Chapter Text
O piar de uma coruja me despertou e de repente sentiu uma textura firme e irregular em minha coluna, ao abrir os olhos, me deparo com um campo florido, onde todos os botões de flores estão abertos de uma forma delicada e incontestavelmente bela, algo assim geralmente ocorre apenas no ápice da primavera.
E isso é o que torna a situação ainda mais estranha pois da última vez que chequei era inverno, e não apenas isso, era simplesmente inverno mais intenso das últimas duas décadas.
Olhando em volta enxerguei flores que geralmente não nascem no mesmo tipo de clima e sim em ambientes diferentes. Crisântemos, camélias, tulipas, margaridas, lírios e até mesmo rosas de diversas cores crescendo lindamente lado a lado, e isso simplesmente não faz sentido, me encontro em um lugar em que nunca estive antes.
Devo estar sonhando outra vez.
Ter sonhos lúcidos é algo que me ocorre com frequência, mas, é uma das poucas graças em que não sonho com situações difíceis ou com demônios, é simplesmente doce.
É um dia aberto e sinto meu cabelo balançando ao que uma brisa atravessa fresca o ambiente espalhando o cheiro doce e suave das flores.
As cores da natureza se misturam transmitindo uma sensação de tranquilidade, algo quase espiritual.
O barulho do vento tocando as folhas e balançando os galhos formando uma bela sinfonia, uma música tranquilizante e uma linda dança, tudo tão perfeito que acaba trazendo uma sensação gostosa para o peito, um quase levitar.
Enquanto dou meus primeiros passos em meio às flores, começo a escutar o barulho de água, é quase como um convite e ao mesmo tempo uma intimação, e simples assim já sei pra onde devo ir.
Pelo caminho vejo pássaros, vários deles, uns de espécies comuns como andorinhas e canários e outros que eu nunca conseguiria inventar na minha cabeça, penugens exóticas, mas belas, é bonito ver como eles cantam felizes e voam de forma livre.
Atravesso em meio a borboletas de diversos núcleos que parecem brincar juntos a natureza e até mesmo pequenos coelhos que nem parecem notar minha presença e se a nota não se incomodam nenhum pouco comigo.
Ao me aproximar do que descobriu ser um rio, o piar da coruja se faz novamente presente e de modo automático paro e olho para cima ainda sem enxergá-la, ao que olho em volta vejo uma figura pequena deitada de forma desleixada, encostada a uma árvore, a maior árvore que vi até agora.
Uma mulher com uma aparência quase angelical, o dilatar em minhas pupilas é quase palpável e o meu coração acelerou-me levemente. Essa mulher parece até ter saído diretamente de uma fantasia, ela é algo que nunca imaginei desejar, me sinto um pecadora.
Usando um vestido sem manga e em um tom de branco que é tão branco que destaca seu tom de pele e com alguns detalhes em dourado que a fazem parecer uma fada, ela quase brilha ao que cantarola alguma canção que não consigo compreender da distância que estou, apenas vejo seus belos lábios rosados em movimento ao que ela começa a balbuciar o que parece ser a letra.
Volto a caminhar desejando mais que tudo esteja perto dela.
Ela tem cabelos ruivos, longos e com cachos cheios, o cor de seu cabelo e a pele extremamente clara destacam seus olhos azuis, tornando-os quase cristalinos.
Tudo isso em conjunto com uma estatura média que faz com que ela exale certa engenhosidade, mas, apesar de toda a delicadeza de sua aparência e de sua postura relaxada, mantém um olhar pensativo e até mesmo um pouco preocupado em direção ao rio, algo que só pude perceber agora que estou perto.
Antes que eu pudesse dar por mim, estava puxando assunto com ela.
— O que você perturba? — disse e ela sobressaltou ao ouvir minha voz só então notando minha presença.
Me aproximei apenas o suficiente para não assustar-la mais ainda, seu cheiro era mais doce que todas as flores que nos rodeavam, me senti estranhamente inquieta.
Ela me olhou de cima a baixo por um tempo, em uma espécie de análise enquanto ainda permanecia em silêncio.
Aproveitei o momento para admirar-la agora de perto, gostei mais ainda do que vi, pulseiras e colares dourados e com cristais delicados e se destacando no meio disso uma ônix em uma corrente prateada, tudo como se tivesse sido feito sob medida para ela.
— Quem é você? — foi o que saiu de sua boca quando eu já nem esperava uma resposta.
— Sou Kali— respondi imediatamente enquanto movia meu olhar para seu rosto e sorria amigavelmente — E você quem é?
A bela mulher me encarou por mais um tempo antes de me responder, apesar de sua seriedade sua postura ainda era confortável.
— Não sei— deu de ombros se mantendo séria.
— Como assim? — perguntou ao que franzi uma sobrancelha curiosamente, ela parecia estar passando por um debate interno.
Minha mãe já me ajudou e não foi assim. “Entrona”, mas eu simplesmente não me consigo conter, faz parte de quem eu sou.
— Simplesmente não sei— ela finalmente expressou algo ao também franzir a sobrancelha em um sinal de curiosidade- você realmente sabe quem você é? Além de seu nome quero dizer.
— Sei— respondi de maneira simples- bom, pelo menos sei quem eu sou agora- conclui.
Seus olhos expressaram certa incredulidade quando ela me olhou por mais um tempo, até que ela acenou com a cabeça como se não importasse.
- Você me incomodaria dizer? - questionou após mais um período em silêncio e sorriu levemente com o canto da boca.
- Nunca, eu adoro falar! - disse empolgada e ouvindo um risinho- Meu nome é Kali como a Deusa hindu mesmo e por isso meu nome significa força do tempo, minha mãe me batizou assim e por enquanto eu ainda não tenho um segundo nome!
- Segundo nome como um nome composto? – questionou.
- Quase isso!- ri- minha mãe é uma mulher interessante para não dizer estranha e ela costuma dar outros nomes as pessoas mais próximas um segundo nome que é como uma benção, minha irmã mais nova por exemplo tem como nome de nascimento Tyla que significa personalidade contagiante, inteligência, criatividade, liderança e mais um monte de coisas boas e não vou mentir, é o nome perfeito pra ela, mas a mãe a chama por Alexia que significa auxiliadora ou protetora e também é perfeita para minha garotinha!
- E qual é o nome da sua mãe? - Disse e se sentou abraçando os joelhos ainda me encarando.
-Eu chamo de Lua.
- Você te chama pelo nome?
- Às vezes e embora Lua não seja seu nome também me refiro a ela dessa forma.
- Zumbir.
- Você quer me dizer algo sobre você? - questionei- Algo como o seu nome pelo menos?
- Quer saber meu nome? - deu docemente e eu acenei com a cabeça- advinha! - concluiu com um risinho.
- Sério isso? - Questionei sorrir de volta- deixa eu pensar por um momento! - observei seu rosto descaradamente e percebi certo rubor aparecer em suas bochechas- você é fofo, deve ter um nome fofo!
- Fofa? - o rubor passou a preencher todo o seu rosto.
- Fofa, muito fofa- assegurei- você parece nova, mas vou chutar que você nasceu antes dos anos 2000, vou chutar Lily pois acho que combina com você, mas tenho quase certeza que vai ser algo com o significado parecido e não esse!
- Você errou o nome, mas acertou em algumas outras coisas, - respondeu já parecendo mais leve- Me chamo Diana.
- Viu, fofo e combina com você!
- Não me acho fofa, mas te acho bem bonita.
- Bonita e não gostosa? Porra, nunca achei que gostaria de ouvir isso!
- Não te dizem que você é bonita?
- Não te dizem que você é fofo? - rebate
O piar da coruja se tornou ainda mais alto, o que fez com que ambos olhamos para cima, ela não estava visível, mas parecia se mover sobre nossas cabeças, ao que olhou novamente para Diana ela sorriu abertamente como se a enxergasse.
Decidi não falar sobre isso e desviei a atenção para os cristais que compunham suas joias.
Praticamente todas elas contendo correntes douradas que parecem ouro de verdade e pequenas pedras, alguns quartzos variados, opalina, hematita, alguns cristais e um colar prateado com uma grande ônix preta.
Tudo estando equilibrado e parecendo perfeito nela.
Quando meu olhar alcançou seu rosto novamente ela já me olhou parecendo constrangida.
- Gostei de suas joias! – exclamei- onde comprou?
- Obrigada eu acho, - Respondeu desviando o olhar- minha mãe geralmente manda fazer-las.
- Quem as faz tem um talento especial para polir pedras- e energizar também, conclui em minha cabeça.
- Concórdia! - deu uma risada ao que finalmente me olhou nos olhos novamente.
Antes que eu pudesse pensar em dizer algo mais, ouço novamente o piar da coruja e dessa vez a localizo voando perto de onde estamos, ela parece agitada, impaciente sorri e aceno com a cabeça para ela.
— Ok— ela disse e desviou o olhar, olhando o pôr do sol por cima do rio por um tempo antes de continuar— eu tenho que ir agora.
— Vai pra onde? —perguntei e ela me encarou com simplicidade e brilho levemente.
Acho que me apaixonei por um sonho.
Antes mesmo que ela pudesse responder, acordei.
Acordei e me encontrei ainda sentado no chão, em meio a cristais, velas apagadas e apenas uma delas persistente queimando, tive algumas flores próximas a mim o que me lembrou instantâneamente do que provavelmente me levou até aquele jardim.
Verifiquei as horas no celular e já era manhã, eu tinha iniciado aquele pequeno ritual perto da meia noite de ontem, uma meditação com o propósito de me conectar com a energia que passou o dia inteiro me incomodando.
Funcionou, mas não da maneira que eu estava esperando.
E bom, isso foi novo, geralmente sonho com pessoas da minha família ou com amigos, conhecidos no geral, nunca havia conseguido me conectar profundamente o suficiente com outra pessoa para estar no sonho dela.
Diana...
Um rosto lindo e delicado e uma postura que a faz brilhar, literalmente eu a vi brilhar.
Será que é assim que os anjos parecem? Ou será que ela brilhará assim por ter sido nomeada como a Deusa da lua?
Eu não sabia que minha mente era criativa o suficiente para inventar uma figura tão bela, será que realmente existe alguém assim?
Lógico que sei que pessoas ruivas de olhos claros existem, mas ela era mais do que isso, tão bonita que me deixou confusa, algo a ver com sua aura, preciso lembrar de pesquisar o que isso pode significar, sonhar e sentir alguém celestial.
Escutei uma série de miados agudos seguidos por arranhões em minha porta e decidi por fim me levantar, a postura na qual cai no sono já cobrando seu preço com uma dor tremenda no quadril e uma dificuldade imensa para ficar de pé, mas não teria como fugir até porque Kira a minha gata não me deixou em paz para voltar a dormir, ela queria ração.
Era parte de sua rotina fazer isso.
Ao que tentei me levantar me apoiando na cama senti certa dormência nas pernas e uma dor chata na coluna, dormir sentado e de pernas cruzadas em posição de lótus traz resultados instantâneos e ruínas.
Caminhei me arrastando pelo quarto, sentindo meu quadril e ouvindo os miados se intensificando.
Abri a porta me parei não só com Kira, mas também com Reginaldo meu gato mais novo.
— Ei, bebês — falei enquanto pegava-os no colo— decidimos acordar a mamãe juntos hoje?
Ambos miaram como resposta, o miado do Reginaldo se estendeu ao que ele se contorcia para ser colocado no chão.
— Calma chato— falei descendo-o de meu colo antes que ele começou a brigar com a minha gata e antes que suas quatro patas tocassem o chão ele já estava correndo em direção as escadas com certeza indo para o pote de ração.
Servi a ração de meus amos e troquei a água da fonte como me foi solicitada e só então fui liberada para me preparar para o dia, essa é a vida de quem decide adotar gatos, você se torna o servo deles.
Tomar um banho gelado num frio desses é algo que exige muita coragem, mas que para mim é necessário, pois é a única forma que eu consigo acordar.
— Kali — disse de maneira afobada entrando em meu quarto de maneira abrupta— quantas vezes é aceitável faltar a escola por semana?
— Primeiramente, bom dia Tyla— disse ao encará-la com uma sobrancelha erguida— por favor bata na porta antes de entrar, e por fim, para o desenvolvimento escolar e os órgãos responsáveis é aceitável faltar apenas com a apresentação de médico atestado.
Tyla me olhou com descrição como se minha resposta fosse ofensiva.
— Que se fodam a coordenação escolar e que os órgãos responsáveis se preparem para ir a merda — basicamente incluídos enquanto me olharam com indignação. — Eu quero saber o que você acha.
São 6h30, e a adolescência já está agitada dentro dela e tornando seu temperamento ainda mais aflorado, intenso. Não a culpo, mas não deixo de julgá-la.
— Um dia na semana em semanas importantes e duas vezes na semana em semanas normais. — Falei com voz e cara de tédio e ela sincera de orelha a orelha— mas, se você continuar burra como no ano passado você deve ir todos os dias e tentar conseguir aulas de reforço. —Conclui.
— Vai se foder! — foi a última coisa que ela mencionou antes de sair do quarto e eu gargalhei.
Não é como se eu fosse uma irmã ruim, muito pelo contrário, cuido dela da melhor forma possível, o ponto é: eu ainda sou uma irmã mais velha.
Ao terminar de me arrumar, certifique-se de pegar meu celular e um casaco pesado até porque o tempo não está pra brincadeira, desci as escadas e fui direto para a cozinha, preciso tomar o café da manhã.
Estou tentando parar com o hábito de pular refeições, já estou começando a ficar anêmico e não quero ter que lidar com isso de novo.
Entrando no quarto dou de cara com Tyla, agora pronta pra aula e totalmente calma.
— Mana, você já vai pro trabalho? — me perguntei de maneira estranhamente dócil. Suspeito.
— Vou apenas preparar algo rápido pra comer e vou em seguida, quero chegar mais cedo— olhei pra ela fazendo uma careta— por quê?
— Quer que eu prepare algo? — respondi desviando de minha pergunta e já indo em direção a geladeira e pegando meu iogurte integral favorito.
Me sentei em uma banqueta, coloquei meu celular na bancada e observei com atenção.
— Por quê? — querido e senti meu rosto se contorcer um pouco mais— você vai cuspir no meu café da manhã de novo? — questionei enquanto a observava com ainda mais intensidade enquanto ela colocava o iogurte e as frutas que já estavam cortadas quando cheguei em uma tigela.
Ela parou por um momento, olhou em meus olhos e logo em seguida finalizou meu iogurte colocando mel e granola por cima.
O fato de esse ser meu café da manhã preferido tornava as coisas ainda mais suspeitas.
— Não tenho motivos para isso — Disse-me entregando e se sentando do outro lado da bancada e agora ela era quem me enfrentava com intensidade. - Vir.
Apesar da estranheza da situação decidi dar um voto de confiança a ela.
— Obrigada, maninha — agradeci e logo coloquei a primeira colherada na boca.
Ela sorriu abertamente.
— Agora que você começou a comer você já pode saber, — pausou sua frase de um modo que me fez arregalar os olhos e parar de mastigar — Preciso de uma carona pra aula —Disse e agora eu que estava incrédula.
—TayTay, eu te amo, mas eu juro que se você agir de maneira tão suspeita por um motivo melhor de novo eu te abandonei. — disse de maneira exasperada e a peste riu, riu tanto que se engasgou, e mesmo tossindo tentava falar.
— Você foi quem me provocou primeiro, — disse com uma cara de deboche— mas é sério, preciso que alguém me leve, a tia Márcia quer conversar com algum responsável meu— disse com simplicidade, ainda que um leve tom de desgosto pudesse ser percebido no fim.
— Garota pelo amor de Deus, o que você fez agora? — Perguntei com um tom sério, mas por dentro eu estava achando graça— Você ameaçou outra pessoa?
— Ameaçar alguém? nunca fiz isso — disse com uma ironia quase palpável em sua voz — mas talvez eu tenha ficado com a namorada de alguém e esse alguém pode não ter gostado de descobrir isso e me tentou bater — fez uma pausa para observar minha ocorrência, quando viu meu olhar de incredulidade contínua — e eu tive que bater nele, porque você mesmo disse que eu não fui criado para apanhar de ninguém na rua.
Puta que pariu, eu criei um monstruoso.
— Só uma dúvida, quando e onde você ficou com essa menina? — fez semanas que essa praga não saia de casa sozinha, sempre esteve ou comigo ou com meus pais— e como você foi descoberta tão facilmente? Eu ajudei a te criar e sei que você não tem nada de idiota.
Ela arregalou os olhos como se tivesse sido pega.
— Tá — disse e soprou o ar pelas narinas — eu posso ou não ter uma rixa, algo pequeno com o namorado dela e eu também posso ou não ter ficado com ela no banheiro da escola e ter sido pega, mas não foi nada demais e você não pode me julgar, sempre chamavam os pais na escola na sua época também, tanto que boa parte da minha fama de ser uma ameaça vem do seu legado.
De certa forma é verdade, eu realmente deixei um legado naquele lugar.
— Meu legado não tem nada a ver com o seu — disse de forma tranquila enquanto ainda comia— Meu legado foi sobre ser convicta dos meus ideais a ponto de conseguir mudar algumas regras desse lugar, dar mais liberdade para os alunos, eu fiz revolução, o seu é sobre ser uma ameaça de uma forma diferente, você gera revolta, o que geralmente resolve as coisas, mas nunca de forma calma — conclui e ela fez uma expressão de ofendida ao que colocou uma mão no peito— mas eu vou conversar com a Márcia— disse depois de ver que ainda estava cedo— hoje eu só entro às 9h.
Ela comemorou com uma dança e alguns gritos.
— Que bom que é você que vai e não a mamãe, ela fica pedindo pra eles me castigarem, e eu acho isso injusto, te devo essa e eu juro que dessa vez pago, da melhor forma.
Não sei por que me sinto em perigo. Isso é um mal presságio, um aprendiz do diabo quer fazer algo bom.
— Vai pagar em dinheiro ou vai ser minha escrava? — quis já me encaminhando em direção a pia para lavar o bowl— Vai buscar sua mochila, um casaco mais grosso e aproveita e traz a minha bolsa porque eu só vou escovar os dentes aqui embaixo e a gente já vai. – Conclui.
— Nenhum dos dois, vou fazer algo muito melhor— já indo em direção às escadas ao que eu também ia em direção ao banheiro já usando meu casaco— você não está pronto pra isso, vai ser um presente abençoado pelos deuses.
O que ela disse só me deixou ainda mais alarmada, não confio nessa espera de repente, mas espero que realmente seja algo bom.
Quando já estava pronta e ela já tinha descido usando o casaco mais grosso e com as bolsas nos braços peguei minha carteira, as chaves da casa e do carro na mesa de centro e o celular na bancada da cozinha, fomos em direção ao carro, depois de ter verificado duas vezes se eu realmente havia trancado a casa, porque obviamente é melhor prevenir do que remediar.
Mal entramos no carro e ela já conectou o celular no aparelho de som, liguei o carro e comecei a dirigir.
— Acho que sua playlist é boa, senão eu vou colocar a minha.
— Minha playlist é ótima— garantida— você me ensinou a ter bom gosto.
E como se confirmando o que ela disse a música que começou a tocar foi Bow Down na voz de Amaarae.
— Pelo menos isso você não deu pra ruim — afirmei e ela revirou os olhos— Aproveita que você tá no celular e pesquisa o que significa sonhar com um anjo.
— Por quê? — indagou— você sonhou com anjos?
— Acho que sim, mas não sei dizer se era um anjo, uma fada ou uma pessoa que simplesmente é muito bonita, e também não sei dizer se foi realmente um sonho.
— Posso pesquisar os três?
— Se você parar de enrolar e pesquisar logo sim.
—Kali, pergunta serião, você por um acaso nasceu há 7 meses? — tirou o cabelo do rosto e me encarou— sua impaciência me estressa.
— Sim Tyla, eu nasci há 7 meses— respondi o que ela já devia saber— e não é como se eu fosse impaciente, você simplesmente enrola demais.
— Sonhar com os anjos pode significar— começou a ler— Qual o contexto, o que o anjo fazia?
— Estava sentado embaixo de uma árvore e observando um rio, — respondi— parecia preocupado, mas era linda.
Já estávamos nos aproximando da escola.
— Não tem nada falando sobre isso aqui. Próximo, uma fada.
— Deixa isso pra lá, depois eu pesquiso nos meus livros, — já estamos ficando sem tempo pra isso— troca de música, essa é péssima.
— Primeiro, péssima é você, e segundo, vou desligar estamos na rua da escola, e terceiro me conta seu sonho— disse se virando no banco pra me observar melhor.
— Eu sonhei com a primavera— disse e comecei a procurar uma vaga próxima ao colégio.
O lugar era simples, bem típico de um colégio estadual do interior.
Um prédio de dois andares e cerca de 14 salas de aula, um auditório, duas salas de informática, dois pátios com mesas e cadeiras os espaços do corpo docente, uma quadra esportiva no mesmo terreno e um pequeno jardim com uma horta ainda menor próxima a ele.
O espaço havia sido pintado recentemente e está esperando isso de reforma, como em todo ano eleitoral.
— Me conta direito — tradições com a voz manhosa — por favor.
— Depois eu conto, será que a Márcia estará realizando atendimentos? — disse já caminhada em direção a segurança enquanto checava meu celular.
Aparentemente, você não precisará trabalhar hoje. dois dias de folga surpresa, algo maravilhoso depois de trabalhar por pelo ter preciso coberto plantações várias vezes nas últimas semanas.
—Provavelmente não, ainda é a hora da entrada— disse enlaçando nossos braços— aproveita e me conta seu sonho, eles sempre são bons.
A ignorei ao que chegamos ao nosso primeiro destino.
— Bom dia dona Rita— sorri para a secretária— tudo bem com a senhora?
—Bom dia querida— respondeu abertamente surpresa ao me ver— estou bem sim, algumas dores aqui e outras ali, o marido dando um pouco de trabalho como sempre e um filho que decidiu voltar a adolescência aos 25 anos, mas tudo bem, e você como anda?
— Desconsiderando TayTay, tudo anda bem — respondi e ela riu enquanto Tyla protestava.
— Ei, eu sou um anjo, vocês que não me entendem, mas bom dia tia Rita— disse com um sorriso enorme— a tia Márcia já está atendendo?
— Ainda é horário de entrada criança, ela começa a atender em 30 minutos e tem um atendimento marcado, mas, posso agendar o de vocês pra logo que esse terminar, tudo bem? — ela nem ao menos esperou uma resposta para começar a digitar no computador, apressada como sempre.
— Tudo ótimo, estamos esperando no pátio, ok?
— Claro, depois vamos marcar pra colocar o papo em dia querida.
Com colocar o papo em dia ela quis dizer que precisa de conteúdo pra espalhar coisas sobre mim e também aproveitar para que ela pudesse reclamar do marido e do filho, coisa de gente um pouco mais velha.
— Com certeza vamos marcar dona Rita! — respondi com o meu melhor sorriso.
— Vamos logo pra você me contar sobre seu sonho — saiu praticamente me arrastando em direção ao pátio— Você tá com vergonha de me contar por que foi um sonho safado?
— Garota, por que você é assim? — olhei em volta— tem um monte de adolescente aqui.
— E daí, eles são piores que eu. — falou com seriedade e eu tive que rir.
Chegamos ao pátio e escolhemos uma mesa um pouco afastada das pessoas.
— Podem ser ruínas, mas você é o melhor em ser péssima.
— Oh, obrigada por notar meu esforço, mas para de tentar se esquivar do assunto e me conta logo e se for bobo eu juro que faço um escândalo.
— Se prepare para fazer o escândalo então porque não aconteceu nada demais— disse enquanto pegava meu celular novamente. — No sonho tinha uma moça bonita, tipo, muito bonita mesmo e eu ia atrapalhar o sossego dela pra ser curiosa.
— Só isso? — praticamente quase como um coro com o sinal que finalmente tocou— vai enganar outro, o que mais aconteceu? E por que você precisa ser um tesouro até em seus sonhos?
— Não aconteceu nada, mas eu posso ter me sentido um pouco apaixonado por um sonho e pelo amor dos Deuses para de me chamar de estorvo sua praga.
— Puta merda, você tá mais cuidado do que eu imagino! — abriu um bolso da mochila e suspendeu o celular— a gente vai criar seu perfil no Tinder é agora e no Badoo depois, como assim uma das únicas pessoas mais gostosas que eu nessa terra estando na seca o suficiente pra se apaixonar por um sonho?
Meu Deus, eu amo essa garota. E é meio estranho ela dizer que eu sou mais gostosa que ela sendo que ela é praticamente uma cópia minha e de quase todas as mulheres da família da nossa mãe.
Tyla tem a pele morena, cabelos cacheados e castanhos claros que ela sempre gostou de manter nos ombros e embora tenha o corpo bastante curvilíneo tem feições delicadas que a tornam bem feminina, minha irmã é uma princesa, tem alongamentos escuros, lábios em formato de coração do tamanho perfeito e um nariz lindo.
Se parece muito comigo, mas ainda existem traços que nos diferenciam e nos tornam únicos.
Acredito que apenas somos gostosas de maneiras diferentes, nem uma é mais do que a outra.
— Garota, eu sei que sua intenção é das melhores, mas eu não quero ninguém não! Estou muito bem sozinho.
Quando Tyla me olhou indignada eu já comecei a rir e me preparei para ouvir os maiores absurdos que a mente perturbada dela poderia computar.
— Garota, você não tá entendendo, você tem 23 anos e tá mais na seca que as tias do asilo, como você consegue? Você tem homens e mulheres que querem e não aproveitam e pior, você chegou em um nível que tá querendo pegar um sonho mulher eu não acho que você tá bem.
Porque essa garota tem o Tinder instalado?
— Ty, eu sei que a gente em casa não te proíbe de muita coisa, mas eu não acho que você tenha o Tinder instalado no celular seja bom pra você de alguma forma, você está mencionando sua idade?
— Não, quer dizer, eu realmente menti pra criar um perfil, mas, eu não uso, tenho muita gente esquisita.
— Vou confiar em você, porém vou deixar claro que para sua segurança eu vou ficar de olho em você, tudo bem?
— Tudo bem, agora para de enrolar e vamos começar a criar seu perfil?
—Você é a Kali, não é? — Uma mulher loira disse do nada. — Kali como a Deusa.
— Sou, mas quem é você? — olhei para ela e depois para Tyla— Você está falando de mim por aqui?
Tyla negou com a cabeça de forma exasperada, mas antes que pudesse dizer algo a mulher me respondeu.
— Eu sou Lakshmi, como a Deusa — disse sorrir e minha irmã gargalhou— você lê o Tarô, não é? Você poderia ler pra mim?
— Mulher pelo amor de Deus, você tem a maior cara de Claúdia e fica aí com graça e outra coisa de onde você surgiu e como 'cê tá sabendo tanto da minha irmã?
Ainda um pouco surpreendente sobre o fato de essa mulher me “conhecer”, decidi apenas observar a situação. Ela é uma mulher bonita.
É alta, magra, pele clara, olhos verdes como esmeraldas, está bem-vestida e como um contraste a sua aparência delicada tem uma presença forte, é quase como se não tivesse nada a temer e o mundo estivesse em suas mãos e é como se eu estivesse na presença dos Deuses.
— Qual é o seu nome garota? — encarou minha irmã como que em desafio
— Tyla, qual é o seu nome senhora? — encarou-a de volta de uma forma ainda mais intensa.
— Madalena, e eu sei que não combina. — disse sorrir— Eu sei que você não quer ouvir, mas vou te dar um conselho, — olhou bem nos olhos de Tyla— eu sei o que você fez, eu vi, mas você não acha que está na hora de parar de fingir que é infantil e que não faz nada de bom? Eu sei das suas atitudes ruínas e também sei das boas e do impacto positivo que você tem tido na vida de uma porrada de gente, eu vi o que você fez, fiquei ciente das orações que você faz sem nunca pedir nada pra si mesma e também sei que você não só defende os que precisam, mas também age como terapeuta na vida deles, por que você não quer que saibam que você é uma madre Teresa e não uma aprendiz de satanás?
Eu fiquei ainda mais surpresa e minha irmã me olhou um pouco surpresa e um tanto assustada, eu sempre soube que ela é uma boa garota, mas como eu não fiquei sabendo dessas coisas que ela havia treinado ea fazendo e pior como essa esquisita ficou sabendo?
— Porra, não fode com a minha imagem de garota problema não, e você veio de que canto do inferno? 'cê tá me seguindo? 'Cê tá me assustando pra caralho mulher.
— Você pode ler as cartas pra mim? — disse ignorando completamente a Tyla — eu sei que você sempre anda com um baralho na bolsa.
Pensei por um momento se deveria abrir um jogo pra ela e cheguei à conclusão de que essa seria a melhor maneira de descobrir algo sobre ela.
— Leio, — disse enquanto tirava meu baralho da bolsa e ignorava os protestos da minha irmã— tem algo específico que você quer saber?
— Não, pode ser uma mesa aberta.
Acenei com a cabeça e comecei a embaralhar as cartas, enquanto tentava me conectar com algo, mentores, antepassados, deuses ou qualquer energia que estivesse ligada a essa mulher, com certeza seu nome não é Madalena.
Enquanto embaralhava algumas cartas voavam, muita energia, e algumas outras me chamavam a atenção, fui as colocando na mesa e tentando entendê-las.
— Você mexeu com livre arbitragem de alguém recentemente, não foi? As cartas falam sobre um carma, mas não é antigo é como se ainda estivesse sendo formado, você não acredita, mas você vai pagar.
— O Destino está a meu favor então vai sair barato.
— Não, não vai, existem coisas que nem o destino podem controlar — disse de modo sério e ela revirou os olhos— você vai pagar por isso e está na hora de aprender com os erros, você sabe disso, peça permitida.
— Ok, entendi, você vê algo mais?
Ao que observava as cartas através de uma escolha e acabei me enxergando em meio a ela.
— Por que eu? — quis ao que tirava mais algumas cartas— Não vejo o que, mas vejo que você de alguma forma me escolheu para algo.
— Não escolhi você, escolhi outra pessoa, mas acabei cometendo um erro e te envolvai. E o que está feito está feito e não tem como mudar, quero apenas que você esteja ciente disso.
Acenei em concordância.
Vi também uma criança em seu destino e o carma sendo superado, mas uma voz me pediu para não falar sobre isso, não questionei, apenas obedeci.
— Me pediram para parar de tirar cartas e finalizar essa leitura. Você deve parar urgentemente de fazer o que quer que você esteja fazendo da forma que você está fazendo senão além do seu carma você vai receber o carma de outras pessoas, e para de mentir sobre o seu nome, espero que a Lua e o Sol te abençoem.
— Obrigada por isso Kali, que o destino fique a seu favor e que você saiba lidar com ele, — disse e fez uma pequena reverência com a cabeça— e boa sorte garotinha atrevida, seja mais você mesma, espero que minha filha seja como você.
— Que filha ou que Margaret, nem te engravidei tá. Não sei se posso abençoar as pessoas assim, mas espero que você consiga livrar desse seu carma e que seu filho seja saudável e exatamente como você.
— É Madalena e os Deuses não seriam cruzeiros assim com uma criança menina, até logo Kali, adeus Tyla.— respondeu e começou a se afastar.
— Kali, como você lida tão bem com a gente maluca? — foi a primeira coisa que disse depois que a mulher se foi.
— Já me costumei, como você sabia da criança?
— Como se acostuma com essas coisas mulher, e eu sinto uma criança com ela, mas não no ventre dela. Só que eu ainda não estou pronto para falar sobre essas coisas.
— Quando você estiver pronto pode conversar comigo, com a mamãe ou com a vovó, ok?
— Kali, uma vovó morreu há anos.
— Eu tenho certeza de que ela está apenas esperando o momento em que você estiver pronto para conversar com ela pra te instruir.
— Podemos mudar de assunto?
— Podemos falar sobre o que você tem feito de bom?
— Ah, — ela parecia um pouco insegura ao me olhar— não é nada demais.
— Mas ainda assim me faria feliz se você compartilhasse comigo.
— Ao invés disso, a gente poderia aproveitar que você já está com o baralho na mão e você poderia ler as cartas pra mim.
— Você é ótimo em fugir das coisas né gatinha?
— Sim, mamãe sempre diz que eu sou escorregadia igual a um Mussum.
— E o que seria um Mussum?
— Um peixe muito escorregadio, você vai abrir a mesa pra mim?
— Estou pensando se devo, você vai querer ficar na escola depois de conversar com a Márcia ou vai querer ir dar um passeio comigo? Me deram folga.
— Obviamente quero ir embora, mas o passeio seria onde?
— Prefere ir ao centro ou não fazer compras?
— Centro, o shopping daqui é fora de mão e não tem quase nada.
— Então centro, por que você quer que eu abra a mesa pra você?
— Porquê da última vez que você abriu eu tinha 14 anos e agora eu tenho 17?
— Já faz tanto tempo assim? E seu aniversário ainda não chegou então 16.
— Só abra a mesa por favor.
— O que você quer saber?
— Sobre como sair da minha situação, algo como um conselho da mesa.
- OK.
Antes mesmo de embaralhar as cartas novamente limpei a energia como pude usar selenita, estou em uma escola, não posso acender um incenso, embora eu carregue sempre comigo na bolsa.
Comecei a me conectar com a energia de Tyla e logo senti a energia de seus guias e de nossos ancestrais, uma energia forte, porém doce e calma, não consegui deixar de sorrir.
É bom saber que minha irmãzinha está rodeada por tanto amor e proteção.
Mentalizei a pergunta que ela havia feito e tirei as cartas que senti que deveria tirar e não estranhar quando percebi que já havia espalhado quase metade do baralho na mesa, sempre é assim com Tyla, comecei a observar as cartas.
— A menina está confusa. — Ouvi enquanto ainda observava a mesa. — Você deve fechar a mesa.
— Você tem certeza de que quer que eu leia as cartas para você?
— Não tenho certeza, por quê?
— Você poderia ao menos dar um conselho para uma menina?
— Pare de procurar no exterior o que já está dentro de você, criança.
— Você deve parar de procurar no exterior o que já está dentro de você.
— Como assim meu pai?
— Eu não sei o que é, mas sinto que você sabe, embora não queira escutar. Obrigada pelas respostas, espero que você continue com a Tyla.
— Eu amo a garota como um dia amei minha própria filha, estarei com ela até depois da morte. Até logo Kali.
- Comeu.
— Eu acho isso muito esquisito.
— Ah, o quê? — respondi ao que já guardava as cartas e limpava a mesa.
— Como você escuta pessoas, quem era? Era pai?
— Não sei dizer, sei que era uma presença firme, mas amorosa, eu sinto um cuidado na forma que ela fala e certa proteção também.
— Ela?
— Sim, isso te lembra alguém?
— Não tenho certeza, será que a Márcia já terminou?
— Quer ver?
— Sim sim, bora.
Enquanto seguíamos em direção a diretoria minha irmã indicada para um menino alto, gordinho e meio esquisito, totalmente mal-encarado acompanhado de um homem bonito.
— Foi com ele que eu briguei.
— E ele apanhou de você? Você sozinha bateu nesse menino enorme? — eu estou realmente surpreso.
— Olha ali pai, foi aquela escrota que pegou minha namorada e depois me bateu. Eu só não revidei porque não bato em mulher. — Mal-encarado disse nos olhando com uma feição de ódio.
— Ei Daniel, bom dia, seu pai é muito bonito— disse de forma debochada e eu tive que segurar o riso— o senhor é casado? Acho que você faz bem o tipo da minha irmã.
Essa garota não fez isso.
— Garota, pelo amor de Kali, para com isso. — Ela riu— Bom dia e me desculpe por isso, minha irmã é brincalhona assim mesmo— O cara bonito me olhou com a sobrancelha arqueada.
— Tudo bem, foi essa coisinha que bateu no meu filho? Cade sua mãe?
— Desculpa moço, bom dia, eu me chamo Tyla, qual é o nome do senhor?
— André.
— Bom senhor André, ao invés de me chamar de coisinha eu considero muito mais educado me perguntar o meu nome e me tratar por ele, não somos íntimos o suficiente para apelidos, e quanto ao seu filho, o senhor quer minha versão ou vai me condenar sem saber o que realmente aconteceu?
— Tyla, cuidado. — Daniel disse em tom de ameaça e eu consertei minha postura, fiquei em alerta.
— Pode falar a sua versão Tyla, sou todos ouvidos. — Ele encarou o filho por um momento com uma expressão fechada.
— Diferente do seu filho, eu não pretendo mentir e me sair como inocente, você gostaria de assistir nossa reunião com a senhora diretora Márcia?
Eu fiquei o tempo todo em silêncio sem nem imaginar o que essa menina está esperando.
— Não é um problema.
— Espera um momento. — Ty saiu correndo para a porta da direção e bateu duas vezes antes de abrir.
— Essa garota é sempre assim? — se dirigiu a mim com um pequeno sorriso— argumentativo?
— Sim, mas ela não mente. Ela é totalmente uma boa garota, não inocente, mas boa.
— Daniel mente frequentemente e sempre se mete em problemas, poderia me dar algum conselho?
Olhei para ele, para o filho dele e depois para ele novamente e disse a primeira coisa que me veio à cabeça.
— Dê os melhores exemplos.
Ele me olhou de maneira surpresa, mas silenciosamente.
— É o seguinte a Márcia não deixou vocês participarem e pediu pra gente adiantar porque ela ainda tem que conversar com a mãe da Pamela, mas resumindo, a namorada dele é muito bonita pra ele e ele ainda trata ela mal eu fiquei sabendo disso e fui atrás dela pra falar que ela merecia coisa melhor e ela deu em cima de mim, não vou mentir ela é linda e eu tenho uma rixa com ele então uniria o útil, irritar ele, ao agradável ficar com ela. Mas ela não podia sair por estar de castigo então eu dei uns beijos nela no banheiro, só que a Ana a tia da limpeza interrompeu e contornou pra Márcia, só que aparentemente não foi só pra Márcia já que a escola toda ficou sabendo.
— E o que você levou a bateria no meu filho?
— Calma aí bonitão, me deixa terminar. Seu filho também ficou sabendo e foi na minha sala acho que ele ficou com raiva porque ele só não me chamou de papai noel, e eu consegui os xingamentos bem feitos demais e acabei rindo e ele me tentou bater o senhor acredita? Pois então, clamou a mão pra mim e Kali fala pra ele o que você me ensinou?
— Eu ensinei pra ela que ela é uma princesa, mas também é uma guerreira e que sempre que ela se sentiu ameaçada ela devia usar suas armas pra se defender, quando possível palavras e quando necessário os punhos.
— E você acha certo ensinar isso pra um adolescente?
— Se eu não tivesse ensinado ela a agir dessa maneira o seu filho teria batido nela, não tenho ideia da criação que o senhor tem dado ao seu filho, mas mentir, maltratar e tentar bater em mulheres não é algo que considero muito digno.
— Eu não vou perder mais do meu tempo com vocês, vamos embora Daniel.
— Parece a dona Florinda com o Kiko. — Tyla Disse enquanto gargalhava.
— Deixa pra fazer piada mais tarde e vamos logo, — disse já arrastando Tyla— estamos enrolando demais.
— A Márcia vai só mandar a gente ir embora.
— Como você sabe? — disse já batendo na porta.
— Vê só, — disse abrindo a porta após receber um sinal— Bom dia novamente minha amada.
— Bom dia queridas, muito bom te ver novamente Kali, vocês devem me visitar com frequência e por motivos melhores. — disse enquanto se direcionava a mim para me abraçar.
— Sou enfermeira e eu trabalho muito Márcia, mas podemos com certeza marcar um jantar ou algo do tipo. — disse sorrindo— Vamos resolver as coisas?
— Vocês podem ir, embora já esteja tudo resolvido, a Tyla vai ficar um dia de suspensão e depois pode voltar pra escola normalmente, sei que ela não teve culpa nesse incidente, a suspensão é só por usar o banheiro do motel.
— Então, posso levá-la embora? — ela assentiu com a cabeça— vou te mandar uma mensagem pra marcar esse jantar, ok? Podemos chamar a Rita também.
— Espero sua mensagem, se você esquecer eu chamo a Tyla aqui de novo.
— Então eu vou esquecer. Tchau Márcia.
— Depois você perguntou por que eu sou assim.
— Ainda quer ir ao centro?
Reparei que ela ficou cansada de repente e isso foi mais um motivo na minha lista para ficar de olho nela.
— Não, eu quero voltar a dormir, me leva pra casa por favor?
— Tudo que você quiser. Quer dormir sozinho ou podemos ter um dia de cochilos e chamego com os gatos?
— Segunda opção com chás, velas e silêncio.
— Ok senhora exigente.
Depois dessa manhã cheia fomos para casa e realmente gentilmente um dia tranquilo, onde assistimos filmes, como apenas comidas compradas prontas e cochilamos em uma espécie de ninho que acomodamos na sala, colocando a mesa de centro e acendemos algumas velas, colocamos cobertores grossos e vários travesseiros espalhados, tudo pensando na forma que traria mais conforto.
Eu não tinha percebido, mas realmente precisava disso.
Quando deitei a cabeça no travesseiro a noite e revisei tudo o que aconteceu no meu dia e cheguei a pensar se veria a bela moça em meus sonhos novamente, e se ela conversaria comigo, não percebi quando cai no sono, e quando acordei no outro dia não lembrava de ter sonhado com nada, mas tinha a sensação de que algo estava diferente.
