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Power Over Me

Summary:

Onde uma festa com karaokê é organizada e Wednesday encontra a múscia perfeita para demonstrar seus sentimentos por Enid e dizer tudo o que sente, mesmo que nem ela e nem ninguém esperasse por isso.

Notes:

Eu voltei pq eu tive essa ideia meio doida ouvindo Power Of Me do Dermot Kennedy. Essa música é MUITO delas e ngm vai conseguir tirar isso de mim.

Estamos a poucos dias do lançamento da nova temp e eu to mega empolgada, daí ja meio que fiz pensnado numa ambientação pós primeira temp e ja com o novo personagem mais odiado deste fandom, Bruno.

Se você nunca ouviu essa música, recomendo muito que ouça e, se quiser saber como eu imaginei na voz da Wed, pesquisa no YouTube o cover de uma menina chamada Emma Baker.

E sim, estou postando isso duas vezes aqui no perfil, uma vez em inglês e outra no idioma original para fazer um teste, já que falantes de inglês aparentemente não têm a função do Google Tradutor.

Espero que vocês não odeiem como eu acho que não odiei e é isso.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

A noite estava fria porque o outono já havia batido à porta, deixando as pessoas mais agasalhadas ao passo que trazia consigo o fim do ano. Nevermore nunca estivera tão silenciosa antes, nem mesmo nas madrugadas invadidas por adolescentes fujões e criaturas noturnas, não, desta vez o silêncio era intencional e inevitável pois, ao contrário do que se esperaria, quase todos os quartos de todos os dormitórios estavam vazios.

Uma festa foi organizada.

Não qualquer festa, a maior desde que a escola fora salva pela gótica mal-humorada do Ophelia Hall. Uma festa que ignorava hierarquias e desavenças entre espécies, onde todos eram bem-vindos, inclusive os desafetos, os deslocados e os mais e menos populares.

Wednesday soube da festa mais de uma semana antes. Observou com facilidade a movimentação que, por mais que tentasse parecer furtiva, era tudo menos sutil. Alunos cochichavam, passavam convites de papel discretamente pelos corredores e, numa das tentativas mais patéticas de sigilo que já presenciara, arrastaram engradados de cerveja barata floresta adentro assim que o expediente dos professores terminou.

Ela achou tudo ridículo, claro que sim. Aquilo parecia mal estruturado, fácil de ser desmantelado, além tratar-se de uma festa idiota para a qual ela obviamente ela não iria.

Na metade daquela semana, Wednesday chegou atrasada ao almoço quando precisou revisar um parágrafo particularmente desafiador do seu romance. Assim que entrou no refeitório, seus pés hesitaram. Ela cogitou dar meia-volta e retornar ao quarto sob a penitencia de ficar sem comer, já que seria um destino mais interessante do que sentar com Bruno à mesa, acompanhado de seus colegas habituais.

Ele estava agarrado a Enid como vinha fazendo desde que os dois começaram a se relacionar. Era incrivelmente nojento todo aquele contato público que Enid permitia, pior ainda era o quanto aquilo revirava seu estômago todas as vezes.

— Wed, aqui! — Enid ergueu a mão e acenou com entusiasmo para sua colega de quarto, antes que a morena pudesse se virar e escapar. E assim, sua única chance foi por água abaixo.

A contragosto, Wednesday se arrastou até sua mesa habitual, colocando um pé na frente do outro com toda a lentidão que a dignidade permitia. Sentou-se ao lado de Eugene já que esse era o mais longe que ela chegaria do casal, apesar de, lamentavelmente, ser de frente para o cenário asqueroso. Como polos opostos, forçada a encarar aquilo que mais queria evitar.

— Chegou na hora, Wandinha! Yoko tava nos chamando pra uma festa! — Eugene exclamou alto demais, como de costume.

— Ei, shhh! — Yoko o repreendeu no mesmo instante. — É uma festa secreta, Gene. Não podemos falar disso em voz alta por aqui.

— Está falando da “festa secreta” que vocês vêm promovendo em plena luz do dia, na frente dos professores, com a descrição de uma tonelada de sangue humano? Não sei se "secreta" é a palavra mais adequada. — A voz de Wednesday saiu tão monótona quanto pôde. Ela desviou o olhar do braço de Bruno, que descansava sobre o ombro de Enid, como se aquilo não importasse.

— É, e eu achei que todo mundo teria sido convidado de qualquer jeito... — Eugene deu de ombros.

— Sim, mas ainda é só pra alunos. Uma palavra disso ao diretor e estamos fritos.

Os olhares automaticamente se voltaram para Bruno, que até então não havia dito nada, ele parecia ter olhos apenas para Enid.

— Ah, não se preocupem comigo. Não vou contar nada ao meu pai, quero mesmo que essa festa aconteça. Quero que ela seja épica, na verdade. — Seus olhos desviaram dos demais rostos e pousaram sobre o da loira ao seu lado. Ele sorriu, sugestivo. — Quem sabe seja o momento certo pra gente oficializar as coisas, não é, lobinha?

Enid sorriu sem graça e desviou o olhar. Sua mão procurou desajeitadamente o copo de suco na sua frente e o levou aos lábios, não respondendo.

— Bom, de todo jeito, precisamos entregar os convites com as coordenadas pra vocês saberem como chegar até o lugar. É no meio da floresta, e não queremos que ninguém se perca. — A voz de Divina surgiu enquanto ela retirava alguns envelopes arroxeados de dentro da bolsa.

— Convites físicos? Estamos em que ano, 2010? — Ajax zombou, deixando cair farelos do que quer que estivesse mastigando. Wednesday torceu o nariz ligeiramente enojada.

— É por causa da descrição da localização, sua anta. Medida de segurança. — Yoko pegou os convites e começou a passá-los discretamente por baixo da mesa, um a um. Por fim, estendeu o de Wednesday, que ficou imóvel, sem fazer menção de pegá-lo. — Qual é, Wednesday. Pega logo o convite. Minha mão vai cair se eu ficar aqui o dia inteiro.

— Pode direcionar a minha vaga a outra pessoa. Não tenho qualquer interesse em participar de uma festa lotada de excluídos, álcool e tempo desperdiçado.

— O quê? Ah, não, Wandinha! Você tem que ir! Vai ter karaokê e tudo! — Eugene disse animado.

— Isso era pra me convencer de alguma coisa, exatamente? — Wednesday ergueu a sobrancelha, genuinamente confusa.

Antes que alguém respondesse, Enid se adiantou e direcionou a amiga aquele olhar que sempre a desarmava, um sorriso manso no canto da boca e os olhos brilhando mais do que deveriam. Ela apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou, como se falasse só com Wednesday, mesmo que todos ouvissem.

— Vem só um pouquinho, vai. Eu sei que você odeia aglomeração, mas a gente pode ficar de canto... só observando as pessoas passarem um pouco de vergonha. Aposto que vai render ótimas anotações pro seu livro, você pode ver como experimento social.

Wednesday apertou os lábios, olhando de lado para ela.

— Eu tenho um cronograma noturno rígido que inclui três capítulos do meu romance, meditação e um banho longo.

— Você sempre tem. — Enid sorriu, com doçura. — Mas quando foi a última vez que você... sei lá... se divertiu sem planejar tudo?

— Defina “divertir”.

— Eu aparecendo com glitter demais e você revirando os olhos até eles chegarem atrás da sua cabeça só pra no fim ir me ajudar. É assim que a gente funciona, não é? — Os lábios da morena se apertaram levemente enquanto ela os mordiscada de leve — Vamos, por favor...

Por um momento, houve silêncio.

Yoko segurou o riso leve, disfarçando-o de pigarro enquanto Divida olhava de canto, sem querer atrapalhar o que quer que estivesse acontecendo alí.

E Wednesday? Bem, ela não disse sim. Mas também não disse não.

Ela só estendeu a mão e pegou o convite.

Os dias entre o convite e festa passaram correndo demais. Wednesday buscou se ocupar com qualquer coisa que deixasse sua mente longe de pensamentos sobre multidões, lobos, loiras ou lobas loiras.

O fim da tarde chegou com o céu num tom alaranjado pálido, e os dormitórios de Nevermore já começavam a vibrar com a movimentação sutil dos alunos se preparando.

Enid começou a se arrumar mais cedo do que o normal, o que era surpreendente, considerando que normalmente ela se atrasava procurando a roupa perfeita para qualquer ocasião. Mas não para essa festa, desta vez ela sabia qual era a roupa perfeita.

Apesar disso, ela caminhava de um lado ao outro do quarto ainda descalça, mordendo o lábio inferior enquanto observava sua imagem no espelho todas as vezes que passava por ele. O vestido curto era preto, uma cor que ela quase nunca usava, mas com detalhes cintilantes em prata e holográfico que eram para lembrar o brilho da lua, ou ao menos assim ela esperava, um toque que ela queria que fosse sutil o suficiente para agradar os olhos exigentes de sua colega de quarto.

Ela ajeitou os fios loiros soltos sobre o ombro pela milésima vez e conferiu se a maquiagem estava de acordo com a composição quando ouvir a porta se abrindo.

— Você já está se arrumando? A festa não começava só às nove? — perguntou Wednesday, entrando no quarto com sua habitual mochila preta nas costas e um livro recém pego da biblioteca nas mãos. Ela se virou para fechar a porta pesada com toda sua força, sem olhar para dentro.

Enid girou nos calcanhares, nervosa, mas tentando parecer casual.

— É que eu estava ansiosa... — respondeu, forçando um sorriso. — Na verdade estava esperando sua opinião, será que está demais?

Wednesday ergueu os olhos por cima do livro, e, por um momento, ficou em completo silêncio.

Era rara a ocasião em que Enid a deixava sem palavras, Enid parecia ter o dom de ser sempre luz sem exagero, sempre brilhante sem esforço, mas ali, naquele instante, Wednesday sentiu um desconforto quente subir até o estômago enquanto seus olhos desciam por seu corpo. O vestido realçava cada detalhe que ela tentava ignorar por meses, fazia seu coração pulsar em seus ouvidos e sua respiração falhar.

— Está... aceitável. — foi tudo que disse, com a expressão indecifrável enquanto esperava que seu fôlego não tivesse afetado seu tom de voz.

Enid arqueou uma sobrancelha, decepcionada.

— Só aceitável? — Sua boca franziu

— Os detalhes prateados lembram purpurina e luar — Disse Wednesday, enquanto se lembrava de fazer o resto no caminho para dentro do cômodo e sentava na ponta da cama com uma seriedade fingida — Mas são toleráveis, combinam com você e parecem... equilibrados.

Enid sorriu, seu coração se encheu de uma alegria inegável quando percebeu que ela havia entendido.

— Isso é o mais próximo de um “uau” que eu vou conseguir, né?

— Uau é uma palavra previsível. — A morena murmurou deixando seu livro de lado

Um riso leve bem mais parecido com um bufo escapou dos lábios de Enid. Ela se aproximou e se sentou ao lado da colega, encostando levemente o ombro no dela como elas sempre faziam. Wednesday sentiu o tecido ligeiramente áspero do vestido raspar nas costas de sua mão e suspirou, suportando o turbilhão de pensamentos que vieram junto da proximidade dela.

— E você, vai mesmo?

— Não sei porque iriam me querer em um lugar assim, eu não sou sociável e nem tenho vontade de ser.

— Bem, eu quero — Ela respondeu lhe dando um breve empurrão com o ombro — Quero você em muitos lugares onde eu vou, fora que, você deu a entender que iria.

— Tecnicamente eu apenas peguei o convite.

Antes que Enid pudesse responder, uma batida na porta ecoou alta e repetitiva. Enid pulou de seu lugar repentinamente como se estivesse queimando e coçou a garganta, antes de ir em direção a porta.

Antes que a morena tivesse tempo de reagir, Bruno enfiou a cabeça para dentro do quarto com aquele sorriso expansivo que ele sempre trazia, como se o mundo até onde o olhar alcance pertencesse a ele.

— Você está pronta, lobinha? — Seu tom açucarado trouxe as náuseas dela de volta enquanto a fazia enrijecer um pouco, assim como Enid, mas nenhuma das duas notou isso uma na outra.

— Quase. — Enid se afastou da porta de imediato e pegou seus sapatos perto da cama, sentando-se para calça-los enquanto Bruno se encostava no batente para esperar.

Os olhos de Wednesday a traíram e correram em direção a ele que, sem nenhuma noção de perigo, jogou uma espécie de bitoca descontraída em sua direção.

Um arrepio subiu na espinha dela, não dava para sair do dormitório e abdicar do seu tempo de escrita para ver aquele cara com as mãos em cima de Enid, simplesmente não dava.

A jaqueta rosa sob a cadeira foi a próxima coisa que a loira pegou para rapidamente se dirigir a porta. Antes de sair, olhou por cima do ombro para Wednesday que estava na mesma posição que antes apesar de visivelmente mais desconfortável.

— Wed, você não vem com a gente?

A morena negou sutilmente com a cabeça.

— Vou depois, preciso trocar o uniforme primeiro, talvez mais... alguns minutos. —Assim que Enid saísse ela iria para o banho e depois para dentro de uma roupa confortável, nada a faria sair do dormitório.

Enid franziu a testa e a olhou por mais alguns segundos, desconfiada. Seu olhar caiu em Bruno que, ao ver que ela estava vindo tinha ido para o corredor, consequentemente alheio a troca de olhares.

Ela então suspirou e voltou um passo, se aproximando de Wednesday.

— Promete que vai?

Os olhos azuis esverdeados dela procuraram os negros da Addams para ter certeza de que ela tinha entendido. Era um pedido simples.

Wednesday demorou um segundo antes de responder, sem saber se teria que quebrar a promessa feita para si mesma ou a feita para Enid.

— Eu prometo. — Ela disse por fim

A loira sorriu, com um brilho contido nos olhos.

— Te espero lá, tá?

Ela saiu, deixando um rastro leve de perfume doce e calor. Wednesday fechou os olhos por um instante, tentando se recompor para ir atrás de uma roupa e encontrar a tal festa.

Ela suspirou, decidindo se enganar de que seria uma noite tolerável, afinal.

O caminho pela floresta era complexo, Wednesday segurava o convite com as instruções nas mãos, resmungando mentalmente sobre a completa ausência de lógica própria em se enfiar em uma programação dessas e, ao mesmo tempo, reconhecendo que que o trajeto não era fácil de decifrar. A trilha era mal iluminada, cheia de desvios, passagens escondidas por folhas e galhos baixos. No meio dela não dava para ouvir nada vindo de nenhum dos lados, o que ela imaginou que seria um ponto para os organizadores e talvez meio ponto para a festa em si.

Quando finalmente chegou ao local, o som grave do baixo e os risos abafados por copos e música ecoavam entre as árvores. A clareira estava iluminada com tochas mágicas e algumas luzes de LED improvisadas, penduradas em cordas que serpenteavam entre as árvores. A estrutura era improvisada, mas havia esforço ali, talvez até e um certo charme caótico se ela avaliasse com frieza.

— Pelo menos é afastado — Murmurou sozinha. — E a chance de alguém se perder e nunca mais voltar é reconfortante.

Ela mal deu dois passos para dentro da festa quando uma figura familiar cruzou seu caminho: Bianca, impecável como sempre, com um copo na mão, um vestido laranja que poderia ser visto do outro lado da galaxia e um sorriso afiado no rosto.

— Achei que você não apareceria. — Disse a sereia, arqueando uma sobrancelha. — Isso aqui não grita exatamente a vibe “Addams”.

Wednesday permaneceu em silêncio por um segundo, os olhos varrendo o local sem disfarce.

— Não precisa gritar, da para falar no tom normal. Alto demais.

Bianca riu.

— Você está procurando alguém.

Wednesday desviou o olhar, fingindo desinteresse ao observar um grupo dançando descoordenadamente ao som de uma música pop qualquer.

— Estou observando. Isso é o que as pessoas socialmente disfuncionais fazem nessas festas, não?

— Claro. — Bianca tomou um gole da bebida, ainda sorrindo. — Enid está perto da fogueira com Bruno, sabe como é, eles estavam se esquentando. — Sua voz carregava uma ironia nada sutil e implicância, sendo certeira.

Wednesday a encarou por dois segundos longos deixando sua expressão falar livremente sobre suas emoções e Bianca piscou com deboche.

— Você pode fingir que não ligou mas até eu consegui ver a cor do ciúme no seu rosto quando você olhou pros dois no refeitório e olha que eu nem sou lobisomem.

Wednesday revirou os olhos, mas não retrucou. Era tarde demais pra voltar e cedo demais pra admitir qualquer coisa.

Bianca deu de ombros.

— Bem, de todo jeito boa sorte com sua missão de observação então, detetive Addams. Se descobrir algo que todos nós já não saibamos, conta pra gente.

Ela se afastou, dançando de costas enquanto descia em direção a um grupo de sereias reunidas.

Wednesday respirou fundo, segurando o casaco fechado com mais força do que precisava. Seus olhos, agora livres para focar, procuraram entre os rostos.

E lá estava ela.

Wednesday atravessou a clareira com passos vacilantes no mesmo ritmo que seu coração, lá dentro, tribulando e traindo sua expressão neutra.

O grupo ao redor da fogueira era a definição de conforto cognitivo para a morena. Yoko e Divina dividiam um banco improvisado de madeira, proximas o suficiente uma da outra para ficar claro que pretendiam se agarrar a qualquer momento. Eugene dançava descoordenadamente segurando um copo de algo espumante nas mãos bem em frente a Ajax e Xavier, que discutiam sobre o significado das letras e as cores que eles aparentemente deveriam ter. Enid e Bruno estavam juntos, claro, mais afastados de todos os outros enquanto ele se apaiava numa árvore e a loira parecia mais interessada nas chamas da fogueira do que no moreno.

Assim que ela se aproximou, Eugene foi o primeiro a notá-la.

— Olha quem veio mesmo! — disse, animado, levantando o copo em um brinde exagerado e solo, já que ela não tinha nada nas mãos.

— Sabia que ela ia aparecer, até apostei com a Div — Yoko comentou, com um sorriso satisfeito.

— Eu ainda não paguei essa aposta — Divina resmungou baixo e propositalmente sugestiva.

Enid virou-se de imediato ao ouvir os cumprimentos. Um sorriso leve escapou por reflexo, embora os olhos parecessem surpresos. Wednesday quase não olhou para Bruno depois de ter a atenção dela, mas sentiu a proximidade dele mesmo assim, como uma sombra incômoda em sua visão periférica.

— Addams — Xavier chamou chegando perto e entregando-lhe um copo de plástico vermelho. — Sinta-se pressionada socialmente a beber isso. É tradição.

Wednesday arqueou a sobrancelha.

— Tradicionalmente, eu recuso tudo que venha em copos suspeitos oferecidos por garotos suados.

Ajax riu da carranca que se formou no rosto do amigo instantaneamente.

Ao mesmo tempo, Enid deu alguns passos em direção a Wednesday, claramente prestes a dizer algo, mas Bruno segurou sua mão naquele exato instante e virou-se em sua direção.

A cena foi acompanhada por quase todos do grupo, que, por azar, estavam olhando na direção da loira naquele minuto.

Ele fez o movimento como se fosse automático, como se esperasse a reciprocidade dela sem pensar. Se inclinou para alcançar seus lábios com a confiança de quem já tinha beijado várias vezes.

O estômago de Wednesday ameaçou cair de desgosto mas então Enid virou seu rosto no último segundo, desviando com um sorriso forçado e uma desculpa qualquer sussurrada no ar quando os lábios dele mal tocaram sua bochecha.

Wednesday, imóvel, assistiu até o fim para, só então, virar-se para Xavier e pegar o copo que ele havia afastado dela.

— Na verdade — Disse, pegando a bebida da mão de Xavier — Acho que vou fazer uma exceção hoje.

O grupo a olhou, surpreso.

— Uau, jura? — Ajax comentou, genuinamente chocado.

— Só quero anestesiar meu sistema nervoso antes que ele entre em colapso pela convivência forçada. — Wednesday respondeu, tomando um pequeno gole e desviando seu olhos furtivamente para a loira.

Enid olhou de canto, os olhos se encontrando por um segundo a mais do que o necessário.

Bruno deu alguns passos a frente e chegou mais perto dos outros meninos para começar assuntos sem nenhuma importância. Isso fez a morena se afastar imediatamente e virar mais um generoso gole do líquido nas suas mãos.

Ela teve tempo de olhar ao redor e reparar como aquele lugar era apenas um reflexo da escola onde álcool e músicas de letras simplórias estavam liberadas. As mesmas panelinhas estavam juntas, todas as interações entre excluídos eram formadas pelos mesmos alunos da hora do almoço, lugares conquistados, quase marcados a ferro.

— Ei... quer dar uma volta? — Enid estava ao seu lado de repente e perguntou, inclinando-se ligeiramente para que só ela ouvisse.

Wednesday olhou para os outros novamente e depois para ela. As vozes estavam ficando mais altas e se misturando a música nada ambiente e ao cheiro da fogueira e da bebida, mais intenso a cada segundo. A risada de Bruno ecoou não muito longe, se ela parasse para analizar, ficaria cada vez mais insuportável.

Ela se virou para a loira e assentiu em silêncio.

As duas caminharam por entre as árvores ao redor da clareira, o som da festa abafando-se um pouco à medida que se afastavam. O caminho era iluminado apenas por algumas lanternas penduradas em galhos, e os passos de ambas faziam o chão estalar com folhas secas.

— Você está bem? — Enid perguntou para terminar com o longo silêncio.

— Estou num ambiente barulhento, cercada de adolescentes quase bêbados e com uma bebida suspeita na mão. Claro, parece que estou ótima.

Enid riu se aproveitando do sarcasmo habitual para tentar relaxar.

— Bem, você poderia ter ficado no dormitório... mas veio.

Wednesday desviou o olhar para o copo, girando o líquido que já estava quente dentro dele.

— Foi um erro de julgamento.

— Você sempre diz isso quando faz algo que no fundo queria fazer. — Wednesday parou de andar e o silêncio entre elas foi preenchido pelo som distante da festa. — Na verdade eu... — Enid exitou — Na verdade eu perguntei mais sobre a gente, sabe, queria saber se você está bem... comigo.

— Bem com você?

— É que eu sinto que você tem estado diferente desde o início do semestre...

Era quase cômico que ela não soubesse. Wednesday sentiu uma vontade súbita de rir um riso sem alegria, sem graça. Em vez disso, respondeu com um ruído baixo de desaprovação.

— Outra coisa aconteceu nesse tempo. — Ela se contentou em murmurar — Você tem andado ocupada e eu não quero ter que competir com beijos públicos e longas caminhadas de mãos dadas.

— Eu... nunca pedi que você competisse com ninguém... — Enid gaguejou, empurrando a franja para trás da orelha, ansiosa, inquieta.

— Mas agora está me cobrando o normal, Enid. O problema é que não somos mais o normal, não depois...

O silêncio engoliu as palavras dela.

— Você mal me olha. Mal fala comigo, até mesmo no dormitório. É como se tivesse decidido me apagar. — A voz de Enid soou mais baixa, mais densa. — E eu acabei só... sentindo sua falta.

As palavras bateram forte, como um baque surdo no peito da morena.

— Talvez porque te olhar seja... complicado.— Wednesday respondeu, sem desviar os olhos. — E porque falar com você parece ser sempre um campo minado para as minhas emoções. Eu não sei controlar isso Enid, não sei fazer melhor do que o que estou fazendo.

Enid mordeu o lábio, respirando fundo como quem engole um grito.

— Não é justo, Wed. Você não pode esperar que eu... que eu faça alguma coisa com isso. Não agora.

A dor no peito da Addams apertou, tão conhecida quanto insuportável como naquela noite na qual ela decidiu se abrir e precisou ouvir aquelas palavras.

— Não entendo onde você quer chegar. — Ela tentou acalmar seus batimentos cardíacos e processar a dor devagar, fazendo um esforço visível para manter o tom impassível — Eu ter sentimentos por você não some apenas porque você não os corresponde...

— Eu correspondo você! — Enid interrompeu, vários decibéis mais alto do que o normal — Porra, Wednesday, eu correspondo você com toda a minha alma. — A voz dela vacilou, e lágrimas escaparam, pesadas e silenciosas — Mas eu não posso abrir mão disso agora.

Ela respirou com dificuldade, os ombros tremendo sob o vestido cintilante.

— Eu lutei muito pra ter um lugar. Pra ser reconhecida na minha alcatéia. Ser aceita. Ser um lobo, total e completa. — Seus olhos estavam vermelhos, rasos. — Eu tenho isso agora. Tenho há poucos meses. E eu não posso... não dá. — Ela fechou os olhos com força e lágrimas cristalinas rolaram por suas bochechas rosadas.

A mão livre de Wednesday se fechou em um punho para conter qualquer impulso de trocá-la ou conforta-la.

— Se você não pode deixar o que te causou sofrimento por nossa causa, eu já tenho toda a resposta que preciso. — Wednesday deu um passo para trás, se obrigando a afastar-se dela — Eu ainda estou aqui, do seu lado, ainda sigo presente, mas também tenho meus demônios pra lidar e nenhum sonho de pertencimento terceiro pode mudar isso.

Ela virou o que restava no copo com um único gesto decidido. O gosto era horrível, amargo e desceu rasgando na garganta seca.

O copo parou no chão com força suficiente para ouvir o estalo do plástico seco rachando nas folhas. A morena se virou e não olhou para trás, nem mesmo quando os passos dela se afastaram da respiração trêmula de Enid, nem quando o cheiro da floresta começou a se misturar novamente ao da fogueira. Ela simplesmente seguiu.

Voltou à clareira com o maxilar travado, mas por sorte, o grupo que esperava lá estava envolto em risadas, cigarros, copos e histórias mal contadas demais para notarem algo tão sutil. Yoko e Divina seguiam coladas uma na outra, Eugene agora discutia com Xavier sobre alguma teoria envolvendo monstros e abduções que parecia ter saído de um quadrinho, e Ajax ria de algo que provavelmente só fazia sentido para ele.

Dessa vez, quando lhe estenderam outro copo ela aceitou de primeira.

E o próximo.

E o seguinte.

Ela já não lembrava se o quarto copo tinha vindo das mãos do Ajax ou do Eugene, mas lembrava da sensação de calor no rosto, da forma como as árvores tremulavam levemente, e mudavam de lugar. Álcool demorava para fazer efeito sob ela, mas era de se esperar que em uma festa para excluídos a bebida tivesse algo de mais forte nela.

Lembrava de ter dito algo para Xavier e ele ter respondido com um “você tá bem?” que ela ignorou, lembrava de risos, alguns até mesmo dela, outros ao redor, de passos imprecisos, de alguém gritando “vira, vira, vira...” de longe, e de uma música alta demais tocando algo sobre corações partidos.

Foi só quando sentiu um calafrio subir pelas costas que ela percebeu Enid de volta. Estava ao lado de Bruno outra vez, um pouco mais afastados, conversando com um grupo. Wednesday não soube se era o álcool ou o desalento que fez o mundo parecer girar. Seu estômago virou. Ela desviou o olhar do rosto especialmente polido demais para uma conversa daquela que a loira esbanjava.

Do outro lado da clareira ela avistou, pela primeira vez na noite , o que deveria ser um palco improvisado. Na verdade eram apenas caixas de som velhas, uma estrutura de madeira baixa e algumas luzes coloridas penduradas por fios de cores aleatórias. Uma folha de papel com dezenas de músicas circulava entre os alunos para que a ordem fosse programada para o tão esperado karaokê.

Foi então que Yoko, com o sorriso mais diabólico que podia oferecer, apontou para Wednesday e a cutucou de leve.

— Tá me parecendo animada hoje em Addams. Aposto que não tem coragem de subir ali e cantar.

Ajax riu, como quem sente cheiro de confusão e persegue ela.

— Isso. Manda uma balada, vai, alguma coisa sem violoncelo. Duvido muito que você saiba usar o microfone pra alguma coisa além de ameaçar alguém.

Wednesday, de braços cruzados, piscou devagar. Seus olhos semicerrados dançaram entre os dois e o palco.

— Para título de curiosidade dos dois idiotas, muitos cantores famosos tem Addams no sobrenome.

— Isso é sério? — Eugene perguntou, quase derrubando seu copo.

— Claro — Ela assentiu. Em seu rosto não havia nenhum sinal de que estava exagerando — Temos uma linhagem longa de personalidades famosas na nossa árvore genealógica, artistas de muitas gerações. Alguns dizem que um deles cantava tão bem no século XVIII que foi expulso de um cemitério por comover os mortos.

O grupo riu, se deixando levar pelo estado de embriaguez e pela tendência a falas irônicas da morena, mas Wednesday descruzou os braços e, para surpresa geral, deu um passo à frente.

— Calma aí, você vai lá mesmo? — Xavier estendeu as mãos para a frente parecendo prestes a impedi-la

— Bem, se é para ser humilhante... que seja com estilo. — murmurou, dando de ombros e enquanto se aproximava da estrutura.

— Ô garota, pera aí, tem uma fila! — Quando Yoko terminou de falar já era tarde

Todos assistiram a pequena menina toda de preto se aproximar mais do palco e simplesmente subir nele, pouco se importando com algo antes de alcançar o microfone deixado em cima de uma banqueta velha como apoio.

Do palco, as luzes pareceram agressivas. O microfone era ligeiramente amassado e a caixa de som atrás dela chiava, mas ela não se importou.

— Ei, me dá isso aqui.— Wednesday se inclinou para além da linha do palco apenas o suficiente para puxar a folha já meio amassada das mãos de uma estudante que ela nunca tinha visto e receber um olhar feio por isso.

O apoio da banqueta foi usada mais uma vez para que ela conseguisse ler as canções disponíveis. Era uma lista eclética, mas com certeza dominada por um conhecimento raso de qualquer gênero que saísse do POP ou do R&B.

Ela teria que ser criativa se quisesse cantar algo que prestasse.

Foi então que um garoto aleatório, com cara de veterano e o boné virado para trás como se ainda estivesse preso em 2015, subiu no palco com uma latinha na mão e a sobrancelha arqueada.

— E aí, tá se achando a Madonna? Tem uma fila, sabia? — ele disse, dando um gole na cerveja e soltando um arroto discreto.

Wednesday desviou os olhos da folha por dois segundos e o encarou como se estivesse decidindo onde enterrar o corpo dele.

— Madonna também é uma Addams distante. Desça.

— Haha. Engraçadinha. Todo mundo aqui tá esperando, não é porque você é...

— Wednesday Addams? — alguém gritou da plateia, interrompendo a tentativa de autoridade dele.

O burburinho começou a crescer muito rápido.

— Pera, é a Wednesday Addams?

— Ela que salvou a escola no último semestre?

— Nossa, deixa ela cantar o que quiser, eu dou minha vez pra ela!

— Se ela subir nesse palco, eu vou até filmar!

A multidão se agitava como uma pequena plateia de circo encantada com o número principal.

— Desce daí logo cara — Alguém zombou da base do palco, puxando-o pelo cotovelo.

O garoto ainda hesitou, tentando manter alguma dignidade. Mas quando Wednesday lentamente virou o rosto em sua direção, com a expressão mais ameaçadora e silenciosa que ela tinha, ele ergueu as mãos como quem não quer confusão.

— Tá bom, tá bom... — resmungou, descendo do palco sob algumas vaias e muitas risadas.

Wednesday girou os olhos como se tudo fosse uma perda de tempo, e era, muito menos interessante do que sua escolha decisiva do momento.

Seus olhos atentos passearam por mais títulos, até que um lhe chamou atenção.

Ela riu, debochou de si mesma, aquela música era ridiculamente perfeita.

Digitou no aparelho o código ao lado da música, o nome aparecendo em letras claras no telão improvisado atrás dela.

“Power Over Me — Dermot Kennedy”

A batida ameaçou começar ao mesmo tempo que o coração dela acelerava de receio. A letra, as palavras que ela sabia que viriam, iriam atravessar ela como ferro em brasa.

Ela segurou o microfone mais forte com uma das mãos, e por um segundo... apenas fechou os olhos e respirou. Deixou o sentimento encher o peito antes de soltar qualquer palavra.

E então, com a voz mais rouca e contida que ela já havia usado em público, começou:

"Wanna be king in your story
I wanna know who you are
I want your heart to beat for me
Oh I-"

Sua mente atravessou qualquer planejamento que ela tivesse feito e trouxe imagens borradas do relacionamento de Enid com Bruno, fazendo com que ela revivesse seus sentimentos tropeços. Os poucos beijos e toques que presenciou, o coração pesado que isso fazia ela sentir.

"Want you to sing to me softly
‘Cause then I’m outrunning the dark
That’s all that love ever taught me
Oh I-"

Uma lembrança boba da loira dançando, em seu lado do quarto, uma das muitas músicas de Kpop horrivelmente animadas que gostava de ouvir e cantarolando baixinho. Ela não se lembrava de quando deixou de ser o maior mártir do mundo para se tornar uma apreciação da personalidade de Enid.

"Call and I’ll rush out
All out of breath now"

Ela sente que faria tudo por ela, que mataria por ela, morreria por ela.

"You’ve got that power over me, my my
Everything I hold dear resides in those eyes"

Os olhos dela, o azul profundo misturado ao esverdeado delicado. Wednesday reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar, de qualquer maneira, em qualquer forma.

"You’ve got that power over me, my my
The only one I know, the only one on my mind"

Enid era a única, a única que poderia toca-la, a única que conseguiu penetrar em sua fortaleza de solidão, a única que a fez falar, se abrir, voltar, pensar em mais do que em si mesma.

"You've got that power over me (my my)
Got that power over me (my my)
You've got that power over me"

Esse poder era todo dela, de mais ninguém.

"Remember the lake in the moonlight?
Remember you shivered and shone?
I’ll never forget what you looked like
On that night"

A noite do Hyde apareceu na memória dela, impossível de ser esquecida.
Enid apareceu sob a luz do luar e brilhou, majestosa e feroz, nunca esteve tão linda quando naquele momento.

"But I know that time’s gonna take me
I know that day’s gonna come
I just want the devil to hate me
Oh I-"

Os olhos da morena lacrimejaram um pouco e ela teve o tempo de uma estrofe inteira para colocar a culpa na bebida, mas decidiu abri-los e encarar a multidão pela primeira vez desde o início da música.
Todos estavam prestando atenção nela, seus rostos familiares virados em direção ao palco, totalmente vidrados no que acontecia ali.
Até ela encontrar azul.

"Call and I’ll rush out
All out of breath now"

Enid estava escarando-a sem piscar. Seu olhar era assustado, incrédulo e emocionado só mesmo tempo. Ela não poderia acreditar no que escutava.

"You’ve got that power over me, my my
Everything I hold dear resides in those eyes
You’ve got that power over me, my my
The only one I know, the only one on my mind
You've got that power over me (my my)
Got that power over me (my my)
You've got that power over me"

As palavras saíram como orações dos lábios de Wednesday enquanto ela olhava dentro da alma da loira. Ela afirmou, de mais de uma forma, que ela tinha todo o poder nas mãos.

"It was all in doubt
They were all around
So we’ll hide away and never tell"

Wednesday não aguentava mais a fascinação coletiva por romances de fachada, estava cansada de ter que ver Bruno para onde ela olhava. Ela poderia implorar para que ela ficasse, elas poderiam nunca contar a ninguém e ela não se importaria, se Enid estivesse com ela, tudo valeria a pena.

"You decide if darkness knows you well
That lesson of love, all that it was
I need you to see"

Ela não precisava expor seus medos ao mundo, mas precisava ter certeza de que, mesmo com eles, ainda seria amada.

"You’ve got that power over me, my my
Everything I hold dear resides in those eyes
You’ve got that power over me, my my
The only one I know, the only one on my mind
You've got that power over me
(Woo)"

Elas se encararam de novo, tão intensamente quanto o momento pedia.
Enid deu um passo à frente. A multidão pareceu se abrir instintivamente, mas ela não foi até o palco. Ficou ali, parada, exposta e confusa, com o coração escancarado.

"I know that I let her down, no
Let her down, no"

Se Wednesday se permitisse cair em si, ela se acharia ridicula. Era no mínimo estranho para ela estar ali, fazendo um grande ato e movendo uma grande multidão para uma coisa romântica, de certa forma, expondo as duas.
Mas não havia mais ninguém por quem ela faria algo assim.

"You’ve got that power over me, my my
Everything I hold dear resides in those eyes
Got that power over me, my my
The only one I know, the only one on my mind
You've got that power over me"

 

Wednesday terminou o último verso de olhos fixos nos de Enid. A última nota se dissipou no salão como se soubesse que não precisava de aplauso para ecoar. E, por um segundo, o silêncio foi quase mais alto que a música.

Depois, veio o barulho, como se seu cérebro permitisse a ela ouvir novamente. Um turbilhão de vozes, assobios, aplausos. Ela apenas desceu do palco com passos lentos, firmes, sem desviar o olhar da menina lobo, que parecia travada no meio do salão, como se estivesse com medo de respirar e quebrar o feitiço.

Bianca foi a primeira a reagir e puxar Enid levemente pelo braço, abrindo espaço entre os alunos que começavam a cercá-la com perguntas e sorrisos maliciosos.

— Acho que essa música foi pra você, docinho — disse num tom mais baixo, quase respeitoso. Pela primeira vez em muito tempo, havia um traço de gentileza genuína na voz dela.

Enid não respondeu, ainda claramente atordoada e afetada.

Ela piscou algumas vezes, como se precisasse reaprender a funcionar. Sentia o coração disparado, os olhos ardendo, e um calor estranho no rosto, não de vergonha, mas de algo que não sabia nomear. O barulho ao redor era distante, abafado, como se estivesse dentro d’água.

Yoko foi a próxima a alcançá-la, os olhos arregalados, meio rindo, meio tentando entender.

— Enid, meu Deus... Isso foi... Ela cantou pra você, né? Aquilo foi por você, e foi tipo... o amor da vida dela te chamando de volta em forma de música!

— Você tá bem? — Eugene apareceu ao lado, genuinamente preocupado percebendo sua falta de resposta. — Quer sentar um pouco?

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Foi quando uma voz mais alta e debochada cortou o clima.

— Isso tudo foi um pouco demais, né? Tipo... exposição desnecessária. Meio vergonhoso, se você me perguntar.

Bruno. Claro que seria ele.

O silêncio que se seguiu pareceu mais barulhento do que os aplausos de antes. Até a música ambiente pareceu diminuir.

—Mas o que esperar de um Addams, não é? Estão sempre querendo chamar atenção... — Ele seguiu como se não tivesse dito o suficiente.

Enid virou devagar, encarando o garoto. Seus olhos estavam marejados da ardência, mas havia uma fúria límpida ali, prestes a vazar.

— Você realmente é um idiota, sabia? — disse, a voz tremendo ficando mais alta. — Lava essa boca antes de falar dela.

Ele tentou rebater, mas Enid o empurrou com força. Não o suficiente para derrubá-lo, mas o impacto ecoou oco entre os alunos ao redor, que já formavam um círculo silencioso.

— Como eu pude deixar que a minha necessidade de pertencimento chegasse a isso? Wednesday estava certa o tempo inteiro! — Ela praticamente rosnou ao fim da frase, voltando tentar empurra-lo.

No entanto, sua cintura foi segurada antes que ela pudesse tocar nele.

— Enid... Não faz isso, você está causando uma comoção e não vale a pena tocar nele. — Bianca sussurrou no ouvido dela — Se acalma, se não você pode se arrepender.

Enid respirou fundo, os olhos ainda brilhando com lágrimas, mas firmes.

Ela encarou o redor, todos os rostos estampavam visivelmente perguntas não ditas. Alguns cochichavam entre si e a audição dela fornecia pequenos detalhes sórdidos; as pessoas estavam em dúvida, afinal, Wednesday Addams e Enid Sinclair tinham algo?

Elas já ficavam antes?

Enid traiu o Bruno?

Ela seria convidada a se retirar da alcatéia?

Ela apertou os olhos desejando que tudo se calasse e falou, alto o suficiente para todos ouvirem, o que já deveria ter sido dito.

— É isso mesmo que parece, e eu cansei de esconder e de medir palavras, mas sinceramente? — Ela olhou diretamente para Bruno, mas sua voz agora se dirigia a todos — Pensem o que quiserem, isso não é da conta de ninguém.

Então virou as costas e saiu, atravessando toda a estrutura da festa com passos decididos, embora cada um deles parecesse pesar como se estivesse atravessando lama, lutando para puxar seu equilíbrio de volta. Quando chegou à ponta, bem perto das árvores, sentiu alguém a seguir, mas não se virou para ver quem era.

— Enid, calma aí! — Yoko gritou — Espera, eu vou com você.

— Não precisa. — Ela resmungou, brava, chateada e defensiva, sem parar de andar um só segundo

— Ei, sou eu — A asiática acelerou os passos e tocou o ombro da loira, parando-a a força — Calma aí loirinha, eu só quero ter certeza de que você está bem, não estou aqui pra te julgar nem nada.

Enid suspirou pesadamente cedendo a vontade da amiga e parando por um segundo.

Seu coração ainda estava acelerado, não pelo esforço ou velocidade, mas por seus sentimentos confusos e pesados.

— Desculpa, eu... Eu tô muito sobrecarregada agora — Ela passou sua mão sob o rosto, ignorando a maquiagem que ainda estava lá.

— Se você precisar conversar, eu tô aqui, tá bem? — Yoko disse, carinhosa.

— Agora eu só quero voltar ao dormitório e esquecer que tudo isso aconteceu por enquanto.

Ela assentiu e ambas caminharam em silêncio até a escola. Enid não sabia se chorava de raiva, de emoção ou de alívio. Havia passado tanto tempo tentando manter o controle, tentando fazer tudo parecer normal. Agora, pela primeira vez, não queria parecer nada. Queria só ser.

No dormitório, elas se despediram no corredor e entraram em seus quartos. Tudo estava escuro e vazio. O abajur de Wednesday ainda aceso desde quando ela saiu, mas sem nenhum sinal dela.

Ela observou o lado preto e branco por algum tempo, ele era tão neutro, obscuro e de encaixe perfeito, tão ela que chegava a doer.

 

Ela não sabia o que esperava encontrar, mas definitivamente não era escuridão e solidão como aquela.

Um segundo depois, o medo se infiltrou em seu cérebro. Wednesday tinha bebido, bebido bem mais que ela pelo jeito, onde ela estava?

Ela pegou seu celular mas, antes que pudesse enviar alguma mensagem, percebeu que o grupo dos amigos tinham algumas pendentes.

XAVIER: " Alguém viu a Wednesday?"
YOKO: "As pessoas viram ela vindo em direção a escola, ela não deve estar longe"
EUGENE: "Será que não está no quarto?"
YOKO: "Deixei a Enid lá agora, acho que não"

Alguns poucos minutos separavam esse diálogo da conclusão de tudo.

AJAX: “Achei a Wednesday na biblioteca. Tá tudo bem, mas ela não quer voltar ao dormitório. Acho que ela precisava de um tempo.”

Enid encarou a tela por alguns segundos. O alívio veio como uma onda morna no peito, seguido de um aperto dolorido.

Ela não sabia se queria vê-la agora.

YOKO: "Quer ajuda por aí?"
AJAX: "Ela ameaçou me empalar se eu não fosse embora"
EUGENE: "Deixa que eu vou ai, estou por dentro do... assunto"
YOKO: "Okay, qualquer coisa, a avisem"

Enid suspirou sabendo que o assunto era ela.

Seu olhar levando e encarou o quarto quase todo escuro novamente sabendo que ela não dormiria muito aquela noite.

A luz filtrava pela janela com uma insistência incômoda, colorida demais para o gosto de Wednesday. Ela empurrou a porta devagar, não sabendo o que esperar, mas o que encontrou foi silêncio. Ela fechou a porta com cuidado ao botar a loira na cama, levemente encolhida, tentando não acorda-la.

Enid estava enrolada no cobertor até os ombros. Wednesday deu alguns passos hesitantes, quase torcendo para que a loba estivesse dormindo ao mesmo tempo que temia exatamente isso.

Mas, assim que ela chegou mais perto, percebeu: os ombros de Enid estavam tensos demais para quem dorme e o corpo dela parecia imóvel de propósito, como se fingisse que não estava ali.

A morena parou ao lado da cama e franziu os lábios.

— Você está acordada — Ela afirmou por fim.

Enid demorou a responder, imaginou que talvez o melhor seria adiar aquela conversa um pouco mais, mas até quando elas aguentariam?

 

Ela então soltou um suspiro baixo e virou-se devagar.

— Passei a noite acordada esperando você — murmurou, com a voz rouca. — Eu não sabia o que pensar sobre ontem ainda...

Wednesday apenas negou com a cabeça. Ela decidiu sentar-se na beirada da cama e se aventurar a encostar naqueles lençóis desnecessariamente coloridos, sem se aproximar muito.

— A biblioteca estava silenciosa e escura, me serviu muito bem para pensar. — Ela fez uma pausa — Eu vou pedir para mudar de dormitório.

—Você vai o que? — A voz de Enid saiu tão exasperada quando sua linguagem corporal naquele momento. Ela reuniu suas pernas e sentou-se imediatamente na cama. Seu rosto se contorcia em confusão.

— Depois que o efeito do álcool passou, percebi que uma música ou um grande feito público não podem consertar nossa situação. — Ela começou a explicar, sua voz estava baixa de mais para quem tem certeza do que diz — Mas eu não consigo seguir com a minha habilidade comum de não me importar com nada na situação em que estamos. Eu não sei não me importar demais com você.

As sobrancelhas de Enid estavam unidas no centro da testa, ela não tinha certeza do que estava ouvindo.

— Acredito que te deva um pedido de desculpas pela exposição, mesmo não havendo arrependimento da minha parte.— Wednesday continuou, finalmente olhando na direção dela. — Mas não consigo continuar ao seu redor, ao menos não assim tão presente, sem ser mais do que sua colega de quarto, é isso é completamente uma falha minha.

— É... Você não precisava mesmo ter feito desse jeito. — Enid concordou, com a voz saindo meio embargada.

— Mas eu quis.

— Todo mundo viu...

— Era pra ter visto, mas eu peço desculpas por provavelmente atrapalhar seu relacionamento e te trazer desconforto. A partir de agora, podemos tentar...

— Wed, não tem mais relacionamento nenhum. — Enid a interrompeu.

O silêncio tomou a sala por alguns segundos pesados.

— Eu vou falar com o Bruno, digo que isso foi totalmente unilateral, eu posso consertar isso, eu vou, isso, eu vou consertar... — A morena fez menção a se levantar mas sua palma foi segurada.

— Eu confirmei, na frente de todo mundo, antes de sair da festa. Confirmei que era tudo o que parecia. — Enid pegou fôlego, tentando recuperar algo que estava faltando em seus pulmões a boas horas. — Eu quem te devo desculpas, deixei meu medo e minha autoestima frágil levarem a melhor de mim. — Lágrimas se acumularam nos cantos dos olhos rápido como um flash, fazendo a tarefa de conte-las impossível — Eu queria ser mais como você, forte assim, mas eu sempre tive que me encaixar, sempre estive tentando agradar a todo mundo, e eu deixei isso machucar você, eu... — O choro não permitiu que nenhuma palavra a mais saísse dos seus lábios.

Ela soltou a mão de Wednesday e as levou ao rosto, sentindo as lágrimas quentes caírem desenfreadas. O sentimento de solidão, distância de si e dos outros foi forte como nunca antes.

 

Wednesday não disse nada de imediato, apenas observou a loira ali, vulnerável, se despedaçando em pequenos soluços, mas como instinto, talvez o único que ela realmente reconhecia quando se tratava de Enid, ela se aproximou, sem avisar, e a envolveu em um abraço apertado.

Os braços finos segurando a loba como se ela fosse feita de vidro e, por um segundo, Enid congelou. Era como se estivesse caindo num alívio antigo, há muito esperado, ansiado novamente.

— Você não precisa ser como eu — Wednesday disse, com a voz baixa, quase encostando os lábios no cabelo dela. — Eu me apaixonei por quem você é, não existe ninguém no mundo como você.

Enid soluçou contra o ombro dela, o choro mais leve agora, mas ainda sincero.

— Não vai embora, por favor, não me deixa. — Ela murmurou, com os olhos fechados.

Wednesday afastou o rosto devagar, à medida que o abraço se desfez. Elas se encararam e a morena pode perceber o rosto rosado e arredondado do choro recente. Enid estava linda, tão perfeita quanto um túmulo com flores escuras e frescas. Tão perfeita que Wednesday não conseguia desviar o olhar.

Foi a primeira vez que Enid viu Wednesday sorrir daquele jeito pequeno, meio desajeitado, quase imperceptível que dizia muito sobre a Wednesday que ela amava.

— Se você me quiser, eu não vou.

As sobrancelhas da loira franziram de novo, não de confusão, de pura apreciação.

— Eu quero, eu quero muito. — Sem nenhuma calma, Enid se inclinou para frente e tocou o rosto de Wednesday, trazendo seus lábios para junto dos dela.

A morena hesitou, ela não fazia isso desde Tyler, apesar de ter lido muitas vezes coisas assim em suas pesquisas, ela não podia deixar de se sentir inexperiente no assunto, Mas o toque carregava tudo o que não haviam sido dito até ali, era uma promessa de Enid, um começo como bem mais do que amigas.

Quando os lábios se separaram, Enid riu baixo, meio nervosa.

— Me desculpa se eu te peguei de surpresa.

— Está tudo bem, eu já estou acostumada com você invadindo meu espaço pessoal. — Seu tom saiu brincalhão.

— É que eu imaginei isso tantas vezes, e você estava tão perto... — Ela suspirou, feliz. — Pode muito bem ainda ser minha imaginação, falando nisso.

— Quer que eu te belisque para você ter certeza da realidade dos acontecimentos? — Wednesday arqueou uma sobrancelha, seca como sempre.

Enid soltou uma gargalhada curta, a tensão se desfez com a volta da dinâmica comum entre elas.

O toque irritante do aparelho de Enid tocou pelo quarto e ela o pegou sem muita cerimônia, percebendo ser do grupo de seus amigos.

EUGENE: "SOS, saí da biblioteca por uma hora para escovar meus dentes e pegar café e a Wednesday sumiu"
YOKO: "Gene! Você disse que dava conta dela!"
XAVIER: "Aí meu deus, ela vai atrás do Bruno 😱"

A loira riu ao ler as mensagens dos amigos.

— Você saiu da biblioteca sem avisar o Eugene?

— Eu precisei, ele estava agindo como uma babá irritante, só por que eu arremessei alguns livros ontem a noite. — Ela respondeu monótona.

— Arremessou livros? Porque?

— O álcool me deixou triste e... Agressiva. Era isso ou eu entrava escondida no dormitório do Bruno e esperava por ele com uma surpresa.

Antes de poder responder o celular notificou de novo.

AJAX: "E se ela mudou de alvo? Existe possibilidade de ela ter atacado a Enid?"
YOKO: "Nenhuma"
XAVIER: "Nenhuma"
EUGENE: "Nenhuma"

Enid riu para a tela mais uma vez, decidindo acabar com o sofrimento de todos.

ENID: "Ela está comigo no dormitório, está tudo bem por aqui"
EUGENE: "Ai, graças a deus! Vocês... Se entenderam?"

Ela ergueu a cabeça e encarou a morena.

— Eugene quer saber se nós nos entendemos.

Wednesday revirou os olhos profundamente, achando o interesse das pessoas por relacionamentos um mártir, como sempre.

— Diga para ele se intrometer na própria vida. — Ela se levantou do lugar para ir ao banheiro finalmente se trocar, não antes de se inclinar e deixar um beijo delicado na testa da loira.

Enid suspirou e sentiu seu sorriso iluminar o ambiente inteiro enquanto digitava.

ENID: "Sim ☺️"

Notes:

Acho que foi isso, me digam se não odiaram (E se odiaram também)

Obrigada por ler até aqui e se quiser pode comentar que eu não mordo.

Até mais!