Work Text:
Um dia não muito movimentado na praça de Mondstadt. Uma mesa num café, aquele que fica bem à frente da barraquinha de alquimia. Um frappuccino bem quentinho e adocicado ao paladar. E, do mais absoluto nada, uma revelação: Sucrose percebe que às vezes ela sente medo assim que quase queima a sua língua com a bebida que pediu.
Ah, a beleza da ciência. O cérebro de Sucrose pode até conhecer o significado da palavra descanso, mas aparentemente não faz ideia de como praticar. Mesmo no momento em que ela deveria estar dando uma pausa no trabalho, uma hipótese fresquinha vem à mente: afinal, é assim que a ciência geralmente ocorre. Repentinamente, sem aviso, no momento mais inoportuno possível. E, para a sorte de Sucrose, é exatamente assim que ela gosta.
Hipótese não, fato: Sucrose sente medo às vezes.
O problema dessa afirmação é que, apesar de ser de fato verdadeira, é uma conclusão para lá de óbvia. Oras, se o medo não passa de um mero mecanismo de defesa para evitar o perigo, então todos os seres o sentirão alguma vez em suas vidas. Como poderia Sucrose se sentir diferente desse grupo quando ela mesma demonstra indícios de que é um ser racional? Seria presunçoso de sua parte.
Ela poderia até argumentar que não há prova concreta de que seres superiores como arcontes ou adepti estejam sujeitos a esse sentimento de pavor, porém seria um ato falho. Apesar de serem criaturas com poder relativamente imensurável, há inúmeras provas ao longo da história que comprovam não somente que eles são mortais como ainda sofrem algum grau considerável de dor ao morrer. Logo, se sentem dor, quer dizer que têm mecanismo de defesa como qualquer outro ser vivo, ou seja, alguma vez em suas longevas vidas, eles já foram presas. Não faria sentido que o corpo de um animal sinta medo sem que ele já tenha estado sujeito ao perigo alguma vez, afinal.
E, mesmo que esses seres estivessem além de sentir medo, Sucrose não acredita que ela se enquadre nesse grupo. Ela pode até não ter a plena certeza de que é completamente humana, ou até mesmo de que sequer existe alguma parte humana em si, mas ela sabe que não é um adepti, arconte ou qualquer ser desumanamente poderoso. Logo, não há cabimento algum que ela se perca nesse caminho que ela abriu em sua lógica. Sintam ou não, ela não é um, logo não importa; Porém… É material interessante para pensar sobre. Talvez ela revisite esse pensamento algum dia.
Seu questionamento já está ficando mais e mais abrangente… Verdade seja dita, a conclusão mais correta é que ela sente medo e além disso está complicando essa hipótese apenas para não ter que se levantar de sua mesa e encontrar a pessoa que está a encarando tão avidamente, a razão de seu medo.
Sucrose jura por seus amados exemplares de flores gigantes guardados cuidadosamente em seu laboratório que ela consegue sentir o olhar de outra pessoa queimando em sua nuca. Sua pele sensível sente um frio repentino conforme os finos fios de cor menta que ali nascem se arrepiam em uma reação fisiológica. Medo, pavor.
É um instinto traiçoeiro, que faz a sua perna direita tremer sem que ela sequer tenha tempo para pensar. Uma reação involuntária, um reflexo. É o seu instinto de presa gritando: Fuja, Sucrose! Fuja!
Embora ela tenha acabado de dar um gole em seu capuccino, a sua língua parece seca. Não somente ela, como também a parte interna de suas bochechas e o céu de sua boca. Tudo está seco. A sensação desce por sua garganta. Não é falta de hidratação, é desespero. Urgência.
A voz de sua consciência clama para que ela se levante. Fuja por sua, por nossa vida!
Mas, em algum ponto do caminho entre seus receptores e seu cérebro, em algum lugar de seus nervos, seu corpo percebe que não há perigo real de ataque iminente. Ninguém vai pular em suas costas, abocanhar o seu pescoço, se alimentar de sua carne ainda crua. Ela ainda é um ser humano racional vivendo em uma sociedade.
Embora o pensamento de ser devorada de uma vez como um animal indefeso seja bem menos assustador do que lidar com esse problema de forma consciente e responsável.
Problema. É exatamente o que isso é, um belo de um problema.
Seria tão simples, apenas se levantar, atravessar a rua e descobrir de quem é o tal rosto que lhe aflige tanto medo, que desperta um animal assustado e cercado que está adormecido no âmago de uma alquimista renomada.
Ah, mas quem é que ela quer enganar aqui? Não há necessidade alguma de continuar insistindo nessa farsa. Aqui, em seus pensamentos, protegida pelos muros de sua mente, ela pode ser sincera. Ela pode se permitir admitir o que tem medo de dizer em voz alta, uma percepção que aos poucos foi se solidificando sem que ela percebesse e se tornou um fato irrefutável.
A jovem alquimista não precisa olhar para trás. Ela sabe muito bem quem está a observando agora. Afinal, é a única pessoa que poderia despertar uma reação tão primitiva, tão vergonhosa de si.
Aquela mulher…
Reformulando, Sucrose acaba de perceber que sente medo quando pensa em Rosaria. Mais especificamente, quando ela pensa que Rosaria pode estar pensando nela.
Mas… Por quê? Seu inconsciente está interpretando Rosaria como uma predadora, mas será que sua mente, a parte consciente, concorda? O que Sucrose entende por si mesma, a parte responsável por suas opiniões, crenças, gostos pessoais, personalidade, essa parte de sua psique tão integral para seu reconhecimento como pessoa realmente entende a outra como um perigo?
A alquimista tem medo da resposta, porque ela sabe que não é tão simples quanto dizer sim ou não.
… Será que ela realmente tem medo que aquela mulher pule em seu pescoço? Será que ela realmente acha que, assim que deixar sua guarda abaixar, uma mulher com quase o dobro de sua altura vai estar à espreita, salivando pela oportunidade?
Não, Sucrose sabe que Rosaria jamais a cruzaria. Mesmo no dia mais propício para tal, quando ambas estavam longe da cidade de Mondstadt, a incontáveis passos de outra civilização, em um local onde ninguém ouviria nenhuma das duas implorar por sua vida… A freira apenas a ignorou.
Sucrose estava carregando consigo uma mochila naquele dia, cheia de novos exemplares para sua coleção de ossos. Alguns ainda tinham um restinho de carne grudado, veja só! O fedor de carne podre a seguia por onde quer que andasse, mas ela não se incomodava.
E então, no caminho de volta, ela acabou vendo um vulto em sua visão periférica. Se preparando para abrir uma brecha para fugir, a alquimista tirou seu catalisador e tentou se concentrar na figura desconhecida, mas sentiu o livro cair de suas mãos ao reconhecer quem era.
Ela jamais vai se esquecer de como Rosaria estava naquela noite. Ela fedia a carniça, mas não na forma pejorativa em que se costuma usar essa expressão. Não era uma hipérbole para suor ou sujeira acumulada durante dias sem banho, ela realmente estava coberta por sangue.
Em todo lugar, encharcando sua roupa, escurecendo a parte preta de seu hábito customizado, de uma forma que poderia até confundir quem visse sem o devido contexto, se assimilando a qualquer outra substância escura. Mas o borrão vermelho na parte branca que cobria seu peito — não que Sucrose estivesse olhando! —, aquela mancha não deixava dúvida alguma. Os seus anéis de prata, sua lança afiada, até mesmo o odor de seu perfume, tudo estava manchado pela carniça.
E ela ficou simplesmente deslumbrante daquela forma.
De volta para o presente, na praça movimentada de Mondstadt, a respiração de Sucrose está ficando ofegante. É por conta do frappuccino, ela diz para si mesma.
É uma mentira óbvia, ele já esfriou há alguns minutos. Mas não quer dizer que a alquimista vai admitir que sabe a real razão pela sua vermelhidão repentina.
Naquele dia, no lugar de aproveitar a chance de atacar, Rosaria apenas se virou e sumiu mais uma vez. O cheiro de sangue se esvaiu aos poucos, até ser completamente ofuscado pelo odor de morte da sacola de ossos. Sem vestígios, sem um traço para ser seguido.
Sucrose, mais do que ninguém, reconheceria essa estratégia. Ela se acostumou a usá-la sempre que encontrava uma fogueira acesa no meio do caminho, sempre que sentia o cheiro de alguma criatura se aproximar. No entanto, ela não estava acostumada a ser uma ameaça para outra pessoa.
Não, Rosaria não era uma predadora ali. Na verdade, fugir é um comportamento de presa.
Mas então, se não um instinto primitivo, o que poderia explicar o medo que deixa o corpo de Sucrose nesse estado catatônico? A única explicação que passa por sua mente é de que ela está começando a acreditar nos rumores maldosos que as pessoas de Mondstadt espalham sobre a freira.
No entanto, ela sabe muito bem que não leva essas histórias como verdade. Seria hipocrisia de sua parte acreditar nelas, já que a alquimista também se vê como vítima das fofocas locais.
Quem sabe… Ao menos dessa vez, talvez não seja medo.
Então, a conclusão é que Sucrose sente algo que parece medo — mas não é — quando ela vê a Rosaria, pensa que ela está pensando nela e então se perde em seus próprios pensamentos sobre os pensamentos da outra mulher.
Bem… Talvez não seja tão simples resumir a situação em uma frase, afinal. Ela bem que poderia simplesmente falar com a freira e tirar tudo a limpo.
…
… Seria, indubitavelmente, a forma mais fácil, precisa e segura de resolver esse problema.
…
… Pois é.
… Sem sombra de dúvidas.
…
É realmente uma pena que Sucrose jamais faria isso!
Poxa, vai que ela tropeça no caminho e quebra um osso?
Ela junta o pouco que resta de seu ânimo e recupera as forças para se levantar e finalmente viver seu pacato dia de semana. Afinal, todos esses acasos (desculpas, como a sua mente afiada faz questão de corrigir) para não encontrar a freira não devem ter sido apenas obra do acaso. E, apesar de sua mente científica não gostar muito de confiar em algo que não pode ser provado, Sucrose gosta de acreditar que a sorte (sua própria paranoia) não engana.
No entanto, já a metros de distância, num breve momento, um pensamento sobre a freira passa pela cabeça de Sucrose. Nesse instante de uma instância, ela se embriaga dessa perigosa esperança de revê-la.
Mas uma variável que ela desconhecia e jamais seria capaz de considerar é que, enquanto passava pela praça de Mondstadt, Rosaria também sentiu um medo agridoce a afligir quando seus olhos pararam em certa alquimista de cabelo verde.
