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O Ômega Faz-Tudo

Summary:

Depois de 8 anos vivendo por si, Xie Lian, um ômega de 28 anos, sabia fazer de tudo por dinheiro. Pintar paredes, ajustar fiação elétrica, desentupir encanamentos, até levantar prédios inteiros do zero, se empenhava em todo o tipo de reforma desde que o pagasse bem. Reciclava lixo, dedetizava casas, cuidava de crianças, se envolvia em qualquer trabalho que pudesse desviar sua mente dos traumas do passado.
Em sua rotina inconstante, um dia encontrou um carro parado no meio da estrada e decidiu ajudar o alfa dono dele, não sabendo que ele era Hua Cheng, um temido empresário que foi parte de um passado esquecido de Xie Lian. Entre coincidências e encontros marcados, os dois rapidamente começam a fazer parte da vida do outro, juntando seus destinos de maneira inevitável, enquanto falham em resistir ao instinto de ômega e alfa que os conduz a ficarem juntos.

[HuaLian] [ABO] [Fluffy] [Família]

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Chapter 1: Mecânico

Chapter Text

 

 

Fazia alguns anos que o conceito de “azar” não era familiar para Hua Cheng, no entanto, olhando para os dois lados da rodovia vazia, só podia pensar que sua boa sorte tinha sumido quando aceitou um encontro no dia dos namorados. 

Com o carro morto ao lado da estrada, sem bateria no celular, em um dia frio de inverno, achava que sua única escolha era sentar no meio-fio e esperar morrer congelado enquanto pedia perdão para os deuses. Que azar o dele fazer de tudo para se tornar um alfa digno se “Sua Alteza” Xie Lian, mas acabar congelando no meio do nada sem sequer olhar em seus belos olhos novamente.

Na verdade, estava apenas fazendo drama, mas o frio que sentia era de doer os ossos.

Naquele dia de infortúnios, tinha saído da cidade às pressas para resolver uma questão em uma de suas muitas empresas. Descobrir o que causou a falha no cálculo da depreciação dos bens que tinha, em teoria, não demoraria muito, então não iria levar muito tempo para que sentissem sua falta e mandassem alguém refazer seus passos. 

Se não fosse o secretário Yin Yu a notar seu “desaparecimento”, seria o ômega com quem tinha marcado um encontro que provavelmente o procuraria. Isso se ele não se lembrasse do comportamento frio do alfa durante a troca de mensagens e considerasse que apenas levou um bolo, no dia dos namorados.

Seria o melhor, afinal Hua Cheng nunca teria interesse por alguém além de Xie Lian, quem procurava desesperadamente já fazia 8 anos. Desde a queda da grande empresa farmacêutica Xian Le, e todo o terror que Bai Wuxiang causou na vida do ômega, Hua Cheng havia trabalhado arduamente para construir seu próprio império para prover para seu amado e para provar a inocência da família Xie no escândalo que causou sua queda. Com mais sucesso na primeira questão do que na outra, todos os dias procurava por ele fielmente, e não tinha parado de ter esperanças. Talvez fosse a sorte o impedindo de aceitar conselhos duvidosos de procurar um “substituto” no dia dos namorados.

“O que é um ponto vermelho no meio do branco?”, pensou consigo mesmo, “Um alfa fracassado do lado de seu carro quebrado”.

No entanto, estreitando a visão no meio da pista coberta de neve, começou a ver uma figura nebulosa vir em sua direção. Perguntou-se se não era uma miragem ou um delírio, se não estava tão louco a ponto de imaginar algum carro vindo lentamente em seu socorro. Levantou-se e sacudiu os braços anunciando sua presença, nem um pouco discreta pelo vermelho vivo de suas roupas e de seu carro.

Hua Cheng não era um alfa modesto e causava impacto onde quer que fosse, seja o fascínio dos admiradores ou o medo de seus inimigos. Ele era alto e forte, sempre usando roupas de marca que destacavam sua figura esguia como a de um modelo, mas intimidadora. Mantinha longos cabelos pretos bem cuidados, geralmente soltos com uma única trança com uma conta vermelha pendendo na ponta, trazendo para sua imagem já ameaçadora uma ideia de divindade. Tinha um rosto longo, com traços muito bonitos que naturalmente chamavam atenção, mais ainda quando cobria o olho direito com um tapa-olho. O temido e admirado alfa não tinha aquele olho e costumava usar prótese para substituir.

Por isso, quando passou-se um tempo e nenhum carro apareceu, acreditou que seu único olho o enganou, então considerou que realmente estava delirando. Frustrado, entrou dentro do seu New City Hatchback vermelho completamente apagado.

Não era um conhecedor de carros, tinha alguns, mas eram apenas brinquedos bonitos dentro de sua garagem, portanto não tinha muito interesse em aprender como fazer a manutenção. Quando quebrado, deixava as chaves com Yin Yu e ele fazia a mágica, levando num mecânico ou chamando alguém para averiguar o problema. Naquele momento, não tinha o secretário para ajudar, nem nenhum lugar para ir ou uma maneira de ligar para alguém, e pela dedução do óbvio, com o painel do carro apagado, provavelmente era problema na bateria.

Bateu a cabeça no volante, frustrado por nem mesmo o ar condicionado poder esquentá-lo. Xingou e se debateu, apertou a buzina várias vezes, e então se assustou com uma batida no vidro. Dando um pulo no lugar, olhou para o lado não acreditando no que via, ou melhor, quem estava do lado de fora.

Como um anjo vindo de seus sonhos mais profundos, sorria para ele de maneira gentil e solícita. Um rosto perfeito como esculpido em jade, traços marcantes e elegantes que mesmo nas roupas mais simples ainda o faziam parecer um príncipe. Olhos calorosos de cílios longos, lábios pálidos do frio como sua pele. Cabelos escuros curtos na nuca e maiores debaixo de um boné velho, dando destaque às bochechas rosadas como se tivessem sido pintadas à mão. Esse era Xie Lian, o ômega que Hua Cheng tanto procurava.

Com as mãos tremendo, ficou alguns segundos sem reação, até conseguir respirar fundo e ter coragem de abrir a porta do carro. Seu cheiro de alfa, pairou pelo ar, repleto de alegria impossível de esconder. Xie Lian não o achou estranho, sorriu mais aberto para Hua Cheng, dando alguns passos para que pudesse sair. 

Frente a frente, o alfa percebeu a diferença de altura, que tinha aumentado muito desde a última vez que tinham se visto, quando ele era um adolescente e usava o pseudônimo de “Wu Ming” e uma máscara para cobrir o rosto. No entanto, diferente daquela época, Xie Lian não tinha seu doce cheiro de ômega, o que lhe causou estranhamento. Se perguntou se não era apenas um sonho, mas o frio cortante do lado de fora o impediu de pensar isso.

- Precisa de ajuda? - A voz agradável de Xie Lian o acalentou.

- Seria muito bom, gege.

- O que está acontecendo com seu carro? - Ele deu uma boa olhada.

- Acho que foi a bateria. - Disse curto, ainda incapaz de compreender a realidade.

- Entendo…

Racionalizando o motivo para seu amado estar no meio da estrada com ele, logo imaginou que estivesse dirigindo. No entanto, o que Xie Lian dirigia não era nada do que pensava, observou-o virar de costas para uma carroça de madeira branca desgastada com a carroceria cheia de objetos e móveis de descarte. Hua Cheng não julgou, mas surpreendeu-se com a engenhosidade ao perceber que se tratava de uma carroça motorizada, provavelmente modificada pelo seu dono.

- Acho que consigo fazer uma chupeta. - Ele buscou algo nas sucatas. - Sorte sua que hoje consegui um cabo! 

Ele puxou o cabo de ligação, conectando as baterias dos carros desligados com agilidade. Hua Cheng não precisou fazer nada ou dizer alguma coisa, olhando bobo parado do lado da estrada, ainda tentando raciocinar a graciosa figura de Xie Lian em um macacão jeans, farejando o ar em busca de seu inexistente cheiro suave e confortável que conhecia, como baunilha adocicada. Entristeceu-se pensando que o ômega estava sob efeito de inibidores.

Muitos anos antes, anterior ao nascimento dos tataravós de Hua Cheng, a humanidade tinha sido quase extinta depois de diversas guerras, que causaram danos severos ao meio ambiente e mataram grande parte da população por fome e poderosas doenças sem cura na época. Com isso, médicos e cientistas de todo o mundo tentaram encontrar um jeito de salvar a raça humana, não apenas encontrando curas, mas potencializando a fertilidade e diminuindo a mortalidade infantil, idealizando impedir o extermínio e repovoar a Terra com humanos “mais fortes”. Quem conseguiu o feito foi uma clínica de reprodução in vitro, que sem o conhecimento de seus pacientes, usando misturas de DNA animalístico, criou os três subgêneros que salvaram a humanidade: alfas, betas e ômegas.

Desenvolvendo a glândula de cheiro, capaz de liberar feromônios para conquista e para demonstrar emoções, tendo ciclos a cada três meses de cios, para os ômegas, e hut, para os alfas, e evoluindo mudanças fisionômicas e fisiológicas, a humanidade foi salva por seus descendentes com DNA misto, mais fortes a cada geração. Mas quando a população humana atingiu níveis demográficos normais e os seres humanos precisavam conviver sociedade, farmacêuticas como Xian Le criaram medicamentos para impedir as características lupinas de se manifestar de maneira incômoda.

Mesmo assim, não era saudável fisicamente ou psicologicamente se manter sobre o uso constante de inibidores de cheiro e supressores de cio. Por isso, apesar de não querer, o cheiro feliz de Hua Cheng não tinha parado de espalhar.

Seu instinto de alfa o fazia se sentir como se estivesse abanando a cauda e saltitando, em êxtase por encontrar Xie Lian. O fato que Hua Cheng não conseguia esconder não passava despercebido pelo ômega, que provavelmente não estava tenso na presença dele por conta desse súbito de felicidade. Um alfa que poderia deitar de barriga tamanha alegria para ele não seria uma ameaça, no entanto sabia que Xie Lian não se lembrava dele, nem mesmo como Hong Hong-er, então talvez a felicidade fosse suspeita para o ômega. Mas estranhamente ele sabia que Xie Lian não estava o achando tão estranho.

Depois de conectar devidamente a bateria dos dois carros, Xie Lian deu partida em sua carroça, que fez um estrondo. Esperaram alguns segundos para tentar ligar o carro de Hua Cheng, mas nada. Tentaram o procedimento mais algumas vezes, mesmo assim não havia sinais de que a bateria do New City Hatchback tinha voltado.

- Não adianta, gege, a bateria se foi de vez. - Suspirou profundamente.

- Que pena… - O ômega lamentou, pegando o celular. - Aqui também não tem sinal…

- Que má sorte a minha. - Hua Cheng riu. - Obrigado pela ajuda mesmo assim… se importaria em me dar uma carona até a cidade? Ao menos para que possa chamar um guincho.

- Claro que não me importo! Mas tudo bem simplesmente deixar o carro aqui?

Xie Lian havia sido um ômega muito rico, Hua Cheng sabia que melhor que qualquer um que ele reconhecia o valor do carro e que não era recomendável deixá-lo assim. Mesmo assim, não havia muito o que pudessem fazer, então apenas sorriu convencido:

- Não tem problema, gege, é apenas um brinquedo quebrado. - Tentou soar o mais rico possível.

- Bem, então vamos lá!

Comovido pela bondade de Xie Lian, a mesma que o salvou diversas vezes ao longo dos anos, o seguiu para a frente da carroça, sentando lado a lado em um banco de madeira acolchoado com uma almofada gasta como assento. Xie Lian ligou o mecanismo, dando partida e segurando o volante grande como o de um caminhão. Hua Cheng não ousou tentar entender como funcionava a máquina criada pelo ômega, apenas aceitou ser levado na carroça motorizada surpreendentemente suave.

- Gege é muito talentoso. - Elogiou sincero, sorrindo para o ômega. - É uma máquina muito engenhosa, além do que acabou de fazer para tentar ressuscitar a bateria do meu carro.

 - Não é problema nenhum. - Xie Lian ficou um pouco tímido.

Buscando algo no bolso da frente do macacão, entregou para Hua Cheng um cartãozinho azul. Sorriu com a identificação no cartão, “Hua Lian”, um nome falso que adotava o sobrenome do alfa, sem intenção. Secretamente, se sentiu orgulhoso. Nele havia alguns telefones e um design que indicava que “Hua Lian” prestava serviços gerais.

 

 

- Sou meio que um faz-tudo, qualquer tipo de manutenção que for necessária é só entrar em contato!

O alfa não poderia ficar mais feliz, não apenas de estar do lado do seu amado de tantos anos, mas de imediatamente conseguir o telefone dele. Queria beijar o cartão, abraçar o ômega ao lado e enchê-lo de beijos também, mas seria ainda mais estranho da sua parte. Novamente seu cheiro enchia o ar, era dissipado pela velocidade e pelo vento da carroça, mas Xie Lian conseguia reparar, sorrindo discreto.

- Perdão, gege, não tenho nenhum cartão meu aqui comigo para retribuir.

- Tudo bem, sem problemas. - Confortou compreensivo como sempre. - Qual seu nome, Sr. Alfa?

- Pode me chamar de “San Lang”, sou o terceiro filho da minha família. - Sorriu, recostando-se para ver mais do perfil de Xie Lian.

- San Lang então. - Devolveu animado.

- Gege, por um acaso você instala lustres? - Perguntou olhando o cartão.

- Claro que sim! Qualquer tipo de trabalho elétrico que seja necessário, pode me chamar!

- Então te conheci na hora certa!

Que felicidade para Hua Cheng não ter apenas uma desculpa para encontrar Xie Lian depois daquilo, mas por ter encontrado alguém que pudesse realizar o trabalho que lhe tirou a paz no último mês. Ele havia comprado um extravagante lustre para sua casa, no entanto, no dia da entrega, estava em seu pré-hut sendo muito territorialista e não pôde receber a encomenda. Passou semanas tentando lidar com a mercadoria extraviada, e quando finalmente a teve em mãos, acabou a deixando no canto por não permitir que ninguém se aproximasse de sua toca. Desde então, o lustre estava abandonado no mesmo lugar, criando pó já fazia um bom tempo. Ele explicou a situação se sentindo um pouco envergonhado.

- Não se preocupe, já lidei com alfas territorialistas enquanto fazia meu trabalho. Nunca tive problemas!

- Deve ser difícil para um ômega, a carga de feromônios fica bem pesada… - Suspirou compreensivo. - Mas garanto que não vou te deixar desconfortável.

Xie Lian o olhou com as sobrancelhas franzidas, confuso.

- Como você sabe que eu sou ômega?

Discretamente, Hua Cheng respirou fundo querendo se bater pelo erro, não havia cheiro para concluir que Xie Lian era ômega. Incapaz mentir para seu amado, preparou-se para revelar a verdade, pensando nas melhores palavras.

- Eu parei ontem de usar inibidores, não acredito que já estou com algum cheiro.

Delicadamente, ele levantou a gola alta da blusa branca que usava por debaixo do macacão, colocando o nariz para dentro, buscando seu próprio cheiro. Por um segundo, Hua Cheng viu a pele delicada da nuca de Xie Lian, criando borboletas em seu estômago, sentindo-se um lorde vendo os tornozelos de uma dama. Era etiqueta entre os ômegas, principalmente da alta sociedade, que não deveriam mostrar o pescoço, ver apenas um pedaço da nuca de Xie Lian era o suficiente para fazer o alfa corar.

- Sou um alfa lúpus, gege. - Explicou aproveitando o gancho.

- Oh! Faz sentido então.

Não citou como uma mentira para justificar o fato de já saber anteriormente que Xie Lian era ômega, mas tentou prevenir qualquer estranhamento ao contratá-lo para instalar o lustre. Hua Cheng sabia mais do que tudo que nunca impediria seu amado de entrar em sua toca, aliás, em todos os seus huts, ele construía um lugar confortável com seus lençóis e roupas pensando nele, espalhando o cheiro com as duas glândulas de alfa lúpus.

Fazia muito tempo que a evolução tinha eliminado uma das glândulas de cheiro dos alfas e ômegas, e deixado os betas sem nenhuma. Acreditava-se que a mudança vinha da exigência de viver em sociedade de forma mais civilizada e controlada, como seus antepassados sem subgênero. No entanto, depois de anos dessa mudança, alguns bebês ainda nasciam com duas glândulas em ambos os lados do trapézio do pescoço e eram denominados “lúpus”. Eram pessoas mais dominadas por seus instintos, com cheiro mais forte e mais territorialistas, especialmente quando entravam no cio ou hut e buscavam um lugar confortável para passar os dias, montando uma “toca”.

Esquecido o seu erro, os dois chegaram na cidade, onde Hua Cheng pôde pegar emprestado o celular do ômega e solicitar um guincho. Na verdade, ligou para Yin Yu resolver o problema, pedindo que “não tivesse nenhuma pressa”. 

Ele pediu para ficar em um café, onde planejava pagar algo para Xie Lian comer e conversar enquanto esperava o secretário resolver o problema no carro, no entanto no meio do caminho foram pegos pela neve pesada, descobrindo que muitas ruas estavam obstruídas não apenas pelo gelo, mas também pela multidão de pessoas indo aproveitar o dia dos namorados.

- Se San Lang quiser e não se importar, podemos ir para minha casa, que não fica muito longe. - Xie Lian ofereceu solicito. - É um lugar humilde, mas…

- Por favor, gege. Ficaria muito grato!

No caminho para o bairro Puqi, onde o ômega disse que morava, Hua Cheng teve que pedir desculpas aos deuses por dizer que era um dia de má-sorte, afinal, só estava lhe acontecendo o melhor. Reencontrou Xie Lian, pegou o número dele, conseguiu um motivo para encontrá-lo depois daquele dia e ainda estava indo para a casa de seu amado. Nem em seu desejo mais esperançoso teria chegado à tanto.

Sobre o som das rodas na neve, enquanto avançavam pelos limites da cidade, conversaram sobre o lustre, onde Hua Cheng o descreveu como um obra de arte. Dessa maneira os dois começaram a conversar sobre esculturas, e museus, e pinturas e quando chegaram na humilde casa de Xie Lian, Hua Cheng já estava revelando sobre seus hobbies pessoais.

- San Lang faz pinturas? De que estilo? - O ômega perguntou interessado estacionando o carro em seu quintal.

- Uso mais o estilo tradicional, muito embora minha caligrafia com pincel e tinta seja uma negação. - Riu de si mesmo. - Também gosto de tirar fotos, tenho todo o equipamento profissional em casa.

- Jura?! Depois queria ver suas fotos! - Os olhos de Xie Lian brilharam com a informação.

- Só vou… - Hua Cheng pegou o celular, mas se lembrou que estava desligado. - Ah, estou sem bateria.

- Ah! Eu te empresto um carregador, vamos entrando!

A parte de dentro da casa de Xie Lian era tão simples como seu exterior, que tinha um pequeno quintal de cerca baixa e grama coberta de gelo e uma única árvore, mas tinha um conforto e familiaridade inexplicável, como a balança presa em um dos galhos grossos e a casinha de madeira, do tamanho de uma criança. Passando pela porta destrancada, havia uma sala de estar à esquerda com uma porta para o banheiro, uma pequena cozinha à direita e uma porta para o quarto, tudo muito “apertado”, mas aconchegante.

Infelizmente, sem nenhum cheiro do ômega, foi cauteloso em não liberar o próprio cheiro e desrespeitar a toca de Xie Lian.

Hua Cheng tirou os sapatos e o casaco pesado e se sentou no sofá como foi instruído, enquanto o ômega ia pegar um carregador. Observou a textura do tecido alaranjado do sofá, coberto por uma grossa colcha de retalhos. Havia um tapete de semelhante tom debaixo da mesa de centro, feita de madeira, ornando com a cor creme das paredes, proporcionando um ambiente com uma estética outonal pelas cores quentes. No entanto, o mais surpreendente da sala não era sua arrumação e limpeza impecáveis, mas um aquário gigante onde deveria ter uma televisão.

Não resistiu em se levantar e procurar dentro do vidro o animal que tinha uma casa tão grande e majestosa, embora já imaginasse quem vivia ali. Não havia água, então não eram peixes, procurou um réptil, encontrando o morador em uma toca debaixo de um tronco no meio das folhagens. Conseguiu perceber pelo branco destacado da cobra, enrolada confortavelmente em sua casa. Era um píton-bola de cor clara, que rastejou para fora para cumprimentar Hua Cheng.

- Ah, San Lang! Já conheceu Rouye? - Xie Lian voltou do quarto com o carregador.

- Vim cumprimantá-la, gege, espero não ter atrapalhado a soneca. - Ele sorriu animado.

- Não, não, já é hora de Rouye acordar. - Comentou, e então mostrando o carregador. - Tem uma tomada por aqui.

Após plugar o celular, Hua Cheng o deixou lá por algum tempo, enquanto observava as costas de Xie Lian na cozinha preparando chá. Se aproximou sonoro para não intimidá-lo, perguntando se não poderia ajudar em algo. Foi atrás das xícaras que o ômega pediu abrindo o armário que indicou, sentindo uma pequena satisfação em compartilhar uma intimidade com ele.

- San Lang tem algum bichinho? - Perguntou interessado, enquanto esperava a água ferver.

- Tenho um gato rancoroso chamado E-Ming. - Revirou os olhos, colocando a mão no bolso pelo celular. - Até mostraria fotos, mas de novo esqueci que meu celular morreu.

- Nós somos bem dependentes desses aparelhos. - Xie Lian riu.

Mantiveram a conversa trivial sobre eletrônicos e dependência de energia elétrica até o chá estar pronto e mesmo um diálogo tão banal era como um sonho para Hua Cheng, que havia sonhado com aquele dia durante 8 anos. O sorriso trivial de Xie Lian, a história sobre o dia que um raio caiu em seu transformador e sua casa ficou sem luz por uma semana, sua voz calorosa, como ele olhava para o nada refletindo sobre o que falava e como seus lindos olhos encontravam o de Hua Cheng logo depois, fazia o coração do alfa acelerar.

Como se caminhasse me nuvens, ele foi para a sala se sentando ao redor da mesa de centro junto com o anfitrião, comendo alguns mantou aquecidos que Xie Lian tinha guardado. Enquanto ainda comentavam coisas mundanas, Hua Cheng reparou alguns detalhes da parte mais baixa da sala. Viu algumas revistas de fofoca e alguns brinquedos perdidos nos cantos. Logo buscou saber mais sobre o amado.

- Gege acompanha artistas? - Perguntou olhando para as revistas no canto.

- Não muito, eu costumo pegar materiais para reciclagem, mas é interessante dar uma olhadinha. - Comentou. - San Lang tem interesse?

Por curiosidade, ele pegou uma das primeiras da pilha, lendo uma matéria de fofoca sobre o médico cirurgião Shi Wudu, um dos alfas mais bem sucedidos do país. Era algo sensacionalista sobre ele ter sido visto com uma mulher, questionando se ele estava saindo com alguém. Hua Cheng apenas riu.

- Como se esse tirano tivesse um coração. - Desdenhou abandonando a revista.

- San Lang o conhece?

- Mais ou menos. - Revirou os olhos apoiando o queixo na mão enquanto mexia o chá. - Não é bem um segredo como ele cobra muito pelas cirurgias e como não se importa com ninguém além do irmão mais novo. Ele e aqueles dois amigos dele não são boa coisa.

- Quem? - Xie Lian perguntou interessado, bebendo um gole de chá.

- Ling Wen, uma advogada do diabo, e Pei Ming.

Não precisou descrever os feitos do último alfa, Xie Lian engasgou com o chá, parecendo bem ciente dele. Alguns pensamentos invadiram Hua Cheng, avaliando a reação. Teria os dois algum envolvimento? Não deixou as dúvidas o consumirem, perguntou-lhe:

- Gege conhece Pei Ming?

- É um conhecido. - Explicou, inicialmente sem profundidade. - Seu filho costuma vir brincar com a neta da minha vizinha, costumo cuidar dos dois em alguns fins de semana.

- O pequeno Pei Xiu? - Hua Cheng sabia daquela criança. - Que mundo pequeno… Tinha reparado nos brinquedos, achei que gege tinha algum filho.

- Quase isso. - Ele sorriu. - A pequena Ban Yue não tem relações sanguíneas comigo, mas considero uma filha e cuido de seu bem estar.

Imediatamente seu instinto o mandou um alerta de cautela. Acontecia de muitos alfas rejeitarem filhotes que não fossem “seus” por sangue, o que não era o caso de Hua Cheng. Logo depois de saber que seu amado tinha uma filha, começou a se sentir protetor, ao mesmo tempo que seu instinto de alfa se sentia mais atraído pela suposta “fertilidade” do ômega, mesmo que tivesse dito que era uma filha de consideração. Era difícil entender o que pensava enquanto animal, mas ficou contente com a informação.

- San Lang parece saber muito sobre os ricos da região.

- Apenas um pouco, gege. - Foi humilde, mantendo o tom alegre. - Tem alguém de quem queira saber?

- Bem, sobre o Hua Cheng… você sabe?

Imediatamente, o próprio Hua Cheng começou a ficar tenso. Se Xie Lian já tinha ouvido falar dele, com certeza não era algo bom, mas não havia muitas chances de suspeitar, considerando que nunca tinha colocado seu rosto na mídia. Só depois parou para pensar em seu carro do ano largado no meio da estrada, um modelo importado e customizado, e claramente muito caro, não seria difícil para o ômega ligar os pontos. Decidiu sondar os pensamentos dele antes de se julgar a pior pessoa do mundo, afinal se Xie Lian o tinha convidado para sua casa, não deveria pensar mal de si.

- O que quer saber?

- Dizem que ele é muito bom com os negócios.

- Isso é verdade, não se sabe da onde veio, mas Hua Cheng já é líder no ramo do entretenimento, com diversos restaurantes, bares, hotéis, cruzeiros, shoppings e cassinos, tudo dentro da legalidade, é claro. - Defendeu seu ponto, sentindo as bochechas corarem um pouco vermelhas de falar de si mesmo.

- Isso não é ruim, ele deve ter se esforçado para construir seu império.

O coração de Hua Cheng acelerou, com seu instinto de alfa ficando feliz, acreditando que o ômega tinha reconhecido seu trabalho e por seu “poder de prover”. Sorriu aberto, verdadeiramente orgulhoso de si, relaxando ao perceber que Xie Lian não estava pensando mal ou o julgando por qualquer rumor. Ele alcançou uma revista, com um matéria chamativa sobre o “Poderoso Hua Cheng”, folheando algumas páginas. Não havia nenhuma imagem dele, nunca tinha se deixado ser fotografado.

- Ele é bastante discreto pelo que soube. - E olhou para Hua Cheng. - Me pergunto como ele seria.

- Como gege acha que seria? - O alfa devolveu a encarada, sorrindo admirando a beleza do amado.

- Acho que seria alguém como você. - Disse por fim abaixando o olhar para as páginas. - Bonito e inteligente, educado e apropriado, um cavalheiro bem charmoso num geral.

Com seus ombros completamente suaves dos elogios, baixou completamente a guarda, olhando intensamente para Xie Lian. “Gege está flertando comigo?”, pensou surpreso. Se concentrou para não cair em sinais falsos, mas o ômega tinha um leve rubor na bochecha, que fazia seu instinto o dizer que estava se abrindo para ser cortejado. O cheiro do alfa encheu o ar, aquecendo seu olfato com um aroma provocante e extasiante, quase trazendo um gosto de canela para a língua. Apesar do ômega estar a pouco tempo sem os inibidores, sentiu pequenas notas doces no ar, misturando com as suas de uma maneira confortável e calorosa, como uma bebida de inverno.

Ele tinha sentido tanta falta do cheiro de Xie Lian, que apenas um pouco dos feromônios pairando no ar já era suficiente para encher o peito de euforia.

- Perdão. - Se desculpou por seus feromônios. - Me surpreendeu que alguém tão gentil e gracioso como gege veja tais características em alguém como eu.

Partiu para o flerte, fazendo Xie Lian corar ainda mais. Sua sorte apenas aumentava naquele dia.

- Como pode alguém como eu ser gracioso? - Ele riu sem graça. - Sou um coletor de sucata faz-tudo, isso é longe de ser “gracioso”.

- Para mim, pessoas que fazem o que o gege se dispõe a fazer, são as mais incríveis do mundo. Seja parar no meio da estrada para ajudar os outros, construir uma engenhosidade ou instalar um lustre. - Hua Cheng sorriu, encantado pelo outro. - Esse alfa gosta muito.

As bochechas de Xie Lian ficaram ainda mais vermelhas, seus olhos brilhando ao encarar o alfa. Mesmo com sua insegurança, Hua Cheng poderia ser ousado em imaginar que o ômega estava demonstrando algum interesse verdadeiro. Por fim, ele riu suave com os olhos baixos, coçando a nuca, atraindo a lembrança de Hua Cheng da visão de mais cedo daquele lugar.

- San Lang é tão insincero.

- Gege não vai encontrar ninguém nesse mundo mais sincero que eu.

Os dois sustentaram o olhar por mais alguns segundos, perdidos um no outro. Se não fosse a mesa entre eles, Hua Cheng gostaria de se aproximar devagar e tentar segurar a mão de Xie Lian, como sempre quis fazer, nada demais. Mas foi interrompido, não apenas por “aquele pedaço de madeira estúpido”, como pensou, mas por batidas na porta da casa. Exalou, franzindo as sobrancelhas quando Xie Lian virou de costas, irritado que seu suposto flerte não pôde continuar.

Quando abriu, seu desgosto se intensificou ao ver a dupla do alfa e do beta que mais desprezava naquela vida, ex-amigos de Xie Lian. Das últimas notícias que tinha recebido, desde que Feng Xin e Mu Qing abandonaram “Sua Alteza” em seu momento de maior dificuldade para estudar no exterior, os dois tinham aberto uma empresa juntos, embora mais brigassem do que tudo. Não sabia quando aquela amizade havia retornado (se havia retornado), mas os dois pareciam muito ávidos em cobrar Xie Lian do cheiro de alfa em sua toca, entrando sem terem sido devidamente chamados, dando de cara com Hua Cheng.

- Quem é esse alfa?! O que ele está fazendo aqui?! - Feng Xin perguntou exaltado.

“Como se você tivesse algum direito de cobrá-lo”, pensou ácido, tentando conter a língua.

- Esse é o San Lang, o carro dele estava ruim, então o trouxe aqui. - Explicou simples. - Não é ninguém suspeito.

- Não! Claro que não! Olhe só para ele! - Mu Qing julgou. - Terno de alfaiataria fino, sapatos Oxford que deve ser mais caro que essa casa, aposto que é um diamante de verdade nessa abotoadura.

- Esse sujeito aí é bem informado quanto às roupas, gege. - Disse sarcástico, forçando um sorriso.

- Quem é um “sujeito”?! - Perguntou irritado, invadindo de vez a casa.

- Mu Qing, por favor tire seus sapatos antes de entrar, eles estão cheios de neve. - Xie Lian pediu, se colocando entre ele e Hua Cheng, que tinha se levantado.

- O que esse cara REALMENTE estava fazendo aqui?! - Feng Xin continuou a questionar irritado, enquanto pulava numa perna só tentando tirar a bota. - O cheiro dele está marcando a casa inteira!

Era uma meia verdade, Feng Xin estava exagerando, afinal sim, Hua Cheng tinha liberado seu cheiro quando recebeu elogios de Xie Lian, e tentou flertar, mas não estava marcando território nenhum. Não seria educado fazer isso, como Feng Xin estava fazendo, liberando seu cheiro de raiva para sobrepor ao de Hua Cheng. 

Boa sorte para ele, um alfa comum, tentar batalhar contra um lúpus em questão de feromônios. 

Por não se sentir nem um pouco ameaçado, Hua Cheng não liberou mais nenhuma nota territorialista, temendo incomodar o ômega, sabendo que enquanto animal poderia acabar com o outro alfa antes que ele pudesse piscar.

- Não é possível que seja só por um carro quebrado! Se não ele não estaria na sua casa! - Feng Xin continuou a implicância junto com Mu Qing.

- Feng Xin, hoje é o dia dos namorados, esqueceu? - Perguntou sorrindo complicado.

Imediatamente os três arregalaram os olhos e coraram profundamente, especialmente Hua Cheng. Teria ele achado que estava apenas sendo ajudado por Xie Lian por bondade, mas na verdade estava sendo atraído para a toca do ômega como um possível companheiro? Se questionou se tinha subestimado o amado e considerado ele muito mais inocente do que realmente era. Quase se alegrou pensando na possibilidade, no entanto, olhando de rosto em rosto, Xie Lian pareceu ter percebido a confusão.

- Não! Não não não não! Não foi o que eu quis dizer! - Ele tentou corrigir. - As ruas estavam cheias POR CAUSA DO DIA DOS NAMORADOS. O socorro não viria rápido, estava muito frio e nevando, então o trouxe aqui.

Seu rosto estava ainda mais vermelho do que antes, ficou agitado saindo da sala para a cozinha para “preparar chá” e disfarçar, mas como era um ambiente aberto, viram ele mexendo na chaleira e nos copos desesperado. Deixando os três se encarando. 

Feng Xin e Mu Qing claramente reconheciam algo no Hua Cheng que tentou derrubar suas empresas, tinha feito de uma maneira que não precisassem se ver pessoalmente, mas era suspeito pelas descrições que a mídia fazia dele. A principal diferença que se confirmava em todos os depoimentos das pessoas que negociaram com ele, era que Hua Cheng não tinha um dos olhos, usando um tapa-olho que lhe dava uma postura intimidadora, e naquele dia em especial, usava uma prótese ocular.

Desinteressado em passar tempo com os dois, satisfeito por seu primeiro encontro com o amado, pegou o celular, esperando Xie Lian voltar para se despedir. O ômega franziu as sobrancelhas com um pouco de tristeza quando percebeu que Hua Cheng estava pegando o celular para ir embora, elevando um pouco o ego do alfa, que se sentia querido por ele.

- San Lang já vai? - Perguntou largando o chá e se aproximando.

- Sim, agradeço a gentileza do gege, mas já é hora de ir. - Sorriu triste. - Peço desculpas se causei algum incômodo.

- De maneira nenhuma, San Lang, foi bom ter sua companhia. - O olhar calmo do ômega elevou ainda mais o ego de Hua Cheng.

- Em breve, entro em contato. - Prometeu sorrindo. - Até mais.

Àquelas horas, Yin Yu estava há um tempo esperando já com o carro em perfeito estado, foi só necessário uma ligação e já estava com o seu New City Hatchback na porta da casa de Xie Lian. Ele acenou para o ômega antes de entrar no banco do passageiro, sorrindo para seu amado que prometeu ver logo mais. 

Depois de se afastarem de algumas casas do bairro Puqi, dirigindo veloz pela cidade, Hua Cheng abaixou completamente o vidro do carro, dando o grito empolgado que estava segurando desde que reencontrou Xie Lian. Deixou a voz sair feliz contra o vento, bagunçando os cabelos longos, enchendo o olho de lágrimas. Satisfeito, recostou-se confortável no carro.

- Chengzhu já terminou de gritar? - Yin Yu perguntou com um sorriso discreto. - Vamos fechar esse vidro para o frio não entrar… meu deus, quem sai de casa nesse frio sem um casaco?

O cheiro do secretário ômega era bem suave, mas parecia feliz da felicidade de Hua Cheng, que não parava de sorrir. 

- Encontrei ele, Yin Yu! Encontrei o meu amado! - Comemorou feliz. - Tenho que contar para minha mãe! Por favor, me leve para casa.

Com um suspiro profundo, Yin Yu deu meia volta, indo para o outro endereço, mas com um sorriso ainda maior olhando o chefe de canto. O alfa não comentou mais sobre isso com ele, afinal não tinha ninguém que sabia melhor daquela história do que o amigo e secretário, finalmente vendo um possível final feliz. Buscou as ruas mais tranquilas, mas ainda pegou trânsito, Hua Cheng não se importou por estar de bom humor. Eventualmente chegaram na grande casa da matilha dele, onde o alfa se despediu de Yin Yu e foi direto procurar a mãe.

A Senhora Hua encontrava-se na cozinha, cantando uma música suave enquanto mexia nas panelas. Mesmo entre o cheiro dos ingredientes reconheceu a aproximação do terceiro filho, o olhando com um sorriso semelhante ao de Hua Cheng. Sentindo lágrimas escorrerem pelo rosto, a expressão da mãe mudar para preocupação em um segundo, ela desligou o fogo e se aproximou do filhote, que não tinha saído da porta da cozinha.

- O que foi Hong Hong-er? Tudo bem?

Hua Cheng abraçou a mãe, se sentindo confortável no cheiro que tinha desde a infância, que acalmou um pouco o peito, mesmo que o único sentimento fosse uma ótima euforia, nada de negativo. Senhora Hua não largou o filho até ele ter coragem de explicar o que estava acontecendo, olhando confusa para a alegria exorbitante.

- Eu achei ele, mãe. - Explicou chorando. - Eu achei o meu ômega.

Parecendo se dar conta do que o filho falava, ela o abraçou ainda mais forte, compartilhando da alegria. Hua Cheng estava pronto para sentar com ela na bancada e contar todos os detalhes de seu reencontro, além de pedir opinião da mãe para planejar seu próximo passo em conquistar o seu amado.