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Language:
Português brasileiro
Collections:
Especial Mês do Orgulho
Stats:
Published:
2022-06-26
Words:
1,639
Chapters:
1/1
Comments:
2
Kudos:
9
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2
Hits:
47

Quem Lee Jeno realmente é?

Summary:

Jeno estava no caminho das descobertas sobre si mesmo. Ser um herói não possibilitou que essa estrada fosse mais fácil, pelo contrário, serviu apenas para dar-lhe mais desesperança. No entanto, quando sentia-se uma sobrecarga com questões envolvendo gênero, corria para o conforto dos braços de Donghyuck. O vilão era um tanto quanto fora da casinha, mas ele sempre sabia o que falar.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

 

¨Eu sou o que eu quiser¨ 

 

Ser herói não é uma tarefa fácil. 

Os heróis têm que lidar com a constante pressão da sociedade, as pessoas exigem que eles estejam sempre à disposição para ajudá-las e não podemos cometer um mísero erro que já somos taxados de "irresponsáveis". Muitas vezes nos cancelam por um motivo besta, sem pé nem cabeça. Sinceramente, a minha vontade é de cancelar quem inventou a cultura do cancelamento errado.

Crianças + Twitter não é uma combinação. Enfim, é um tópico extenso e exaustivo de discutir, pois quanto mais insistimos em mostrar o nosso lado da história, mais vão manchar a nossa imagem. É, um herói passa por poucas e boas todos os dias. 

Às vezes não recebemos o devido reconhecimento, nossos créditos vão para outras pessoas e, se você for azarado, volta para casa embaixo de chuva todo derrotado pelo dia péssimo que teve. Me pergunto porque não decidi ser um anti herói, pelo menos iam me julgar pelas irresponsabilidades que realmente cometi. 

Mas ser herói não é tão difícil quanto ser um jovem na fase de auto descoberta. Quer dizer, eu, Lee Jeno, com meus quase vinte anos nas costas, ainda não sei quem sou. 

Sei do que eu gosto, minha sexualidade não é segredo algum para mim desde que me entendo por um ser pensante. Sempre suspeitei que eu fosse Bi, mas no fim das contas descobri que sou Pan. Entretanto, não consigo definir meu gênero, apesar de ter certeza absoluta de que não sou cis. 

O uso de um só pronome me incomoda, isso posso afirmar. Me refiro a mim mesmo como ela, elu e ele e me sinto confortável. Eu fico imensamente feliz quando seguem esse padrão sem ignorar algum dos pronomes. 

Às vezes prefiro que usem mais os pronomes femininos. 

Outras vezes prefiro o pronome masculino ou neutro.

Não é de agora, há muito tempo que não me considero cis. Mas a minha percepção se deu a alguns dias atrás, quando comecei a me questionar quem realmente sou eu. 

Gosto de mim e da minha aparência, mas de vez em quando me sinto incompleto, como se aquela imagem que eu moldei não fosse realmente minha. Olhar no espelho é o que me deixa mais duvidoso, tentando achar o verdadeiro eu no meu reflexo. 

Eu me olho e me vejo como ela. Gosto da imagem, faz com que eu me sinta com uma estranha satisfação e, ao mesmo tempo, medo por não saber quem sou. 

Outrora olho e não me identifico nem com o gênero feminino, muito menos com o masculino. Sou só eu, livre de restrições, na frente de um espelho sujo de mãos e marcas de batom da boquinha de Mark — péssimo costume dele de babar no próprio reflexo. 

E então há dias que eu só quero que me chamem de ele. É relativo, de tempos em tempos vai alternando. 

Embora a pergunta continue sem resposta: Quem Lee Jeno realmente é?

Eu sou o que eu quiser. 

É o que eu quero gritar para o mundo até meus pulmões explodirem. Estou tão exausto com a busca por tempo e compreensão, ter um tiquinho de paciência não mata ninguém. Ser uma figura pública torna essa questão mais pressionadora; o que eles vão pensar de mim ? Estão acostumados com alguém que eles mesmos moldaram, então se eu sair um pouquinho da linha, não vão enlouquecer? Vão sim, muito.  

Me resta continuar fingindo ser alguém que eu não sou, ou eu posso simplesmente parar de ser herói, focar só na faculdade e no trabalho normal como uma pessoa comum. 

Suspiro frustrado, relaxando os ombros. A lua está radiante hoje, tão brilhante que me questiono se é um sinal para eu refletir e enfrentar meus problemas de uma vez. Essa percepção não tem muito a ver, realmente, mas é culpa dos meus neurônios que não desfrutam de uma boa noite de sono há algumas semanas. 

— Olha só o que temos aqui! — Uma voz conhecida soou logo atrás de mim, quando me viro me deparo com um vilão mequetrefe. 

Haechan , o que devo o desprazer? — Revirei os olhos e voltei prestar atenção no céu estrelado. 

— Para Nono, eu sei que você sentiu a minha falta também! — Ele fez beicinho, sentando-se ao meu lado. — Está tudo bem? Não te vi na patrulha de ontem, nem na de hoje… Aconteceu alguma coisa? 

E Donghyuck me conhece bem demais. Acho que nosso relacionamento fora dos papéis de vilão e herói é um tanto complicado de definir. Quer dizer, vivemos como Cão e Gato na maior parte do tempo, isso quando não estamos nos pegando em algum lugar aleatório. 

— Sim, estou ótimo, melhor impossível. — Menti, contendo outro suspiro frustrado. 

— Sério mesmo, Nono? Lembre-se: não estou conversando contigo como um rival. — Haechan insiste, alcançando a minha mão para unir com a dele. — Estou aqui e agora como Donghyuck, seu amigo e peguete nas horas vagas. 

— Desde quando somos amigos? — Franzi as sobrancelhas. Gargalhei alto ao notar a careta de espanto de Donghyuck. — Eu não sei? Só estou um pouquinho confuso com algo… 

— Com o que exatamente? 

— É uma questão pessoal, envolvendo meu gênero — murmurei, olhando brevemente para Haechan antes de desviar o olhar. — Eu não quero falar sobre isso no momento, não aqui e agora. Talvez em outra ocasião eu te conte mais detalhadamente. Só estou aflito por pensar no que fazer daqui pra frente. 

— Acho que você tem que fazer muuuuitas pesquisas para sossegar essa cabecinha ligada no 220. — Donghyuck apontou para a minha cabeça, exibindo um sorriso mínimo. — O importante é você se sentir confortável com você mesmo, Nono. Foda-se o restante do mundo, ok? Se não te respeitarem, me chama que eu deito qualquer um na porrada! 

— Violência não é a resposta. — Balancei a cabeça em negação. 

— Realmente — ele respondeu depois de um tempo. — Na verdade, ela é a pergunta, porque a resposta é sempre s… — Dei-lhe um peteleco no braço antes que ele completasse a frase. — Aí! 

— Você precisa de juízo nessa cuca sem parafusos. 

Não contive a risada, a cara que Donghyuck faz é estranhamente fofinha. Ele aparenta estar irritado até rir junto comigo, o clima ficou leve, diferente do cenário que havia se passado por minha imaginação. 

— Agora me diz… aquele nosso encontro ainda tá de pé? — O tom usado por Haechan foi baixinho, um pouco tímido, o que é a contraposição da nítida confiança em seu semblante. 

— Vai depender da maneira que você se comportar até o final de semana. — Pisquei, socando levemente o ombro dele. — Nada de travessuras, vilãozinho de araque! 

— Poxa Nono, e um carro voando acidentalmente na direção do Renjun? — Imitou as feições fofas do Gato de Botas, no entanto ele não chega nem perto da fofura do bichano fictício. 

— Não. 

— Sem jogar frutas no Ten? — Tentou mais uma vez. 

— Não. 

— Então também não vou poder pregar peças no Taeyong? — Me olhou indignado, cruzando os braços sobre o peito. 

— Absolutamente não! — Neguei pela terceira vez. Dei um tapinha encorajador nas costas do Lee quando este ficou desanimado. — Seja um bom garoto, e então te dou uma recompensa. 

Definitivamente não foi uma boa escolha de frase. Donghyuck entende a maioria das coisas que eu digo no duplo sentido, ele não me leva a sério e pelo visto vou continuar perdendo a paciência tentando explicar o contexto exato das palavras ditas. 

Não tenho um vislumbre do futuro, esse não é um dos meus poderes, e mesmo se fosse eu não gostaria de ver o que vai acontecer no amanhã. Só de pensar um pouco sobre, eu já criei mais de mil paranoias. Aqui, agora, bem ao ladinho de Donghyuck — com nossas mãos se tocando timidamente, igual uma cena de um filme romântico clichê —, sinto o turbilhão de pensamentos se acalmar. 

Se algum helicóptero de jornalistas estivesse sobrevoando sobre nós e, sem querer, flagrasse o puritano super-herói mais requintado da Liga dos Heróis junto do pior vilão de todos os tempos, certamente iriam sair várias manchetes sobre o momento. Talvez esse seja meu desejo, o comecinho da oportunidade que eu tenho para mostrar quem realmente sou eu e de quem eu gosto. 

Eu sou Lee Jeno, sem um gênero definido, que se deixa fluir com o tempo. Eu sou o que eu quiser e está tudo, pois não estou fazendo nada de errado. 

Ser eu não é errado. Ser quem você é; sua cor, suas características, raça, seu gênero ou sexualidade, nada disso pode ser definido pelos padrões estúpidos da sociedade, portanto não é errado.

Não estamos errando ao amar alguém do mesmo sexo. 

Não mesmo, você pode amar quem você quiser! Seja do gênero oposto ou do mesmo. 

Você não está errado por querer se sentir confortável com seu corpo, sobretudo, com você mesmo. Não se abstenha de exigir o que é seu por direito: o respeito. O uso do(s) seu(s) pronome(s) deve(m) ser respeitado(s) acima de tudo. 

Você não precisa se assumir para o mundo se não estiver preparado ou não se sentir confortável. Às vezes queremos manter o segredo entre a gente e pessoas confiáveis, pois nem todas têm a mente aberta. E tudo bem escolher qualquer uma das opções de cima, é mais um direito seu como ser humano. 

Donghyuck me disse que eu tenho que parar de dar ouvidos ao que as pessoas dizem e mandar elas irem se foder, e bem, Haechan pode ser fora da casinha na maioria das vezes, contudo ele está certo. 

Quanto mais eu me importo com o que dizem, mais eu me acanho e escondo o meu eu. Não quero viver assim para sempre. E não vou. Ainda estou no comecinho do meu caminho e eu não vou parar de caminhar tão cedo, independente dos babacas que vou ter que mandar Donghyuck chutar as bundas. Vai ser difícil, mas acredito que no final valha a pena. 

 

Notes:

Tanto Jeno quanto Donghyuck foram, um tiquinho, projetados em mim. Eu quis mostrar um pouco a confusão que senti sobre meu gênero e o quão difícil foi saber quem eu realmente era.

Donghyuck de vilão todo bonzinho com o Jeno era o que eu precisava escrever. Enfim, é só isso mesmo <3