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Language:
Português brasileiro
Collections:
Especial Mês do Orgulho
Stats:
Published:
2022-06-25
Words:
3,979
Chapters:
1/1
Comments:
9
Kudos:
10
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1
Hits:
83

Realização de um sonho, armário para o outro.

Summary:

Johnny acreditava que Mark era uma invenção da sua cabeça até Taeyong trazer em sonho a possibilidade de ele ser uma pessoa real.
Em busca de seu sonho de ser um artista, Johnny se muda para Seul, onde encontra não só Mark, mas também Taeyong e toda a verdade sobre os três serem senses.

Notes:

Primeiramente, eu quero agradecer MUITO à equipe do projeto NEOFICZENS que me acolheu lindamente e me ajudou muito em não desistir desse plotizinho fofo.
Em segundo lugar, obrigada a todes que lutam diariamente para ser quem são na sociedade em que vivemos. Precisamos celebrar nossas vidas e vivências e continuar na luta de cabeça erguida! Tenho muito orgulho de nós!

Work Text:

 

Johnny finalmente podia olhar ao redor sabendo que estava no lugar com o qual tanto sonhara. À janela do seu dormitório/cela, sentia com a própria pele o ar gelado que vinha do rio Han naquele início de primavera e via com os próprios olhos a cerração que subia por boa parte da cidade. Ele nunca poderia ter imaginado que, um dia, as infindáveis lições de coreano que a mãe o obrigava a ter quando era criança fossem lhe servir (e não sabia ainda que, na verdade, nem precisava tê-las tido).

A vantagem número um de ser o primeiro a chegar no dormitório era a de poder dormir em paz - ele descobriu isso no segundo dia, quando os colegas de dormitório chegaram, estes que eram também, infelizmente, possíveis rivais em busca do sonho de debutar como artistas por uma grande empresa, senão a maior. A vantagem número dois, era ter espaço - ele também descobriu isso depois; quando as pessoas foram chegando com suas malas, quando o sofá foi entregue (uma semana depois, diga-se de passagem), quando a pia da cozinha passou a lotar de louças e o vai-e-vem de gente fez com que um e outro se esbarrassem à porta de seus quartos pela manhã ou à noite, Johnny  começou a apreciar com mais carinho a memória do primeiro dia.

No terceiro dia de estadia, os treinamentos iniciaram para valer. Johnny se sentia meio ansioso, mas isso não era nada comum - ele era uma pessoa extremamente sociável, autoconfiante; suas piadas e seu exibicionismo - beirando uma superexposição de si nem sempre consciente - ajudavam a quebrar o gelo no dormitório a cada vez que alguém chegava, sem falar em sua língua materna que também facilitava um pouco a comunicação com aqueles que ainda mal sabiam coreano. Mas as mãos de Johnny suavam inexplicavelmente e ele só tinha uma pessoa a culpar: Mark Lee.

A infância de Johnny fora marcada pela presença de diversos amigos, para ele, imaginários, e o canadense Mark era um deles. Volta e meia Johnny se pegava pensando em lembranças que não eram dele, mas de Mark; sentiu, uma vez, vontade de chorar, uma tristeza profunda o acometeu do nada quando estava, na verdade, em um parque de diversões. Precisou mentir que era medo - ele não podia mais falar em amigo imaginário pois, segundo seus pais, já não tinha mais idade para essas besteiras. Ele tinha dez anos.

Depois de certo tempo, vieram os sonhos. Em um deles, Johnny passeava com Mark em um lugar que nunca tinha visto, nem em fotos. Uma outra pessoa, Taeyong, ia à frente, fingindo não saber que era seguido até estar em um local socialmente seguro, ou seja, longe do olhar julgador de outras pessoas; foi a primeira vez em que Johnny intrigou-se, já que não fazia diferença nenhuma onde estariam conversando uma vez que não passava de um sonho. Porém, Johnny contentou-se em explicar a si mesmo que era seu inconsciente o reprimindo e nada mais. Se não fosse apenas um sonho, seria uma ideia do seu cérebro maluco que, pelo menos, fazia sentido: ele e Mark estavam dormindo, era noite nos Estados Unidos, e Taeyong estava acordado, passeando em um dos parques à beira do rio porque era uma tarde lindíssima de sol alto e nuvens quase inexistentes na Coreia do Sul. 

Outro pensamento também bagunçava a cabeça de Johnny: como ele sabia o nome de Taeyong? Como este também sabia o nome dele e de Mark antes mesmo de iniciarem a conversa? Quem diabos era Taeyong?

Para se acalmar, bastava culpar sempre sua imaginação: já tinha criado Mark, poderia ter igualmente criado Taeyong. 

Quando Johnny entrou no grande prédio de vidros espelhados pela primeira vez, sentiu um aconchego do tipo que só se sente em um abraço caloroso de mãe ou à beira da realização de um sonho; para Johnny, o primeiro caso era mais coerente, porque, não, aquele lugar definitivamente não seria nada acolhedor com o passar do tempo. Caloroso até que sim, mas de suor e lágrimas.

Com o celular em mãos, a tela deste acesa com as informações necessárias para que Johnny não fosse parar no lugar errado, ele olhava ao redor a cada dois segundos para se certificar de que não esbarrasse em ninguém. Sempre que possível, curvava a cabeça em cumprimento àqueles ao redor. 

Mas dois segundos ainda era muito tempo e Johnny acabou indo de frente com alguém que, com o choque, acabou caindo de bunda no chão. 

- Meu Deus, me desculpa. - Ele automaticamente se curvou e esticou a mão para levantar o rapaz do chão. - Eu estava distraído, tentando não me perder e… 

- Você - ele sussurrou enquanto segurava a mão de Johnny, que conseguiria levantá-lo sem muito esforço se não fosse pelo choque do momento: seu braço simplesmente amoleceu.

Johnny endireitou sua postura, piscou três vezes, olhou ao redor para ver se não surgiria alguém segurando um microfone junto de algum cameraman como acontece nos programas de pegadinhas de mau gosto, e encarou o cara que continuava sentado no chão. 

O primeiro reconhecimento veio daquela voz, mesmo que meio sussurrada, que ele reconheceria até em pensamento (se não era só isso mesmo). Depois, o cabelo meio bagunçado e os óculos redondos de aro prateado.  

Johnny pigarreou ao perceber que ambos ainda estavam de olhos arregalados e boca aberta no meio do sexto andar, praticamente de frente para a porta dos elevadores, se encarando. Desta vez, a sorte estava com eles: ninguém apareceu para ver aquela cena ridícula.

Por fim, engolindo em seco e fingindo normalidade, Johnny esticou sua mão novamente para seu velho conhecido e levantou-o do chão com um puxão. 

- Obrigado… Johnny. 

- Cara, por que você está tão nervoso? Minha mão está toda suada por sua culpa e… - Ele parou para espiar seu entorno, seria mais vergonhoso ainda estar falando “sozinho” no meio de seu novo lugar de trabalho. Na verdade, treinamento - mas não deixava de ser trabalho, de acordo com Johnny. - Achei que você nunca mais ia aparecer depois do dia das audições. - E, como sempre, quando Johnny começava a falar, nunca mais parava. -  Eu queria tanto te agradecer porque, se não fosse sua ajuda, eu não teria conseguido dançar tão bem. 

- Cara, minha audição nem era para ter acontecido. Mas me viram te ajudando lá no Canadá e me convocaram para treinar como dançarino e… 

- Mas minha audição foi nos Estados Unidos, Mark. 

E foi assim que eles relembraram as palavras de Taeyong: 

- Nós somos uma espécie de humanos diferente. Nós nos encontramos telepaticamente mesmo estando em lugares completamente diferentes. No momento, eu estou falando em coreano porque meu inglês é fraco, mas vocês traduzem para o inglês de vocês tão naturalmente quanto piscam. Uma hora ou outra, nossos destinos se cruzam porque estarmos juntos é uma necessidade física também. 

Tanto Mark quanto Johnny riram da explicação de Taeyong quando estavam dentro daquele sonho. 

Prometeram não rir novamente caso acontecesse de novo: a probabilidade de ser real estava batendo na cara deles de uma maneira bem desagradável, quebrando dente e tudo.

Lado a lado, em silêncio para quem quer que aparecesse no corredor, mas ouvindo um ao pensamento do outro, eles rumaram para a sala de prática dedicada aos novatos de dança. Um trainee mais experiente iria auxiliá-los em aprender uma coreografia de um dos grupos da empresa para prepará-los para a avaliação mensal. Outras posições só lhes seriam apresentadas como opção de treino quando eles passassem por sua primeira prova. 

Como se não bastasse essa tensão e a nova descoberta, uma nova bomba - ou presente de Natal atrasado, porque eles precisavam de respostas afinal - caiu no colo de ambos quando passaram pela porta em direção ao fundo da sala. Com um cabelo rosa-bebê meio emaranhado, um casaco de moletom que cabia duas pessoas de seu porte e uma calça preta também de moletom, eles viram o reflexo de Taeyong no enorme espelho que ocupava uma parede inteira.

O filho da puta - segundo os pensamentos de Johnny - sorriu de canto.

E (ainda por cima - segundo os pensamentos de Mark) piscou um olho na direção deles.

Então, para ainda maior choque de ambos, Taeyong se intrometeu naquela conversa muda:

- Eu não disse que a gente ia se cruzar? Vocês não deveriam ter debochado do que eu disse. A mãe aqui é que sabe das coisas.

No final do primeiro dia de prática, já madrugada a dentro, os três sentaram no canto mais afastado de outras pessoas possível em um café localizado na mesma rua da empresa deles. Johnny pediu para que Taeyong explicasse um pouco melhor aquilo tudo que acontecia entre eles. 

- Nós somos uma espécie diferente, como eu já tinha dito. Somos chamados de senses uma vez que nossos sentidos e sentimentos estão interligados. Infelizmente, só conseguimos esse laço com algumas pessoas da mesma espécie, algo relacionado com sermos escolhidos pela mesma mãe, também sense - o que não sei explicar muito bem ainda. Fato é que, com o tempo, conseguimos aprender a lidar melhor com a intromissão de outros. Mesmo assim, sempre que um sentimento é forte demais, é impossível refreá-lo. 

- Por isso eu ouço mais o Mark? - Johnny questionou.

- Sim. - Taeyong sorria, empático. - Ele é o mais emotivo de nós.

Mark balançou a cabeça com um sorriso de canto nos lábios. Queria poder negar aquela afirmação, mas sabia, no fundo, que era verdade. Poucas vezes sentira Johnny à flor da pele com qualquer tipo de emoção, uma delas sendo quando ele finalmente cedera à própria vontade de largar tudo e ir em busca de ser artista, tal como Mark. 

- E isso de estarmos em busca de uma mesma conquista? - Johnny, o homem das perguntas, questionou.

- Faz parte da nossa vulnerabilidade com sentimentos. Nada é mais humano do que as artes, porque através delas é que pensamos sobre nós mesmos. Na minha opinião, é meio que inerente aos senses achar esse meio para extravasar. E, sim, Mark, Johnny, vocês vieram parar aqui pela necessidade de estarmos juntos. Não é uma escolha totalmente consciente. Mas nenhuma escolha parece ser. 

x.x

No fim das contas, Mark era o tão esperado último elemento do dormitório - bem ironicamente falando, já que dividir uma casa entre nove pessoas já estava caótico o suficiente na opinião de todos ali. Só restava pegar a única cama que sobrara - um colchão duro, de matar a coluna de um, que ficava na parte de cima de um beliche perpendicular à porta do quarto; era alguém acordar primeiro, ligar a televisão ou abrir a geladeira, e Mark acordaria. Sem mencionar a desgraça do colchão. 

- Relaxa, cara, em um dia ou dois convenço meu colega de quarto a trocar de lugar - Johnny mentalizou ao perceber a tensão que Mark sentia e que rebatia em si. Aproveitou-se de sua altura e apoiou o braço no ombro de Mark, olhando-o de cima. - Podemos trazer uns edredons sobrando no armário do meu quarto e tentar deixar essa merda de colchonete mais aceitável até fazer a troca.

Mark apenas balançou a cabeça e ajeitou o óculos na ponte do nariz antes de responder, conformado: 

- Cara, eu nem vou passar no primeiro teste.

- Tsc, cala a boca. - Johnny bagunçou os cabelos de Mark.

Dois segundos, a maldita contagem de tempo, e ambos começaram a gargalhar no meio da sala do dormitório, mãos no abdômen e tudo - o único momento em que realmente abriram a boca para alguma coisa. 

- Vamos lá, você vai precisar desfazer a mala. 

- A mochila - Mark o corrigiu. 

- Porra, Mark! Modo de dizer.

O "modo de dizer" quando ninguém disse nada fisicamente falando ficou ecoando entre ambos, mas eles conseguiram segurar o riso - ainda que soltando sons estranhos pelo nariz - enquanto Johnny empurrava o recém chegado pelo corredor.

Quando as pessoas passaram a notar a proximidade deles, no final da primeira semana de treinos, sempre apontavam para como eles pareciam melhores amigos de longa data - Johnny coçava a língua para não dizer que eram só pela preguiça de não ter que inventar uma mentira, mas, também, em consideração à falta de habilidade de atuação de Mark. Não que ele não pudesse atuar pelo amigo controlando sua mente. No entanto, ainda não sabia como fazê-lo de forma voluntária.

A última semana para os testes foi agonizante. Johnny não era bom, mas, ao mesmo tempo, não era péssimo. Ele não sentia a pressão do teste por pura confiança - o que faltava em Mark que, por outro lado, era excepcionalmente brilhante quando dançava. 

Johnny descobriu ao longo dos anos em que estavam obrigtoriamente juntos que o outro era ingênuo para seu próprio bem, mas exigente consigo mesmo para o mal: por um lado, não via a inveja dos outros trainees; por outro, se torturava pensando no dilema entre ter insônia ou dormir e ser brindado com um pesadelo. 

E, para Johnny, nenhuma escolha, só vivenciar aquele tornado de emoções entre a vontade de chorar e a de vomitar, a de pular de alegria de ganhar um elogio de Taeyong e a de socar uma parede por causa de um erro de expressão facial - esta última vinha se entrelaçando com a sua própria vontade de esfregar a cara de Mark contra um pedaço de lixa. 

Aliás, Taeyong isso, Taeyong aquilo já tinha se tornado uma constante nos pensamentos de Mark e, compulsoriamente, nos de Johnny, que supunha que seu colega/treinador deveria ter algum tipo de bloqueador para ser tão inacessível; era impossível alguém ter tanto autocontrole a ponto de nem ficar vermelho quando Mark ouvia um elogio e mentalizava logo um "senpai me notou". Johnny necessitava aprender como isso era feito ou surtaria.

O que de fato aconteceu na véspera do primeiro teste mensal. 

Mark não parava de repassar a coreografia, já estava vinte e quatro horas acordado: completamente exausto e nervoso, mas sem dar o braço a torcer. Tudo rebatia em Johnny e voltava em ondas de raiva que só pioravam a teimosia de Mark em dançar sem trégua.

Johnny, que uma hora começou a ir e voltar pela sala de prática individual na tentativa de pensar em qualquer outra coisa, de repente pôs as mãos na cabeça e berrou o mais alto que conseguia, fazendo com que Mark virasse para ele com o corpo um pouco encolhido e uma expressão de surpresa no rosto.

- Já deu, cara! - ele gritou com Mark pela primeira vez em suas vidas - Eu não aguento mais esse nervosismo todo. Tua ansiedade tá acabando comigo, porra! 

- Desculpa - Mark murmurou, dando uns passos para trás quando Johnny passou a vir em sua direção. 

- Desculpa um caralho! Você não consegue controlar nem um pouquinho essa ansiedade aí? É como se você não percebesse o quanto é bom no que faz. - Ele respirou fundo e contou até vinte. Não, ele sabia bem que Mark não tinha noção. Então segurou os ombros de Mark e curvou-se um pouco para encará-lo nos olhos. - Você ainda não entendeu que todo o resto do dormitório tem inveja de você? Inveja que Taeyong te elogia, inveja que nós somos próximos, inveja do quão naturalmente você age…

Johnny interrompeu-se com um suspiro alto quando as lágrimas nos olhos de Mark começaram a transbordar e ele baixou a cabeça, deixando Johnny abraçá-lo enquanto seu corpo sacudia por inteiro, sua frustração finalmente o deixando em forma de soluços para dar lugar às lembranças que tinha da admiração de Johnny por si, à qual era muito grato, no entanto, não sabia demonstrar; ainda assim, não conseguia convencer seu maldito cérebro de que tudo ficaria bem, de que ele era mais do que capaz. 

Enquanto Mark ia largando parte de seu peso sobre Johnny, a voz preocupada de Taeyong chegava em seus ouvidos; a prática em grupo já havia começado e eles que nunca se atrasavam não tinham chegado ainda. Em questão de segundos, Johnny, com Mark fungando em um de seus ombros, viu Taeyong saindo da sala de prática em grupo dando a desculpa de que estava com dor de barriga e deixando a porta bater com um estrondo atrás de si antes de aparecer na mesma sala em que ele e Mark se encontravam.

A passos largos, Taeyong foi até eles e abraçou-os. A tensão de Johnny e a ansiedade de Mark faziam com que seus ombros doessem, no entanto, ele já não podia fechar sua conexão com eles desde que resolvera investigar o inesperado sumiço de ambos. Para saber o que acontecera, ele, infelizmente, também precisava sentir aquela névoa escura de emoções que tanto odiava.

- Como você faz isso, Taeyong? - Johnny perguntou depois de ouvir seu pesar em sentir os outros. 

- Eu tento focar só em mim. É quase uma meditação. Não sei bem quando comecei. Mas deve ter a ver com o quanto vocês me afetam e o meu medo de estar fora do meu próprio controle. Tem outras vezes que acaba sendo inevitável. Porque, se eu me fecho pra vocês, vocês também ficam inacessíveis. 

- Eu quero muito aprender isso - Johnny murmurou. Nenhuma explicação a mais era necessária quando sabia que Taeyong lia direto da fonte a continuação.

- Hm, entendi. - Uma de suas mãos foi até os cabelos de Mark, seus dedos brincando com alguns fios desatentamente. 

Os três permaneceram um tempo ali, apenas abraçados e sendo guiados por algumas lembranças felizes que Taeyong repassava em sua mente. Gramados verdes, a primeira nevasca da infância, brincadeiras de escola que Johnny e Mark não conheciam diretamente, mas entendiam por causa de suas ligações com Taeyong. Foi uma das primeiras vezes que Taeyong percebeu sua subespécie como alguma dádiva da natureza. Não precisava só sentir a dor dos outros dois, podia ajudá-los a acalmá-la.

x.x

 

O primeiro ano passou em um piscar de olhos. Depois de ter passado em primeiro lugar no primeiro teste mensal e ter sido autorizado a treinar também como rapper, as inseguranças de Mark foram diminuindo gradualmente a cada teste em que ele permanecia no top 2 - mês ou outro Yuta o ultrapassava na dança. Como rapper, Mark nunca conseguia o primeiro lugar simplesmente porque Taeyong era imbatível. E, assim, Johnny nunca mais precisou brigar com ele por causa disso.

No entanto, quanto mais Taeyong foi cedendo em estar ligado a eles, mais difícil foi ficando para Johnny não se apaixonar por ele. Era inevitável não imaginar como seria beijar aqueles lábios tão rosados quando se lembrava do biquinho que Taeyong fazia ao se frustrar por não poder comer à noite. Ainda, os pensamentos de Mark, um misto de admiração e de desejo pelo outro, só pioravam sua situação de paixonite aguda. 

Em uma madrugada, beirando a chegada da manhã, Johnny teve um sonho em que finalmente beijava Taeyong. Ou, na verdade, Taeyong o beijava. E a sensação de ter os lábios dele nos seus era boa e estranha ao mesmo tempo; por conta de sua conexão, ele podia sentir seus próprios lábios também. Até que ponto ter gostado do beijo era apenas narcisismo seu? - Não, ele também se lembrava da maciez do lábio inferior de Taeyong preso entre os seus, da textura das suas línguas se encostando, do beliscar dos dentes de Taeyong em seus lábios. Depois, Mark. Johnny se lembrava da presença de Mark, dos olhos surpresos encarando aos seus e, então, aos de Taeyong. E ele logo era Mark beijando Taeyong - no entanto, ainda era ele mesmo, só que na mente dos outros dois.

Era tudo muito confuso. Havia muito tempo que Johnny desistira de questionar sua sexualidade, logo, não era um problema sonhar que estava beijando outro(s?) homem(s). O maior problema era mesmo que, quando acordou, não sabia diferenciar se era apenas um sonho ou se era a realidade mental paralela que os três partilhavam fazendo das suas. 

Johnny olhou para a cama ao lado da sua, sobre a qual Mark se virava para encarar-lhe com uma expressão questionadora. Além de todos os anos de convivência mental forçada, ainda tinham mais o ano e um tanto de convivência física para que nem uma palavra precisasse ser trocada, nem mesmo telepaticamente, para que eles soubessem o que um ou o outro queria. Johnny não tinha nada em si que quisesse impedir Mark de fazer o que queria, ainda menos porque a alegria que explodiu em si era mais do que recompensadora. 

Mark levantou-se e caminhou confiante até onde Johnny estava, curvou-se ligeiramente sobre ele e não hesitou por mais de dois segundos mapeando sua expressão para finalmente selar seus lábios nos dele. No mundo real. No mundo físico em que Johnny era ele mesmo e não Taeyong. Entretanto, isso ainda não impedia-no de sentir a si próprio nos lábios de Mark. 

- Nós vamos precisar conversar sobre isso. - Johnny afastou Mark levemente pelos ombros. - Não é nada disso que você tá pensando, seu pessimistazinha de araque.

- Eu também quero ter certeza de que não foi só um sonho - Mark complementou.

- Taeyong e a mania do subconsciente - Johnny reclamou.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Mark convenceu Johnny a literalmente carregar Taeyong para a sala de prática individual. Quem passou por eles no corredor deu risadinhas escondidas por uma mão à frente da boca porque: um, Mark sorria de canto a canto enquanto caminhava com as mãos nos bolsos da calça de moletom; dois, Taeyong estava berrando e socando Johnny onde podia pendurado de cabeça pra baixo em um dos ombros dele. 

Para a surpresa de Johnny, Mark praticamente pululou até Taeyong assim que este encostou os dois pé no chão e apertou-o em um abraço tão forte que quase o asfixiou, os olhos dele dobrando de tamanho enquanto olhava para Johnny, que sorria, pelo espelho. 

- Taeyongieeeeee, - Mark cantarolou - por que você tem que fazer tudo por sonhos?

- Eu não… não era minha intenção - ele respondeu, culpado.

- Você não pode mentir pra nós. - Johnny precisou de dois passos apenas para ficar de frente para Taeyong. Às costas de Mark, ele repousou suas mãos à cintura deste. - Taeyong, só me diz que esse sentimento todo começou a ser recíproco nesse último ano. Só me diz que esse sonho não existiu só pra fazer eu e Mark de palhaços - ele sussurrou.

Mark soltou Taeyong para poder encará-lo, no entanto, Taeyong olhava tudo ao redor, menos os olhos de seus senses. O tempo que Taeyong passou sem responder era marcado pelo tique-taque do relógio analógico pendurado em uma das paredes da sala, mas o pior era o silêncio dos seus pensamentos habilmente blindados contra Johnny e Mark. 

Sentindo Mark quase começar a explodir em ansiedade, Johnny curvou o rosto no pescoço dele e deu um beijo carinhoso no local antes de sussurrar um “tudo bem” que não convencia nem a si mesmo, mas parecia ter ajudado a segurar Mark pelo resto do tempo em que Taeyong se mantivera calado. 

- Vocês sabem o quanto isso é complicado? - Taeyong questionou. - Nós estamos em um dos piores lugares para esse tipo de relacionamento e…

- Estamos completamente cientes - Johnny o interrompeu.

- A gente veio pra cá por outros motivos e nada vai nos impedir - Mark completou. - Mas se você quiser continuar bancando o difícil só por causa disso, é você quem vai ficar frustrado, Yongie.

- Mark, onde você estava escondendo esse Mark? - Johnny riu, brincando.

Taeyong esticou os braços para abraçar a ambos e foi inevitável não lembrar a primeira vez que estiveram assim, naquela sala, por um motivo completamente diferente. 

- Ninguém além de nós pode saber disso - ele sussurrou.

- Como se a gente fosse louco - Johnny e Mark mentalizaram em uníssono.

E, dois árduos anos depois, quando o debut foi confirmado, trazendo consigo todos os itens problemáticos da indústria do K-Pop dos quais os três já tinham total conhecimento, como não assumir sexualidades consideradas desviantes, muito menos namoros, eles prometeram proteger uns aos outros. Não importa o que acontecesse, eles continuariam seus sonhos juntos sem jamais deixar de ser quem eram e do que significavam uns para os outros. Se era para estar em um armário aos olhos do mundo, pelo menos continuariam a compartilhá-lo orgulhosamente entre eles.