Chapter Text
Tratava-se de um dia importante para a família Gojo. Talvez o mais aguardado do ano por boa parte de seus membros. A tradição seguia inabalável: uma tarde inteira dedicada à celebração do sangue e da memória, em que todos os ramos da árvore genealógica se entrelaçavam novamente, ao menos por algumas horas. Os mais velhos relembravam histórias do passado, os mais novos corriam pelos corredores da mansão, e os laços eram reforçados sob o cheiro doce de incenso e comida caseira.
No meio desse cenário festivo, Satoru — aos treze anos recém-completos — se lançava escada acima, os tênis batendo com leveza infantil sobre o assoalho de madeira que rangia sob seu peso. Cada passo seu parecia provocar um protesto tímido do piso antigo, enquanto a mão direita deslizava veloz pelo corrimão envernizado, e os lábios sopravam um assobio displicente, entre um biquinho e outro. Na mão esquerda, apertava com zelo sua inseparável câmera digital. Companheira constante, uma extensão de seus olhos curiosos.
Ao alcançar o topo da escada, os olhos azuis, quase translúcidos sob a luz suave que adentrava pelas grandes janelas da casa, percorreram o corredor com atenção renovada. Tinha uma missão: seu irmão mais velho, Itsuki, quatro anos à sua frente na linha do tempo e um passo adiante em maturidade, havia lhe pedido um favor: chamar Suguru para o quintal, onde os demais parentes já se reuniam.
Suguru era amigo de infância de seu irmão, presença constante nas reuniões e nos quartos do andar de cima desde que Satoru conseguia lembrar. Ainda assim, nunca houve entre eles qualquer laço além do convívio forçado pelos corredores da casa. Aos olhos do garoto, Suguru sempre parecera pertencer a um mundo paralelo. Mais velho, mais reservado, e envolto naquela aura levemente sombria que, para o jovem Gojo, tinha algo de fascinante. Apesar disso, os olhos escuros de Suguru jamais pareciam vê-lo de verdade. Passavam por ele como por qualquer móvel do ambiente, o tipo de indiferença que não ofendia, mas também não convidava.
Não que aquilo o incomodasse. Satoru tinha seus próprios amigos, seu próprio mundo, e sua mente vivia ocupada demais para se prender a alguém que mal notava sua existência. Ainda assim, havia uma faísca de admiração involuntária. Quase como se, em silêncio, reconhecesse no mais velho um tipo de presença que valia a pena observar, mesmo que de longe. Talvez fosse o estilo mais despojado de Suguru, aquele ar preguiçoso e despretensioso que beirava o mistério. Mas fosse o que fosse, não passava de uma nota de rodapé nos pensamentos do garoto.
Com passos mais tranquilos agora, Satoru percorreu o corredor dos quartos, os olhos azuis mergulhados na pequena tela da câmera digital. Revia com atenção as fotos tiradas pouco antes: convidados sorrindo, bandejas de comida sendo organizadas, detalhes da decoração que provavelmente só ele havia reparado. O brilho do visor iluminava parcialmente seu rosto, projetando sombras suaves sobre as paredes claras do corredor. Parou diante da porta entreaberta do quarto de Itsuki. Um vão estreito revelava uma nesga do interior, mal iluminado, como se o próprio cômodo hesitasse em se mostrar por completo. A luz que escapava dali era fraca, e por um instante Satoru apenas observou, os olhos estreitando-se um pouco, tentando entender o que via lá dentro.
Piscou devagar, como se seus olhos estivessem se ajustando não à luz, mas ao instante em si. Àquela hesitação silenciosa que o fez empurrar a porta com ainda mais lentidão, como se o próprio corpo compreendesse que havia algo de íntimo demais do outro lado. A madeira cedeu com um leve rangido abafado, abrindo-se apenas o bastante para revelar a silhueta de Suguru, sentado à beira da cama de solteiro de Itsuki.
Estava de costas para a porta, os ombros ligeiramente curvados, como se carregassem um peso invisível. Entre os dedos, segurava algo que, à primeira vista, Satoru não conseguiu identificar. Apenas soube que não era qualquer coisa. Havia uma delicadeza nos gestos de Suguru, quase reverente.
Preparou-se para chamá-lo, os lábios se entreabrindo no movimento automático de alguém cumprindo uma tarefa banal. Mas então, seus olhos desviaram para o espelho ao lado da cama — e ali, como numa fotografia borrada, viu o reflexo do rosto de Suguru. A pele pálida manchada de vermelho, os olhos úmidos como se tivessem vertido lágrimas há pouco tempo. A expressão, apesar de contida, denunciando algo mais profundo: tristeza, saudade... até solidão. E no centro de tudo aquilo, os braços do mais velho estavam cruzados sobre o peito, apertando contra si um pequeno retrato emoldurado.
Satoru hesitou. A voz que ia chamar seu nome sumiu na garganta, substituída por uma incerteza incômoda. Talvez devesse recuar, deixá-lo sozinho. Era evidente que Suguru precisava de espaço. Deu um passo para trás, e depois outro, já se preparando para abandonar discretamente aquela cena tão particular. Mas antes que o fizesse, seus olhos foram novamente puxados de volta para dentro do quarto, atraídos pelo movimento das mãos de Suguru. O mais velho afastava o retrato do peito com lentidão, os dedos deslizando com delicadeza por cima do vidro, contornando a imagem como se tentasse tocá-la de verdade. A ponta da digital percorreu o rosto de Itsuki na fotografia, e o gesto era tão íntimo, tão carregado de algo não dito, que fez o estômago de Satoru se contrair.
Sem pensar, ergueu a câmera até o rosto. Um instinto bobo, quase automático. O aparelho piscando com suavidade enquanto capturava a cena diante dele. A mão de Suguru, o carinho no vidro, o suspiro quase imperceptível. E então, o beijo. Um toque leve, breve, direto nos lábios da imagem de Itsuki, como se fosse um segredo, algo que jamais deveria ter sido visto por ninguém.
Foi o bastante. Satoru abaixou a câmera, os braços tremendo ligeiramente. Sentiu o rosto esquentar, uma vergonha difusa subindo-lhe pelas bochechas até alcançar as orelhas. O coração bateu mais forte, e em um rompante, girou nos calcanhares, disparando corredor afora. Os pés tropeçavam no próprio impulso enquanto ele descia as escadas às pressas, os degraus passando sob seus passos como uma sequência mal medida de madeira e adrenalina. Só parou ao alcançar o banheiro do térreo, onde se trancou com um estalo apressado, os ombros arquejando com a respiração ofegante.
O silêncio ali era espesso. Quase sufocante. E mesmo assim, seu coração continuava disparado, como se tentasse escapar do que havia acabado de testemunhar. Os dedos apertavam a câmera ainda presa em suas mãos, tentando encontrar nos botões e relevos do aparelho uma âncora, um chão firme em meio ao turbilhão que agora o invadia. Mas era inútil. A imagem do beijo — tão inesperada, tão carregada — permanecia gravada em sua mente com uma nitidez cruel.
O sentimento que o corroía por dentro era difícil de nomear. Confuso, denso, feito de camadas que ele ainda não sabia reconhecer. Havia ali uma ponta de nojo, sim, ou pelo menos algo muito parecido com desconforto, por presenciar alguém se agarrar daquela maneira à imagem do seu irmão mais velho. Aquela devoção silenciosa, quase desesperada, o incomodava. Mas junto disso, e talvez de forma ainda mais perturbadora, veio uma fisgada aguda de inveja. Uma pontada pequena, mas precisa, como se algo dentro dele protestasse. Por que Itsuki? O que fazia de seu irmão digno de tanto desejo, de tanta atenção, de um gesto tão intenso quanto aquele beijo?
Se viu perdido em perguntas que nunca havia feito antes. Quando, afinal, Suguru havia se apaixonado por seu irmão? Desde quando aquele sentimento vivia escondido ali, tão próximo e ao mesmo tempo inalcançável? E, talvez a dúvida mais incômoda de todas: era mesmo certo alguém amar outro homem daquele jeito?
Havia ouvido comentários na escola. Risadas maldosas, piadas cheias de veneno, palavras torpes ditas com desprezo. "Errado", diziam alguns. "Doentio", murmuravam outros. E Satoru, sem compreender direito, absorvia tudo como se fossem verdades absolutas. Mas agora havia algo em si que duvidava. Algo que queria entender.
Os olhos desceram devagar até a câmera ainda apoiada nas palmas das mãos. Os dedos hesitaram, flutuando sobre os botões. E então, num gesto quase mecânico, pressionou play. Outra vez. "Só para ter certeza", disse a si mesmo.
Só para confirmar o que havia visto.
O rosto voltou a se tingir de um rubor constrangido, uma onda quente subindo do peito até as orelhas. Sentia-se sujo, não havia outro termo. Como se estivesse atravessando uma fronteira que não lhe pertencia, invadindo algo precioso e dolorido, que nunca deveria ter sido filmado, quanto mais revisto. Mas mesmo com a vergonha queimando sob a pele, não desviou o olhar. Permaneceu ali, os olhos fixos na pequena tela, assistindo com mais atenção, com mais demora. Suguru estava de cabeça baixa no vídeo, os traços suaves marcados por uma tristeza funda. As lágrimas quase secas ainda brilhavam sobre sua pele, e Satoru não conseguiu evitar o pensamento: ele era bonito. Tão bonito.
Aquele tipo de beleza que dói. O tipo de melancolia que faz qualquer gesto se tornar mais delicado, mais humano. Os lábios rosados tocando a fotografia com tanto cuidado, tanta dor. Havia algo de sagrado naquele beijo. E Satoru não deveria estar olhando. Mas era impossível não fazê-lo. Por mais que dissesse a si mesmo que era errado, que não compreendia, que não queria saber — seus olhos permaneciam ali. Fixos.
Nunca havia pensado em Suguru como alguém bonito. A ideia sequer lhe ocorrera antes. Talvez por desinteresse, talvez por orgulho. Em alguns momentos, sim, quis ser como ele. Desejou ter aquele cabelo preto e liso que caía tão naturalmente sobre a testa, aqueles olhos escuros que pareciam sempre saber mais do que diziam. Comparado a ele, Satoru sentia-se um borrão esquisito no meio de um quadro perfeitamente equilibrado. O cabelo branco demais, os olhos azuis demais. Traços que o destacavam, mas não de forma positiva. Desde muito pequeno, aprendeu que ser diferente significava ser alvo. E foi.
Na escola, os colegas não tinham piedade. Riam, apontavam, chamavam-no de aberração. Palavras feias, sujas, que ele levava para casa e escondia debaixo da língua como se fossem culpa sua. Em segredo, invejava os "normais". Os que podiam passar pelos corredores sem serem notados. E, acima de todos, invejava Suguru. Porque ele parecia sempre à vontade com quem era. Porque nunca precisava pedir para pertencer. Já estava incluso, aceito, até admirado.
Talvez por isso e por tantas outras coisas não ditas, ver aquele mesmo Suguru agora, ferido, quebrado, entregue à própria dor, provocasse em Satoru uma satisfação sutil. Quase cruel. Algo mesquinho, pequeno, que ele imediatamente tentou empurrar para o fundo da mente. Mas era verdade. Pela primeira vez, não era ele quem chorava escondido. E, por mais estranho que fosse admitir, havia um conforto nisso. Como se a balança finalmente pendesse para o outro lado.
Inspirou fundo, tentando afastar o calor que ainda queimava no rosto. Com gestos contidos, guardou a câmera no bolso da calça jeans, como se aquilo bastasse para apagar o que viu. Não bastava, é claro. E ele sabia. Mas ainda assim, o peso do aparelho contra a perna lhe deu a estranha sensação de controle. Como se, guardando o vídeo, também estivesse guardando um poder. Um segredo. E decidiu que o manteria assim.
Pelo menos por enquanto.
