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Fandom:
Relationships:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-04-26
Words:
12,305
Chapters:
1/1
Comments:
2
Kudos:
10
Hits:
222

O Escolhido

Summary:

Em uma noite fria de bebedeira, Shura rememora seu relacionamento com Aioros.

Notes:

Para Green, companheira de dois fandoms, sem a qual essa história jamais seria possível.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Existem muitas histórias sobre Excalibur, a Espada Sagrada. Segundo as lendas, a Grã-Bretanha medieval foi marcada por uma série de guerras pelo poder. As mais famosas envolveram o rei Uther Pedragon - considerado o legítimo governante do território - e os invasores saxões, ansiosos por usurpar o poder. Uther lutou com todas as forças para defender o trono, porém, caiu prisioneiro e foi morto por seus inimigos. Até então, todos acreditavam que o rei falecera sem deixar filhos, fato que despertou a ambição dos poderosos. Novas guerras foram instauradas por senhores cruéis que desejavam cada vez mais. O povo? Era apenas um detalhe naquele jogo de atrocidades. Os únicos que buscavam manter o território unido eram os Cavaleiros da Távola Redonda, antigos companheiros de Uther, os quais não eram imunes aos próprios desejos egoístas. Apenas uma pessoa sabia que a sucessão do trono já estava decidida: o mago Merlin, principal conselheiro do falecido rei e o único conhecedor de seu maior segredo: Uther tinha um filho bastardo. Seu nome era Arthur. Merlin manteve a identidade do menino em segredo, enquanto o educava para ser um líder forte e justo, apto a governar a Grã-Bretanha. Nesse meio-tempo, um acontecimento deteve a atenção dos poderosos que almejavam o trono. Na véspera de Natal, uma espada surgiu encravada em uma grande rocha que repousava no jardim de uma igreja – passou-se a dizer que o homem capaz de a remover, seria o verdadeiro sucessor do rei. A história correu toda a ilha, de modo que a espada até mesmo ganhou um nome: Excalibur, a “fissura rígida”. Por anos e anos, muitos tentaram e fracassaram em retirar o objeto de seu lugar de descanso, até que Arthur atingiu a idade certa, dirigiu-se ao pátio da igreja e, sem a menor dificuldade, desembainhou a Espada Sagrada, despertando-a de seu sono. Os Cavaleiros da Távola Redonda reconheceram seu novo soberano e, ao lado de Merlin, dedicaram-se a ajudá-lo na pacificação da ilha.

Eu estudei essa história a fundo. Li todos os poemas e crônicas a seu respeito. Para nós, os portadores da Armadura de Capricórnio, conhecer o valor da lenda de Excalibur é tão importante quanto o treinamento militar. Senão mais! Afinal de contas, somos guardiões de dois objetos sagrados: a própria Armadura de Ouro que determina nossa constelação e a espada mitológica. Carrego-as sempre comigo. A Armadura surge diante de mim ao menor estalo de meu pensamento, símbolo de toda a dedicação que tenho para com a Deusa Atena. A espada vive em meu braço direito, sinal de que fui considerado justo e correto o suficiente para ter a honra de empunhá-la. Deveria me sentir muito honrado por ser o guardião de ambas. Ainda assim, me sinto um lixo. E o cenário à minha volta não ajuda a pensar o contrário, muito menos o meu estado atual. Mateo e Afrodite me chamaram para beber. Não deveria ter vindo, mas vim. Eu sempre venho. Eles são os únicos que me chamam para fazer alguma coisa, os únicos que ainda se enturmam comigo. As coisas não deveriam ser assim. Arthur retirou a espada da rocha e ganhou uma legião de companheiros dispostos a lutar e, se necessário, morrer ao seu lado na frente de batalha. Homens honrados que dariam a vida por ele ou pela Grã-Bretanha. Já eu, sou patético. Não tenho sequer um amigo a quem possa chamar para beber numa noite como essa. Diabos!, nem menos sei se esses dois são meus amigos, ou se querem apenas me espionar. Tento não pensar muito nisso. Talvez seja um pouco de ambas as coisas. Talvez seja o jeito torto desses dois degenerados se preocuparem comigo. Posso ouvir essas palavras saindo de suas bocas, a voz de ambos ecoando em minha mente, cada qual no seu tom. “Ei, ei, bodinho, nada de pensar em cortar os pulsos com a Excalibur, hein?”, sussurra Dite, sedutor, como a cobra pronta para tentar Eva. “Se você se matar, eu te mato!”, brada Mateo, seguindo as tradições bárbaras, empunhando o dedo em riste em direção a mim, como que me condenando a viver. Viver. Ou existir. Essa coisa que faço dia após dia. Arthur foi considerado um grande herói. Realizou feitos inimagináveis ao longo de toda a sua vida. Chamaram-me de herói muitas vezes, mas eu nunca me importei com esse título. Nunca me deixei levar por ilusões de glória, ou, ao menos, acredito que não. Aprendi que obedecer às regras do Santuário é meu trabalho e, assim sendo, cabe a mim executá-lo da melhor forma possível. Herói. Que isso quer dizer, afinal? Alguém submisso que age cegamente ao comando do seu senhor? Arthur foi um herói e, como tal, foi dono de seu próprio nariz, mesmo que precisasse negociar com outras pessoas ao longo de sua vida. Eu jamais aprendi a negociar. Apenas a obedecer. Por isso, chamaram-me de herói tantas vezes, especialmente após eu matar Aioros. Talvez apenas os heróis sejam capazes de matar as pessoas que mais amam por um bem maior.

A primeira vez que vi Aioros, Excalibur pulsou dentro de mim, como se dissesse “você pode confiar sua vida a esse homem, pois ele é bom e justo”. Pulsou, tesa e rija, queimando tanto meu braço, quanto minhas estranhas. Alheio a tudo isso, Aiorios fez de mim uma terra arrasada, incendiando-me com seu carisma. Eu, arredio, ainda recém-saído dos treinamentos, me vi atraído para a órbita daquele homem. Quando ele se apresentou, dispensando qualquer formalidade, agi como um adolescente idiota, pois não era o tipo de tratamento que eu esperava de um Cavaleiro de Ouro mais experiente. Aquele homem, que acabara de me conhecer, me tratava como um igual. Na teoria, éramos iguais, todavia, eu fora instruído o suficiente para saber que a prática era diferente – havia abismos ocultos, não-ditos, separando até mesmo os membros da elite. Hierarquias baseadas em idade, local de nascimento, cor de pele, ascendência familiar, o mestre responsável por nosso treinamento... Aioros despia-se disso tudo para se revelar algo que muitos de nós jamais fomos capazes de ser, ou, quiçá, deixamos de ser em algum momento de nossas vidas na ânsia de nos tornarmos heróis: um ser humano. Ele tinha o corpo de um guerreiro e o poder de um santo capaz de operar milagres, mas o coração de uma pessoa comum, que vive um dia após o outro. Tais qualidades me atraíram para junto de Aioros, como se procurasse nele a humanidade que um dia perdi. Foi um fascínio absurdo, indescritível. Quando dava por mim, me pegava ao lado dele, pronto para debater uma missão ou treinamento ou, até mesmo, falar de bobagens corriqueiras. Sim, eu agi como um adolescente apaixonado e, ainda hoje, me envergonho de pensar como minhas ações foram interpretadas. Não por Aioros, que sempre me acolheu com sua gentileza habitual, mas pelos outros. Dite e Mateo, por exemplo, quando podem, me cutucam a respeito. Finjo não saber do que tratam, enquanto, bem lá no fundo, dói. Nada, porém, chega aos pés da dor sinto quando lembro do meu grande ato de bravura, da morte de Aioros, do sangue quente escorrendo em meus braços... Então, tudo vira breu. Eu apago e, sem saber como, estou de volta ao Santuário, aclamado como o herói que matou o traidor e salvou o bebê Atena. Isso já foi há tantos anos e, ainda assim, quando fecho os olhos, ainda vejo o sangue de Aioros banhando minha pele.

- Ei, ei, beba mais um pouco!

Mateo me oferece mais uma cerveja. Eu agradeço e tomo a garrafa, dando uma longa golada até perceber que ele sorri satisfeito. Precisamos de muito para nos embebedar. É uma das benesses – ou, segundo alguns, uma das desvantagens – do cosmos. Já não sei o quanto bebi hoje. Estou naquele estado lastimável, meio sóbrio, meio bêbado, sem me sentir nenhuma das duas coisas em plenitude. Queria poder me entregar totalmente e encher a cara, mas, algo dentro de mim me impede. Pode ser a Excalibur ou algum senso de justiça que me restou. Além do mais, não posso beber demais, pois tenho um compromisso em poucas horas. Ninguém aqui tem nada a ver com a minha vida, mas eu fiz uma promessa a Aldebaran. Que tipo de aliado ele vai pensar que sou quando eu aparecer, em um estado ainda mais abominável que esse, à entrada de sua Casa Zodiacal ao nascer do sol? A verdade é que quando Mateo e Dite bebem, eles parecem se esquecer de tudo. Eu bem que gostaria de esquecer um bocado de coisas. Isso parece impossível para nós, os escolhidos pela Espada Sagrada. Meu mestre me cobrava a leitura dos poemas antigos, em seus idiomas originais, exigia que eu declamasse com entonação e musicalidade perfeitas todas aquelas peças sobre o rei Arthur. Acaso eu errasse, apanhava sem dó. Vivo do passado dos outros – carrego dentro de mim o legado de Arthur. Muitos tentaram, antes de mim, remover a espada da rocha. Morreram tentando, enlouqueceram ou se resignaram a jamais integrar a elite dos Santos de Atena. O que eu tenho de tão melhor que aqueles pobres coitados? Muitas vezes, me pego pensando se Excalibur não se enganou em seu julgamento, ou se eu apenas não era a opção menos ruim entre todos os imprestáveis que se apresentavam para a missão. Pobre Espada Sagrada! Que mãos indignas a carregam! Ainda assim, ela não me abandona...

À época em que cheguei ao Santuário, éramos poucos. Aioros, Saga, os dois desgraçados que me acompanham, e eu. Ouvira falar do Mestre de Rozan, assim como sabia a sua prolongada ausência do Santuário devido à idade avançada. Em um Santuário tão vazio, quis o destino que Aioros fosse meu vizinho, fato esse que apenas terminou por me atirar nos braços do homem que tanto perturbava meus pensamentos. “Você quer tomar um chá hoje, depois das reuniões?” Em minha mente, o simples convite estava imbuído de grande honra, como se eu tivesse sido convidado a sentar à mesa com um Deus. “E você, Shura, que pensa sobre isso?” Eu, tão desimportante, recém-chegado a Atenas, não devia expor minhas opiniões ao vento por qualquer coisa e, ainda assim, Aioros desejava me ouvir. Aquilo tudo mexia comigo, ia contra minha formação, tirava-me o chão... Ao final de toda a angústia que esses processos me causavam, eu me sentia estupidamente feliz. Por diversas vezes, me peguei retornando à Casa de Capricórnio, saltitante como um bode, por desfrutar algumas horas da companhia de Aioros. Fiquei viciado em suas palavras, sua gentileza, sua risada... Certo dia, sem perceber, abandonei o título de “irmão-em-armas” para chamá-lo de “amigo”. Meu rosto erubesceu de imediato, ficando ainda mais vermelho quando Aioros riu da minha reação, não por escárnio ou ironia, mas com doçura. Sua mão forte desceu sobre meu ombro direito, o ombro da Excalibur, e o afagou com cumplicidade. “Fico honrado em ser seu amigo, Shura”. Novamente, a Espada Sagrada ardeu dentro de mim. Foi o suficiente para me dar um fio de esperança ao qual me agarrei com unhas e dentes. Aioros, meu amigo, meu irmão-em-armas, meu Lancelot.

De acordo com as lendas, Lancelot foi o mais poderoso dos Cavaleiros da Távola redonda – não à toa, tornou-se o mais próximo companheiro de Arthur. Todas as histórias sobre Lancelot estão embebidas numa aura de magia. Dizem que ele foi entregue pelo pai, o Rei Ban, à proteção de uma fada, que o levou a uma dimensão de seres mágicos encarregados de treiná-lo. Com apenas quinze anos, seus feitos já eram conhecidos por toda a Grã-Bretanha e lhe valeram a alcunha de Cavaleiro Branco. Além disso, tinha beleza capaz de arrebatar todos os corações. Seus sucessos chegaram aos ouvidos de Arthur, que não somente convidou o jovem herói para uma audiência, como também o sagrou oficialmente cavaleiro, incluindo-o em seu círculo pessoal. Sim, Aioros seria um perfeito Lancelot, não fosse eu um Arthur tão patético. Tal qual o rei, fiquei fascinado pelo Cavaleiro Branco do Santuário, porém, ao contrário das lendas, era eu o jovem que buscava a aceitação de um homem tão nobre. Recebê-la pouco mudou minha realidade. Estar na companhia de Aioros era um presente tão precioso quanto frágil, o qual eu me considerava indigno de possuir e tinha medo de perder num piscar de olhos. Tamanho era meu medo que, por vezes, quase me peguei de joelhos diante de Aioros, arrastando-me para pedir seu perdão diante da menor falta que acreditava haver cometido, tal qual um mendigo faminto que suplica pelas migalhas que caem de uma mesa farta. Ele sempre reagia da mesma forma, estendendo-me mão para dizer que eu não deveria ser tão duro comigo mesmo. Se, nesta mesma noite, ele adentrasse pela porta do bar e me encontrasse nesse estado deplorável, não me julgaria. Seguindo o velho ritual, ele se aproximaria em silêncio, como se eu ainda fosse um adolescente encabulado, me oferecia algumas palavras doces e, quem sabe!, um abraço, antes de me permitir desabar em seus ombros para chorar. Então, quando já não restasse mais nenhuma lágrima dentro de mim, Aioros me pagaria uma bebida.

Olho para a porta. Ninguém ousaria adentrar o recinto enquanto nós três estamos aqui. Seria o mesmo que tentar suicídio.

Ao longo desses anos, fui eu quem me peguei sentindo-me como Lancelot. Era eu quem olhava, como admiração, para o soldado-modelo e homem exemplar que era meu vizinho de Casa Zodiacal. Era eu quem via Aioros como um rei, o qual eu devia proteger com minha própria vida. Frequentava sua morada e ele, a minha. Nos encontrávamos antes ou depois das reuniões a fim de debater as pautas ou as decisões tomadas. Treinávamos juntos. Escapávamos do Santuário de quando em quando para descer até a cidade, aproveitar um pouco a vida simples dos mortais comuns. Quanto mais eu tinha da presença de Aioros, mais a desejava, e ele sempre me oferecia, de bom grado e com um sorriso nos lábios. As vozes em minha cabeça me diziam para não aceitar, para me manter focado na missão, nos aprendizados, em todo o resto... Mas eu cedia à tentação apenas para me sentir feliz. Tudo isso, claro, era um teste à minha paciência, pois raramente estávamos sozinhos.

Saga e Aioros eram inseparáveis. Saga, a única pessoa que a Excalibur jamais conseguiu interpretar. Ele estava ao lado de Aioros quando nos conhecemos e cumprimentou-me de maneira muito mais formal. Seu aperto de mão também fez Excalibur pulsar, mas de uma forma estranha, como se ela tivesse se deparado com algo tão fascinante, quanto assustador. Aos meus olhos, Saga portava-se como um lorde inglês, ainda que detivesse um poder descomunal – por isso, interpretei a reação da Espada como uma postura defensiva frente ao cosmos ainda pouco conhecido. Se Aioros me fascinava com sua aconchegante familiaridade, Saga me atraía justamente pelo contrário: eu não o compreendia. Ele era um mistério, nunca se deixando ver por completo. Às vezes, era mais doce do que Aioros; noutras, frio como gelo, calculista até o último fio de cabelo. Era como se houvesse dois homens dentro de um só corpo, metáfora que serve muito bem ao signo guardião de sua Armadura. Sem a ajuda de Excalibur, minha bússola moral, eu não tinha a certeza se deveria me afastar. Fora que a minha maior vontade era estar perto de Aioros. Aioros era próximo de Saga. Saga podia ser igual a Aioros quando queria. Fui me deixando ficar, num triângulo tão incômodo quanto o que me encontro agora. A grande diferença é que, um dia, eu transitei entre o suprassumo da elite do Santuário. Agora, caminho entre os vermes que se alimentam de um cadáver em decomposição, o qual esqueceu de deitar-se em sua cova.

Eu queria ter gostado de Saga tanto quanto gostei de Aioros. Queria ter confiado nele. Cheguei a chamá-lo de amigo, mas sem a mesma firmeza, um detalhe que, acredito, não passou despercebido à perspicácia do geminiano. Pisando em ovos, levei o resto de meus dias armando-me de prudência o suficiente, como manda o figurino, apenas para me pegar, por diversas vezes, com ciúmes de Saga. As razões eram muitas, todas infundadas – caso não fossem, não seriam ciúmes. Incomodava-me o fato de ambos terem uma história pregressa da qual eu não fazia parte. Incomodavam-me nossas diferenças de idade, ainda que de poucos anos. Incomodava-me que parecia haver segredos do Santuário que eles debatiam apenas quando estavam a sós. Desejei ser Saga, tomar seu lugar para tornar-me o único confidente de Aioros. Quanto mais forte esse desejo queimava dentro de mim, parecia ainda mais fácil para Saga me interpretar. E ele reagia me oferecendo a sua face mais bondosa e acolhedora, fazendo com que eu me sentisse o mais sujo dos cães por almejar seu lugar. Ao perceber que eu mordera a isca, assumia novamente o tom frio e distante, como se dissesse “não adianta esconder: eu sei exatamente o que se passa na sua cabeça”. Aquilo me desesperava de tal forma que eu me sentia à beira da loucura. Como um animal selvagem que cerca sua presa, Saga estava pronto para me abater. Então, quando eu me encontrava prestes a implorar por clemência, mais uma vez a face doce vinha à tona, parecendo esquecer-se de todas as nossas últimas interações.

A postura de Saga me confundia de tal modo que, às vezes, eu o via como Lancelot. Mais forte que Aioros, capaz de ser bondoso como Sagitário quando bem quisesse, um homem admirável e leal para se ter por perto, dono de uma beleza cobiçada por muitos. Do que me lembro dos antigos mitos, Lancelot era um herói que carregava dentro de si muito da dualidade humana: imbatível e impiedoso na frente de batalha, sabia ser extremamente generoso quando necessário. E quem sabe esse não fosse o jeito de Saga apontar os meus erros? Quem sabe ele não estivesse me dando um sinal dos perigos de misturar meus desejos egoístas à missão que recebi? Pois, no estado em que eu me encontrava, argumentos racionais não teriam qualquer efeito em minha cabeça de adolescente. Para mim, já não havia mais como viver o relacionamento com Aioros como uma simples amizade. Por mais que ele não me correspondesse ou sequer percebesse minha real afeição, nada me impediria de continuar vivendo daquela maneira. Talvez esse fosse o modo de Saga tentar me resgatar da tentação. Lembro-me que as fadas presentearam Lancelot com uma série de objetos mágicos para protegê-lo em combate, incluindo um anel capaz de dissipar qualquer forma de magia que tentasse enganá-lo. Saga era capaz de ver além da máscara que visto, como se eu fosse um livro aberto que ele conhecia do começo ao fim, página por página. Só de me lembrar, sinto calafrios. Como eu podia deixar-me ler tão facilmente? Ainda mais por alguém sempre encoberto por um véu de mistério?

Certa vez, quando Mateo, Dite e eu aproveitávamos uma folga para nadar em um dos rios que circunda o Santuário, eles me desafiaram a comparar todos os demais Cavaleiros de Ouro aos membros da Távola Redonda. Desconversei. Tenho muito respeito pelo folclore que ronda a Excalibur, portanto, jamais aceitaria qualquer forma de brincadeira com as lendas, por mais inocente que fosse. E como tudo que vem desses dois, não havia inocência alguma naquela provocação. Eles interpretaram minha relutância como uma forma de guardar segredo sobre os papéis que atribuiria aos meus colegas, o que certamente ambos usariam para algum tipo de intriga. Neguei-me em compactuar com a palhaçada, o que apenas atiçou ainda mais a insistência dos dois trastes. “Shaka deve ser Galahad, certo? Tão manso e puro. Mas será que ele é puro mesmo? Ouvi dizer que a família dele fez fortuna explorando nativos na Índia” “Tem algum cara de segundo escalão? Ele certamente seria o Aldebaran! Uma piada um cara como ele ocupar o mesmo posto que um de nós!” Permaneci imóvel perante as investidas, até que Dite descobriu meu calcanhar de Aquiles. “Ok, ok, bodinho! Não vamos arrancar nada de você com relação aos outros, porém, é mais do que óbvio que Aioros é seu Lancelot. Ele é seu favorito, afinal!” Até então, eu acreditava que ninguém mais sabia de minha fixação, pois apenas Saga parecia notá-la. Nem mesmo o próprio Aioros demonstrava perceber os sentimentos que devoravam meu coração. A revelação me pegou de tal modo que eu rompi o silêncio. Mais do que isso, ergui a voz. Não me lembro bem o que disse, se neguei ou se tentei me justificar. O fato é que a coisa saiu de controle, com ambos me provocando das mais variadas formas. Eles só pararam ao notar que não estávamos mais sozinhos: por alguma razão, Saga surgira junto do rio, observando-nos de uma área mais elevada do terreno. Seu rosto era indecifrável, sério, como se estivesse irritado com todo o estardalhaço. Seus olhos baixaram sobre nós por um longo tempo, antes de ele dar as costas e partir, tão silencioso quanto surgiu. Tive de me segurar para não o seguir. Queria falar com ele, mas o que dizer? Pedir desculpas? Pelo que, afinal? Por ele não ser o meu favorito? Implorar que não dissesse nada a Aioros? Com que finalidade? E se ele sequer tivesse prestado atenção nas bobagens que Dite e Mateo diziam? O pior de tudo: se eu o seguisse, os dois paspalhos saberiam que a brincadeira tocava em meu ponto mais vulnerável. Precisei de todas as minhas forças para me manter firme, os olhos fixos no chão, ainda que por dentro eu me sentisse prestes a despencar de um abismo. Contrariando minhas expectativas, ambos caíram em silêncio. Por muito tempo, forcei-me a acreditar que o olhar frio que Saga nos lançou tivesse lhes despertado alguma noção de respeito, entretanto, hoje acredito que eles devem ter se espantado com a minha cara pálida de enjoo.

Voltamos ao Santuário e cada um se recolheu à sua Casa Zodiacal sem falar muito mais. Não dormi naquela noite, apenas pensando em encontrar Saga no dia seguinte e especular se ele já havia compartilhado a história com Aioros. Para minha sorte – ou azar – encontrei Saga sozinho logo às primeiras horas da manhã. A expressão de fadiga em meu rosto não passou despercebida aos seus olhos e ele me recomendou descansar mais. Tentei abordar o assunto, mas tudo o que consegui foi me emaranhar na teia de amenidades que ele teceu em torno de mim, como se eu fosse uma mosca prestes a ser devorada pela aranha. Saga falava comigo como se nada tivesse acontecido – falou-me do tempo, das atividades para a semana, me convidou para almoçar. Em seus olhos, parecia não haver a menor lembrança de que havíamos nos encontrado no rio na tarde anterior ou de que ele ouvira as provocações sobre eu considerar Aioros meu Lancelot. Ainda assim, Excalibur me dizia que, por trás de toda aquela fachada, Saga conhecia perfeitamente o motivo da minha visita. Permaneci na Casa de Gêmeos por quase uma hora sem jamais conseguir tocar no tema. Saí de lá tão tonto quanto cheguei a Capricórnio no dia anterior. Fiquei aborrecido a ponto de querer me vingar. Quando vi Aioros conversando com Saga algumas horas mais tarde, aproximei-me dos dois decidido a me dirigir ao sagitariano e dizer, em tom pomposo “Salve, Lancelot, meu fiel escudeiro!” O bom senso tomou conta de mim antes que eu fizesse tal besteira. Como meu ato ainda precisava de uma boa dose de ridículo, me vi parado diante do belo rosto de Aioros, com os lábios entreabertos, incapaz de manter a expressão de ironia em meu rosto. Por dentro, eu desmoronava. “Você está bem Shura? Quer conversar comigo?” “Oh, não, nada de importante, apenas queria lhe desejar um bom dia”. “Ah, bom dia para você também!” Fui embora sem coragem de encarar Saga, pois temia olhar nos olhos de qualquer uma de suas faces.

A história de Arthur e Lancelot não possui um final feliz, justamente porque uma terceira pessoa se coloca entre eles – afinal de contas, um rei que se preza não pode ficar solteiro. Rezam as lendas que Arthur se casou com a princesa Guinevere. O único ponto de concordância sobre ela é que se tratava de uma mulher belíssima. Todo o resto é um emaranhado de versões. Alguns cronistas retratam Guinevere como uma mulher pura e submissa que se manteve fiel a Arthur até o fim. Para outros, ela é uma figura controversa: sedutora, ambiciosa, descontente com o marido distante que passa mais tempo no campo de batalha do que sem sua companhia. Tomada pela solidão, a rainha busca refúgio nos braços de amantes, chegando até mesmo a permitir que invasores usurpem o trono por meio de casamentos. Eu diria que Arthur aguenta muito bem todos os chifres, exceto quando a traição vem de quem menos se espera. Por confiar em Lancelot, Arthur o nomeia campeão da rainha, uma espécie de acompanhante e protetor de sua Majestade. É o suficiente para que ambos se aproximem e passem a viver um caso. Não há um consenso como esse relacionamento se inicia, porém, o final é sempre o mesmo: a morte de Arthur por desgosto e a destruição do reino. Assim como nas lendas, tudo aqui ruiu.

Se Aioros não foi meu Lancelot, foi a minha versão masculina de Guinevere. A razão do meu afeto. A pessoa a quem dediquei o meu amor, ainda que silenciosamente, por meio de pequenos gestos. Sinto a falta do perfume que ele usava, do timbre de sua voz, da visão de seu corpo musculoso se movendo habilmente durante os treinamentos. Sinto falta de tudo o que a presença de Aioros despertava em mim, do jeito que minha pele se arrepiava toda vez que ele se dobrava sobre meu ombro para me contar um segredo, do toque quente de suas mãos sobre as minhas, do calor que sentia ao encontrá-lo à porta de meu Templo, pedindo-me passagem apenas para me fazer companhia... O que me restou foram os sonhos sujos que povoam minhas madrugadas, as imagens que aquecem o meu corpo e me fazem gozar para, logo em seguida, despertar em mim uma vergonha tão profunda que consome meu sono. Fico acordado, nu, olhos fixos no teto gelado do templo, mão e corpo sujos, a mão da Excalibur... Eu, uma cópia patética de Arthur, sonhando com a Guinevere que nunca tive e jamais terei. Imagino se as coisas poderiam ter sido diferentes caso eu tivesse encontrado dentro de mim um pingo de coragem para me declarar a Aioros. Diversas vezes pensei em fazê-lo, e em todas elas, voltei atrás. O medo da rejeição sempre foi maior. Como competir com Saga, tão mais belo e poderoso, tão mais interessante do que eu? Nunca soube se o relacionamento deles chegou a esse nível. Ou eu talvez esteja me enganando. Talvez eu saiba sim e não queira admitir por ser doloroso demais. Estavam sempre juntos, afinal. Eram inseparáveis. Lancelot e Guinevere, buscando um no outro algo que Arthur não podia lhes suprir.

Também me pego pensando em Saga, tão belo e poderoso. Atordoante. Impossível não se deixar seduzir. Corpo viril, cabeleira vasta. Quando penso em Saga, é uma relação desigual, diferente de quando penso em Aioros. Nos braços de meu Aioros imaginário, encontro paz, a Guinevere companheira e fiel, ao lado de quem passo o restante de minha vida. Com a minha ilusão de Saga, quem surge é a Guinevere ardilosa, exigente, faminta. Por que eu penso em Saga? Ele, cujo olhar me atormentava, cujo rosto nada me dizia de concreto... Ele invade minha intimidade apenas pelo prazer de me desconsertar. Abro os olhos, buscando algum feixe de luz que dissipe as imagens de minha mente, em vão, pois ele continua ali, deitado em minha cama, ávido por me possuir. Nem mesmo em meus sonhos sujos, quando eu tenho controle de todas as representações que construo, ele se permite domar. É ele quem me toma de assalto e me usa até que me reste apenas o gozo seco sobre a pele. Por que eu penso em Saga sendo que ele nunca me fez bem? Qual deles desempenhava os papéis de Lancelot e Guinevere na minha triste história? No fundo, talvez eu tenha sido a terceira figura que se intrometeu, que tentou achincalhar o que eles viviam, sem nenhum sucesso. Arthur, Lancelot, Guinevere. Eu, Aioros, Saga. Os personagens se misturam, trocam os papéis, tornam-se uma coisa só ou dividem-se a ponto de eu sequer conseguir identificá-los, me deixando ainda mais confuso. Talvez, Guinevere jamais tenha amado o Rei Arthur, vivendo um casamento infeliz apenas por respeito às convenções. Quem sabe Lancelot admirasse Arthur muito mais antes de conhecê-lo, tendo se decepcionado com a pessoa que ele realmente era. É possível que Aioros jamais tenha me visto como algo além de um simples amigo. E Saga... não sei o que pensar. Acho que estou delirando. Estou bêbado. Meio-bêbado. Em muitas das histórias, Lancelot e Guinevere vivem um romance. Havia boatos sobre Aioros e Saga. Só o fato de estarem sempre juntos era o suficiente para alimentar os fofoqueiros de plantão. Às vezes, desapareciam por longos períodos, bem como, se recolhiam sozinhos à uma de suas Casas de Zodiacais para conversar à noite. Eu mesmo vi isso acontecer várias vezes. “Estão tendo um caso”. “Quem come quem?” Até mesmo Mateo e Dite, esses dois desgraçados, faziam coro às especulações. Em partes, eu entendo. Quem não faria? Todos gostam de uma boa fofoca.

Lancelot e Guinevere traíram Arthur, assim como Saga e Aioros traíram o Santuário – o primeiro, ao desaparecer sem deixar rastros em um momento tão delicado; o segundo, ao atentar contra a vida do bebê Atena. Parece não haver espaço para triângulos felizes, seja na vida real, seja na poesia. Entretanto, se há algo que parece muito mais simples nas Histórias de Cavalaria é que os heróis aceitam seus fardos com resignação. Embora Arthur sinta dores e dúvidas, age sempre guiado por fortes certezas, afinal, ele é o rei. Em suas mãos, reside o destino de um todo um povo, o qual ele foi escolhido para proteger quando recebeu a Excalibur. Fui aclamado como herói por ter assassinado Lanc... digo, Aioros. Não me sinto um herói. Ele estava desarmado quando eu o ataquei. Não ouvi seus pedidos por clemência. Ignorei suas explicações. Em minha mente, ecoavam apenas as palavras do Mestre: elimine o traidor e traga o bebê de volta em segurança. Foi o que fiz. Ou o que dizem que fiz. A última imagem viva que trago de todo o incidente é o sangue de Aioros jorrando sobre minha Armadura, meu rosto, cobrindo toda a Excalibur... Por um instante, cheguei a pensar que meu golpe fatal havia falhado, como se a Espada Sagrada me impedisse de assassinar Guin... Aioros, demônios! Não devia ter bebido tanto. Ou, talvez, devesse ter bebido ainda mais. Não lembro de ter visto Aioros morto aos meus pés. Lembro-me de seu enterro, o qual acompanhei de longe, sem que ninguém me notasse. Poucos ousaram velar o traidor. Quando fecho os olhos, ainda posso ver o caixão fechado descendo o esquife naquele dia nublado. A lápide anônima, simples como a de um indigente. Aioria, sempre tão altivo, encolhido como um gato assustado. Mu e Aldebaran ladeando-o, em silêncio, como se ele precisasse dos dois para se manter em pé. Também não sei como me mantive em pé. Fui recompensado com férias e bonificações, recebi ofertas dos servos... Por Zeus! Escreveram até mesmo um péssimo poema em minha homenagem! Escondi minha vontade de vomitar por detrás de minha máscara.

Aos olhos de todos, eu era o orgulhoso sucessor de Arthur. Jamais me senti assim. Matei o homem que amava seguindo as ordens de um superior. Fiquei chocado quando a ordem partiu da boca do Grande Mestre. Abri os lábios para tentar argumentar, porém, ele foi mais ligeiro: "Se Aioros matar o bebê Athena, o mundo estará perdido! Vá e elimine o Cavaleiro de Sagitário imediatamente!" Não me recordo se ainda permaneci algum tempo no salão, atônito, tentando encontrar algum sentido na situação que o Grande Mestre havia me relatado, ou se parti assim que a ordem me foi dada. De todo modo, algo me levou a agir. Alarmismo. Obediência cega. Medo. Muitos medos. Medo de não agir e ser castigado de forma humilhante e cruel. Medo de ser considerado um traidor assim como Aioros. Medo de ter me apaixonado por um homem que se revelara tão vil. Por diversas vezes, me peguei pensando que nenhum de nós seria capaz de questionar qualquer ordem do Grande Mestre, mesmo recebendo um pedido tão absurdo quanto o assassinato de um companheiro. Dite e Mateo se divertiriam com a situação. Milo agiria de forma rápida, sem pensar duas vezes. Camus, idem. Talvez Aioria fosse capaz de se insurgir, muito embora a sua posição entre nós seja tão delicada que não o vejo agindo de tal forma. Aldebaran... Aldebaran se insurgiria ou, quem sabe?, cumpriria a ordem com total desgosto pois seria o "certo" a se fazer. De todo modo, imaginar o que os outros fariam não muda minha realidade. Eu abaixei a cabeça e obedeci. Persegui Aioros quando ele estava sem Armadura e o ataquei quando ele carregava o bebê Athena nos braços - por Zeus, o que seria de todos nós se eu tivesse acertado a criança? Munido da Excalibur, rasguei o peito e traspassei o coração do homem que mais amava. Eu e mais ninguém. E, por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar se, ao longo do caminho, pensei em dialogar com Aioros, se cheguei a cogitar convencê-lo a abandonar seus planos e regressar ao Santuário em paz... Isso me consome. Não fui treinado para debater e dialogar, mas para obedecer a todas as ordens vindas de cima. Por isso, matei o amor da minha vida sem jamais tê-lo vivido em plenitude. Não posso mudar o passado que me assombra dia após dia. Não posso dividir com ninguém o fardo pesado que carrego.

Desde que matei Aioros, não tive mais tranquilidade em minha vida. Os primeiros meses foram os piores, pois a imagem de Aioros vivia em minha consciência todos os dias e aterrorizava-me em pesadelos todas as noites - isso é, quando eu conseguia dormir. Nessas noites sem sono, eu chorava até não haver mais uma lágrima sequer dentro de mim. Choro de arrependimento, de dor, de luto. Após várias noites em claro, o cansaço tornou-se a única coisa capaz de me adormecer. Às vezes, ainda sonho com Aioros. Um desses sonhos está gravado em minha mente para sempre. Nele, Aioros retornava ao Santuário, são e salvo. Ele explicava a todos que fora vítima de um espectro cruel, que o aprisionara para tomar seu lugar e atentar contra o bebê Athena. Todos nós o recebemos com uma grande festa e eu, finalmente, fui capaz de lhe revelar todos os meus sentimentos. Acordei com lágrimas nos olhos, sem nunca ter ouvido a resposta de Aioros. Um sonho é apenas um sonho. Aioros não vai voltar. Não tive a coragem de me declarar ao homem que amei, mas o matei sem pestanejar. Sinto nojo de ter agido dessa maneira, nojo por compreender que eu fui ensinado a destruir, porém, nunca fui instruído na arte de amar. Vários "se" povoam minha mente. Se eu tivesse confessado meu amor, seria capaz de mudar Aioros? Se eu agisse diferente com relação ao Grande Mestre, teria evitado o assassinato e salvo o bebê? É tudo em vão. Nada vai mudar. E mesmo que todos algum dia me ofereçam clemência, incluindo Aioria, eu nunca serei capaz de me perdoar pelo que fiz.

Jamais revelei essa angústia a ninguém. Mais do que isso: esforço-me dia após dia para mantê-la bem longe dos olhos e ouvidos dos demais. Estou sendo infantil, pois sei muito bem que todos têm alguma ideia do que sinto. Embora eu sempre tenha sido reservado, a morte de Aioros me tornou frio, distante. Foi a solução que encontrei para manter a fachada de soldado exemplar. Estabelecer novos laços, na minha situação, me faria confiar demais no primeiro companheiro que me demonstrasse algum sinal de bondade e, considerando como as coisas estão, não sei se posso confiar em alguém. Os únicos que permito que se aproximem de mim são Dite e Mateo. Até mesmo eles, com seu jeito torto e bruto, parecem ter algum respeito sobre como a morte de Aioros me abalou. Desde o assassinato, eles jamais fizeram qualquer brincadeira sobre minha relação com Sagitário. Certa vez, quando Mateo começou a esboçar um comentário mais grosseiro, Afrodite interveio de imediato, sem precisar de muitas palavras para que o italiano entendesse que estava indo longe demais. É o jeito tosco que ambos têm de me proteger - por ser tosco, sigo confiando com desconfiança. Podem ridicularizar meu amor silencioso de quando em quando, mas caçoar do assassinato que cometi é ir longe demais até mesmo para esse dois. Quem diria que até mesmo a ralé dos Cavaleiros de Ouro possui escrúpulos?

Queria ter aprendido como amar alguém. Não o amor silencioso, desse que pode surgir em qualquer um de nós e que podemos alimentar sem jamais revelá-lo. Falo do amor que se manifesta de alguma forma, podendo ser sentido e vivido por aqueles que amamos. Dispenso algo feito com estardalhaço, pois isso não combina combina comigo. Contudo, queria saber manifestar meu amor ao meu jeito, com gestos, palavras e ações. Aioros não tinha qualquer dificuldade em expressar a afeição que nutria pelos outros. Ele me recebia em sua casa de forma aconchegante, ouvia-me com um sorriso nos lábios como se eu estivesse declamando a mais bela das poesias, abraçava-me num misto de força e gentileza que me dava um nó na garganta. Os deuses sabem o quanto me esforcei para correspondê-lo da mesma forma, no entanto, creio que falhei. Nunca fui bom com palavras - dizer "eu te amo" ou "gosto de você" me parecia tão insuficiente para expressar o que sinto, quanto assustadoramente solene -, então busquei superar essa fraqueza por meio de ações. E mesmo estas ações me enchiam de angústia, pois há uma linha tênue entre ser romântico e atuar como um adolescente bobo. Perdia horas pensando como proceder, que palavras usar e, no momento mais importante, tudo se embaralhava em minha cabeça. A mim, nada parecia suficiente. Todas os meus atos não eram mais do que imitações baratas da espontaneidade de Aioros. Todas as minhas palavras careciam de sinceridade de tanto que eu as ensaiava em minha mente. O carinho, que em Aioros resplandecia com naturalidade, em mim lutava para existir, pois eu fora treinado para enxergar toda e qualquer forma de amabilidade como vergonha ou fraqueza. Talvez essa fosse uma das qualidades de Aioros que mais mexia comigo: a capacidade de converter o amor que sentia em força.

Considerava Aioros muito acima de minhas ambições, por mais que ele sempre estivesse acessível. E como competir com Saga, sempre tão desenvolto, capaz de flertar tranquilamente com a etiqueta respeitosa e a cordialidade acolhedora? Tal como ele, Aioros também dominava essa dança, a qual eu apenas começava a aprender e nunca fui além de alguns simples passos. Todavia, sempre me esforcei. Convidei Aioros para frequentar minha casa, ofereci-lhe minha amizade sincera, estive ao seu lado em missões, aceitei seus convites e, em meus maiores atos de coragem, dei-lhe presentes como forma de demonstrar minha afeição. Tudo era embebido em uma boa dose de desconfiança na minha capacidade de me fazer claro. Seriam meus míseros atos capazes de expressar a intensidade do que eu sentia? Será que Aioros conseguia perceber, nas entrelinhas, que não se tratava de simples provas de amizade? Parte de mim, acreditava que sim, pois Aioros sempre foi bom em interpretar pessoas. Outra parte, contudo, acreditava que não. E se, acaso ele percebia, porque nunca disse nada? Esperava que uma declaração clara partisse de mim? Não correspondia aos meus sentimentos? Quiçá eu deveria ter me esforçado mais, ensaiado mais... Dizem que nos acostumamos a tudo na vida desde que se torne hábito. A primeira vez que tirei uma vida, de uma pequena lebre num treinamento de sobrevivência, me senti o pior dos homens. Só comi da sua carne porque tinha muita fome e a refeição me deixou enjoado por horas. A medida que esses treinos continuaram, tive de seguir matando animais para comer, até que se tornasse uma atividade mundana e corriqueira. Assim, quando tirei a vida de meu primeiro inimigo, não fiquei tão abalado quanto esperava. Era ele ou eu, afinal. Sobrevivência. Com essa palavra em mente, tal qual um mantra, continuei matando. Matei para conseguir a Armadura de Capricórnio. Matei homens que ofereciam risco ao Santuário. Matei Aioros... Como pode o ato de matar se tornar normal, enquanto amar alguém é tão complicado? O amor tem suas próprias regras. Muda-as ao seu bel-prazer, de pessoa para pessoa. Creio que não importa o quanto eu ensaiasse meus gestos e palavras - de nada me adiantaria. Eu continuaria perdido, tateando no escuro. Mas talvez, se eu tivesse insistido um pouco mais, não teria matado Aioros.

Pensar nisso me sufoca, aperta meu peito. Sinto que vou vomitar. Engulo rapidamente mais uma garrafa de cerveja. Estou meio-bêbado. Queria estar completamente bêbado para esquecer disso tudo, nem que fosse só por um instante. Esta noite, não posso – preciso levar a Armadura de Capricórnio até Aldebaran ao raiar do dia.

- Ora, por que o meu herbívoro favorito está tão quietinho hoje?

- Muitos peixes também são herbívoros – respondo, sem ter certeza do que estou dizendo.

- Pode até ser, mas eu sou uma piranha! Nhac! – ele ri, com sua habitual ironia sedutora, simulando uma mordida em meu pescoço. O simples toque de seus caninos poderia fazer meu sangue jorrar.

Dite me toma pelas mãos e me faz levantar. Deixo que ele conduza. Ou será a bebida quem me leva? Ele dança devagar, provocando-me a imitá-lo, querendo arrancar algum ritmo de meu corpo desacostumado a essas canções modernas. Não vai conseguir. Posso estar meio-bêbado, mas definitivamente não estou louco. Não ainda. Embalado pela música, Dite baila como se flutuasse no ar. Seus movimentos parecem ora displicentes, ora friamente calculados para dar o bote. A túnica branca, quase transparente, o veste como as águas de uma cachoeira, acentuando cada curva de seu corpo. O mais belo entre todos os Cavaleiros, sedutor e mortal. O aroma de rosas que emana de sua pele me lembra constantemente do perigo que corro por estar tão próximo. Sim, qualquer outro cederia aos encantos de Afrodite, porém, eu o conheço bem demais para ceder. Além do mais, somos como irmãos. Como Arthur e Morgana. Morgana, a misteriosa irmã do rei, que aparece ora como bruxa, ora como uma deusa benevolente. É difícil compreendê-la. Em parte das histórias, age como uma fada-madrinha, protegendo Arthur e presenteando-o com toda a sorte de objeto para lhe garantir a vitória na frente de batalha. Outros textos, contudo, trazem uma Morgana cínica, invejosa e vingativa que investe contra o irmão – em outras palavras, ela nada fica a dever para as maiores vilãs de filmes hollywoodianos. Afrodite é fascinado pelas estrelas de Hollywood. Caminha pelo Santuário como se fosse uma delas, à espera que um tapete vermelho se desenrole onde quer que pise. Ele solta minhas mãos e continua a dançar, o tecido deslizando por todo o seu corpo, realçando cada curva. Parece mesmo uma fada. Ou uma bruxa. Hipnotizado, não consigo desgrudar os olhos dele.

Se eu tivesse algum juízo em minha cabeça, jamais teria deixado Afrodite exercer tamanha influência sobre mim. Nem sempre foi assim. Quando Mateo e ele chegaram ao Santuário, mantive certa distância. A mim, o escolhido pela Excalibur, não soava bem me envolver com um maníaco que pendura as cabeças dos inimigos derrotados nas paredes de sua Casa Zodiacal ou de um deslumbrado que usa algo puro quanto as flores para os atos mais condenáveis. Oh, sim! Meus parabéns, Shura! Você, que sempre se achou tão acima desses dois sacos de bosta, não é muito melhor que eles! Em verdade, somos todos feitos da mesma matéria podre. Foi a solidão dos Templos, muitos dos quais ainda careciam de seus ocupantes, que nos juntou. Primeiro, por formalidade, polidez. Depois, por termos de trabalhar juntos nas missões. Mais experientes, Saga e Aioros atuavam em dupla ou sozinhos. Como tínhamos idades próximas quando chegamos ao Santuário e éramos considerados “verdes”, o Grande Mestre passou a nos designar para os mesmos trabalhos como uma forma de nos fortalecer e criar um vínculo entre nós. Belíssima ideia! Nem um espectro de Hades possui tanta maldade quanto esses dois. A própria Excalibur me atentava para esse perigo, todavia, eu não fui educado para afrontar as ordens diretas do Grande Mestre. De início, eu me afastava quando eles começavam o show de horrores – Mateo, decepando cabeças; Dite colhendo sangue para suas rosas. Abandonei meus julgamentos com o passar do tempo. Era isso ou enlouquecer. Ainda hoje, me assusta pensar como foi “fácil” de certa forma: pura e simplesmente, a violência deixou de me chocar. Passei a assistir os espetáculos, ainda que sem tomar parte deles. Por muito tempo, tentei acreditar que minha neutralidade me manteria imune à podridão deles, que me preservaria intacto do abismo ao qual ambos se atiravam tão alegremente. Doeu compreender que, no fundo, isso jamais me eximiu de coisa alguma. Continuo submisso, obediente, tanto aos meus superiores, quanto aos meus irmãos que não tenho coragem de censurar. E que moral teria eu para fazê-lo? Eu, que já tirei incontáveis vidas. Eu, que vivo na base do "matar ou morrer". Sem pensar duas vezes, me jogariam na cara que matei meu melhor amigo, o homem que mais admirava.

Dite foi essencial para me fazer relevar muita coisa, senão tudo. Como Morgana, aproximava-se de mim oferecendo algo mais precioso do que objetos mágicos: palavras doces e sedutoras, que tentavam me fazer encontrar alguma coerência naqueles massacres, bem como, em minhas próprias ações. “Veja, não é bem assim...” “Você precisa entender que...” Relutei em aceitá-las de início, mas é como dizem os antigos, "água mole em pedra dura"... E talvez eu seja uma pedrinha bem vagabunda, diferente daquela que guardava a Excalibur. Apesar de seu rosto de fada, Dite revelou-se uma Morgana toda bruxa por dentro. “Aioros não irá te julgar. Ele entenderá que faz parte da missão...” Senti ódio quando ele tocou no nome de Aioros pela primeira vez e, como tantas vezes em que senti ódio, fiz aquilo que faço de melhor: nada. Cada dia que passa, se consolida dentro de mim, com mais força, a ideia de que só sei agir quando comandado por alguém. Se depender de mim, eu não faço nada. Por isso, Dite continuou a citar o nome de Aioros, até me convencer que havia algo de concreto naquelas palavras. “Dano colateral”. “Em todas as guerras, civis irão morrer. É natural”. Talvez, eu tenha me forçado a acreditar, a me dar por convencido, pois, sempre que eu retornava de uma missão, sentia vergonha de encarar Aioros nos olhos, temendo que ele me visse coberto pelo sangue dos inocentes mortos por meus companheiros.

Afrodite desliga o jukebox e caminha até o piano de cauda, incitando Mateo a tocá-lo. O italiano diz um palavrão que me faz rir. Dite nos chama de nojentos. Como se tivesse recebido um elogio, Mateo se levanta e joga sua caneca de bebida em uma parede, sentindo um enorme prazer com o som do vidro estilhaçado. Ele se senta diante do piano, tão respeitável, e o martela com a brutalidade implacável de seus dedos. O instrumento não produz música – parece muito mais gemer de dor. Dite deita-se sobre a tampa fechada e começa a cantar, meio desafinado, entre alguns soluços. A túnica branca o envolve como a espuma do mar bravio. Como a água que cerca a Dama do Lago. Há nele uma ambiguidade que falta em Mateo, que é a crueldade em estado puro. Creio que se Mateo tivesse qualquer interesse pela história de Arthur, Mordred seria seu personagem favorito. Traição, guerras, assassinatos, incesto, estupro... Mordred é capaz dos piores crimes a fim de derrubar seu tio Arthur do trono e tornar-se rei dos bretões. Excalibur me advertiu diversas vezes do perigo representado pelo italiano e eu sempre a considerei demasiado alarmada. Esse brutamontes porta uma Armadura de Ouro, assim como eu, logo, que razão haveria para não confiar nele? Se Câncer o considera adequado, quem sou eu para não dar a cara a tapa e tentar buscar em seu coração morto um mísero fiapo de bondade? Não sei quem é mais estúpido: a Armadura de Câncer ou eu. Tal qual Arthur, deixei que ele, o temido Máscara da Morte, devassasse o meu reino interior, destruindo em mim todas as convicções de justiça que um dia aprendi. Hoje, nada mais me choca. Assisto às piores atrocidades que ele comete aceitando tudo como normal. Apenas queria que, de alguma forma, eu conseguisse encarar o assassinato de Aioros como algo normal.

Bebo um pouco mais. Em uma das histórias, Mordred é decapitado. Irônico, não?

Os dois terminam seu pequeno espetáculo, cada qual ao seu modo: Dite ri desvairado, Mateo solta um arroto gutural que ecoa por todo o bar. Querem palmas e eu, seu humilde público, os aplaudo. Sempre aplaudo. A luz do sol começa a entrar pelas janelas sujas. É minha deixa para sair. Levanto-me e visto o casaco comprido que repousa sobre a cadeira. Uma brisa fria, típica da mudança de estação, corta o Santuário às noites nessa época do ano.

- Ei, chifrudo! Onde pensa que vai?

Mateo, sempre um lorde.

- Preciso levar minha Armadura até o Aldebaran.

- Ah! Um corno indo visitar outro corno!

- Faz bem, bodinho! Um homem como aquele precisa pôr os músculos para trabalhar. Se quer subir a montanha, carregando os ferros dos outros, problema dele! Um touro só presta para trabalho físico mesmo.

Dite, até então deitado de costas sobre o piano, rola sobre a cauda até a beirada do instrumento. Fica ali, deitado, como que pendendo sobre um precipício. De seus lábios, sai um riso de escárnio. Ele adquiriu certo nojo de Aldebaran desde que falhou em seduzi-lo.

- Ele não é tão má pessoa assim.

Devo estar mais do que meio-bêbado para permitir que as palavras me escapem dessa forma. Os dois se entreolham, em silêncio, antes de explodir em gargalhadas histéricas.

- Ah, Shura, como você é engraçado!

- Essa foi boa! Aldebaran... Touro... pessoa... Você entendeu, piranha?

Forço-me a rir. Qualquer demonstração de bondade não é mais do que uma piada para esses dois doentes. Não há motivos para contra-argumentar. É melhor manter essa fachada. A minha vida é esse entrar e sair de triângulos fadados ao fracasso. Se eu não tiver Mateo e Dite, quem há de me acolher? Devia confiar no Grande Mestre, esse misterioso Merlin que me acolheu com tanto amor, mas que há anos não mostra sua face em público? Dizem que ele oculta o rosto por estar demasiado idoso, logo, a máscara passa uma impressão de jovialidade, ampliando também a empostação de sua voz. Se é assim, por que sua mão é tão pesada na gestão do Santuário? Por que muitos morrem e outros tantos desaparecem? Excalibur é incapaz de decifrá-lo. Na presença do Mestre, ela se inquieta. Vibra, geme, regozija-se. Nem mesmo Saga conseguia despertar tantos sentimentos contraditórios na Espada Sagrada. Posso apenas presumir que, como Merlin, o Mestre não é nenhum santo. Não se pode ser santo ao governar um território, pois a política real nos exige muito mais do que valores. Assim, o Mestre caminha na corda bamba, ora mostrando sua face mais benevolente, ora fazendo cair a ira dos deuses sobre seus inimigos. Se eu o buscasse agora, que tratamento receberia? Prefiro continuar em dúvida.

Na minha história, a condenação de Arthur não é a morte, mas a solidão. Intrometi-me entre Aioros e Saga, por isso, Saga desapareceu. Aioros nos traiu, por isso o matei. De uma só vez, eliminei Lancelot e Guinevere. Restam-me os dois degenerados, com os quais é difícil viver e sem os quais seria impossível continuar existindo. Nunca fui particularmente próximo de nenhum de meus outros vizinhos e, hoje, nos encontramos cada vez mais distantes. “Você é um veterano. Deixe que eles venham até você”. Aceitei o conselho de Dite sem pestanejar, guiando-me, mais uma vez, por hierarquias não-escritas. À época, eu já havia sido tragado para nosso triângulo doentio ao lado de Mateo, porém, ainda me mantinha na órbita de Aioros, que nunca deixou de me fascinar. Aioros, o bom soldado, o homem admirável, que chamava os novatos pelo nome e os tratava como amigos de longa data. Imitei-o de certa forma, tratando meus novos colegas sempre com polidez, porém, é preciso mais do que isso para se construir um laço. Aioria foi o jovem Cavaleiro de Ouro de quem mais me aproximei. Era natural devido à minha amizade com Aioros. Aioria, pequeno e cheio de sonhos, que viu em mim a personificação de Arthur desde a primeira vez que Aioros lhe contou sobre a Excalibur. Às noites, quando acendíamos fogueiras para descansar após os treinos, ele se sentava ao meu lado e pedia para lhe contar as inúmeras versões das lendas. “Você já contou essa, só que diferente” “Sim. Cada cronista traz a sua história”. “Isso é confuso. Qual é a verdade?” “Aí que está a graça: você pode escolher a sua versão favorita!”. Ele me dava um sorriso travesso, para então exigir uma nova crônica, a qual ouvia até cair em um sono profundo, deitado sobre meus joelhos. Tomei tal afeição pelo leãozinho que prometi protegê-lo como se fosse meu próprio irmão de sangue e ele, espevitado e sem papas na língua, tantas vezes me chamou de “mano”. Lembro-me do quão orgulhoso ele era da trajetória de Aioros, seu irmão, um verdadeiro herói. Tal como Galahad admirava seu pai, Lancelot, Aioria dizia a plenos pulmões que seu irmão mais velho era o mais forte entre todos os Santos de Ouro. Galahad, inocente e puro, qualidades para as quais não há espaço no Santuário. Se um forasteiro chegasse ao Santuário hoje, alheio a tudo o que aconteceu, jamais acreditaria nessas palavras. Hoje, Aioria e eu nos limitamos a trocar algumas poucas palavras, somente quando necessário. Hoje, Aioria se cala quando lhe perguntam pelo irmão falecido, o traidor que atentou contra o bebê Atena. Cada qual ao seu jeito, somos assombrados pelo mesmo fantasma.

Divido uma última dose com meus embriagados companheiros. Com o corpo quente, me despeço. Faz frio aqui fora. Chego às escadarias secundárias, que conduzem ao Pátio Central sem que eu tenha que atravessar todos os Templos Zodiacais. Os degraus de mármore branco rodopiam diante de mim como um redemoinho. Se eu rolasse escada abaixo, quebrando o pescoço, quem sentiria falta de mim amanhã? Com exceção de Dite e Mateo, imagino que mais ninguém. Camus passa mais tempo na Sibéria do que aqui. Milo vive pelo trabalho, cumprindo todas as missões com o mesmo orgulho que um dia tive, sempre disposto a matar ou morrer ao menor pedido do Grande Mestre. Shaka, o homem mais próximo de Deus, título que, por si só, indica que não devemos nos misturar, pois temo que ele seja capaz de ler meus pecados. Mu, o favorito do Grande Mestre, que se retirou para Jamiel a fim de refinar suas técnicas como ferreiro – ou, de acordo com o populacho, fugiu após a morte de Aioros por algum motivo. Resta-me, quiçá, Aldebaran. Digo isso sem muita certeza, pois, embora tenhamos uma aliança, creio que Touro não confia plenamente em mim. Não o julgo, pois também não confiaria se fosse ele.

Sinto que poderia confiar em Aldebaran, mas nem preciso olhar muito fundo para dentro de mim a fim de entender o óbvio: eu não sei confiar em ninguém. Aldebaran me estenderia a mão caso eu lhe pedisse apoio. Fá-lo-ia sem pensar duas vezes, sem julgamentos. Ou talvez, com julgamentos silenciosos. De todo modo, vi em seus olhos, na luta contra a Hidra, que Aldebaran não hesitaria em me ensinar a aprender com o passado ao invés de me deixar ser sufocado por ele. Pouco conheço de sua vida antes da chegada a Atenas, porém, todos nós, Cavaleiros de Ouro, carregamos fardos pesados. Se chegamos até aqui, não foi cruzando um mar tranquilo. Sequer precisaria implorar por sua ajuda: o próprio Aldebaran parece ter estendido a mão para Aioria, pouco se incomodando com a rispidez do Leão orgulhoso. Muitos anos antes, ele construiu, a partir de sua silenciosa insistência, uma forte relação com Mu, o inacessível Cavaleiro de Áries, tornando-se seu favorito e o único de nós aceito na montanha sagrada de Jamiel. Eu, que sou apenas uma figura triste e decadente, não devo ser tão pior quanto eles... Mas eu não sei confiar em ninguém. Confiei em Aioros por toda a minha vida e as coisas acabaram como acabaram. Aioros, sempre tão gentil e solícito, tão aberto e acolhedor. Jamais imaginaria que, algum dia, ele poderia atentar contra a vida de uma criatura inocente, quanto mais o Bebê Athena. É uma decisão que não faz qualquer sentido em minha mente, por isso, é tão difícil superar o que aconteceu. O Aioros com quem eu convivi, o homem que eu amei, jamais poderia ser um traidor. Aioros entregou sua vida à missão, protegia o Santuário com todo o poder de seu cosmos e, apesar de todos os elogios que recebia, mantinha-se extremamente humilde. É duro pensar que todos fomos enganados por tanto tempo. Isso me faz ter receio de confiar em qualquer outra pessoa.

Chego ao acesso à Segunda Casa Zodiacal. Parado diante de uma das grossas colunas brancas, respiro fundo. Há luz em um dos cômodos e um cheiro gostoso de café pairando no ar. Minha cabeça dói.

- Eu, Shura de Capricórnio, peço permissão para adentrar o Templo de Touro.

Mal minha voz ecoa pelo recinto, novas luzes se acendem. Não tarda para que eu distinga a silhueta de Aldebaran emergindo de um corredor – à medida em que ele se aproxima, a projeção de sua sombra me engole. Ele para diante de mim, com um meio-sorriso nos lábios.

- Bom dia, Shura. É bastante cedo para estar de pé.

Caçoa de mim, o desgraçado. Com certeza sabe que ainda não preguei o olho esta noite. Ainda assim, não tenho coragem de lhe dar uma resposta à altura. Não faço isso nem mesmo com Dite ou Mateo, que merecem muito mais reprimendas, por que diabos haveria de fazer com alguém que salvou minha vida?

- Preciso de sua ajuda com Capricórnio.

Ele arqueia as sobrancelhas grossas, curioso.

- Precisa dos trabalhos de Mu? Sua Armadura não está na lista das que devo transportar nessa viagem.

- Achei que não precisaria de tantos cuidados desde a última luta, porém, os danos foram muito maiores do que parecem.

- Compreendo. Entre. Você aceita uma xícara de café?

Ele passa da conversa protocolar ao assunto corriqueiro com uma naturalidade que vi apenas em Aioros. Aioros tinha carinho especial por Aldebaran, sempre tão diferente de todos nós e, por isso, capaz de incomodar o Santuário inteiro. Eu mesmo ficava fascinado como um Cavaleiro mais jovem e inexperiente tinha a audácia de levantar contrapontos às falas do Grande Mestre durante as reuniões, guiado por um senso de justiça bastante particular. E quando todos se alvoroçavam, erguendo a voz para calá-lo, era o próprio Mestre quem ressaltava a importância das colocações de Aldebaran e sugeria novas reflexões, como se, desde o princípio, a ideia fosse identificar quem teria a coragem de manifestar suas opiniões. Isso já ocorreu com muito mais frequência – ele sabe muito bem que, já há alguns anos, o Grande Mestre não aceita ser contrariado. Como tem juízo, cala-se, ainda que isso deva lhe corroer por dentro. Desde a morte de Aioros, considero Aldebaran o mais humano dos Santos de Ouro. Sua humanidade é assustadora, poderosa como uma bola de demolição sempre disposta a golpear nossas bases. Assim, ele é alvo do desprezo de muitos. Contudo, Touro não se importa que interpretem seu modo de vida como uma fraqueza. Na verdade, suas convicções permitiram a ele derrotar a Réia e sua Hidra, enquanto os efeitos de seus ataques continuam a causar rachaduras em Capricórnio. É bastante irônico que eu, considerado por tantos como herói e Santo, me sinta esmagado pelos meus crimes, enquanto Aldebaran, que tão alegremente abraça a humanidade que o diferencia de nós, ignora o peso dos próprios pecados. Um dia, via Aioros com esses mesmos olhos.

Ele continua seu caminho, incansável como o Touro. Sigo-o.

- Conversei com o Grande Mestre ontem para tratar de minha urgência. Tenho tudo preparado. A Caixa de Pandora, o formulário com uma autorização especial, o sangue... Você não terá problemas.

Sinto uma ânsia de me explicar. Estalo os dedos, fazendo com que a Armadura se materialize em minhas costas, querendo mostrar que está tudo dentro dos conformes, ainda que se tratando de uma ruptura burocrática. Estou furando a fila. Não sou o primeiro, nem serei o último a fazê-lo. Aldebaran caminha à minha frente, sem nada dizer ou olhar para trás, talvez me julgando, talvez achando tudo muito natural – lembro de ele ter dito, certa vez, que esse tipo de coisa é bastante comum em seu país... Observo os corredores de sua Casa Zodiacal, que em nada se assemelha a uma caserna. Cômodos limpos e bem iluminados, bibelôs dividindo espaço com artefatos indígenas, fotografias de nossa juventude em Atenas. Boas memórias, coisa que não tenho. Chegamos à cozinha, onde encontro a mesa preparada como num banquete. Há comida demais. Aldebaran se dirige a um grande armário, repleto de louças finas. Suas mãos grossas e escuras contrastam com a delicadeza e a brancura dos objetos.

- Meu sexto sentido disse que eu teria companhia esta manhã. Vamos, sente-se.

Obedeço. Não me atreveria a sentar sem receber uma ordem. Fosse Mateo, já teria colocado os pés sujos sobre a mesa. Por que penso nisso? Não sou muito melhor que ele. Com estranhamento, observo os alimentos postos diante de mim. Pão, frutas, geleias, queijo, presunto, as louças e talheres limpos. Nada comparado ao meu ritual matutino, com café preto e pão velho consumidos à beira da pia. Mais uma vez, a humanidade de Aldebaran me assusta. Ele me serve café, seus olhos negros como a bebida pairando sobre mim. Entendo que é uma ordem para comer. Esforço-me para fazer o meu melhor. Ao meu lado, Capricórnio permanece tranquila. O sabor das frutas frescas é inebriante.

- Você quer verificar a papelada?

- Depois. Vamos comer.

Não consigo distinguir se é uma ordem ou um pedido, tão desacostumado estou com qualquer forma de gentileza. Independente da razão, obedeço. Um silêncio incômodo desce sobre nós. Eu não deveria estar aqui. Por isso, devoro a comida, esbaforido, como se fosse perder o trem para o trabalho. Aldebaran segue em seu próprio ritmo, contemplativo, degustando cada mordida.

- Quer mais?

- Não.

Tudo em mim é rispidez.

- Não, obrigado. Estou satisfeito.

Emendo, em tom envergonhado. Sou eu quem preciso de Aldebaran, fui eu quem solicitou adentrar sua Casa. Ele me recebeu com educação. Não, mais do que educação - acolhimento! Tratá-lo com cortesia é o mínimo, porém, sei que sou uma péssima companhia. Quero me levantar e fugir. Quero...

- O que está te incomodando, Shura?

Não respondo.

- Há algo te devorando por dentro. O que houve?

Touro insiste. Um suspiro pesado escapa de meus lábios. Quero fugir. Para onde?

- Por que... isso?

Aldebaran arqueia suas grossas sobrancelhas novamente. Apesar de seu silêncio, sinto que ele quer arrancar de mim uma explicação à fórceps, mais robusta do que as três simples palavras que me permiti lhe oferecer. Irritado, movo as mãos em círculos sobre a mesa, esperando que ele entenda o que quero dizer. Como ele não se dá por satisfeito com meus gestos, insisto:

- Isso.

O grande Touro cruza os braços, pensativo, alimentando minha angústia. Então, solta um grunhido, balançando a cabeça.

- E por que não isso?

Penso, de início, se tratar de uma pergunta retórica, entretanto, ele mantém os olhos vidrados em mim, exigindo mais respostas. Poderia dizer-lhe a verdade, o que somente acabaria por expor minha vergonha. Um convite para me sentar à mesa com o Grande Mestre ou até mesmo com meus companheiros degenerados nunca é um simples convite para saborear uma refeição. Por Zeus, muitas vezes, sequer há o que comer! Entre goles, faço promessas que não quero cumprir, assumo riscos que não estou disposto a correr, os três sempre demandando muito mais do que posso oferecer, eu sempre disposto a entregar muito mais do que irei receber. Acato tudo de cabeça baixa, submisso, ignorando os alertas de Excalibur. Desacostumei-me com a bondade, com o simples prazer de poder me sentar diante de um colega e partilhar de sua comida. Aldebaran me estende a mão, e meu único pensamento é cortá-la fora com a Espada Sagrada.

- Porque você não devia se misturar comigo! Ninguém devia! Eu matei Aioros! Matei meu melhor amigo e a pessoa a quem eu mais queria bem! Porque sou um crápula ao qual todos chamam de herói!

Noto o olhar consternado de Touro. A mesa está virada, restos de comida e louças estilhaçadas por todo o chão como num cenário de guerra. A torrente das minhas palavras cessa. Busco a cadeira para me sentar, apenas para percebê-la tombada junto aos meus pés. Lentamente, Aldebaran se curva para tomar nas mãos o pedaço de uma xícara quebrada. Segura o objeto na mão, como se estivesse em uma meditação profunda. Quero me desculpar. Quero fugir mais do que nunca.

- Eu estava pensando mesmo em comprar um conjunto de louça novo.

Meu sangue queima.

- Você acha isso engraçado?

- Não foi minha intenção...

- Claro que não! O que você poderia entender sobre o que eu passei, afinal? Em nome do Santuário, matei a pessoa que eu mais amava! Você jamais passaria por isso, pois não tem ninguém para amar! E mesmo se tivesse, eu pagaria para ver você, o homem que não sente o peso dos próprios pecados, rasgar o peito da pessoa que mais lhe importa!

Estou voando. Diante de meus olhos, gotículas de sangue e dois dentes flutuam, como que suspensos por toda a eternidade – e meu sétimo sentido me permite acompanhar em câmera lenta o triste espetáculo de minha decadência. Como um cometa, deslizo no ar até me estatelar no chão frio da Casa de Touro. Sinto gosto de sangue em minha boca. Com a língua, examino o corte em meu lábio e o vão em minha arcada dentária. Outro jorro quente desce por meu rosto, intenso ao ponto de me turvar a visão. Se antes minha cabeça doía, agora parece a ponto de explodir. Foi um soco, apenas um soco, e já causou todo esse estrago. Realmente estão certos quando dizem que Aldebaran jamais demonstra todo o seu poder... A Excalibur não me defendeu, o que significa que fiz por merecer. Abusei da boa vontade e do acolhimento que Touro me proporcionou. Sou um lixo. Não valho a merda de Hengroen ou Lamrei, os fiéis cavalos de Arthur.

- Me desculpe.

É tudo o que digo, reunindo em mim o pouco que me resta de decência, a voz parecendo morrer assim que deixa minha boca. Sequer tenho coragem de olhá-lo nos olhos. Ouço seus passos. Diante de mim, as duas grandes pegadas de Aldebaran. Quando finalmente ouso olhar para cima, vejo sua grande mão direita estendida em minha direção, não para me puxar pelos cabelos e me atirar para fora de seu Templo, mas para me ajudar a levantar. Aceito tal gesto com boa dose de relutância, pois o que eu mereço é ser escorraçado porta afora. A mesma mão que, há poucos segundos, quase me mandou para o outro lado da vida, agora me entrega um pano branco úmido. Mais do que isso: toma a minha mão direita, fazendo com que eu feche o punho em torno do tecido e, com gentileza, o conduz até meu rosto disforme. O álcool, que tantas vezes me aqueceu a garganta, agora faz arder minha pele e queima minhas narinas.

- Me desculpe também. Mas você precisa medir suas palavras. Fique aqui e descanse um pouco ao menos. Minha cama está arrumada.

- Se eu ficar aqui, apenas lhe causarei ainda mais problemas. Você sabe disso e não deve se arriscar, seja por sua própria vida ou pela vida de quem realmente te importa.

O grande Touro se cala. Deixo que ele interprete minha frase como bem entender. Não tenho interesse em saber quem é a razão do seu afeto. Aprendi que, em nosso meio, sentir afeição é um crime muito mais terrível do que cometer um assassinato. Paguei por isso tirando a vida do homem que mais amei.

- Mesmo assim, você não deveria tornar o seu fardo tão pesado, Shura.

Rio um riso melancólico e frouxo. Bem que eu gostaria de aprender com você, Aldebaran. Como eu gostaria de ver, no meu passado, apenas lições e aprendizado, em vez de pecados mortais.

- “Conforte-se! Não deposite confiança em mim, pois não há em mim confiança a ser encontrada!”

- O que vem agora? Vai me pedir que eu atire a Excalibur no mar?

Dite diz que Aldebaran é um ignorante. O mundo seria um lugar muito melhor se todos os ignorantes reconhecessem quando eu declamo trechos das crônicas de Arthur.

- Não. Mas se acaso algum dia isso seja necessário, certamente pedirei a você, meu bom Bedivere.

- Um dia você me provará o contrário.

- O contrário?

- Sim. Pois se não houvesse bondade dentro de você, a Excalibur não te escolheria por guardião.

- Onde eu haveria de te provar isso, Aldebaran? Onde?

- No campo de batalha.

Ele me responde com firmeza da rocha e da terra. Engulo em seco, sem forças para refutá-lo. É como se, apesar de tudo, Touro realmente veja alguma salvação para mim.

- Certo, agora vamos. Você precisa descansar.

- Já te disse: aqui eu não fico!

- Então vamos até a enfermaria.

- Não é preciso.

- Você devia se olhar no espelho.

Não é necessário. Sinto que o estrago não é pouco.

- E diremos o que?

- Qualquer coisa.

- Não posso dizer que você quase me matou com um soco.

- Então diremos qualquer coisa, menos isso.

Pela primeira vez em muito tempo, rio de verdade. Meu corpo dói, mas eu rio. Sinto-me vivo. Aldebaran aproveita-se de minha leveza para me tomar pelas mãos e conduzir-me pelas escadarias abaixo. Tento me desvencilhar, todavia, ele me segura com firmeza, conduzindo meus passos.

- Cuide de estancar o seu corte.

Qual? O talho em meu lábio inferior? O rasgo aberto no supercílio ou seja lá de onde vem essa cascata de sangue que me banha o rosto? O pano está empapado de sangue, que já começa a escorrer pelos dedos. Aldebaran continua a me guiar. Diante do Templo de Áries, ele para por um momento e lança um olhar contemplativo sobre a estrutura vazia. Seguimos adiante. Estou tonto graças ao álcool e à perda do sangue. Minha túnica está manchada de vermelho, gotas grossas caem ao chão e são pisoteadas por meus próprios passos. Quando chegamos à enfermaria, somos cercados pelos funcionários de plantão.

- Caí nas escadarias. Aldebaran me ajudou a chegar até aqui.

Todos aceitam a desculpa. Sempre aceitam qualquer desculpa que damos. Aldebaran parece prestes a dizer algo, contudo, aperto-lhe as mãos. Ele me observa de relance e se cala.

- Você precisa ir agora. Sua missão lhe aguarda – minha voz é fraca, sinto o gosto do sangue possuindo minha garganta – Conto com sua ajuda.

- Não se preocupe. Capricórnio voltará em breve, nova em folha.

Os enfermeiros me sentam em uma cadeira de rodas. Sinto-me idiota com tamanho exagero. Touro ainda permanece aqui, conversando com o médico de plantão. Eles trocam algumas palavras que não consigo distinguir antes de Aldebaran se voltar para mim uma última vez para se despedir com um aceno.

- Aldebaran...

Ele se detém. Não sei de onde tirei forças para chamar seu nome. Quero realmente me desculpar. Não apenas entoar um pedido de perdão, mas pedi-lo de verdade, suplicá-lo, arrancar dele algo palpável o suficiente para indicar que está tudo bem. Quero convidá-lo para visitar meu Templo Zodiacal, para que eu possa retribuir o café com o mínimo de generosidade. Quero convidá-lo para beber comigo qualquer noite dessas, não no buraco em que me reúno com os outros dois ratos, mas em um lugar bonito, iluminado, à beira-mar. Quero saber notícias de Aioria, com quem não converso desde a luta contra Réia. São tantas coisas que eu nem sei por onde começar.

- Obrigado – é tudo o que consigo dizer.

- Cuide-se.

Observo a grande figura desaparecer porta afora antes de ser levado para o quarto. Sou limpo, medicado, suturado, enfaixado... Tratamento de primeira para a elite do Santuário! Mateo e Dite vão caçoar de mim por um bom tempo por causa dessa “queda”, porém, não me preocuparei com isso agora. Deitam-me numa cama limpa. O quarto é muito branco e tão bem iluminado que até me incomoda os olhos. O médico pede que eu descanse antes de apagar a luz e sair, acompanhado das enfermeiras. Silêncio. Em seu leito de morte, Arthur é visitado por fadas que conduzem o rei moribundo a uma barca. Seu destino é o Reino de Avalon, uma terra mágica, a última esperança para tratar o rei mortalmente ferido em combate. O esforço das fadas é em vão. Fecho os olhos. Suplico (a quem?), imploro (a quem?), peço (a quem, deuses, quem?) que essa cama de hospital se converta em uma barca rumo a Avalon. Lá, eu farei de tudo para receber das fadas o poder de voltar ao passado e reescrever minha história, salvando Aioros e Saga. Pouco me importa se eu conseguirei me salvar. Abro os olhos. Continuo no mesmo quarto escuro, rodeado do mesmo silêncio. Ao meu lado, Excalibur repousa. Ela tenta me acalmar, como que sussurrando em meu ouvido “senhor meu rei, ainda não é hora de se entregar às águas profundas”. Entendo. E espero que, quando chegar a hora, ainda haja alguém para rezar pela alma desse pobre Arthur.

Notes:

Green, a minha parte do combinado eu cumpri. E que prazeroso foi escrever esse texto! Embora Shura não seja um personagem que, no material original, atraia tanto a minha atenção, com certeza foi muito mais bem aproveitado no Episode G. Agora, aguardo minha fanart.
Para produzir esse trabalho, fiz pesquisas sobre as lendas arturianas, as quais inspiraram Kurumada na criação de Shura e seus golpes. Como o próprio personagem narra, há diversas versões para a vida do Rei Arthur e de seus companheiros. De início, me peguei pensando se eu deveria me guiar, especificamente, por uma ou outra, no entanto, ao aprofundar minhas pesquisas, entendi que a melhor coisa a fazer seria transitar pelas diferentes versões em crônica e poesia. Peço desculpas aos estudiosos das obras ou leitores com muito mais conhecimento por qualquer liberdade tomada em excesso.
Há, contudo, alguns textos que aparecem com mais força, como "A Morte de Arthur", de Thomas Malory. O trecho que Shura declama para Aldebaran é uma tradução um tanto floreada de um diálogo entre Arthur, em seu leito de morte, e o Cavaleiro Bedivere. Na ocasião, Arthur pede a Bedivere que atire Excalibur ao mar, daí a resposta de Aldebaran e, por consequência, o nome mencionado por Shura. A frase final da fic também é uma referência à mesma obra: antes de morrer, Arthur pede que rezem por sua alma.

Julho de 2024: Poucos meses após a conclusão dessa fic, fiz uma revisão. Foram acrescentados alguns parágrafos novos e corrigi alguns erros de digitação.