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perlla - tremendo vacilão.mp3
O pé do morro parece uma feira. Rua e calçada se mesclam em um organismo único, embora curiosamente todo mundo saiba para onde está indo e ninguém se esbarre. Há gente chegando e indo embora, morador, gringo e cria. É nesse fluxo que Chan mergulha, óculos escuros escorregando de suor na ponta do nariz. A cara é de marrento, mas não o leve a mal, o dia na farmácia foi puxado. Às vezes o carioca nem tá mal, só não quer ser incomodado, mas nego insiste…
Escorrega para cima da primeira moto que vê, sussurrando o destino no ouvido do moto táxi, que concorda e já sobe na primeira acelerada, rápido o suficiente para dar um leve tranco no corpo dos dois. Chan cruza os braços e ajeita a postura, é só subir na moto e o pensamento vai todo para a bunda. Ele tem mais é que mostrar mesmo, malhou o ano inteiro para sair bem no verão.
A moto desafia a gravidade subindo o morro sem cuidado nenhum, rasgando o ar. Em cima lá no fundo dá para ver o Cristo de lado, o braço esquerdo abençoando a favela como um santo padroeiro. Na parte mais íngreme do trajeto, Chan se pergunta se deveria segurar na cintura do rapaz, mas, por algum motivo incerto, não faz isso. Veja bem, naturalmente, ele não vai cair. É como um auto desafio e sempre causa esse sentimento de adrenalina que ele gosta.
Quando chegam ao limite de onde dá pra ir com a moto, Chan pousa os 4 reais amassados tirados do bolso na mão do rapaz com um “valeu”. Dali para a frente só entre as vielas. Há um bar que costuma encher em dias de jogo e, em uma das mesas de plástico vermelhas está um grupinho familiar para Chan — seus ex-colegas de escola.
O problema desse lugar é ser pequeno, comprimido, comportar muita gente em pouco espaço. Por causa disso, Chan é obrigado a sentir na pele os olhares quando passa por eles, seguindo por sua cintura até o fim da bunda. É uma sensação horrível, mas ele não tem outra escolha.
As coisas não têm sido nada fáceis desde que saiu do armário sem querer depois de alguns latões de Brahma e um prensado. Quando viu, já estava num bequinho beijando o valentão que costumava odiar na época da escola, depois de muito dizer “dessa água não bebereis”. É claro que geral ficou sabendo depois.
Para tentar engolir a merda feita e se distrair, Chan entrou de cabeça no serviço. Saiu até na fotinha de funcionário do mês da farmácia, a foto 3x4 posturado com o uniforme, putão, com cara de cafajeste, uma sobrancelha mais para cima do que a outra. Ele e o gerente tiraram assim de propósito, pra zoar. Porra, ele mesmo se achou um gostoso na foto. E não é que a clientela aumentou junto só pra ver o atendente bonito da farmácia? É osso. Pelo menos uma coisa boa tinha que sair dessa situação.
Só que, no morro, a situação ficou estranha. Quando subia andando ao invés de moto táxi e precisava passar na bica, via seus mesmos ex-colegas de escola de plantão, olhando torto pra ele. Não é legal ter um cara de fuzil encarando você, mesmo crescendo de frente para esse tipo de coisa. Chan ficava meio ansioso. Nem era medo, era só difícil de entender que, da noite pro dia, todo mundo te olha esquisito.
O sufoco passa depois de Chan virar a escada e sumir de vista do bar. Então, bora lá. É só virar à esquerda, descer seis lances de escada, virar à esquerda no poste verde, vai ter o beco mais estreito que tu vai ver na vida. Entra nele, atravessa pelo portão verde, pode passar pelo quintal da tia sem medo que é caminho também — por mais que seja só um muro derrubado e você esteja atravessando a sala de estar dela — pode ir sem medo. É só não olhar dentro da janela ou da porta dos outros, que é vacilo. Sobe mais dois lances, depois vira à direita, desce um lance e vira à esquerda, vai ter uma igreja, é só seguir reto, depois vira à esquerda, um lance de escada e chega no portão. Pegou a visão? As vielas são assim.
Entra em casa, se joga na cama e já escuta alguém bater na porta aberta. Vira e encontra Felix parado com um sorriso. Trocam um aperto de mão que ecoa na kitnet pequena.
— O brabo tem nome — Felix diz quando se separam.
— Qual foi? Quer uma água?
— Aceito.
Chan abre a geladeira para servir o amigo.
— Que que tu quer? Acabei de chegar da farmácia, me deixa.
Sentado na escada de frente para a porta, Felix dá um gole na água gelada e olha para Chan com expectativa.
— Esqueceu do baile das antigas lá na Coração hoje?
— Claro que esqueci, porra. Tu acha que eu vou aparecer lá na Coração depois do que aconteceu?
— Já faz mais de um mês, cara. Geral já esqueceu. Pô, te querem lá de novo. O Johnny vai abrir a laje. Com todo o respeito, cara, sem preconceito, tô achando até que gostam mais de tu agora que te viram beijando o Flávio. Não precisa dar bola pra meia dúzia de vagabundo que resolveu fazer cara feia na rua.
O nome dá um espasmo nas orelhas de Chan. Felix não economiza nas palavras na hora de convencer e estava quase o convencendo, o problema foi mencionar aquele nome.
— E o Flávio vai tá lá? — Chan pergunta como quem não quer nada, mordendo a carne do lábio.
— Duvido, Flávio tá brecado aqui no morro. Se aparecer vai virar camisa de saudade. Até a fiel dele foi embora.
Com os olhos arregalados, Chan pede um trago do cigarro de Felix.
— Porra, obrigado. Ajudou muito você ter vindo aqui falar que beijei um cara casado e que fez merda no morro.
— Relaxa, não tinha nada a ver contigo. O cara tava queimado faz tempo. — Felix tirou o outro cigarro da orelha e acendeu. — Esquece essas coisas, mano, todo mundo resolveu deixar baixo. Tu é o único que ainda tá grilado.
— Valeu, eu passo, tô cansado.
Para ser sincero, Chan nem está tão cansado assim. O corpo se condicionou e se acostumou a subir e descer o morro e ao trabalho árduo na farmácia. Para baile ele sempre tira pique sei lá de onde. Ama dançar. Mas também ama ser manhosinho e queria ver mais um pouco do que Felix tinha na manga.
— Bora, é esquenta Carnaval. Vou escolher tua roupa. — Felix bate o pé no tapete da porta e entra, atravessando a cozinha e indo em direção ao quarto de Chan. — Toma um banho e vê se faz as pazes com o barbeiro que tua situação tá crítica. Se tu não aparecer no Johnny, vou vir te buscar.
Felix jogou um bolinho de roupas emboladas que Chan pegou no ar.
— E por que essa insistência toda do nada?
Bingo, era tudo o que Chan precisava: Felix ficou vermelho por trás das sardinhas e logo recuou em direção à porta. O desgraçado tava escondendo alguma coisa.
— Pô, nada não.
Chan consegue o segurar pela bainha da blusa antes dele fugir.
— Desembucha.
— A Ju quer te apresentar o primo dela que vai passar o Carnaval aí.
— Tu viu a peça? — Chan arqueia as sobrancelhas. — É bonito?
— Eu não deixaria de ir ao baile hoje se fosse você — Felix sorriu ladino.
Balançando a cabeça negativamente, Chan solta a blusa de Felix e ele desaparece pelas vielas depois de se afastar com um aceno. Chan coloca uma roupa velha e vai fazer as pazes com o barbeiro. Pede logo dois risquinhos acima da orelha onde o cabelo fica mais curto.
Chega em casa e coloca a live do baile do Dennis DJ para dar uma aquecida enquanto toma um banho de princeso, daqueles de bater a gilete no piso do box. Toma duas cervejas sentado na cama, a perna por baixo da bunda, digitando freneticamente. Já gravou três boomerangs nesse meio tempo, um fazendo bico, outro filmando a cerveja e o último batendo o piercing na língua entre os dentes.
Próximo à meia-noite, passa um zap para um dos mototáxis que é seu amigo porque tem preguiça de subir ao topo da favela, e também porque gosta de chegar com estilo. Enquanto sobe na moto, o celular vibra sem parar no bolso da bermuda com as reações e respostas aos seus stories. Não tem pretensão de visualizar a maioria, mas a sensação é agradável. Desce três ruas antes da praça Coração. Assim que pula da moto, quase é atropelado por outra, mas dá um passo para trás com um sorriso. Você se acostuma com esse ritmo da favela, acontece. Já dá para ouvir a música.
— O jumento e o cavalinho, eles nunca andam só. Quando saem pra passear levam a égua pocotó! Pocotó, pocotó, pocotó, minha eguinha pocotó!
Chan se senta na mesinha amarela da Skol em um bar e pede um latão enquanto Johnny não responde sua mensagem perguntando onde estão. Nos bares mais distantes do baile ainda dá para sentar, mas os posicionados nas bordas do baile são apenas balcões(ou empilhados de caixas), as filas são enormes e é preciso falar gritando. Chan não tem mais paciência, só no carnaval. Também gosta de fazer seu esquenta sozinho, apesar de já ter bebido em casa.
johnny: “já pode vir”
johnny: “tá vindo um colega aí que quero te apresentar”
Chan revira os olhos ao ver a mensagem. A mesma conversinha mole de Felix. Desde que o morro ficou sabendo sua bissexualidade, era como se devessem apresentar todos os caras do mundo para ele. Nada contra, se esses caras forem gatos.
chan: “quem?”
johnny: “23 aninhos, paulista”
chan: “porra, johnny, paulista?”
johnny: “tô zoando. valeu pelo latão, apostei cincão com a ju que tu só ia focar nessa parte. vem logo, vacilão.”
Agoniado de ficar sozinho, Chan levanta, manda um pix pro bar e se prepara para enfrentar o baile. Levanta bem o shortinho de malha e ajeita os óculos escuros acima da cabeça, pousado entre as madeixas, e adentra a multidão. Segue nesse ritmo frenético até, em um impulso de coragem, entrar em uma das filas para comprar um copão de vodca com energético.
Nem está próximo ao epicentro do baile, as caixas de som, mas já sente seu coração mesclando as batidas, e sabe que o energético vai intensificar esse ritmo. Esse negócio de baile das antigas é mentira, todo mundo sabe que depois das três começa o 150bpm até de manhã. Ele pega o pedido, um canudo e se vira, respira fundo para ir pro terraço de Johnny curtir o baile de lá, onde pelo menos tem espaço para mandar seus passinhos sem ficar pisando no pé da galera.
Cumprimenta algumas pessoas pelo caminho, com apertos de mão que viram batidas peito a peito. Vê o Zola, o mais fofoqueiro do morro, observando cada passo seu de longe, doidinho para pegar ele no flagra, mas não vai dar esse mole de novo. Foi esse mesmo linguarudo que espalhou a fofoca da outra vez.
Acostumado a fugir de multidões, desfila com maestria, o copão de energético não derruba uma gota. Acena com a cabeça para Magrinho, um colega que estudou com ele, com uma sensação estranha ao vê-lo de plantão ali, um fuzil atravessado, conversando com uns amigos, um cigarro na mão. Se perguntava quando ele iria desaparecer, mas afastou esses pensamentos. Não tinha muito o que fazer.
Vê Johnny dançando em uma das lajes dele. Pede licença à galera sentada na calçada porque precisava passar por um beco. No caminho para lá, quase chegando no portão, tromba com tudo em alguém. O gelo do copão de energético voa, e o líquido molha seu torso e o torso do estranho.
— Não tá me vendo não, porra? — exclama, limpando rapidamente um pouco do energético que umedeceu seu olho, para poder enxergar quem era. Murmura uns seis palavrões diferentes.
— Eu tava parado aqui, o palhaço! — O estranho ergue uma mão e o empurra pelo peito. — Você que veio com tudo!
Chan sente o sangue subir à cabeça e não deixa barato. Empurra o maluco de volta, e a cerveja dele, que antes ficou intacta na colisão, acaba indo com Deus também.
— Minha bebida foi embora, seu arrombado! Tá feliz?
— Problema seu, filha da puta! — O estranho cospe de volta, cerrando os dentes.
Chan vai avançar quando um braço barra sua passagem e o empurra levemente para trás. Ele ergue os olhos apertados, vendo Dentinho, o dono do morro, olhando para eles. A discussão chamou a atenção.
— Tudo certo por aqui? — pergunta. Atrás dele está sua comitiva de dois homens de maior estatura, as camisetas enrugadas na parte da cintura para deixar o trinta e oito bem à mostra de um lado e o rádio no outro.
O estranho ainda parece disposto a brigar, e Chan imediatamente percebe que ele não é dali. O problema da cidade é que você sempre tem que saber exatamente onde está. Porra, ele não gosta de arrumar problema justamente por isso. Dá logo um suspiro racional para limpar a mente e, depois, tenta mandar algum sinal para o estranho dar uma segurada. O estranho está acompanhado de uma garota que observa tudo congelada, com cautela. Para sua sorte, Johnny chega nesse exato momento e, com uma intimidade desconhecida, segura o estranho pelo cotovelo.
— Fala, Jisung! Cê chegou e nem avisou, cara?
O estranho franze o cenho, ainda parece querer brigar com Chan.
— Tava tentando subir, me perdi.
— Pô, você tava no meu portão, bora subir. — Johnny sinaliza um dos portões de alumínio, onde uma escada estreita de cimento leva para o terraço.
Enquanto guia Jisung e a amiga, Johnny faz um sinal para que Chan os siga e se vira para falar com Dentinho.
— Fala, Dente! Tá tudo certo por aqui, chefe. Não vai acontecer nada. Foi um mal entendido.
— Valeu. Bora partir. Eu quero paz hoje, tá entendendo? Minha coroa tá aí. — Dentinho aponta para a laje no topo do morro, onde geralmente fica durante os bailes como uma águia.
— Não precisa se preocupar com a gente. — Johnny acena, entra e fecha o portão atrás de si.
Apertados na escada estão o estranho, Jisung, com a amiga acuada no canto, e Chan alguns degraus acima, por ser familiarizado com a casa. Johnny os encara um por um com os olhos arregalados e conta alguns segundos antes de dizer:
— Vocês tão malucos, porra? Querem me foder?
— Eu tava parado na minha, esse cara veio do nada! — Jisung descruza os braços e os ergue no ar em redenção.
— Chega, chega! E você, ein? — Johnny aponta para Chan. — Tá cansado de saber como é o esquema e fica arrumando confusão! Foi mal pelo cabeção do meu amigo, Jisung. Sobe aí, tem bebida lá em cima, traz sua amiga.
— Ela não é solteira.
— Tô ligado, cara, não é na maldade, é mais pra redimir o Chan mesmo.
Chan até pensa em revidar, mas apenas bufa e dá de ombros. O melhor a se fazer é deixar para lá, não esquentar a cabeça.
— Cês vão gostar da minha varanda, ela é bem inclusiva. — Johnny aponta para o pulso de Jisung, onde uma pulseira de pano do reggae está amarrada e embolada em uma com as cores da bandeira bissexual. — Não tem caô.
— E o arrombado do Felix nem veio. — Chan reclama.
— Coé, ele tava bem postando story na praia. Não viu? Se pá, ele te bloqueou pra tu não ver.
Chan estala os lábios e ri. Johnny sobe na frente, com o bonde seguindo atrás.
Um pouco orgulhoso e arrogante, quando Jisung passa por Chan, se aproxima até ficarem praticamente cara a cara, pressionando-o contra o muro de cimento que espeta as costas de Chan.
— Se liga, maluco — Jisung sussurra, longe dos ouvidos do anfitrião.
Chan arqueia as sobrancelhas sem acreditar na audácia. Estufa o peito e arruma a postura. Têm quase a mesma altura, mas Chan se esforça para ficar maior. Bate o indicador duro no peito de Jisung.
— Quando tiver de joelho na calçada pra tomar chumbo na testa, não vem falar comigo — comenta sarcástico.
— Feio — Jisung bufa e sobe as escadas, seguindo o dono da casa.
— Sem juízo — Chan alfineta de volta.
— Vocês são morador? — Johnny pergunta quando eles chegam ao terraço.
— Sim. — A amiga de Jisung, Tali, assente. — O Jisung é meu primo, tá só passando um tempo.
Julia, após assistir tudo de cima, sorri e solta uma exclamação com a chegada deles.
— Que alívio! Poxa, não era assim que eu queria que vocês se conhecessem.
Chan olha para Johnny, que sorri cúmplice. Ele se vira para Jisung e diz:
— Mas você não é paulista nem fodendo.
— Eu tava zoando — diz Johnny, aceitando uma nota de cinco de Ju. — Apostamos cincão que você só ia ligar para isso. Lembra que eu disse que tinha um amigo pra te apresentar? Jisung, esse é Chan. Chan, esse é Jisung.
— Se não é paulista, nesse caso… — Chan deu um sorriso canalha.
Jisung abre uma lata de cerveja e sussurra um “me erra”, antes de se afastar. Equilibra o quadril na mureta da laje, olhando o baile e bebericando sua cerveja. Ju aponta para Jisung e sibila um “não desiste” para Chane o sorriso dele se alarga. Ah, ele gostou, é claro que ele gostou.
Chan se senta na mesa de ferro com Julia e Tali, do lado da piscina coberta. Johnny está preparando um prensado. No meio da conversa, Chan vê Jisung sozinho no canto, olhando para a rua. Ju entra em casa e volta com um baralho de Uno. Eles formam um quarteto: Jisung sentado de frente para Chan, Tali e Ju dos lados e Johnny jogando em pé mesmo — ele era acelerado de qualquer maneira.
— Vai logo, só joga essa porra dessa carta — Ju resmunga, batendo os pulsos na mesa que balança parecendo querer cair. Os braceletes em seus braços tilintam.
— Foi mal, docinho — Chan diz olhando para Jisung por cima das cartas. — Vermelho.
— Eu te odeio pra caralho agora — Jisung quase joga seu baralho inteiro na piscina, mas estende a mão para tirar uma carta da pilha. — Vou enfiar esse baralho todo no teu rabo.
Johnny começa rir.
— Não seja tão criança — Chan diz.
Minutos depois, Chan é primeiro a bater com o +4 colorido que guardou para o final. Sacanagem. A mesa explode em reclamações, Ju e Tali começam a discutir se ele podia ou não usar esse truque injusto, Johnny vai atrás da caixa do Uno para ler as regras. Jisung ri de cada palavra, se divertindo. Chan sai da mesa antes de ser linchado.
Abrindo o freezer, Chan pega um latão de Brahma. Era como se precisasse tirar algo dos ombros e, porra, ele sabia exatamente o que era: o olhar de Jisung grudado em si o tempo inteiro. Mesmo por trás do boné, que ele mexia constantemente, arrumando as madeixas escuras cortadas bem curtinhas dos lados. Jisung arrumava o cabelo, colocava o boné de novo e cruzava os braços com um sorriso que não demonstrava exatamente felicidade, mas uma outra coisa que Chan conhecia muito bem. Sempre que fazia esse movimento, evidenciava seus músculos por baixo da camiseta azul da Nike. Vez ou outra, completava todo esse movimento sem tirar os olhos de Chan.
Sente um arrepio nas costas e se vira para a mesa de ferro. Tali, Ju e Johnny ainda discutem. Jisung olha diretamente para ele. Ele se apoia no outro extremo da mureta, onde pode ver a maior parte da favela. Cansado de ser secado até a alma, com um movimento de cabeça, Chan curva os lábios e sibilou um “chega mais”.
Entregando um latão na mão de Jisung, Chan sinaliza para ele o seguir. Eles atravessam o bosque de roupas no varal e dão a volta na varanda da casa, chegando na área de serviço, um cantinho escondido onde podem ver o baile. Abrem as cervejas e tilintam as latas de brincadeira.
— Pô, foi mal pelo que aconteceu.
— Eu sabia que você ia pedir desculpa primeiro — Jisung abre um sorriso largo que faz seus olhos se fecharem.
Chan franze os lábios em um bico orgulhoso. Ele é do tipo difícil, pensa, o que não é bem seu tipo, porque acha sem sentido duas pessoas enrolarem se querem se pegar. Gosta de pouca complicação, acha até que esse é um sinal de maturidade. No entanto, isso só o deixa com vontade de perturbar Jisung ainda mais.
— Sérião, pô. — Chan se apoia na mureta, batucando os dedos no tijolo. — Deve ser o trabalho que me deixou estressado assim, mas você também não deixou barato.
O ombro de Jisung esbarra no seu quando ele ri, mas claramente está evitando o olhar dele. Chan aproxima o rosto como se fosse o diabo do seu ombro esquerdo.
— E o que você quer? — Jisung pergunta e um quê de tédio em sua voz magoa Chan.
— Não quer saber meu nome antes de me chutar? — Levanta uma sobrancelha.
— Fala logo. — Jisung não consegue segurar um sorriso.
— Perdi a vontade — ele ri. — De onde você é?
— De Magé — responde e ouve Chan sussurrar um “porra, longe” e ele concorda. — Mas quero me mudar para cá.
— Bom, as coisas aqui no Rio são só questão de tu saber onde pisa, quando e com quem. Só isso.
— É. Eu percebi, fui assaltado no meu primeiro dia. — Eles dão risada. — Mas já estive em São Paulo e é pior. O Johnny deu sorte de morar perto do baile. Criou um cantinho pra ficar a vontade sem deixar de curtir.
Lá embaixo, observam o baile rolando. O mar caótico de gente, incrivelmente, se move em sincronia. Viram passar, no meio da multidão, o trenzinho dos crias, cantando e expondo os fuzis pro alto, cortando pela multidão como uma minhoca. Chan ri e beberica sua cerveja.
— Lá embaixo é sensacional quando você tem quinze, dezesseis anos. Quando passa dos vinte é diferente. Ou eu que fiquei um velho chato.
— Você ficou um velho chato. — Jisung vira o corpo em sua direção, observando o rosto de Chan. — Não é muito diferente das festas universitárias que eu vou.
— As pessoas costumam alugar as casas mais no topo, como aquela, por temporada no carnaval ou ano novo, só pela vista — Chan aponta e Jisung admira. Eles já estão bastante no alto, então é incrível o fato de ter ainda mais casas para cima. — Só é ruim quando sobe os caras.
Chan aponta para cima da própria cabeça e Jisung dá uma risada ao ver um buraco tapado com cimento na parede azul clara.
— Mas geralmente a gente sabe umas duas horas antes, é muito raro ter algo no susto, só se for briga de facção. Quer ver mais coisa? Mas não pode amarelar.
— Bora.
Chan vira a lata, engole e larga o alumínio vazio no tanquinho com um baque. Pega a que está na mão de Jisung.
— Ou! — Ele estende a mão em protesto, mas Chan aproveita que baixou a guarda para colar o peito ao dele.
— Vira. — Chan pousa a lata diante do rosto dele, que faz um biquinho com os lábios. Faz um passeio pelo rosto de Jisung sem tirar os olhos dos dele. Deita a lata na boca dele, vendo-o engolir devagar. — Boquinha gostosa.
Jisung rodeia as mãos na cintura de Chan e aperta, como se precisasse daquele apoio para continuar bebendo. Ele se arrepia e permanece no lugar, vendo um pouco do líquido vazar pelo canto da boca de Jisung e pingar em sua camiseta.
A cerveja acaba e Chan a coloca sobre o tanquinho também. Usa a outra mão para pegar a nuca de Jisung e puxar seu rosto para ele. Põe a língua para fora e lambe o queixo de Jisung, subindo o caminho onde o líquido escorreu; sem querer, a língua cobre um pedaço do lábio superior dele. Se afasta e dá as costas para Jisung como se não tivesse acabado de revirar ele inteiro por dentro.
— Vamos?
Ele o segue novamente pelo corredor estreito, como se Chan deixasse algum tipo de rastro e ele fosse obrigado a seguir. Mas era a maldita colônia masculina dele impregnando em tudo e Jisung super acha que ele deveria impregnar em si também. Se não voltasse para casa com o cheiro de Chan em seu corpo, não ia nem entender.
Quando eles alcançam o fim da laje, Chan estende os braços para cima, toma impulso e sobe no muro.
— Vou levar ele lá no terceirão — Chan diz para Johnny, que assente com a cabeça. Olha para baixo, para Jisung, e estende a mão. — Bora?
Se quiser falar de amor, fale com o Marcinho
Vou te lambuzar, te encher de carinho
Em matéria de amor, todos me conhecem bem
Vou fazer tu vibrar no meu estilo vai e vem
Glamurosa, rainha do funk
Poderosa, olhar de diamante
Jisung recusa a ajuda e sobe sozinho. Em poucos segundos, eles estão no telhado de outra pessoa, e depois no de outra, subindo. Acabam em uma casa de tijolos, sem portas nem janelas, ainda em construção. Ao firmar os pés no chão, sente o corpo cambalear e se apoia no tijolo. Olha para Chan, que também não está menos bêbado, os dois meio altinhos sorriem um para o outro.
Não sabe dizer se eles estão no terceiro ou quarto andar, porque há casas pra todo lado em uma bagunça que só. Parecem estar na mais alta delas. Chan aponta para as luzes da favela, um cenário diferente de tudo o que Jisung jamais viu.
— Ali é a Samoia, é a parte mais baixa e menos perigosa. Depois vem o São João, o Boé, que é o mais perigoso porque é sempre por onde entra o camburão em dia de operação, e aqui onde nós estamos é o Rio Doce, a favela mais alta do complexo, quem mora aqui só consegue chegar de moto, porque são quase cinco mil lances de escada. Quando você vier morar aqui, vai poder ver isso com frequência.
— Tá tentando me convencer a vir, é?
— Quem sabe.
— Me xingou de tudo o que é nome e agora me quer por perto?
— Os marrentos mexem com meu coração.
Jisung ri com gosto. Eles apreciam a vista em silêncio por um momento, até ele sentir Chan cutucar a ponta de sua camiseta.
— Bonito, não é? — Chan pergunta com um sorriso, apertando e soltando o tecido da camisa de Jisung.
— Sim — responde, mas na verdade não está olhando para as favelas, tem o olhar preso em Chan. — Na verdade, tô pensando em quando você vai me beijar.
— É isso que você quer? — Chan move o corpo em direção a ele, subindo a mão por seus braços e terminando nos ombros. Lentamente, eles tropeçam para dentro da construção. — As coisas em Magé são mais rápidas do que no Rio? Não quer nem saber meu nome? Se sou dos caras?
— Não foi pra isso que me trouxe? — Jisung analisa o olhar de Chan enquanto ele o pressiona contra a parede, segurando em sua cintura. Dá uma risadinha. — O Johnny me falou que você é de boa. E confio nele. Me quer ou não?
O coração de Chan acelera rapidamente, as palavras fazem seu rosto esquentar, palavras que, por causa do primeiro contato acirrado entre eles, não esperava alguém como Jisung dizer.
— Porra, quero, com certeza. — Sorriu largo, lentamente fechando o sorriso ao se aproximar do rosto de Jisung.
Chan ergue o queixo de Jisung até que ele esteja no ângulo certo para beijar. As mãos de Jisung se ocupam em puxar seus cabelos e enfiar a língua na boca dele.
É fácil deslizar a outra mão pela espinha de Jisung. Cada toque é como desenterrar um tesouro; cada centímetro, uma jornada, um murmúrio de Jisung deixado entre as bocas. A maneira como suas costas se curvam ao toque de Chan aumenta o calor em sua barriga. Pressiona seu corpo ao dele, incapaz de se conter, e une Chan inteiramente com ele, puxando e soltando os cabelos dele apenas para ouvi-lo suspirar afoito.
Quando Chan coloca os lábios no pescoço de Jisung, ele se rende totalmente. Contém tantos gemidos que não conseguiria contar. Suor escorre pelos rostos por conta do abafado da construção, e Chan sorri maliciosamente contra o pescoço de Jisung porque sabe que está ganhando o jogo. Deixa um beijo ali antes de se afastar para olhar em seus olhos.
— Vamos voltar.
Com o polegar, Chan limpa saliva do canto da própria boca. Derretido contra a parede, Jisung se sente ferver quando pensa que será beijado de novo, mas Chan não lhe dá o que quer; dá uma risadinha e sai pelo buraco da porta, abandonando Jisung aos suspiros.
Eles escalam os telhados de volta para a casa do amigo. Dessa vez, Jisung aceita a ajuda para descer o muro, segurando a mão de Chan. Na hora de pousar os pés no terraço, quase perdem o equilíbrio, mas Chan o segura pela curva da cintura e eles acabam rindo. Sentados na mesma mesa de ferro branca onde jogavam Uno, Johnny, Ju e Tali amassam uma batata frita família na caixa de pizza. Chegaram em boa hora.
Surpreso, Johnny lança um olhar sugestivo ao vê-los, uma olhadela tão curiosa, mas tão certeira, que até deixa Chan orgulhoso e com vontade de dizer o que tinham feito. Conversaram enquanto comiam e, quando Chan brincou de dar uma batata com cheddar na boca de Jisung, a mesa explodiu nos “owns!” que Ju e Tali estavam segurando desde que eles voltaram.
— Tô ficando mamado já — Johnny diz ao se levantar, lambendo os dedos sujos de cheddar. — Bora gastar onda.
A cor do céu indica o amanhecer próximo quando Chan, Johnny e Jisung descem as escadas para curtir o baile. Há bastante gente concentrada nas ruas e eles seguem o fluxo da multidão, se espremendo para chegar na área próxima às caixas de som. Antes mesmo de chegarem, Chan e Johnny já começam um passinho ao som dos Hawaianos. Os sete ou oito latões de bebida alcoólica circulando no corpo de Chan estão fazendo efeito.
Jisung também está um pouco fora de si, rindo toda vez que a música troca e Chan e Johnny mudam de passinho como se sua vida dependesse daqueles movimentos. Seu coração sincroniza com o ritmo da música, que não é à toa que se chama 150 batidas por minuto, bate rápido e furioso a cada porrada do grave, a cada respiração de Jisung. E ele não era lá de dançar, saiu para comprar um varejo em um dos ambulantes. Quando voltou, Chan e Johnny dançavam “Papin” do MC Kevin o Chris.
No céu azul claro, o Sol ameaça nascer. O amanhecer é a melhor hora do baile, começam as batalhas de passinho e quem aguenta ficar mais tempo dançando na pista sem parar. Quando a competição começa, Chan e Johnny saem da pista. Johnny some, provavelmente foi pegar alguém e não voltará tão cedo.
A manhã é sempre a melhor parte do baile, para quem aguenta. O funk está alto, o 150bpm se mescla ao coração. Chan caminha em direção a Jisung, suado, os óculos escuros no topo da cabeça lutando para manter as madeixas para trás, o olhar castanho escuro refletido pelo sol recém-saído.
Dá um sorriso bonito e praticamente avança em Jisung, que precisa dar alguns passos até estar em um vão minúsculo entre uma parede e a lateral de uma caixa de som. Em um reflexo, suas mãos vão parar nos ombros de Chan enquanto sente o aperto ganancioso dele em sua cintura, sempre querendo mais. Pensa que vai rolar, mas Chan só se inclina para falar em seu ouvido:
— Não vai dançar? — pergunta e se afasta para ver a expressão de Jisung.
Até quer dançar, mas o ambiente lhe dá um bloqueio. Não é como se ele quisesse exatamente dançar, mas, para pisar na pista com estilo, tinha a impressão de que precisava ensaiar alguns passinhos em casa antes, por isso, negou com a cabeça.
— Dançar não é bem minha vibe, deixo para você.
— Não sabe nem dançar o Bonde do Tigrão? Faz assim.
Afastando-se, Chan começa a famigerada coreografia de “Bonde do Tigrão”. Em um primeiro momento, Jisung se limita a observar Chan e rir um sorriso bobo. Porém, na parte do “Eu vou cortar você na mão / Vou mostrar que eu sou tigrão / Vou te dar muita pressão / Então martela, martela / Martela o martelão / Levante a mãozinha / Na palma da mão / É o bonde do tigrão”, não resiste à coreografia do martelo e, como todo mundo no baile, dança junto. Depois de dançarem juntos e o DJ trocar de música, Chan o puxa pela gola da camiseta.
— Você falou que não sabia dançar essa.
— Claro que sei, porra — Jisung ri, mordiscando o piercing em seu lábio inferior. — Tava zoando com a tua cara. Acho que quero voltar para o Johnny.
— Então vamos, pô. Vai na frente.
Impelido, Jisung se mete no meio da muvuca, com Chan atrás sempre que olha para conferir se ele está. Em certo momento, comovido pela quantidade de gente e com medo de perdê-lo, acaba entrelaçando os dedos nos dele para que não se percam. Não vê o momento em que Chan ri dessa atitude. Talvez por essa pequena distração, pela sensação da palma dele na sua, é que Jisung tenha errado o beco.
As mãos de Chan pousam na cintura de Jisung quando ele o puxa para trás e cola o peito em suas costas.
— Por aqui não, bebê. — A voz de Chan é um ruído fraco se comparada ao estrondo das caixas de som. Mas Jisung entende imediatamente.
O que instruções dadas por uma voz sexy fazem com uma pessoa? Jisung não quer saber. Quer saber é que as mãos de Chan não saem de seu quadril quando eles caminham para o portão certo e, assim que abrem, Jisung tem o corpo encostado contra o muro e os lábios tomados em um susto tão delicioso que faz nascer e morrer um gemido saboroso na boca de Chan.
Então, sempre na mesma velocidade que Chan chega, se afasta, sorrindo ao ver o rosto anestesiado de Jisung, os olhos caídos pelo álcool, a boca ainda fazendo um meio biquinho como se esperasse por mais. Chan não resiste em deixar um selinho ali antes de se virar para subir as escadas.
— Tá com sono? — Chan pergunta enquanto sobe na frente.
— Nem tanto; eu sou DJ, música me deixa eufórico.
Na laje, Jisung se senta no banquinho debaixo da telha para ficar na sombra enquanto Chan vai pegar algo para comer. Está energizado, sabe que seu corpo estará um caco no dia seguinte. Só o pó da rabiola. A casa está silenciosa, o ar-condicionado do quarto está ligado, Johnny está deitado na cama completamente apagado e Ju e Tali estão meio abraçadas meio distantes por causa do calor em um forradinho de emergência no chão do quarto. Chan fecha a porta devagar.
Esquenta no micro-ondas um churrasco dormido, que, felizmente, ainda cheira bem, e leva em um pratinho com farofa para ele e Jisung junto a uma garrafa de Coca encontrada na geladeira.
— Essa carne tá gostosa pra caralho — Jisung diz lambendo os dedos.
— Depois de uma noite de bebedeira e trinta segundos de radiação, qualquer coisa parece o céu — Chan brinca, recebendo um dos sorrisos bonitos de Jisung como resposta. — O que você faz lá em Magé? Além de ser DJ.
— Faço bico de motoboy, ajudo minha mãe no salão dela, nada demais.
— Motoboy? — Pousando o cotovelo no apoio atrás de Jisung, Chan inclina o corpo na cadeira de plástico. — Eu amo andar de moto, sabia?
— Vai amar mais ainda andar na minha — Jisung arqueia as sobrancelhas, completamente perdido entre encarar os olhos de Chan, o piercing em sua sobrancelha, o risquinho no cabelo ou seus lábios. É uma escolha difícil, mas ele não se apressa em escolher, alternando entre todos bem lentamente. Ri bufado. — Não é nada demais. É só uma cinquentinha que minha mãe comprou por impulso e largou de lado.
— Eu deixaria você sujar meu nome para comprar um motão, se você me levasse para dar uma volta…
— O quê?
— Nada não. — Chan rola os olhos para outro lugar, fingindo desinteresse. — Oito horas e o sol dando uma moca.
Eles se levantam novamente para olhar o baile. Quando Jisung se debruça na mureta de tijolo sem reboco, Chan envolve sua cintura com os braços e apoia a cabeça em seu ombro. Aperta de leve o abdômen de Jisung.
— Quer descer para o baile de novo?
— Não, bora marcar daqui mesmo.
Em resposta, Chan o agarra um pouquinho mais forte, aliviado que ele não queira descer, porque tinha uma forte opinião de que eles renderiam mais sozinhos. E não faz sentido ficar no meio da multidão depois de ter um lugarzinho tão privilegiado e na paz.
Curtiram da varanda mesmo os últimos momentos do baile. Chan dançava, cantava sussurrando no ouvido Jisung, ia buscar cerveja e voltava correndo só para agarrá-lo pela cintura.
— O que você pensou quando me conheceu hoje?
Jisung ri soprado, como se aquele fosse um assunto batido. Mas ele não se importa de falar sobre.
— Eu te odiei. Se o Dentinho não te matasse, eu matava.
— Ou ele matava nós dois.
— Dá no mesmo.
Sem soltar um braço da cintura da cintura de Jisung, Chan balança ao som de “Sei que tu gosta muito”, do L7nnon, mexendo o ombrinho. Para sua surpresa, Jisung também sabe a coreografia. Move o quadril contra Chan, o fazendo engasgar com o ar pelo movimento repentino. Segura a cintura de Jisung com mais força e eles dançam a música de maneira sincronizada até o fim.
Pelos cabelos da nuca, Chan puxa Jisung levemente para trás.
— E o que você pensa agora que já me conheceu? — Chan pergunta encarando a boca de Jisung, o rosto de perfil pendendo para trás, rendido ao puxão em seu cabelo.
O hálito quente toca a bochecha de Jisung e o aperto em sua nuca é leve, mas possessivo, ao ponto de arrepiar seus braços.
— Quem disse que não estou mais morrendo de raiva de você? Eu guardo mágoa, sabia?
— Que isso, novinho? E o que eu posso fazer para você me perdoar?
Muitos pensamentos rondam a cabeça de Jisung, mas se dispersam ao decidir se virar para Chan. Encerrando o espaço entre Jisung e a mureta, Chan o faz suavemente tocar as costas ali, com uma urgência bastante paciente. Segura os lados do corpo de Jisung com força para conter a vontade de tocá-lo dos tornozelos ao cabelo, perder seus dedos entre os fios macios, perder a boca em Jisung e demorar para encontrar.
Se beijam devagar, mas com fome. Chan curva o corpo de Jisung, dando um espetáculo na laje para quem quiser ver. Quando pensa em quem pode estar assistindo e nas fofocas feitas sobre ele na semana anterior, para a própria surpresa, Chan não liga. A culpa é provavelmente de Jisung e de como ele beija tão bem que chega a ser palhaçada um beijo tão gostoso. É fácil não ter medo de ser alvo de críticas quando tudo fica mais intenso cada vez que suas línguas se tocam.
É quase um crime para Jisung sentir Chan se afastar depois de encerrar com um selar demorado.
— Porra, tá um calorzão — Chan limpa o suor em sua têmpora quando se afastam. — Quer cair na piscina?
— Tem certeza, Johnny não vai grilar, não?
— Uhum — Chan estala os lábios no de Jisung uma última vez para concretizar sua proposta. — Ele é meu amigo de infância e confia em mim.
Tem uma piscininha inflável de 3000l debaixo da telha onde o sol não alcança. Chan desforra a lona que protege, lava os pés e entra devagar até a cabeça. A água não é fria nem quente, mas relaxa seus músculos tensos por dançar bastante. Emerge e balança os cabelos iguais a um cachorro, molhando Jisung. Arruma as madeixas para trás e estende a palma da mão.
— Vossa Alteza.
— Até parece — Jisung murmura ao revirar os olhos. Rejeita a mão de Chan e entra por conta própria.
— Qual foi? Fazendo desfeita dos meus caprichos.
— Capaz. Cê tem a maior cara de canalha. De que come e some.
O corpo de Jisung é uma tela em branco para Chan, como se estivesse diante de um cavalete segurando a paleta de cores do universo e tudo o que precisava era pintar, marcar e fazer disso seu. Transformar em arte. Observa como a corrente de prata dele bate no pescoço quando tira a camiseta. O cabelo molhado, o corpo malhado e praiano, do tipo que leva beijos de sol todas as tardes e se habituou ao frescor da água.
— É… eu vou ter que concordar. Só tô mais pra dou e sumo mesmo — diz Chan, se esgueirando silencioso para beijar a bochecha dele, o corpo inteiro flutuando em direção a ele.
— Opa, aí eu já acho que não me importaria de você sumir — sussurra Jisung.
Jisung suavemente inclina a cabeça enquanto, sorrateira, sua mão sobe pela coxa de Chan. Chega perto até que os dois pares de pernas estejam embolados debaixo d’água. Quem corta o espaço entre eles é Chan, deitando a cabeça de Jisung na borda da piscina e se deitando sobre ele em seguida.
Olham um para o outro assim, Jisung olhando para cima, Chan para baixo. A junção dos lábios é tão natural que arde. Jisung abraça o pescoço de Chan trazendo ele com tudo para si, o prendendo com uma possessividade que revira o estômago de Chan, brincando com sua sanidade.
Chan devolve a mesma intensidade através do aperto na cintura nua de Jisung, o pressionando contra a borda da piscina enquanto aprofundam o beijo.
As mãos de Jisung se aventuram nos ombros largos, as de Chan sobem por seu torso sob a água, vagando pelo peito de Jisung, pressionando o polegar no fim de seu quadril. Passa a língua pelo lábio inferior dele, suprimindo um murmúrio que Jisung dá ao sentir estremecer todo o corpo. Para aliviar, arranha as unhas curtas na nuca batida de Chan. Sem fôlego, Chan beija muito preguiçosamente o maxilar de Jisung.
— Relaxa, princeso, seu corpo ainda tá tenso — sussurra enquanto Jisung se encolhe ao sentir o toque do nariz geladinho dele em seu pescoço.
De olhos fechados, Jisung parece anestesiado quando voltam para os beijos. Ele não responde, mas invade a camiseta preta que Chan ainda usa para tocar a barriga dele.
De repente, é um verdadeiro baile funk das mãos percorrendo o corpo um do outro sem padrão, tocando os ombros, o rosto, o quadril. Jisung envolve o fim da coluna e aperta a bunda de Chan, colidindo seu quadril no dele.
Chan desliza a mão pela borda da bermuda de Jisung, adentrando e arranhando por onde passava no início da linha V, atiçando os nervos dele. Suas mãos vagam até encontrar o cadarço da bermuda.
É urgente, tanto que Chan nem tem força para sustentar seu sorriso canalha, apenas direciona um olhar caído de tesão para Jisung quando se afasta para se concentrar em desfazer o nó.
— Chan… — murmura, sem saber ao certo se para adverti-lo ou finalmente atingira o ponto de delirar o nome dele. — Alguém pode vir.
— Cê quer parar?
— Acho que não consigo.
— Nem eu.
É tudo o que ouve de Chan antes dele escorregar a mão quente para dentro do short e começar a acariciá-lo. Sem pressa, sem compromisso.
— Relaxa.
Jisung apenas fecha os olhos inconscientemente e sente a barriga subir e descer em sôfregos baixos. Tomba a cabeça na borda e deixa o pescoço exposto, implorando para que Chan o tomasse para si.
A boca de Chan gruda em seu pescoço e leva embora o fôlego de Jisung. Pelo movimento do braço direito de Chan, Jisung acompanha quando ele começa uma punheta rápida, o olhar dele grudado em seu pau, como se não pudesse perder um único instante.
Chan admira as reações do corpo dele, tão receptivo e maleável em suas mãos, o peito descendo e subindo e a respiração, gradativamente acelerando, se misturando à atmosfera sedutora. Jisung solta uns gemidos deliciosos de apreciar, meio acanhado, baixos, mas nada castos. Parecia querer que seus sons obscenos ficassem impregnados na memória de Chan. Ele desacelera e beija o canto da boca de Jisung.
— Tá gostoso?
Jisung leva alguns segundos para raciocinar antes de responder.
— Porra, pra caralho.
— Continua me beijando.
Chan oferece seus lábios, mas essa deixa de ser prioridade quando volta a investir na mão fechada ao redor do pau de Jisung. O próprio Chan se afasta do beijo e põe a boca na região da garganta dele, sentindo na ponta dos lábios os gemidos e suspiros vibrarem na pele. Os joelhos de Jisung dobram e os dedos de seus pés tensionam.
— Goza para mim, gatinho.
Chan mais manda do que pede, e sua voz rouca de tesão é um gatilho perfeito para Jisung. Chan se delicia com a visão dele mordendo o lábio inferior. Jisung aperta firmemente as mãos nos ombros de Chan, libertando o orgasmo e seu corpo todo parece, finalmente, relaxar. Chan mantém a mão imóvel, deixando Jisung atingir seu orgasmo movendo o quadril no próprio ritmo até não ter mais forças. Jisung puxa uma boa parcela de ar em seguida, na tentativa de canalizar a respiração.
Por um momento, Chan pensa que ele dormiu, mas vê que está apenas descansando. Espalha uma série de beijos pelo rosto sonolento de Jisung.
— Você vai entrar e tomar um banho enquanto arrumo um cantinho para a gente na sala, pode ser? — pede.
Olha com um certo carinho para Jisung, para as bochechas rosadas dele, as pálpebras desistindo e as orelhas vermelhas. Tão lindo. Talvez Chan esteja hipnotizado pela beleza pós-sexo, mas só consegue pensar no quanto aquele homem embaixo dele é lindo.
Jisung sai praticamente se arrastando da piscina, dando passos curtos até a porta. Chan coloca a piscina para esvaziar, realmente espera que Johnny não se importe em acordar com ela vazia, mesmo que esteja fazendo um calor do caralho. Se seca o suficiente para não encharcar a casa ao entrar.
Felizmente, o anfitrião deixou alguns colchões e roupas de cama espalhados pela sala para eles. Enquanto ouve Jisung tomar banho em silêncio, Chan arruma os colchões com algumas camadas de lençóis para eles até julgar confortável e, cansado demais para fazer qualquer coisa, se deita.
Quando Jisung pisa na cama, cai de joelhos e depois de bruços como uma estátua derrubada. Ele se esforça um pouco para virar o rosto e encará-lo. Chan estende a mão para arrumar algumas mechas dele para trás da orelha. Jisung dá um sorriso preguiçoso e Chan ri ao ver a bochecha dele amassada contra o travesseiro.
— Obrigado, gosto quando fazem a cama para mim. Fica mais confortável — Jisung comenta, o sono já arrastando sua voz para longe.
— De nada, gosto de fazer a cama das pessoas, porque gosto de ver rostinhos satisfeitos.
— Desculpa por hoje também. Mas, sinceramente, se o Johnny tivesse apresentado a gente da maneira convencional, eu não teria o prazer de te ver puto me xingando.
— É disso que você gosta, então? — Chan arqueia uma sobrancelha. — Eu posso fazer muito mais.
Chan se inclina e beija o nariz de Jisung, voltando para sua posição em seguida. Tiveram um começo acirrado e, mesmo que tivesse mil palpites, Chan nunca acertaria que terminariam a noite desse jeito. No entanto, como dito por Jisung, assim era mais divertido. Perigoso, mas divertido, com a adrenalina do jeitinho que Chan sempre gostou.
Jisung provavelmente quer puxar Chan para mais perto, mas algumas coisas o Rio de Janeiro não deixa a gente fazer, tipo dormir juntinho em dia de calor. Só resta dormir juntinho separado. Eles só tinham um ventiladorzinho e a temperatura prometia aumentar, então era melhor tirar um cochilo enquanto ainda conseguiam.
