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Cause I Like You (both)

Summary:

Hyunjin já era apaixonado por Changbin antes mesmo de saber se iriam debutar no mesmo grupo. Quando Felix apareceu, parecia que ganhara um rival. Porém, em tempo recorde, Felix se torna seu melhor amigo. Pior: Hyunjin se vê apaixonado por Felix também.

Quando a vida dá dois limões, a limonada deve ser feita, dizia o ditado. O problema era encontrar a receita.

#Plot 12

Chapter 1: Venom

Notes:

Primeiro, sem a existência desse fest, não existiria essa fic; então, muito obrigada às adms por esse fest e que venham outros! Em segundo, preciso muuuuuito agradecer à @chittfx por esse plot e por ter me falado do fest. Sério, plot #12 tudiiiiiiinho! Só quem viu sabe que eu devo ter sido uma das primeiras a responder o form pra conseguir pegar esse plot hihi Aliás, tem umas coisinhas modificadas (o medo que eu tô de decepcionar a patroa). Em último, e igualmente importante, meu agradecimento à Lu @therhare pela betagem e pela paciência com os meus chiliques de ansiosa. Sem vocês, eu não estaria aqui.

Quem estiver lendo, tenham bom proveito!<3
Usem a área dos comentários pra me amar ou me xingar. A escritora agradece por qualquer um desses =D

Chapter Text

Para Hyunjin, nada era mais relaxante do que voltar para o dormitório e deitar sobre sua cama de bruços com um bloco de desenhar numa mão, lápis na outra e os fones de ouvido nas orelhas tocando uma playlist de músicas calmas. Sentir a mente viajar na imaginação ou trazer à tona objetos aleatórios que tinha visto durante o dia lhe dava a sensação de liberdade que, na sua vida de idol , quase não possuía. Muitas vezes, ele se via perdido na linha tênue entre ser quem era de verdade e ser uma persona, um alter ego que criara; em outras, sentia muito bem seu próprio eu escapando em alguma expressão corporal ou em alguma verdade dita em forma de brincadeira — se o próprio JYP já incentivara isso antes e em frente às câmeras, quem era Hyunjin para ousar se repreender? 

Instantaneamente, lhe veio à memória uma vez em que ele se esquecera de que estava em uma live com um mundo de fãs assistindo — não era raro ele se perder em seu mundo particular e fazer coisas das quais só se dava conta quando via compilados que as próprias fãs montavam ou quando sua atenção era chamada pelos managers. O que ele lembrava era Felix sentado no sofá, quase colado consigo, cutucando com o pé a bunda de um Changbin acocorado no chão e este olhando para trás com uma expressão séria e confusa, o que Hyunjin deduziu ser por ele não saber quem de fato o estava importunando. Assim, perdendo-se naquele mundinho particular de ficar brincando uns com os outros, Hyunjin se juntou a Felix, uma perna praticamente entrelaçada na dele. E não pode esconder um sorriso sacana, que acompanhava seus pensamentos maliciosos, quando Changbin se esticou para frente, a bunda redonda para cima, e ele e Felix esfregaram aquelas nádegas com os dedos dos pés. Era tarde demais quando se apercebeu do mundo concreto em que estava. 

Quando focou no papel ainda em branco sobre o colchão e na mão que segurava o lápis, sorriu para si mesmo e sacudiu a cabeça. Aquele parecia ser o dia dos pensamentos intrusos, isso sim. Porém, em um instante, um vaso de vidro transparente, da mesma altura de um copo e um pouco mais largo surgiu em sua mente, que logo o completou com água e três caules verdinhos — flores recém apanhadas que, acima do bocal do vaso, estavam quase, quase desabrochadas: uma rosa branca, uma vermelha e uma rosada. 

Hyunjin começou a desenhar o que tinha acabado de mentalizar, uma mão apoiando o queixo. Para que pudesse materializá-las fielmente, seria bom que anotasse a cor de cada flor sobre o esboço correspondente a cada uma enquanto seus aquareláveis não chegavam: mesmo faltando menos de dois dias para a tão aguardada entrega, Hyunjin poderia simplesmente esquecer aquela imagem em meio ao caos que estava sendo gravar as músicas novas para o segundo álbum completo do grupo.

Ou jamais esqueceria por… motivos? 

Dois motivos, na real. Duas pessoas-motivo que foram se prendendo nele, ganhando seus mais diversos sentimentos, causando mil e uma indagações, sufocando-o. No entanto, aqui também existia uma linha tênue: talvez ele próprio tivesse se enredado nessa teia sozinho e essa fosse a hora de se culpar, se castigar mentalmente e engolir em seco qualquer sofrimento que ele estivesse causando a si mesmo por querer o que não sabia ser possível.  

Aliás, ele nem sabia o que queria para início de conversa.

Enquanto a mão desenhava, a cabeça rodopiava em lembranças de um passado não muito distante — o que eram cinco ou seis anos para quem estava na primeira metade dos vinte? Muito ou nada? 

Para Hyunjin, era muito no sentido do quanto ele vivenciara, mas nada comparado ao que poderia vir. E o medo do futuro é sempre o pior, porque não há planejamento o suficiente que dê conta da complexidade e das variáveis que estão em jogo no quesito “ser humano, logo conviver em sociedade” — o maior problema sendo não exatamente a convivência per se , já que convivemos com outras pessoas desde o nascimento, mas estar com novos conhecidos em busca de um objetivo em comum que necessariamente enrijece sentimentos mais ternos e favorece hostilidades.

Só que Hyunjin era sortudo. E uma das primeiras pessoas com quem tivera contato era ninguém menos que Bang Chan, uma pessoa de raro coração generoso apesar dos — até então — cinco anos como trainee que deixariam qualquer outro pirado e frustrado ao ponto de virar egocêntrico. Porém, Chan abriu os braços e acolheu não só a ele, mas a outros dois garotos que também entraram na empresa naquele mesmo ano: Jisung e Changbin. O primeiro, tagarela e brincalhão; o outro, um mistério escondido por roupas pretas, boné na cabeça e poucas palavras (menos quando escrevia; nesses momentos, o cano da pia estourava de tanta água represada, de tantos sentimentos que jovens adolescentes sempre carregam, mas são condenados por outros se falam diretamente sobre). 

Hyunjin precisou de alguns meses para se aproximar de Changbin de fato. Longos e árduos meses de treinamento, escola, treinamento, ônibus, casa, sem contar os testes mensais. A exaustão das horas de transporte que se somava a todo o resto convencera os pais de Hyunjin a deixá-lo ir morar no dormitório que Chan já dividia com Jisung e mais umas duas pessoas. Foi então que Changbin se tornou alcançável; com o estúdio improvisado no quarto de Chan, surgiu o 3racha, fazendo com que o autoproclamado dark rapper Changbin passasse mais tempo dormindo, comendo, trabalhando e zanzando ali do que na própria casa. 

A proximidade física fora do prédio da JYP permitiu a Hyunjin encontrar brechas para conversar; quando estava apenas cansado, mas não exausto, ele entrava no quarto/estúdio, sentava na parte de cima da beliche, se escorava na parede e ouvia os outros três discutindo sobre as letras das músicas ou gravando-as. Esta era a parte favorita de Hyunjin. Cada um era muito bom e bem diferente do outro: ritmo, entonação, intensidade; no entanto, desde a primeira vez em que o ouvira, o que tinha acontecido no primeiro teste do qual Hyunjin participou, Changbin se tornou seu favorito. Talvez fosse o tom de voz junto com a intensidade com que ele a fazia sair — era tal qual a quantidade de palavras que ele precisava dizer, tanta raiva, tristeza e ansiedade entaladas e emaranhadas que saíam rasgando sua garganta em forma de som. 

Entre as conversas sobre música, a vida de cada um surgia. Era um “passei por isso e aquilo” e um “eu também” que traziam Hyunjin para a roda de forma natural, e que faziam Changbin desembuchar ocasionalmente. Porém, nada poderia tê-los unido mais em uma amizade do que o dia no qual Hyunjin chorava encolhido no sofá da sala, com o rosto sobre os joelhos na tentativa de não fazer barulho, e Changbin, que tinha ido buscar água na geladeira, apenas sentou ao seu lado, passou um braço sobre seus ombros e esperou. Nenhum questionamento, apenas o conforto de um abraço. 

Naquele momento, Hyunjin entendeu Changbin: ele não queria que ninguém o olhasse com pena, não queria ser cuidado; ao contrário, queria mostrar que era capaz de proteger os outros, porque, afinal, era o irmão mais novo e sempre fora tratado como tal. 

Um ano e meio se passou. Idas e vindas de pessoas no dormitório, mudanças para todos os lados — principalmente nos grupos de treinamento, porque o JYP pessoa estava sedento por debutar um grupo novo e, assim, a cada teste mensal, ia enlouquecendo os treinadores de todas as áreas para determinar quem se encaixava melhor no quê e com quem. Só não ousava mexer no 3racha que, apesar dele, tinha ganhado vida própria e começava a ter a atenção em plataformas digitais com suas mixtapes. O velho é babaca, mas não é burro; se o 3racha escapasse das mãos dele, ele perderia a chance de ter um grupo que se autoproduz, ou, pior, outra empresa grande os pegaria e ele nem sabia se encontraria talento daquele tipo de novo. Era raríssimo que pessoas assim permanecessem sob os olhos predatórios e as mãos carcerárias dos contratos das grandes. Então, não, não era nada viável sequer pensar em separar os integrantes do 3racha. 

Na loucura, há sanidade também. O JYP foi muito esperto, muito engenhoso, em fazer uma reunião com o Chan, trainee há mais tempo que os outros, e propor que liderasse o próximo boygroup, tendo o privilégio de escolher os membros quando a hora chegasse — obviamente, ele não revelaria tudo assim de primeira e o fator "survival" não foi mencionado.

Não muito tempo após a primeira reunião, como se não bastasse as correrias de treina isso, treina aquilo, vai para a escola, e tudo na base da repetição diária, entra na empresa um tornado com cara de anjo e pele bronzeada que falava quase nadica de nada de coreano. 

Uma apresentação formal e foi o que bastou para que Chan só faltasse querer rebatizá-lo com seu sobrenome e reapresentá-lo ao mundo como seu filho; Jisung, que falava inglês muito bem, fez questão de rodear o garoto ao saber que eles tinham apenas algumas horas de diferença de idade; até Changbin, que nunca se apresentava para ninguém por vontade própria, caminhou dois passos e estendeu uma mão. Hyunjin sentiu um incômodo como nunca antes (Inveja? Rancor? Ciúme? Um misto dos três e mais alguma coisa? Ele nunca soube dizer) e cumprimentou Felix muito mal e porcamente. Até notou que o recém-chegado franzira a testa por questão de milésimos de segundo, mas era melhor se fingir de desentendido e voltar a se aquecer para a prática.  

Seu dia não poderia ser pior: ao chegar no dormitório e ir para o seu quarto, duas malas de rodinhas encontravam-se diante da única outra cama dali. A partir disso, nenhuma surpresa quando a voz grossa do garoto com cara de anjo disse:

— Chan disse para colocar aqui. Desculpa.

Hyunjin apenas virou-se para o garoto um tanto mais baixo e acenou positivamente a cabeça antes de passar por ele e ir até o quarto/estúdio de Chan. Ele já sabia que era aceitar ou aceitar, então apenas deixou seus pés o arrastarem para o conforto de estar rodeado de música, mesmo as conversas nas pausas de gravação sendo mais caóticas do que o normal — que já era no limite do aceitável e já tinha rendido várias multas. 

Felix por si só não era um tornado, era apenas um ser tão iluminado que até constelações tinha no rosto. As pessoas que o rodeavam transformavam-no em um redemoinho, e, na verdade, Hyunjin não podia culpá-las. Felix era metódico? Bastante. Mandão? Também. Só que o coração dele era maior que o Universo e ele fazia o que estava em seu alcance se isso significasse ajudar alguém. Logo, não demorou para que Hyunjin também se adaptasse à presença dele, mesmo que isso significasse dividir atenções.

O próprio Hyunjin levou um tempo considerável para perceber que seu amargor de primeiro momento fora por puro egoísmo. Até a chegada de Felix, nunca percebera que ele era o centro das atenções. Que, apesar de silenciosos, muitos pares de olhos o observavam. 

— Felix, você percebe como as pessoas orbitam na sua volta? — ele perguntou em uma madrugada quando estavam sentados no chão da sala de prática, cansados demais para ir até o sofá.

— Na minha volta? — Seus olhos se arregalaram brevemente enquanto apontava para o próprio peito. Hyunjin confirmou com um murmúrio, e Felix riu soprado. — Que nada. Só me vêem alguém precisar de ajuda.

— Felix, você é muito inocente, ou muito cego.

— Você é. Todo mundo quer na empresa ser você. 

— Todo mundo quer ser você na empresa. 

— Não, você.

Hyunjin começou a gargalhar. Felix ficou parado, olhando, sem entender.

— Eu tava corrigindo você na verdade — Hyunjin disse quando conseguiu retomar o fôlego. 

Se sua memória não lhe falhava, essa foi a primeira vez em que viu Felix corar do pescoço às pontas das orelhas, as sardas de seu rosto se destacando. 

A segunda, o mundo inteiro viu e ainda revê. Foi quando Hyunjin se deu conta do porquê Felix gostava tanto de estar consigo no estúdio improvisado do 3racha, além de ser, é claro, por se sentir mais confortável em poder falar inglês e ser compreendido: o crush, penhasco, queda d’água que ele começara a nutrir por Changbin. E talvez porque seus laços tinham se estreitado ao longo da reta final do survival, ou porque Felix o considerava confiável o suficiente, ele confirmou suas suspeitas em uma outra noite que passaram treinando por mais tempo em que os outros, desatando a falar em como temera não poder debutar com o grupo, em como sofrera pensando que viraria apenas um conhecido distante deles e que nunca mais teria qualquer chance de ser qualquer coisa além de amigo de Changbin. 

Surpreso, mas nem tanto, Hyunjin chegou a pensar em perguntar se Felix achava que debutando as chances não seriam as mesmas. No entanto, segurou a boca antes que fosse mal interpretado e apenas acenou a cabeça e deixou que Felix deitasse a sua em seu ombro. 

Hyunjin já cogitou a ideia de que era um péssimo amigo. Mas não era exatamente sua culpa que Changbin, conhecendo-o há mais tempo, preferia se jogar em seu colo quando estava exausto das promoções de debut e, depois, de comeback. Ele sabia que Felix ficava chateado, ele via a expressão em seu rosto se fechar em questão de segundo quando isso acontecia. Felizmente, ele sempre procurava Hyunjin para falar sobre os acontecimentos e o assegurava de que eram só sentimentos de momento, de que entendia por que Changbin fazia isso. 

Também foi quando um sinal de alerta se acendeu na mente de Hyunjin. Até que ponto ele gostava de Felix só como amigo? Mas se ele nutria seu crush secreto de anos em Changbin, como poderia estar também se afeiçoando dessa forma a Felix? 

De novo seus pensamentos foram cortados pelo desenho já finalizado que tinha em mãos. Só faltava apagar os traços a mais que fizera e reforçar o contorno dos que seriam permanentes. Se pudesse, ele certamente tatuaria esse desenho; inclusive, não lembrava de ter feito outro tão bonito quanto nos últimos dois ou três dias. Talvez desenhar e pensar na vida ao mesmo tempo fosse benéfico para o resultado final de sua arte.

Com a língua entredentes, ele se pôs a apagar o que não deveria ficar. E outra lembrança lhe ocorreu. Outra live em que ele não soube se comportar. Só que disso ele jamais se arrependeria.

Todos estavam no sofá da sala de prática, os managers sentados no chão, encostados às paredes espelhadas de frente para eles. Hyunjin sentava-se entre Jisung e Changbin, curvado para frente com os braços sobre os ombros de Felix que sentara-se no chão. Comentários aqui, comentários ali, brincadeiras entre os membros em forma de piadas; mas Hyunjin se sentia meio desconfortável naquele dia, ansioso, e os dedos finos de suas mãos automaticamente mexiam nas cordas do colarinho da camiseta branca de Felix, puxando-as, sacudindo-as, entrelaçando-as. Ele fingiu não ver Changbin fulminando-o com os olhos pelo espelho em uma fração de segundo, fingiu por um momento não ver um dos managers tentando chamar sua atenção para que parasse e, inclusive, passou uma das mãos para o ombro de Felix, acariciando de forma aleatória a pele exposta com a ponta dos dedos. E Felix apenas acompanhava o que Chan falava, parecendo nem perceber Hyunjin, volta e meia olhando para frente só para fazer seu papel de fingir olhar para as fãs através da câmera. 

Porém, depois de algum tempo, Hyunjin viu-se obrigado a sentar para trás quando um dos managers já estava a ponto de explodir consigo, o rosto se avermelhando de raiva por ser ignorado — Hyunjin não se preocupava consigo quando resolveu obedecer, mas sim com Chan. Ele sabia que o grupo era tudo na vida de seu líder. 

Só que quando estava encarando o perfil do rosto de Changbin a seu lado, Seungmin e Chan falando qualquer coisa sobre as atividades do grupo, Hyunjin não se conteve em puxar o colarinho da blusa dele para baixo ao ver o início de uma mancha vermelho-arroxeada em seu pescoço. 

— O que é isso?! — ele exclamou, fazendo com que todos olhassem para eles uma vez que sua voz se sobressaiu à de Seungmin. — Por onde você andou?

Ele viu Felix olhar para trás e depois para o espelho, um sorriso alegre em seus lábios. E, quando Changbin abriu a boca para responder, sacudindo o ombro para se desvencilhar da mão intrusa de Hyunjin, não dava para acreditar na mentira mais deslavada da história que ele proferiu:

— Eu estava no estúdio ontem. — Pausa dramática para duas mordidas no próprio lábio. — E estava calor. — Seus olhos dançavam de um lado para outro sem conseguir encarar ninguém. — Eu abri as janelas e não tinha repelente lá. — Risadas tomaram conta da sala de prática, exceto por Felix e Hyunjin que apenas sorriam. — Estava escrevendo umas letras e não vi a hora passar. Acabei dormindo apoiado nos braços e um mosquito me picou.

— Um mosquito te picou — Hyunjin repetiu.

— Sim, um mosquito. — Changbin corou levemente e voltou a mordiscar os lábios de nervoso. 

E então Hyunjin viu o sorriso de Felix pelo espelho de novo, sentiu Changbin chacoalhando a perna encostada na sua e PLIM! 

A mentira de Changbin não era uma mentira total. O mundo sabia que existia um mosquito no Stray Kids e que esse mosquito se chamava Lee Felix.

Hyunjin queria cavar um poço ali mesmo e ficar gritando e ouvindo o eco da própria voz porque não sabia se ficava feliz, frustrado, enraivecido ou se só aceitava a própria confusão mental. Certo era que ele gostava de ver Felix sorrindo daquela maneira. E ver Changbin, O CHANGBIN, envergonhado era uma novidade que ele faria se repetir até o último dia possível. Ele sabia que nunca se cansaria de incomodá-lo com o que quer que fosse se arrancasse dele aquela reação de novo e de novo.

Naquele mesmo dia ele teve que perguntar para Felix o que de fato acontecera. Então ele esperou a primeira oportunidade de estarem sozinhos no quarto que dividiam. Não imaginava nem de perto que eles pudessem ter ido além de uns amassos, logo sentiu a própria boca se abrir e os próprios olhos lacrimejarem de tão abertos. 

— Sabe, ele não foi para o estúdio. Chan é quem foi. Obviamente, Chan não ia desmenti-lo e causar um fuzuê maior ainda do que o teu. 

— Não, ‘pera. Quer dizer que Changbin estava com o quarto só para ele…

— Aham — Felix confirmou com certo orgulho estampado em suas feições, os olhos cintilando.

— E você sabia e foi lá?

— Não sabia. Mas Changbin fez questão de me dizer por mensagem.

— ‘pera. — Os olhos de Hyunjin se estreitaram e ele apontou um dedo para Felix. — Se ele estiver te usando só por…

— Hyunjin, só escuta — Felix choramingou e olhou para a porta antes de continuar. — Nós estivemos, hm, nos beijando algumas vezes. E nós já conversamos sobre isso. É o que dizem hoje em dia de ser “na brotheragem”. — Ele fez as aspas com as mãos e deu um risinho envergonhado. Hyunjin continuou a encará-lo e cruzou os braços sobre o peito. — E antes que você diga qualquer coisa, eu estou tranquilo com isso. Fora que, hm… Eu não sei o quanto de detalhes eu posso te falar sobre. 

— Vou entender se for pelo bem do Changbin. Mas se for por mim, saiba que eu sou todo ouvidos. — Mesmo que de alguma forma ele sentisse um leve desconforto que ainda não entendia bem.

Felix suspirou aliviado. Ao mesmo tempo, as pontas das orelhas pareciam estar pegando fogo e ele olhou uma, duas, três vezes para a porta.

— Eu comi aquela bunda gostosa de Seo Changbin. E como se não bastasse, o desgraçado ainda gosta de apanhar. E ser mandado. E eu tenho certeza de que deve ter alguma coisa sobre isso em algum lugar. Jinie, eu tirei a virgindade daquele cu, você tá me entendendo? 

Hyunjin só percebeu que tinha parado de respirar quando foi puxar o ar e precisou mais do que a quantidade normal. 

As mentes humanas funcionam de um jeito engraçado na maior parte do tempo. Assim como em sua lembrança, o Hyunjin que soltava a borracha de forma displicente sobre seu desenho também precisou induzir a respiração a voltar a seu ritmo automático. Em seguida, pegou seus materiais, desceu da beliche e guardou-os na gaveta da cômoda que tinha seu nome escrito. Ele ia tirar os fones de ouvido, mas preferiu ficar com eles porque uma hora teria que ouvir algum ASMR para garantir seu sono, para fazê-lo esquecer que estava de pau duro pensando na grande vontade que surgiu de transar com seus amigos.

Como se pensamentos pudessem ser transmitidos em frequência de onda sonora pelo ar, Hyunjin, que tinha voltado para sua cama e estava deitado de barriga para cima e olhos fechados, escutou a porta ser aberta por cima do barulhinho de chuva que vinha dos fones. 

— Changbin-hyung, tô tentando dormir. Nem …

— Tsc, tsc. Como a gente divide um dormitório e você nem sabe que Changbin não está? — a voz rouca de Felix surgiu enquanto ele fechava a porta e vinha na direção da beliche com passos arrastados. 

— Eu estive desenhando. Por que me preocuparia com quem está ou não está? — ele provocou enquanto tirava os fones. 

Se tinha algo que ele descobrira há algum tempo era que um Felix com raiva valia por dez Felix sorrindo na sua humilde opinião. A informação de que Changbin não estava colada a um Felix vindo dormir em seu quarto quando Hyunjin fingia para si mesmo que poderia descansar estando com tesão era um sinal do universo.

— Para pelo menos mostrar que se importa com os teus amigos? — A voz de Felix vinha sussurrada diretamente em seu ouvido. Hyunjin fechou as mãos em punho ao lado do corpo só pelo prazer de não demonstrar a Felix o arrepio que passou por seu corpo inteiro. — Sabe, ele andou reclamando que você está evitando ele. 

— Puro drama — Hyunjin murmurou de volta antes de se virar de lado e encarar Felix que estreitava os olhos em sua direção, o rosto apoiado nos braços sobre parte do colchão. 

— Hyunjin, você sabe que ele se importa com isso tanto quanto Chan. Só porque ele não consegue vir e falar diretamente sobre isso não quer dizer que ele não fique legitimamente magoado.

— Legitimamente. Que palavreado. Onde você aprendeu essa? — Hyunjin sorriu, os lábios fechados curvando-se nos cantos. 

— Você está desviando do assunto. — Felix revirou os olhos.

— Felix, se ele se importasse, vocês já teriam saído da fase de “é apenas amizade”. 

— Se a gente saísse dessa fase, tanta coisa ia mudar. Você, por exemplo…

— Eu ia ser o padre. 

— Hyunjin… — Ele corou. Alerta número um.

— Sério, Lix. Ele é tão grudento e dramático. Às vezes, ele até consegue ser engraçado, mas a maior parte do tempo é só tentativa e erro.

— Hyunjin… — Segundo aviso. Felix tirou os braços da cama, o corpo se endireitou, a cabeça inclinou para um lado e ele mordia a própria bochecha.

— Fora a chatice que ele se torna quando as câmeras estão desligadas. “Quero ficar sozinho, mas quero atenção. Olha como todo mundo tinha que ser como eu e ir pra academia”. Eu juro, eu não aguento mais a palavra academia.

O braço de Felix pareceu um borrão quando passou em frente aos olhos de Hyunjin, que em seguida sentiu a nuca coçar com a força com que Felix segurou um chumaço de seu cabelo e o puxou, obrigando-o a inclinar a cabeça para frente.

— Abre esses olhos e olha pra mim. — Hyunjin obedeceu, mas, ao mesmo tempo, ofereceu-lhe um sorriso ladino, afrontoso; o qual não passou despercebido e fez com que Felix o puxasse ainda mais pelos cabelos, seus narizes encostando um ao do outro. — Você não tem o direito de falar dele dessa forma — ele sussurrou entredentes. — Você…

Porém, Felix não pôde terminar qualquer xingamento que proferiria. Hyunjin aproveitou-se da pouca distância, levou uma mão à nuca de Felix, seu braço apoiando-se ao dele e imobilizando-o por força da gravidade, e mordeu seu lábio inferior com força. Ele esperava que Felix voltasse a proferir seu sermão, mas foi surpreendido pelos lábios dele selando os seus repetitivamente, a mão em seus cabelos soltando os fios e tentando descer para suas costas.

— Lix… Eu me importo com ele. Mas eu também me importo com o meu melhor amigo. 

Antes que Felix respondesse, Hyunjin acariciou seu rosto e pousou o dedão em seus lábios. Felix mordeu-o, e Hyunjin reagiu no automático quando afastou a mão, surpreendendo-se novamente quando Felix grudou os lábios de ambos com força, prendendo seu lábio inferior entre os dele, puxando-o e soltando-o tão rápido que um estalo ressoou no quarto, junto de um gemido baixo que escapou de Hyunjin. 

Quando seus olhos se encontraram, ele percebeu que conseguira o que queria: um Felix tão esfomeado quanto ele próprio já estava.