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Category:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-11-09
Completed:
2026-02-25
Words:
4,681
Chapters:
50/50
Comments:
10
Kudos:
10
Hits:
154

Ser Poeta É Uma Merda

Summary:

Feliz ou infelizmente eu escrevo poesia desde muito cedo. Este é um compilado de textos escolhidos com pouquíssimos pré-requisitos. Espero que gostem.

Chapter 1: Mau Humor

Summary:

Porque é sempre eu.

Chapter Text

Ele estava de mau-humor.
Bem, eu também estaria de mau-humor se estivesse na mesma situação que ele.
Na verdade, eu estava na mesma situação que ele e não estava de mau-humor.
O fato dele estar de mau-humor por isso acabou me deixando mal-humorado.
Acabei ficando ainda mais mal-humorado quando percebi que agora nós dois estávamos de mau-humor.

Chapter 2: Vem Com Tudo, Fim do Mundo

Summary:

Porque eu sou um hipócrita egocêntrico. Ou pelo menos foi o que eu aprendi.

Chapter Text

É isso, chegou o apocalipse. Nós não fizemos tudo o que poderiamos ter feito para evitá-lo, nós todos como espécie tomamos uma decisão: cada meta postergada e cada revolta não feita se acumularam nesse exato momento. 

Acontece que não basta ser um agente que corrobore com a piora da situação, não fazer nada também é uma forma de piorar as coisas. Quem cala consente. Eu me incluo aqui também. 

Façam o que quiserem. O mundo ta acabando, mas acalenta meu coração saber que o Universo prevalece.

Enquanto isso, a mim restam duas escolhas: assistir de camarote ou aproveitar os últimos suspiros do crepúsculo da humanidade sem medo de perder o momento final. Eu escolho diferente todos os dias.

No fim das contas, acontece que eu quero estar lá, mas não por um motivo nobre; é que eu quero rir por último o mais egoísta dos "eu sabia".

Chapter 3: Espero Que Não Se Arrependa

Summary:

Porque eu queria ter a mesma coragem.

Chapter Text

Hoje eu vi uma criança com um braço quebrado em um carro.
Espero que tenha sido fazendo algo que goste.
E espero que não tenha se arrependido.

Chapter 4: Beija-Flor

Summary:

Porque eu sinto sua falta, beija-flor.

Chapter Text

Beija-flor,
bem te vi
na janela

Chapter 5: Me Espera!

Summary:

Porque de qualquer forma eu ia ficar pra trás.

Chapter Text

Me espera, que o vento ta forte e eu esqueci como corre.

Chapter 6: Vidente

Summary:

Porque eu lembro de quando você me mandou rezar pra "tirar esse demônio" do meu corpo.

Chapter Text

Acontece comigo desde criança de eu me lembrar de coisas que ainda estavam para acontecer. Assim como o tempo é só mais uma dimensão, e da mesma forma que olhamos ao redor e a entropia é um fato, as vezes os átomos em nossos cérebros podem sem querer se organizar na fotografia perfeita de um futuro que ainda está por vir.

Chapter 7: Beija-Flor v2

Summary:

Porque eu sei que você acha que tem meu respeito e confiança por direito divino, mas mesmo que eu queira muito te confiar e respeitar você faz o esforço contrário.

Chapter Text

Beija-flor!
Bem te vi na janela
Falando coisas de amor.

Sempre tive medo de amar.
Uma vez o papagaio me disse:
"você é muito difícil de lidar!"

Acabou que me fez amigo do pombo;
Assim como eu, se adaptou para outros
Não funcionou.
Nos aproximamos por causa do tombo.

Mas não importa, beija-flor
Já que quando bem te vi naquela janela
Estava falando coisas de amor
No fim das contas fiquei querendo pedir sua receita de aquarela.

Chapter 8: Cão

Summary:

Porque eu vi um cachorro da janela do ônibus.

Chapter Text

Hoje eu vi um cachorro da janela do ônibus. Parecia triste.

Sua barriga arranhando no asfalto morno, um sono letárgico e fome o suficiente só para incomodar um pouco. Solidão.

Sofrendo apenas o bastante para não estar feliz, mas não ao ponto de estar infeliz.

Chapter 9: Asfalto Quente

Summary:

Porque vivemos em um inferno de concreto.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Asfalto quente grudando na sola fina do sapato e queimando meu pé.

Notes:

Essa foi minha primeira "poesia sensorial", eu gosto muito de escrever assim, geralmente é só descritivo mas eu acho bonito

Chapter 10: Espectro

Summary:

Porque não me recordo de quando comecei a existir.

Chapter Text

Olhos arregalados quase saltando das órbitas encontraram uma parede. Encarava aquelas mãos, sentia o cabelo em sua cabeça, o relevo do nariz, os dentes na boca, os dedos do pé. Estava, de fato, em um corpo. Mas aquele não era seu corpo, afinal, nunca estivera em um corpo.

Chapter 11: Aviões

Summary:

Porque eu entendo sua sede de vingança, céu.

Chapter Text

Aviões deixando cicatriz no azul imaculado do céu, que logo se vinga e ou os engole, ou os cospe num movimento retilíneo uniforme em direção à terra firme.

Chapter 12: Sorvete de Laranja no Rio de Janeiro

Summary:

Porque eu gosto muito de geografia.

Chapter Text

Nuvens de sorvete derretendo no relevo das meias laranjas cariocas.

Chapter 13: Ninguém

Summary:

Porque, no fim das contas, esse problema realmente é em mim.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu nunca gostei muito dessa coisa de parecer humano na frente dos outros. Acontece que eu sou muito emotivo, eu penso com o coração; e é por isso que eu também sou muito racional, eu fico sempre me lembrando de pensar com a cabeça.


Eu acabo sendo dois e fico discordando de mim mesmo. Me perco nessa bagunça de ser ou não ser, poder ou não poder, devo ou não devo. Eu te amo porque te amo, mas não devo amar porque amar é sofrer.


No fim das contas, viro uma terceira coisa totalmente desconhecida e fora de controle. Eu não sou eu porque performo a exclusão das minhas partes. Tira tudo que faz de mim eu mesmo e no final tem eu. Eu não existo, eu não consigo existir. A versão de mim que habita minha mente não sou eu; a versão de mim que eu performo todo dia também não.


Eu não sei onde me encontrar: não tenho meu endereço porque não moro no meu lar, não tenho meu número porque não gosto do celular.


Então, pra garantir que eu não sou eu, nem eu e nem eu, preciso fingir que não sou gente. É por isso que não gosto de parecer humano na frente dos outros.

Notes:

Desculpa, to lendo muito Lispector e comecei a ler Plath.
Admirem minha angústia existencial e fiquem tranquilos porque minhas tendências não são suicidas; são homicidas. Eu ainda posso escrever da prisão.

Chapter 14: Cama

Summary:

Porque eu não te conhecia até ligar o jornal, mas passei a noite em branco torcendo por você.

Chapter Text

Juliana Marins morreu hoje depois de ficar 4 dias presa em um vulcão adormecido na Indonésia. Todas as fotos que passam no jornal são dela rindo, em aventuras, viajando.
Dentre todo o terror envolvido no caso, me tomou a atenção que o pai dela está indo buscá-la para trazê-la de volta para casa. Me parece muito com quando a gente é criança e dorme na sala, então nossos pais nos carregam pra cama. Eu espero que seja assim que ela se sinta agora.

Chapter 15: Gota D'Água

Summary:

Porque essa foi a gota d'água.

Chapter Text

Nada se cria, tudo se transforma.
Uma gota d'água se formou no começo dos tempos em uma bola de poeira incongruente boiando no espaço.
Uma gota d'água anuncia a tempestade e uns ficam felizes, uns desesperados. Depende do lugar.
Uma gota d'água viu o mundo mudar enquanto escorria por uma testa nervosa.
Não há um jeito bonito de dizer isso, mas foi a gota d'água.
Se nada se cria e tudo se transforma, o que acontece com minha a tristeza quando a descarto?
Deixei cair uma gota d'água no chão de madeira puída outro dia. Acho que não foi a primeira a cair ali.
A gota d'água, coitada, nunca faz nada.
Uma gota d'água fez transbordar um copo, depois estoura uma represa.
Pode a gota d'água ser responsável, afinal?
Uma gota d'água cai no concreto chiando e morre na hora.
Talvez a lei da natureza diga que nada se cria e tudo se transforma,
Mas eu não me sinto transformado, sinto como uma coisa totalmente nova.
Mentira.
Eu menti nessa.
Uma gota d'água não faz chuva que nem uma andorinha não faz verão.
Transformar não é criar? Bem, criar não é transformar.
Uma gota d'água, seguida de várias outras perfeitamente espaçadas se unem para atrapalhar meu sono. Piora quando uma se atrasa ou se apressa. 
Gotas d'água não entendem de ritmo. Eu também não.
Eu minto e essa foi a gota d'água.
Uma gota d'água surgiu agorinha nos confins do universo e eu fiquei querendo ver.
Essa foi verdade.
Uma gota d'água não fez porra nenhuma e sem querer pariu uns cem mosquitos.
A gota d'água em questão ficou chateada e disse que vai me pegar na esquina.
Então pode a gota d'água ser responsável, afinal?
Foi mal.
Uma gota d'água destrói um telefone. Destrói junto um namoro de cinco anos levado nas coxas.
Uma gota d'água foi assassinada a sangue frio e depois desovada num copo de refrigerante no dia mais gelado do inverno.
Sempre faço questão de pingar as últimas gotas d'água do copo na minha cabeça nos dias quentes.
É verdade, copiei de um livro.
Uma gota d'água muito provavelmente detonou o dia de alguém hoje. Ou salvou. Vai saber.
Nada se cria, a verdade se transformar em mentira. A mentira não vira verdade. História da minha vida.
De que adianta eu avisar se é mentira ou verdade? Eu minto.
Eu fui muita gente em um espaço de tempo muito curto. É verdade.
Uma gota d'água se formou no começo dos tempos e nunca sumiu de vez.
Essa foi a gota d'água.

Chapter 16: 8

Summary:

Porque demorou tanto que eu me convenci de que eu tinha inventado.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Quando eu disse que tinha algo errado, respondeu "ta, ta, ta"
Que nem o trem das 18 daquele dia
E quando escrevia no teclado fez tec tec tec
Que nem a janela do ônibus das 5 da semana passada
Deitei a cabeça no travesseiro
E gemi um chiado de gasolina quando todas as minhas juntas desistiram
Contei os dias perdidos no asfalto morno da manhã 
Não tive coragem de somar com os da noite
Eu insisti que não estava bem e fez um som de morte
Tal qual uma porta enferrujada
E enquanto chovia lá fora 
A água gelada pingava em mim 
Me deixava cinza de sujeira de filtro
E naquela noite quando deitei 
Gemi outro chiado de gasolina quando todas as minhas juntas desistiram
Decidiram me deixar
Resistiram no final da madrugada seguinte
Enquanto eu na lata de sardinha chorava
Porque havia me convencido de que não era gente
E fez eco no meu crânio
O ta ta ta
Que eu já não sabia se era de máquina ou remetente

Notes:

o título é o nome do arquivo, a maioria dos meus textos ta salvo no computador com números, esse é o sem título mais recente

Chapter 17: Porque Deus Não Salva Os Ursos Polares e Outras Heresias de Uma Ex-Criança-Suicida

Summary:

Porque minha relação com religião sempre foi complicada.

Chapter Text

Meu deus é o acaso, o que te dá câncer são as probabilidades.
Se eu sofro, é porque não é todos os três, onipotente, onipresente e onisciente.
Não fosse benevolente, isso seria muito pior.
Se deus não tem como criar uma realidade sem sofrimento, a onipotência vai pro ralo, se é onipotente mas não pode salvar os ursos polares da extinção...
Escrever isso me deixa paranoico, olhando sobre os ombros.
Não consigo dormir essa noite.
É possível existir sem saber que existe.
Bactérias, algas.
Deus não sabe que existe.
As vezes deus não existe, porque pertence ao reino quântico e, à nível quântico, a verdade não existe.
Deus é uma espécie em extinção e me observa do quarto ao lado. 
Quer saber porque não fiz nada para salvá-lo e eu pergunto o mesmo.
Disse: eu não pude salvar os ursos polares também, acontece.
Não acontece.
Eu não te salvei porque você não me salvou, ainda penso nisso porque parece que está em tudo.
Tudo é uma lembrança distante e eu tenho uma boa memória.
Esquecer dói mais que lembrar e eu queria esquecer muita coisa.
Faz anos que não entro em uma igreja sem sentir dor de cabeça.
Faz anos que sinto que vou desmaiar quando compartilho fé com outras pessoas.
Me resta ficar só?
Um erro. Não foi eu, e eu erro muito.
Poderia ser diferente mas é quase melhor que não seja.
Quase.
Acontece.
Eu também sou uma espécie em extinção, acontece.

Chapter 18: Algum Momento Em Janeiro

Summary:

Porque sinto culpa e saudade, também porque sou estranho.

Chapter Text

Fico pensando nas coisas que me esforcei para aprender e me acostumar acreditando que fossem de conhecimento geral.
Meu avô Russo me ensinou a assobiar, estalar os dedos e levantar uma sobrancelha só. Hoje conheço poucas pessoas que conseguem fazer tudo.
A cada ano descubro mais sobre como sou estranho.

Chapter 19: Algum Momento Em Fevereiro

Summary:

Porque foi o granizo na minha janela que me fez voltar a viver.

Chapter Text

Eu pedi para ver as estrelas e elas deram um jeito de me alcançar.
Eu me sinto miserável quando não estou amando.

Chapter 20: O Viajante Do Tempo

Summary:

Porque ainda levo você comigo.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Quando penso que não há fim, lembro de quando irei me lembrar do que acontece agora.

Sempre tem um lampejo do meu futuro agarrado ao meu passado.

Em algum lugar eu ainda tenho 7 anos, olhando pro teto, me esforçando para garantir que lembre daquele momento. E então eu lembro, assim viajo no tempo.

Notes:

13/05/2025

Chapter 21: 01/06/25 (madrugada)

Summary:

Porque preciso homenagear todas as minhas vocações de criança.

Chapter Text

Acho que eu queria ser artista porque essa é uma das únicas coisas em que você pode ser ruim e continuar sendo bom.

Chapter 22: 09/07/25

Summary:

Porque deve existir um motivo pra natureza se repetir.

Chapter Text

As formigas formavam estrelas no teto da cozinha, um pequeno cosmos portátil.

Chapter 23: 12/08/25

Summary:

Porque nem sempre dá pra saber.

Chapter Text

A chuva de agulhas perfura a carne do meu rosto e eu sinto cãibra na bochecha, sem saber se é de frio ou de riso.

Chapter 24: Eu Não Sou Nada

Summary:

Porque, no fim das contas, eu não existo.

Chapter Text

Se nós somos a intersecção daquilo que nós achamos que somos e a expectativa do que os outros acham que somos, então eu não sou nada.

Chapter 25: Minha Linda Vida

Summary:

Porque minha vida é linda.

Chapter Text

Hoje no jornal eu ouvi meu nome. Quando olhei pra TV eu vi meu rosto.
Morreu um cadáver com o meu nome e com a minha cara.
A semelhança acaba aí, viveu uma vida linda.
Que linda vida teve esse cadáver com meu nome e minha cara.
Não deixou nem espaço pra eu fugir da minha própria miséria, a única coisa que me restou foi inveja.
Inveja da linda vida que teve esse cadáver com meu nome e minha cara.

Chapter 26: Quem Sabe, Um Dia, Talvez

Summary:

Porque quem sabe, um dia, talvez sonhar com um mundo melhor nos mude por dentro.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu passo por prédios que parecem sonhos.
Devoro sonhos que foram feitos em prédios que desmoronaram em cima do sonho de ser alguém diferente.
De sonho em sonho, porém, engordo as chances de mudar o mundo, porque sonhar com mudança requer mudar antes, porque ser alguém diferente muda o mundo completamente.

Notes:

Deu fome.

Chapter 27: O Apesar Dos Apesares Chegou

Summary:

Porque apesar de tudo eu hei de sobreviver, porque assim eu quis.

Chapter Text

Minha vida é um grande apesar
Mas estou aqui, hoje, porque.
Porque sou e um dia cansarei de ser
E quando cansar, eu hei de ser novamente.

Chapter 28: 12

Summary:

Porque esse sangue nunca foi seu pra usar nessas feridas.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Tudo em sua forma fora pensado para me assustar, quando não deu certo você não soube o que fazer.
E enquanto eu esfregava sal nas suas feridas abertas, me ocorreu que você não era humana.
E de repente o sangue em minhas mãos não me causou remorso algum, porque aquele era o meu sangue que você havia roubado.

Notes:

Agora o aviso de violência explícita fez sentido

Chapter 29: scschçssxzc

Summary:

Porque me senti sereno, sentado na sacada de ressaca sem saber se seria caçado de surpresa aos sopros de Seropédica.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Suspirou de supetão ao suspeitar da cachaça. Cacheou-se saindo da sala, serviu-se da sensação de sensacionalizar o xadrez e caiu sensato no colchão.
De Sepetiba, sereno, culminou consciente serenata sagaz ao chefão.
Se somou de chamado e em sintonia corou um coro de zumbis.
Sem azucrinar, cresceu em sentido e acresceu de açúcar o salão.
Suicidou-se na social da Chatuba ao sentir a cevada calhar os sisos.
Citou na chegada do céu o seu zarpar azarão com precedentes.
Acolhido no colo do santo, suplicou: "sessenta e seis, sabe-se lá se seria cem".

Notes:

Não, eu não dei com a cabeça no teclado e aí saiu isso.

Chapter 30: Ode

Summary:

Porque eu te amo, te amo a muito tempo e não sei se vou deixar de amar um dia, mas por enquanto eu te amo e isso basta pra me fazer levantar, mesmo que eu não saiba ficar no lugar.

Chapter Text

Eu te amo.
Ando passando por situações um pouco difíceis ultimamente e senti que precisava te avisar que eu ainda te amo.
Não, eu não vou me matar, não tô pensando em morrer, só precisei avisar que te amo.
Eu te amo quase sempre, não sei se posso deixar de te amar algum dia mas te amo hoje e venho amando desde muito tempo.
Não, não desse jeito.
Eu te amo como o mar ama a areia.
Eu te amo como o vento ama a chuva.
Eu te amo como as cracas amam as cascas dos navios.
Eu te amo como a eletricidade ama cabos de alta tensão.
Eu te amo como os urubus amam bolsões de ar quente.
Eu te amo, as vezes dói, mas é o tipo de dor que se aproveita.
Ainda não sei se eu sou eu, mas quando duvido de quem controla essa mente eu lembro que te amo e penso que essa é uma escolha que só eu poderia fazer.
Ainda não tenho certeza do meu futuro próximo, mas quando fico com medo preciso lembrar que te amo e por isso tenho que me manter firme.
No fim das contas, eu amo te amar. Talvez por isso eu te ame.
Nem sempre posso estar, e sei que nem sempre estou o suficiente.
Não, não fala que não. Eu sei.
Se serve de algum consolo, não tenho certeza nem se estou comigo por parte do tempo.
Sei que preciso tomar ação quanto a isso, mas o que ainda não tenho certeza.
Sei que a certeza não existe, mas meu lado racional continua gritando que não há informação suficiente para uma resposta significativa.
Sei que não devia me basear só nisso, mas acontece que meu lado emocional quer fugir a todos custo da tempestade que se forma.
Fugir não é má opção, mas sou orgulhoso de mais pra dar o braço a torcer.
Pois é.
É.
Desabafei, eu sei.
Não, não.
Isso.
É, deixa quieto.
Não sei do que você tá falando.
Esquece.

Chapter 31: Ocre

Summary:

Porque eu só consegui te deixar ir quando entendi que nunca deveria ter deixado entrar.

Chapter Text

De 65 a 80 existiu um entrelugar na entrelinha do meu peito.
De sublime semelhança com alguém que não existiu, eu fui incapaz de olhar no espelho.
Não há mais espaço.
Mesmo quando te encontrei na encruzilhada dos nossos olhos, trocamos nossas cores e seguimos nossas vidas.
Eu achei que não.
Sumiu, passou e acabou.
Eu também sou outra pessoa agora, mas não acho que seria capaz de apertar sua mão.

Chapter 32: Não Existe "A Gente"

Summary:

Porque eu passei tempo de mais conversando com você, negando a dura realidade de que na verdade eu falava para mim mesmo.

Chapter Text

Eu achei que tivesse mais algo pra falar, mas agora não tenho mais certeza.
Você, por trás desse vidro, sempre parece ter certeza.
Quando é você que está lá, porque nem sempre é, eu fico com inveja.
Fico olhando e encarando, tentando te ver por de trás da luz.
Você só existe quando eu olho, você é um lugar no tempo.
Quando sou vitorioso vejo em ti,
Quando estou derrotado também.
Preciso repetir pra mim todo dia:
Não existe a gente, existe eu.
Preciso repetir sempre que te vejo por trás do vidro:
Não existe a gente, existe eu.
Preciso repetir sempre que encosto minha testa na tua frieza:
Não existe a gente, existe eu.
Preciso repetir sempre que encaro seus olhos, que na verdade são os meus:
Não existe a gente, existe eu.
E nas nossas conversas preciso lembrar que sou o único interlocutor.
E quando não te vejo preciso lembrar que não é assim que tem que ser.
E quando te perco preciso lembrar que é a mim que eu perdi.
E quando te consolo preciso reconhecer que é a minha própria ternura que me envolve.
Mas você só existe quando eu olho, você é um lugar no tempo
Enquanto eu continuo existindo mesmo sem te ver.
Mesmo quando eu procuro e não acho, eu ainda existo.
Mesmo quando chamo e não responde, eu ainda existo.
Mesmo quando rezo e aguardo, eu ainda existo.
Mesmo quando duvido do mundo sensível, eu ainda existo.
Não posso continuar existindo apesar de você.
Não posso continuar me assustando quando te perco de vista.
Não posso me emancipar de você.
Não posso me emancipar de mim mesmo.

Chapter 33: Revolução Solar

Summary:

Porque no fim das contas eu descobri que eu não era tão doido assim

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Eu te gritei, esperando que escutasse.
Sempre foi impossível saber a resposta.
E no fim das contas, enquanto o louco gritava para todos, alguns realmente pararam e escutaram.
E no fim das contas, não era tanta loucura assim.

Eu te gritei, esperando que escutasse.
Fiquei com medo de me tornar um cover de mim mesmo.
E no fim das contas, enquanto o louco gritava para todos, alguns realmente pararam e escutaram.
E no fim das contas, eles me disseram que eu já era uma pessoa nova.

Notes:

Feliz um ano de Ser Poeta É Uma Merda

Chapter 34: Espera Um Pouco, Fim do Mundo

Summary:

Porque ainda vale a pena ter esperança.

Chapter Text

Humanidade é um fêmur cicatrizado de 15 mil anos.

Humanidade são aqueles três jovens que interceptaram uma idosa machucada e fizeram ela esperar a ambulância.

Humanidade é aquele adolescente que me deu um saco pra vomitar enquanto eu passava mal no ônibus.

Humanidade é quando nós, estranhos, nos ajudamos apesar; é quando nós, conhecidos e amantes, nos ajudamos mesmo que.

Chapter 35: 15/09/2025

Summary:

Porque eu me faço.

Chapter Text

O sol lambe a minha pele e eu finjo que não me ofendo.

Chapter 36: Formigueiro

Summary:

Porque encontro as luzes cicatrizadas nas minhas pálpebras toda vez que fecho os olhos.

Chapter Text

As setas das carros me encaram de rabo de olho, meio vesgas, acusatórias.
Sabem que no fundo fazemos parte da mesma máquina.

Chapter 37: Limiar

Summary:

Porque eu só preciso ter coragem até o momento em que eu não tenha mais escapatória.

Chapter Text

Existem entrelugares no tempo. Aqui, não me refiro a momentos de transição, mas sim momentos de espera. Os corredores e consultórios médicos da vida são momentos perigosos. É nesses lugares que costumo mudar de ideia, mas sempre é tarde.

É enquanto as formigas escalam minhas costas para fugir da água que eu me pergunto o que estou fazendo aqui na chuva.

Chapter 38: 20/08/2025

Summary:

Porque você dança e queima todos os dias quando o vento bate.

Chapter Text

As folhas das árvores se contorcem ao vento tal qual vermes em uma fogueira.

Chapter 39: Praticamente Inofensivo

Summary:

Porque eu tenho questões que me devem alguns trocados e decidi persegui-las até o fim do mundo para cobrar de volta.

Chapter Text

O sol desenhava sonhos proféticos nas costas das minhas pálpebras fechadas e eu, hipnotizado pela imagem de um novo mundo, tive que abrir os olhos antes que perdesse a chance de voltar para casa.
Até que ponto eu existo? Até que ponto sou uma invenção do sol?
Uma desculpa elaborada para que o Universo experiencie sua própria existência, talvez um pouco menos que isso.
Será que ainda sou o mesmo quando as luzes se apagam?
Agora cá estou, revirado das tripas, como quem não dorme mesmo tendo acabado de acordar.
Outro dia, sonhei com um caramujo africano grudado na parede do lado do meu rosto enquanto eu, deitado na cama, tentava dormir. Os caramujos africanos foram trazidos ao Brasil para virar escargot. Ficamos nos encarando e percebi que era um sonho. Levantei e fui passear de pijama pela rua durante aquela noite fresca de verão.
Até que ponto eu existo quando as luzes se apagam?
Venho gastando muitas folhas desconversando meus problemas, isso aqui não é diferente. Aguenta firme, tenta decodificar o que eu não sei como falar. Esse é o ponto, mas não onde eu quero chegar.
Até que ponto eu existo enquanto o sol me engole vivo?
Hei de ser um ou outro, os dois ou nenhum. Não parece certo.
Até que ponto eu existo quando fecho os olhos?
Se prosseguir, não serei capaz de voltar para casa. Me pergunto se há mesmo alguma casa para retornar. Essas questões estão me devendo uns trocados, então fui atrás de cobrar.
A lua tentava brilhar por trás das nuvens, sufocada de vapores que não choveriam tão cedo. Sua voz abafada sussurrou enquanto me encarava com os olhos cobertos e eu fui incapaz de compreender.
Soube de cara que era uma ameaça e a deixei pra falar sozinha.
Fui muito longe para cobrar das questões e agora não posso mais voltar pelo caminho que eu vim. Me pergunto se isso foi uma opção em algum momento, mas é mais fácil fingir que a culpa é minha do que confiar no destino.

Chapter 40: 10/12/25 (ônibus)

Summary:

Porque cansei de queimar nos pecados dos outros.

Chapter Text

As folhas das árvores se contorcem ao vento tal qual vermes em uma fogueira.
As pessoas nos ônibus também parecem vermes em uma fogueira, se espremendo e contorcendo. Para todos os fins, eu também sou um verme numa fogueira.
E enquanto eu queimo em cólera, enquanto meu estômago se consome de dentro para fora em labaredas, eu percebo que tenho mais em comum com as folhas das árvores do que com você.
Tem que ser muito idiota pra acender uma fogueira de gente, mesmo assim você comete os mesmos erros de novo e de novo.
E enquanto eu danço meio vivo meio morto, mais pra lá do que pra cá nesse incêndio mal controlado, passo a compartilhar do mesmo desejo do fogo de te queimar.

Chapter 41: Eu Amo Pêssego Em Calda

Summary:

Porque passei muito tempo perdoando você por decisões que não estavam maduras o suficiente para serem tomadas. Também porque estou cansado.

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

Enquanto eu comia pêssegos em calda direto da lata, ele fez questão de me avisar que crescimento por crescimento era a filosofia da célula cancerígena. Essa foi uma frase tirada de um post do twitter.
Levantei uma sobrancelha e lembrei a ele que sou um dadaísta treinado, amante das coisas sem significado, das palavras vazias que valem menos que a tinta em que foram impressas e mais que as grandes novelas.
Caçador de paradoxos pessoais, me esqueci de dormir e precisei inventar que foi um acidente. Acontece que tenho certeza que estou no controle de tudo, disso também. Meus medos são minha culpa, eu os inventei primeiro, eu os escolhi a dedo e agora preciso proceder com um tipo de cautela desconhecida por muitos. A cautela de quem constrói a si mesmo as cegas, mas consciente de cada decisão.
Ele não gostou da minha resposta, se levantou e saiu me chamando de prepotente. Tive que concordar.
Agora sozinho num quarto entulhado de memórias que eu queria me convencer que não me pertenciam, tive que me contentar em perdoar.
Acontece que quando você se convence de que só existe quando é visto, deixa um rastro de sangue no caminho do tempo. Só pode se contentar em perdoar.

Notes:

Boas festas pessoal

Chapter 42: Contentamento

Summary:

Porque eu sozinho já destruo tudo o que eu toco.

Chapter Text

Os astros gritaram meu nome de um jeito que eu nunca imaginei que seria pronunciado enquanto o céu abria minha barriga e devorava minhas entranhas; um ato de canibalismo. Só tive força para deixar cair uma única lágrima e tentei me contentar com o fato de que não era minha culpa.
Com tudo a perder, cogitei me afogar numa piscina de tédio e solitude para poder me contentar com o fato de que não mais haveria um futuro a minha espreita.
Nenhum espelho nunca mais reconheceu meu rosto e de repente notei que não pertencia nem ao mundo fora e nem ao mundo dentro dos reflexos. Tentei me contentar com o fato de que isso era o mais próximo que eu chegaria da não existência.
Foi assim que eu vivi uma vida de contentamento.

Chapter 43: Trovoada

Summary:

Porque as coisas acontecem, mesmo que você finja que não.

Chapter Text

O raio caiu, mas o trovão nunca veio.

Chapter 44: Amarelo Cólera

Summary:

Porque as vezes ainda te encontro nas esquinas, fazendo pirraça.

Chapter Text

E quanto aquela criança largada no canto da sala, o que faço quando ela chora?
É tão parecida comigo, mas não nos conhecemos.
Ela pranteia um amarelo cólera pra cima de mim e o sal dessas lágrimas é o mesmo das minhas.

Chapter 45: Dentes Sábios

Summary:

Porque perder faz bem pra alma.

Chapter Text

Há coisas sendo tiradas de mim progressivamente.
Recentemente me arrancaram 4 dentes.
Faz uns meses que tiraram de mim 3 encostos.
Pouco antes decidi cortar dois embustes.
No princípio, dei adeus a velhos medos.

Me encontro enlutado por uma versão pior de mim.
Alguém que não pode mais existir,
Alguém que precisava partir,
Alguém que merecia sorrir,
Alguém que queria ser mártir. 

Tá aí: morreu mesmo, mas só eu fiquei sabendo.
Me pergunto quantos corpos carrego comigo a essa altura do campeonato,
Se eu mesmo vou pesar muito as costas daquele que vier depois.
Mas não são pesos mortos,
Precisei disso pra chegar aqui.

Eu tenho certeza que você não existe mais,
Só que te vejo no espelho,
Fico confuso quando comparo nossas fotos,
As vezes parece que ainda somos o mesmo.

Muito cuidado, professores de filosofia
Ao falar mundo a fora sobre o barco de Teseu
Teria me economizado uma puta dor de cabeça
Não ter nunca encontrado com essa incerteza.

Chapter 46: A Maldade

Summary:

Porque não importa o quanto você siga em frente, o mundo continua sendo redondo.

Chapter Text

Quando encontrei materializada em meu reflexo a maldade em essência, me angustiei por não estar surpreso.
A história se repete com novas regras e em novos trajes.
Quando encontrei no meu peito um disco arranhado de 20 anos, me angustiei por não saber sentir mais nada.
Eu me repito de novas formas, em ordens trocadas, na esperança de dizer algo novo.
Quando encontrei nos meus olhos uma tristeza profunda, me angustiei por não tê-la visto chegando.
A única coisa que eu não tentei foi parar de me importar. Eu não me importo com muitas coisas, mas parece que nenhuma delas é a coisa que eu deveria não me importar.
Quando encontrei materializada em meu reflexo a maldade em essência, me angustiei por não tê-la visto chegando porque eu já não sei sentir mais nada.

Chapter 47: CBPGJTVFD

Summary:

Porque apenas o desgostoso teme amar e se joga ao ódio.

Chapter Text

Perdido em perniciosas parábolas, balbuciou as cegas em busca do embuste.
Embutido nos tijolos do galpão, perdeu-se gago pela ginga de João-Trovão.
Afadigado no jeito de estivador, fomentou possesso a fama do Bordel do Véu.
Verdade desvelada, fugiu pelo temor do amor.
No empenho do labor, cambava de volta os devaneios a ginga de João-Trovão.
Se fez falastrão por fora, falso indiferente indeferido da verdade.
Verdade era: tombou de paixão pela ginga de João-Trovão.

Chapter 48: MNHLHLN

Summary:

Porque na memória o mundo é melhor.

Chapter Text

Maravilhado pela magnificência de Mônaco, mirou o nariz ao mar locado por miragens do Maranhão.
Emanharado nas manhas de Londres, levou-se em memórias aos leitos de Loreto.
De lá a acolá os quilômetros lançavam-se as milhas e os médicos mascarados os quais amiudamente somava não mais lembravam seu nome.
Não mais tinha lar entre os lençóis, levara tudo ao outro lado do mundo.

Chapter 49: Amor

Summary:

Porque um dia eu ainda morro de amor.

Chapter Text

O amor é uma questão de sobrevivência.
Todos os dias eu preciso escolher amar.
Preciso cair de amores pela névoa na janela quando chove.
Preciso me lembrar de amar meus amigos.
Preciso me apaixonar pela vida de novo e de novo, toda manhã.
Eu preciso amar porque não posso deixar meu ódio vencer.
O ódio de pessoas que não existem mais.
O ódio da solidão que já não me assola.
O ódio que eu nunca pude sentir em paz.
O ódio é muito mais fácil que o amor. Por isso amar é uma questão de sobrevivência.
Se eu não continuar amando, eu morro de ódio.
Todos os dias eu preciso escolher amar.

Chapter 50: Novembro A Março

Summary:

Porque eu esqueci de me esquecer.

Chapter Text

As luzes de natal me ameaçaram de morte em código morse. 
A noite quente me engoliu por completo sem nem ter que pedir, eu mesmo me convidei.
O que se faz quando você se encontra incapaz de amar depois de ter se convencido de que a vida só vale a pena viver para se apaixonar?
Eu nunca gostei de ouvir que somos todos iguais, passaram metade da minha infância fazendo questão de me mostrar como eu era diferente. Eu não esqueço.
Nós não amamos igual.
A esmo nesse verão infinito, perdido em um calor que prometeu expurgar meus pecados, eu decidi aprender a esquecer.
Faço questão de esquecer das noites em claro, incerto sobre o dia seguinte.
Faço questão de esquecer a fome fabricada, que só eu notei.
Faço questão de esquecer os rostos e os nomes agora que as luzes brilhantes deram espaço as serpentinas.
Faço questão de ser outra pessoa. Alguém de quem eu não vá me arrepender.