Actions

Work Header

Hunters

Summary:

Ártemis sumiu. Os olimpianos estão inacessíveis. Os tambores de guerra rufam novamente no horizonte. Gigantes de Gaia se aproximam. Como a única opção de evitar a extinção e descobrir o paradeiro de sua Deusa, Kara, vai atrás da antiga líder das caçadoras e seu grande amor, Luthessa, que estava há muito tempo perdida entre os mortais, depois de uma missão que fracassou.

*Originalmente uma fanfic/Au de Supercorp, mudança de nomes e alguns sobrenomes.

Notes:

Kara Lykaios - Kara Danvers
Luthessa (Lena) Lynch - Lena Luthor
Alexandra Lykaios - Alexandra Danvers
Azie Jones - Kelly Olsen
Amelie de Bois - Samantha Arias
Andrea Gonzalez - Andrea Rojas

Chapter 1: Parte I

Chapter Text

Atenas, Grécia. 2021.

Não passava das 10 horas da manhã, o sol estava alto no céu, um lindo dia sem nuvens. O mundo estava calmo. Como milhares de turistas fizeram no passado, um pequeno grupo composto por dez pessoas, subia vagarosamente com o destino as imponentes ruínas do antigo templo. Uma mulher de estatura média, cabelos negros com a noite sem estrelas e olhos tão verdes quanto pedras preciosas, guiava o grupo com um sorriso gentil nos lábios vermelhos, que contrastavam com a pele pálida.

 

— Bem-vindos ao Parthenon —. Iniciou sua fala ao pararem em frente a grande estrutura. — Construído no século V a.C., a mando do governante Péricles, que tinha a intenção de substituir os destroços do antigo templo destruído nas invasões persas. Seus arquitetos foram Ictinos e Calícrates, que contaram com a ajuda do escultor Fídias. O templo foi construído com a intenção de homenagear a patrona da cidade, Atena; possuindo uma monumental estátua da deusa, cerca de 12 metros de altura, revestida de ouro e marfim. O nome Parthenon deriva da estátua que, foi nomeada de Atenas Partenos. Era utilizado principalmente como uma espécie de tesouraria, guardando os tesouros de Atenas e de toda a Liga de Delos. Durante o Império Bizantino, foi convertido em um templo de adoração da Virgem Maria, Parthena Maria, pela igreja cristã, possuindo arquitetura... —. A mulher interrompeu seu discurso ao vislumbrar uma figura distante, perto da borda do monte. Parecia encará-la de forma penetrante. — Peço-lhes um minuto, senhoras e senhores. Aproveitem para tirar fotos —. Sorriu antes de caminhar em direção a sua expectadora.

 

Imediatamente, sua postura mudou, o sorriso gentil logo se esvaiu do rosto e uma marcha quase militar foi estabelecida até a visitante, que sustentava o olhar sem piscar. Uma caminhada a passos largos que há muitos séculos ela não realizava.

 

— Luthessa... —. A loira de penetrantes olhos azuis, saudou quando enfim a guia se aproximou.

 

— O que você quer, Kara? —. A voz de Lena era fria, distante e repleta de autoridade. — Ártemis permitiu meu trabalho.

 

— Eu não vim questionar seu fofo trabalho com mortais, Luthessa —. Kara levantou a mão em rendição. — As caçadoras precisam de ajuda... Eu preciso.

 

— Você melhor que ninguém, sabe que minha ligação com as caçadoras está quase extinta. Devia estar em contato com a deusa.

 

— Mas, a marca continua presente em sua nuca e aposto que ainda sente quando estamos em batalha. —. Adentrando no espaço pessoal de Luthessa, segurou suavemente sua mão, observando-a com uma espécie de devoção. — Você sabe que não viria aqui se não fosse importante...

 

— Kara...

 

— Lena, por favor

 

—... Me encontre no meu apartamento... Em uma hora —. Respondeu, recompondo-se e preparando-se para retornar ao grupo.

 

— Como quiser, Kυρία μου (Minha Dama) —. Após pronunciar as últimas palavras em um grego elegante, quase melodioso, a visitante se afastou lentamente, logo sumindo de vista.

 

* * *

 

O tour continuou sem imprevistos. Luthessa sorria ao responder as dúvidas da melhor maneira possível, porém, sua mente há muito não estava mais entre o grupo, insistentemente vagava o olhar para o ponto onde havia encontrado a loira tão estranhamente familiar. Flagrando-se algumas vezes colocando mão sobre a marca de lua e arco feita com mágica em sua nuca. Um comichão crescia em seu âmago. Ela sabia que havia algo errado, a calma precede a tempestade e Kara vir ao seu encontro confirmava suas suspeitas. Ao fim do passeio, após deixar seus clientes novamente em seu hotel, perto do centro da capital. Lena praticamente correu em direção ao seu pequeno apartamento, localizado em uma área afastada do centro, porém, com boas opções de moradia e entretenimento, e o mais importante, longe dos olhares curiosos. Correndo pelas escadas de incêndio após intermináveis minutos com o transporte, evitou o elevador na intenção de arredar alguns míseros instantes para tentar estabelecer uma curta e falha linha de pensamento.

Adentrou no singelo apartamento controlando a respiração; um imóvel com poucas divisórias. A cozinha era montada com móveis brancos e residia poucos metros da entrada, a parede cinza estendia-se até a sacada, finalizava o espaço de gastronomia e iniciava uma pequena sala de estar. Uma mesa de madeira clara com quatro assentos ficava no ínterim dos dois espaços, não que a morena recebesse convidados, todavia, uma mesa menor denotaria uma solidão que a mesma evitava ao máximo encarar. Um grande espelho divido em três círculos repousava acima da mesa de jantar. Logo em seguida um sofá cinza com quatro lugares e espaço para os pés estava alinhadamente posicionado acima de um tapete em tons de azul, cinza e branco, com padrões quadriculados; uma mesa de centro branca, simples; na parede, fixados, uma pequena prateleira marfim, recheada com alguns vasos e, ao lado, uma composição de quadros com fotos em preto e branco de lugares que visitou durante sua longa vida.

Imediatamente, avistou a loira recostada no parapeito de vidro, na sacada que a sala dava acesso. Kara lhe esperava com um sorriso suave nos lábios, apesar de séculos, seu coração ainda disparava ao encarar as incisivas esmeraldas. Após um pequeno suspiro, Luthessa fechou os olhos por alguns segundos, abandonando sua bolsa no balcão da cozinha, caminhou até a parte externa.

 

— Você tem um belo lugar, apesar de só ter visto a entrada —. Kara começou suavemente.

 

— Obrigada... Você está ótima —. A incerteza pairava agora nos lábios de Lena. Ela queria tirar a vinda da amiga a limpo, entretanto, não poderia deixar de sentir-se balançada pela visita.

 

— Você também, parece... feliz? Entre os mortais, não pensei que se encaixaria tão bem —. Respondeu amistosamente, recebendo um sútil balançar de cabeça da morena. —... As coisas estão complicadas, Luthessa —. Sua voz atingiu um tom sério e seus olhos escureceram.

 

— O que aconteceu? Você sabe que não sirvo mais para as caçadas... —. Apesar de séculos passados, Lena ainda sentia o gosto amargo de seu fracasso como líder.

 

— Você sempre será nossa líder, não pense o contrário —. A voz suave só perdurou até o fim da frase, parecendo ler a mente da outra. —... Ártemis desapareceu

 

— Como é?

 

— Ela iria encontrar-se com Apolo para a reunião do solstício..., porém, o deus solar afirmou que sua irmã jamais chegou a celebração.

 

— Kara, o solstício foi há duas semanas —. Apesar da voz calma, podia sentir o abismo abrindo dentro de si. A deusa lunar nunca sumiria sem explicações, nunca faltaria uma reunião do Panteão. — Onde estão as caçadoras?

 

— Acampadas perto dos arredores da cidade. O sumiço de Ártemis não é o pior...

 

— O que é pior, Lykaios? É nossa deusa patrona

 

— Ela não foi a única a sumir. —. Completou rapidamente, as informações precisavam ser ditas de uma vez. — Deméter e Hefesto também desapareceram. Inicialmente acharam que os deuses estavam ocupados em seus afazeres, porém, ao serem convocados, não houve resposta e foram descobertos seus locais de residência completamente destruídos... Por ordem de Zeus, os deuses restantes trancaram-se no Olimpo... estamos sozinhos, todas as caçadoras e servos dos deuses foram abandonados na terra, sem qualquer ordem.

 

— COMO TUDO ISSO PODE ACONTECER EM DUAS SEMANAS? —. Gritou enfurecida, infelizmente não sabia para quem dirigir sua ira. Deuses desaparecidos e inacessíveis, servos abandonados...sua deusa provavelmente estaria morta, tão distante de seus afazeres que nem percebeu o que estava acontecendo.

 

— Eu não sei, Lena —. Kara admitiu desajeitadamente ao puxar Luthessa para um abraço. Havia tanta intimidade entre as duas, séculos atrás que, por alguns segundos, a loira esqueceu da passagem do tempo, apenas quis confortar a mulher à sua frente. — Não temos ideia do que está acontecendo, guiei as caçadoras até aqui, mas...apenas não sabemos para onde ir ou onde procurar. Ártemis...bom, ela está sumida há muito tempo... Precisamos de você...

 

— Kara, eu não posso retornar, não depois do que aconteceu

 

— Estamos completamente perdidas, não há para quem orar... —. Tocando no queixo da morena e a fazendo olhar para si, continuou. — Δεν θα ήρθα εδώ αν είχα μια επιλογή ... σε παρακαλώ, αγάπη μου, σε χρειάζομαι (Não viria aqui se tivesse escolha... Por favor, meu amor, eu preciso de você)

 

— Η Κάρα μου (Minha Kara) —. Repousou a mão no rosto da loira, fechando os olhos. — Μου έλειψες τόσο πολύ (Senti tão sua falta)

 

— Aγάπη μου (Meu amor) —. Um beijo calmo, repleto de saudade. Uma tentativa falha de passar todo o amor que sentiam uma pela outra. — Μου έλειψαν τα χείλη σου (Senti falta dos teus lábios) —. Kara comentou sorrindo ao se separar, recebendo um sorriso tímido em troca.

 

— Você tem certeza que a melhor opção é meu retorno?

 

— Absoluta, todas sentem sua falta... Até Andrea

 

— Onde?

 

— Nos encontre à meia noite, no antigo templo —. O sorriso aumentou ao ouvir que o encontro das velhas companheiras aconteceria. Outro beijo foi depositado nos lábios vermelhos. — Não se atrase

 

— Eu nunca me atraso, Lykaios —. Sorriu observando a amada partir.

 

***

 

Não havia muito o que fazer até o horário da Deusa. Soltando uma respiração há muito presa na garganta, a irlandesa, destinou-se a preparar sua mochila, tentou distrair-se após a partida da amante, contudo, a todo momento seus pensamentos retornavam as informações cedidas. Sem atentar-se por onde perpassavam em seus aposentos, suas mãos percorriam pelos armários, recuperando seus itens de batalha com familiaridade ímpar, um reencontro de antigos amigos; roupas e mantimentos foram entrelaçados, acomodados com maestria dentro da compacta mochila. Lynch repousou na cama sua antiga armadura, analisando o que restou da peça, estava avariada desde a última vez que utilizou, negou-se a mandar aos ciclopes... A verdade, é que saiu do campo de batalha imediatamente para falar com sua Dama. Estava se aposentando das caçadoras, ainda com sangue nas mãos, partiu sem despedidas, não podendo encarar as companheiras.

Após a vistoria, decidiu apenas levar consigo a chapa do peito, por baixo da blusa de mortal, o resto seria deixado e torcia para suas amigas possuírem algumas peças para serem emprestadas, ainda que se negasse a pensar que permaneceria por muito tempo entre o grupo. Por fim sentou-se abrindo uma pequena gaveta no criado mudo ao lado de sua cama, retirou com cuidado uma caixa de madeira antiga, duas adagas, pálidas como a lua, com um leve brilho prateado estavam atravessadas no interior. Nunca pode se separar completamente delas, forjadas em metal divino, lisas e sem adornos, apenas uma pequena lua estava gravada no pomo, na ponta do cabo da lâmina argêntea. Resgatou-as das bainhas de tom verde profundo, entre o encaixe e a chape, a morena olhou atentamente.

 

— Quanto tempo...—. Delicadamente passou o dedo pelo fio da chapa, sentindo o corte em sua pele imediatamente. Os encantamentos ainda estavam fortes, a lâmina de fato nunca perdeu o fio. Suspirando ao encarar o sangue dourado borbulhar da pele rompida. — E o sangue continua tão divino quanto antes... Que seja a vontade da Deusa...

 

A mente de Lynch se repreendeu terminado a frase. "Não há Deusa nesse momento. Ártemis está perdida... Estamos sozinhos". As horas pareciam caminhar de forma arrastada, precária, chegou até a obrigar-se a passear pelos canais da televisão sem realmente focar em algum, torcendo para que o horário de sua saída. Outra tentativa falha, foi a de reestabelecer a comunicação mental entre a líder e a Deusa, porém, como já esperado, nada foi sentido, nenhum ruído, apenas vazio. Não sabendo afirmar se essa ausência poderia indicar a morte de sua Dama ou o fato dela não ocupar mais o posto de confiança, querendo acreditar fielmente na segunda opção, caminhou perdida por seu apartamento até o sol se pôr no horizonte ateniense.

Enfim havia chego a hora, fixou sua chapa no abdômen, firmando-a bem contra a pele, colocando uma blusa negra por cima, caindo sobre o jeans escuro. Os cabelos ficaram soltos, não estava pronta para as antigas tranças, repetindo para si mesma que nem ao menos tinha certeza que seguiria em missão, talvez só participaria do reconhecimento. Colocou a jaqueta de couro e a mochila no ombro, quando o último raio de sol tocou o solo, o formigamento conhecido invadiu seus sentidos e após eras, a caçadora estava fundindo-se com a noite novamente.

As mulheres de Ártemis sempre possuíram um poder especial ligado à lua e à noite. Vencer distâncias e viajar pelas sombras, sempre foi muito útil durante as caçadas; agora, Lena utilizava para chegar o mais rápido possível no antigo templo da Deusa. A mulher estava enferrujada, não havia usado o poder nenhum dia sequer quando se fixou no mundo mortal, seus músculos reclamavam com o passar dos quilômetros, por saber muito bem que a reunião necessitava ser realizada em um terreno sagrado, obrigou-se a seguir ignorando as dores, todavia, Izmir nunca pareceu tão distante. Seus pulmões ardiam ao chegar na cidade turca, seu relógio avisava que faltava alguns minutos até à meia noite, respirando fundo para se recuperar, a morena preparou-se para retornar a corrida, dizendo para si mesma que apenas restavam 50km para cumprir, isso seria fácil agora.

As ruínas do templo localizam-se na faixa pantanosa da Turquia, no que foi a antiga cidade grega Éfeso; em sua era de glória foi considerado uma das Setes Maravilhas do mundo Antigo, até sua destruição em 356 a.C. pelo incendiário grego Herostratus. A Lynch ainda lembrava da caçada atrás daquele maldito, a mulher aproveitou cada segundo para brincar com a sanidade do homem, deixando sua aura fazer-se presente em cada lugar que ele tentava se esconder, entretanto, sua Deusa ordenou para apenas captura-lo e entregá-lo a Hades, sua punição seria dada no submundo, impedindo que a ex-líder pudesse puni-lo com as próprias mãos; no mundo terreno, sua memória foi apenas condenada ao esquecimento...todavia, a mulher lembrava e sempre mantinha-se pronta para reencontra-lo em qualquer visita eventual ao Tártaro.

Deixando os devaneios de lado, correu no limite, os quilômetros vencidos em instantes, os pés pousaram nas ruínas exatamente no momento que o relógio brilhou meia noite.

— αδερφές, βγαίνετε (Irmãs, saiam) —. A voz saiu rouca, em forma de ordem, escondendo o pequeno cansaço e ignorando os músculos doloridos.

 

— αιώνες αργότερα ... τον ίδιο τόνο (Séculos depois...o mesmo tom) —. Uma voz risonha saiu de trás de algumas árvores. Andrea logo entrou em foco, o cabelo firme em um rabo de cavalo, suas roupas mesclavam uma armadura simples e trajes mortais, em tons claros. Apesar do sorriso, havia uma certa palidez em seu rosto. — δεν αλλάζεις, Λένα (Você não muda, Lena)

 

— Μπορώ να πω ότι μου έλειπε (Posso até dizer que senti saudades) —. Amélie foi a segunda a aparecer. Com roupas parecidas as de Andrea e diferente da latina, correu na direção da ex-líder, dando-lhe um abraço afetuoso. — Χαίρομαι που σε ξαναβλέπω (É bom te ver novamente)

 

— Eu disse que ela viria —. Kara apareceu das sombras, ao lado de Azie e Alexandra. Apesar do sorriso, seu olhar era sério, preocupado e com certeza, cansado.

 

— Claro, a Lena não resiste a Kara —. Alex brincou enquanto se aproximava.

 

— Alexandra —. Repreendeu Lynch com um arquear de sombrancelha, após o abraço.

 

— Eu não menti, cunhadinha —. A ruiva se afastou com um sorriso e uma piscadela.

 

— Meninas, temos que ser breves, não estamos seguras em terreno aberto —. Azie alertou observando o perímetro cautelosamente.

 

— O que está acontecendo? Quero todos os detalhes que possam dar —. Após os abraços, perguntou encarando Andrea, sabendo que a latina não pouparia os detalhes sombrios que, sua amada provavelmente teria omitido.

 

— Deméter está desaparecida há pouco mais de três semanas. Procurei por algumas forjas de Hefesto, nas proximidades... todas destruídas, não temos certeza quando o Deus forjador foi capturado —. A mulher começou em tom sombrio. — Como Kara deve ter lhe dito, a Deusa está sumida há duas semanas. Na noite do solstício, ela não compareceu à celebração no Olimpo.

 

— Isso não é tudo —. Amélie continuou encarando a atual líder do grupo. — Desde que os deuses se trancaram, os poderes dos servos divinos deixados na terra diminuíram...

 

— Os monstros estão atacando com mais ferocidade, não podemos ficar parados em um lugar por mais de um dia —. Alex terminou a frase de De Bois com o rosto severo. — E eles não estão satisfeitos em nos caçar, há relatos de Lestrigões atacando mortais

 

— O que os gigantes estão fazendo fora de Sardenha? —. Luthessa perguntou repreendendo Kara com o olhar. — Realmente acha que chegaremos a algum lugar com você me escondendo coisas, Lykaios?

 

— Não quis te alarmar de início —. A loira sussurrou incerta.

 

— Esconder informações cruciais parece mais confortável então, presumo —. O tom severo atingia os ouvidos de todas as presentes. Todas lembravam muito bem o poder de Lynch e sabiam que não era aconselhável estar na mira de sua raiva. — Todos os deuses estão recolhidos?

 

— Os olimpianos estão no monte. Não temos informações quantos aos deuses menores —. Azie respondeu hesitante.

 

— E os servos? Onde estão?

 

— Escondendo-se por aí, Lena, o que você acha? —. Andrea desdenhou chutando uma pedra para longe. — Um grupo de Dionísio foi dizimado antes que pudesse pedir ajuda. Quanto aos gigantes Lestrigões, parece que alguma coisa está enfraquecendo as barreiras mágicas, liberando alguns monstros de seus lugares de origem

 

— Amélie, Azie, vão atrás dos deuses menores. Encontrem alguém que nós possamos falar —. Respirou fundo passando a mão pelos negros cabelos, após a primeira ordem proferida. — Andrea, mapeie os ataques aos servos e mortais, quero saber se existe um padrão, entre em contato com Nicole. Quero as três de volta em dois dias.

 

— Seu desejo é a minha ordem, Lynch —. Andrea fez uma pequena continência, seguida de um sorriso presunçoso. Enquanto as duas mulheres apenas acenaram levemente e sumiam nas sombras.

 

— Quanto a nós? —. Alexandra perguntou.

 

— Vamos encontrar um antigo conhecido... Ainda vamos conversar, Lykaios —. Apontou para a loira, antes de se fundir com as sombras.

 

***

 

— De todos os seres que Lena poderia querer ter uma reunião, tinha que ser com um Daemon de Pandora? —. A Lykaios mais velha perguntou, quando as duas mulheres pararam em frente à porta de madeira entalhada.

 

— Ele provavelmente sabe o que queremos —. Kara respondeu rapidamente.

 

— Não quer dizer que vai nos contar tão facilmente, irmãzinha

 

— Quer apostar?

 

— Não, não aposto contra a Lena —. A ruiva falou girando a maçaneta e adentrando no luxuoso escritório.

 

O chão e as paredes possuíam um tom que lembrava a cimento queimado, um grande tapete cinza estendia-se pelo chão até a mesa central. Prateleiras, repleta de livros de diversos temas, principalmente referente a civilizações mortas, e quadros elegantes se distribuíam pelas paredes. No fim do recinto, uma massiva madeira de mogno estava posicionada, com cadeiras de aparência confortável, em couro negro; nos fundos, um grande móvel que também imitava uma prateleira, era visto, repleto de pequenas caixas e alguns itens destoantes, "Pequenos troféus de civilizações que foram à ruína", pensaram as irmãs Lykaios rapidamente.

Na cadeira de comando, um homem de aparência jovial, em um terno negro perfeitamente alinhado, podendo passar por um jovem de no máximo 25 anos, sentava-se com uma expressão séria escrevendo algo em seu notebook, sem levantar os olhos para as visitantes, falou impaciente.

 

— Eve, dei ordens para não ser incomodado esta noite

 

— Sua secretária não pôde recusar nossa entrada —. Kara respondeu imediatamente, enquanto as mulheres se aproximavam da mesa. Fazendo o homem olhar finalmente para as mulheres, uma expressão divertida surgiu em seu rosto ao se recostar mais em sua cadeira.

 

— Ora vejam, quem veio bater em minha porta —. A voz melodiosa do homem, junto com seu sorriso causavam uma sensação incômoda nas visitantes. Sabiam muito bem que estavam em território hostil. — Prontas para um jogo, caçadoras?

 

— Não estamos interessadas em suas fraudes e artimanhas, Δόλος (Dólos) —. Alex respondeu secamente. — Queremos informações...

 

— Para alguém que precisa de algo vocês não têm um pingo de educação —. Interrompeu-a, o sorriso do homem aumentou. — Viver as margens da sociedade, em florestas, causa um mal irreversível, estou vendo. Pensei que Ártemis dava algum adestramento para suas cadelas

 

— Maldito, não se atreva... —. A ruiva insinuou avançar em ataque. Todavia, Kara segurou seu braço, sem cortar contato visual com a entidade a sua frente.

 

— Tanta hostilidade... Vocês deveriam deixar a marra de lado, meninas, sei muito bem que estão perdidas. Sua Deusa deve estar morta uma hora dessa e vocês sabem —. Um arquear de sombrancelha, incentivava uma confirmação das mulheres, entretanto, o homem prosseguiu. — Posso sentir o poder de vocês diminuindo, essa é a desvantagens de ser escravo de um Deus, quando ele vira as costas para você, todos os dons vão embora... —. O homem abriu um pouco mais a boca, mostrando presas afiadas e sorriu. — Faz tanto tempo que não festejo em carne humana...dizem que a carne de caçadora é doce como o mais puro néctar

 

— Você pode tentar, com certeza. —. Lynch saiu lentamente de uma porta localizada nas costas do homem, com uma expressão indecifrável e uma taça de champanhe nas mãos. — Porém, eu iria odiar ter seu sangue sujando esse lindo carpete antes de receber o que quero. —. Terminou a taça e repousou na mesa, encarando o homem.

 

— Luthessa —. A confiança do Ser vacilou por alguns segundos e seus olhos pareçam incertos pela primeira vez.

 

— Δόλος (Dólos)—. A mulher respondeu com um sorriso falsamente amistoso.

 

— Não sabia que você estava de volta as caçadoras... —. O espírito do caos se moveu desconfortável.

 

— Você já foi melhor informado, velho amigo —. O tom era calmo e inabalável.

 

— As notícias não correm como antigamente, realmente —. Falou o Daemon recuperando um pouco a fachada. — Não tenho informações sobre Ártemis, Luthessa

 

— Não estou atrás dela. —. A voz indicava claramente que a cordialidade havia terminado. — Onde estão as Irmãs do Destino?

 

— Aquelas velhas Parcas? —. Desdenhou o homem. — Ninguém sabe delas há séculos, sempre reclusas, você sabe...

 

— Onde?

 

— Lena... Querida caçadora, não posso ajudá-la com isso —. Um sorriso mais confiante surgiu. — Apenas sou um homem de negócios agora, meu cassino prospera a cada dia, não perco mais tempo com assuntos divinos, entende? Que tal uma noite jogos, hein? Por conta da casa

 

— Sabe... Querido Daemon —. A mulher se aproximou da cadeira do homem ficando a centímetros dele, com um sorriso gentil. — Passei tantos séculos com os mortais que acho que perdi o tato... Diga-me, isso dói? —. Rapidamente sacou sua adaga da cintura e cravou na coxa direita do homem, antes da reação de seu inimigo.

 

— Πανάθεμά σε! (MALDITA!) —. Um grito furioso ecoou pelo recinto, seguido de tentativas atrapalhadas de formar frases em línguas antigas.

 

— χωρίς κατάρα, θα διατηρήσουμε την ευγένεια (Sem maldições, vamos manter a cortesia) —. Respondeu torcendo lentamente a lâmina fincada no membro, enquanto observava o sangue azul escuro espalhar-se pelo terno e cadeira. — Πού είναι οι αδελφές? (Onde estão as irmãs?)

 

— ΔΕΝ ΞΕΡΩ (EU NÃO SEI) —. A resposta saiu entre dentes.

 

— Estou perdendo a paciência —. Lynch retirou a lâmina da coxa, imediatamente apunhalou o abdômen da entidade. Puxando seus cabelos, anteriormente alinhados em um elegante penteado, forçando-o encarar as esmeraldas da mulher. — Onde. Estão. As. Irmãs?

 

— No penhasco...como sempre —. Lágrimas indesejadas borbulhavam dos olhos negros da entidade.

 

— Δόλος (Dólos), será a última vez que irei perguntar —. Falou em tom sádico, cravando a lâmina mais fundo enquanto o homem gritava. — Onde...

 

— BRISTOL —. Gritou ofegante. — O último relato delas é de Bristol

 

— O que as tecelãs estariam fazendo na Inglaterra? —. Kara perguntou com uma expressão desconfiada.

 

— Eu... não...sei... Luthessa, juro... é tudo que sei

 

— Acredito —. Lena retirou a pressão da arma e sorriu. — Viu? Não foi tão difícil... —. Antes que o homem pudesse dizer algo, a Lynch retirou sua segunda adaga da cintura e cortou a garganta do Daemon. Um corte limpo, que logo deu passagem para o sangue escorrer em cascata, enquanto o corpo morto tombava para frente, ainda com uma expressão surpresa no rosto.

 

— Ele vai ressuscitar —. Alexandra comentou remexendo em alguns livros, enquanto a ex-líder recuperava suas lâminas.

 

— Não será nosso problema.

 

As mulheres saíram do escritório sem cerimônia, sabendo que não seriam interceptadas, ainda que os negócios do demônio se destinassem a enganar os humanos e torná-los viciados nos jogos. Todos os funcionários sabiam identificar qualquer Ser com sangue meramente divino, então sua passagem era quase completamente autorizada. Descendo as suntuosas escadas do cassino, finalmente as três figuras retornaram a área comum do estabelecimento, os barulhos de torcidas infrutíferas e roletas era quase ensurdecedor, fazendo com que as mulheres apressassem sua caminhada.

Cortando o majestoso lugar com rapidez, a decoração predominante vermelha, dourada e negra, com diversas mesas portadoras de inúmeros jogos de azar, lotadas de almas perdidas em seus próprios vícios, espalhadas pelos imensuráveis salões. Ao retornarem para entrada do lugar, Luthessa observou a lua no alto do céu, calculando quanto poderiam percorrer antes do primeiro raio de sol.

 

— Temos duas, talvez três horas de escuridão ainda —. Alexandra respondeu à pergunta silenciosa estampada na face da morena.

 

— Não vamos chegar muito longe essa noite —. Kara concluiu.

 

— Não... —. Ponderou por alguns segundos. — Alex, avise as outras que estamos indo para Bristol e para nos encontrarem lá

 

— Você acha que elas ainda estão lá? —. A loira encarou as esmeraldas.

 

— Sinceramente, não sei por que elas se distanciaram tanto do terreno grego para início de conversa.

 

— Pode ser uma armadilha, não seria a primeira informação falsa que Δόλος divulga —. A Lykaios mais velha respirou fundo refletindo.

 

— Não, todavia, não temos muitas opções nas mãos...

 

— Suponho que não...

 

— Se vamos tentar nos aproximar do destino, melhor começar agora —. Kara interrompeu os devaneios das duas mulheres.

 

— Eu vou na frente, para avisar o restante do grupo —. Alex logo se despediu das duas.

 

— Agora somos só nós duas —. A loira sorriu abraçando a Lynch.

 

— Não teste a sorte, Lykaios —. Lena deu um beijo rápido na mulher. — Ainda temos uma conversa pela frente