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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-12-02
Words:
1,012
Chapters:
1/1
Kudos:
5
Bookmarks:
1
Hits:
40

Pulsação

Summary:

Sakusa Kiyoomi já havia aceitado que a imortalidade lhe presenteou com a solidão. Mas não esperava ver todas as suas certezas quebrarem ao conhecer um humano irritante e especial.

Work Text:

Para Kiyoomi era fácil notar: o cheiro de sangue preenchia o ambiente, a morte iminente de um ser humano prestes a deixar de respirar estava próximo. Para o vampiro, acostumado à morte e a destruição pelos últimos 200 anos, a sensação não era nova, mas se tornou surpreendente ao deixar seus instintos o guiarem até a vítima e acabar encontrando justamente Miya Atsumu.

Já havia visto o jovem universitário algumas vezes, geralmente em momentos pelo campus onde se questionava pela milésima vez o que estava fazendo ao se misturar entre os humanos. A forma íntima como o rapaz sempre se aproxima, os flertes idiotas e o sorriso bobo sempre o irritam profundamente. Ainda assim, Kiyoomi não consegue impedir que seu primo Motoya o provoque dizendo que, se seu coração ainda batesse, ele com certeza estaria acelerado pelo estudante de educação física.

Kiyoomi odeia essas provocações, sempre as descartando como fora da realidade. Ele nem queria estar frequentando o curso de literatura naquele campus para começar. Não fosse a insistência de Motoya pelos últimos séculos, sobre como ele não deveria se isolar do mundo mortal e evitar tanto os humanos, Sakusa estaria passando seus dias tranquilamente em sua velha casa, acompanhado de seus amados livros.

As aulas poderiam ser interessantes às vezes. Alguns humanos, como Tetsurou e Tobio, seus colegas de sala, não eram tão ruins. Mas ser perseguido constantemente por um idiota e falso loiro, aguentar as piadas de Motoya e a animação exagerada de Shoyo e Koutarou, seus novos amigos, era decididamente irritante. Kiyoomi poderia simplesmente ignorar o primo por mais 200 anos e se isolar em sua confortável casa? Provavelmente sim. Mas algo acaba sempre o impedindo.

Ele tenta se convencer de que é o amor pelos livros e matérias. Talvez o chá-verde vendido pelo campus, que é realmente delicioso. Ou então a sensação de se sentir vivo e presente no mundo, de onde já havia desaparecido há muito tempo, talvez no exato momento em que seu coração parou de bater. Besteiras, mas que ainda despertam aquela pequena parte da alma de Sakusa que ele se recusa a dar atenção há tanto tempo.

Mas foi essa parte que se agitou dentro dele, assim que entrou no beco escuro e sujo e viu Miya Atsumu ensanguentado e respirando com dificuldade. Em seu pescoço uma ferida que Kiyoomi conhece bem, ainda que não infrinja em alguém há muitas décadas. Ele hesitou por um momento, sem saber ao certo o que fazer e sentindo seu corpo gelado de uma forma bastante diferente de como o sente desde que foi transformado. Hesitou por tempo o bastante para ver Atsumu abrir os olhos, com aparente dificuldade para focar sua visão, e então sorrir levemente ao ver seu rosto, provavelmente assustado.

— Omi Omi… se estou vendo seu rosto, isso significa que estou indo para o paraíso?

— Não seja idiota. Me ver lhe dá uma chance muito maior de descer direto ao inferno, Miya.

Sua voz saí tensa, quase dolorosa, e ainda assim Atsumu ri de sua fala, tossindo logo depois em aparente dor pelo movimento. Quando se dá conta Kiyoomi já está ajoelhado ao seu lado, segurando seu rosto com cuidado e analisando seu ferimento. Ruim, ruim demais para ser curado em um hospital humano, grave demais para que ele sobreviva. Isso faz uma dor lancinante, que Sakusa nem sabia ser capaz de sentir, atravessar seu corpo. Ainda que nunca conte para Motoya, até mesmo Kiyoomi precisa admitir que, se seu coração ainda batesse, ele estaria acelerado nesse momento.

— Ei, não faça essa cara. ‘Tá tudo bem, Omi Omi… eu vou ficar bem, ok?

A tentativa patética de Atsumu de sorrir, erguendo sua mão para tocar o rosto de Kiyoomi com aparente dificuldade, como se estivesse tentando acalmá-lo, consolá-lo quando sua vida está se esvaindo… isso irrita Sakusa. O enfurece, sua mente ficando em branco sem notar que sua expressão demonstra mais dor do que foi capaz de fazer pelos últimos 200 anos. Sua mão se fechando em punho enquanto seus olhos ardem desejando derrubar lágrimas que deixaram de existir há muito tempo.

— Não é comigo que você deveria se preocupar.

— Eu sempre me preocupo com você, Sakusa. Afinal, eu me apaixonei por você desde a primeira vez em que te vi andar pelo campus.

O sorriso no rosto do Miya é tão doce que faz Kiyoomi perder o foco, ansioso por mantê-lo ali. Ele segura a mão do humano, aquela que ainda tenta ficar em seu rosto, lhe dando um carinho quase fraco demais para ser sentido. Sakusa consegue sentir seu braço prestes a cair de volta ao lado do corpo, sua respiração cada vez mais suave enquanto seu coração vai ficando mais lento. O desespero toma conta dele, um medo gelado e cruel misturado a angústia pelas possibilidades.

Sakusa odeia ser um vampiro. O cheiro da morte, o gosto do sangue, a angústia da morte em vida, a imortalidade que o obriga a continuar vendo um mundo em constante transformação enquanto ele nada muda. Motoya sempre foi o oposto, vendo o futuro como possibilidades infinitas, lhe dizendo para aproveitar mais, se aventurar mais e amar mais. Amar aos humanos? Amar a ideia de perder? Não, obrigado.

Fazer parte do mundo deixou de ser uma opção para Kiyoomi há muito tempo, assim como a possibilidade de ter amigos ou família, com exceção de seu irritante primo. De ter amores. Ele havia decidido, no momento em que entendeu o que era, que jamais transformaria alguém em um ser tão desprezível quanto ele.

Uma decisão fácil de manter, ao menos até aquele exato segundo. Até sentir a pulsação de Miya Atsumu cada vez mais fraca, seu irritante sorriso se apagando e seu calor o abandonando. Até um desespero tão profundo tomar conta de si que Sakusa não se reconheceu. E então seus caninos apareceram, em um ato desesperado de amor, de ódio, de anseio, de esperança. E seu veneno pulsou pelo corpo de Atsumu, partindo do ponto em seu pulso onde Sakusa o mordeu.

— Se você se preocupa comigo, então não me deixe… volte pra mim, Atsumu.