Chapter Text
"O inferno não é um lugar. O inferno são as pessoas ao redor de você. "
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Caminhei pela calçada até o ponto do táxi.
Estou confiando demais na sorte, principalmente em uma cidade que nunca fui, esta é minha primeira vez em Tóquio. Morei minha vida toda em uma cidade pacata, sem expectativas grandes.
Sinto meu celular vibrar e apenas o encaro, observo o nome do contato como "Mãe" e qustiono-me enquanto paro se deveria atender ou não.
Lembro-me de suas palavras, frias e curtas, o jeito que ela rejeitou qualquer investida minha de tentar mudar de vida, sair daquele lugar, daquela casa e cidade, tratou como se eu querer mudar de vida fosse inútil. Senti tanta raiva naquele momento, agi de maneira idiota e fui embora. Foquei na ideia que já tinha a um tempo, vir para Tóquio, este momento foi o estopim que precisava.
De qualquer modo, vim para cá a procura de uma certa pessoa, minha namorada, Megumi, estamos namorando há alguns meses, um relacionamento a distância, muitos disseram que nunca daria certo, porém eu acredito que se nosso amor for certo, pendurará a longas distâncias.
Dito isso, estamos juntos até hoje.
Portanto isso mudará, pois eu estou aqui para morar com ela, não contei essa parte a ela já que quero fazer uma surpresa, chegar lá e ver seu rosto feliz em me ver finalmente na sua frente. E verei seu lindo rosto iluminado.
Em uma conversa, desenvolvemos uma discussão sobre a vivência de cada um em suas respectivas moradias, então Megumi explicou onde reside seu apartamento, que se algum dia viesse para Tóquio, saberia onde encontra-lá.
Dito e feito, estou aqui e assim ficarei, "estou indo te encontrar, Megumi", é o que passa na minha cabeça enquanto espero no ponto.
Na minha frente há dois homem também esperando, o mais perto está bem vestido, suponho que saindo do trabalho pelo horário. O outro indivíduo, suas vestes estão bagunçadas e seu andar desengonçado revela não estar com o juízo perfeito – alcoolizado eu deduzo – ignoro os dois e começo a perder um pouco da mínima paciência que tenho pela demora do carro.
Depois longos minutos que pareceram horas o carro chega, comecei a pegar minhas mochilas que deixei de lado quando escutei uma gritaria e me assusto.
— EI! QUAL TEU PROBLEMA?! TEM UMA FILA AQUI NÃO TÁ VENDO?! — O de terno grita, pelo que notei o bêbado tentou passar na frente do outro, um motivo idiota.
Ai de mim pensar sozinho nisso, o bêbado aparentemente levou para o pessoal e os dois começaram uma briga além de verbal para física, " não vou me envolver, não vou me envolver, não se meta ".
— Senhor! Suba, esses aí não tem jeito, entre logo. — Falou o motorista, cansado.
Fui tirado da minha mente pelo motorista que me encarava, comecei a colocar minhas mochilas dentro do carro quando olhei de volta o cara de terno estava tirando a melhor começando a socar o outro a ponto dele sangrar e seu punho se machucar, porém não parecia que ele ligava.
— EI, PARE!! — Antes de se quer pensar no que fazer, minha boca se abriu e comecei a implorar para pararem.
— JÁ CHEGA! — Agarro o homem bem vestido — SAI DE CIMA DELE, MERDA!
— ME SOLTA! EU VOU MATAR ELE! — Gritou o homem, segurei-o com força o suficiente sem deixar espaço para se soltar, enquanto o outro homem – com dificuldade – levantava, ficando de pé olhando para nós.
— SEU LUNÁTICO, VAI SE FUDER! — Sem olhar pra trás correu pela calçada de modo desengonçado para longe de nós.
Ainda segurando o sujeito, que parecia muito disposto a correr atrás do bêbado, senti que estava preste a ser o próximo alvo dele — PARA DE LUTAR! QUER SER PRESO E DEMITIDO, CACETE?! — Talvez tenha mexido num ponto sensível, pois o cara parou imediatamente de se mexer em meus braços, o soltei lentamente e ele correu para pegar sua maleta já esquecida no chão, olhou nós meus olhos e fui capaz de ver um humano novamente não uma besta prestes a assassinar alguém.
O homem parece arrependido, como se agora notasse o que fez, curvou-se e disse — "Me desculpe" — E nada mais, foi embora para longe. Um pensamento surgiu de que nenhum dos homem sequer foi pelo táxi, mas logo se perdeu entre outros.
Fui capaz de relaxar e pus a mão na testa, perdido na mente, sentindo meus joelhos quase sederem, raciocinando o que raios acabou de acontecer e por que logo agora, logo quando eu decido pegar um táxi, que droga de mundo. Estava prestes a ter uma crise existencial fudida quando escuto a buzina, trazendo-me a realidade do momento.
— O' Senhor! Vai subir no carro ou não? — Observei da janela do carro a expressão de impaciente do motorista e cambaleio apressado para dentro do carro quase tropeçando.
A viagem foi o primeiro momento que me pôs para descansar, estou exausto, espalho-me no banco olhando as estrada pelo vidro, sinto a tensão deixar meu corpo, mas minhas mãos ainda tremem deixando-me aflito
Pego meu celular e vejo notificações de mensagem e já imagino quem seja.
"Mãe": " Yuu, não vem para casa hoje? Ainda está chateado por causa dessa manhã? "
Minhas mãos trêmulas quase esmagam meu celular, respiro fundo, retirando qualquer vestígio de ar do meus pulmões tantando buscar a paciência já nula.
— Onde devo deixá-lo?
Novamente acordo para a vida e olho o motorista que suponho me ver pelo retrovisor, reúno forças para responder — Me deixa no prédio XX, por favor — Volto meu olhar para o vidro e a estrada, tranquilo.
— Aqueles dois pareciam bêbados brigando.
— Huh?
— Por que as pessoas estão tão engajadas em matar umas as outras? Começo a me perguntar. Vejo gente todos os dias, todas diferentes, mas sempre encontramos doidos desse tipo, acredito que alguns apenas conseguem esconder melhor que outros.
— Enfim, está viajando, senhor?
Depois de todo aquele falatório o motorista fala diretamente para mim e eu sobressalto — Vim a procura de emprego — respondo seco.
— Ah, como esperado, você é um garoto do interior. Devo lhe dar um conselho, em Tóquio, nunca se envolva nas brigas alheias. — Contentei-me por não parecer uma repreensão — Os humanos são os mais perigosos, já ouviu a expressão: "o inferno são os outros?"
— Senhor.
— uh?
— Perdão, mas eu estou um pouco cansado agora... — Não sabia como continuar a frase sem parecer rude, então deixei para ele entender. O homem pareceu relutante em continuar qualquer diálogo, apenas respondeu um rápido " tudo bem " e continuou a dirigir sem tirar o olho da estrada.
O motorista não voltou a faltar e passamos a viagem restante em silêncio, pensei em Megumi, esta surpresa precisa valer a pena, quanto mais próximo chegamos do destino, meu coração palpita de ansiedade.
Começo a vagar em minha mente e lembro da mensagem que minha mãe mandou, mesmo irritado, não deveria simplesmente deixá-la pensar o que quiser, preciso coloca um ponto final nisso. Desbloqueio meu celular e digito:
" Mãe, sinto muito, não voltarei para casa. "
" Deixei o dinheito do hospital do meu irmão na gaveta da sala. "
" É tudo o que tenho."
" Talvez assim ela me esqueça " Toquei no tópico de meu irmão, assim ela teria outros pensamentos diferentes de eu ter saído de casa para nunca mais voltar, esse é meu planejamento.
— Chegamos, senhor.
Saio da van e digo um pequeno " até " ao motorista e não faço questão de ver ele indo embora e entro na recepção do prédio.
Vou pelo elevador, não sei o que pensar do recepcionista não perguntar muito sobre eu entrar aqui para ver uma pessoa sem responder nada, achei que seria um problema quando chegasse, mas ele apenas disse o andar que o alojamento está, talvez aterrorizado pela falta de segurança e um senso de proteção por minha namorada, qualquer um pode entrar aqui, mas estas preocupações logo dissiparam quando vivermos juntos.
Vou a procura do apartamento X e antes de bater respiro fundo, não tire conclusões precipitadas ela está em casa, não tem o que temer, hesito momentaneamente, estou prestes a ter uma das conversas que determinará nosso relacionamente daqui para frente, claro que estou nervoso. Meu corpo age sem pensar e bato na porta alto o suficiente para ser escutado do outro lado. Escuto passou apressados como se alguém estivesse andando pela casa, logo os passos para à porta e ouço a fechadura e Megumi aparece antes de notar a porta abrindo.
— Yuu-Kun! O que faz aqui?! — Surpresa, Megumi gesticula alegremente, era isso que desejava, ela abrindo a porta com o sorriso que tanto me encantou desde a primeira vez.
— Oi...posso entrar? — Gesticulo para dentro do cômodo.
— Ah! Claro, perdão.
Megumi dá espaço para que entre e observo o ambiente pela primeira vez, é tão reconfortante, tão Megumi, a luz ambiente amarelada faz um ar de conforto e paciência que busco, móveis comuns, nada chamativo, apenas a doce presença de Megumi já é suficente para decorar o lugar sem esforço. Olho para a escrivaninha bagunçada, alguns livros, anotações, cronogramas de estudos e outros adereços espalhados, provavelmente foi daqui que veio o batulho da comoção.
"Teste de admissão à faculdade de direito " algumas vezes, Megumi mencionou seus estudos sobre direito e seu sonho de ir chegar a faculdade, uma grande conquista, uma que eu sempre incentivo quanto posso, sempre desejei conseguir uma vida de sucesso e independente, não seria diferente desejar isso a minha namorada.
— Oh, está estudando bastante — seguro um livro — os exames estão chegando não é? Até lá vai ter estudado tanto que conseguirá fazer sem olhar — Encaro-a com carinho observando suas bochechas rosarem, tão fofa.
— Você ainda não explicou o que faz aqui, em Tóquio, você uma vez disse que não seria possível tão cedo. — Mesmo ainda sorrindo, sinto a seriedade em suas palavras.
— Desculpe chegar tão derrepente — Começo a falar e me sento em seu sofá, observo Megumi pegar minhas malas e as organizar na mesa sem eu pedir, seu altruísmo me encanta e me perco em seus movimentos brevemente antes de continuar — Sabe, também deve ser lembrar que sobre a nossa conversa da minha buscar por emprego, poisé, eu decidi vim para cá por oportunidades.
— Sério? Entendi... Mas pretende ficar a onde? Você me disse que não tinha muito dinheiro para um simples apartamento. — Sua testa franziu levemente pela questão, mas teria que deixar claramente minhas intenções.
— Sobre isso... Eu quero saber se seria possível. — Hesito antes de terminar, o rosto de confusão de Megumi está me deixando aflito.
— Se seria possível o que exatamente?
— Se podemos morar junto. — Digo antes que qualquer pensamento diga o contrário, deixei claro o por que vim, agora deixarei claro a necessidade de estar ao seu lado nesse momento. Seu olho arregalam me encarando, sua boca abre e fecha esperando que palavras saiam sem dizê-las.
— Como assim? — Megumi ri sem humor, achando que eu apenas estou brincando e fazendo uma piada, como se alguém fosse levantar de trás do sofá de dizer que foi uma pegadinha. Porém, não há um pingo de humor quando falo, meu sorriso se alarga, mas para demonstrar compaixão, levanto do sofá e a encaro diretamente, sem espaço para questionamentos.
— Como você, eu também quero me estabelecer, desenvolver e adquerir novas habilidades aqui, pense nisso, conseguiremos criar uma vida, só nós, independente e algo de nós dois. — Gesticulo para o apartamento depois para ela e eu.
Megumi não disse nada por alguns segundos, considerando, olhos desfocados e opacos, pensativa, logo ela olha realmente para mim.
— Yuu-kun, não acha que está se precipitando? Nós estamos namorando a um ano, mas eu ainda acho pouco tempo para pensar nisso e morarmos juntos. — Ela desvia o olhar novamente, não conseguindo me encarar enquanto me rejeita, ela está querendo me mandar embora?, foi o primeiro pensamento que me veio, meu sorriso vacila, mas ainda continuo de pé com a ideia, talvez só precise de uma força.
— Megumi, nos damos tão bem, não vejo como não conseguiremos compartilhar este teto, vamos devagar, nada pode dar errado, afinal, somos uma ótima dupla. — Pisco cúmplice a provocando, mesmo não abrindo espaço para questionar, Megumi parece mais hesitante do que antes, não entendo o que estou dizendo de tão errado para ela olhar tão carrancuda para mim.
— Isso ainda é estranho Yuu, você ainda dever ter algum dinheiro não é? Não pode ter vindo de bolso vazio, caso não tenha eu te empresto, ok? Posso te ajudar a encontrar um lugar simples e tranquilo na região! — Nervosa, a garota se aproxima e aperta levemente meu braço, consigo sentir um tremor em seu braço. Estou me sentindo encurralado e deprimido, ela realmente está me rejeitando, oferecendo ajuda para simplesmente me largar em algum canto qualquer de Tóquio.
Afasto-me ligeiramente de seu toque — Megumi, não precisarei que me empreste se você me hospedar aqui, ao seu lado, não teremos que nós preocupar com a distância, afinal vamos estar no mesmo lugar, você poderá continuar seus estudos e eu encontrarei um emprego, bom o suficiente para nós bancar, não será difícil, sou muito bom em me virar sozinho, você não precisará se preocupar com–
— Sua mãe sabe? — Pergunta ela bruscamente.
Paro de falar, e a encaro em sem dizer nada por longos minutos — O que é esse olhar agora? — Pergunto sem graça, meu sorriso já ficando inexistente, o clima do pequeno cômodo se torna opressor, pequeno demais para sequer trazer o inicial conforto — Você não me quer aqui, é isso?
— Pelo amor Yuu-kun, o que você esperava? Aparecendo aqui sem avisar, agora você pensei nisso, não faz sentido né? Não precisamos viver juntos pelo namoro, nós ainda vamos nos ver–
— Tudo bem. Eu já entendi, você não me quer aqui e ponto final, não se preocupe com o dinheiro, tenho o suficiente para alugar um lugar. — Minha paciência já estava esgotando com essa enrolação dela de simplesmente dizer para eu ir embora, se ela quer assim, então que seja — Licença.
Ando apressado, pegando de qualquer jeito minhas malas em direção à porta, ouço seus gritos — Yuu-kun!! Por favor, espere! — Um pedido que eu apenas ignoro e no momento que abro a porta Megumi está atrás de mim segurando meu braço — Yuu, por favor, não é o que pensa, eu apenas quero te ajudar–
Puxo meu braço de volta e saio sem olhar para trás, o último som sendo o baque alto da porta, esqueço que sequer um elevador existe e desço as escadas, para minha sorte seu apartamento é no segundo andar, nem olho na cara do recepcionista e saiu daquele maldito prédio.
Hoje não poderia fcar pior, corro sem rumo, segurando contra o peito minha mochila, não sabia para onde iria, onde estava, só sabia de uma coisa, a rejeição e o desamparo são uma merda.
