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A Thirst Named You

Summary:

Felix não esperava encontrar nada de interessante no clube La Nuit Rouge... até que seus olhos encontraram os de Hyunjin. A conexão entre eles foi instantânea, visceral, inevitável. Mas há um limite cruel para tudo que queima intensamente — e Felix sabe disso melhor que ninguém.
Entre sedução, sangue e jasmim, uma noite será tudo que poderão ter.
Ou será que algumas memórias são fortes demais para serem apagadas?

Notes:

Avisos:
Contém cenas eróticas com contexto emocional. Referências visuais a filmes adultos (como Love, de Gaspar Noé). Temática vampírica sensual e atmosférica. Final melancólico.

Work Text:

A Thirst Named You

Funcionando num prédio de arquitetura antiga, de altas janelas gradeadas e fachada decorada com luzes de LED vermelhas, o clube underground La Nuit Rouge podia até chamar a atenção de quem passasse por ali à noite, mas para Felix, não chegava realmente a impressionar. Até mesmo os gárgulas nas pontas do edifício — tentativas baratas de parecer sombrio — não passavam de enfeites caricatos, incapazes de assustar alguém.

Mas, se por um lado achou o clube comum do lado de fora, o mesmo não poderia dizer do lado de dentro. Uma vez que passou pela segurança e adentrou o local, foi como atravessar um véu espesso de som e fumaça. A música pulsava sob seus pés, vibrava em seus ossos. Luzes dançavam em cortes violentos de vermelho vivo e azul elétrico, refletidas nos rostos e corpos suados que se perdiam na pista.

Um pouco demais para olhos e ouvidos vampíricos? Com certeza. Entretanto, bastou que focasse, isolando os sons, os cheiros, os lampejos de luz — um por um — até que tudo fizesse sentido de novo.

Foi então que reparou nos detalhes.

Suspensos no teto como olhos vigilantes, dois candelabros em forma de pentagrama espalhavam uma luz pálida, lançando sombras em quem estivesse abaixo. Um toque teatral, quase ritualístico, que contrastava com a superficialidade mundana do público.

A primeira coisa que notou, em seguida, foi o bar — um altar de vidro e madeira repleto de promessas líquidas. Uma garrafa em especial, de cor verde chamativa, o fez rir, relembrando noites insanas de um passado muito, muito distante. O que podia dizer? Era jovem, humano e, por um bom tempo, bastante inconsequente.

A decoração era toda em estilo antigo, com móveis e peças que pareciam saídas das páginas de um romance gótico. A bancada entalhada de madeira, desgastada pelo tempo e pelo uso, emprestava um toque de realidade impressionante. Talvez fosse genuína — ao contrário do restante. Do outro lado, com o reboco da parede à mostra, ficava um sofá rodeado por dois enormes espelhos. A luz que vinha do teto e dos candelabros era uma mistura intensa de vermelho e amarelo. Uma olhada rápida bastava para perceber: aquele era o cantinho do Instagram. Um chamariz para fotos, poses e curtidas.

Uma escada ao lado levava até um estratégico mezanino. Alguns casais já se amassavam por ali, alheios a qualquer um que os observasse. Interessante para os humanos? Certamente! Havia valor no voyeurismo. No entanto, para um vampiro, que buscava outra fonte de prazer, não passava de entretenimento barato.

Seus olhos então se voltaram para a pista de dança. Corpos de todas as formas e estilos giravam ao ritmo da música, como marionetes entregues ao frenesi. Alguns realmente eram atraentes, a pele brilhando de suor, os pescoços longilíneos… Para Felix, o gênero era o que menos importava. Desde que parecessem suculentos, era o bastante. Hoje, porém, não estava com pressa. Poderia saborear a noite com calma, sabendo que ainda faltavam horas antes do amanhecer. Por que não se deleitar primeiro com a magia da caça, com a irresistível conquista? Gostava de sentir o instinto pelo sangue crescer até que o impulso inevitavelmente o colocasse em ação. Às vezes, nem precisava agir. Bastava pedir uma bebida — que não pretendia beber — e esperar. Fingir interesse, até que alguém ousado se aproximasse.

Aproximou-se da bancada sem nem olhar o cardápio, e pediu uma bebida. Enquanto esperava, deixou que sua visão vagasse.

Naquela noite em especial, abraçou uma estética ousada, sombria e um tanto estilizada. Tudo começava pela regata preta de recorte assimétrico que se moldava ao seu corpo como uma segunda pele, acentuando seus ombros largos e sua cintura estreita. Seguida diretamente pela calça, uma peça de tecido mais estruturado e corte elegante, também na cor preta e adornada por dois cintos largos de fivelas prateadas, um deles do tipo duplo. No pescoço, correntes em camadas marcavam um toque rebelde. Para complementar, escolheu um sapato social preto de uma grife famosa.

Seus cabelos platinados foram deixados soltos e volumosos. Seus olhos, num tom de castanho bem claro, continham aquele brilho sobrenatural típico daqueles de sua espécie. Naquele dia, contudo, dispensou os óculos escuros. Queria estar mais à vontade, menos vigilante. As pessoas hoje em dia se maquiavam mais, até os homens. Poderia fingir que usava lentes de contato. Quem pensaria o contrário?

Foi quando recebeu o drink e se virou, que o viu. Não se destacava pela roupa, uma vez que usava uma simples calça jeans detonada e uma regata preta. No entanto, havia algo… Um olhar direto. Uma ausência de medo. Um desafio implícito.

Não houve sorriso, nem gestos. Apenas aquele olhar fixo, que parecia atravessar a multidão até alcançá-lo. Felix arqueou uma sobrancelha, intrigado. Aquilo era novo. Interessante.

Naquela situação, o natural seria acenar para o rapaz, deixando claro que ele poderia se aproximar. Quem sabe, pagar uma bebida, puxar um papo. As pessoas ainda faziam isso, certo? Mas, não sabia por que, resolveu ignorar o caminho lógico. Bebericou seu Bloody Mary. O gosto, como sempre, lembrava cinzas. Mesmo assim, manteve o olhar firme em sua presa.

Os pensamentos do jovem eram um tanto caóticos, mas foi capaz de discernir algumas imagens. Ele já estava ali há algum tempo. Um amigo o tinha abandonado na pista atrás de um rabo de saia e ele, coitado, não teve a mesma sorte. Ficou de papo com algumas meninas, jogou um charme para uns caras no bar, e no fim, acabou não rolando nada com ninguém. Nem mesmo um beijo. Não que as pessoas no clube o desagradassem, longe disso. Apenas não tinha acontecido aquele frio na barriga, aquele tipo de conexão que te faz esquecer até de onde você está.

Um romântico incorrigível? Felix quase riu. Isso ainda existia?!

Hyunjin quase murchou ao notar que seu alvo não tomou a atitude que esperava. Poxa, aquele era tão lindo! Parecia até uma pintura de tão perfeito! Bom, se ele não iria fazer nada, depois de olhar daquele jeito, iria se acabar naquela pista, então. Não havia coração partido que durasse com um bocado de álcool e uma boa música.

Respirou fundo e ergueu o queixo. Se era para dançar sozinho, dançaria com tudo o que tinha. Sabia que ainda era observado, mas não ligou. A batida da música agora era lenta, mais sensual e era tudo o que precisava naquele instante. No início, preocupou-se apenas em curtir o som, deixando-se à vontade para sentir a vibe. Mas assim que fechou os olhos, esqueceu-se de quem estava ao seu redor e se entregou. De repente, não existia mais frustração, o mundo se resumindo a música e a ele.

Pouca gente sabia, mas Hyunjin era um mestre da dança. Ele ondulava os quadris, jogava o rosto de lado, sorria de maneira provocante para quem quisesse ver. Não satisfeito, passava a mão pelos cabelos curtos e úmidos de suor. A cada movimento, a corrente prateada que usava refletia os feixes de luz e brilhava, atraindo atenção. Felix, que àquela altura, estava fascinado, sentiu todo o ar sair de seus pulmões assim que uma veia pulsou naquele pescoço. Foi como tomar um soco na boca do estômago. Tão forte que por pouco o copo que segurava não se quebrou em sua mão. Precisou soltar o objeto antes que a pressão de seus dedos o esmagasse. Respirou. Uma, duas, três vezes. Ele era o predador, não o contrário.

E então, como se soubesse exatamente o efeito que causava, Hyunjin abriu os olhos e olhou diretamente para ele.

Felix sequer teve tempo de reagir. Uma mulher ruiva, do nada, surgiu em seu campo de visão, interrompendo a conexão. Ela era alta e vestia uma roupa justa que deixava pouquíssimo para a imaginação. Aproximou-se com confiança e sussurrou algo no ouvido do rapaz.

Hyunjin pareceu ouvir atentamente por um instante, para logo em seguida rir e negar com a cabeça o que quer que tivesse escutado. Uma onda súbita e incontrolável de raiva atravessou Felix, tão intensa que quase o fez dar um passo à frente.

Ele arregalou os olhos.

Ciúmes?

Não. Ridículo!

Além do mais, ela era apenas humana. O que poderia oferecer que ele também não pudesse?
A resposta vinha fácil — e era justamente isso que o incomodava. Felix sabia muito bem o quê. E essa constatação o deixava um tanto ressentido… e perigosamente melancólico.

Sem perceber, já estava vasculhando a mente do rapaz novamente. Se era conexão o que ele buscava, Felix poderia oferecer. Podia ser o que ele quisesse — moldar-se, simular, fingir.
Bastava saber do que ele gostava. Que tipo de pessoa o encantava? O que procurava num parceiro?

Podia dar a ele uma noite inesquecível. E no fim… colher o doce êxtase em seu sangue.

Já houve mortes menos piedosas.

Ficou tão absorto nos próprios pensamentos que, quando percebeu, o jovem já havia deixado a mulher sozinha e caminhava em direção ao bar.

Era a sua deixa, Felix pensou, esperançoso.

Se de longe o achava bonito, de perto… era ainda mais! O cabelo escuro, cortado bem rente à cabeça, contrastava com a pele muito clara. Havia um risco estiloso na lateral, próximo à orelha direita — e piercings ali, notou com certo fascínio.

Nos braços bem torneados, nenhuma tatuagem aparente. Bem, nenhuma que pudesse ver. Sorriu com o pensamento, achando-se um pouco lascivo.

Hyunjin se aproximou, encostou-se ao balcão com aquele ar despreocupado, e pediu uma cerveja. Logo ao lado, Felix não esboçou reação além de encará-lo abertamente.

Estava hipnotizado.

Seguia com os olhos uma gota de suor que descia vagarosamente pelo peito alheio, imaginando — com uma intensidade quase perigosa — como seria secá-la com a língua.

- Não cansou de só olhar, amigo? — a voz dele de repente se projetou acima da música, cortando o ar como uma navalha.

Felix por pouco — muito pouco — não se envergonhou. Se fosse possível corar, certamente estaria todo vermelho agora. Felizmente, não era.

- Estava apreciando a vista - respondeu, simplesmente - Por quê? Não posso?

- Pode, claro - afirmou, sem se abalar - Mas não seria melhor fazer algo além de olhar?

- E que algo você quer que eu faça? - Felix disse, sorrindo de maneira lenta e enigmática, tendo o prazer de ver a surpresa tomar o rosto do outro. Era assim que gostava, quando era ele que estava no controle.

Hyunjin riu e abaixou a cabeça. Em seguida, enquanto voltava a encarar o loiro, mordeu o lábio inferior, como se considerasse a proposta implícita naquela frase. Seria tão fácil continuar provocando, tão fácil! Parte dele ansiava por isso, inclusive. Continuar até ver onde aquilo ia dar.

Como aquela era a primeira conversa que o fazia sentir alguma coisa de verdade, resolveu não ceder ao impulso. Não queria acabar com as possibilidades parecendo tão desesperado. Era melhor mudar a abordagem. Se ele não se importasse e o acompanhasse, saberia que estão na mesma página.

- Sou Hyunjin - estendeu a mão - E você?

- Me chamo Felix - apertou a mão molhada dele, ligeiramente fria pela bebida. O contato foi breve, mas o suficiente para sentir sua firmeza. Ele parecia saber o que queria, isso era bom.

- Não gostou? - Hyunjin apontou para o drink esquecido sobre o balcão - Mal tocou na bebida.

- Ah, é um pouco salgado e ralo demais para o meu paladar. Prefiro algo mais encorpado.

- O quê? Tipo vinho? - Hyunjin brincou. Sabia que o cara era um ricaço assim que o viu. Dava para ver pelas roupas caras e pelos acessórios. Aquilo era um anel de rubi na mão dele?! - Acho que não servem isso aqui, heim!

- Tudo bem. Sempre podemos beber algo melhor mais tarde - respondeu, encarando o jovem.

Hyunjin o olhou, estupefato. Outra vez, hã? Ele estava ficando muito saidinho para alguém que no começo estava tão devagar. Tudo bem. Podia lidar com isso.

- Se isso foi um convite para irmos para outro lugar, saiba que não foi nada sutil.

- Não pretendia que fosse.

Hyunjin sentiu um arrepio. Meu Deus! Aquela voz grave, a maneira como ele o olhava, o meio sorriso… Tudo nele era um convite irresistível. E o pior, Felix parecia ter a exata noção do que estava fazendo.

- Podemos ficar mais um pouco? - sugeriu, mesmo diante do receio de que Felix desistisse dele e procurasse outra pessoa - Ainda quero dançar.

Felix apenas assentiu de leve com a cabeça. Antes que pudesse caminhar ao lado do rapaz em direção à pista de dança, sentiu a mão dele se entrelaçar à sua. Hyunjin nada disse a título de explicação, mas pareceu satisfeito em conduzi-los, desviando-os das pessoas ao redor. Felix, por sua vez, não conseguia deixar de pensar no quanto Hyunjin era uma caixinha de surpresas.

Aparentemente despreocupado, sensual ao extremo, mas ao mesmo tempo, gentil e romântico. Por mais que não gostasse de admitir, o gesto espontâneo dele o tinha desarmado. Hyunjin não havia se entregado às suas investidas momentos antes, e embora isso pudesse machucar um pouquinho o seu ego, também o instigava. Não sabia como as coisas ocorreriam entre os dois a partir dali, porém tinha uma certeza: não queria que acabasse tão rápido.

Uma vez na pista, Hyunjin não perdeu tempo. Aproveitou que a música que tocava era do tipo sexy para colocar uma mão nos ombros do loiro e levar a outra até sua cintura, puxando-o mais para perto. Felix não se importou que Hyunjin fosse o primeiro a reduzir a distância entre eles. Parecia tão natural que ele o fizesse, quase como se não pudesse evitar.

Felix pousou uma das mãos nas costas dele e pouco a pouco, deixou-se envolver. Podia ouvir o coração dele batendo forte e rápido, sentir o seu hálito próximo, o perfume que se misturava à pele quente, tornando o aroma único e sensual.

Hyunjin dançava lentamente, os olhos fechados, o peito subindo e descendo com a respiração cada vez mais pesada. Felix o acompanhava, os dedos apertando sutilmente a carne sob a camiseta, os olhos fixos em cada nuance do rosto dele.

Hyunjin era perfeito. A pintinha abaixo do olho esquerdo era um charme à parte e aqueles lábios cheios e entreabertos…Pelos deuses! Uma perdição. Se antes já era difícil resistir, tão perto assim soava torturante.

As coisas só complicaram mais quando inadvertidamente, Hyunjin se colocou de costas para ele. Felix sequer pensou antes de segurá-lo pelos quadris e se encaixar atrás dele. Seus movimentos eram fluidos e lentos, apesar da batida ter se tornado mais frenética. Não era como se eles estivessem prestando atenção, de qualquer forma.

Quando sentiu Hyunjin passar a mão em seus cabelos, Felix abriu os olhos — e deu de cara com a jugular suculenta do rapaz. Naquele ângulo, o sangue pulsava sob a pele como se o chamasse, como quem sussurra um poderoso feitiço. O autocontrole do vampiro colapsou.

Sem perceber, seus dedos apertaram os quadris do outro com força, como se precisassem se segurar em algo antes que perdesse o controle. Sentiu o corpo de Hyunjin estremecer em reação, contudo, ele não recuou. Ao contrário. Pareceu gostar.

- Você não faz ideia do que está fazendo comigo - Felix sussurrou, a voz rouca, carregada de sede e desejo.

Ou teria sido um rosnado? Ele mesmo não sabia.

Hyunjin se virou sem dizer uma palavra, os olhos fixos nos de Felix — escuros, dilatados, desejando mais do que se atrevia a confessar. Então, qualquer hesitação desapareceu. No instante seguinte, mãos quentes encontraram seu rosto, os dedos deslizando por sua mandíbula com delicadeza quase reverente antes de puxá-lo.

O beijo foi tudo, menos suave. Foi urgente, ardente, desesperado.

Felix sentiu a boca de Hyunjin colidir contra a sua como se ele também estivesse em chamas. Os lábios se moldaram com uma precisão quase dolorosa, os movimentos inicialmente caóticos, desajeitados, de tanta vontade reprimida. Depois, tornaram-se mais lentos, mais profundos. Um roçar de línguas, um gemido abafado, um arrepio delicioso descendo pela espinha.

O mundo ao redor deixou de existir.
Não havia mais música, gente, luz, nada.

Só havia o gosto de Hyunjin — sua respiração quente e entrecortada, a firmeza dos dedos que agarravam sua nuca, o jeito como ele se encaixava tão perfeitamente em seu corpo que parecia feito sob medida para ele.

E Felix? Felix estava perdido. Ou melhor dizendo, condenado.

O universo parecia caçoar dele - e com razão. Duzentos anos... Duzentos malditos anos sem que ninguém o deixasse tão mexido. Que diabos! Nem mesmo um beijo nesse tempo todo. Para quê? Ele não era mais humano.

Por que se dar a esse luxo, se não podia amar — e muito menos oferecer amor verdadeiro?

Então, Hyunjin apareceu. E destruiu, um a um, os alicerces de suas convicções tão bem construídas.
Não valia a pena? Felix já não tinha mais tanta certeza.

- Você é real mesmo? - Hyunjin perguntou assim que se afastaram para retomar o fôlego. - Não estou sonhando, estou?

- Isso parece sonho pra você? - Felix desceu uma das mãos até as nádegas do outro e deu um belo apertão. A única reação de Hyunjin foi rir.

- Acho que meu sonho não seria tão atrevido - ele respondeu - Mas nunca se sabe, né? Talvez eu ande mais criativo do que o normal.

- Que sorte a sua, então — Felix falou com um sorriso enviesado, o olhar fixo nos lábios de Hyunjin. — Porque eu não sonho há muito, muito tempo… Mas se ainda soubesse como, acho que seria exatamente assim.

Hyunjin quis se estapear. Não, não e não! Não podia estar ouvindo aquelas coisas, não de um homem tão bonito! Era como se de repente Felix estivesse sondando seus pensamentos e dizendo exatamente tudo o que ele mais desejava ouvir.

Hyunjin bem que tentou disfarçar, desviando o olhar e mordendo o canto do lábio, nervoso, mas não adiantava. Estava entregue.

— Se isso for um sonho, por favor, não me acorde — murmurou.

Felix apenas sorriu e o beijou. Os dois continuaram na pista pelo que pareceu quase uma hora. Dançando, se divertindo juntos e trocando beijos e carícias. Quando ficou claro que o ambiente não os conteria por muito mais tempo, ambos decidiram ir embora. Hyunjin enviou uma mensagem de texto para seu amigo Christopher, dizendo que iria para casa e chamou um Uber.

***

Cerca de vinte minutos depois, Felix e Hyunjin desembarcavam em frente a um edifício de três andares de estilo moderno, com fachada em concreto aparente e varandas suspensas. À primeira vista, parecia bem minimalista e prático. Um studio, talvez.

Seguiu o rapaz até o portão em silêncio, observando-o inserir a senha. Na área mais interna, rapidamente passaram por um pequeno corredor até a escada.
Durante todo o caminho, Hyunjin se pegou pensando no que exatamente estava fazendo. Não era um cara que costumava levar alguém que acabou de conhecer, em casa. Ainda mais com o intuito de ficar mais íntimo. Mas, e se não tivesse uma nova chance? Homens como Felix não surgiam do nada assim. Ele mais parecia um modelo!

Se fosse apenas bonito, talvez pudesse deixar passar a oportunidade. Mas sabe quando tudo simplesmente encaixa? O humor, o beijo, a troca de carinhos. Foi tudo tão gostoso e espontâneo. Conexões assim não eram tão fáceis de achar, sabia por experiência própria.

Ao mesmo tempo, sentia receio, pois não tinha certeza de até onde gostaria de ir naquela noite. Obviamente queria ficar a sós com ele, continuar os beijos, talvez dar uns amassos no sofá. No entanto, sexo? Não sabia se estava preparado para aquele passo, não ainda.

Felix tinha noção que não deveria, mas não conseguia evitar. Os pensamentos de Hyunjin eram tão intensos que soavam como um megafone na sua cabeça. Então essa era a preocupação dele? Por isso esteve tão quieto no carro? É, talvez devesse começar a pensar também, depois do que rolou no clube. Não era só Hyunjin que tinha razão em se preocupar, porque ele próprio estava bastante preocupado.

Com o quê? Bem, começava a considerar a ideia de não matar o jovem. Isso mesmo, não matar. Dar uma mordidinha, tomar um golinho ou dois e pronto, sumir como se fosse fumaça. Por que estava pensando assim? O motivo é que havia se interessado genuinamente por ele. Se fosse humano novamente, o que, infelizmente, estava fora de cogitação, Hyunjin seria o tipo de rapaz que gostaria de chamar para sair. Afinal, ele era atraente, tinha um sorriso lindo e uma pegada maravilhosa. Era uma combinação irresistível, não?
Poderia matar qualquer um depois, no caminho até sua casa. A cidade estava abarrotada de criaturas desafortunadas.

Felix entrou no apartamento logo atrás de Hyunjin, e por um instante, apenas observou enquanto ele trancava a porta. O silêncio que se instalou entre eles não era exatamente desconfortável, mas carregado. Como se ambos soubessem que qualquer palavra agora teria peso.

- Pode ficar à vontade - Hyunjin quebrou o silêncio ao depositar a chave no pequeno aparador ao lado da porta - Se quiser uma bebida, pode pedir. Não tenho nada sofisticado, mas sempre tenho cerveja, refrigerante e energético em casa.

- Estou bem, não se preocupe - Felix respondeu.

- Tá legal, então. Eu vou pegar uma cerveja. Pode sentar e ligar a TV se quiser.

O vampiro assentiu e se sentou. Não que realmente tivesse vontade, mas não queria ficar em pé e deixar Hyunjin desconfortável enquanto ficava ali esperando. Aproveitou o momento para reparar no lugar.

O studio refletia perfeitamente o dono — prático, mas acolhedor. As telas encostadas nas paredes denunciavam que ele era um artista, uma surpresa agradável, Felix admitia. O cheiro suave de tinta era, estranhamente, reconfortante. Havia prateleiras e mais prateleiras de livros espalhadas pelo lugar. Alguns dos títulos eram sobre arte e design, outros eram clássicos da literatura.

Curioso, Felix levantou e foi até uma das telas. Era um quadro simples de flores num vaso.

— Gosta de pintar? — perguntou, assim que Hyunjin voltou, uma cerveja na mão.

Hyunjin hesitou por um segundo antes de responder.

— Gosto. É onde coloco o que não consigo dizer.

E tem muitas coisas que não diz? Felix pensou, de maneira inevitável. Olhando para ele agora, sentia que Hyunjin era mais profundo do que imaginava a princípio, quando o viu dançando de maneira tão erótica no clube. Quantas camadas dele existiam?

- As flores têm uma linguagem própria, sabia? - Hyunjin explicou. Estava um bocado nervoso e quando ficava assim, desatava a falar. Meu Deus, isso era uma tragédia!

- É mesmo? - Felix perguntou, interessado - Gosta de flores? É por isso que as pinta? Tem vários quadros aqui sobre esse tema.

- Tem, né? - Hyunjin passou a mão pelo cabelo. Tinha como isso ficar mais esquisito?! - Gosto de pintar flores, mas não me limito a elas. Na verdade, desenho e pinto qualquer coisa que me interessar.

Depois que ele falou, Felix notou que realmente, havia vários quadros e rascunhos de pessoas, objetos e até mesmo alguns temas abstratos. Um quadro em particular chamou sua atenção e Felix se aproximou para ver melhor. Era mais uma pintura de flores, mas dessa vez, com características mais marcantes. Não que entendesse muito de arte, mas parecia feita à base de tinta à óleo, com pinceladas grossas de tinta que simulavam relevo na composição. O forte contraste entre as flores de cores claras e o fundo quase preto eram intensos e dramáticos, remetendo ao Expressionismo.

Felix permaneceu parado diante do quadro por um longo tempo, em silêncio. Aquela imagem o atraia de forma quase magnética - não tanto pela beleza das flores em si, mas pelo que conseguia enxergar por trás delas. O fundo escuro, quase absoluto, parecia querer devorar tudo. A mensagem que o quadro parecia transmitir é que apesar disso, as flores persistem. Vibrantes, imperfeitas, carregadas de vida e movimento.

- Você pintou isso, não foi? - Felix perguntou, ainda tocado.

Hyunjin se aproximou e parou ao seu lado.

- Sim, tem um tempo já. Você gosta? É um dos meus preferidos.

Felix somente assentiu, sem confiar na própria voz. Continuava a encarar a obra, como se quisesse decorar cada detalhe, absorver cada pincelada. Era lindo, certamente, mas além de toda a beleza, também percebia sua força e dor. Finalmente pode compreender porque gostou tanto. Era o tipo de contraste que conhecia tão bem - a luz tentando sobreviver em meio às sombras. O resumo trágico da vida de um vampiro.

- Elas... parecem vivas. Quase como se estivessem em combustão — disse por fim, os olhos ainda cravados na tela.

Hyunjin soltou uma risadinha nervosa. Combustão? De onde ele tirou isso?!

— Olha, nunca ouvi alguém descrever um quadro assim.

Estava até sem graça diante da reação do outro! Não era como se todo dia alguém entrasse em sua casa e o cobrisse de elogios. No máximo, alguém vinha e dizia: cara, tá super legal! E olhe lá, né? Mas aquela intensidade, aquela escolha de palavras… Caramba!

- É o que parece pra mim — Felix completou, encarando-o agora. — É como você? Sempre tentando florir mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar?

Hyunjin piscou e o olhou, chocado. Não respondeu. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém tivesse enxergado além da superfície.
Felix percebeu que acabou falando demais. Pode ser que Hyunjin não estivesse preparado para tanta franqueza, ou pior, não estivesse ainda plenamente consciente de todos os seus processos internos.

Ia tentar consertar a situação, antes que o clima entre os dois ficasse estranho, quando Hyunjin foi mais rápido:

- Tem certeza de que não tomou alguns drinks de absinto antes de me encontrar?

Vendo a saída bem à sua frente, Felix se agarrou a ela.

- Será? Quem sabe… Talvez eu esteja mesmo um pouco encantado.

Hyunjin arqueou as sobrancelhas. Encantado? Encantado com o quê? Consigo? Com o quadro? Com aquela conversa maluca? As possibilidades eram tantas…Ok. Estava na hora de largarem o quadro e voltarem pro sofá antes que ele começasse a filosofar sobre margaridas existenciais

- Então… Que acha de assistir alguma coisa? - apontou para o sofá, sentindo seu rosto um pouco quente - Podemos ver algo na Netflix, sei lá…

Sutil? Nem um pouco! Mas, ou eles sentavam ali e faziam alguma coisa rápido ou Hyunjin que iria entrar em combustão.

Sabe a parte engraçada? Eles realmente assistiram algo na Netflix, ou melhor dizendo, tentaram.
Todos consideravam Hyunjin sensual, atribuindo-lhe a fama de pegador quando nem imaginavam que, no fundo, era tímido e um tanto inseguro. O bom é que Felix não pareceu se importar quando ligou a TV.

A tela piscou com o letreiro do filme Love. Na hora, Hyunjin não havia prestado atenção na imagem da capa, nem no significado óbvio do título, só quis clicar em qualquer coisa só para não ter que continuar uma conversa que o deixava tão exposto. Sentou-se no sofá, a cerveja ainda na mão. Tentava parecer distraído, tranquilo. Felix se acomodou ao lado, um pouco mais perto do que antes — talvez perto demais. Porém, Hyunjin não disse nada. Nem quando os ombros se encostaram.

A cena começou com uma intimidade inesperada. Corpos entrelaçados, carícias que não se apressavam, respirações entrecortadas. Hyunjin congelou por dentro. Olhou de relance para a tela, depois para Felix.

No entanto, o vampiro apenas observava, calmo, como se a cena não o perturbasse. Será que… talvez estivesse gostando? Não dava para saber.

— Juro que não imaginava que fosse assim — Hyunjin tentou se justificar, a voz mais alta do que pretendia.

- Não precisa se desculpar — Felix respondeu. A proximidade o fazia ouvir até a mínima mudança na respiração do outro — A cena é... interessante.

Na tela, gemidos suaves se misturavam à trilha sonora. Era erótico, mas não vulgar. Era cru. Real. Um reflexo da crescente tensão entre os dois.
Felix virou levemente o rosto em direção a Hyunjin e percebeu o arrepio que correu por seu pescoço quando seu hálito tocou a pele dele. E teve a certeza de que aquele rapaz iria acabar consigo. Como podia ser tão sensível assim?

— Você está corado — provocou, com um meio sorriso.

— A culpa é da cerveja — Hyunjin brincou, mas sua voz falhou levemente.

— Acho que não — Felix inclinou-se devagar, como quem testa limites. — Posso provar?

E antes que Hyunjin pudesse responder, a distância entre os dois desapareceu. O beijo não pediu licença — exigiu. Era quente, lento, com um domínio que vinha da segurança de quem sabia exatamente o que queria. Felix não precisou de muito para fazê-lo se render.

A lata de cerveja escapou de seus dedos e caiu num baque surdo no tapete. As mãos de Felix deslizaram por sua cintura, puxando-o com vontade. Ele sentiu a perna do loiro entre as suas, sentiu a pressão, o calor crescente. Tudo naquele toque parecia planejado, ensaiado para deixá-lo fora de controle.

— Você faz isso com todo mundo? — Hyunjin sussurrou entre um beijo e outro.

— Não — Felix roçou os lábios contra o pescoço dele. O cheiro dele o estava enlouquecendo — Só quando estou realmente interessado.

E a forma como o disse, rouca e baixa, arrepiou cada centímetro da pele de Hyunjin. O filme seguia ao fundo, completamente esquecido. Agora, todo o foco estava nos toques, nos suspiros, nos gemidos contidos. Sobre os dois corpos que não se conheciam por completo, mas que já sabiam o caminho um do outro.
Foi então que a delicadeza cedeu lugar ao caos.

Sem preâmbulos, Hyunjin avançou sobre Felix, puxando sua blusa com brutalidade, os dedos quentes e decididos atravessando o tecido, como se rasgar fosse mais fácil do que levantar. As mãos tocaram direto a pele — firmes, exigentes — traçando caminhos ardentes sobre seu peito, unhas descendo pelo abdômen, como garras marcando território. A boca veio em seguida, faminta, mordendo com força.

Havia um instinto ali, algo primitivo. Hyunjin parecia guiado por uma fome que não fazia sentido, mas que queimava. Quando alcançou o primeiro cinto de Felix, abriu com violência, os olhos escuros, intensos, como se só enxergasse aquele corpo. O restante foi praticamente arrancado, incluindo a blusa, que acabou lançada sem nenhum cuidado. Felix percebeu, com assombro, que aquele não era o mesmo Hyunjin de antes. Havia algo dentro dele querendo sair. E ele não faria nada para impedir.

Amava aquele desespero, aquela paixão desmedida. Sentia que, a qualquer instante, Hyunjin o jogaria no sofá e tomaria o que quisesse. O pensamento foi tão avassalador que, por um momento, Felix esqueceu o que era — ou melhor, o que deixara de ser.

Mas que se danasse. Se Hyunjin o desejava tanto assim, então que o tivesse.

Felix o ajudou a tirar sua própria regata, e quase riu quando um dos brincos dele ficou preso no tecido — mas conteve a gargalhada ao ouvir Hyunjin rosnar um palavrão. Aquilo soou malditamente sexy!

Assim que conseguiram desenganchar o objeto sem machucá-lo, Felix segurou ambos os lados da cabeça de Hyunjin, como se para ancorá-lo, para sentir se estava tudo bem mesmo antes de continuarem. Encostou a testa na dele, deixando que também aproveitassem aquele momento para tomarem fôlego.
Hyunjin era a imagem da ruína: a respiração entrecortada, os lábios tingidos de vermelho, as pupilas dilatadas. O desejo era quase palpável. Felix se reposicionou acima dele, apoiando-se sobre os joelhos, decidido a tocá-lo onde mais desejava.

— Posso tocar você? — pediu, tentando controlar o próprio desespero.

— Oh, meu Deus, sim — Hyunjin gemeu baixinho, mordendo os lábios quando sentiu dedos pálidos finalmente envolverem seu membro.
Estava tão excitado que doía, e sabia: não duraria muito.

Felix pareceu compreender, porque primeiro se ocupou em massagear devagar, numa carícia lenta e quase torturante. Hyunjin se sentia vibrar debaixo de sua própria pele, êxtase e agonia transparentes em sua expressão. Um deleite para olhos famintos, que acompanhavam de perto cada reação, cada suspiro e gemido que escapavam.

— Mais rápido — Hyunjin exigiu, impaciente, tomando a mão na sua e guiando-o — Mais forte, não para.

Então, os movimentos se aceleraram, os gemidos aumentaram de volume e toda a sede que Felix esteve reprimindo se libertou. Não soube precisar quando suas presas se projetaram para fora ou mesmo quando seus lábios, que antes se encontravam apenas beijando o pescoço alheio, se fecharam com fúria sobre a carne macia. Quando se deu por si novamente, já o estava mordendo, a mão livre ainda o segurando firme no lugar, enquanto o sangue fluía em sua garganta. Rico, doce, sobrecarregado pela paixão.

Ao longe, teve a sensação de ter ouvido a voz de Hyunjin chamá-lo em meio ao clímax, antes de colapsar em seus braços. Apavorado, Felix o soltou. Suas mãos tremiam, seu coração sangrava. A ideia de perdê-lo era paralisante. Jamais se perdoaria!

Foi quando o ouviu tentando recuperar a respiração e praguejar baixinho, que se acalmou de verdade. Nem tudo estava perdido. Hyunjin ainda estava ali. Não estava sozinho.

— Acho que exagerou na mordida — Hyunjin comentou de repente, rindo, e passou a mão no pescoço — Deixou alguma marca? Vê pra mim?

Felix acatou o pedido, embora soubesse que não encontraria ferimento algum, pois teve o cuidado de morder a língua e deixar seu sangue cicatrizar os furos. Como conseguiu se controlar depois de prová-lo, só Deus sabia dizer. Ainda estava tentando recuperar o controle. Refrear sua sede daquele jeito não era fácil. Hyunjin não era somente, absurdamente atraente. Seu sangue era o néctar proibido, o sagrado e o profano, o seu céu e o seu inferno particular.

- Não, não se preocupe - falou, tentando respirar fundo pela enésima vez. - Não deixei marcas.

- Ah, que bom! Os rapazes iriam me zoar muito se eu aparecesse amanhã com uma mordida enorme no pescoço - Hyunjin sorriu e Felix, que naquela altura já estava completamente cativado pelo rapaz, sentiu-se como se tivesse sido apunhalado no coração.

Como ele podia sorrir com tanta leveza, sem saber o quão perto estivera da morte? Aquela inocência, aquela confiança, doía mais do que qualquer coisa.
Não, não dava. Podia sentir a fome que fosse, não conseguiria matá-lo. Não ele, não esse menino com alma de artista, tão sensível, tão vulnerável, tão gentil. E então, todos aqueles clichês repetidos por vários vampiros voltaram à sua mente: você o acha irresistível porque a beleza dele, como a de todos humanos, é efêmera. Porque ao contrário de nós, não foram feitos para durar. Tão imperfeitos e frágeis. Tão sensíveis às intempéries do mundo em que habitam. Há coisa mais bonita e trágica?

Precisou piscar para que não derramasse uma lágrima, porque tudo o que não precisava agora era assustar Hyunjin.

O que Felix era, se não um assassino? Um ser abjeto que se mantinha às custas do sofrimento humano. O que quer que restasse de seu espírito estava condenado. Não importava o que sentisse por ele, não podiam ficar juntos.

- Ei, você tá longe - Hyunjin tocou seu braço, o olhar preocupado - Tá tudo bem?

- Está sim, lindo. Venha cá.

Hyunjin se aninhou contra o peito de Felix, a respiração ainda pesada e os sentidos embriagados. Passaram-se alguns minutos em silêncio contemplativo, e só então ele se deu conta.

— Você… — murmurou, erguendo o rosto para encarar o loiro — Não terminou.

Felix sorriu de leve, os dedos traçando círculos lentos em suas costas.
— Eu tive o suficiente.

E havia tanta verdade naquele olhar que Hyunjin não se sentiu capaz de contestar. Era algo quase reverente. Não soube nomear — mas sentiu. Intenso, profundo. Quente como o toque daquelas mãos que ainda o envolviam.

Depois de algum tempo, desligaram a TV e aproveitaram para mudar de posição. Felix se sentou direito para que Hyunjin se deitasse e encostasse a cabeça em suas pernas. Afinal, ele parecia sonolento, cansado. Felix sabia que isso não era devido ao orgasmo. Tirou dele mais do que pretendia, mais do que seria considerado prudente e ainda se culpava por isso. Caso tivesse demorado um pouquinho a mais, poderia ter causado um ataque cardíaco ou mesmo um AVC. Agora, deixaria que Hyunjin descansasse. Ficaria com ele até que adormecesse e então, sairia de mansinho.

Na manhã seguinte, Hyunjin não se lembraria de nada.

Após alguns minutos, quando viu que ele realmente dormia, Félix o pegou delicadamente no colo e o levou para o quarto. Depositou-o na cama com cuidado para que ele não acordasse, ajeitou os cobertores e ficou parado ali como se velasse o seu sono. Olhou no relógio. Quase três da manhã. Tempo o suficiente para uma refeição antes do sol nascer.
Sorriu triste para si mesmo uma última vez enquanto o observava dormir. E em silêncio, rezou uma prece, implorando que Hyunjin fosse feliz, que encontrasse alguém que pudesse ficar. Que essa pessoa, acima de tudo, pudesse amá-lo como ele merecia. Em seguida, com lágrimas nos olhos e o coração em pedaços, foi embora.

***

Hyunjin acordou com o sol batendo em seu rosto. Resmungou, virou de lado, afundou-se no travesseiro. Droga, ainda que quisesse continuar dormindo, uma vez que havia acordado, não conseguia voltar. Não quando os raios de sol invadiam seu quarto de maneira tão impiedosa. Suspirou, remexeu-se e esfregou os olhos. Caramba, o que era aquilo? Uma ressaca? Mas nem bebeu tanto assim. Seu corpo parecia pesado, fraco, estranho.

Seria uma gripe?

No entanto, assim que levantou o cobertor e fez menção de se levantar, notou que havia uma flor em cima do travesseiro. Uma flor branca, mais especificamente da espécie jasmim. Espera, aquela era uma flor do seu jardim? Como foi parar ali?!

Hyunjin coçou a cabeça, encucado. Será que exagerou demais na cerveja ontem, resolveu pintar alguma coisa e usou a pequena flor como referência?
Voltou à sala e não encontrou nenhum quadro novo, nem resquícios que o ajudassem a entender o que, de fato, aconteceu. Sua mente tampouco o ajudava. Era como se a noite anterior tivesse sido apagada. Esquisito demais.

Pegou o celular, destravou e checou as notificações. Três, só de Christopher. Típico. Leu a mensagem que tinha mandado antes mesmo de ver a resposta do amigo e ela o deixou branco feito papel.

“Estou indo pra casa com um gostoso que conheci aqui no clube. Se precisar de mim pra qualquer coisa, desprecise!”

Meu Deus! Então trouxe alguém para casa ontem. E onde estava esse cara? Por que não lembrava de nada, por que se sentia tão fora do normal. Por que, diabos, não lembrava de nada?!

Olhou em volta e não identificou nada fora do lugar. Roubado não foi. Olhou sua carteira, cartões de crédito, tudo em ordem. Será que foi vítima de uma ‘boa noite cinderela’? Mas com qual intenção, se não houve roubo? Checou seu corpo novamente. Sim, ainda se sentia fraco, estranho, porém não dolorido. Especialmente não naquele lugar. Podia descartar estupro também. A falta de memória era preocupante. Quando tentava forçar, sentia até dor de cabeça.

Será que o homem simplesmente veio, não curtiu e foi embora?

De repente, lembrou-se da flor. Jasmim costumava ser associada à conexão espiritual, chegando a ser considerada uma flor sagrada. Em questões românticas, representava amor eterno.

Curioso, lembrava-se vagamente de ter conversado sobre a linguagem das flores com alguém. Entretanto, por mais que se esforçasse, o rosto dessa pessoa continuava envolto em sombras. Como um sonho bonito que se desfaz ao acordar — deixando apenas o perfume para trás.

Deitado sozinho em seu refúgio, Felix pensou na flor que deixara ao lado do travesseiro.
Jasmim. Branca, pequena, delicada. Duraria pouco.

Como aquela noite. Como a humanidade dentro dele. Como tudo que Hyunjin parecia tocar — belo demais para durar.
Talvez fosse melhor assim. Que lembrasse apenas da flor. Não dele.

~Fim~

Notas finais: O clube no qual me inspirei nessa fanfic realmente existe e se chama Madame: https://www.instagram.com/madameclub/?hl=pt
Não entendo tanto assim de arte, tá? Apenas me lembrei vagamente das aulas de História da Arte que tive na faculdade.
O quadro usado na história está no Instagram do Hyunjin: https://www.instagram.com/p/DCJNY0IvoVZ/?img_index=1