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Era madrugada quando a campainha tocou e o som ecoou por todos os cômodos da casa, até mesmo no meu quarto, o mais distante da porta. Não me dei ao trabalho de levantar. Se fosse um trote, não seria a primeira vez; por isso, nunca me dava ao trabalho de mover um músculo para atender quem quer que fosse, costumava deixar para os mais esperançosos como Jeno.
A porta do meu quarto, entretanto, ficou aberta quando minha cama perdeu o peso de um corpo a mais e, por acaso, percebi que o relógio no corredor marcava três horas e alguns minutos. O sono sempre voltava, mas revirar na cama diversas vezes e não encontrar ninguém me fez levantar por volta das quatro e quinze.
Meus pés se arrastaram para fora do quarto, ainda carregava o cobertor por cima dos ombros devido ao frio do inverno e, pelo mesmo motivo, minhas pernas pareciam se recusar a ir para frente quando o que eu queria, de fato, era me deitar. Na escada, não dava para recuar. As palavras carregadas pelas vozes baixas, quase sussurradas, chegavam ininteligíveis aos meus ouvidos.
Foi a primeira vez que eu vi você, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, os ombros curvados, os cotovelos apoiados nas coxas como se pudesse se encolher cada vez mais dentro de você mesmo. Eu entendi a demora, porque aconteceu com todos nós. De maneiras diferentes, mas aconteceu.
Esse é o Shotaro, Yangyang apresentou você antes de dizer quem eu era e que você também poderia tirar suas dúvidas comigo.
Não sei se foi a minha presença – pareceu, à primeira vista –, mas você enxugou o rosto e se curvou em um agradecimento sem dizer nada. Havia só uma mochila pequena nas suas mãos e cada compartimento parecia prestes a explodir de tantos pertences amontoados.
Eu observei você e Jaemin se afastarem para procurarem um colchão confortável onde você pudesse dormir àquela hora. Nenhuma palavra saía da sua boca e depois fui entender que você era recém-chegado do Japão, não muito confiante na sua habilidade de falar coreano, especialmente em momentos de tensão, que nunca foram seu forte.
Entre nós três, Jeno foi o primeiro a quebrar o silêncio ao dizer que voltaria para a cama, e Renjun o esperou sumir de vista para me empurrar pelos ombros com uma delicadeza quase nunca à mostra. Ele se deitou comigo de novo, por baixo de dois edredons, abraçou meu corpo por trás com uma firmeza de quem tem medo de deixar cair uma caixa com conteúdo frágil.
Você sabe bem como a gente costumava brigar, sabe o quanto eu odiava sempre que ele agia como se fosse um diretor naquela casa, como se comandasse; dava ordens, tentava dividir as tarefas, e eu, por pura implicância, recusava qualquer uma de suas proposições.
Daquela vez, como tantas outras, entretanto, dormimos juntos como se ninguém mais soubesse como fugíamos para o silêncio da companhia um do outro a fim de aproveitarmos os momentos sem nenhum conflito entre nós dois.
O que houve com ele?, eu perguntei na escuridão do quarto, e Renjun buscou uma das minhas mãos por baixo do edredom antes de entrelaçar os dedos aos meus.
Ele veio fazer faculdade, Renjun disse baixo, mesmo sem a possibilidade de alguém nos escutar. Pelo que eu entendi, acabou se envolvendo com um cara, eles transaram e o cara vazou um vídeo deles.
Quê?, eu perguntei, mas até hoje não sei se minha voz saiu. Ele tava morando em uma espécie de república e disse que não dava mais, Renjun continuou. Não entrou em detalhes, mas disse que não dava mais. Agora não sabe o que fazer, pra onde ir, se volta pra faculdade…
Ele tá aqui agora, eu afirmei na minha tentativa de dar um ponto final à conversa, mas Renjun não se convenceu: Ele tá, mas, Hyuck… não sei se é suficiente.
Não sei quanto tempo demorei para digerir as palavras de Renjun, quantas horas ou minutos permaneci em claro, mas, quando me levantei, era perto das dez da manhã e, de novo, não havia ninguém ao meu lado na cama. Ao contrário do silêncio do segundo andar, a cozinha parecia em festa.
Seus olhos estavam inchados, mas você tinha um sorriso no rosto que eu logo aprendi que sumia poucas vezes. Eu me aproximei com as brincadeiras de sempre, dizendo para você não confiar em nenhum deles enquanto Jeno tentava decidir consigo mesmo qual dos dois era o agente do caos, eu ou Yangyang.
Você continuou sorrindo, os olhos quase sumiam do seu rosto, espremidos pelas suas bochechas, comendo a comida que eu sabia que tinha sido feita por Jaemin por conta da boa aparência.
Você devia voltar pra faculdade, Renjun disse, e qualquer um podia estender a mão e esmagar o silêncio denso entre os dedos.
Se ele ligou para meu rosto se fechando em sua direção, não esboçou reação. Agora acredito que você esteja acostumado com o jeito dele de achar que qualquer hora é certa de puxar o band-aid de qualquer machucado quando se está em um bom ambiente com as pessoas adequadas.
Não dá pra dizer que vai ser fácil, porque não vai, mas foi pra isso que você veio pra cá, não foi? Eu não me importo se a gente tiver que te buscar e te levar todo dia pra você se sentir mais seguro também, caso alguém te ameace.
Ninguém me ameaçou, você cortou Renjun. Pelo menos por enquanto. Foram só as coisas que as pessoas falaram que me deixaram… Você deu de ombros como se não quisesse falar, como se nem pudesse. Não sobre o vídeo em si, mas…
A gente sabe como é, Jeno o interrompeu. No fim das contas, é sua escolha. E a gente diz isso, porque sabe que você pode se arrepender no futuro se não aproveitar sua chance agora.
Mas você também tem todo o direito de não conseguir, eu disse para que o discurso de superação acabasse sem mesmo ter começado. Às vezes, a gente só não consegue. É diferente ler uma porrada de relato na internet e viver na pele. A gente acha que vai conseguir se reerguer sempre e, às vezes, a gente quer mesmo, mas a cabeça não ajuda, o corpo não responde.
Deixa ele pensar, né? Yangyang revirou os olhos e se levantou da mesa. Vocês são chatos pra caralho às vezes, sabe? Deixa ele pensar e depois a gente conversa. Se ele quiser também, porque a decisão não é nossa.
Houve um novo silêncio na cozinha, que logo foi suprimido por um alerta de mensagem no celular de Jaemin. Nunca vou me esquecer de como todos olhamos para ele olhando para a tela sem remorso algum por interromper a nossa conversa e, para completar, ainda disse:
Preciso ir, Mark acabou de me mandar uma foto da bunda.
Você voltou a rir daquele jeito, o som baixo da sua risada que eu poderia escutar pelo resto da vida. Naquele dia, entretanto, não a ouvi por tanto tempo quanto gostaria.
Talvez por não haver mais ninguém em casa, você decidiu se abrir comigo em algum momento à tarde, enquanto eu jogava no celular e você tinha um livro em mãos. Contou sobre como seus pais haviam ligado para você alguns dias antes e dito que não poderiam apoiar seu estilo de vida.
Parece até que eu sou um viciado, você disse, o choro preso na sua garganta embargando sua voz. Não aguento mais me sentir sozinho e sujo.
Pensando agora, é ridículo, mas, na hora, eu sorri para você por saber que você não estava sozinho nem no que sentia. Não sei o quanto você acreditou em mim quando disse isso, não sei nem se acreditou naquele momento, mas seu abraço foi o suficiente para me calar até pegarmos no sono agarrados e espremidos no sofá pequeno.
Não sei quando acordamos, mas à noite Renjun me puxou pelo braço. Pensei que pudesse ser uma primeira crise de ciúmes, talvez nossa primeira discussão de relacionamento. Ao invés disso, ele perguntou se estava tudo bem e quase chorou de preocupação. Disse que ele e Yangyang não sabiam o que fazer, Jeno muito menos, que Jaemin fingia que nada demais estava acontecendo em uma tentativa falha de não se abalar.
Só naquele momento eu percebi o quanto todos nós estávamos juntos há um tempo, sem receber mais ninguém, sem Taeyong ou Kun para nos guiar e receber os recém-chegados, sem Mark, que nos ajudou por tanto tempo mesmo morando em outro lugar.
Mesmo discordando de Renjun em muitos aspectos, nunca fui a pessoa ideal para tomar as rédeas de qualquer situação exigindo a seriedade de se lidar com uma vida e suas decisões. Ironicamente, era a mim que Renjun procurava em seu momento de crise por não saber como lidar com a sua vinda.
Entre suspiros, nós nos abraçamos em um gesto mútuo de consolo por nossa falta de habilidade em poder ajudar você um pouco mais. Por mais irônico que soe, foi Jaemin quem nos encontrou e gritou para que nos levantássemos e descêssemos.
Na sala, alguém me deu uma cerveja antes mesmo que eu pudesse me sentar no chão, junto a todo mundo. Jeno contava para você uma história que a gente sabia, de um encontro no ano anterior que dera errado e como teve de correr para não apanhar por ter tirado o cara do armário para o próprio irmão sem querer.
Jaemin falou de Mark também, de como eles se conheceram quando Mark ajudava Taeyong a administrar a casa como um pupilo, recebia quem precisasse de ajuda, agia como se não tivesse seus próprios demônios por ter sido criado na igreja e como, da primeira vez em que se beijaram, Mark quem o puxou pela nuca com fome e sede, no dia do próprio aniversário, sem se importar com o pastor como um dos convidados.
Eram todas histórias que estávamos cansados de ouvir, mas ninguém se importou em continuar alimentando suas risadas, seus sorrisos, seu copo. As horas se perderam noite adentro, o sábado virou domingo, e nós nos amontoávamos uns nos outros, procurando calor, conforto, a família que viramos.
Você nos olhava de longe, sentado no sofá, os lábios escondidos pelo copo, mas não hesitou quando Yangyang estendeu uma das mãos para te puxar para o chão e se deitar por cima dele, de mim e de Renjun. Essa é sempre a primeira imagem quando penso em todos nós, na nossa casa, na nossa família. Eu fecho os olhos e nos vejo rindo, vejo você sem graça por perguntar qual era a minha história e de Renjun enquanto Yangyang sacaneia você por ter a coragem que nenhum deles teve.
Amanhã é um grande dia para você e, portanto, para todos nós. Sem você, nenhum de nós teria mantido a casa, as esperanças, reconquistado forças para lutar, aberto as portas para ainda mais pessoas que precisavam de nós, desse lar, dessa família.
Obrigado por se tornar sangue do nosso sangue.
