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Sangue de prata e vidro

Summary:

"Minha irmã, Alpha, costumava contar histórias sobre um lugar onde poderíamos viver sem o peso do mundo sobre nossos ombros. Onde poderíamos ter paz." Ela olhou para mim com olhos suaves, rapidamente voltando a direciona-los para o quadro. "Acho que o encontrei."

Work Text:

Era uma noite fria como tantas outras que passei envolvida pela areia branca e brisa salubre. Meus dedos afundavam nos grãos finos e meus cabelos dançavam ao ritmo da melodia dos ventos. As estrelas pareciam brilhar mais nesta noite. Estariam elas reunidas para algum grande evento celestial? "Um casamento" pensei. Mas não acho que seja possível, não depois da lei de Antlia. Antes que pudesse concluir o pensamento, vi algo mover-se no céu. Uma flecha brilhante cortando a imensidão escura. Uma estrela cadente. Dizem que podem realizar um desejo. Vendo sua beleza, sua luz, não havia ninguém que pudesse questionar tal poder. Aquele pedaço de eternidade encapsulado em prata, que muito provavelmente já havia desvendado todo o universo em sua viagem celestial, parecia realmente conter poder e benevolência para abençoar pobres mortais em suas preces sussurradas.
"Me dê um motivo para viver." Murmurei tão baixo que minhas palavras foram engolidas pelo som das ondas quebrando. Não sabia ao certo porque desejara aquilo, parecia muito mais simples pedir para que ela encerrasse minha vida, que não valia coisa alguma. Mas em meu interior, minha alma sempre clamava por algo, uma chama que pudesse reacende-la, alguma coisa que desse sentido aos meus dias tediosos. Minha irmã sempre dizia que eu deveria parar de esperar que os outros resolvessem tudo em minha vida, que se eu quisesse algo eu mesma devia conquistar. Mas mesmo assim, eu sempre acabava da mesma forma: implorando por algo que preenchesse o vazio avassalador que consumia meu coração.
Resolvi parar de remoer aquilo. Não havia sentido. Abri os olhos e olhei para o céu, para limpar a mente e deixar que a brisa marinha levasse minhas frustrações embora, mas quando o fiz vi algo que fez meus olhos se estreitarem. Aquela estrela, que antes não passava de um pontinho luminoso entre tantos outros, agora parecia aumentar a cada segundo, como se estivesse se aproximando cada vez mais.
"Chegou a hora". Pensei. Não tentei me mover, não tinha motivos para isso, apenas fechei meus olhos e esperei. Fiquei feliz por ser aquele o lugar onde eu morreria. Aquela praia que tanto me acolheu, com as palmeiras que me fizeram companhia, o mar que limpou minhas lágrimas. Não podia pedir um lugar melhor para minha cova. Esperei pelo impacto, mas ele não veio. Veio apenas uma luz. Tão forte que atravessou minhas pálpebras e fez meus olhos arderem como se estivessem queimando, o que me fez fechá-los com mais força. Percebi, um tempo depois, que a luz ofuscante se apagara. Então abri lentamente meus olhos, ainda incomodada pela claridade que me afetara anteriormente. Quando consegui ver claramente o que estava à minha frente, minhas sobrancelhas franziram-se e minha boca abriu em descrença. Não conseguia mais ver a esfera luminosa que vagava pelos céus, mas agora havia alguém em minha companhia: uma garota, parada no encontro da areia com a maré. Talvez fosse idiotice, mas levantei-me e andei em direção a figura, mesmo que com receio.
Sua pele escura era pálida, como se não houvesse sangue em seu corpo. Isso devia-se ao fato de que prata era o que lhe fluía pelas veias. Descobri mais tarde. Prata também era o que lhe aprisionava, grilhões brilhantes com gravações de astros nos pulsos e pescoço, tão delicadamente moldados que não pareciam feitos realmente para prender alguém, eram mais como adornos feitos para uma princesa. Usava um vestido branco de seda pura que cobria até seus tornozelos, deixando seus pés desnudos à mostra. O que era mais extraordinário nela eram seus cabelos: cachos tão brancos quanto mármore, parecia que havia uma nuvem adornando sua cabeça. Eles atingiam até metade de suas costas. Em suas mechas era possível identificar pequenas pérolas douradas, que enfeitavam-lhe assim como as estrelas enfeitam os céus. Ouro também pendia de suas orelhas, seus brincos eram formados por finas correntes douradas que pendiam como uma cascata. Além disso, sua testa era cingida por um diadema de ouro, com uma pedra prateada em seu centro.
Quanto mais eu a olhava mais ela parecia humana, a luz prateada que envolvia-lhe começava a se apagar, assim como as ondulações do ar a sua volta. Devo ter passado muito tempo observando-a, mas sequer notei quando ela abriu os olhos, direcionado o brilho daquelas orbes acinzentadas para mim.
— Quem eres? — Sua voz era como uma garoa que molhava gentilmente a terra abaixo de si, mas ao mesmo tempo como farfalhar de metais se chocando. O som me tirou de meu transe, me fazendo piscar algumas vezes, com os lábios entreabertos
— O-o quê…?
— O quê? É este seu nome? — apesar de parecer uma piada, seu tom não possuía humor algum.
— Quem é você? — Eu disse, assim que consegui juntar voz para formar uma frase completa.
— A Vigésima primeira Lyncis, filha de Lynx — Ela disse as palavras com confiança e convicção, como se qualquer pessoa que as escutasse imediatamente captasse seu significado.
— Vigésima primeira? — ela concordou com a cabeça.
— Lyncis. Diga-me, O quê, onde estou? — Sua postura era impassível.
— Andrina. E meu nome é Aurora.
— Auroroa — Ela parecia testar o som da palavra em seus lábios. — Como a alvorada.
Eu apenas assenti.
— De onde você veio?
— Da Corte de Lynx, no Reino Celestial — Ela ergueu o queixo orgulhosamente enquanto falava.
— Você é uma estrela?
— Eu era — as palavras pareciam amargas em sua boca, sua postura vacilou. — E voltarei a ser, mas no momento não sou nada.
— Você não parece nada — é bela e imponente demais para não ser nada — Você parece um anjo — a última frase saiu como um sussurro.
— Para afirmar tal coisa, tenho certeza de que nunca viras um anjo. — Ela deu um pequeno sorriso e, pelos deuses, tive certeza que poderia morrer naquele momento, apenas por ver a mais pura beleza daquela face iluminada.
— Por que está aqui? — Talvez aquela pergunta parecesse um pouco invasiva, mas estava martelando em minha cabeça e não pude impedir meus lábios de formarem as palavras. Ao ouvir aquilo seus lábios se comprimiram e ela desviou seus olhos dos meus — Desculpa. Acho que não quer falar sobre isso.
Ela não disse nada, e eu voltei a analisá-la. Todos os seus traços eram perfeitamente esculpidos. Seu vestido caía perfeitamente deixando seus ombros e a parte lateral de suas pernas à mostra, ele era bordado com desenhos que não pude identificar o que representavam. Em algum momento, achei que sua figura voltara a brilhar, ate perceber que a luz vinha do sol que nascia no horizonte, pintando o céu de laranja e amarelo como uma aquarela. Lyncis também pareceu perceber, virando sua cabeça para trás, depois voltando-a para mim.
— A alvorada — O sorriso dela me fez sorrir também.
— É, acho que quer dizer que devo ir embora. — Ela pareceu, talvez… desapontada?
— Para onde vais?
— Para casa.
— Me leve junto.
— Por que?
— Fui mandada para cá para aprender sobre vocês. — Suas palavras possuíam certa tristeza e amargura que me fez imaginar o que aquelas palavras significavam e que, é claro, também me fez não conseguir recusar o pedido que as seguia. — Me ensine a ser humana.

☆★☆

Na jornada de volta para meu apartamento, que ficava a alguns minutos da praia, percebi que Lyncis não possuía total controle sobre seu corpo. Andar parecia difícil para ela, como se não detivesse equilíbrio suficiente para se manter de pé. Ela também possuía uma expressão de difícil interpretação ao analisar as coisas ao seu redor: sua expressão parecia algo entre admiração e nojo, talvez um pouco mais inclinada ao nojo.
A paisagem da cidade era exatamente a mesma de todos os dias: pequenos casebres uniformemente alinhados, cheiro de café recém feito e pão fresco saindo das casas e padarias (que eram muitas para uma cidade tão pequena), raios de sol singelos pintando o ambiente de dourado, algumas senhoras varrendo suas calçadas ou conversando na porta de casa. Mas havia algo diferente: Lyncis. Sua presença parecia iluminar a cidade, como um oásis no deserto, como uma única estrela brilhante em um céu noturno. A figura elegante não parecia encaixar-se na simplicidade do ambiente em que estava. Sua aparência incomum, com seus cabelos exóticos e roupas finas chamavam a atenção de todos por quem passávamos, ninguém conseguia olhar para ela apenas uma vez, ela atraia olhares para si e sabia bem disso, não só sabia como parecia apreciar aquilo, como se soubesse que merecia aquela atenção, mantia a cabeça erguida e a postura impotente, mesmo que seus passos vacilacem de vez em quando.
Então chegamos a minha casa. Um casebre de tijolos marrom-avermelhados com porta e janelas de acácia, cercas desgastadas, vasos de flores e ervas medicinais espalhados na área externa e uma lamparina que permaneceu acesa a noite. A simplicidade pareceu choca-la, seus olhos acostumados com construções de mármore, prata e luz pura - isso se as lendas sobre a arquitetura celestial estiverem certas - pareciam tentar acostumar-se ao mundo mortal como os olhos se acostumam a escuridão após ter presenciado a luz.
— Não precisa entrar se não quiser. — Ela não queria. Era óbvio. Mas o fez mesmo assim. Acho que era uma forma de mostrar que era superior ao nosso estilo de vida primitivo. Que podia fazer tudo que fazemos ainda melhor que nos mesmos. Mas, ao adentrar o recinto sua expressão mudou para algo como surpresa como se tivesse encontrado algo que buscara por muito tempo, ou talvez algo que não sabia que estava buscando. Eu acompanhei seus passos, parando ao seu lado e olhando para o mesmo ponto que ela: uma reprodução do quadro "A noite estrelada" que eu mesma pintei e pendurei em cima da lareira.
— Minha irmã, Alpha, costumava contar histórias sobre um lugar onde poderíamos viver sem o peso do mundo sobre nossos ombros. Onde poderíamos ter paz. — Ela olhou para mim com olhos suaves, rapidamente voltando a direciona-los para o quadro. — Acho que o encontrei.