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Agnus tenebrarum

Summary:

Felix conhece Hyunjin desde a infância e, juntos, por conta das adversidades da vida, trabalham em uma boate para ganhar a vida de uma forma que muitos chamam de fácil. Chan aparecer como cliente parece, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição.

Notes:

Essa fic foi escrita pro plot #36 do Oddinary FicFest com muito sangue, suor e lágrimas.

Queria agradecer muito à Sereia, @moonyoungx, por ter me ajudado em momento de desespero e ter sido uma puta leitora beta, como sempre <3
Ao Diego também, por ter discutido o plot comigo em horário de trabalho enquanto a gente fingia dar conta do serviço.
Obrigada também à Lu, @therhare, por ser obrigada a confiar em mim com esse plot, por ter me encontrado à noite de vez em quando para desabafos sobre o fest, a vida e tudo o mais. Espero que você goste <3

Se você chegou aqui porque queria MUITO ler esse plot, fique alerta, porque:
a) mudei algumas coisinhas, então talvez não esteja do jeito que você espera;
b) por mais que eu tenha muito tentado incluir todos os membros de Stray Kids, não deu ): Quem sabe na próxima?

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

 

Alchimie de la douleur

Charles Baudelaire

 

L'un t'éclaire avec son ardeur,

L'autre en toi met son deuil, Nature !

Ce qui dit à l'un : Sépulture !

Dit à l'autre : Vie et splendeur !

 

Hermès inconnu qui m'assistes

Et qui toujours m'intimidas,

Tu me rends l'égal de Midas,

Le plus triste des alchimistes ;

 

Par toi je change l'or en fer

Et le paradis en enfer ;

Dans le suaire des nuages

 

Je découvre un cadavre cher,

Et sur les célestes rivages

Je bâtis de grands sarcophages.

 

Uma lufada de ar atinge o rosto de Felix quando a porta do carro se abre, mas não há motivo nenhum para se encolher em seu blazer preto. Um dos braços de Chan envolve seu quadril, sua mão o aperta na cintura, e ainda há o calor dos dedos de Hyunjin do momento em que ajeitou a gola de sua camisa.

Ele aproveita também, passa um dos braços para trás, uma das mãos escorrega pelas costas de Chan enquanto a outra se apoia em um de seus ombros. Não conseguiria ocupar muito espaço nem se quisesse, porque Hyunjin está do outro lado, também grudado a Chan, e precisam se afastar o suficiente para um olhar para o outro antes de sorrir.

Chan é bonito, novo, parece ter um corpo decente o bastante para fazê-los salivar se estivessem em um ambiente propício. Por hora, consegue ver sua bunda bem marcada na calça social como uma prévia do que esperar.

“Por favor, peguem o que vocês quiserem aqui, ok?”, Chan diz assim que eles entram no salão, e Felix aproveita as bandejas em sua frente para segurar uma taça de champanhe.

“O que a gente quiser mesmo?”, Hyunjin pergunta do outro lado.

Felix ri sem saber por quê. Ele encosta a taça nos lábios de Chan e a vira com cuidado assim que o vê pender a cabeça para trás para tomar um gole generoso do espumante, seu pomo de adão subindo e descendo a ponto de quase distrair Felix.

“Pensei que a gente estivesse aqui pra se comportar e fazer o que você quiser.”

“É isso que eu quero.” Chan o encara antes de fazer um movimento com a cabeça em direção à sua taça e Felix vira o champanhe em sua boca mais uma vez, mas não por muito tempo. É o susto de ter outra taça diante de seus lábios, segurada por Hyunjin, obrigando-o a beber dessa vez.

Não dá para saber em que momento Chan largou sua cintura ou a de Hyunjin e, por mais que preferisse o contato do corpo alheio, sorri quando o dedo de Chan limpa a gota de espumante que caiu em seu queixo. Sua vontade é de segurar sua mão e lambê-la, porque não se incomoda com um show, muito menos com plateia, uma pena que Chan é mais rápido em afastá-la.

Ainda assim, ele se aproxima, as mãos correm pelo peito de Chan para se encontrarem atrás de sua nuca quando passa os braços pelos seus ombros. Os olhos se encontram com os seus, e Felix não quer desviar, mas a boca à sua frente chama tanta atenção que não consegue se controlar ao fechar seus dentes com cuidado na carne macia do lábio inferior de Chan e puxar por alguns segundos antes de soltá-la.

“Você precisa dizer o que a gente não pode fazer também.” Felix dá mais um gole na sua bebida, dessa vez na própria taça. “Sam é muito abusado…”

“Eu?” Hyunjin joga a cabeça para trás enquanto ri. “E você é um anjo, né?”

“Sou!” Felix olha para Chan. “Não sou?”

“Até Lúcifer era um anjo”, Chan diz antes de puxá-lo pela cintura para uma mesa desocupada. Ele se senta em uma das cadeiras com Felix ao seu lado e, mesmo com outras cadeiras livres, Hyunjin se senta de lado no colo de Chan.

“E essa festa aqui? Por que você chamou a gente?”, Felix pergunta.

“Se eu pudesse apostar”, Hyunjin diz antes de Chan poder abrir a boca, “diria que você é o clichê CEO de filme erótico de quinta categoria que não tem tempo para namorar, mas está se sentindo pressionado por seus pares a não ser mais solteiro.”

“Por que eu contrataria duas pessoas pra estarem aqui comigo, então?”

“Um é pouco, dois é bom”, Hyunjin tenta.

“Não”, Chan ri. “O aniversariante ama uma festinha pra exibir as amantes novinhas, e nada contra se ele não fosse um homofóbico escroto que só atura viado se eles estão muito bem comprometidos e a duzentos metros de distância, porque corre risco de alguém dar em cima dele.”

“Deve ser uma pessoa muito atraente…” Felix rola os olhos.

“Uh, nem que fosse o último homem na Terra.”

“E esse era um evento que você não podia perder, é isso?” Hyunjin pergunta enquanto passa um dos braços pelos ombros de Chan e Chan devolve o gesto com uma das mãos em sua coxa.

“Infelizmente não. É aniversário dele, não seria de bom tom.”

“Acho que da próxima vez ele vai pensar duas vezes antes de te convidar.” Felix sorri. “Mas, se você quiser, a gente pode se esforçar um pouco mais pra eu não te dar falsas esperanças.”

Felix percebe como a risada de Chan também faz Hyunjin sorrir e sua vontade é de pedi-lo para ocupar só uma das pernas para que possa se sentar na outra, mas engole suas palavras com champanhe.

Com um aceno de mão, Chan chama um dos garçons, e Felix cogita ser sua falta de paciência para dividir taças com ele e Hyunjin quando pode ter sua própria, mas o pó branco na bandeja à sua frente lhe dá a certeza de que, por mais homofóbico que o aniversariante seja, com certeza sabe como se divertir. Por isso, não hesita ao fazer as honras depois de Chan olhá-lo com uma das sobrancelhas erguidas, Hyunjin também não e, como atestado, um cavalheiro é sempre o último.

“Não vou causar problema pra vocês por isso, né?”

Felix nega com um aceno de cabeça. Chan não parece inocente a ponto de fazer uma pergunta como aquelas, mesmo assim aprecia sua consideração. Não precisa dizer a ele que Hyunjin costuma cheirar antes de ir para cama com um cliente, ou da vez em que estava prestes a usar heroína, nem que aquela também é sua maneira de se divertir de vez em quando, pode negar e seguir em frente.

“Depois dessa, a gente pode concluir que você tá mesmo longe de ser CEO de livro erótico de quinta, né?”

“Eu não colocaria a mão no fogo por mim.” Chan lança um sorriso na direção de Hyunjin que deixa Felix com vontade de puxá-lo para perto pela gola da camisa social.

Por mais que saiba da intenção de Chan ao levá-los para a festa, é difícil ter certeza dos limites, em especial quando nunca sabe quais são os seus próprios ao se ver acompanhado de caras por quem se sente atraído. É trabalho, ele costuma demarcar muito bem onde começa para a diversão acabar, mas não as fronteiras de vez em quando se misturam em um borrão, e seria ótimo se pudesse contar com Hyunjin para trazê-lo de volta ao eixo.

Na verdade, confia em Hyunjin de olhos fechados, mas um conhece bem o outro para saber que nem sempre dá para colocar a mão no fogo por alguém em determinadas situações. Os dois passaram por poucas e boas para não se surpreenderem menos um com o outro do que consigo mesmos.

Hyunjin sabe quem Felix é, e às vezes há uma mão invisível esmagando seu coração contra a caixa torácica ao testemunhar o que não gostaria que seus olhos vissem, porque eles são dois fodidos.

Felix preferia nunca ter dito a Hyunjin para nunca mais usar o próprio nome quando saísse pelas ruas de short curto e barriga à mostra mesmo com os termômetros marcando baixas temperaturas, preferia não tê-lo encontrado perto de casa, de joelhos no chão de chapisco atrás da obra interminável de expansão da escola primária, chupando um cara que nunca tinha visto na vida.

“Há quanto tempo você tá fazendo isso?”, ele perguntou, e Hyunjin sorriu para o nada antes de fechar seus olhos com as pupilas contraídas e estender míseras notas em sua direção.

Não foi difícil convencê-lo a passar a se chamar Sam. Ninguém acreditaria ser seu nome de verdade, mas o importante era que ninguém soubesse o que estava escrito em sua carteira de identidade. Porém ainda era estranho ouvir alguém chamá-lo daquele jeito, como Chan faz ao apresentá-los a duas pessoas.

“Esses são Jisung e Minho”, ele conclui.

“Eu teria reclamado menos se soubesse que você ia mesmo seguir meu conselho de não aparecer sozinho”, Minho diz antes de passar um dos braços pelos ombros do homem ao seu lado.

“A ideia foi sua, então?” Felix ergue as sobrancelhas. “Chan contou pra gente como se o crédito fosse todo dele.”

“Minho tem as piores ideias, mas dessa vez até que foi interessante.” Jisung rola os olhos, mas sua expressão suaviza quando Minho se inclina em sua direção para deixar um beijo em seus lábios.

“Eram eles a referência a gays casados?”, Hyunjin pergunta baixinho e, como fez com Felix antes, ajeita a gola da camisa de Chan antes de deslizar os dedos para dentro dela.

Felix não se importa em ver se Chan responde de alguma forma, prefere colar sua cadeira à do outro antes de apoiar uma das mãos pela coxa de Hyunjin. O olhar que recebe de volta do amigo poderia hipnotizá-lo, porque Felix o conhece bem. Da última vez que o olhou deste jeito, estavam na pista de dança de uma boate em Itaewon.

Um de seus vizinhos trabalharia como segurança naquela noite e havia lhe oferecido dois ingressos, porque sabia como gostavam de sair à noite; sem contar que não era todo dia que havia oportunidade de frequentar um lugar como aquele sem faltar grana no fim do mês para comer. Até perguntou se havia algo em troca de o vizinho gostaria, malícia na voz, mas a resposta foi uma risada e um “Vocês são doidos” melhores que um beijo na boca.

Ele e Hyunjin aproveitavam o momento fora do trabalho e a água da casa dançando. A música era tão alta que as caixas de som distorciam um pouco das batidas mais agudas e das vozes, mas o grave retumbava em seus ossos e fazia seus corpos se mexerem mesmo se não tivessem vontade.

Quando um desconhecido entrou no meio dos dois para dançar com eles, Felix se aproximou para colar seu corpo ao do homem. Além de bonito, o cabelo jogado para trás com gel, havia uma garrafa de espumante em uma de suas mãos. Mesmo com ela ocupada, ele passou o braço pelos ombros de Felix para puxá-lo pela nuca mais para perto, a outra mão buscando Hyunjin com a cintura enquanto tentava equilibrar o próprio corpo entre os dois.

Foi então que seu olhar cruzou com o de Hyunjin, o sorriso no seu rosto sumiu a fim de poder engolir o desejo refletido no castanho dos olhos do outro. Não foi a primeira vez, portanto, também não se surpreendeu ao sentir os lábios de Hyunjin nos seus, muito menos quando outro par se juntou em um beijo.

Agora, entretanto, Felix prefere desviar sua atenção a Chan e lhe saciar a possível sede levando a taça de champanhe à sua boca mais uma vez enquanto seu sorriso tenta disfarçar o quanto o momento o afetou.

“Estamos muito negligentes com você”, ele diz antes de fazer um bico.

“Chan!” Escutam ao invés disso.

Todos se viram para olhar o homem grisalho que se aproxima com um sorriso no rosto, taça na mão, abotoaduras brilhando tanto quanto seus sapatos e a gravata desnivelada em volta de seu pescoço. Ele cumprimenta Minho e Jisung com tapinhas nos ombros. Chega a abraçar Jisung de lado, e Felix tem a ligeira impressão de que não é esse o motivo da careta de Minho.

“Tô feliz que você tá se divertindo”, o homem diz.

“Aprendi com o melhor!”, Chan responde.

“Fico feliz em saber que meu legado está a salvo.” Ele tira a mão de Felix da coxa de Hyunjin para levá-la aos próprios lábios antes de deixar um beijo em seus dedos. “Foi um prazer conhecê-los, rapazes.”

Felix força uma risada baixinha na tentativa de parecer ao mesmo tempo lisonjeado e encabulado com o gesto e deseja um feliz aniversário antes do anfitrião se afastar deles.

“Ele não parece tão mal…”, Hyunjin diz.

“Ninguém parece tão mal quando troca meia dúzia de palavras com alguém”, Minho rebate. “E Junseo sabe ser um cavalheiro mesmo sendo escroto, mas foda-se ele, eu vou dançar com os héteros.”

Tanto Chan quanto Jisung concordam com a proposta e, por isso, Felix e Hyunjin perdem seus lugares. Minho vai na frente, liderando-os em direção à pista de dança improvisada logo abaixo da claraboia do casarão. A música eletrônica poderia ser mais alta, mas Felix fica grato por não ser, porque pode ouvir a risada de Hyunjin quando um olha para o outro.

Desde que começaram a sair à noite, eles têm essa mania de dizer que alguns EDMs são propícios para tocar em lugares frequentados por caras que se dizem hétero, mas, no apagar das luzes, procuram a primeira pica onde botar a mão, a boca, o que quer que possa saciar seus desejos escondidos a sete chaves.

É o tipo de música que entra por seus ouvidos no momento em que Chan o puxa pela mão entre as pessoas dançando. Ao contrário dos homens musculosos que precisam de alguns copos de álcool antes de se jogarem nele, Chan passa um braço pela sua cintura e outra pela de Hyunjin antes de trazê-los para perto.

A posição estranha o deixa no meio, o corpo prensado entre o dos dois, e é a mão de Felix que para na cintura dele e o aperta antes de se permitir juntar seus quadris ao de Chan com a desculpa de que o local está cheio demais para ocuparem tanto espaço. Não está. E mesmo estando de frente para as costas de Chan, espera um minuto, dois, algum sinal de que Chan possa ser paranoico o bastante para não deixar nada nem ninguém chegar perto dele por trás.

Nenhuma reclamação chega aos seus ouvidos, nenhum mínimo gesto para afastá-lo. Com as mãos agora livres, ele se permite agarrar a cintura de Hyunjin para os três rebolarem um contra o outro. Chan joga a cabeça para trás em seu ombro, um dos braços fazendo o mesmo ao segurá-lo pela nuca.

Não há surpresa nenhuma no momento em que os olhos de Hyunjin voltam a encontrar os seus. Os lábios dele estão parcialmente abertos, como à procura de algo que não conseguiu achar por saber estar com outra pessoa, suas pupilas dilatadas o deixam em dúvida se é desejo ou mais da cocaína que eles pararam para cheirar antes de se juntarem aos convidados dançando.

De qualquer forma, é Hyunjin quem puxa Chan pela nuca e cola os lábios aos dele em um beijo tão faminto a ponto de deixar Felix salivando para provar. É uma bela visão, porque, além de bonito, Chan é inegavelmente atraente com seu sorriso educado e seu jeito de quem sabe do que está falando.

Não dura muito tempo, entretanto. Hyunjin se afasta e volta a olhar para Felix como se nada no mundo fosse suficiente para saciar suas vontades. Ainda assim, não é por esse motivo que Felix beija Chan, sua língua buscando a do outro como se houvessem provado diferentes champanhes enquanto estavam sentados conversando.

Também não é surpreendente, alguns instantes mais tarde, Hyunjin se juntar ao beijo dos dois. Tudo, desde o começo daquela noite, parece uma desculpa, um convite para chegar àquele momento. Felix não precisa saber que ação exata faz Hyunjin soltar um gemido que reverbera em seus lábios, mas se arrepia com o que ele diz em seguida, no ouvido de Chan, o rosto entre os seus:

“Por que você não leva a gente embora? A festa tá ótima, só que a gente pode se divertir bem mais em outro lugar…”

Os músculos de Felix se enrijecem antes de poder controlá-los, os ombros se contraem, seus dedos apertam a cintura de Chan em um pedido capaz de soar ambíguo. A espera pela resposta é interminável. Chan chega a se afastar um pouco mais de Hyunjin para olhá-lo por uma eternidade e dois dias, mas eventualmente ele nega com um aceno.

“Não foi o combinado.”

“A gente pode resolver isso pra você”, Hyunjin diz sem dar a Felix uma chance de abrir a boca.

“Não vou correr o risco de acabar sobrando pra vocês.”

“Chan… Não tem risco nenhum…”

Felix cerra os dentes com a vontade que sente de mandar Hyunjin calar a boca ou pelo menos, de ir à merda. Sua sorte é Chan voltar a negar com a cabeça mesmo com toda a insistência, até rindo.

“Da próxima vez, ok?”

“Isso é uma promessa de que vai ter uma próxima vez?”

O “claro que é” fica abafado pelo novo beijo que Hyunjin resolve dar em Chan e, na tentativa de disfarçar todo o seu nervosismo com a conversa, Felix se junta aos dois.

Para sua sorte, no decorrer da noite, o assunto não retorna. Eles conversam, mas Chan o surpreende ao lhe contar como também é australiano e que não volta ao país há mais tempo do que gostaria por nunca tirar férias, cada um expõe a celebridade em quem amavam babar quando mais novos e, anos depois, perceberam como era um indício de não serem nem um pouco héteros. Felix acha muito irônico Chan mencionar Taylor Lautner e Hyunjin, Robert Pattinson, ambos pelo mesmo motivo.

É trabalho, mas ele consegue se divertir ainda assim, dançar com Hyunjin, com Chan, beijar um depois o outro, consegue se surpreender com a própria excitação ao ver Chan tirar a mão de Hyunjin de cima da sua calça, do seu pau, mesmo nunca repetindo o gesto quando eles o encoxam. Se não fosse trabalho, seria o tipo de cara de quem Felix se aproximaria com um sorriso no rosto e segundas intenções; ao invés disso, fica grato pelos limites impostos.

Chan é simpático o bastante para envolvê-los em outras conversas quando não estão se beijando. Ninguém precisa beber ou cheirar nada para preencher estranhos silêncios ou chutar a bola para fora do gol falando sobre o frio, Chan faz perguntas e dá respostas como se não fosse ele pagando por companhia.

Por isso, volta para casa sem sentir o peso do mundo em seus ombros. A generosidade concedida a ele pelo universo em lhe disponibilizar um bom cliente é paga deixando Hyunjin tomar banho em sua frente e, quando volta, não há sorriso capaz de se esconder de seu rosto ao ver os dois colchões juntos no chão do quarto pequeno.

“Quer dormir comigo?”

“Se você não se importar…”, Hyunjin responde, mas se joga no colchão ao seu lado e passa uma das pernas por cima das suas.

Assim, os dois se ajeitam um contra o outro. Murmuram “boa noite” um para o outro no quarto escuro, as cortinas bem fechadas para não entrar nenhuma claridade do sol raiando do lado de fora.

🔴

Como é sábado, a boate está lotada. Na sala do seu chefe, das grandes janelas do terceiro andar, Felix gosta de observar as pessoas no térreo dançando ao som da música que chega abafada pela acústica do local.

Por mais que ame uma festa, nunca poderia ser ele lá embaixo, copo de bebida na mão, braços para cima, esfregando-se em alguém pela diversão de dançar como quiser sem se sentir tolhido. Ele preferia estar na pista de dança, com dinheiro o bastante para gastar como quisesse, para conseguir entrar em um lugar como aquele sem ser trabalhando ou acompanhando alguém.

Ainda assim, quando a porta da sala se fecha, reluta em se virar para encarar Kyungho entrando. Hyunjin está sentado na cadeira em frente à mesa, as pernas abertas, a bunda quase saindo do acento para apoiar a nuca no encosto enquanto embaralha as cores de um cubo mágico.

“Boas notícias…”

“Mais trabalho?”, Hyunjin pergunta, não se incomoda nem em se endireitar para olhar o próprio chefe.

“Pra você? Sempre.” Kyungho ri. Não senta nem se aproxima, permanece perto da porta, como se não tivesse nenhum tempo a perder com os dois além do necessário.

“Você me mima demais.”

Felix fica em silêncio, porque não tem o que falar, não tem como se inserir na brincadeira dos dois se não tem com o quê brincar. Talvez, por isso, as sobrancelhas se juntem e o sorriso suma de seu rosto quando olha para Felix.

“Enfim, vim aqui pra dizer só que vocês foram muito elogiados pelo último trabalho”, ele diz. “Chan deixou um bônus que eu vou repassar pra vocês, então não se assustem quando olharem o saldo no banco.”

Kyungho se afasta da porta por um momento a fim de chegar à própria mesa, onde puxa um papel para anotar algo que, dali, Felix não consegue ver e, mesmo assim, continua olhando na tentativa falha de distinguir alguma palavra. Não dura muito, Kyungho coloca o papel no bolso da frente da calça, passa uma das mãos pelos ombros de Hyunjin ao voltar ao seu lugar de segurança ao lado da porta.

“Preciso agradecer a vocês por isso, principalmente a você, Felix, por não ter estragado tudo.”

Por mais que consiga controlar seus punhos de se fecharem, Felix cerra os dentes, mas reza para Kyungho não perceber o tamanho da sua mandíbula proeminente no rosto. Impedindo-se de dizer qualquer gracinha que possa parecer uma nova provocação, limita-se a se curvar na direção do chefe, como se estivesse, de fato, grato pelo reconhecimento.

Ao seu lado, ainda sentado na cadeira como se estivesse na sala de casa, Hyunjin o olha com um sorriso no rosto, e Felix sente o amargor na boca por ver o divertimento estampado no rosto alheio.

“Espero que, se Chan quiser vocês para algo além, vocês possam manter o bom trabalho, né, Felix?”

“Sim, senhor”, ele responde, porque é melhor.

Kyungho recolhe suas farpas para ir embora e, mesmo assim, Felix ainda não se permite tirar a cabeça de baixo d’água para respirar ar puro. Hyunjin volta a olhá-lo, o sorriso dançou para se acomodar no canto de seu rosto.

“Você sabe que foi graças a mim que as coisas deram certo, né?”

“Como é?”

Felix ergue uma das sobrancelhas antes de soltar uma risada, porque agora pode. Não é Hyunjin quem lhe paga no fim do mês nem quem faz pressão para que ele, enfim, aceite um trabalho para o qual ainda não se sente preparado e talvez nunca se sinta.

“Só eu tava empenhado em fazer a noite do Chan valer a pena”, Hyunjin diz e começa a balançar a cadeira de um lado para o outro com suas pernas.

“Empenhado em encher a porra do saco, né?”

“Em fazer com que ele voltasse a chamar a gente!”

“Claro, e se ele não quisesse chamar a gente de novo, a culpa ia ser minha, é isso?” Felix ri, mesmo sem achar graça nenhuma naquela conversa. “Se fosse por sua causa que ele elogiou a gente pro Kyungho, o dinheiro não era pra gente.”

“Já pensou na possibilidade do Kyungho ter sido gentil em dividir o dinheiro com você?”

“Vai se foder, Hyunjin!”, Felix diz, sua voz arranhando a garganta com o tom alto que usou. “Se é pelo dinheiro, fica com a minha parte, então, e enfia no cu. Você foi um escroto ontem. Você sabe quais são meus limites, sabe de tudo, mas é o dinheiro, né? Sempre dinheiro.”

Felix não espera respostas, não se vira para Hyunjin mesmo quando escuta seu “Volta aqui!” quando fecha a porta da sala de Kyungho, porque não tem como lidar com ele neste momento. Não agora. Ele se fecha no banheiro que costumam usar para se trocar e tomar banho de vez em quando, tranca-se em uma das cabines antes de se jogar sentado no vaso sanitário.

Com o dorso da mão, enxuga a lágrima que cai para lembrá-lo da raiva que sente de Hyunjin por não pensar em nada quando dinheiro está em jogo. Mesmo ressentido, é difícil culpá-lo por seu instinto de sobrevivência. É difícil não cobiçar dinheiro quando pensa na família de Hyunjin, na mãe, na irmã, na sala caindo aos pedaços que dividem, no quarto onde ficam seus colchões, suas roupas todas juntas em uma cômoda que um cliente do antigo trabalho de Felix lhe doou.

Entretanto, não consegue tirar o peso do peito, o sentimento de traição que precisa engolir como um remédio amargo, mas necessário.

Respirando fundo, levanta-se e sai do banheiro. Não pode dar mais motivos a Kyungho para falar sobre seu trabalho, a jogar na sua cara que deveria fazer o que todos fazem, que seu tempo está se esgotando. A verdade é que se sente orgulhoso por ser covarde para tomar certas atitudes.

Depois de descer as escadas, segue para a área VIP onde alguns de seus colegas de trabalho estão. A maioria se pendura em algum cliente sentado à mesa, o corpo em uma posição provocativa, alguns têm até copo em mãos. Hyunjin passa por ele sem olhá-lo, nem encosta nele, e, de perfil, Felix consegue ver seu sorriso antes de tomar seu lugar em uma cadeira ao lado de um homem uns bons anos mais velho.

Hyunjin apoia uma das mãos na coxa do desconhecido antes de se inclinar para sussurrar algo em seu ouvido. O sorriso permanece em seu rosto, mas seus olhos estão preguiçosos como se houvesse desejo a ser refletido, sua língua molha seus lábios como se ansiasse por um beijo.

Antes que alguém possa vê-lo, Felix se desencosta do batente da porta para descer ao primeiro andar e observar a pista de dança de perto desta vez. Precisa pensar em trabalho e esquecer-se de que não pertence a este lugar.

🔴

Felix convive com Hyunjin há muitos anos para ser o tipo de amizade em que as duas pessoas nunca brigaram, em especial depois de começarem a morar e trabalhar juntos. Ainda assim, é um porre não se falarem direito quando precisam olhar para a cara um do outro o dia inteiro.

Por isso, não ofereceu nenhuma resistência no momento em que Hyunjin lhe pediu para acompanhá-lo. O filme que via na televisão não era interessante o bastante para mantê-lo com os olhos grudados na tela, então terminou de comer antes de dar seu ok para saírem juntos pelas ruas do bairro.

A vizinhança os conhecia desde pequenos, então ninguém estranhava quando, como agora, Hyunjin passava um dos braços pelos de Felix e os aproximava ainda mais. Era difícil manter o sorriso escondido, ainda mais com Hyunjin batendo os ombros nos seus de leve.

“Ei”, ele diz baixo como se alguém pudesse escutá-los. “Ainda tá puto comigo?”

“Não”, Felix responde, porque é a verdade. Ele não conseguiu lavar a decepção nem a chateação de seu corpo no dia seguinte ao da briga, mas Hyunjin já sabia de seus motivos para confrontá-lo, não havia mais o que dizer, não precisava alimentar mais aquele fogo.

“Eu tô…” Hyunjin suspirou e balançou a mão livre em busca das palavras. “Desculpa por tudo que aconteceu, eu devia ter pensado direito…”

“Tá tudo bem.”

“Yongbok…”

“Sério”, Felix o interrompe. “Foi foda na hora, e a gente ter discutido só piorou também, mas passou, a gente já resolveu isso.”

Por um instante, Felix se assusta quando Hyunjin larga seu braço, mas gargalha por ter seus ombros esmagados por um abraço e sua bochecha amassada por um beijo barulhento e molhado de saliva. Com uma careta e a língua para fora, Felix limpa o rosto antes de empurrar Hyunjin.

Sem pensar duas vezes, uma de suas mãos segura a de Hyunjin antes de entrelaçar os dedos aos dele, porque não quer que se separem, pelo menos não agora que acabaram de fazer as pazes.

Assim que entram no supermercado, Hyunjin o puxa pela mão em direção ao estacionamento grande nos fundos para onde costumavam ir depois da escola quando eram adolescentes. Eles sobem as escadas entre o matagal sem corte e chegam aos bancos dispostos em volta de uma estátua quebrada que, um dia, foi de uma mulher com um tear.

A escultura não tinha mais nem as mãos nem o tear, seu rabo de cavalo também havia sumido com o tempo junto com seu nariz e uma das orelhas. Felix sempre duvidou de que aquele foi um lugar decente onde os trabalhadores da fábrica podiam descansar em seu horário de almoço ou qualquer coisa parecida, preferia-o como seu esconderijo de adolescente.

Hyunjin se senta no banco de sempre, à esquerda da estátua, onde o matagal deixa o local um pouco mais escondido, e Felix aproveita para se deitar em seu colo a fim de receber um cafuné. Um vento frio sopra, mas os raios de sol saindo por entre as nuvens não os deixa nem se encolher.

“Vamos sair hoje? Comemorar?”, Hyunjin pergunta, um sorriso no canto do rosto.

“Sério? Pra onde você quer ir?”

“Pode ser aquele pulgueiro que você ama.” Hyunjin rola os olhos, mas ri quando Felix se levanta de seu colo para abraçá-lo.

“Você reclama, mas sabe que a gente vai se divertir pra caralho”, ele diz e se joga de novo no colo do outro.

Há um sorriso enorme no seu rosto por conta do convite e que aumenta quando Hyunjin lhe dá a mão de novo e entrelaça os dedos aos seus. Não é diferente do que faziam naquele mesmo lugar quando eram adolescentes, ainda mais nos momentos em que fingiam se encontrar para estudar e só queriam jogar conversa fora e fazer nada.

Eram seus momentos de paz, mas Felix preferia se juntar em uma roda no chão com os amigos da escola, as garrafas de bebida entre eles, alguns com os cigarros acesos entre os dedos. Na maioria das vezes, faziam qualquer brincadeira que fosse desculpa para acabar em beijos.

Foi assim que ele e Hyunjin se beijaram pela primeira vez, girando uma garrafa vazia antes de cada um tomar um gole de vodca para, então, afastarem-se em direção ao matagal. No grupo de amigos dos dois, quem era hétero estava acostumado a ver os outros com pessoas do mesmo gênero e, mesmo assim, ambos se afastaram para compartilhar o mesmo segredo.

Por isso, Felix não perde tempo em puxar a mão de Hyunjin para perto antes de deixar um beijo em seus dedos quando sente vontade. Não precisaria se esconder se quisesse beijar Hyunjin de novo, não como sentiu necessidade da primeira vez.

Eles permanecem naquele banco por um tempo antes de se levantarem para fazer compras, porque a geladeira está vazia e a bunda de Hyunjin dói de cansaço pelo assento duro. O tempo que passam rondando as prateleiras é sempre menor quando estão juntos e, por isso, não demoraram a chegar em casa.

Felix se joga em sua cama e tira um cochilo durante boa parte da tarde. Não faz ideia do que Hyunjin fez com seu tempo livre ou se vai aguentar a madrugada de comemorações sem seus muxoxos por estar com sono, mas qualquer recomendação morre em sua boca ao ver a mesa posta para jantarem.

Quando entram na casa noturna que Felix adora mesmo com as paredes vermelhas descascadas e as pilastras cafonas cheias de coração, seus estômagos estão forrados e a maquiagem impecável.

“Não acredito que eu gastei o resto do meu delineador pra vir pra esse chiqueiro”, Hyunjin reclama ainda assim.

“Ah, para, eu já cruzei com uns bonitinhos…”

“E pobres, né?”

Felix solta uma gargalhada alta antes de puxar Hyunjin pelo pulso para pegarem a vodca que o open bar os habilita. De blueberry para ele, de frutas vermelhas para o outro. Só então se permitem se embrenhar na pista de dança em frente ao palco improvisado.

O som distorcido pelos alto-falantes não o incomoda, está mais empenhado em se pôr atrás de um cara muito magrinho que está de joelhos no chão e rebolando. Hyunjin reclama do chão sujo atrás dele, mas não é problema para Felix, mesmo sem se abaixar para dançar também. Ao invés disso, ergue seu copo cheio de vodca e grita antes de soltar uma gargalhada.

“Você é louco”, Hyunjin diz entre risadas, uma das mãos firme em sua cintura o obrigando a colar as costas no peito do outro.

Felix dá um gole na sua bebida enquanto sua mão livre puxa Hyunjin pelo pulso como se, assim, pudessem ficar ainda mais próximos um do outro quando nem há espaço entre os dois. Por mais que sempre implore a qualquer deus por uma vida melhor, há um prazer em se sentir em casa com seu álcool barato e olhando para as pessoas com roupas compradas na promoção como as suas.

Toca um pop chiclete e, se valesse o esforço, Felix poderia distinguir a voz da cantora estadunidense que ouviu não muito tempo atrás na venda onde costuma comprar verduras e legumes. Não vale, prefere rebolar contra o quadril de Hyunjin e enxugar a vodca em seu copo.

“É seu namorado?”, um cara pergunta ao seu lado, e ele se afasta de Hyunjin para poder olhar o outro.

O desconhecido é lindo. Usa uma camisa puída e que um dia foi preta, mas agora é cinza depois de tanto uso. Ainda assim, é lindo. Por isso, Felix nega com um aceno de cabeça e um sorriso enquanto leva a mão livre à nuca do outro para poder lhe sussurrar ao ouvido:

“Você veio aqui pra falar comigo ou com ele?”

“Com você.”

Felix aproveita para descer a mão ao ombro do desconhecido e o puxar para mais perto, seus olhos descendo dos olhos para a boca bonita, mesmo com os lábios finos. Portanto, não perde tempo em se inclinar para um beijo capaz de abafar os sons ao seu redor.

Por algumas horas, retém a informação de que o nome do desconhecido é Hyungjoon. É tempo o suficiente para se trancarem em uma das divisórias do banheiro para Felix ser chupado antes de receber uma balinha pela boca do outro, que esteve no seu pau momentos antes.

Ainda se beijam por mais um tempo, Felix acha que é pouco, mas volta para a pista de dança horas depois em busca de Hyunjin. Não fica sozinho por muito tempo, porque há outro desconhecido que chama sua atenção com os cabelos longos e um piercing no lábio que Felix logo beija.

Com Hyunjin mesmo só se encontra quando falta pouco mais de uma hora para a boate fechar, ele o vê no balcão e não resiste: encosta o corpo nas costas dele e passa um dos braços pela sua cintura enquanto a outra mão se estende ao barman a fim de pedir sua bebida.

“Oi, meu amor”, Hyunjin diz antes de se virar e passar os braços pelos seus ombros. “Tá se divertindo?”

“Tô muito!”

Felix pende a cabeça para trás para tomar um gole grande de sua vodca e se afasta de Hyunjin para pedir, por favor, para o barman completar o copo. Não faz diferença o sabor, porque a vodca de Hyunjin está ao seu alcance também, e ele está mais preocupado em aproveitar o tempo que ainda resta de festa para dançarem.

A pista não está mais lotada como antes, mas ainda há bastante gente. A música continua alta, agora toca Roly Poly, de T-ARA, e eles se juntam às pessoas fazendo a coreografia.

Felix ri sozinho pelo momento, por ter Hyunjin com ele ali, e quando a música mudou para Hands Up, do 2PM, não havia mais nada que poderia tirar seu sorriso do rosto por Felix pular abraçado a Hyunjin e outras pessoas que nunca tinha visto na vida.

Não havia briga entre os dois, não havia nenhum desentendimento. Olhando Hyunjin de perto, o braço dele nos seus ombros, os seus na cintura dele, parecia não haver mais nada de importante no mundo, nada capaz de ficar entre os dois, mesmo pensando diferente vez ou outra.

Esquecer-se de tudo era um privilégio ao qual recorria quando podia. Como agora. São só algumas horas, nada demais, ele merece não pensar nos problemas por um segundo, merece escapar do mundo do lado de fora.

O problema é que o dia seguinte sempre chega e não perdoa ninguém.

🔴

Há uma música francesa tocando nos alto-falantes. Além de não conseguir compreender uma palavra, Felix não entende como tanta gente consegue achar um idioma gutural tão sexy. Tem gosto para tudo.

Hyunjin lhe aperta o ombro antes de se afastar em direção a uma das mesas no segundo andar, e Felix consegue ver o último olhar de seu chefe como se lhe pedisse para não estragar tudo mais uma vez. É melhor desviar a atenção do que não lhe trará paz o suficiente para fazer um bom trabalho, mas o gosto amargo continua na sua boca.

A música fica mais alta, nunca o bastante para abafar as conversas mantidas a distância de uma mesa entre as cadeiras. Hyunjin está sentado em uma delas, as pernas cruzadas, o corpo inclinado para o lado e uma das mãos na coxa de Chan. Antes de tomar seu lugar do outro lado, Felix deixa um beijo que dura mais do que o usual no canto dos lábios de Chan. Com um aceno, também cumprimenta Jisung e Minho do lado oposto da mesa.

“Preciso falar com você depois”, Chan diz com a boca ao pé do seu ouvido antes de encará-lo. É difícil saber se demora a desviar o olhar do outro por conta da seriedade em sua voz ou da proximidade de seus lábios, mas Felix assente.

Os três conversam sobre negócios. De vez em quando, Minho se distrai olhando em volta, em especial quando os outros dois se inclinam para frente para diminuir o tom de voz. Ainda assim, está atento o suficiente para nunca se perder no assunto.

Felix e Hyunjin se distraem ouvindo os outros e bebendo o vinho que nunca deixa nenhuma das cinco taças vazia. Quando Minho se levanta, entretanto, e lhes pergunta se querem descer para dançar, Chan é o primeiro a encorajá-los a deixar a mesa.

“Cansei de falar de trabalho”, ele se justifica enquanto puxa cada um por uma mão para descerem as escadas.

No térreo, o volume da música é tão alto que precisariam gritar caso sentissem necessidade de falar, mas só quem fala é Minho, cotovelos no balcão do bar, pedindo uma garrafa de espumante por cima do synthpop. Os três bebem direto na garrafa, porque Minho dispensa copos ou taças, até mesmo os de plástico, enquanto dançam na pista.

De vez em quando, colam mais os corpos um no outro, até atraem olhares, afinal, é para isso que Felix e Hyunjin trabalham, mas Minho não se importa em acompanhá-los, em passar a mão pelo peitoral de um, de outro, em se esfregar deles, em tê-los se esfregando nele e rir. Jogar a cabeça para trás e gargalhar.

São bons momentos esses que não se parecem com o trabalho de sempre, em que tudo parece diversão e podem esquecer o peso que há nos ombros ao pisar em um lugar como aquele. Quando Felix quase cai e se apoia no chão usando a garrafa de espumante, Minho e Hyunjin vão junto por não conseguirem parar de rir. Podia ser assim sempre.

Eles voltam para o segundo andar eventualmente e não há nada que tire seus sorrisos do rosto ou faça seus fios de cabelo voltarem aos seus devidos lugares. Minho quase se joga em Jisung, a cabeça se apoia no peito alheio, mas os olhos continuam na direção dos outros.

“Felix, é verdade que você fala inglês?”, Jisung pergunta.

“É, eu sou australiano”, ele diz antes de apoiar a sua mão na outra coxa de Chan.

“Mas você veio pra cá há bastante tempo, né?”

“Vim quando eu era criança.”

“Ele veio pra atazanar a minha vida”, Hyunjin interrompe enquanto rola os olhos.

“Sério que vocês se conhecem desde criança?”, Chan pergunta, os olhos desviando de um para o outro.

“Quando eu me mudei pra cá, Hyunjin morava do outro lado da calçada e a gente ainda passou a ir pra mesma escola.”

“Vocês não tinham me contado isso”, Chan diz com os olhos arregalados, as sobrancelhas quase sumindo no cabelo.

“A gente tinha coisa melhor pra fazer.” Hyunjin sorri. “Mas a gente se conhece desde sempre, ele que me trouxe pra trabalhar aqui, aliás, né?”

Felix se inclina na direção de Hyunjin enquanto assente com um aceno de cabeça e sabe que é teatro, tem a consciência de que não é real quando Hyunjin também se aproxima e passa a língua pelos seus lábios antes de morder o de baixo. Ainda assim, há um sorriso no rosto de Felix. Ele é idiota e sorri, mas se afasta.

“É importante ter alguém do nosso lado em quem a gente pode confiar pra vida toda”, Chan diz e o encara com uma expressão indecifrável, porque, na verdade, os olhos não falam mais que as palavras.

Deve ser, Felix quer dizer. Permanece calado.  Não é o lugar nem a hora, ele já superou seu desentendimento, por mais que saiba que Hyunjin possa tornar a ser um escroto em cinco minutos.

Não é rancor, mas não pode confiar em Hyunjin de olhos fechados para tudo. Não dá para depender para sempre dele também, é algo que martela em sua mente há um tempo, menos do que deveria. Há muitos muros ao redor de Felix, mas o acesso de Hyunjin é livre para entrar e sair quando quiser.

“Não olha pra mim”, Minho diz. “Seu amigo confiável é Jisung, não eu.”

Chan ri e também nega com um aceno com a cabeça como se Minho dissesse besteiras, mas sua voz é baixa quando se defende:

“Ele fala isso, mas é só pose.”

Felix olha para Chan de perto daquele jeito, um sorriso enorme no rosto, os olhos comprimidos, os lábios avermelhados e brilhantes pela bebida cobrem parte dos dentes brancos e alinhados, a ponta dos caninos proeminentes. De onde está, consegue ver as mechas do cabelo dele bem penteadas para trás, a testa exposta, o rosto livre de distrações.

Sua vontade é de escorregar a mão para as costas de Chan, subi-la à sua nuca e fechar a mão nos seus cabelos com força, vê-los se desalinhando na cabeça de quem se apresenta alinhado. A intenção seria de beijá-lo. Ali mesmo, na frente de Jisung, de Minho, dos outros clientes à volta, como se a vontade de Chan não fosse a única importante.

Por isso, ele se inclina em direção ao outro e passa o nariz pelo seu pescoço antes de deixar um beijo. A reação é um aperto na sua coxa, e Chan vira o rosto na sua direção, seus narizes se tocando antes de também compartilharem sorrisos.

“Você não disse que queria falar comigo?”, Felix pergunta e deixa uma risada escapar quando Chan morde seu lábio inferior de leve antes de soltar.

“Ainda quero.”

Chan aperta sua coxa, aperta com vontade, como uma criança que enche as mãos de terra quando precisa voltar para casa com as roupas impecáveis. Ele ainda a sobe pela coxa de Felix, a palma escorrega para a parte de dentro, a ponta do dedo mindinho próxima à sua virilha, e Felix suspira. Seria perfeito se estivessem em uma boate, se pudesse levá-lo para o banheiro a fim de se esconder de qualquer segurança chato.

Não pode. Não deveria nem se sentir impelido a beijar alguém cujo dinheiro paga seu salário. Precisa de Chan para se manter em seu trabalho, para mostrar a seu chefe que pode, sim, cozinhar um homem a ponto de fidelizá-lo mesmo sem levá-lo para cama.

Não seria ruim ceder a Chan, pelo menos não como ele parece se apresentar como um cara minimamente decente. Ele não se comporta como alguém que acha que comprou uma pessoa ao contratar um serviço. A demarcação de território é clara quando não há invasores, e Felix não é Roma para ter seu império destruído.

“Eu queria saber se você poderia dançar pra mim”, Chan diz baixo, e é a mão dele que vai para a nuca de Felix, passa pelo seu rosto, aperta-o no queixo. “Mas só se você quiser, ok?”

“Se eu quiser?” Ele ergue uma das sobrancelhas, um sorriso no canto do rosto. É difícil manter o tom neutro.

“Eu conversei com Kyungho, perguntei de você…” O dedo de Chan embaixo de seu queixo puxa seu rosto para mais perto. “Perguntei se eu podia fazer tudo com você, mas ele disse que não, que por enquanto você tá fora de alcance.”

“Por enquanto”, Felix repete, porque precisa manter o interesse de Chan, repete a si mesmo, precisa mantê-lo voltando.

“Por isso que eu quero saber se você quer.”

“Não interessa o que eu quero, você tá pagando.”

“Por isso que eu tô perguntando pra você. Eu não pago direto pra você, mas é você quem faz o serviço e pode recusar.”

“Não é assim que o mundo funciona.”

“É como eu funciono.”

“Como um rico bonzinho?”

“Não sou bonzinho, Felix, por mais que me sinta grato que você pense assim de mim.” Chan sorri para ele, uma das mãos passa pelos seus cabelos até repousar em sua nuca. “Mas eu tenho meus princípios, coisas que consigo e não consigo fazer.”

Felix assente, porque talvez não seja um fator decisivo o bastante para transformar uma pessoa em boa, talvez seja. Nem sempre princípios andam de mãos dadas com ações, aprendeu há tempos que o ser humano é hipócrita por natureza, e o que faz de alguém bom ou mau é como cada um escolhe agir.

Nada é preto no banco, entretanto. Se Raskólnikov foi mau o suficiente para matar duas pessoas, o que o constituía ao ter posto uma prostituta debaixo de suas asas como Jesus Cristo fizera com Madalena? Se a lógica é válida, não deveria pensar em Chan como um rico bonzinho por ser alguém decente com seu trabalho.

“Você ainda quer que eu dance pra você ou quer fazer um tratado sobre ser ou não bonzinho?”

Chan solta uma risada gutural antes de se afastar. Ele se vira para o outro lado para falar com Hyunjin enquanto Felix se levanta. Não precisa escutar o que é dito para observar a troca de sussurros entre os dois, nem para se arrepiar com o beijo que os dois trocam em seguida e que lhe seca a garganta ao ver a língua de Chan e Hyunjin se enroscarem uma à outra.

Ele precisa se segurar para não se aproximar dos dois a fim de se colocar no meio do beijo, e é o melhor que faz, ainda mais quando dura menos do que esperava ou gostaria. De qualquer forma, Chan lhe dá a mão e entrelaça os dedos aos seus antes de puxá-lo em direção ao corredor.

Felix está acostumado a ir àquela parte da boate, mas seus passos sempre diminuem de velocidade enquanto seus olhos se ajustam à escuridão do corredor. E Chan parece fazer questão de levá-los à última porta como se tivesse muito a esconder em um lugar onde a nudez se faz imperativa.

Há uma nova música francesa quando Felix fecha a porta e Chan toma seu lugar no sofá confortável e espaçoso antes de deixar sua taça à mesa. A mandíbula de Felix se cerra com a falta de criatividade com a playlist, mas prefere voltar seu foco ao homem à sua frente, as pernas abertas em um convite para aproximação.

Foda-se o francês, Felix pensa enquanto passa uma perna de cada lado do corpo de Chan. Se fosse outra pessoa por quem não sente nenhum desejo, rebolaria de forma a colar seu peito ao de Chan, mas infelizmente ele deixa seu peso sobre as coxas do outro antes de esfregar a bunda no ritmo lento da música na ereção se formando embaixo de si.

Consegue sentir o cheiro do vinho no hálito de Chan quando ele pende a cabeça para trás com os lábios entreabertos, as mãos indo cada uma em direção à sua cintura e o puxando com firmeza contra seu corpo, é quase um chamado para prová-lo direto em sua língua, para se empenhar mais em seus movimentos e Felix só atende um deles.

Ele se move com firmeza e precisão em cima de Chan. Tem destreza o suficiente para fazer mais do que rebolar, mas prefere se esfregar ao outro como se não existisse controle o suficiente a seu alcance a ponto de pará-lo. Talvez não haja mesmo, porque Felix encosta seus lábios aos de Chan e deixa seu pau duro escorregar contra o do outro, soltando um gemido abafado pela música na língua que odeia e que, agora, soa muito menos como sensual e mais como uma ordem.

Não deveria, mas deixa Chan colocar a palma da mão por cima do seu pau e esfregá-la ali para lhe dar um alívio que não é pago para ter. Não consegue nem se importar naquele momento, em especial quando o idioma da música muda para inglês e soa tão próximo de casa, tão mais vulgar com seus palavrões sussurrados e o contrabaixo soando tão forte a ponto de se confundir com o ritmo das batidas do seu coração.

Chan aperta a sua bunda com força, com tanta vontade que suas ereções se esfregam uma à outra antes de Felix se afastar para olhá-lo quando dedos apressados se embolam com o botão e o zíper da sua calça. Os olhos se encontrando com os seus não precisam fazer nenhum tipo de pedido, ele já cedeu aos próprios desejos, aos de Chan ainda mais.

Ainda assim, seu cérebro demora alguns segundos para comandá-lo a fazer o mesmo com o homem embaixo de seu corpo. Em parte porque quer, mas também porque sabe que é isso o que um bom profissional deve fazer. Por mais que haja um desejo de sua parte, Chan ainda é um cliente.

Suas tentativas de sentir o pau de Chan sem a presença de nenhum tecido são frustradas quando suas mãos são afastadas e Chan o coloca de volta em seu lugar de obedecer suas vontades sem precisar dizer uma palavra. Felix deveria perguntar o que ele quer, o que gostaria de fazer, mas se inclina em sua direção e junta suas bocas em um beijo sem pedir permissão.

O caminho é livre. Felix sente o gosto mais forte do vinho na língua de Chan, o sabor de cassis no fundo lhe dando vontade de permanecer naquele beijo para sempre, mas precisa se afastar quando Chan coloca seu pau para fora e passa a mão nele de cima à baixo, precisa ofegar mesmo querendo engolir todos os sons naquela sala.

“Quer parar?”, Chan pergunta, mas sua mão se move para cima e para baixo de maneira tão lenta que Felix pensa que deve ser uma espécie de tortura.

“Não”, Felix consegue dizer em um fio de voz. “Não agora.”

A mão livre de Chan o puxa pelos cabelos para um novo beijo, mais intenso, quase bruto com as mordidas que Chan lhe deixa no lábio inferior. Felix nunca vai preferir a própria mão quando só o pensamento de ter outro corpo em contato com o seu já é capaz de deixá-lo duro.

Sua língua busca a de Chan e sua cabeça está pesada por conta de toda a bebida ingerida durante a noite. Por isso, ele passa os braços pelos ombros de Chan para mantê-lo perto enquanto se deixa submergir em seu beijo.

É com força que esfrega a bunda no pau de Chan. Sente a ereção por meio do tecido, o suficiente para apoiar uma das mãos na nuca do outro e pressionar seus lábios contra o dele com mais fome. O desejo percorre seu corpo por inteiro, arrepia seus pelos, sufoca seus pensamentos, Felix se convence de que é efeito do álcool. Só pode ser.

“Puta que pariu…”, ele diz antes de fechar seus dentes no lábio inferior de Chan. Precisa recuperar um pouco de controle, mas o dedão de Chan esfrega a fenda da cabeça de seu pau e é impossível encontrar chão onde possa se apoiar.

“Posso te chupar?”

A pergunta de Chan é escrota, porque Felix deveria pensar em todas as consequências de se deixar levar pelo momento, de pensar como costuma fazer do lado de fora das paredes do trabalho, de viver aquele momento como se estivesse se divertindo ao invés de sobrevivendo. Ele deveria pensar em como nada escapa de seu chefe e nas conclusões a que ele vai chegar se deixar Chan chupá-lo.

Ainda assim, sua mente está em branco quando assente e deixa Chan deitá-lo naquele sofá cuja limpeza não deveria ser nem um pouco confiável, mas menos confiável ainda é sua mente lhe dizendo que Chan poderia fazer o que quisesse que ele deixaria sem pestanejar. Mesmo podendo sentir vergonha depois, naquele momento, portanto, não tem como se importar.

As mãos do outro correm com pressa para abaixar ainda mais a barra da sua calça. Entretanto, a impressão é de que ansiedade pela espera vai fazê-lo explodir, seus olhos nem conseguem se desviar de cada movimento alheio.

Não dá para conter um ofego quando a língua de Chan lambe sua ereção de baixo para cima como se estivesse provando Felix, muito menos quando seus lábios macios e carnudos envolvem sua glande.

Por um momento, sua cabeça pende para trás e seus olhos se fecham enquanto Chan acomoda seu pau na boca quente, a língua áspera deslizando por sua ereção até ele sentir a testa de Chan se apoiar logo abaixo da sua barriga. O toque suave é intenso o bastante para fazê-lo erguer o rosto, porque precisa ver.

Nunca se achou a pessoa mais visual, mesmo não sendo as afirmações do senso comum sobre homens e suas maneiras de expressar sexualidade, mas precisa ver um cara como Chan, ainda enfiado em um blazer e uma camisa social, colocar seu pau todo na boca no sofá de uma salinha escrota onde qualquer um com uma grana razoável pode receber um lap dance.

É o tipo de lembrança que lhe deixa com mais tesão, ainda mais por perceber que Chan não se importa em olhá-lo de volta. Seus olhos se fecham vez ou outra, em especial quando mais sente do que escuta os gemidos que reverberam pelo seu corpo. De vez em quando, Chan se engasga ao colocá-lo todo na boca, e é Felix quem não consegue conter os sons que lhe escapam dos lábios sem intenção ou esforço.

É diferente ter presenciado Chan falando sobre negócios na mesa com Jisung e Minho e vê-lo agora com seu pau, que ele masturba, chupa, por onde passa a língua sem nenhum pudor ou hesitação. Por isso, por mais que queira prolongar a sensação de ter Chan entre as suas pernas, é obrigado a puxar os cabelos curtos do outro para afastá-lo.

Eu vou gozar, chega a avisar, mas, se Chan liga, não se importa e volta a cobrir seu pau com os lábios. Portanto, não tem como prender o gemido em sua garganta quando goza na boca de Chan. 

Deveria ser proibido ver Chan lamber os lábios antes de se inclinar por cima de seu corpo no sofá para lhe beijar mais uma vez, a língua dele empurrando a sua de forma firme, mas lenta a ponto de Felix ofegar.

Ele não se esquece que não está sozinho, é impossível, mas, quando seus dedos procuram o zíper já aberto da calça social de Chan, seus punhos são afastados com um não, não precisa. Precisaria, óbvio que precisaria se olhar para baixo e passar a mão pela parte mais escura da cueca de Chan não fosse o suficiente para constatar que não foi o único a gozar.

Por mais que se arrepie com a ideia de Chan gostar tanto de chupar pau a ponto de chegar ao clímax sem precisar de muito, há um sentimento vergonhoso de decepção tomando conta do seu corpo por não ser capaz de retribuir o gesto e provar a porra de Chan. Não era nisso que deveria pensar, mas foda-se, por enquanto pode continuar culpando a bebida.

Felix é um idiota do caralho, e é difícil não se odiar por Kyungho ter-lhe dito, com um sorriso escroto no canto do rosto, que parecia que Felix, enfim, estava pronto para fazer um trabalho decente ao invés de se esconder em brincadeiras de adolescente.

🔴

Ele assente, diz que está pronto mesmo, porque é melhor parar de adiar o inadiável. Kyungho mantém o nariz erguido, as feições abertas, o sorriso vai se suavizando em seu rosto conforme o encara de um jeito novo. É estranho receber um tapinha nas costas e um abraço estranho, meio de lado, desengonçado de tão curto.

Ainda assim, Felix entende por que Hyunjin sente uma espécie de orgulho em ser elogiado pelo chefe, em ter sua confiança. Ele mesmo sente seu peito inchar quando inspira, dotado, de súbito, por uma segurança vinda de um dos poucos contatos não hostis com Kyungho depois de tanto tempo.

Agora é sua vez de ter seu primeiro cliente, Kyungho lhe disse. Como se fosse mesmo o primeiro, como se os outros não contassem, mas Felix assentiu, e a quinta-feira chegou cedo demais em seu calendário.

É difícil não lembrar de Hyunjin, do emprego de merda ao qual se submeteram por dois anos no bar localizado na esquina da rua onde mora o principal traficante do bairro deles. O local nunca foi problema para nenhum dos dois, mas o dono se alimentava de pequenos grandes assédios.

Hyunjin foi o primeiro a pedir demissão depois de receber um tapa na bunda de um dos frequentadores e o dono dizer que não havia motivos para reclamar, que Hyunjin deveria sentir orgulho por ser desejado e ainda o empurrou de volta em direção à mesa rodeada por garrafas de cerveja no chão.

Não foi o pior momento pelo qual passaram, mas foi demais. Felix ficou. Não porque ainda poderia aguentar, mas, com Hyunjin sem ganhar nada para ajudar nas contas de casa, precisava aguentar até onde podia.

Eles pararam de sair à noite por um tempo, só conseguiam quando algum amigo trabalhando em boate conseguia colocá-los para dentro sem pagar e passavam a noite à base de água da pia do banheiro. Por isso, Felix começou a estranhar quando, de vez em quando, acordava no meio da noite para ir ao banheiro e Hyunjin não estava. Quando chegava em casa e não havia sinal de nenhuma outra presença.

Foi por acaso que, depois de sair do bar, precisou passar pela casa de uma das senhoras do bairro que havia lhe dito que deixaria uma lembrancinha para ele na porta de sua casa. Era por tê-la ajudado a levar as compras na semana anterior, nada de novo para ele. O presente era um pintinho de crochê, amarelo com o bico laranja, estava em uma sacola no chão ao lado da porta, e ele não tocou a campainha para agradecer, porque todas as luzes estavam apagadas.

Precisou pegar um caminho maior para voltar para casa, mas não se importou, estava matutando o melhor lugar para expor seu pintinho. Mesmo quando entrou na rua onde houvera uma escola e agora é só terreno baldio, não há medo. Morava por ali há tempo demais para não se preocupar com os perigos, porque, se algo acontecesse, a violência nunca seria de alguém das redondezas. Ainda assim, seus pés se detiveram quando ele, ao longe, viu uma silhueta que parecia tanto com a de Hyunjin que se aproximar foi um impulso.

Ele não chegou tão perto, sem nem entender por que se escondeu atrás de uma caçamba de entulho, talvez para não atrapalhar um momento que parecia tão íntimo. O homem à frente do que parecia Hyunjin estava encostado a um andaime, as calças abaixadas, a cabeça para trás e uma das mãos agarrada aos cabelos do outro, mantendo-o no lugar porque seus quadris se moviam para frente e para trás.

Felix não conseguiu ficar por muito tempo escondido nem olhando. Eram muitas as hipóteses em sua mente, mas as piores vinham com mais força quando pensava no lugar insalubre onde os outros dois estavam, a hora, o fato de não ter nenhum lugar propício ao divertimento por perto para lhe dar a desculpa de que eram duas pessoas com tesão demais e pouco tempo para chegarem a um lugar mais reservado, longe dos olhos de qualquer desavisado.

Ele foi para casa tomar um banho longo e descansar, mas não conseguiu fechar os olhos. E se Hyunjin não voltasse? E se voltasse, mas todo roxo? E se sofresse algum tipo de violência que o impedisse de se levantar? E se fosse morto? Felix deveria ter permanecido até o final, deveria tê-lo esperado mesmo sem querer olhar, apenas para zelar pela segurança do amigo, mas não.

Preferiu se poupar enquanto Hyunjin, ao contrário, estava ajoelhado no chão cheio de terra e areia onde um dia fora uma escola de merda cuja grama nunca era cortada ou regada, muito menos o conhecimento dos alunos.

Quando o barulho da porta se abrindo ecoou pelas paredes, Felix se levantou em um pulo, os protestos de seu corpo cansado foram ignorados para colocar seus olhos sob o corpo intacto de seu amigo de olhos arregalados com a movimentação súbita àquela hora da madrugada.

“Era você no terreninho?”, Felix perguntou sem rodeios, sem nem esperar Hyunjin dar alguns passos para dentro do conforto de casa.

“Quê?”

“Não mente pra mim.” Suas sobrancelhas se juntaram em súplica, ele preferiu não descer os olhos aos ombros retesados de Hyunjin para poupar a si mesmo da resposta silenciosa, mas era difícil.

“Olha”, Hyunjin disse com as mãos espalmadas para baixo como se lhe pedisse calma, andando em sua direção. “Não quis te contar antes, porque achei que você fosse surtar, mas…”

Felix o interrompeu com uma risada, mesmo sem achar graça de nada naquela situação. Como assim surtar? Ele não podia surtar? Não podia se preocupar? Não podia achar que era um absurdo?

“Por favor, Yongbok, eu preciso de dinheiro. Não posso deixar você se matar de trabalhar naquela merda daquele lugar e viver as custas do seu dinheiro que já não é muito.”

“Mas dá pra gente viver!”

“Não dá!” Hyunjin aumentou o tom de voz. Silêncio. Felix balançou a cabeça uma, duas, três vezes por não saber o que falar. “Você sabe que eu preciso mandar dinheiro pra minha irmã, que meu pai tá fodido. Eu não quero ser ingrato com você, mas não posso fazer isso com você. Chega!”

“E você vai fazer com você mesmo?” Foi Felix quem se aproximou dessa vez, uma das mãos empurrou Hyunjin pelo peito com força, mas seus pés foram rápidos o bastante para alcançá-lo e ainda lhe desferir um soco no braço. “É isso que você quer? Chupar pau em troca de uma miséria?”

“Não encosta em mim!”, Hyunjin gritou.

“Só quem te paga pode encostar em você, é isso?” Felix ergueu uma das sobrancelhas.

“É isso mesmo. Se quiser encostar em mim, tem que pagar”, Hyunjin disse, empinando o nariz para olhá-lo ainda mais de cima. “Não acha que vale a pena, Yongbok? Você sabe que eu já te fiz gozar antes.”

Felix se afasta para ir à mesa da cozinha onde está sua carteira. Não há muitas notas valorosas, são mais seus trocados de gorjeta, mas ele enche a mão com elas e as toca todas em Hyunjin.

“Escroto do caralho.”

Dois meses depois, ele estava arrastando Hyunjin pela X com a esperança de que fosse um lugar mais seguro para os dois do que o bar e as ruas. Acostumado a lidar com seus próprios clientes e dinheiro, Hyunjin não demorou a se acostumar a Kyungho e muito menos ao local mais luxuoso do que qualquer boate onde colocaram os pés.

Parece uma maldição pensar que, em algum momento, Felix imaginou aquele como um lugar de libertação para todos os seus problemas, principalmente pela maioria deles ser relacionado ao dinheiro. Foram contos de fada que contou para si mesmo.

Ainda assim, respira fundo ao pegar a chave de um dos quartos do terceiro andar na mão de Kyungho. Os músculos de sua perna não colaboram para que ande e, por isso, arrasta os pés pelo assoalho, mesmo não sendo o suficiente para subir as escadas.

Repete a si mesmo sobre o quão idiota está sendo em uma situação que não é surpreendente nem para ele. Sabia que isso aconteceria e se preparou psicologicamente para não travar naquele momento.

Seus pés, portanto, parecem congelados quando chega ao quarto com o número um acima da porta, escrito em algarismos romanos como se, assim, pudesse impor respeito em um lugar de violações.

Felix seca as mãos antes trêmulas na calça antes de destrancar a porta. Ele entra em silêncio, na ponta dos pés, uma nova chave do lado de dentro faz seu coração pular no peito de ansiedade, medo, hesitação. Respira fundo. O barulho da pia no banheiro o deixa confortável para se trancar no quarto mais uma vez e tentar se convencer de estar em um lugar familiar.

A água para de correr no cômodo ao lado, e Felix ajeita o cabelo com uma das mãos na tentativa de sua aparência não entrar em conflito com o turbilhão que se passa em sua mente. O homem entrando no quarto lhe é conhecido, mesmo sem o ver há dias. É difícil esquecer o corpo no lugar mesmo com a idade aparente e os cabelos grisalhos.

Felix não deveria, mas se surpreende ao ver Junseo em sua frente. Achava ser mais difícil encontrar gente rica homofóbica no armário, mas estava enganado. Ele engole as perguntas que gostaria de fazer e se aproxima, as mãos vão para os ombros de Junseo, passam por seu peito, chegam no primeiro botão de sua camisa social para começar a abri-la quando diz:

“Quanto tempo…”

🔴

As mãos de Hyunjin estão geladas quando ele passa a mão pelo seu rosto e joga seus cabelos para trás. A voz dele leva seu nome, mas Felix mantém os olhos fechados e tenta empurrar o outro, porque não quer levantar, não tem nem vontade de falar ou coragem de encarar outrem.

O piso do chão também é gelado, mas confortável mesmo duro. Hyunjin se afastar é um alívio para sua cabeça pulsando de dor, só não dura muito tempo.

Ele levanta Felix pelos ombros, à força, coloca-o sentado e isso o obriga a abrir os olhos. Seu foco vai logo para o copo d'água na mão de Hyunjin, seu estômago se revira, o enjoo quer voltar, ele ainda está fraco e não quer nada, nem a água e muito menos a presença de outra pessoa.

“Toma aqui”, Hyunjin diz com uma voz baixa, perto demais de seu ouvido. Felix se permite negar com um aceno de cabeça e nada mais. “O que você tá sentindo?”

“Não sei…”, Felix murmura, a garganta arranhando. “Tô com um mal estar…”

Dor? Não. Quer dizer, só na cabeça. E Hyunjin não comenta sobre o cheiro azedo que permanece no banheiro depois de Felix se agarrar ao vaso sanitário e vomitar, mas se esquecer de puxar a descarga por já ter se arrastado até o chão a fim de se deitar. Também não comenta sobre sua calça e cueca sujas de sangue perto do boxe.

Hyunjin passa o resto da manhã ao seu lado, sentado no chão do banheiro, mas sai para buscar um remédio ou outro para Felix. Ele se obriga a tomar, porque está cansado de se sentir doente, mas a água o esfria por dentro de um jeito estranho, como se seu próprio corpo fosse 70% composto por óleo.

Ainda assim, Hyunjin continua lhe dando água e comida e lhe dá mais um banho, como se Felix não tivesse passado a noite anterior no chuveiro desde o momento em que pôs os pés dentro de casa. Hyunjin também se deita com ele na cama, abraça-o, faz carinho no seu cabelo e deixa beijos no seu topo de sua cabeça.

Às vezes, Felix chora, o rosto escondido no peito de Hyunjin, as lágrimas molhando a blusa surrada do outro que um dia foi preta e não tinha nenhum buraco. De certa forma, ele se agarra a Hyunjin por não querer deixá-lo ir embora.

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“Deixa de ser teimoso!”, Hyunjin exclama.

Ele passa uma das mãos pelos cabelos e continua andando de um lado para o outro, às vezes ri do nada, a cabeça virada para trás, os olhos focados no teto sujo do lugar que ambos chamam de lar.

Sentado no sofá com uma caneca de chá esquentando as mãos, Felix assiste de camarote à performance de Hyunjin. Ele entende seus motivos, porque faria o mesmo, porque já fez, mas, depois de quase duas semanas em casa, entre idas e vindas, precisa voltar ao trabalho de vez.

Não foram poucas as vezes em que Hyunjin lhe pediu um pouco mais de paciência, lhe pediu para esperar, descansar, conseguiria dar um jeito nas contas sem a ajuda de Felix, mas não é justo sobrecarregá-lo.

“A gente tá junto nessa.”

Não é uma tentativa de acalmar Hyunjin, não agora. Quando Kyungho disse que havia um cliente para os dois, ao mesmo tempo, Felix aceitou sem pensar duas vezes. Tinha certeza de que não seria como quando, alguns dias depois de Junseo, voltou para casa sem conseguir andar direito com seu estômago revirando em náusea.

Sabendo que Hyunjin estaria presente, havia uma sensação de segurança estranha que lhe permitia até mesmo não se sentir bem caso seu corpo lhe cobrasse com juros o pagamento da negligência consigo mesmo.

“Isso é loucura…” Hyunjin respira fundo. “Como é que eu vou te deixar sair pra trabalhar assim?”

“Chega, tá?”, Felix pede antes de beber um gole do chá verde que Hyunjin tem lhe dado todo dia na tentativa de abrir seu apetite. “Não vem com essa palhaçada agora. Esse é meu trabalho…”

“Que você não consegue fazer!”

“E eu não vou tá sozinho, então fica tranquilo que vai dar tudo certo.”

Mesmo com Hyunjin reclamando por todo o tempo que têm para se arrumar e chegar à boate, Felix tenta respirar fundo e não sofrer em antecipação. Seu coração parece prestes a estourar no peito a qualquer momento, sua vontade é de dar meia volta e ir embora para nunca mais voltar.

Cruzar com Kyungho é, inclusive, uma provação, em especial quando ele se aproxima de Hyunjin e lhe diz que está ansioso para ouvir elogios em relação a seu trabalho. Desta vez, pelo menos, ele cumprimenta Felix com um aceno de cabeça e um sorriso educado o bastante para não acabar com o pouco de paz de espírito que lhe resta.

Ainda assim, é difícil não se sentir injustiçado depois de tudo por que passou para não perder seu trabalho. Não surpreende, Hyunjin parece ser o único que tem algum tipo de simpatia por Kyungho no ambiente de trabalho, mas é difícil ser alvo de suas indiretas. Por isso, Felix se foca em prestar atenção nas instruções que seu chefe lhes dá para que possam chegar ao local pré-estabelecido pelo cliente.

O frio percorrendo sua espinha é resultado do medo do desconhecido, do receio de nunca ter precisado entrar no banco de trás de um carro com motorista para irem a um lugar que não sabe qual é. Se Hyunjin também está nervoso, não demonstra. Ao invés disso, segura uma de suas mãos e entrelaça os dedos aos seus.

Eles saem de Gangnam em um carro preto e em silêncio. Felix não se incomoda, porque a música baixa e o balançar do carro o relaxam. Ele poderia dormir se não estivesse tão nervoso com tanta falta de respostas, por não saber para onde vão, com quem vão estar, por sua única certeza ser estar com Hyunjin.

O caminho ainda é longo e, por isso, de vez em quando cochila por no máximo cinco minutos antes de quase bater com o queixo no próprio peito e despertar de olhos arregalados achando estar em seu destino. Hyunjin, por outro lado, olha para o outro lado, focado na paisagem que corre pela janela.

Quando o carro para, pouco mais de uma hora depois, o motorista abre a porta para os dois descerem antes de se direcionar à recepção na frente. Não demora para voltar e entregar um cartão de acesso para cada um em um envelope semiaberto com o número 907 grifado embaixo.

“Não acredito”, Hyunjin diz assim que abre a porta com seu cartão e solta uma gargalhada.

Felix o empurra para poder entrar também, e deveria ser surpreendente, mas estranhamente seus ombros relaxam ao ver Chan sentado em uma poltrona com um notebook no colo.

“Felix tava quase morrendo por não saber quem era, e eu nem podia dizer nada, porque achei que fosse um estranho.” Hyunjin ri antes de ir até Chan.

Por mais que Felix saiba que haja uma intimidade entre os dois por não ser a primeira vez que Chan solicita Hyunjin na sua cama, não consegue controlar suas sobrancelhas de se erguerem ao vê-lo colocar o notebook de Chan na escrivaninha do quarto antes de se sentar no seu colo e lhe dar um selinho. Não dá para perder de vista a maneira como uma das mãos de Chan aperta a cintura de Hyunjin, puxando-o mais para cima enquanto a outra o segura pela coxa.

“Desculpa ter assustado vocês, não era minha intenção”, Chan diz. Felix prefere vê-lo daquele jeito, sem terno e gravata, de calça jeans e blusa preta como se, assim, pudesse ser mais acessível, por mais que agora perceba como o acha atraente de qualquer jeito. “Eu pedi um vinho pra vocês enquanto termino de responder uns e-mails, podem ficar à vontade.”

“Trabalha demais…” Hyunjin reclama antes de rolar os olhos, mas sai do colo de Chan para alcançar a garrafa e as taças em cima da mesinha perto da cama.

Ele serve os três, mesmo agora não parecendo se importar com Chan voltar sua atenção ao notebook. Felix ainda está processando o momento, mas não pensa duas vezes antes de se sentar na cama quando Hyunjin o puxa pelo punho para ficarem lado a lado no colchão enquanto tomam seu Bordeaux.

“Tá tudo bem?”, Hyunjin pergunta baixo depois de olhar para Chan de relance para ter a certeza de que sua concentração não está nos dois.

“Tá, sim, eu só tô me acalmando do susto…”, ele diz e dá um gole no vinho em sua taça.

“Tá nervoso?”

Felix molha os lábios para pensar em sua resposta. Estaria nervoso se Chan fosse um desconhecido, um cliente com quem nunca havia trocado mais de duas palavras. Entretanto, havia uma ansiedade incomodando-o.

“Não nervoso, mas sei lá…”

Hyunjin solta uma risada baixinha como se estivessem trocando segredos. Felix não entende por quê, mas sorri para ele, grato por perceber que o bom humor de seu amigo o ajuda a relaxar cada vez mais.

“Chan deve tá radiante por ter nós dois aqui, sabia?”, Hyunjin diz. “Ele tá tentando transar com você há um tempão… Tava enchendo o saco já.”

O rolar de olhos de Hyunjin o faz franzir o cenho antes de chamar sua atenção com uma apertada em sua coxa.

“Comigo ou com nós dois?”, ele pergunta com uma das sobrancelhas erguidas.

“Bom ponto.”

A risada de Hyunjin o faz sorrir, mas ele se foca em tomar mais do vinho enquanto Chan trabalha. Hyunjin também não fica parado por muito tempo, ele logo liga a televisão e vai passando os canais a fim de achar um que atraia sua atenção o suficiente para deixá-lo como música de fundo.

Felix não deveria se surpreender pelo controle ser deixado de lado quando as imagens de De olhos bem fechados invadem a TV. Hyunjin é tão previsível que chega a ser ridículo, mas o destino também parece querer ajudar.

“Sério?”, Felix pergunta.

“Você sabe que eu adoro esse filme, ele me deixa inspirado.”

Inspirado não seria a palavra que Felix usaria, mas prefere não dizer nada. Ao invés disso, apoia as costas na cabeceira da cama assim que Hyunjin o puxa e o deixa se aconchegar ao seu corpo para verem o começo do filme.

Relaxado na cama e fazendo cafuné em Hyunjin, o sono chega sem nenhum controle seu, mas não dura por muito tempo. Ele não acorda porque Chan termina de trabalhar, o notebook ainda está ligado, mas o barulho do chuveiro é o suficiente para lhe avisar que ainda não é a hora. O que o acorda é uma das pernas de Hyunjin por cima das suas e a ereção dele pressionada em sua coxa.

Um “puta que pariu” sonolento escapa de sua boca com o arrepio percorrendo seu corpo e, por isso, precisa molhar a garganta seca com o que resta de vinho na taça presa em sua mão frouxa.

“Foi mal”, Hyunjin diz baixo antes de se afastar, mas Felix o segura pela coxa com a mão livre para impedi-lo.

“Fica.”

Por mais que Hyunjin o olhe por alguns segundos como se não tivesse certeza do que ouviu, joga o quadril contra a perna de Felix para esfregar seu pau contra ele. Felix deixa sua taça no chão ao lado da cama, com cuidado para não se mover muito. A de Hyunjin não está em nenhum lugar à sua vista.

Ele se vira na direção do outro em seguida e coloca uma das pernas entre as de Hyunjin antes de pressionar sua coxa contra a ereção dele. Há o som de um ofego ao pé do seu ouvido, baixo, mas o suficiente para fazê-lo arrepiar da cabeça aos pés.

Sua vontade é de puxar Hyunjin para ainda mais perto e enfiar uma das mãos dentro da sua calça para começar a masturbá-lo. Não seria problema nenhum se a presença de Chan não fosse uma constante na sua mente. Por mais que tenham suas vontades, ainda estão ali para trabalhar, e deixar Chan satisfeito é a tradução de um bom trabalho naquela noite.

Hyunjin pode não estar movido pela racionalidade pela maneira como esfrega o pau contra sua coxa, mas Felix, mesmo segurando o outro pela cintura para conduzi-lo no seu ritmo, está.

Ele quer tirar as roupas, ou pelo menos a camisa, porque o quarto está quente demais. Também quer esperar por Chan, que parece nunca chegar, e, ainda assim, toma a liberdade de correr sua mão para frente do corpo de Hyunjin, o dedão passando pela barra de sua calça antes de abrir botão e zíper.

“Não, não, Felix”, Hyunjin diz baixo, as unhas se ficando no seu braço em desespero quando seus corpos se descolam um do outro.

“Shhhh…”, Felix sussurra em seu ouvido. Ele mantém o quadril para trás, longe do alcance, para conseguir abaixar a calça de Hyunjin junto com a sua cueca e colocar seu pau para fora.

Hyunjin o chama pelo nome mais uma vez, duas, três enquanto Felix fecha a mão na ereção dele. Ele começa a masturbá-lo devagar, tão devagar que os gemidos que preencher o quarto são um misto de prazer e desespero. Felix chega a apertá-lo de leve, com cuidado, apenas para ver seus lábios tremerem e sentir seus dedos apertando-o.

O barulho de porta se abrindo o obriga a parar por um momento, porque precisa se situar no local onde está, lembrar de novo por que está naquele quarto de hotel. Entretanto, o “por favor” lânguido de Hyunjin ao pé do seu ouvido o faz voltar a masturbá-lo mesmo com o som dos passos se tornando cada vez mais alto.

“Felix”, Chan chama.

Há uma embalagem de lubrificante na sua mão quando Felix ergue a cabeça para olhá-lo. Ele parece mais confortável com sua calça jeans e uma camiseta de mangas cavadas, os braços à mostra como um lembrete constante de que Felix sente uma atração irritante a ponto de não conseguir desviar seu olhar.

“Você prefere ser passivo ou ativo?”

Mesmo sabendo por que está ali, a pergunta tão direta o surpreende tanto que sua mão para de deslizar pelo pau de Hyunjin. O muxoxo preenchendo o quarto o lembra de que ele não deveria cessar seus movimentos de maneira brusca, mas não consegue conter uma risada por conta do desespero do outro.

Chan nem lhe dá tempo para responder, ou talvez Felix esteja distraído demais, e se abaixa atrás de Hyunjin na cama. Ele chama sua atenção com um “Hein?” baixo, logo abafado pelo gemido que Hyunjin dá, um sorriso tão óbvio surgindo no seu rosto de olhos fechados que Felix faz uma boa ideia de onde os dedos lubrificados de Chan foram parar.

Ele ainda fica sem saber o que dizer. Não é o tipo de pergunta a ser feita, não interessa sua preferência, os desejos do cliente vêm na frente dos seus sempre, ninguém precisa lhe dizer. Por isso, hesita por mais alguns instantes antes de dizer:

“Eu sei que é difícil de acreditar, mas prefiro ser ativo.”

Sua respiração para quando Chan balança a cabeça em negação. Por mais irreal que pareça até para ele mesmo, cruza a sua mente a hipótese de ouvir que não importa ou que sua resposta estava errada.

“Por que difícil de acreditar? Ninguém anda com suas preferências escritas na testa.”

“Ótimo”, Hyunjin os interrompe, a voz seca de tanto ofegar. “Já que é assim, alguém… pode me foder?”

Tanto a risada de Felix quanto a de Chan são baixas. Por mais que Felix sinta certo prazer no desespero do seu próprio amigo, também não pode negar que gostaria de dar um fim às suas súplicas da maneira mais eficiente possível.

“Tira a roupa, então”, Chan diz.

Por um momento, todos eles se afastam um do outro para Hyunjin poder se livrar de qualquer resquício de pedaço de pano em seu corpo em tempo recorde. Felix também se levanta para ajudar Chan a tirar a camiseta sem que precise se sujar com as próprias mãos, ele até aproveita para descer as mãos pelo braço do outro e arriscar um olhar para o abdômen trincado.

Portanto, não oferece resistência nenhuma quando Chan se inclina na sua direção e puxa seu lábio inferior entre os dentes antes de envolvê-lo em um beijo. É difícil negar seu desejo quando pode se entregar sem risco de oferecer nenhuma represália por se doar demais às próprias vontades.

Ele também aproveita para abrir a calça de Chan e, pela falta de movimento tanto seu quanto dele, acredita que Hyunjin o ajude a tirá-la. Logo, também não se incomoda com o ângulo estranho em que Chan se ajeita antes de ofegar contra seus lábios. Assim que se afasta, Felix pode ver que Hyunjin arrasta a língua pelo pau de Chan até sua glande enquanto mantém os olhos focados nos dois.

“Você não se importa de me foder, né?”, Chan pergunta antes de estender a embalagem de lubrificante na sua direção.

Felix a toma em mãos antes de se livrar de sua camisa também, em um movimento automático, como se alguém o controlasse e houvesse ligado um botão nas suas costas. Ele não se dá tempo o suficiente para tirar o resto das roupas antes de se ajoelhar atrás de Chan, deixa a embalagem cair no chão ao seu lado e segura a bunda à sua frente para abrir passagem para sua língua.

O gemido de Chan o arrepia e a maneira como uma das mãos dele segura seus cabelos por trás lhe dá ainda mais tesão e vontade de fazê-lo gemer estando entre ele e Hyunjin. Mesmo assim, não dura muito tempo.

Ele se levanta abrindo a calça e a chutando junto com sua cueca para longe. Não sabe de onde Chan tira uma camisinha e a abre, mas a desenrola no próprio pau enquanto, um passo mais afastado, pode olhar para o outro de costas, ainda sendo chupado por Hyunjin, a cabeça pendendo de leve para trás.

É fácil imaginar seus olhos fechados, os lábios entreabertos ofegando baixo e, por mais que possa mudar de posição apenas para olhar seu rosto por um segundo, sente-se seguro com os olhos fixos em suas costas, nos seus ombros de trapézio proeminente.

Quando se empurra para dentro de Chan, o gemido vem tanto dele contra o do outro, porque Chan se aperta contra ele, quente, firme. Felix sempre achou que seria difícil ser ativo com um cliente por não ter certeza de poder ficar duro durante o tempo necessário, mas essa possibilidade nem lhe cruza a mente.

“Hey…” Hyunjin chama a atenção dos dois, uma expressão emburrada em seu rosto. “Tem certeza de que vai conseguir me foder hoje, Chan? Ou eu vou ter que pedir pro Felix?”

Uma das mãos de Felix segura Chan pela cintura enquanto ele se empurra para dentro do outro. Não diminui seu ritmo, não se afasta, não se importa se Chan não conseguir formular uma resposta coerente para Hyunjin.

“Foi pra isso que você me chamou aqui? Pra ficar assistindo ele te fodendo e me deixar passando vontade?”

Com o silêncio diante das perguntas, Felix testa a habilidade momentânea de Chan de dar respostas e fecha os dedos da sua mão livre nos cabelos do outro antes de puxar sua cabeça para trás. Os lábios dos dois se chocam, as línguas se embrenham uma à outra e o gemido que se desprende da boca de Chan é o suficiente para Felix se afastar de novo e deixar um tapa na bunda dele.

“Porra…”, Hyunjin solta. “Por que você nunca me fodeu assim?”

Felix não sabe se é uma pergunta séria e prefere não pensar nisso pelo seu próprio bem, ainda mais quando os dois nunca fizeram nada além de masturbarem um ao outro. Entretanto, não consegue conter o arrepio que percorre seu corpo da cabeça aos pés à menção de ir para cama com o amigo.

“Fica de quatro”, ele ordena Hyunjin, sem perder o ritmo das estocadas em Chan. “Ele vai te foder, sim, não vai?”

Chan assente com um aceno de cabeça por mais tempo que o necessário, mas Hyunjin sorri. Felix poderia continuar se movendo contra o corpo de Chan, entrando cada vez mais fundo, entretanto prefere parar dentro dele enquanto Hyunjin pega camisinha e lubrificante.

Felix não espera que Chan empurre os quadris contra os seus como uma resposta tão rápida à sua falta de movimentos e, por mais surpreso e satisfeito que esteja com aquela reação, segura-o pela cintura com as duas mãos a fim de impedi-lo de se mover. Por sorte, Hyunjin não perde tempo ao desenrolar a camisinha no pau de Chan e lambuzá-lo de lubrificante antes de se posicionar de quatro na cama bem em frente aos dois.

Não dá para saber se é proposital, mas Felix sente o corpo esquentar ainda mais por ver Hyunjin na cama daquele jeito, de quatro, as pernas tão abertas que Felix é obrigado a sair de dentro de Chan para admirar Hyunjin.

Quando olha para Chan, sua impressão é de que compartilham o mesmo olhar na direção de Hyunjin. Talvez, por isso, Chan não solte nem um muxoxo em reclamação antes de esfregar a própria ereção entre a bunda de Hyunjin.

Felix não se considera nem um pouco voyeur, nunca se considerou, mas poderia olhar para os dois naquela posição por horas sem levantar um músculo para se aproximar e se juntar a eles. Logo, continua onde está para poder observar a maneira como Chan se empurra para dentro de Hyunjin devagar, os gemidos dos dois tomando forma em seguida.

Quando dá a volta para olhá-los de frente, sua vontade é de beijar os lábios inchados e entreabertos de Hyunjin, em especial quando Chan lhe puxa pelos cabelos e cola as costas de Hyunjin ao seu peito, os dois encarando-o de volta em um misto de desafio e convite ou talvez os dois. Ele se contém para não beijar ninguém além de Chan, por não saber qual seria sua reação se o visse agarrando alguém sem ser ele próprio. No momento, seus desejos são tantos que não se importa em precisar deixar um deles para trás.

“Felix.” O chamado o desperta para voltar a encarar Chan e Hyunjin. “Volta pra cá”, Chan pede, e só horas mais tarde, no dia seguinte, Felix vai se lembrar como, naquele momento, era um pedido ao invés de uma ordem.

Na hora, Felix, enfim, aproxima-se e deixa um beijo no ombro direito de Chan, outro no ombro esquerdo e usa mais um pouco do lubrificante antes de voltar a se empurrar para dentro de Chan por inteiro, de uma só vez. Não precisa conter o próprio gemido nem o de ninguém, é uma coincidência fechar os dedos nos cabelos na nuca de Chan e abafar os ofegos de ambos com um beijo.

Felix não precisa se mexer com a maneira como Chan joga os quadris para frente e para trás na sua direção ou na de Hyunjin. De vez em quando, ele o beija, em outras vezes, assiste ao beijo dos outros dois, mas há sempre o barulho de gemidos e ofegos e pele batendo contra pele, o cheiro de suor se impregnando no quarto inteiro.

Chan é o primeiro a gozar. Suas pernas trêmulas fraquejam, e Felix o segura com um dos braços em sua cintura por mais que saiba que Chan não vai cair. Entretanto, ele se retira de dentro do outro com cuidado, devagar.

“Você consegue foder o Hyunjin?”, Chan pergunta ao se jogar na cama ao lado de Hyunjin, e sua vontade é de dizer não, não consegue.

Contrariando seus pensamentos mais racionais, Felix assente antes de aproveitar Hyunjin deitado agora de barriga para cima e erguer as pernas dele para apoiá-las em seu peito. Felix até procura, mas não acha resquícios de hesitação no olhar de Hyunjin quando ele segura sua cintura e o puxa para perto.

Ele ainda precisa se afastar para pegar uma nova camisinha e quase se perde com o beijo que os outros dois trocam nesse meio tempo, mas logo apoia uma mão de cada lado no colchão entre o corpo de Hyunjin antes de estocar nele com força.

Não é o gemido alto de Hyunjin que enche Felix de tesão ainda mais, é o fato de ele encher a boca para soltar um “porra” logo em seguida e ainda tatear a cama até alcançar Chan para se segurar a ele.

Felix deixa seu corpo suado escorregar contra e para dentro do outro até depois de Hyunjin gozar sujando os dois. Deveria parar, mas o soluço doloroso de Hyunjin, fruto de tanto estímulo, faz com que empurre seu pau para dentro dele com mais força, mais vontade e não por muito tempo.

Ele se afasta da cama e tira a camisinha em um movimento rápido antes de gozar na própria mão, com um arfar lânguido, e se sente um idiota por nem ele nem Hyunjin pensarem duas vezes antes de se jogarem em Chan quando ele abre os braços na direção dos dois.

Por mais longa que a noite seja, as horas naquela cama se encurtam no emaranhado de pernas, braços e beijos que os três se tornam de novo, de novo e de novo até o sol surgir do lado de fora do quarto para lembrá-los que, em algum momento, mundos fantásticos vão ruir.

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O barulho de alguém batendo na porta faz Felix pular do sofá mais pela surpresa do que pelo susto. Ele fica alerta, porque a avó e a irmã de Hyunjin sempre avisam quando estão a caminho e os vizinhos sabem que a campainha não funciona, então costumam bater palmas e chamar por qualquer um dos dois aos gritos.

Em sua mente, surge a possibilidade de ser Kyungho por conta de todas as vezes em que Hyunjin o convenceu a não ir ao trabalho naquela semana, certo de que seu problema era por ter se colocado na cama entre ele e Chan quando ainda não estava bem para pegar um novo cliente.

Felix o assegurou de que o problema não era aquele. Não era mesmo. Não havia qualquer resquício de remorso ou culpa, em sua mente ou seu corpo, por ter passado horas naquele quarto de hotel em Gunpo. Havia, porém, uma inquietação o questionando o tempo todo por que não se sentia com um cliente quando estava com Chan, por que o desejava como se o conhecesse de qualquer outro lugar não relacionado ao trabalho.

E o pior era saber que, se Chan ligasse para ele pedindo por mais uma noite, Felix aceitaria sem pensar duas vezes, como se ele fosse um ex-namorado do qual não conseguia se livrar mesmo depois de anos de término.

É essa esperança ridícula que lhe dá forças para ir à porta, porque talvez seja Kyungho lhe dizendo que precisa voltar ao trabalho por ter clientes à sua espera, principalmente Chan. Contudo, o homem atrás da porta faz seu cenho franzir por confusão e surpresa.

“Tudo bem, Felix? Posso entrar pra conversar com você?”

Ele assente antes de lhe dar passagem. Há um sorriso simpático no rosto de Jisung, mas Felix não deixa de perguntar a si mesmo se Chan morreu, se Minho morreu, talvez, e ele procurou céus e terras por seu endereço para servir de mensageiro, o tipo de mensageiro apto a morrer por carregar mensagens ruins demais.

“Desculpa a bagunça”, Felix fala, mas quer dizer pobreza ao invés disso. “Pode sentar aqui.” Ele aponta para o sofá onde estava mais cedo e pega seu cigarro de maconha para apagar no cinzeiro em cima da televisão.

“Não quero atrapalhar muito, eu vim pra falar com você rapidinho mesmo.”

“Não atrapalha, não… Quer alguma coisa? Uma água, sei lá?”

Jisung solta uma risada antes de bater com uma das mãos no assento livre ao seu lado no sofá. Felix se senta, ainda nervoso, talvez ninguém tenha morrido, mas ele esteja ali para lhe ameaçar caso Chan volte a procurá-lo, com um discurso de que Felix é uma ameaça à reputação de qualquer um.

“Eu preciso de alguém de confiança pra auxiliar minha secretária e lembrei que você fala inglês.”

As sobrancelhas de Felix se erguem em surpresa. De todas as hipóteses possíveis, a última seria a oferta de um emprego, mas há um sentimento de lisonja enchendo seu peito enquanto encara Jisung em uma tentativa de ler sua mente para saber se a proposta é mesmo tão séria quanto parece.

“Isso é sério? Só por que eu falo inglês?”

“E porque você é de confiança também.” Jisung dá de ombros, mas abre um novo sorriso. “Minho me lembrou que a gente tava conversando sobre você ser australiano também no dia em que fomos pra X com o Chan. Ele gostou de você e do Sam, então achei que seria uma boa ideia…”

Felix assente porque ele também gostou de Minho de certa forma, por mais que não tenham se falado tanto. De qualquer forma, gosta de se lembrar do marido de Jisung de vez em quando, da forma como dançaram junto com Hyunjin como se não houvesse nenhuma barreira social entre os três, como se Chan não os pagasse para transar enquanto Minho brinca de marido e marido com um ricaço.

O problema não é o emprego. Parar de trabalhar para Kyungho seria maravilhoso em qualquer condição, mas é difícil pensar em deixar Hyunjin para trás naquele lugar, ainda trabalhando com o que Felix odeia, mesmo sabendo ser necessário.

Se Hyunjin saísse primeiro como aconteceu da outra vez, no bar, seria mais fácil para Felix. Não se importaria em ajudar a família de Hyunjin mais uma vez e escolher as contas de casa para pagar ou não enquanto a dívida no banco cresce por precisarem comer.

Só não quer mais ver Hyunjin passar pelas mesmas agruras, não quer vê-lo se matar pelo que não vale a pena. Por isso, é difícil dizer não, mas é ainda mais difícil dizer sim.

“Eu sei que provavelmente não é a resposta que você esperava, mas eu preciso pensar”, Felix diz.

“Eu sei que não é da minha conta, mas queria saber por quê.”

Felix molha os lábios a fim de tentar ganhar tempo na sua resposta. Pode parecer bobo para outras pessoas, pode parecer lealdade demais em relação a um amigo, mas os dois compartilham casa e vida. Estranho seria se Felix não tivesse tamanha consideração por Hyunjin.

“Preciso conversar com o Sam antes”, Felix diz antes de respirar fundo. “A gente mora junto, né? E eu não queria deixar ele sozinho. Quer dizer, não queria deixar ele trabalhando sozinho lá.”

Jisung assente com um aceno de cabeça e deixa alguns tapinhas amigáveis nas costas de Felix para, então, estender o celular na sua direção.

“Coloca seu número aí pra gente poder entrar em contato e decidir o que fazer”, ele diz. “Vou ver se consigo arrumar alguma coisa pra ele também, mas não posso prometer nada.”

Há um sorriso no rosto de Felix quando entrega o celular de Jisung de volta com seu número na lista de contatos. Jisung é eficiente em ligar para Felix e lhe ordenar que também salve seu contato.

Eles se despedem com um aceno estranho com a cabeça, como se nunca tivessem se encontrado antes, mas Felix não se importa. De volta ao seu apartamento minúsculo, ele se joga no sofá de novo e abre seu celular para observar a chamada perdida.

Quando Hyunjin volta para casa, Felix está arrumando a mesa para colocar algo no estômago, mas é obrigado a parar ao ter dois braços em volta da sua cintura, peito colado às suas costas, testa apoiada em um de seus ombros.

“Tá tudo bem?” Ele coloca uma das mãos por cima das de Hyunjin.

“Uhum…”

O abraço é frouxo o suficiente para Felix se virar para encará-lo. Seria perfeito se a vida real fosse que nem os romances água com açúcar e um olhar não fosse ambíguo o bastante para lhe informar tudo o que uma pessoa sente. Assim, de perto, Hyunjin parece bem, mas não dá para garantir se não quiser falar.

“A gente precisa conversar.”

“É coisa séria?” Hyunjin ergue as sobrancelhas e se afasta para colocar uma sacola de plástico em cima da mesa. “Trouxe pra gente comer.”

É tteokbokki. Hyunjin tem essa mania de lhe trazer comida sempre que acha que Felix não está muito bem. Se o dinheiro é pouco, faz questão de cozinhar algo gostoso o bastante mesmo com suas habilidades culinárias duvidosas.

Ele aproveita para pegar duas latas de cerveja na geladeira, porque certos tipos de comida pedem, e cerveja é um item na lista de compras que nunca pode faltar. Hyunjin até sorri na sua direção ao vê-lo se sentar na mesa com as latas suadas de tão geladas.

“É sério, mas não aconteceu nada grave”, ele responde enfim.

“Tô preocupado mesmo assim.”

Por mais que não adiante nada, Felix nega com um aceno de cabeça e um sorriso enquanto abre sua cerveja para dar um gole grande, uma tentativa de também engolir coragem para falar. Hyunjin, ao contrário, continua a olhá-lo sem nem pegar na lata à sua frente.

“Jisung teve aqui hoje”, Felix começa.

“Que Jisung?”

A pergunta inesperada lhe causa uma risada, mas, por sorte, Felix não precisa elaborar sua resposta por muito tempo para Hyunjin perceber de quem se trata.

“E ele queria o quê?” Ele ergue uma das sobrancelhas, o cinismo escorrendo de sua voz.

“Ele disse que precisa de alguém pra auxiliar com inglês na empresa dele e lembrou quando a gente tava conversando sobre eu ter nascido na Austrália.” Felix encolhe os ombros antes de dar mais um gole na sua cerveja. “Ele basicamente veio pra me oferecer um emprego.”

Hyunjin assente e enfim abre sua lata com mais atenção do que o gesto tão simples merece. A vontade de Felix é de sacudi-lo e obrigá-lo e dizer qualquer bobagem, o primeiro pensamento na ponta da sua língua, sem tempo de pensar muito, mas não precisa.

“Você vai aceitar?”

“Eu não quis fazer nada antes de falar com você. Eu falei pro Jisung que não queria te deixar sozinho.”

“Você precisa aceitar.”

“E eu vou te deixar sozinho trabalhando naquele lugar como?”

“Felix, pelo amor de deus!” Hyunjin respira fundo enquanto balança a cabeça negativamente como se Felix fosse uma criança merecendo ser repreendida. “Nem faz sentido você continuar nessa merda se tem essa chance de trabalhar num lugar decente.”

“E você?”

“Eu me viro”, Hyunjin diz e dá de ombros. “Você sabe que pra mim não é nenhuma tortura aturar o Kyungho, ele me trata bem.”

“Até o dia que resolver não tratar.” Felix rola os olhos e dá um gole em sua garrafa de cerveja, porque sua garganta está mais seca que o normal.

“Até lá, a gente pensa em outra coisa. Não seria a primeira vez. A gente consegue lidar com o que for.”

Felix suspira porque Hyunjin tem razão em confiar na possibilidade dos dois em atravessar qualquer percalço. Não seria a primeira vez, muito provavelmente nem a última, mas ainda há um frio na sua barriga por saber não poder levar mais uma pessoa no bolso traseiro de sua calça como quem não quer nada.

Ele chama por Hyunjin mais uma vez antes de suspirar, sem saber como arrancar argumentos de si mesmo para convencer o outro a permanecerem juntos mesmo não estando nas melhores condições.

“Felix.” O tom de voz agora é baixo, calmo, um chamamento capaz de ninar qualquer um. “Pensa que talvez lá dentro, já trabalhando, você possa me levar em algum momento também. Não ia ser bom?”

“Seria um sonho…”

Há um sorriso no seu rosto, que aumenta quando Hyunjin estica a mão para pegar na sua e entrelaçar os dedos aos seus enquanto o encara. Talvez valha mesmo a pena deixá-lo na tentativa de resgatá-lo posteriormente.

Por isso, assente com um aceno de cabeça na esperança de ser uma resposta boa o suficiente para encerrar aquela conversa entre os dois, por mais que saiba que ainda vai repassá-la em sua mente por algum tempo até se certificar de ter feito a escolha certa.

Ao longo da noite, eles continuam bebendo cerveja, comendo e falando sobre nada em especial, mas há uma risada fácil se desprendendo dos lábios de ambos vez ou outra, um sorriso frouxo, um brilho no olhar que Felix prefere acreditar ser de esperança.

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Mesmo ainda se acostumando com o ritmo de trabalho, Felix descobriu que gosta de estar na empresa aos sábados, por mais que não precise. O silêncio o ajuda a se concentrar melhor e não se sente pressionado em ter um bom desempenho quando há tão poucas pessoas no prédio todo.

Faz duas semanas desde que começou a trabalhar, e todos têm se mostrado muito gentis e pacientes, mas, às vezes, Felix acha que vai entrar no escritório e, pelos olhares, saberá que cada um está ciente do que fazia antes de Jisung recrutá-lo. Pode até acontecer, mas ele tenta enterrar esse medo o mais fundo em sua mente.

É a sua vida, não deveria ser um problema para ninguém. Além do mais, foi o próprio Jisung a pessoa responsável por fazê-lo conseguir um trabalho que jamais imaginou ter a mínima capacidade para realizar. Talvez pudesse se sentir um pouco mais autoconfiante se tivesse, de fato, a impressão de estar debaixo das asas de Jisung.

Minho, em compensação, encontrou com ele no primeiro dia de trabalho e, depois de o supervisor de Felix lhe apresentar o local, os dois saíram de braços para almoçar em um restaurante por perto. Minho não queria que ele se sentisse sozinho ou nervoso e, por isso, quando escuta o barulho do elevador antes da porta se abrir, Felix tem certeza de que é uma de suas surpresas.

Ao invés disso, suas sobrancelhas se erguem com a visão de Chan passando por entre as mesas com uma sacola grande de plástico em cada mão e um sorriso tão grande no rosto que Felix nem percebe quando o espelha.

“Espero que não esteja te atrapalhando”, Chan diz enquanto ajeita suas sacolas em cima da mesa em frente à de Felix.

“Claro que não! O que você tá fazendo aqui?”

“Tava com saudades e, como Jisung mencionou que você disse pra ele que tinha curtido trabalhar sábado, decidi tentar a sorte.”

Felix balança a cabeça, porque acha muita loucura que Chan tenha vontade de vê-lo a ponto de não se importar se não encontrasse com ninguém. Ainda assim, levanta-se para puxá-lo para um abraço depois de ter a impressão de não vê-lo há séculos.

Ele nunca teve esperanças de manter qualquer contato com Chan depois de sair da X, talvez um “boa noite” aqui e outro ali por saber que Hyunjin ainda o tinha como cliente em algumas noites. Era uma informação simples, mas lhe deixava com um gosto agridoce na boca, como se Hyunjin lhe avisasse de propósito por saber que, por dentro, Felix se contorceria.

Em compensação, também havia um sentimento estranho de satisfação por saber que os dois ainda se encontravam, uma curiosidade quase mórbida o consumia por ter vontade de saber os mínimos detalhes do que os dois faziam quando se encontravam sozinhos na cama. Não era o que deveria pensar, mas não conseguia controlar.

“E como tão as coisas por aqui? Tá gostando?”

Felix assente com um sorriso. Por mais genuína que seja a pergunta, Chan deve saber como o emprego atual não se compara ao antigo, deve saber como há certos tipos de trabalhos aos quais ninguém gostaria de se submeter.

“Sam disse que você se daria bem nesse tipo de emprego…”, Chan diz, e Felix franze o cenho porque não deveria ser um assunto entre os dois, ou pelo menos não quando não há nudez envolvida. “Ele me contou primeiro sobre você vir pra cá.”

Chan fala tão rápido que Felix não pode deixar de se perguntar onde está a mentira no que diz, na maneira como suas mãos se esfregam, uma deslizando pela outra como se estivessem besuntadas de suor. Ele molha os lábios, toma seu tempo em um gesto tão simples na tentativa falha de ler nos silêncios entre as palavras proferidas por Chan. Não adianta, não decifra nada desse idioma desconhecido.

“Tá bem diferente do que eu tô acostumado, mas acho que tô me adaptando bem”, ele diz depois de apertar o joelho de Chan de leve em uma tentativa de acabar com seu nervosismo aparentemente inexplicável.

“Daqui a pouco você pega o ritmo…”

“Tô ansioso por isso… por ganhar essa confiança do dia a dia, sabe? Quando a gente para de se cobrar pelas mínimas coisas porque já tá tudo no sangue.”

Chan assente na sua direção com um sorriso bobo no rosto, como se Felix não houvesse acabado de fazer um desabafo.

“Vai chegar esse momento e provavelmente você nem vai perceber.”

“Tomara que chegue logo, às vezes eu fico tão pilhado que não consigo dormir direito.” Felix encolhe os ombros, seu olhar se desvia para a tela do computador sem ele nem perceber, mas logo volta a encarar o outro. "Ridículo, né?"

“Nem um pouco. Mas ainda bem que eu vim pra te distrair um pouco de tanto trabalho e te obrigar a comer.”

“Não precisava ter tido tanto trabalho, eu ficaria satisfeito só com a sua presença.”

“Não foi trabalho nenhum.”

O sorriso de Chan dá a Felix vontade de se aproximar, mas prefere reprimir seus próprios desejos. Tem esperanças de que, a partir daquele momento, possa perceber o que Chan quer com ele a ponto de lhe fazer uma surpresa em seu novo trabalho. Se for amizade, vai ficar grato; se não for, não pensa em negar. Talvez consiga respostas incertas para seus questionamentos tão simples, mas acredita que o fato de ter aquela companhia significa que há mais na relação dos dois do que houve até então.

Se pudesse, afastaria a cadeira da sua mesa e trocaria seu assento pelo colo de Chan, as pernas ao redor da cintura do outro, antes de puxá-lo para um beijo sem precisar de nenhum alerta em sua mente que o fizesse se refrear por seguir de olhos fechados o caminho que bem entendesse.

Como não pode, mantém-se atrás do computador, encarando-o a uma distância segura, uma expressão no rosto que não sabe qual é, mas espera ser amena o bastante para mascarar as impurezas em sua mente sem controle.

Ainda assim, Chan arrasta as rodas da própria cadeira na sua direção antes dos cotovelos se apoiarem nas coxas, o rosto mais próximo do seu do que antes. Felix sustenta o olhar do outro, porque não tem mais nada a perder faz um bom tempo. Entretanto, não deixa de se surpreender quando Chan pergunta:

“Posso te beijar?”

Felix precisa engolir a gargalhada em sua garganta em uma velocidade surpreendente para não atrapalhar seu próprio disfarce. Não deveria ser surpresa para ninguém ele assentir com um aceno de cabeça, mas Chan ergue as sobrancelhas como se não estivesse esperando sua permissão.

Nenhum dos dois espera pelo outro, eles se encontram no meio do caminho, os dentes quase batendo tamanho desespero em juntar os lábios e entrelaçar uma língua à outra em um beijo que Felix esperava ser intenso como é, mas não tão lento nem tão macio. Chega a ofegar contra a boca do outro.

Precisa engolir o “filho da puta” que quase lhe escapa quando Chan o segura pela cintura e o puxa para mais perto. Por isso, não se incomoda por fechar os dedos nos cabelos de Chan com força; muito pelo contrário, arrepia-se por inteiro com o gemido que preenche sua sala de trabalho como se aquele fosse o lugar ideal.

“Pelo amor de deus, Felix, a gente não pode ficar se beijando aqui.”

“E dá pra resistir?” Ele dá de ombros antes de fechar os dentes no lábio inferior de Chan. Só então volta a se recostar na cadeira, enfim satisfeito. “Você não deveria nem ter vindo se a intenção era que minha reputação aqui continuasse impecável?”

“Na verdade”, Chan diz, pigarreando antes de franzir o cenho. “Eu não achei que você fosse querer alguma coisa comigo depois de largar o trabalho…”

Ouvir aquilo é estranho, porque, mesmo quando ainda havia uma relação de trabalho entre os dois, Felix sempre desejou Chan. Claro, há a aparência de homem rico e de negócios, os braços do tamanho da sua coxa e a barriga trincada, mas Felix se derrete pelo sorriso de quem sabe do que está falando, da pose de quem não precisa de muito para conseguir o que quer mesmo sem se dar conta. Por isso, balança a cabeça como se Chan fosse louco e, porque pode, puxa-o pela mandíbula para morder o lábio inferior do outro antes de lhe dar um selinho demorado.

“Na verdade, eu já tava conformado que a gente nem ia se ver mais, porque são coisas diferentes.”

Se Chan não entende o que é diferente, não pergunta, e Felix fica grato por não precisar explicar como não foram poucas as vezes em que ouviu de seus colegas de trabalho sobre as atrocidades pelas quais passaram quando se envolviam com alguém que acabava descobrindo como passavam as noites.

Ele não esperava que Chan fosse bater nele ou xingá-lo, mas também não esperava qualquer tipo de aproximação, muito menos um pedido de beijo. Parece simples, mas está longe de ser.

“Eu fiquei esperando pra ver se você ia fazer alguma coisa, mas não consegui me segurar.” Chan ri, dando de ombros.

“Eu não faria nada. Na verdade, eu até entendo que você tenha esperado, mas eu não faria nada.”

“Pior que agora eu quero te beijar de novo, mas não dá pra ficar te agarrando aqui…”

“Vamos embora, então.”

“Pelo amor de Deus, Felix.” Chan passa uma das mãos pelo rosto, a cabeça pende para trás antes de urrar para o nada.

“Yongbok.”

“Quê?”

“Meu nome. Yongbok.”

O silêncio preenche a sala enquanto os dois se encaram. Os ombros de Felix relaxam conforme sente um peso se desprender de seu peito para cair no chão e se liquefazer antes de sumir por entre as frestas do piso.

Chan sorri na sua direção antes de deslizar a cadeira para perto da sua e poder ajudá-lo em seu trabalho, porque, segundo ele, é divertido. Ainda assim, os dois conversam de vez em quando e compartilham o talharim que Chan comprou quando foram interrompidos pelo barulho alto de estômago roncando.

“Queria te pedir um favor, mas não sei como”, Yongbok diz assim que termina de mastigar a primeira garfada.

Chan não diz nada para lhe encorajar, mas deixa seu talher em cima do recipiente para viagem e seu silêncio é sinal suficiente. Yongbok respira fundo, os dedos da mão livre vão para a própria calça para puxarem o tecido de leve, mas constantemente, como se houvesse alguma linha prestes a se soltar.

“Eu não sei se é possível agora e não tem problema se não for, mas, se você souber de alguém, teria como indicar o Sam pra algum trabalho?”

Chan soltar uma risada pelo nariz não era o esperado, pelo menos há um sorriso em seguida que o relaxa.

“Vocês são muito diferentes, mas às vezes muito parecidos…”, Chan diz. “Pode deixar que eu vou fazer isso, sim. Como você tá trabalhando aqui, era algo que tinha me passado pela cabeça, mas eu vou ver isso o mais rápido possível, pode deixar.”

Yongbok assente e suspira, porque Hyunjin trabalhando em um lugar decente seria um sonho. Faz um bom tempo que ele parou de se perguntar como seria se não precisassem se preocupar com as condições dos locais onde foram obrigados a estar para ganhar dinheiro.

Mesmo negando,  Chan se aproxima dele de novo para pousar um beijo nos seus lábios antes de os dois voltarem a comer. É uma deixa perfeita para Yongbok fazer o mesmo de vez em quando, sem se importar em pedir permissão ou licença, agora pode sair entrando e colocar os pés para cima na mesa de centro, acender um cigarro, ligar a televisão no seu filme de comédia preferido e gargalhar.

É como se sente durante a tarde toda, mesmo depois, quando Chan o deixa na porta de casa de carona com um convite para se encontrarem de novo no dia seguinte sem computador ou papel entre os dois.

A luz na cozinha chama sua atenção assim que fecha a porta atrás de si. Não é impossível, mas Hyunjin costuma estar na rua a caminho do trabalho em uma hora daquelas. Por isso, quase corre para cobrir a distância entre os dois.

Hyunjin toma um susto com sua presença, distraído com uma colher de pau na mão, a panela no fogo soltando um cheiro tão bom que ele sente vontade de comer de novo, mas não tem tempo para isso no momento. Sua prioridade é se jogar em Hyunjin, os braços em volta dos seus ombros.

Não pensa duas vezes antes de colar seus lábios aos do outro em um beijo, um beijo parecido com o que se lembrou quando Chan, horas mais cedo, perguntou-lhe se ele e Hyunjin tinham alguma coisa, o beijo de quando decidiram sair para comemorar o emprego novo de Yongbok em uma boate e voltaram para casa cedo demais, depois de terem bebido demais, com tesão demais para impedirem um ao outro de parar antes que fosse tarde demais.

“Me escuta”, ele diz ao se obrigar a se afastar de Hyunjin, uma mão de cada lado no rosto do outro. “Chan chamou a gente pra sair amanhã, disse que quer levar a gente num restaurante que ele ama. Você precisa ser sincero comigo e me dizer se quer ir. Sincero mesmo!”

“Claro que eu quero, que tipo de pergunta é essa?”

Yongbok balança a cabeça antes de se afastar para tirar as mãos de Hyunjin de sua cintura e tomá-las em suas próprias enquanto o encara.

“É sério.”

O sorriso brincalhão no sorriso de Hyunjin dá lugar a uma expressão séria, mas serena quando ele assente.

“Também tô falando sério. Eu quero.”

Notes:

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