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Meu caso amoroso de Ítaca

Summary:

"Eu queria me amaldiçoar por gostar tanto dela, eu sempre soube que passaria pouco tempo lá, e mesmo assim tudo conseguiu ser ridiculamente intenso. Eu não vou conseguir esquecer meu caso de amor com aquela garota estupidamente hipnotizante de Ítaca."

 

Inspirado em English Love Affair, por 5 seconds of summer. Explicação do au! nas notas.

Notes:

Explicação breve desse universo:

 

Quase tudo permanece o mesmo, realmente os únicos q eu troquei o gênero foram o Telêmaco e o Neoptólemo, claro que por conta disso tem algumas mudanças consideráveis já que na Grécia antiga o machismo era muito muito forte, mas isso eu talvez explore em outras fanfics (provável que comente mais sobre no tumblr, caso tenham interesse o meu nome é fr0g7yyo por lá), enfim, não sou nada criativa com nomes então as mudanças ficaram basicamente:

Telêmaco - Telemáque
Neoptólemo / Pirro - Neoptolema / Pírria

Sei que essa 'tradução' no masculino pro feminino pode estar meio errada, mas sinceramente achei o melhorzinho que tinha.
Espero que gostem<3

Work Text:

Dez anos haviam se passado desde o início da guerra. Claro que eu não estava ali desde o início, entretanto fui a peça chave para que o fim dela chegasse. Finalmente, todos voltariam para suas casas.

 

Ao menos, por um certo tempo.

 

Voltar aos braços de minha mãe havia sido um alívio, gostava de pensar que poderia recomeçar minha vida, deixar de ser a arma de guerra que me prepararam para ser. Mais que a garota a qual foi levada para o meio do campo, bem na linha de frente da batalha para acabar com a vida de qualquer um que chegasse perto o suficiente para a espada atravessar seu peito

 

O engraçado era que eu sabia que não tinha como isso acontecer. A partir do momento que eu nasci eu fui feita para terminar o que meu pai começou.

 

A guerra foi rápida para mim, não tive que esperar dez anos para voltar para casa, eu era simplesmente a chave para finalizá-la e permitir que todos voltassem para seus próprios lares.

 

“Você tem que estar preparada quando for.” Era o que minha avó, Tétis, sempre falava durante os anos que eu ainda estava no conforto e segurança, mesmo que momentânea, do castelo.

 

As profecias sempre eram vagas, ao menos para mim, eu acreditava que talvez não fosse eu quem teria que ir para a guerra. Talvez meu progenitor sobrevivesse, talvez ele voltasse para a minha mãe e tentasse ser meu pai.

 

Ele voltaria para o palácio, mas sem precisar se esconder sob véus e tecidos, um disfarce para não ir à guerra que neste meu universo não existia.

 

Andaria por corredores onde não ecoavam mais os gritos dos moribundos. Seus pés tocariam a relva sem que ela estivesse manchada de sangue. 

 

Era claro que ele nunca poderia voltar, nem mesmo se desejasse. Ainda mais claro era que, mesmo que pudesse, ele jamais seria capaz de me amar.

 

Amar a mim ou à minha mãe era um pedido impossível. Ele nunca poderia fazer isso. Nunca teria olhos para outro alguém que não fosse aquele companheiro ridículo dele.



“Fomos convidadas para Ítaca, filha.” Minha mãe, Deidamia, falou sem exibir sentimento.

 

Por um momento tentava me lembrar quem reinava a cidade.

 

Ah , é claro. Odisseu

 

“Sabe que não tive um bom histórico com o rei. Você mesma odeia ele.” Não tirava meu olhar do espelho, penteando meu cabelo ao responder.

 

“Ele ainda não voltou para casa.”

 

Por alguns segundos eu fiquei imóvel, confusa.

 

“Já se passaram nove… não, onze? Meses desde o fim da guerra. A esta altura, ele já deveria estar de volta, não?” Minha noção de tempo estava uma bagunça; diferenciar semanas e meses era difícil; tudo parecia borrões a partir do momento que meus pés pisaram nas margens de Tróia. 

 

“Logicamente sim, mas pelo o que aparenta ele está tendo complicações para sua volta.” Foi perceptível — embora discreto — o sorriso que surgiu nos lábios de minha mãe ao terminar a frase. 

 

Eu quase me senti mal ao ver a felicidade dela pelo rei ainda não ter voltado para a própria família. Quase.

 

“Então?” Perguntei.

 

“Então, iremos. Querendo ou não estamos indo como convidados da família real da cidade. Recusar, além de rude, traria complicações diplomáticas para nós.” Ela completou. “Sairemos amanhã após o almoço, arrume suas coisas até lá.”

 

Após um beijo delicado depositado em minha testa, Deidamia saiu de meu quarto.





Era por volta de maio. Havíamos passado aproximadamente uma semana no navio. A viagem foi calma no geral, e não era como se eu não estivesse acostumada a passar muito mais tempo em alto-mar. 

 

Quando finalmente chegamos a Ítaca fomos recepcionadas por guardas e, logo à beira da areia, pela rainha e a princesa da cidade.

 

“Sejam bem vindos à Ítaca, acredito que devam ser Deidamia e Neoptolema, certo?” O sorriso no rosto da rainha Penélope era meigo; era fácil perceber a tranquilidade com que nos dava as boas-vindas. “Agradeço pela sua participação na guerra, princesa.” Com um aceno de cabeça, a princesa — Telemáque, seu nome? Odisseu nunca parava de falar sobre sua filha, não era difícil lembrar — também fez uma simples reverência a mim. “Acredito que meu marido tenha tido prazer de lutar ao seu lado. Venham, nos acompanhem ao castelo.”

 

Sem falar muito, seguimos a rainha e sua filha. Nossas mães conversavam educadamente, claramente ainda criando intimidade.

 

Enquanto isso, eu e Telemáque íamos quietas logo atrás, trocando olhares discretos. Não sabia o que eu via nos olhos dela, ingenuidade? Provavelmente. Eu estava curiosa, acima de tudo.

 

Felizmente, não demorou muito até chegarmos ao palácio e sermos acomodadas em nossos quartos: um para mim e outro para minha mãe — o dela, mais próximo ao de Penélope; o meu, mais próximo ao de Telemáque. 

 

Passaríamos alguns dias ali. Eu soube disso antes mesmo de sairmos de Esquiros. Logo também fui informada de que havia outros convidados no castelo. Outros que haviam participado da guerra. E, em nossa homenagem, haveria um banquete especial.

 

“Bom te ver, Neo.” A voz soou por trás de mim durante meu caminho ao salão principal, onde haveria a festa. Festa ? Não sei se era o nome ideal para o evento.

 

“Olá, Menelau.” Continuei a andar, pouco tempo depois sentindo a presença do loiro ao meu lado acompanhando meus passos.

 

“Voltou a Esquiros pelo o que vejo, não é?”

 

“Sim.”

 

Ficamos em silêncio, o caminho para o salão parecia estranhamente longo.

 

“Acredito que ficou sabendo sobre Odisseu ainda não ter retornado.” Ele falou.

 

“Sim.”

 

“Algum palpite sobre?”

 

“Para alguém que não parava de falar sobre sua família nem mesmo quando tínhamos que ficar quietos dentro do cavalo, só a fúria de um Deus para evitar a sua chegada.” Brinquei, embora acreditasse em minhas palavras.

 

Percebi um riso nasal de Menelau. “Realmente, é uma das poucas coisas que o evitaria de voltar a esposa e a filha. Sempre imaginei que ele seria o primeiro a chegar na própria casa.”

 

“Acredita que ele chega em quanto tempo?” 

 

“Na pior das hipóteses? Acho que irei deduzir dois anos.” 

 

“Deduzo mais de cinco.”

 

“E quem acertar ganha?”

 

“Um par de cavalos.” Falei certeira.

 

“Certo.”

 

Ao fim da conversa, chegamos ao salão. Os servos se moviam constantemente, carregando jarras de vinho e pratos de comida, empenhados em servir bem a família real e os convidados.

 

Quando percebi, éramos os últimos a chegar. Logo fui para o lado de minha mãe e Menelau juntou-se a Helena.

 

“Chegaram até mim as notícias sobre Agamemnon, Menelau. Sinto muito pelo ocorrido.” A voz de Penélope soou pelo salão.

 

“Não há pelo que se desculpar, Penélope. Infelizmente, sabíamos que, ao receber a notícia da morte de Ifigênia, Clitemnestra ficaria furiosa, mas não imaginei que ao ponto de matar meu irmão. Que o rei do Submundo guarde bem sua alma.” Menelau respondeu.

 

O jantar seguiu com conversas pontuais entre Helena, Penélope, minha mãe e Menelau; poucas vezes precisei me envolver no diálogo.

 

Tudo teria se mantido tranquilamente normal para mim, se não fosse o olhar insistente que me observava. Eu sequer precisava erguer os olhos para saber quem me fitava sem descanso.

 

“Poderia conversar com ela.” A voz baixa de minha mãe chegou até mim de forma discreta.

 

“Não tenho nada para falar com ela.” Respondi no mesmo tom.

 

“Iniciamos novas amizades com conversas sem importância. Ela parece uma boa menina, deveria ao menos dar uma chance.” Sua voz permaneceu suave, apenas para que eu pudesse ouvir.

 

“E se ela for igual ao pai?”

 

“Ela sequer chegou a conhecê-lo. Ao menos tente ser amigável com ela. Sei que você gosta de atenção, e ela é a única, além de você, que não parece interessada na conversa.”

 

Encerrando o assunto com essa frase, Deidamia voltou a se concentrar no diálogo com as rainhas e com o rei.

 

“Filha, por que não leva a princesa Neoptolema para conhecer melhor o castelo? Acredito que ainda não o mostramos adequadamente.” A voz de Penélope preencheu o ambiente de repente.

 

Precisei piscar duas vezes antes de entender a pergunta.

 

“Claro.” Telemáque se levantou e olhou para mim, nossos olhares finalmente se encontrando verdadeiramente. “Vamos?”

 

Sinto que demorei mais do que deveria para responder.

 

“Claro.”

 

A caminhada inicial pelo castelo trouxe apenas aquele desconforto comum de se estar ao lado de alguém que não se conhece bem. As paredes altas e o teto distante, com pelo menos cinco metros de altura, eram exatamente o que se esperava de um palácio real. Entretanto, um lugar espaçoso até demais tende a trazer desconforto em certas ocasiões, uma sensação de vazio. 

 

Ao mesmo tempo, uma sensação estranha me acompanhava — como se houvesse algo de familiar ali, algo que tornava natural a presença de Telemáque ao meu lado.

 

A cada quarto que passávamos, ela fazia breves explicações sobre sua função. Durante essas pausas, seu olhar recaía sobre mim. Era quase ridículo o quão atentos aqueles olhos eram — herdados do pai, sem dúvida.

 

A cada passo, crescia a necessidade de trocarmos mais palavras.

 

“Isso está ficando chato.”

 

A voz dela me despertou dos meus próprios pensamentos.

 

“Tenho que concordar.”

 

Paramos por um segundo, ambas sem saber exatamente o que dizer.

 

Até que um sorriso começou a se formar nos lábios de Telemáque.

 

“Quer ver algo legal?”

 

Hesitei por um instante.

 

“Pode ser.”

 

Antes que eu pudesse reagir, senti meu corpo ser puxado de repente. Telemáque correu pelos largos corredores, me levando junto, dobrando por passagens que eu sequer conseguia reconhecer.

 

“Você não pode contar isso pra ninguém!”

 

Antes que eu pudesse perguntar do que se tratava, ela me soltou e, com um movimento ágil, abriu uma passagem secreta na parede de pedra que antes parecia imóvel.

 

“O quê-”

 

“Vem logo! Quanto mais rápido, menores as chances de alguém descobrir essa passagem secreta!” A voz risonha da princesa me interrompeu antes que eu terminasse a frase.

 

Rapidamente passei pela… porta? Parede?

 

Do lado de fora, podíamos ver tudo ao redor — o grande gramado e, ao longe, a cidade, ainda que não completamente. Se tivéssemos saído mais perto da entrada principal, talvez a visão fosse mais ampla.

 

Antes que eu percebesse, já estava sendo arrastada até os estábulos do castelo.

 

“Por que me trouxe para ver os cavalos?” Perguntei, genuinamente curiosa sobre sua escolha.

 

“Hmm…” Ela pensou por um instante, observando os animais à nossa frente. “Não sei. Só gosto de vê-los e, às vezes, montá-los, eu acho.”

 

Engraçado, no mínimo, com algumas risadas começamos a realmente nos conhecer, trocar palavras e às vezes até mesmo gritar enquanto fazíamos brincadeiras bobas. 

 

A conversa fluía tão naturalmente que perdi a noção do tempo. Só voltei a ter plena consciência do momento quando percebi que ambas estávamos encharcadas, correndo na chuva, uma atrás da outra.

 

O cheiro de grama molhada nos envolvia. A sensação da terra úmida sob meus pés me despertava a cada passo — mesmo que por apenas um breve instante, antes que meus pés se erguessem novamente para seguir os de Telemáque à minha frente.

 

Ríamos sem parar.

 

Desafiamos uma à outra para uma corrida de volta ao castelo, disputando quem chegaria primeiro.

 

Quando finalmente atravessamos as portas, fomos recepcionadas por nossas mães — minha mãe, visivelmente preocupada; Penélope, tentando conter o riso o mais educadamente possível para não parecer rude.

 

Duas princesas completamente encharcadas, deixando um rastro de água pelo chão do palácio.

 

Depois de sermos secas e direcionadas a nossos quartos, vestimos as roupas mais confortáveis que nos ofereceram. Mas, mesmo deitada, eu mal conseguia dormir. Ainda sentia a euforia da noite, a energia pulsando no meu corpo, como se a qualquer momento eu pudesse levantar e correr novamente. Ir atrás de Telemáque e fazer ela perder as apostas que faziamos como ver qual gota d’água cai primeiro ou tentar adivinhar em qual cavalo a outra estava pensando. 

 

E mesmo depois de voltar para Esquiros, mesmo com aquela distância maior que trezentos quilómetros,  me sentia presa àquele momento, àquela garota de Ítaca. Uma das minhas memórias favoritas.





Haviam se passado alguns anos. Agora, não éramos mais as crianças que corriam ao redor do castelo juntas, se sujando e rindo das pessoas que caíam de longe. Tampouco éramos as garotas que não se desgrudaram durante as poucas semanas que passaram juntas no palácio de Ítaca.

 

Agora, tudo isso era apenas uma memória distante — e, ainda assim, tão próxima. Uma imagem tão vívida que eu quase podia tocá-la ao visualizá-la à minha frente.

 

“Filha!” Escutei a voz de Deidamia.

 

“Oi, mãe.”

 

“Tenho notícias de Ítaca.” Estremeci ao ouvir o nome da cidade, virando-me imediatamente e focando toda a minha atenção apenas na mulher à minha frente.

 

“Odisseu finalmente retornou. Está de volta como rei da cidade. Como forma de comemoração, fomos convidadas para o banquete que será realizado.”

 

Soltei uma risada breve pelo nariz.

 

“Certo. Saímos quando?”

 

“Amanhã, logo após o café.”

 

“Ok. Ah, e vamos voltar com um par de cavalos para casa. Separe um navio que aguente o peso.” 





Quando chegou o dia do banquete, foi uma grande festa. Estar de volta ao castelo onde tive minhas primeiras memórias pós-guerra era nostálgico. Sentia como se estivesse diante de espelhos mágicos: lembranças se formavam diante dos meus olhos e logo se desfaziam com o vento, que levava consigo as antigas risadas de cada canto do palácio.

 

Estar de volta à casa de Telemáque, especialmente, era o que mais me deixava nervosa. Vergonha talvez fosse a palavra adequada — embora não em todos os momentos.

 

Claro que havíamos conversado antes do dia da festa, fui recepcionada por ela assim que cheguei e era inevitável perceber o quanto havia amadurecido. Nós, como duas jovens adultas, agora deveríamos agir como tal. 

 

O reencontro com Odisseu criou certa tensão. Descobrir sobre a amizade entre mim e Telemáque claramente não agradou o rei — menos ainda as farpas que, por hábito, eu lhe lançava, tentando ao máximo manter o respeito, apesar do nosso histórico.

 

Mesmo com a relação tensa com ele, nada poderia impedir minhas interações com a princesa. Passamos quase o dia inteiro juntas, e ainda explorávamos as passagens secretas espalhadas por todo o palácio — quase crianças novamente. 

 

E durante o jantar, com o quão entediadas estávamos, tudo o que bastou foi algumas taças de vinho até fugirmos para o quarto dela. E tudo o que complementou foram só mais algumas falas descuidadas causadas pelo teor alcoólico para eu ver as vestes — macias, bem cuidadas — caírem no chão. Não era claro quais roupas tocaram o solo primeiro, as minhas ou as dela. Mas a sensação do seu corpo sobre o meu era uma que dificilmente eu esqueceria.

 

Uma linha do tempo completamente ridícula, quando penso que passamos anos trocando apenas cartas. 

 

Mais umas semanas se passaram antes de eu ter que voltar à Esquiros, não foram poucas, mas certamente não o suficiente para estarmos satisfeitas uma com a outra. 

 

Não foi o suficiente para nos escondermos do resto do palácio das torres mais altas que a princesa me levava, subindo as escadas correndo para chegarmos a tempo, mesmo que isso nos deixasse exaustas, pois sabíamos que ao menos poderíamos descansar juntas. 

 

Também não saciou a necessidade de tocar na pele dela de todas as formas possíveis, os carinhos no rosto abençoado pelos deuses dela nas noites de sono mais profundo, até a sensação de ter o corpo dela contra o meu e a parede, onde eu empurrava ela com a loucura me preenchendo por eu não conseguir ficar mais longe dela, pelo medo de me afastar e não conseguir me aproximar nunca mais. 

 

Talvez nunca fosse suficiente porque eu sabia que jamais acreditariam que duas princesas haviam se deitado juntas, saciando vontades que homem nenhum seria capaz de compreender — da forma como nossos corpos pareciam se encaixar perfeitamente, como mal podiam se separar antes de já quererem se tocar novamente, sem meios de se afastarem.

 

A minha única certeza era que nunca poderiam tirar essas memórias de mim, essas as quais, com esperança, poderiam formar um deja-vu em pouco tempo.