Work Text:
Aperto o cobertor contra o corpo tentando conter mais uma onda de tremor. Era como se meus músculos involuntariamente buscassem me aquecer ao sentirem o frio obscuro e angustiante que dominava a minha alma.
Solto uma longa respiração, fechando os olhos… Estava tão cansada, tão emocionalmente drenada, que evitava abrí-los em uma tentativa de impedir que mais lágrimas caíssem. Vinha sentindo-me virtualmente quebrada durante toda a semana mas, logo ao acordar, me dera conta de que eu não teria forças para fingir.
Hoje seria a primeira vez em que a veria depois de uma longa semana.
Deito a cabeça contra o travesseiro, buscando meu celular perdido em meio aos lençóis para verificar minhas mensagens. Eu não posso evitar sentir um aperto em minha garganta pressionando minha traqueia até que se torna impossível respirar.
Becky não me respondia há dias. E isso me fazia sufocar.
Racionalmente, eu sei que estava sendo egoísta. Eu não poderia esperar outra postura dela depois do que aconteceu entre nós naquele dia. Mas ainda assim… Não posso negar que desejava que ela ao menos demonstrasse que se preocupava um pouco mais comigo.
Eu sabia que ela não me amava tanto assim, meu subconsciente me fere inadvertidamente com esse pensamento. Finalmente ter uma demonstração clara disso, tão cedo, me faz perder o ar e dobro o meu corpo no colchão tentando fazer parar a dor excruciante que cruza meu peito. Franzo a testa, engolindo em seco quando volto meus olhos desolados para perfurarem o teto do meu quarto.
Becky me amava, disso eu tinha certeza, mas eu sabia que seu amor não podia se comparar ao meu. E era por essa razão que eu não poderia permitir que tivéssemos algo concreto.
Manter nossa relação platônica era a única maneira que eu encontrara de me proteger, ao menos até onde fosse possível. Eu sabia que era uma medida de contenção de danos, ineficaz, mas que me pouparia até o dia em que inevitavelmente tivéssemos de seguir caminhos separados. Por mais que soubesse que o mais prudente seria me afastar, apenas o mero pensamento de uma separação indeterminada fazia minha ansiedade se tornar tão ruim ao ponto de me deixar paralisada.
Deus sabe como eu não suportaria vê-la me deixando um dia. E eu seria apenas uma sombra de mim mesma caso isso acontecesse depois de nos relacionarmos mais intimamente.
O que não quer dizer que tenha sido fácil administrar essas minhas resoluções ao ouvi-la confessar seus sentimentos.
‘Eu te amo, P’Freen.’
Sua voz doce, vulnerável, ecoava incessantemente em minha cabeça desde aquele dia e eu, de forma masoquista, saboreava cada sílaba, cada variação de tom na frase que ela derramara sobre mim depois de me encarar por longos minutos. Me lembro do seu olhar suave passeando por meu rosto, meus próprios olhos ávidos e emocionados por vislumbrarem o que só poderia ser descrito como devoção em sua expressão. Mas ouvir as suas palavras… Aquelas palavras me fizeram colapsar. Cores vibrantes e eufóricas tentaram se espremer entre os espaços de medo e insegurança em minha alma, tentando me seduzir para um mundo perfeito, ilusório, no qual nós poderíamos ter uma vida juntas.
Mas a verdade me atingiu com uma força igualmente devastadora que me fez perder a vitalidade nos joelhos, me desestabilizando e me tirando do mundo de fantasia que me permiti viver durante esses anos.
Chegaria um momento em que eu não caberia mais na vida de Rebecca Armstrong. Eu sabia disso. E ser tão dolorosamente consciente desse fato me fez tomar a decisão mais difícil da minha vida:
‘Becky eu… Eu não posso.’
Essa foi a última coisa que disse à ela antes de registrar a dor em seu rosto, como se eu a tivesse machucado da pior maneira possível. Depois disso, sentindo como se eu fosse literalmente morrer, lembro de ter me virado em um rompante para fugir do seu apartamento enquanto lágrimas derramavam por meu rosto com cada batida adoecida do meu coração.
Minhas mãos tremem de novo ao recordar do estado em que chegara em casa naquele dia. De como fiquei ao me dar conta de que a realidade de tudo finalmente se apresentou para mim, me empurrando e forçando-me a tomar uma decisão que não estava e nunca estaria preparada para tomar.
Isso não era justo comigo, não entendia como nunca parecia que eu pudesse ter o que eu queria. E estou tão inquieta, partida e perdida que temo, mesmo com todos os meus esforços, não me encontrar de novo.
Não na forma como eu costumava ser.
Eu não sabia mais existir sem ela ao meu lado.
Uma vibração no colchão me assusta e eu me contorço para alcançar novamente o celular, ansiosamente destravando-o em busca de alguma mensagem dela. Mordo meu lábio inferior com força, constatando ser apenas Nam me checando, como estivera fazendo religiosamente estes dias.
'Não vem trabalhar hoje?'
Solto um longo suspiro, meus dedos letargicamente digitando uma mensagem curta devido a limitação da minha visão parcialmente obstruída pelas lágrimas permanentes em meus olhos.
‘Desculpe, não estou me sentindo bem.’
Deslizo o indicador por minhas pálpebras, fungando enquanto via os pontinhos pularem em nossa conversa, sinalizando que ela estava digitando. Franzo o cenho quando ela para e retoma depois de alguns minutos, para então digitar novamente. Já estava a ponto de desligar o celular, frustrada com sua demora para me responder, quando enfim entendo a sua hesitação em me enviar a mensagem que formulara.
‘Becky veio me perguntar se eu tinha notícias suas. Ficou visivelmente preocupada quando eu disse que você estava indisposta.’
Sinto meu pulso na jugular. Deslizo meu polegar pelo seu nome escrito na mensagem, como se estivesse acariciando-a pessoalmente, e não deixo de me sentir impactada pela forma como sinto meu coração pular com a menção da garota que se tornou a pessoa mais importante da minha vida.
‘Na verdade, ela tem me procurado a semana inteira, perguntando se você estava bem.’
Fecho os olhos, sentindo meu peito subir e descer rapidamente. Meu celular treme mais uma vez.
‘Seja lá o que tenha acontecido entre vocês, por favor, resolvam. Não suporto mais vê-las assim.’
‘A menina parece que não dorme direito há dias, Freen.’
Bloqueio o celular, pousando minha mão na frente dos meus olhos para evitar que a claridade da luminária machucasse meus olhos sensíveis, que ardiam com mais lágrimas agora.
Eu me sinto culpada. Culpada porque estava sendo egoísta. Tão sobrecarregada com meus próprios sentimentos, não me dei conta de que Becky não tinha ideia das minhas razões para ter feito o que fiz. Provavelmente achava que eu não a amava de volta e tentava preservar a distância que eu inconsequentemente criara entre nós.
Traço meus dedos por meus lábios, completamente à deriva, desorientada.
Eu sabia o que precisava fazer. Eu sabia que momentaneamente doeria nela, mas mais cedo ou mais tarde ela se recuperaria dessa queda que sentia por mim. Ela era forte e determinada, e eu sei que um dia eu seria apenas uma lembrança para ela.
Mas eu jamais poderia dizer o mesmo em relação a mim.
Eu não sei ao certo quando me dei conta de que estava ridiculamente apaixonada. Para ser sincera, como uma semente regada todos os dias, a sensação de encantamento que tive por ela desde o começo floresceu enormemente no meu peito, ao ponto de que, agora, era como se estivesse me afogando em areia movediça. Quanto mais eu me esforçava para me libertar, mais eu era puxada para dentro, e mais era confrontada com a magnitude dos meus sentimentos.
E agora o que tenho é uma necessidade feroz de protegê-la, de cuidá-la, de amá-la, e não posso suportar a ideia de alguém mais fazendo qualquer uma dessas coisas por ela.
Ninguém nunca teve um poder sobre mim como Becky tinha, o que me tornava obcecada por ela.
Choro mais intensamente, enrolando meu punho no tecido do meu moletom e no lençol da cama, a dor que sentia ameaçando rasgar o meu peito. Estava com tanta saudade, com tanta… grunho, inconformada com o meu destino.
Eu não poderia viver um sonho com ela sabendo que um dia se cansaria de mim. Eu não poderia me entregar completamente à ela quando eu sabia que eu não tinha o direito de depositar tanta intensidade e sobrecarga emocional sobre alguém que ainda sequer sabia onde suas raízes estavam. Eu não poderia ser um peso em sua vida, que estava apenas começando.
O medo de me machucar me aterroriza. Eu sei que a queda que eu eventualmente sofreria me destruiria completamente, pulverizando o coração que eu cuidadosamente tentara remendar ao longo dos anos, inclusive com a ajuda dela.
‘Nam, por favor, cuide dela. Faça com que tome água, se alimente. Agora preciso ir, realmente não me sinto bem.’
Me sinto...
O peso do nosso sofrimento nas minhas costas é demais, e eu acabo sucumbindo aos sintomas da minha ansiedade devastadora até finalmente apagar em exaustão.
_____________________________________
Não consigo explicar ou descrever como, mas sei que algo estava diferente no meu quarto mesmo antes de abrir os olhos. Eu sinto o ambiente ao meu redor pulsando, como se a energia do universo tivesse sido alterada. Aguço os meus sentidos, precisando explorar o que causara a interferência no espaço, e me imobilizo ao finalmente entender o que estava acontecendo.
Hesitante, abro os olhos lentamente, permitindo que o espectro de luz visível penetrasse os meus olhos. E é assim que acabo me deparando com o meu centro de gravidade.
Ofego, emocionada.
Becky parecia um anjo, sentada na poltrona a alguns centímetros da minha cama. Tinha uma perna cruzada sobre a outra, as mãos apoiadas no encosto da cadeira, e me olhava fixamente.
Nossos olhos se conectam intimamente, com desespero, e a agonia que me perturbava, que pisoteava meu coração, finalmente cessa. Como se meu equilíbrio estivesse se reestabelecendo, como se a luz pudesse enfim me fazer enxergar, como se o barulho dos meus pensamentos incessantes fossem abafados.
Era esse o tipo de poder que ela tinha sobre mim. Contanto que a tivesse sob o alcance dos meus olhos, ou que a tivesse perto de mim, olhando-me como fazia agora, eu sabia que ficaria bem. Como um sol em minha vida, Becky esquentava cada parte minha e fazia florescer um jardim em meu peito. E essa sensação era tão deliciosamente viciante que eu sinto vontade de chorar.
Becky interpreta mal minha reação e acaba apertando os punhos e os olhos com força.
“Me desculpe.” Sua voz está instável, quase desesperada. Ela volta a abrir os olhos. “ Eu só precisava ter certeza de que você estava bem.”
Ela me surpreende e se levanta, olhando-me com uma angústia tão evidente em seus olhos que me arranca um som assustado do fundo da garganta.
Eu nunca a tinha visto assim.
Paralisada por alguns segundos, meus olhos se arregalam quando a vejo virar as costas para mim e caminhar até a porta. Meu corpo começa a tremer ansiosamente mais uma vez, meu coração falhando, exausto por carregar tanto peso.
“Becky!”
Minha voz soa desesperada ao sentir o ambiente começar a escurecer vendo-a se afastar de mim e levar a luz consigo.
“Por favor.” Molho minha garganta, o ar que passava por ela fazendo-a doer devido ao tempo em desuso. “Por favor, não vai.”
Avidamente observo a forma como ela ofegava, em seguida ouço-a tentando conter o choro, ainda de costas para mim. Essa percepção me dilacera, me tira o chão e o pouco de ar em meus pulmões. Rapidamente me liberto do cobertor pesado que me envolvia e mal tenho tempo de pousar meus pés descalços no chão antes de sucumbir ao impulso de abraçá-la.
Avanço com tanta vontade contra ela que acabo deslocando-a para frente ao encostar meu peito em suas costas. Inspirando como se alcançasse a superfície depois de minutos debaixo d’água, envolvo meus braços por seu corpo e pouso minhas mãos em seu abdômen coberto pela fina blusa que usava.
Percebo que ela também tremia, tensa perante o meu toque, e aperto ainda mais meus braços ao seu redor. Absorvo seu cheiro na pele do seu pescoço, descansando meu queixo em seu ombro perfeito.
Uma respiração cortada escapa de mim quando vejo-a levar uma mão até a boca para tentar abafar o som do seu choro. Ela abaixa a cabeça, pressionando os dedos contra os olhos.
Ela parecia derrotada.
“Me diga o que fazer, P’Freen.” Sua voz partida pelo choro enfiava facas em mim. “ O que eu faço para consertar o que fiz com a gente?”
Impactada, minha mente se desfoca e desestabiliza ainda mais quando ela finalmente se vira para mim e sou atingida pela visão celestial do seu rosto a poucos centímetros do meu.
Ela era tão linda que preciso respirar fundo, sobrecarregada por precisar lidar com cada detalhe divino diante de mim.
Dolorosamente linda. Mesmo com as lágrimas escorrendo por suas bochechas suaves.
Meu anjo.
Eu sabia que minhas pálpebras pesavam sobre os meus olhos, fazendo meu olhar piscar como se estivesse sonolenta. Molho meus lábios lentamente quando sou hipnotizada pelos dela, sempre tão atraentes em seu tom naturalmente rosado.
Minha respiração trava na garganta com a vontade desesperadora de beijá-la.
“Vamos fingir que eu não disse aquilo.” Ela finalmente se move e ergue as mãos para segurar meus braços delicadamente. Me sinto arder sob seu toque firme, intencional. “Podemos fingir que aquele dia não aconteceu e continuar nossa amiza…”
Calo-a pousando meu indicador em seus lábios. Observo meu dedo traçar o contorno perfeitamente desenhado deles, involuntariamente me aproximando mais. Com a outra mão seguro a sua nuca, tornando impossível com que se afastasse. Becky aperta meus braços com uma pressão que me faz ofegar.
Ela fecha os olhos ao sentir minha respiração em seu rosto.
“Eu não posso fingir.” Arrasto meu polegar por baixo dos seus olhos, tentando conter suas lágrimas. Eu odiava vê-la chorando. “E não podemos ser amigas como costumávamos, tampouco.”
O olhar desolado que vejo quase me faz repensar tudo. A forma como ela reage tão visceralmente a cada palavra minha me faz ficar confusa.
Era como se sentisse tanto quanto eu sinto.
“Por que não?” Sua voz é tão pequena e frágil que me faz inclinar a cabeça e morder os lábios com força, tentando impedir meus olhos de lacrimejarem. “Você não me quer mais na sua vida?”
Isso é demais para mim.
Angustiada, nego com firmeza. Então confesso,
“Eu te amo.”
Minha respiração acerta seu rosto mais uma vez e eu não contenho mais minhas próprias lágrimas.
“É claro que eu te amo, Becky.” Desvio os olhos para o teto, comprimindo meus lábios, tentando não parecer um desastre na frente dela. “ Eu te amo tanto que sinto meu coração dobrar ao meio quando estou perto de você, quando penso em você. Eu te amo de tantas formas, em tantos sentidos, que às vezes eu me vejo consumida completamente por esse sentimento.”
Becky paralisa. Seus lindos olhos, que brilhavam com lágrimas, me encaram como se eu fosse uma miragem. Como se eu fosse um anjo e lhe dissesse que o paraíso de fato existia.
“Mas você… Você disse que,”
Seu nervosismo misturado com deslumbramento me faz sorrir tristemente.
“Que eu não podia.”
Seu olhar nunca deixava o meu, e esse era um dos diversos hábitos seus que me fascinavam. Mas hoje… Agora eu me sinto encurralada por ele.
“Por quê?”
Becky parece mais uma vez pequena diante de mim, como se eu pudesse a qualquer momento destruir a sua vida enquanto esperava a minha resposta.
Minha cabeça lateja, e sinto uma bomba dentro dela e do meu coração.
“Porque eu sei que sou apenas parte do seu mundo.” Tento conter minha entonação, mas minha voz sai mais alta, mais desesperada do que eu esperava. “Já você… Você é o meu mundo, Becky.”
Ela franze a testa e as sobrancelhas, confusa com os sinais que recebia de mim.
“O quê?” Ela tenta me abraçar mas eu não deixo, chorando ainda mais quando vejo seu olhar cair. “P’Freen, eu não estou entendendo, como…”
Respiro fundo, tentando ser o mais clara possível, mesmo que eu não quisesse reconhecer a verdade que deveria nos manter separadas.
“É a verdade. Você é tão jovem ainda, talvez volte a morar na Inglaterra, tem decisões importantes a tomar, experiências para viver, e nada disso você conseguirá conciliar caso…”
“O que você está dizendo?”
Ela me interrompe com a voz baixa, seu olhar começando a desenvolver fagulhas. Engulo em seco, levando uma mão até a cabeça para enfiá-las por meus cabelos.
“Que eu não seria uma prioridade na sua vida! E eu não posso ser, por mais que queira, por mais que deseje isso, eu não posso ser egoísta a esse ponto, Becky!” Dessa vez me afasto com um longo passo, não suportando estar tão perto dela. “Não posso te prender em um relacionamento que vai exigir tanto de você… Eu… Eu não posso te amar com a intensidade que amo porque não é isso que você quer para a sua vida!”
Talvez esperasse que ela reagisse imediatamente, que tentasse me abraçar e me convencer de que eu estava errada. Mas seu completo silêncio me incomoda e machuca tanto que preciso me voltar para a parede, envergonhada pela forma amarga como chorava.
Ouvi-la depois de um tempo, no entanto, dá início a uma profunda transformação em mim.
“Você acha que pode tomar essa decisão por mim? Acha que sou tão imatura assim que não posso decidir o que quero para a minha vida?”
Arregalo os olhos, me abraçando ao vê-la me direcionar um olhar e postura absolutamente séria e madura.
Sinto minhas pernas bambas.
“Acha que é a única insegura? Acha que não penso em como você é demais para mim, e em como não faz sentido uma mulher como você querer uma menina como eu?”
Arfo, tentando não iludir meu coração com suas palavras. Mas ela soa tão certa, tão… Me viro mais uma vez, tentando manter minha guarda erguida.
“Eu só estou tentando me proteger.” Confesso, comprimindo os lábios para evitar o soluço do meu choro copioso. “Vejo o seu futuro brilhante, maior do que Bangkok pode oferecer, e eu não suportaria te ver me deixar um dia.”
Ela parece chocada, ofendida até, e seus passos em minha direção são decididos e irredutíveis. Eu vejo a mulher por quem me apaixonei me olhar com tanta intensidade que eu solto um resfolego, surpresa com a tempestade em seus olhos.
“Acha mesmo que eu seria capaz de te machucar dessa forma? Que mesmo sabendo de tudo o que você passou, eu te abandonaria assim?” Seus olhos escaneiam meu rosto e ela toma mais uma respiração profunda, como se tentasse se acalmar enquanto esperava minha resposta.
“Não intencionalmente. Mas acho que chegará um dia em que você se dará conta de que não me quer, ou que não precisa mais de mim ao seu lado.”
Externalizar esse meu medo é tão difícil que eu quase me engasgo com as palavras. E ainda mais quando vejo a cor sumir do rosto dela.
“Meu amor por você é tão maior que isso.” Ela tenta encostar nossas testas mas eu recuo, desesperada para manter minha sanidade. Aperto meus braços ao meu redor. “Por favor, confie em mim, Freen. Eu… eu nunca seria capaz de deixar você.”
Lembro do meu pai, lembro de como ele costumava falar o mesmo para mim… Meu corpo pesa com as lembranças, e eu aperto meus olhos, sentindo minha cabeça doer.
“Você ainda vai viver muita coisa, conhecer muitas pessoas… Talvez você…” Engulo em seco, tentando empurrar as palavras amargas para fora da minha boca. “Sou a primeira pessoa por quem se apaixona, e eu sei como isso pode te confundir, sei como pode parecer eterno agora… Eu já vivi isso, Becky.”
Doía, doía, doía imaginar, cogitar que eu estivesse certa. Eu não queria ser um sentimento passageiro em sua vida, mas eu tinha que ser franca comigo mesma… Era uma questão de sobrevivência.
“E como acha que podemos lidar com isso, Freen?! Como vai se sentir quando supostamente me ver com alguém? Porque eu sei que preferiria morrer a te ver com outra pessoa.”
Fecho os olhos com força, sentindo um soco em meu estômago. Imagens se cravam no fundo dos meus olhos, imaginando-a abraçada e sorrindo enquanto segurava a mão de outra pessoa.
“Não faz isso… Por favor.”
“Eu preciso te fazer entender que esse seu medo é irracional, Freen! Eu não posso amar ninguém mais como eu amo você.” Ela chega mais perto, tentando acalmar sua respiração. Então fala baixinho. “Eu tentei.”
Congelo. Minha respiração se torna mais rápida e rasa. De repente me sinto tonta e me sento na cama.
“Tentou… O quê?”
Minha voz transborda medo e eu não tenho coragem de olhar para ela, por isso encaro meus dedos. Sinto Becky chegar mais perto de mim, se agachando para ficar diante dos meus olhos.
“Eu tentei me relacionar com outra pessoa.” Meu coração despenca, e sinto o ácido em meu estômago ameaçar retornar por meu esôfago. Náusea se dissemina por mim como se eu tivesse sido envenenada. “Eu tentei deixar com que se aproximasse, tentei sentir ao menos uma fração do que sinto com você, mas quer saber o que eu senti, Freen?”
Minha visão focava e desfocava em seu rosto, flashs dela com outra pessoa invadindo a minha mente. Eu não conseguia responder, não conseguia reagir diante disso, mal conseguia respirar.
“Eu senti nojo.” Seus dedos agarram os meus, que se apertavam em meu colo em um sinal claro da ansiedade que me dominava. Em seguida ela segura meu queixo com delicadeza, fazendo com que mantivesse meus olhos somente nela. “ A ideia de ficar com alguém que não fosse você me deixou… Doente. Nada fazia sentido.”
Eu chorava agora, ainda assustada com a ferocidade da minha raiva. Da minha tristeza. Da minha angústia.
“Quando isso aconteceu?”
Consigo murmurar, meus olhos presos aos dela, querendo investigar a sinceridade deles, querendo que ela tirasse de mim aquela dor insuportável que me feria como nada antes havia feito.
“Essa semana.” Ela me responde imediatamente, se ajoelhando por se manter tempo demais agachada diante de mim. Seus olhos desviam para o chão antes de retornarem para os meus. “Tentei me convencer de que podia te tirar do meu coração… Na minha cabeça essa era a única forma de te manter na minha vida.” Ela engole em seco, deslizando o polegar em minhas coxas como se quisesse me tranquilizar. “Se continuássemos amigas, ao menos eu ainda te teria por perto.”
Fecho os olhos, derrotada. Toda essa bagunça… Tudo isso era culpa minha.
O que não quer dizer que me sinta menos… Desolada, traída. Não consigo evitar me sentir assim. Movida pelo ciúmes e pela possessividade que sempre senti em relação à ela, agarro sua mão e entrelaço nossos dedos.
“Alguém tocou em você?”
Não queria que minha voz soasse tão quebrada, mas não consigo evitar. Era como se uma mão apertasse o meu coração, deixando uma marca que eu nunca poderia esquecer ou apagar.
“Não.” Seus olhos dançam por meu rosto como se o estivesse decorando, e então se aproxima para pousar os lábios em meu queixo. Aquele era um gesto íntimo, mas já familiar entre nós. “Não permiti que encostasse em mim. Só o pensamento disso me fez querer vomitar.”
Emocionada, aliviada, ainda perturbada, inclino minha cabeça para encostar nossos narizes. Apesar de traumática, nossa conversa me fez entender que eu nunca poderia deixá-la ir, não de verdade. Por mais que tentasse, por mais que fugisse, eu não seria forte o bastante para lidar com uma realidade em que ela não era minha.
Aquele era um check-mate.
Palpitando, meu coração dançava ansioso, permitindo-me sentir em doses o que eu tentava controlar há muito, muito tempo.
“Você pode arruinar minha vida para sempre.”
Meu tom é diferente agora. Não carrega mais escudos, mas sim declara, com imensa vulnerabilidade, a verdade inegável por trás delas.
Percebendo que eu cedia aos poucos, Becky sabe que só precisava me empurrar um pouco mais para além do meu limite, consciente de que eu nunca seria forte o bastante para resistir a ela. Nunca. Assim, como uma felina sedutora, como a própria filha da deusa do amor, ela avança com calma sobre mim, mantendo-me presa no seu olhar enquanto me escalava. Sinto meu corpo pulsar, minha alma convulsionar, e ela se pressiona contra mim para me fazer deitar lentamente contra o colchão. Apoiando as mãos ao lado da minha cabeça, se mantém sobre mim enquanto me tinha refém, completamente hipnotizada por seu encanto.
Eu nunca poderia resistir a ela.
Assim como nunca poderia esquecer suas seguintes palavras:
“Ou eu posso ser a sua esposa. A mãe dos seus filhos. A pessoa que vai passar o resto da vida te amando tanto que vai rezar todos os dias para que haja uma outra linha de tempo para vivermos nossa história de novo, de novo e de novo. Estou tão assustada quanto você, Freen, mas estou disposta a mergulhar com você, e só com você. Você não sente o mesmo? Não entende isso? Não quer isso tanto quanto eu?”
O sentimento de pertencimento que percorre meu corpo é tão profundo e avassalador que arfo, levantando uma mão trêmula até seu rosto. Meus olhos se revezam ao encarar os dela, absorvendo a magnitude de tudo o que havia me dito com uma euforia tão intensa que percebo minha respiração falhar.
Assim como minha voz, desesperada para professar aos poucos o amor que eu tinha por ela.
“Eu adoro você.” Levo minha outra mão até seu rosto, prendendo-a sob minhas palmas com todo carinho e reverência. “Adoro seus olhos e a forma como me olha,” puxo sua nuca para que fosse capaz de beijá-los.
Deslizo meus dedos dentro do seu cabelo, prendendo uma mecha atrás da orelha, completamente entregue.
“Adoro seu rosto, suas sardas,” arrasto meus lábios pela maçã de suas bochechas, enroscando nossos narizes no processo, “adoro sua voz,” escorrego minha boca mais uma vez por sua pele, pousando-a em sua garganta para completar, incapaz de parar de amá-la com minhas palavras: “ela dança em minha cabeça desde o minuto em que acordo até quando me deito.”
Por ter meus lábios colados em seu pescoço, sinto a vibração do seu gemido baixo e da sua respiração acelerada. Tudo era tão perfeito que eu cogito estar sonhando.
E me dou conta de que acordar para uma realidade em que não a tinha ofegante assim sobre mim seria devastador.
Me agarro com mais força à ela, deslizando minhas mãos dos seus ombros para os seus braços, viciada em nosso contato físico.
“Eu adoro como você me faz sentir.”
Seus dedos, tão próximos da minha cabeça, se apertam no tecido da cama, repuxando-o. Viro meu rosto para que pudesse beijar o seu pulso esquerdo, e observo a forma como ela flexiona os músculos em resposta.
“Fica comigo.” O pedido em sua voz madura e profunda é tão íntimo que eu sinto uma pontada na base da barriga me percorrer até os dedos dos pés. “Fica comigo e eu vou te provar todos os dias que você será sempre a minha escolha.”
Sentindo o frio na minha barriga crescer escandalosamente, não tenho tempo para formular minha resposta antes de receber o peso de Becky em cima de mim. Ela cobre todo o meu corpo com o seu, com cuidado, e junta cada pedacinho dela à minha bagunça. Meus olhos tremeluzem e passo a língua sobre o lábio inferior, sentindo o ritmo do seu coração influenciando o meu.
Até que eles estivessem batendo em um só compasso.
Aceno com a cabeça, minha voz escapando sob um fio em uma respiração curta, instável. “É tudo o que eu mais quero.”
Minha súplica é recepcionada em sua boca. Becky, da forma mais enlouquecedora possível, segura meu rosto em sua mão esquerda, prendendo minha nuca e mandíbula entre seus dedos longos e finos, angulando sua cabeça para que pudesse encostar nossos lábios. Aperto meus olhos, choramingando ao sentir o contato que estivera ansiando por tanto tempo, esperando que ela tomasse o próximo passo e acabasse com minha agonia. É então que, adotando seu lado dominador, insaciável, ela expira lentamente antes de me beijar.
Entrelaço minhas mãos em seu cabelo, erguendo meu pescoço, minhas costas, sentindo os espasmos e contrações involuntárias dos meus músculos sob o toque exigente dela, que passeava por meu corpo com a mão direita. Seus lábios deslizam pelos meus com tanta devoção que sou incapaz de conter um suspiro desesperado, faminto, e abro mais a boca para permitir que ela me possuísse por completo.
Nada me prepara para o momento em que sinto sua língua me reivindicando.
Nunca tínhamos nos beijado assim antes. Nunca tinha sentido a força do quanto ela me queria, do quanto ela me desejava. Nossos beijos anteriores demonstravam puro carinho, respeito e compromisso com os nossos personagens, cada beijo especialmente pensado para a cena que representávamos.
Mas agora?
Ela faz minha cabeça rodar e o mundo que eu achava que existia vira de ponta cabeça. A forma como ela girava sua língua na minha boca, explorando, conhecendo seus limites enquanto acariciava minha bochecha com seu polegar me faz ter certeza de que eu nunca mais poderia viver sem essa sensação. Ela me preenchia e se encaixava tão absurdamente bem em mim que eu não tinha mais nenhuma dúvida do nosso futuro.
Nós nunca encontraríamos outra conexão como a que compartilhamos uma com a outra.
Agarrando seu rosto, prendo seu lábio superior entre os meus, beijando-a enquanto erguia sofregamente minha cabeça. Sinto sua língua dançar no meu lábio inferior, complementando os meus movimentos em uma dança tão sensual, tão íntima, tão surreal, que não posso evitar que os sons de prazer escapem de mim.
Becky abafava todos eles, e cada gemido que ouvia parecia incentivá-la a me tirar cada vez mais de órbita. O oxigênio de repente se torna inexistente e eu sou obrigada a recuar um pouco, despejando minha expiração pesada em seu rosto. Sem parecer conseguir parar, Becky segue traçando uma trilha de beijos do meu queixo até meu ouvido, e sua respiração quente me arrepia.
“Freen.”
Não contenho minha vontade e a abraço completamente, querendo confortá-la. Ela parecia emocionada também e por um momento precisamos apenas nos sentir assim, envolvidas nos braços uma da outra.
Até que o desejo me atinge como uma onda avassaladora, e eu não posso adiar mais as minhas ações,
Ancoro minhas mãos em seus braços mais uma vez, incapaz de evitar que minhas unhas desenhassem padrões perdidos em sua pele, marcando-a antes de descerem para a barra da sua blusa. Ela me entende e se ergue um pouco, apenas o bastante para me ajudar a tirá-la.
Eu já a havia visto em suas roupas íntimas antes. Tão próximas desde o começo de nossas carreiras como atrizes, não eram incomuns as vezes que precisávamos dividir o mesmo espaço para trocar de roupas para as diferentes cenas. Mas tê-la dessa maneira sobre mim, sua pele tão próxima da minha, seu calor se misturando ao meu, evoca uma sensação completamente diferente agora.
Eu não apenas a admirava à distância, ou elogiava sua forma. Agora eu podia tocá-la como eu queria e adorar cada detalhe que sempre prendeu minha atenção. Eu a conhecia há tanto tempo… Mas é como se estivesse redescobrindo e sendo apresentada pela primeira vez ao universo dela.
Em transe, primeiro observo seu pescoço e ombros. Aquela era uma parte tão estupidamente atraente nela que por vários momentos já me peguei perdida, mapeando o seu contorno elegante e sexy. Finalmente capaz de agir como sempre desejei, com a ponta dos dedos, traço o caminho da sua clavícula até encontrar seu esterno. Em seguida, deixo beijos molhados pelo percurso que tracei, simultaneamente deslizando meus dedos verticalmente, para baixo, até acariciar a pele macia entre seus seios, cobertos pelo sutiã.
Sinto a pele dela se arrepiar e eu encaro seus olhos, levando minha mão para suas costelas esquerdas, procurando evidências do maior tesouro que poderia querer.
Seu coração.
Ele pulsava contra a minha mão com uma violência que me assombra. Meus olhos arregalados permanecem enlaçados aos dela e sinto sua mão voltar a acariciar meu quadril.
“Becky.”
É a minha vez de sussurrar, lhe implorando por algo que só ela seria capaz de me dar.
Sinto sua energia se transformar. Espalmando suas mãos por minha cintura, ela reivindica meu corpo, me puxando para si com pressão suficiente para me erguer da cama. Com o corpo mole diante do seu domínio, entreabro os lábios e deixo meu pescoço cair para trás, extendendo-o de tal maneira que Becky, agora com as coxas pressionadas contra mim, me marca com beijos e mordidas deliciosas.
Com delicadeza, apesar da firmeza que sinto em seu toque, ela tira minha roupa, evitando que nossos lábios se separassem por mais do que alguns segundos. Ela tira todas as barreiras entre nós até que tudo o que consigo sentir é a temperatura ardente da sua pele.
Não acreditava que minha frequência cardíaca pudesse ser registrada, não quando meu pulso mantinha um ritmo sobrehumano, especialmente quando ela escorrega a mão por minha barriga, beijando-me de forma apaixonada ao deslizar os dedos entre as minhas coxas.
Becky me faz desmoronar em seus braços, incapaz de conter a onda de choque que sinto ao provar a existência do céu na Terra.
_____
Ela deslizava a ponta dos dedos por minhas costas nuas em uma carícia que poderia me fazer virar uma poça na cama. Mantenho meus olhos fechados, precisando absorver, obter mais da sua presença ao meu lado, e meus dedos se contorcem sob o travesseiro, desesperados para tocá-la de novo.
Eu ainda não podia acreditar no que havia acontecido entre nós.
Minha respiração fica presa na garganta quando minha mente inevitavelmente se recorda de cada toque, de cada sensação que compartilhamos. Becky percebe que eu havia acordado, pois sinto quando se inclina sobre mim para pousar um beijo delicado no meio das minhas costas.
Fecho minhas mãos em punho, sentindo todo o meu corpo tremer.
“Eu preciso te falar uma coisa.”
Sua voz rouca ao acordar sempre causara pequenos terremotos em meu coração. Mas ouvi-la assim, tão próxima ao meu ouvido, depois da noite que tivemos, provoca um tsunami em minhas veias.
E em outros lugares também.
Sinto sua mão massagear minha pele, delicadamente descendo desde a minha nuca até a base da minha coluna, arrastando meu lençol junto. Suspirando, abro meus olhos, e não sei se algum dia estaria preparada para lidar com a visão que tenho.
Becky tinha a cabeça apoiada na mão, erguida devido ao braço dobrado sobre a cama. Seus cabelos em seu tom acobreado estavam volumosos, deliciosamente bagunçados pelos meus dedos, e contornavam como uma pintura seu rosto angelical. Seus olhos, naturalmente mais claros que os meus, tinham agora um tom caramelo ao redor de suas íris, destacando sua doçura e pureza.
Becky era feita de contrastes, uma dualidade que me enlouquecia mais a cada dia. Ao mesmo tempo em que carregava inocência em seu olhar, e por vezes em seus gestos, ela também me surpreendia quando demonstrava o quão decidida era, com opiniões fortes e atitudes firmes que me provavam a sua maturidade.
A mesma menina que me pedia colo, que gostava de se encostar em meu ombro para dormir em nossas viagens de trabalho, também cuidava de mim e me protegia quando eu não tinha condições para isso.
E era a mesma pessoa que me fez delirar enquanto me amava, fazendo meu corpo vibrar com uma energia transcendental.
Eu era tão sortuda por poder chamá-la de minha.
“O que quer me contar?”
Ergo minha mão, passando meu dedo no meio de sua testa para tirar o vinco adorável que se formava lentamente ali. Meu peito derretia de amores por ela.
“Estava pensando sobre o que me falou ontem.” Ela tira a mão das minhas costas para pegar a minha sobre o seu rosto, levando-a para seus lábios. Suspiro, observando sua boca. “Sobre eu não querer ter um relacionamento tão intenso na minha vida nesse momento.”
Meu coração dispara, ansioso. Encaro seus olhos, me aproximando mais dela, precisando me livrar do medo quase paralisante que sinto por não saber o caminho que aquela conversa estava tomando.
Desvio meu olhar, nervosa.
“Acha que eu estava certa?”
Ela arregala os olhos e nega veementemente, acariciando meu rosto com o polegar.
“É claro que não.” Deposita um longo beijo no canto da minha boca, e eu aproveito sua proximidade para sentir seu cheiro, buscando todo o conforto que ela pudesse me oferecer. “ É só que não tive a oportunidade de te responder da forma como deveria… Fui pega de surpresa com o que disse e não estava preparada, mas agora quero que me escute.”
Seu indicador desliza pela lateral do meu rosto com tanto carinho que faz meus olhos lacrimejarem. Sua voz tinha um tom tão determinado, firme, que me vejo surpresa pelo quão séria ela parece agora.
“Desde pequena eu sempre me senti bem sozinha. Me sinto no meu elemento. É quando eu me permito acessar todos os domínios da minha mente e me vejo cercada apenas pela minha presença e a dos meus pensamentos.” Seu polegar não parava de dançar em minha pele. Eu aceno fracamente. “ Mesmo quando estou com minha família, experimento momentos em que eu tenho uma certa necessidade de me afastar, de me recarregar para que possa me concentrar em mim mesma. E essa é uma característica minha que eu sempre achei que nunca mudaria.”
Sinto literalmente minha respiração parar ao presenciar o sublime momento em que suas pupilas dilatam, seus olhos densos e profundos me convidando para mergulhar neles.
“Mas depois que eu te conheci, depois de crescer com você...” Ela acaricia minha têmpora com os lábios, escorrendo os dedos por meus cabelos. “É como se fizesse parte de mim agora. Estar com você, dividir o ar com você, olhar você… Eu não sou mais o bastante sozinha, Freen. Agora eu preciso de você comigo para que possa me sentir em paz, completa.”
“Becky…” Quase não reconheço minha voz sussurrada, atônita.
“Nunca sequer cogite ser um peso em minha vida.”
Suspiro anestesiada, deixando minha cabeça pender e pesar em seu peito. Encosto minha testa nela, arrastando minha pele na sua como um gatinho desesperado por carinho.
“Eu nunca me senti especial antes.” Sinto quando pousa um beijo na minha cabeça e fecho os olhos, procurando forças para admitir meus sentimentos mais profundos. “Eu sei que tenho pessoas que me amam ao meu redor, mas, durante a maior parte da minha vida, nunca me senti verdadeiramente importante para ninguém.”
É a minha vez de ouvir seu suspiro profundo.
“A sua presença na minha vida sempre significou tanto para mim.” Meu queixo escorrega quando ela se deixa deitar de costas na cama, me puxando para ficar parcialmente sobre seu tórax. Acaricio os fios macios sob meus dedos. “ Você me faz sentir como se eu pudesse ser tudo para você, e eu quero ser tudo pra você, Freen.”
Me inclino mais, nivelando nossas bocas, nossos narizes, nossos olhos. Ela me observava serena, parecendo tão perdida em mim que sinto meus lábios tremerem devido ao espasmo que parte do meu coração.
“Quero que seja minha amiga, minha parceira, minha namorada.” Enrolava inconscientemente meus dedos na ondulação natural dos seus cabelos. Engulo em seco. “ Quero que seja minha para sempre.”
Ela me observa demoradamente, fazendo o tempo ao nosso redor se dilatar e colapsar para nos envolver e proteger do avançar dos minutos. Eu não queria que o tempo passasse, que os segundos se movessem, porque isso significaria que teria de deixá-la sair debaixo de mim em algum momento.
Selo nossos lábios demoradamente para evitar esse pensamento.
Becky então começa a tocar minha coluna mais uma vez, dedilhando cada vértebra com uma delicadeza que fazia o lençol fino e sedoso ao nosso redor parecer áspero em comparação.
Me arrepio com seu sorriso, o mesmo que fazia as borboletas em meu estômago se multiplicarem todos os dias.
“Me beija, Freen Sarocha.”
Meu coração transborda e a evidência física disso é o risinho apaixonado que me arranca ao me chamar desse jeito. Ela sabia que me desmontava quando fazia isso.
Cerro os olhos, comprimindo minha língua contra a bochecha antes de morder os lábios. Becky tinha seu olhar fixo nos meus movimentos, e entreabre a boca involuntariamente, também parecendo perdida em seus próprios desejos. Não posso manter minha provocação por muito tempo, por isso me debruço sobre ela. Suas mãos automaticamente seguram minha nuca quando a beijo, e exploro a maciez e suavidade sob o meu domínio e posse.
Era tão incrivelmente delicioso beijá-la, ouvir sua respiração alterada, o som dos nossos lábios se adorando. Eu decido que essa era a melhor forma de arte que já havia experimentado.
“Vou te levar para a Holanda.”
Um sorriso preguiçoso dança em meus lábios quando ela diz isso, e eu pisco lentamente, suspirando sob seu olhar penetrante.
“Agora?” Franzo as sobrancelhas, brincando com ela. Meu coração formiga com os planos que ela já arquitetava. Becky não deixava de me assombrar com o quão assertiva era ao se decidir sobre algo. “Como pode se lembrar disso? Acho que só comentei com você uma vez sobre querer ir pra lá."
Ela faz sua típica cara de menina atrevida e eu sorrio, exclamando um familiar ‘Bec!’ por baixo do meu riso. E por estar tão descontraída, não me sinto preparada para o que ouço em seguida:
“Eu presto atenção em tudo o que você fala. Diferente do que pensa, tudo o que diz ou pensa é importante.”
Me aconchego mais em seus braços, refugiando meu rosto na curva quente e deliciosa do seu pescoço. Meu coração explode, palpitando, querendo, ansiando por mais.
Eu sempre queria mais com ela.
Enrosco meus dedos em seu pescoço quando beija minha bochecha, próxima dos seus lábios.
“Será que é possível você falar algo que não faça meu coração correr uma maratona?” Seus olhos me encaram com tanto amor que eu ofego, retribuindo a profundidade que vejo neles. “ Não sei se lembra, mas eu não sou acostumada a isso, meu amor.”
Seus olhos brilham ao me ouvir chamá-la assim, assim como todo o seu rosto. Becky tinha uma áurea tão intensa ao seu redor que às vezes se tornava difícil encará-la, pois não era fácil desviar o olhar.
Ela era magnética.
“Deixe ele sob os meus cuidados, então.” Ela entrelaça nossas mãos e os nossos olhares. “ Ninguém pode cuidar do seu coração melhor do que eu.”
Não tenho como respondê-la, as palavras que sempre me orgulhei de ostentar em meu vocabulário simplesmente desaparecidas em meio ao turbilhão de emoções que sinto. Então o que me resta é deixar que minhas ações se comuniquem com o romantismo inesperado e surpreendente de Rebecca Armstrong.
A mulher que era, inegavelmente, o amor da minha vida.
