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A multidão seguia devotamente cada passo dele, desde a saída do Packard até alcançar a escadaria do Hotel Memphis. Ele está muito na frente, Minho vagou entre pensamentos, precisava se adiantar e sossegou apenas quando emparelhou seu andar ao de Christopher e esbarrou suavemente no braço do homem, recebendo um olhar impassível dele. Conhecia a figura que era Minho e, francamente, poucas ações dele comoviam Christopher, Minho era quase completamente previsível, e esse “quase” por vezes parecia um delírio.
“Fiz as reservas hoje pela manhã, não precisa se preocupar” Minho comentou curioso à medida que avançavam pelo saguão do hotel em direção a recepção, os clamores da multidão eram deixados para trás conforme os seguranças faziam segregação entre os doze seguidores oficiais de Christopher e os admiradores bloqueados do lado de fora. Ele ainda esperava a resposta do líder e reprimiu um sorriso intuitivo quando o homem parou de caminhar antes de chegar na recepcionista.
“Hoje pela manhã?” Christopher perguntou retoricamente, assistindo o assentir breve do seguidor mais próximo. “Você não deveria estar no escritório da Associação cuidando dos pedidos?”
“Eu resolvi tudo bem cedo e estou livre. Busquei seus ternos também, estarão no quarto reservado.”
Havia, no entanto, algo do qual ele reconhecia desde o primeiro dia: o zelo cego e imparcial que Minho o ofertava desde o primeiro momento em que precisou ajudá-lo. A palavra certa não era ‘ajuda’, pois desta Christopher não precisava e, caso tivesse necessidade de tal, tinha a nação inteira atrás dele caso caísse. Jamais questionou a lealdade imaculada de Minho e esse era o elemento que compunha o quase previsível. A fidelidade que tinha ao líder era o que impressionava Christopher, ainda que em pequenos atos.
A reserva era feita em dupla, sendo seis quartos e Juyeon, o décimo terceiro seguidor, a hospedar um quarto sozinho. Dessa forma evitavam gastar excessivamente o dinheiro das doações da Associação e conseguiam transportar Christopher de cidade em cidade, conquistando novos seguidores devotos a cada milha que visitavam. Tudo que pudesse ser feito em dupla, deveria ser feito em dupla. A propósito, essa era uma ideia de Minho, o economista entre os doze aprendizes que seguiam Christopher de perto. Ele era o tesoureiro, administrava as doações e, não satisfeito, intervia não só no dinheiro, mas em tudo o que podia, com suas sugestões inovadoras e sustentáveis. Era, de longe, o mais devoto entre os doze. Portanto, era aquele quem dividia com ele o carro, as vaias, os quartos de hotel, as reflexões e, quando necessário, a cama.
Uma vez dentro do quarto, Christopher provava mais uma vez o gosto da dedicação de Minho ao ver os ternos empilhados no sofá no canto do quarto, limpos e perfumados, pontual com todas as particularidades do mentor.
Minho o via abandonar a figura recatada e estonteante, deixando o corpo descansar sobre o estofado macio, a cabeça perdurando para trás na poltrona aveludada. Ele sempre enxergava Christopher como alguém superior, um cristal moldado sob a mais pura sabedoria, mas naqueles momentos, sentia que ele descia do sagrado pódio que ocupava e finalmente eram apenas dois seres humanos do mesmíssimo nível parasita, feitos do mesmo barro imundo.
“Algo me diz que não está contente com sua agenda para amanhã” o conselheiro comentou. Parado frente à porta recém fechada do quarto, desprendeu o cachecol que o enforcou durante todo o dia e o pendurou no cabideiro juntamente ao sobretudo preto de Christopher.
Assistiu o mentor abrir a boca para responder, o olhar opaco encarava o teto. Desistiu em seguida, se bem o conhecia, tinha consciência de que não era necessário uma palavra sequer para Minho saber a verdadeira resposta.
O jovem atravessou o quarto, pés resguardados nas meias, vendo que Christopher sentava-se na mesma posição desde que haviam adentrado o cômodo extenso, sem mexer um membro sequer. Parecia entediado, plantando em Minho um interesse do qual ele mal sabia analisar: como podia estar entediado no apogeu do reconhecimento público? No lugar dele, Minho faria tantas coisas que nem gostava de começar a pensar, pois terminaria com um único resultado: a frustração. Afinal, ele não era Christopher, e nunca seria.
“É um evento de alta classe, não está animado?”
“Um grupo composto por meia dúzia de pessoas que não ouve ninguém senão as próprias vontades. Eles não querem me ouvir, querem dizer por aí que estive em suas festas.”
Ele suspirou fundo, alto, sendo o único som a perturbar o silêncio do cômodo em penumbra, uma pobre claridade provinha da porta do banheiro. A baixa iluminação era incapaz de esconder o aspecto fatigado de Christopher, os contornos da camisa social pareciam aprisioná-lo em cansaço e ele, abatido, carecia de forças para tirar as próprias vestes. Permanecia sentado, como se estivesse a recarregar as forças, embora sem nenhuma urgência.
O mais jovem, amante nato daquela rotina movimentada e dono de uma energia inabalável, já se pusera dentro do banheiro a banhar-se. Deixou o pequeno cômodo de volta à penumbra, raspando no olhar semicerrado de Christopher a visão de seu corpo pálido se movendo pelo quarto em direção ao armário. O robe de seda com o símbolo de Memphis desprendeu-se dele num movimento natural e escorregou em direção ao chão, revelando o corpo completamente desnudo.
“O que vai ser bom para sua reputação. Vamos, faça um esforço, certo?”
Christopher não respondeu, havia levado uma mão ao queixo, acariciando a parte de baixo da mandíbula, em alguns dias teria que lidar novamente com a barba rala. Sentiu uma gota gélida na têmpora quando Minho passou por ele com os cabelos úmidos e contornou o sofá, parando diante dele, devidamente vestido, e cessando a luz do banheiro que incomodava suas pálpebras cansadas.
O mais novo estendeu a mão até o cerne do torso de Christopher, apenas para tomar um lapso de repreensão do mais velho, que bateu os dedos na mão dele antes que alcançasse um dos botões da camisa social.
As pontas dos dedos dele eram tão gélidas quanto as suas, Minho concluía, eram feitos da mesmíssima carne, pecadora e volátil. Ao contrário do que as multidões massivas diziam, ele estava longe de ser a sacra existência, a imagem semelhança enviada pelo divino. Era, portanto, tão humano quanto Minho, logo podia ser tão corruptível quanto. Dada essa lógica, o conselheiro sabia que só precisava persistir mais um pouco e teria o que almejava.
“Vai ficar a noite inteira sentado aí com essa roupa desconfortável?” Novamente, estendeu a mão hesitante e tocou o indicador num dos botões de Christopher, rodeando-o. “É uma chance única.”
A fala de Minho fez seu corpo pesar no sofá, a ideia de ter outra pessoa fazendo deveres básicos para ele o deixou imediatamente preguiçoso, e liberou o pulso do mais jovem que acometeu o ato como um sinal verde. A penumbra não permitiu que visse o breve sorriso presunçoso de Minho, que desapareceu na mesma velocidade que desenhou seus lábios.
Com a concessão, os dedos traçaram o caminho da clavícula ao quadril onde o blusão se infiltrava para dentro da calça, abrindo os botões por onde passava e consequentemente desafivelou o cinto de couro, o liberando também do zíper do jeans escuro.
“Jeongin e Hyunjin estão no mesmo quarto?”
O aprendiz negou. Seguiu a trilha reta de pelos ralos que o guiavam ao umbigo de Christopher e posteriormente o peito despido que subia e descia calmamente, sonolento. Ajoelhou entre as pernas dele e desamarrou os cadarços dos tênis um a um, depois os puxou para longe e tornou a olhar em seu rosto.
“Dê a eles descanso. Não é forçando a estarem juntos que vão resolver as diferenças. Eles têm lá suas divergências, mas não acho que seja um problema grande desde que não interfira no desenvolvimento do grupo como um todo.”
O lábio de Christopher repuxou um sorriso fraco.
“Continue com essa linha de pensamento e logo estará melhor do que eu.”
“Vá para a cama. Deixe o banho para amanhã de manhã, já que isso eu não posso fazer por você.”
“Por que não?” Ele sentiu o joelho do mentor resvalar suavemente sobre sua costela. “Achei que fosse pontual também em seus cuidados. Francamente, quem começa um serviço e o descarta pela metade?”
Mal sabia que cada sílaba vagava pelas estruturas mais firmes de Minho. Ele umedeceu os lábios, ser contestado quanto ao seu comprometimento feria diretamente o ego, e deixou escapar um sorriso debochado ao levar as mãos para a borda da calça do mentor, que preguiçosamente elevou o quadril.
“Também estou cansado… apenas não da mesma forma que você.”
O mais jovem ergueu o corpo sob o olhar compreensivo de Christopher, que o segurou pelo pulso antes de ir para a cama.
“Tudo bem. Você já fez demais, obrigado” o libertou do aperto. Minho o impediu de ir longe, girou a palma quente e segurou os últimos três dedos dele entre os seus. O corpo petrificou, tenso em reação ao avanço contínuo do aprendiz, a respiração quente dele tocou sua bochecha, em contraste ao clima frio.
“Oh... você está com alergia” seu olhar estava direcionado à boca de Christopher e tocou a região. Tateando pelo rosto do mentor, o silêncio era sobrecarregado, embora cada tocadela equivalesse a um baque nos pensamentos de Christopher. “Isso vai estar pior amanhã.”
Ele instintivamente se afastou do mais velho, transitando para o armário num movimento tão natural quanto levantar ao acordar. Vestiu novamente as roupas de saída. Quando o assunto era responsabilizar-se por Christopher, ele era tomado por uma cisma insaciável que não o abandonava com facilidade.
“Vou procurar uma farmácia de horário integral.”
“Por que não paga alguém do hotel para fazer isso?” Christopher cruzou os braços e repousou a cabeça no próprio ombro, gesto que usava para externar a apreensão. Exceto os discursos reflexivos e os ensinamentos sobre os quais discorria, raramente Minho o dava ouvidos, o que não era pretexto para que deixasse de tentar.
“E gastar dinheiro com algo que eu mesmo posso fazer?” ele terminou de calçar o segundo tênis de Christopher, pegou os dele pois estavam mais perto e calçavam quase o mesmo tamanho. “Você pode dormir, eu consigo passar a pomada no seu nariz sem te incomodar.”
Afirmando a suposição de que nenhum de seus protestos o impediria, Christopher assistiu quieto os cabelos castanhos-escuros passarem pela porta, não indo sem antes sussurrar para que ele tivesse uma boa noite. De certo, não tinha cargas em seu corpo que o manteriam acordado à sua espera, e ele deitou na cama pequena, corpo espremido de lado ao certificar-se de deixar um espaço para quando o outro voltasse.
