Work Text:
É, é isso, passar o natal com ex-colegas, pessoas que sequer conhecia tão bem, só para não ter que sentir que uma data comemorativa é apenas um dia de folga, para ter um conforto de companhia, foi com certeza uma das idéias já tidas. Mas, porra, que idéia de gerico! Coisa de filme, sério, era para ser uma noite de bebidas e amigo secreto, um escapismo daquela situação desconfortável com seu pai, que nunca ligou para ele, porém acabou se tornando em um literal pesadelo. Bravo, puto, estressado, todo e qualquer adjetivo possível que descrevesse a raiva do momento não seria suficiente para expressar a insatisfação de morrer daquela maneira: sozinho, com nada além de arrependimentos e rancor. “Eu devia ter corrido, por que que eu fui tentar distrair esse maníaco?”, “Mas do que adianta se remoer tanto agora?”, “Quando que isso acaba?”.
A dor era excruciante, a morte nunca foi tão longa, e cada machadada o lembrava do fracasso que tinha se tornado e onde havia se metido. Entretanto, em meio a essa mistura de emoções negativas, ele ao menos sentiu o alivio de ter livrado seu “amigo” - se é que podia chamar ele assim - do seu mesmo destino, pelo menos o Ricardo poderia contar aos outros e salvá-los de terem esse fim.
“Porra, que merda! Eu podia estar sendo rabugento na minha casa, mesmo que sozinho; Mas quem eu tô querendo enganar também, apesar de bancar que gosto, não acho a solidão tão aconchegante assim.”
Talvez em alguma outra realidade, ele escolhesse melhor e fugisse na mesma direção que Ricardo, talvez em alguma outra realidade, ele não tentasse se esconder no momento de agonia, talvez em alguma outra realidade, o assassino nunca chegasse no acampamento, talvez em alguma outra realidade, ele e o pai festejassem o natal juntos, talvez em alguma realidade, ele só aproveitava essa data infeliz em algum jogo online e comendo um delivery qualquer, ou talvez em todas as realidades, ele esteja fadado a uma morte carregada de arrependimentos e dor.
