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Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2023-11-17
Words:
1,004
Chapters:
1/1
Kudos:
80
Bookmarks:
4
Hits:
631

Anger

Summary:

Se dependesse de Roier, eles viveriam cada dia, cada minuto e cada segundo com medo.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Roier grunhiu ao largar a espada pesada e manchada no chão, cambaleando para trás enquanto encarava, jogado à sua frente, o corpo dilacerado daquele que há pouco tempo atrás chamaria de amigo.

Dessa vez, atacaram-no em bando e sem qualquer aviso, mas já estava quase acostumado com essas jogadas sujas vindas de pessoas que esqueceram totalmente seus propósitos em prol da vitória. Independentemente, não conseguia culpá-los por isso.

O tempo parecia passar de maneira diferente naquele lugar, como se duas semanas já fossem anos, em que dia após dia precisava lutar pela sobrevivência do seu grupo e, principalmente, para se lembrar do real motivo de estar fazendo aquilo. Roier nem sequer sabia mais o motivo e tinha a impressão de que a maioria das pessoas precisava se esforçar para lembrar do por que estavam matando uns aos outros, além da sede insaciável de sangue e ego.

O purgatório era o literal inferno.

Sabia que alguém viria em sua salvação pelo jeito que gritou no comunicador que agora caía enrolado em seu pescoço, mas parecia demorar tanto, e sinceramente, Roier não fazia ideia de quanto tempo permaneceu imóvel no mesmo lugar.

Estava morrendo de sede e não tinha mais nada em seus compartimentos. O ar faltava em seus pulmões, tanto pelo esforço quanto pela máscara de gás que vestia. A viseira foi manchada com sangue, mas de alguma forma aquela era sua visão, não importava se estava com ou sem a máscara. Roier estava tão, tão cansado.

Sua visão piscou em flashes brancos e Roier levou as mãos à cabeça enquanto mordia o lábio com força. A dor era imensurável, não cabia em si e não sabia de onde vinha, se era sua cabeça, seu corpo ou sua alma.

Talvez essa dor viesse de uma semana atrás.

Cellbit was slain by Roier.

"Estúpido." Ouviu em algum lugar, longe e abafado, mas era sua própria voz que amaldiçoava a si mesmo. Sentiu que ia vomitar.

E a voz repetia de novo e de novo. "Traidor." Foi quando seus joelhos fraquejaram e ele apoiou a testa no chão, rangendo os dentes a ponto de quase quebrá-los.

Roier estava com tanta raiva, queria dilacerar a garganta de cada um que possuísse uma badge azul e atravessasse seu caminho, queria cortar cada pedaço, matá-los de novo, e de novo, e de novo. Até que parassem de voltar, e seu esposo nunca mais tivesse que lidar com essa merda.

Queria tanto exterminá-los, mas sabia que isso era impossível. Por alguma razão, seus corpos não pereciam, mas se dependesse de Roier, eles viveriam cada dia, cada minuto e cada segundo com medo.

. . . 

"Roier...?"

Cellbit entrou no local que eles chamavam de quarto em sua nova base, procurando o moreno com a voz suave. Roier tinha acabado de ser tratado por Jaiden e estava deitado em uma espécie de cama, esperando suas feridas terminarem de se fechar e a planta medicinal fazer o efeito esperado para amenizar a dor de seus músculos.

E mesmo assim, a sombra de um sorriso passou pelo rosto dele ao ouvir seu nome.

"Meu gatinho." A voz arranhada e pesada fazia parecer errado proferir aquelas palavras, mas não se importou.

Cellbit suspirou e se sentou ao lado dele, tomando seus lábios machucados em um selinho sereno.

"Dessa vez esses merdas pegaram pesado."

"Desgraçados. Mas no pueden contra mí."

"Me desculpa por não chegar a tempo."

"Cala a boca."

Cellbit sorriu de canto e acariciou o rosto de Roier. Que merda de realidade era aquela? Não fazia muito tempo em que um de seus passatempos preferidos era observar o marido sorrir, cantar e iluminar todos que chegavam perto dele com sua aura brilhante. Agora, já havia perdido a conta de quantas vezes tinha visto Roier virar a noite chorando em seu peito. Aquele sorriso pelo qual se apaixonou à primeira vista não existia mais. Roier tinha mudado assim como si mesmo, e Cellbit sabia que aquele passado feliz nunca mais voltaria.

O loiro deitou ao lado dele e pousou delicadamente a cabeça em seu peito, sentindo os braços musculosos do esposo envolverem seu corpo, ignorando completamente o fato de que Philza o esperava para uma reunião estrategista em outro canto daquela caverna. Por agora, pelo menos por alguns minutos, Cellbit não poderia se importar menos com questões de guerra.

"Você devia descansar melhor, amanhã vamos migrar para a área central."

"Cellbo, eu não queria ter te machucado, eu disse pra correr de mim." Aquilo de novo. Out of nowhere. Talvez Roier repetisse aquilo porque não acreditava ter o perdão de Cellbit depois de uma traição.

"Você disse e eu continuei indo até você, como sempre fiz e sempre vou fazer em qualquer circunstância." Cellbit sentiu as lágrimas encherem os olhos, mas suspirou fundo. Odiava tudo aquilo, odiava a federação, odiava aquela ilha, odiava aquele jogo, odiava todos aqueles pecadores que roubaram o sorriso do seu amado. "Para de falar besteiras."

Cellbit nunca se arrependeu daquilo. Por mais que, de primeiro momento, não cogitasse que Roier o atacaria, sabia que era essa era a única opção que ele tinha. Até aquele momento, não existiam aliados além do próprio grupo e se Roier o deixasse escapar sabe-se lá o que poderia ter acontecido com ele. Foi por isso que decidiram lutar de igual pra igual, mas o moreno jamais esqueceria do olhar traído de seu esposo ao ser atravessado pela espada manchada agora caída ao lado da cama e do quão injusto isso tudo era.

"Vamos fugir." Roier tentou, já sabendo a resposta. Ele também não concordava com aquilo, mas só queria sentir que existia algum tipo de escapatória.

Não tinha.

Cellbit levantou a cabeça e juntou suas testas, acariciando os fios morenos em uma tentativa de acalentar aquele coração. Sentiu as mãos calejadas de Roier dançarem sobre seus braços, desenhando cada uma de suas cicatrizes. E então uma explosão. E um grito. O som distante e estridente de espadas. Ambos os corpos se sobressaltaram, mas como em sincronia, se abraçaram forte.

E então se levantaram.

Sua família precisava deles.

Notes:

Só um angstzinho de bobeira.