Chapter Text
"Eu encontrei o amor
Agora que conheci você"
- Perhaps Love, Eric Nam
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Não conseguiu conter um suspiro desanimado quando ouviu os sinos da porta anunciando mais um cliente com um tristonho tilintar. Myoui Mina aprendeu com o tempo a amar o trabalho, mas, naquela noite em especial, ela não o amava nem um pouquinho.
Tentaria o vestibular pela primeira vez em três semanas. Era a estudante mais velha do preparatório, a maioria das pessoas de 25 anos já estavam na faculdade, ou formados. E, por mais que ela tentasse não se deixar abalar pelos olhares questionadores, nem toda sua determinação a salvava do fato de que nos últimos dias tudo o que ela tinha feito era ler repetidamente suas anotações, revisar as matérias que tinha mais dificuldade, trabalhar, cuidar de Sunghoon e se alimentar de miojo e café.
Estava estressada quando chegou ao trabalho ainda pela manhã, e ficou ainda mais estressada quando soube que sua colega tinha faltado e que teria que cobrir seu turno. Além da carga de trabalho dobrada, ela teria que encarar mais uma vez a humilhação de ter que ligar para a sogra e pedir para que ficasse com Sunghoon até mais tarde do que o usual.
Mina tinha plena certeza de que pagava por pecados de alguma vida passada, mas tinha desistido de reclamar o tempo todo porque não adiantava de nada. No entanto, naquela noite em específico, ela podia reclamar bastante e com o acréscimo de palavrões novos.
Mesmo assim, ela conseguiu sorrir para a cliente que estava a sua frente. Aparentemente uma estudante, o que não era raro, já que ela trabalhava em uma cafeteria no campus da Universidade Nacional de Seoul. A garota parecia um pouco perdida, bolsas embaixo dos olhos, olheiras em tons de hematoma, a mochila pendurada de um jeito nada ergonômico em seu ombro esquerdo. O visual da moda de um universitário fodido.
— Boa noite, na verdade, já estamos fechados — Mina disse, apontando para a placa em cima do balcão que anunciava o horário de funcionamento. A garota estreitou os olhos para ler e deixou escapar um suspiro derrotado, um biquinho surgindo em seus lábios.
— Eu só preciso de algo forte — ela falou em um tom de quase súplica.
— Bem, eu não deveria, porque na verdade já passou de quinze minutos do horário de fechar, só estou aqui ainda porque meu chefe — ela olhou em volta se certificando de que estavam sozinhas antes de continuar: — é um asno e teve que buscar as chaves em casa.
— Mas... — a garota falou com um sorriso amarelo, Mina rolou os olhos.
— Não tinha um "mas".
— Por favor.
Mina a observou enquanto ponderava. Ela a lembrava um pouquinho de si mesma quando ainda era adolescente, mesmo que a garota à sua frente aparentasse ser mais velha do que aquilo. A fazia lembrar de quando as coisas ainda pareciam poder dar certo para ela. Suspirou e saiu de trás do balcão, sendo seguida pelos olhos atentos da universitária.
— Eu deveria ao menos fechar antes, assim evito mais garotas viciadas em café entrando por essa porta. — Quando terminou de puxar a porta e colocar a placa do lado "Fechado", ela se virou encontrando a garota com as bochechas completamente coradas. — Não se preocupe, vejo isso quase toda semana. Está indo embora ou vai passar a noite no campus?
— Vou ficar mais algumas horas na biblioteca, sou amiga do segurança. — Mina assentiu para a resposta dela e voltou para trás do balcão.
— Prova? — ela perguntou sem olhar para a cliente enquanto separava um punhado de grãos de café. — Mocha? Americano?
— Sim, vou prestar o vestibular — ela respondeu tendo sobre si um olhar surpreso da outra. — E Ice Americano, por favor.
— Você já não estuda aqui? — Mina perguntou completamente confusa. Ela viu o adesivo da universidade na mochila dela.
— Sim, sou da medicina. — Mina continuou olhando para ela como se a garota fosse alguma espécie de alienígena. Ela riu dando de ombros. — Não estou mais feliz com meu curso, decidi que vou mudar.
— Não é só pedir transferência? — A garota negou.
— Também não estou feliz com a minha vida.
Mina a encarou por um tempo antes de voltar a preparar o café em silêncio.
Ela nem podia imaginar como uma garota jovem, bonita, estudante de medicina na Nacional, podia estar infeliz com a própria vida, mas ela tinha vivido tempo o suficiente para saber que as coisas mais terríveis aconteciam com qualquer pessoa por aí. E muitas vezes, nem era necessário que algo assim tão terrível acontecesse, a vida sabia ser cruel até nas sutilezas.
— Eu sou Chaeyoung, Son Chaeyoung — ela falou enquanto Mina colocava o café em um copo.
— Eu não ia exatamente anotar seu nome no rótulo ou confundir seu pedido com o de outra pessoa — Mina brincou. — Chaeyoung! Chaeyoung Son, seu pedido está pronto! — ela fingiu gritar e ela riu corando ainda mais. — Meu nome é Myoui Mina.
— Bonito nome — Chaeyoung falou enquanto aceitava o café.
— Também vou prestar o vestibular — ela falou enquanto limpava a bancada, despreocupadamente. Chaeyoung não tinha ido embora ainda, estava parada diante do balcão, um cotovelo apoiado na pedra enquanto tomava seu café com um ar muito mais despreocupado do que quando ela tinha entrado ali.
— Que legal! Se quiser a gente pode estudar juntas, eu fico aqui todo dia de meio-dia até às três da manhã. Hoseok, meu amigo que é segurança da biblioteca, ele não liga de mais uma pessoa ficar. Ele cobra como pagamento alguns minutos de seu tempo falando de assuntos muito aleatórios, mas ele é divertido.
A garota não perguntou se Mina não estava um pouco velha demais para prestar vestibular, não inferiu que ela fosse fazer a segunda graduação, nem perguntou o que ela prestaria. Mina não soube muito bem como responder ao convite, então ela virou as costas e entrou de novo na cozinha.
Chaeyoung ficou lá, parada com o copo de café a meio caminho da boca, pensando se tinha dito alguma idiotice. Dahyun vivia lhe alertando que às vezes falava demais. Sua melhor amiga não era exatamente o tipo de pessoa para a qual se pede conselho, mas vai ver que ela estava mesmo certa daquela vez.
Mas depois de alguns minutos, Mina reapareceu com dois pratos de bolo. Ela colocou um na bancada e empurrou na direção de Chaeyoung, estendendo para ela um garfo.
— Meu chefe jogaria fora de qualquer forma — ela disse enquanto se sentava de frente para ela, já cortando um pedaço da própria fatia. — E ele me deve muito por me deixar plantada aqui esperando ele voltar com a chave.
Chaeyoung riu e concordou, se sentando de frente a ela e comendo do bolo. Estava delicioso, a massa era leve, tinha gosto de laranja suave e derretia em sua boca, o recheio de morango se mesclava com o que ela presumiu ser baunilha. Suspirou, contente, e ambas comeram em silêncio.
— Eu aceito estudar com você — Mina disse depois que terminaram. — Mas não hoje.
— Ué, por que? — Chaeyoung, que brincava com o canudo dentro do copo vazio, perguntou lançando para ela um olhar confuso.
— Você está péssima, precisa dormir um pouco.
— Uau, obrigado, isso fez muito bem para a minha autoestima lamentável. — Mina riu do drama da outra e abanou a mão no ar com uma careta.
— Não faça disso mais do que é, você é bonita, só precisa visitar um pouco morfeu e vai estar como nova. — Achou graça ao notar que ela estava corada mais uma vez. Chaeyoung tinha uma atitude confiante, mas claramente era tímida por baixo das camadas de estilo e arrogância juvenil.
— Me desculpe a demora! — As duas se viraram na direção da porta quando um homem baixinho de meia-idade entrou esbaforido com um molho de chaves na mão.
— Acho que essa é a minha deixa — Chaeyoung falou se levantando. — Pode me ligar quando sair do trabalho amanhã. Eu com certeza vou estar por aqui. — Tirou da mochila um bloco de notas e anotou o número rapidamente com uma caneta cor de rosa. Colocou o papel sobre a bancada e estendeu uma mão para Mina, que a apertou. — Foi muito bom te conhecer, Mina-ssi.
Enquanto Chaeyoung deixava o café e seu chefe começava a, finalmente, fechar o lugar, Mina arrumou sua bancada de trabalho sem conseguir deixar de pensar que estava completamente errada.
Chaeyoung não era nem um pouco parecida com ninguém que ela já tivesse conhecido.
•
— Ah, não, não posso, meu coração não aguenta! — Chaeyoung falou dramática com as duas mãos espalmadas sobre o peito e uma careta falsa no rosto. Ela não queria prestar vestibular para artes cênicas e Mina achava aquilo um grande desperdício.
— Pirralha exagerada — ela resmungou, não conseguindo conter um sorriso e recolheu o celular, bloqueando a tela.
— Quantos anos ele tem? — a mais nova perguntou se curvando sobre a mesa da biblioteca. Era uma mania que Mina já tinha notado depois de uma semana estudando todos os dias com a garota depois do trabalho. Achou um pouco irritante no começo, a mesa sempre tombava um pouco para o lado dela e se estivesse apoiada nela, as duas ficavam muito próximas. Pelo menos Chaeyoung sempre tinha cheiro de morangos frescos.
— Meu Sunghoon vai fazer cinco em dezembro — ela respondeu sorrindo. — Parece que foi ontem que descobri a gravidez.
— Ele parece ser muito fofo — Chaeyoung falou, sorridente. — Sempre quis ter um irmão mais novo, mas meus pais nunca tocaram no assunto.
— Sou a irmã mais nova e às vezes eu queria não ter um irmão, mas na maior parte do tempo é bom ter alguém que entenda o quão fodido da cabeça seus pais conseguem ser. — As duas riram. Deveriam estar estudando álgebra, mas sempre que começavam a conversar a coisa ia longe.
— Não deve ser fácil cuidar de uma criança, trabalhar e ainda estudar. Você é, tipo, sensacional! — Mina deu de ombros, sentindo as orelhas esquentando de vergonha. Ninguém nunca tinha dito que a achava legal, imagina sensacional? Garota estranha. — Mas seu marido deve te ajudar bastante, não é?
Ela seguiu o olhar de Chaeyoung e percebeu que ela observava a aliança em seu dedo. O objeto estava encardido, precisava ser polido depois de seis anos sem receber cuidados, mas não tinha aquele dinheiro para jogar fora. Não tinha dinheiro nem para o que realmente precisava. Se perguntava como estava a de Jinyoung.
— Me desculpa, assunto sensível? — Ela sorriu e voltou a olhar para Chaeyoung ao voltar a ouvir a voz da mais nova.
— Não... mais ou menos — respondeu tentando soar despreocupada. — Mas meu marido não pode ajudar no momento, ele está em Daegu.
— Ele trabalha longe? — Chaeyoung tinha um bico preocupado nos lábios, como se ela estivesse olhando para a pessoa que carrega o peso do mundo nas costas, não para a mulher de um presidiário.
Mina quis contar. Pelo que tinha conhecido de Chaeyoung, ela não a julgaria quando soubesse que seu marido estava preso há três anos. Mas não teve coragem de contar porque não quis receber um olhar de pena ou de desprezo. Não sabia porque se importava tanto com a opinião de uma universitária qualquer, mas se importava. Ela queria continuar sendo sensacional sobre o olhar dela, não digna de pena.
— Sim — disse sem encará-la.
— Logo vocês se reencontram — Chaeyoung disse, confiante. Mina se sentiu patética por mentir. — Se precisar de ajuda até lá, você tem o meu número.
— E, por acaso, você sabe cuidar de criança? — Mina perguntou em um tom de voz risonho e Chaeyoung apenas deu de ombros.
— Posso aprender — respondeu. — Ou posso cuidar de você. Isso eu já estou aprendendo.
•
Não é um som alto, mas é o suficiente para que ela acorde. Não consegue conter um resmungo chateado, afinal, tinha chegado tarde da biblioteca e teve que ouvir a sogra reclamar sobre isso por vinte minutos antes de finalmente conseguir sair de lá e ir para casa com Sunghoon. Estava exausta, preocupada com a prova e estressada, como já era de praxe.
Mas todos os sentimentos deram lugar à preocupação quando chegou ao quarto de Sunghoon e o encontrou deitado no chão. O corpinho completamente suado, os cabelos grudados no rosto. Mina se ajoelhou o puxando para si, logo recebendo um resmungo como protesto.
— O que foi, meu príncipe? — ela perguntou, tentando soar controlada. Sunghoon estava queimando em febre.
Depois de um banho frio e um antitérmico não mostrarem o efeito esperado, ela o levou até a emergência mais próxima. Jinyoung sempre dizia que ela se preocupava demais, que tratava o menino como se ele fosse de vidro, mas ela nunca lhe deu ouvidos. Não via porque não zelar pela coisa mais preciosa que já tinha tido na vida.
Felizmente, depois de horas de espera, saiu do hospital com a notícia de que não passava de um resfriado inofensivo. Depois de mais algumas horas de exames e recebendo remédio intravenoso, eles finalmente foram liberados para ir para casa. O Sol já nascia quando Mina chegou em casa com o filho, pensando em como pagaria a conta do hospital que estaria em sua porta no próximo mês.
O colocou na cama depois de mais um banho para tirar o cheiro de hospital e depois de ela mesma tomar um e trocar de roupa, se sentou no sofá da sala encarando a TV desligada. A prova era no dia seguinte, tinha que estudar pelo menos um pouco para que se sentisse menos nervosa, mas não conseguiria focar em nada sabendo que o filho estava doente.
Sua sogra amava Sunghoon, mas nunca foi uma mulher muito carinhosa com ninguém e ela sabia que seu filho ficava muito manhoso quando estava se sentindo mal.
Olhou o relógio e viu que já passava das oito da manhã. Naquele horário, Chaeyoung estava ajudando os pais no restaurante da família em Gangnam. Ela já sabia basicamente tudo sobre a vida da garota.
Era filha única de um casal de cozinheiros que abriu o próprio negócio nos anos 90. As coisas iam muito bem no início, mas com o tempo o mundo se modernizou, mas o restaurante não. Ganhavam o suficiente para viver uma vida confortável, mas não eram ricos. Chaeyoung entrou em medicina porque era a vontade dos pais e depois de se sentir tão miserável que chegou a cogitar tirar a própria vida, decidiu que merecia mais que aquilo. Ia prestar vestibular para belas artes.
Ela amava arte moderna e conhecia todos os pintores famosos do momento além dos antigos. Mina nunca se importou com nada daquilo, mas adorava ouvir Chaeyoung falar sobre seus pintores favoritos, os olhos de corça brilhando em animação. Ela sempre desenhava distraidamente nos cantos das páginas quando precisava refletir muito sobre alguma questão, coçava atrás da orelha quando estava nervosa, se curvava sobre a mesa quando estava animada, tinha uma risada adorável e sempre fazia um "ah" encolhendo os ombros quando estava sem graça.
Chaeyoung era simples e ao mesmo tempo tão difícil de entender. Como alguém, aparentemente tão indefesa, podia ser tão corajosa?
Mina tinha a certeza de que ela era o tipo de pessoa que era impossível de esquecer.
Ligou para ela quando o relógio marcou 11 horas em ponto.
— Bom dia, unnie — ela disse assim que atendeu. Chaeyoung a chamou daquela forma no dia anterior e ela pensou em dizer para que não o fizesse, mas gostou. — Ligou cedo, está de folga?
— Oi, Chae, não — testou o apelido e como não teve negativa, prosseguiu: — Meu filho pegou um resfriado.
— Ah, não, ele tá bem? — Ela sorriu com o tom de voz preocupado da mais nova.
— Sim, o levei no hospital, não é nada grave, mas ele precisa de atenção — explicou. — Não vou poder ir até a biblioteca hoje.
— Claro, claro, eu entendo — Chaeyoung respondeu. — Mas, unnie, seu caderno ficou comigo e amanhã já é a prova...
— Eu sei — ela disse sem conseguir conter um suspiro.
— Eu... Se você não se incomodar, eu posso ir até sua casa. A gente estuda falando baixinho e se o seu filho precisar de você, vamos estar por perto. — Não soube o que responder por longos minutos. Não só a solitude de Chaeyoung a surpreendeu, mas a forma como ela também se colocou ali, como alguém com quem Sunghoon poderia contar caso precisasse. — Não precisa aceitar — ela voltou a falar, rindo sem graça. — Eu só...
— Pode vir — Mina respondeu apressada ao perceber que tinha a deixado esperando. — Quer dizer, se não for incômodo. Não precisa, mas se você não...
— Qual o endereço?
•
— Não sabia se precisava de alguma coisa — Chaeyoung começou a falar assim que entrou no apartamento — e não quis ligar porque pensei que podia acabar acordando seu filho, então eu trouxe sopa lá do restaurante.
— Não precisava — Mina disse aceitando a vasilha de sopa se sentindo um tanto sem graça quando sua barriga roncou diante do cheiro.
— Come, unnie, eu sei que deve estar sem comer. Tem bastante.
Mina quis negar, mas o olhar carinhoso de Chaeyoung a desmontou. Foi até a cozinha e se serviu da sopa junto de um pouco de arroz que tinha pronto na geladeira. Separou bastante para quando Sunghoon acordasse, na esperança de que ele fosse comer. Quando voltou para a sala, encontrou Chaeyoung sentada no sofá enquanto arrumava os materiais de revisão que as duas tinham montado em conjunto nos últimos dias sobre a mesa de centro.
— Não quer comer comigo? — perguntou se sentando ao lado dela no sofá. Ficou um pouco envergonhada da situação de seu apartamento, tudo estava velho e precisando de reforma, mas Chaeyoung nem parecia reparar.
— Eu almocei antes de sair, minha mãe não me deixa sair sem comer — explicou folheando distraidamente as anotações.
— Chae, posso te perguntar algo pessoal? — inquiriu logo recebendo um aceno positivo da mais nova. — Quando a gente se conheceu, você disse que não estava feliz com a sua vida. — Chaeyoung assentiu de novo, dessa vez se virando para ela. — Por que? Você parece se dar bem com seus pais, tem seus amigos... Eu... Desculpa, eu só não consigo entender o que tem de errado.
— É que meus pais e meus amigos não sabem quem eu sou de verdade — Chaeyoung disse, parecendo tão triste que Mina quase deixou a sopa de lado para abraçá-la. — É muito fácil amar a garota perfeita, estudante do curso que eles escolheram, hétero... — ela se interrompeu, olhando para Mina, mas a mais velha ainda a encarava com atenção e atenção apenas. — Meus pais sempre deixaram claro que não aceitariam uma filha lésbica. Sou bi, mas eles não iam entender isso também. Pensei que não teria que contar nunca, mas agora eu tenho uma namorada e não quero mais ficar agindo como se estivesse cometendo um crime.
— Sinto muito — ela falou repousando uma mão sobre o ombro dela. Chaeyoung sorriu.
— Come essa sopa logo antes que esfrie. — Mina revirou os olhos, mas obedeceu. — E... unnie?
— Hum? — ela resmungou de boca cheia.
— Eu gosto quando você me chama de Chae, é muito melhor que pirralha. — Mina quase se engasgou com a sopa.
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Sunghoon acordou poucas horas depois de Chaeyoung chegar, chorando e pedindo por colo. Mina deixou os estudos de lado e foi dar atenção ao filho, tentando convencê-lo de se alimentar.
— Precisa de ajuda? — Chaeyoung apareceu na porta do quarto segurando um copo de água. Mina a encarou com surpresa e assentiu.
— A água seria bom. — Ela entregou para Mina o copo e se sentou em uma cadeira perto da porta do quarto de Sunghoon dando espaço para os dois ao mesmo tempo em que se mantinha presente. Mina se preocupou porque sabia que o móvel não estava muito bom, assim como todo o resto da casa, mas não disse nada.
— Quem é você? — a voz manhosa de Sunghoon chamou a atenção das duas.
— Eu sou a Super Pirralha — Chaeyoung falou em um tom de voz grave. Mina rolou os olhos.
— O que você faz? — Sunghoon perguntou, tombando a cabeça para o lado.
— Eu busco os garotos que não comem toda a sopa. — Chaeyoung viu Mina erguer o cenho para ela, mas a ignorou.
— Não é xuper-héroi como o Homem-de-Ferro?
— Não, sou do time dos malvados — Chaeyoung respondeu cruzando os braços.
— Você não parece malvada — Sunghoon disse sério. — Uma pessoa malvada não tem cabelo rosa.
Mina não aguentou e precisou abaixar a cabeça e fingir que estava chorando para disfarçar a risada.
— Está vendo? — Chaeyoung perguntou apontando para Mina. — Sua mãe já está até chorando porque ela sabe que vou te levar embora para muito, muito longe e não vou devolver nunca mais.
— Mamãe não tá chorando, ela tá rindo. — As duas começaram a rir alto. Sunghoon as encarou por algum tempo como se nunca antes tivesse visto duas idiotas maiores.
— Querido, esse é o Chaeyoung, ela é uma amiga da mamãe, ela me ajuda a estudar — Mina explicou quando conseguiu controlar o ataque de riso.
— Você tem quantos anos? — Sunghoon perguntou encarando Chaeyoung. — Mamãe disse que eu só posso ter cabelo divertido quando for maior de verdade.
— Maior de idade, Sunsun, maior de idade — Mina falou carinhosa, penteando com os dedos os cabelos embaraçados do filho.
— Tenho 20, já sou maior de verdade — Chaeyoung respondeu fazendo uma pose esquisita que quase a jogou no chão, mas fez o garoto rir. — Quando você crescer posso pintar seu cabelo, eu mesmo pintei o meu e ele nem caiu.
— Prefiro ir no salão do tio Jin — Sunghoon respondeu com uma careta, arrancando risadas de Chaeyoung.
— Garotão, que tal comer toda essa sopa e quando você estiver melhor eu te levo pra conhecer a tartaruga da minha namorada?
— Uma tartaruga? — Sunghoon perguntou com os olhos arregalados. — Uma de verdade?
— Uma de verdade.
— Mamãe, ela é mentirosa? — Mina negou, rindo. — E você vai deixar eu ver?
— Deixo, eu deixo, sim.
Sunghoon finalmente comeu toda a sopa e se sentindo com mais disposição, foi brincar com seu velotrol pela casa. O barulho atrapalhava um pouco e Mina pensou que Chaeyoung fosse reclamar em algum momento, mas ela não o fez. Em todo intervalo que tinham, a mais nova brincava com Sunghoon, o convencendo a beber água ou tomar seu remédio.
Mina ficou tão grata pela ajuda dela que, quando Chaeyoung foi embora naquela noite depois de estudarem o máximo que deu, ela a abraçou forte aninhando sua cabeça em seu ombro enquanto deixava em seus cabelos coloridos um carinho. Ela não era muito de demonstrar afeto através de contato físico, mas sentiu tanta vontade de guardar aquela garota preciosa em seus braços que pensou que fosse explodir.
— Muito obrigada, Chae. Mil vezes obrigada — sussurrou no ouvido dela. — Espero que tudo dê certo pra você.
— Pra gente, unnie.
Três meses depois
— Yonsei? Wuah, você é impressionante — ela falou enquanto girava a carta de admissão entre os dedos. — Quem diria que comprar um café me faria conhecer uma futura assistente social formada na Yonsei?
— Deixa de ser exagerada — Mina desconversou, observando Sunghoon correr pelo parque com sua pipa feita de sacola de supermercado. Estavam sentadas em um banco embaixo de uma árvore frondosa o bastante para protegê-las do Sol. Estavam longe do verão, mas era uma tarde especialmente quente.
— Não é exagero, unnie, é realmente impressionante! — Chaeyoung se defendeu, impaciente.
— E você? — ela perguntou, ansiosa.
— Universidade de Gwangju — respondeu estendendo para ela a carta. — Sana vai se mudar comigo, arrumou um emprego por lá e vai investir na carreira de radialista.
Mina conheceu a namorada de Chaeyoung poucos dias depois da prova, quando ela levou Sunghoon para conhecer Kame-san, a famosa tartaruga. Era uma garota adorável e muito simpática. Era impressionante como ela se soltava quando estava fazendo o programa de rádio que ela comandava em Seoul. Era uma rádio alternativa, mas mesmo assim tinha uma boa audiência.
— Promete me ligar? Nos visitar às vezes? — Mina perguntou apontando a carta para Chaeyoung como se fosse uma arma. — Sunghoon já se apegou a você.
— Só o Sunsun?
— Sim, só o Sunsun. — As duas riram e Mina bateu com a carta na cabeça dela. — Eu vou sentir sua falta, Chae.
— Também vou sentir sua falta, unnie.
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