Chapter Text
10:33 da noite.
Tudo aconteceu de forma rápida, sem tempo para protestos, e agora Sonic encontrava-se na frente da porta dele. Mochila nas costas, o pé batendo repetidamente na calçada, o nervosismo tomando todo seu ser de forma intrometida.
Não tinha sido por mal. Era sempre assim — ele nunca fazia por mal. Mas um movimento impulsivo, uma corrida desajeitada entre piadas e gargalhadas, e pronto: o projeto de dias do Tails estava em pedaços no chão. E junto com ele, o olhar magoado dos amigos.
Sonic tentou se explicar. Tentou ajudar. Tentou... se controlar. Mas era difícil colocar rédeas em um coração que batia em super velocidade.
Depois de algumas palavras atravessadas e um silêncio pesado, a sugestão — quase um ultimato — veio: “Talvez seja melhor você passar uns dias longe.”
E agora ele estava ali. Diante da única residência onde ainda tinha a mínima chance de não ser chutado porta afora: a de Shadow.
Ele respirou fundo. As orelhas baixaram, como se tentassem se esconder da vergonha. O punho pairou no ar por um segundo longo demais antes de bater na madeira. Uma. Duas. Três vezes.
Nada.
Mais um suspiro. Mais desesperado que o primeiro.
Quando ele se virou, pronto pra aceitar que talvez nem o velho rival o quisesse por perto, a porta se abriu com um rangido lento e irritado. E lá estava ele — moletom preto, expressão carregada, olhar que parecia perfurar até os ossos.
— …Sério? — foi tudo o que Shadow disse, uma sobrancelha arqueada de puro desgosto.
Shadow estava prestes a fechar a porta, entretanto o ouriço azul impediu-o, pondo um pé.
— Olha... não é querendo incomodar, mas já incomodando... — Ele começou, um pouco desajeitado, ao mesmo tempo no qual pelejava para manter seu estado humorístico habitual. Apesar disso, era um tanto perceptível que... tinha algo distinto. — Mas acho que vou precisar me alojar na sua casa por uns dias.
— Não lamento informar, porém minha casa não é um hotel, adeus. — Disse Shadow, ríspido.
— Não, não! Por favor! Me deixa ficar... — Implorou, imitando uma cara de cachorrinho abandonado; ambas as palmas das mãos juntas numa súplica melodramática. — É sério, Shads! Você é tão cruel assim para deixar um amigo desabrigado?
— Não somos amigos. — O ouriço negro cruzou os braços, impaciente, — Agora saía daqui. Por que não vai se abrigar na casa dos seus amiguinhos? Ou daquele seu irmão... o Tails?...
Sonic engoliu em seco. O nome do pequeno trazia memórias desagradáveis no momento. Tails estava muito frustrado. Era quase espantoso. As ocorrências nadavam dentro de sua cabeça sob águas frescas. Aquela balbúrdia, o jovem ouriço ainda mantinha-a no seu âmago, rebobinando com fortes arrependimentos.
O azulado nunca viu seu amigo tão estressado igual naquela hora, fato do qual assustava-o, montando elucubrações negativas e cheias de temor. Sonic não queria perder uma amizade incrível graças a erros bobos. Droga, ele se sentia tão culpado.
— Eu... ele… a gente discutiu. Não acho que Tails queira me ver por um tempo. Mas está tudo bem. Vamos nos resolver logo! É coisa de irmãos. — Era um sussurro acompanhado de um riso cujo transbordava receios ocultos, pouco idêntico ao ouriço azul que a Forma de Vida Suprema adaptou-se a conviver. — Por favor, Shadow... me deixa ficar. Eu não tenho para onde ir agora. Prometo não ficar por muito tempo e ser um bom menino!
Shadow permaneceu calado por alguns segundos. Um silêncio tenso, pesado, quase cruel. Seu olhar se manteve firme no rosto de Sonic, como se tentasse decifrar se aquilo era mais uma encenação exagerada do ouriço... ou se por trás do sorriso forçado havia algo mais quebrado do que ele deixava transparecer.
— Tsc... — Ele bufou, virando de costas. — Entra logo antes que eu me arrependa.
Sonic piscou. Uma, duas vezes. Ele não esperava que fosse funcionar. Ao mesmo tempo em que sua expressão se iluminou, havia algo hesitante em seus movimentos. Como se não soubesse mais como ocupar espaço sem incomodar.
— Valeu, Shads! Eu juro, nem vai notar que tô aqui. Vou ser como... como uma brisa! — tentou brincar, mas sua voz soava baixa, quase como se tivesse medo de ser ouvido demais.
Shadow não respondeu. Apenas seguiu para dentro da casa, os passos firmes ecoando no piso como pequenas ameaças de impaciência. Sonic fechou a porta devagar, tentando não fazer barulho, como se cada gesto fosse uma bomba-relógio prestes a explodir o resto da paciência do dono da casa.
— Você pode dormir no sofá — disse Shadow, apontando com o queixo. — Não toque em nada. Não mexa nas minhas armas, muito menos nos meus figurine actions. E, principalmente, não fale enquanto eu estiver lendo.
— Você lê? ‘Pera, tu tem figurine actions? Cadê?
— Cala a boca, Sonic.
O azulado deixou escapar um risinho abafado. Por um segundo, só um segundo, ele se permitiu sentir que talvez... só talvez... ficar ali não fosse tão ruim assim.
Mas aquele sentimento logo se dissipou quando sentou no sofá e sentiu o peso da própria exaustão emocional cair como um cobertor pesado sobre os ombros. Ele encarou o chão, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas.
“Você precisa mudar”, ecoava a voz da Rose em sua mente.
“Não dá mais pra você ser assim o tempo todo, Sonic.”
“Você tem que se esforçar mais pra entender os outros.”
“Você precisa melhorar.”
Mas... melhorar como? Ele nem sabia mais quem ele era sem aquele caos natural que o movia.
E, pela primeira vez em muito tempo, Sonic se perguntou se ainda havia algo de certo nele que valesse a pena preservar.
Shadow, do outro lado da sala, observava sem parecer olhar. Ele havia se sentado numa poltrona próxima, livro em mãos, óculos na cara, contudo os olhos não passavam da primeira linha há minutos. Algo no jeito quieto — quieto demais — de Sonic mexia com ele. Era incômodo. Inquietante. Como um vazio que fazia mais barulho que mil palavras.
Ele pigarreou, tentando ignorar.
— Já comeu? — perguntou de repente, sem tirar os olhos da página.
Sonic levantou o rosto, surpreso pela pergunta. Ele forçou um sorrisinho, sacudindo a cabeça.
— Nah... sem apetite. — Mentira. Mas a verdade parecia coisa demais pra dizer em voz alta.
Shadow virou mais uma página, sem ler.
— Vai acabar desmaiando aí feito um idiota.
— Que bom que tem um sofá, então. — Sonic respondeu, num tom que tentou soar leve, mas escorregou num cansaço arrastado.
Silêncio de novo. Shadow fechou o livro com mais força do que precisava.
— Você tá estranho. — disse, por fim.
— Como assim? — Sonic riu, coçando a nuca. — Eu sou sempre estranho, Shads. Isso não é novidade.
Shadow se levantou, passos lentos até parar na frente do sofá. Os olhos vermelhos fitaram o outro com seriedade desconfortável.
— Não é isso. Você tá... silencioso. Demais. Tô acostumado com você sendo irritante, tagarela e sem noção. Agora parece que colocaram o modo “mudo” em você.
Sonic desviou o olhar, apertando os dedos contra o tecido do sofá.
— Talvez seja isso que eu deva ser, né?... Silencioso. Menos... eu.
Shadow franziu o cenho.
— Quem disse isso?
O azul respirou fundo. O ar parecia pesado de engolir.
— Todo mundo. Só que sem dizer diretamente. Eles cansam, Shads. Cansam de mim. De quem eu sou. Da bagunça. Da confusão. Do... barulho. Então eu pensei... e se eu tentasse ser diferente? Mais calmo. Mais... normal.
Por um momento, tudo ficou em silêncio.
Shadow cruzou os braços, olhando pra baixo como se pensasse nas palavras antes que escapassem.
— Isso é idiota. — disse, por fim. — Se for pra conviver com uma versão podada de você, eu prefiro não conviver.
Sonic piscou, surpreso.
— Espera... isso foi um elogio?
— Não se acostuma.
— Não sabia que você se importava, Shads. — Sonic cantarolou, provocante. — Eu me sinto lisonjeado, sério. — Uma pequena ironia. Uma brincadeira idiota a fim de tirar seu rival do sério e, portanto, fugir desse diálogo cujo poderia abrir portais a coisas profundas demais.
— Tsk, você não tem jeito. Nem sei porque me preocupo. — Shadow, por sua vez, gostaria de prosseguir. Porém, lidar com o sentimentalismo nunca foi do seu feitio.
— Oh! Então você realmente se preocupa! Eu sabia! Aw, isso é tão fofo da sua parte. — Empolgado, Sonic escorou suas costas no sofá, suas pernas balançando de maneira infantil. — Eu não sabia que você era carinhoso, mas sempre soube que havia algo além dessa sua cara-velha-emburrada! — o sorriso ia de ponta a ponta, sarcasmo disfarçado pela entoação brincalhona, embora houvesse um sentimento do qual pelejava para se esconder.
Shadow notou, evidentemente, que o comportamento sardônico e convencido lembrava uma encenação. Não era verdadeiro — era forçado. O ouriço negro não soube o que fazer, a princípio, além de largar um pequeno lembrete:
— Ei, Faker. Se você sentir que precisa contar algo... Não seja idiota. Você sabe que pode pedir minha ajuda. Mas se for algo estúpido como na última vez eu não serei piedoso.
Sonic permaneceu em silêncio por alguns instantes, ainda com o sorriso no rosto — mas ele não alcançava os olhos. Shadow notava, claro. Notava tudo. Mesmo que nunca dissesse.
O azul apenas acenou com a cabeça, o sorriso diminuindo até se tornar quase imperceptível.
— Valeu, Shads. De verdade.
— Hmph. Só não estrague nada.
— Prometo não quebrar o sofá. Talvez só o micro-ondas.
Shadow estreitou os olhos, já arrependido da decisão.
— Se você explodir meu micro-ondas, vai dormir no telhado.
— Vai parecer que tô acampando! Sempre quis isso!
O silêncio veio de novo, porém dessa vez era confortável. Como um cobertor velho numa noite fria. Shadow se virou para voltar à poltrona, mas parou ao ver Sonic deitar no sofá, se encolhendo um pouco.
— Boa noite, Shadow. — sussurrou ele, quase num fiapo de voz.
Shadow hesitou. Algo naquele tom o fez olhar por mais um segundo. Depois, murmurou de volta:
— Boa noite... idiota.
A luz do abajur foi apagada, mergulhando a sala em penumbra. O mais velho saiu da sala de estar na intenção de buscar um lençol para seu novo inquilino.
E assim terminava o primeiro dia do exílio improvisado.
Duas almas inquietas sob o mesmo teto.
Ambos lidando com sentimentos que não sabiam nomear.
Ambos fingindo que era só por alguns dias.
Ambos sentindo, bem no fundo, que algo estava prestes a mudar.
