galhos enroscando e fundindo-se a madeira, podia ver ele e Hyunjin sentados.

“Depressa!” Hyunjin repetiu. Precisavam comer as tangerinas roubadas do vizinho em tempo recorde. “Minha mãe vai chegar!”

“Tô tentando!” respondeu Felix. Assim que olhou para o amigo e o viu com as bochechas inchadas da fruta, Hyunjin gargalhou sem parar. Felix era adorável.

De volta ao saguão, o mogno da escadaria principal tinha cheiro de hortelã. Cauteloso no caso dos degraus se desfazerem, checava antes de subir. Parecia seguro, preservado apesar do tempo. Na curvatura do corredor para o quarto, a lembrança de Hyunjin encolhido, jogado no chão de qualquer jeito. Olhou para ele, igual a anos antes, com os olhos encharcados.

“Você também me odeia?” A voz de Hyunjin tremelicou. Felix agachou entre suas pernas, tocou a bochecha dele, ainda quente e avermelhada pelo tapa da avó.

“Nunca odiaria você.” Beijou sua testa suavemente. Felix sorriu fraco, não fazia ideia do que dizer. “Na verdade, quando começou o boato, o que mais me impressionou foi você não ter me contado que estava dando um amassos no astro de baseball da escola! Hyunjin!” Fingindo surpresa, Felix deu um tapa leve nele, que começou a rir entre o choro baixo. “Achei que eu fosse seu amigo…”

Aquele corredor abrigava lembranças de encher a alma até a borda de saudades. Parado diante a porta do quarto de Hyunjin, Felix suspirou. O que havia do outro lado da porta? Mais memórias dolorosas de um amigo que desapareceu sem deixar vestígios. Assim como a avó de Hyunjin e sua mãe, três casos estranhos e incrivelmente familiares de desaparecimento.

Empurrou a porta com mais força que o comum, algo parecia bloqueá-la. Um móvel velho de penteadeira. O chão era um mar de tulipas amarelas, tomando cada pedaço. Não conseguia mais ver o tapete felpudo que fora palco para as maiores façanhas que tramou com Hyunjin e as melhores tardinhas em que apenas dividiam o mesmo ambiente num silêncio agradável. Queria o verão. Rolar no mogno quente do quarto, com um picolé na mão, suando e reclamando que nada pode ser pior.

Hyunjin deu dois tapinhas na madeira oca do mogno, que rangeu antes de mover-se para cima. De lá, tirou uma pequena caixinha de música e a estendeu para Felix. Não havia bailarina dentro, apenas notas e mais notas de wons.

“Tudo o que eu consegui roubar do caixa da floricultura.” Hyunjin falou baixo, apesar de estarem sozinhos em casa. Felix fechou novamente a caixinha e a devolveu para o amigo. 

“Tem o suficiente para passagens para nós, Hyunjin.” Pulou em seus braços e o abraçou.

Hyunjin o acolheu, encostando o nariz no cabelo do amigo. Fungou seu cheiro, algo entre o doce e o cítrico. Por aquele cheirinho no cangote, Hyunjin roubaria quanto fosse necessário e iria até os confins de Seul. Onde quer que Felix fosse, ele iria atrás. 

“Então, mamãe me disse que ele tem uma empresa grande em Seul, e eu achei o nome dele nas coisas dela. Tenho o endereço. A gente só precisa chegar em Seul.”

“E se ele não te acolher como filho, Felix?” 

“Nesse caso… eu quero saber se posso chorar no seu colo durante todo o caminho de volta, Hyunjin.”

Ele riu bufado. 

“Claro que pode...”

— Papai! 

Felix teve pena de caminhar até a janela, esmagando as flores sob seus pés e silenciosamente pedindo desculpas às plantinhas. Não podia negar o chamado da filha, instintos paternos. A garotinha estava no gramado do andar de baixo, girando com uma florzinha nas mãos.

— Lee Hari, não saia do lugar!

Mal teve tempo de respirar ao dar meia-volta. Nove anos depois, uma descoberta. As videiras que cobriam a cama deixavam-na parecendo um trono e, pela complexidade dos caules que se enroscavam graciosamente, como desenhos bonitos feitos de uma linha contínua, certamente não era obra de um dia. Era uma cena linda de se ver.

Felix, no entanto, provavelmente não a aproveitou em toda sua totalidade. Seus olhos estavam embaçados, cegos por um turbilhão silencioso de lágrimas libertas que foram prisioneiras por anos. Entre os traços da videira e as tulipas, algo brilhava grudado a um tronco. Seu relógio. Foi então que, finalmente, percebeu.

O último estágio. A criatura arvoresca escondia-se debaixo das videiras bem desenhadas. Sequer havia rosto para Felix saber se havia partido com um sorriso, apenas uma figura humanóide repleta de pequenas folhas por todo o corpo. Parecia descansar profundamente, em paz. Sem vida.

Entre mil e um suspiros, Felix sentou-se com cuidado na borda da cama, como se ainda pudesse acordá-lo. Envolveu a mão ao redor do relógio e, naquele momento, soube que era o pulso de Hyunjin, pois sempre encaixou perfeitamente em sua mão, sem tirar nem pôr. Perdeu, para sempre, seu grande amigo, naquele quarto infestado de malditas tulipas amarelas. 

O médico recomendou que ele escolhesse morrer entre os crisântemos, flor da morte, pois era a menos dolorosa para o corpo produzir. Ele, no entanto, escolheu as tulipas amarelas, as mais dolorosas, matavam rápido e exigiam toda a dedicação do doente no crescimento. Mas era a planta favorita de Felix, e ele precisava investir toda sua paixão para decorar bem a casa para quando ele chegasse.

E ele conseguiu.

Gentilmente, deitou a cabeça no peito do tronco. Nada, nenhum coração para dizê-lo que tudo ficaria bem. Os raios de sol que entravam pela janela beijavam os dois quando Felix agarrou cada lado da figura inumana e suspirou, num último abraço.

Depois que não havia mais lágrimas para chorar, Felix limpou as bochechas. Havia uma estaca em seu coração, mas nada poderia ser feito. Deixou o torso de Hyunjin ensopado em lágrimas que, mal sabia ele, foram absorvidas pela planta. 

Exatamente ali, segundos depois, nasceu uma nova forma de vida. Ela cresceu num desenrolar suave, sem pressa, graciosa aos olhos de Felix. Surpreso com a delicada florzinha que se formou onde anteriormente ele recostou a cabeça, abriu um largo sorriso. 

— Senti tanto a sua falta — Felix encostou a testa na casca de madeira, fechou os olhos e se permitiu sentir. — E você estava aqui tão perto! Olha, eu vou pegar o regador da Hari e cuidar de você e da casa, tudo bem? Mas nunca, nunca mais vou te deixar sozinho de novo. A primavera é em uma semana, sabia? O que você preparou para nossa primeira primavera juntos em dez anos?

Outra pequena flor nasceu ao lado da primeira.

Notes:

é isso, gente, felix não tem culpa de nada, né… né????

essa fanfic tem um trecho de Bad Religion do Frank Ocean: “This unrequited love / To me it's nothing but / A one-man cult” que eu gosto muito e achei que super casou com a cena do restaurante<3

 

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