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Category:
Fandom:
Character:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-02-26
Words:
926
Chapters:
1/1
Kudos:
1
Hits:
12

Seraphius' Agony

Summary:

abandonado, aflingido, abraçado pelos braços frios da solitude, seraphius agoniava.

Notes:

uma das minhas primeiras fanfics públicas, e é de uma fandom quase inexistente. queria fazer um curta explorando sentimentos, e ninguém melhor que o personagem destinado ao sofrimento – até agora.
trabalho original: https://noveltoon.mobi/pt/share/3441734
dê uma olhada, sim? obrigada por ler.

Work Text:

Debaixo da luz fraca da noite, ele se debruçava, fraco, sobre a construção de mármore frio; as marcas do tempo, suas rachaduras, sangravam com o gelo do momento no tempo, vento cutucando sua pele, agora sensível, agora fraca, agora a de anos atrás, quando ainda criança era. Uma criança, isso que Seraphius era. A estatura não mais lhe significava nada enquanto chorava sobre o altar impessoal de uma divindade que o abandonara; as vidraças, marcadas de suor e lágrima de artistas perdidos ao tempo, refletiam o pouco do brilho da lua que não era interrompido por árvore após árvore sobre o garoto, como uma marionete dos milagres depictados em cores desbotadas. Suas lágrimas rolavam, uma após a outra, sobre as rosas de pétalas escurecidas e destroçadas. Ele soluçou sobre o altar, joelhos no chão, marcados em vermelho pelo chão rude do templo. Ainda que fosse polido ao máximo, as cicatrizes que acumulou por motivo não maior que desobediência ainda estavam colados a sua pele; colados e marcados, profundos e irreversíveis. Seraphius soluçou mais uma vez e afundou o rosto pálido nas pétalas, agora mortas, que respondiam por colar-se nas bochechas encharcadas de sal e água, avermelhadas no pranto e na vergonha por estar escondido num templo que o rejeitara durante a vida toda, nunca antes procurando o alívio de suas dores, sempre trazendo punição com a idéia de "o melhor" para si. Ele não conseguia acreditar nisso, nessas mentiras. Não conseguia acreditar que seu propósito é sofrer de baixo das mãos cruéis daqueles que se chamam família, afastado do sonho de ser criança para o sonho de velhos adultos que não tiveram, e nunca terão, a coragem de enfrentarem batalha sozinhos, abandonados, sem apoio, amigos ou vontade própria, como fazem com seus "pupílos", tal título desmerecido ao fazerem deles escravos do futuro que eles teceram. Ainda assim, Seraphius temia que talvez, só talvez, esse fosse, realmente, seu único destino. A única oportunidade que terá na vida, gasta numa ilusão alimentada por desejos passados, objeto de satisfação a patriarcas que nunca deverão ouvir "não" por demanda da cultura; será que isso é tão impossível? Tantos o fizeram antes dele. Talvez seja isso, ele tem que sofrer para que os que vêm depois dele não o terão como possibilidade. Então ele se perguntou, o que já era o proibido, o impossível, a heresia de maior ofensa contra os pais de toda essa civilização, mas Seraphius o fez, e se perguntou, ainda, "por que?" Soluçava, tossindo, e duvidou tão forte que poderia jurar que todos ouviram: por que esse sofrimento é necessário? Por que ele, não, por que qualquer alguém deve passar por dor excruciante, ferida que não se fecha, dolorida, apunhalada e aberta diversas vezes, tudo pelo bem do reinado, pelo bem da cultura, pelo bem do futuro. Que futuro existe para um homem meio morto, meio vivo? O que há de futuro para a carcaça de jovens esperançosos, compassivos? O que há de futuro para a carcaça de Seraphius? Seu pranto se tornou mais audível enquanto ele segurava com força as bordas do altar, coração agoniando agora em dor física, machucando ao se contorcer dentro do peito, como se derretesse em cera quente sobre suas entranhas. O sentimento afundava-se com cada soluço, como se não quissesse sair; paralelo direto aos vermes que tinha de enfrentar todo dia da sua vida, os vermes que o trouxeram a esse mundo. Tristeza, frustração, raiva, medo e ansiedade afogavam-o, o arrastando ao mais profundo inferno que era a sensação de estar vivo; o nono círculo se tornava real ao perceber, logo diante dos seus olhos, o milagre da vida transmutar-se na maior maldição que já teve de enfrentar. Ainda assim, mesmo que afogado nas mágoas do presente, temendo as ondas que 'inda hão de vir como leões rugentes, prontos para devorar a sua carne e deixá-lo para apodrecer no público, ainda resentido do passado distante, de luto pela inocência arrancada de suas mãos quando ainda tão novo, Seraphius, com a mente mandada, queimada com ferro escaldante de escritos da obediência ininterrupta, duvidava de seus próprios relatos. Duvidava da dor enquanto uma espada de decadência rasgava a sua carne, afetando o seu corpo e mente por inteiro, agoniado em aflição, corrompendo tudo o que ele tinha ao nada, e ainda assim, o instinto fabricado de não perturbar o luxo daqueles que se deleitam da sua desgraça; essa era sua doença, sua agonia. A agonia de Seraphius consiste na dor de cabeça constante por chorar as lágrimas que ele escondeu nos calabouços de seu coração, sempre transbordante, de um jeito ou de outro; voltando a tona quando se via sozinho, novamente, no templo daquele que lhe deve a proteção, que lhe deve vida nova. A aflição que vem, sabendo que toda a consciência que ele tem é só mais uma das pragas infectando a carne; consciência essa que o destrói toda manhã, toda tarde, toda noite, quer queira, quer não, pois não se livrará do fardo apenas por saber que ele pesa sobre os seus ombros. E então, desolado, sozinho, arrastado sobre o altar, único apoio para os joelhos agora desistentes, Seraphius agonizou na calada da noite, onde somente o luar escondido pela floresta densa, o vento que uivava e as árvores ao seu redor poderiam ouvir suas lamentações, seus pedidos por socorro. Pedidos que ele sabia que se perderiam no indigo do céu da meia-noite, nunca para serem escutados por ouvidos humanos, pelo bem de sua própria segurança. Era isso que as divindades, era isso que seu pai queria para ele, afinal.