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Trinta e seis horas

Summary:

Ser um veterano, viúvo e médico de pronto socorro noturno, poderia ter mexido um pouco com o senso de proteção de Jack.

I will translate that to English very soon you bunch of lazys.

Notes:

eu realmente não entendo nada sobre medicina, então tudo aqui que envolve procedimentos medicos eu tirei da minha cabeça. fiquei revoltada que mencionaram Dennis hétero no Twitter e meti quase sete mil palavras numa sentada só (lá ele), terminei isso duas da manhã então eu obviamente não revisei, relevem os erros.

I will translate that for English very soon you lazys

Work Text:

Ser um veterano, viúvo e médico de pronto socorro noturno, poderia ter mexido um pouco com o senso de proteção de Jack.

Primeiramente, antes de tudo, era importante dizer que Jack fazia terapia para lidar não só com esse problema mas com as centenas de outras questões que ele lutava contra internamente. E em segundo lugar, ninguém poderia culpá-lo em ser atento como um cão de caça quando a pessoa que mais importava para ele naquele hospital e em toda sua vida era um jovem de vinte e tantos anos, bondoso como Madre Teresa de Calcutá e assustado como um beta no aquário.

Tudo bem, Whitaker na verdade tinha quase trinta anos, mas quase trinta anos ainda não é trinta anos, e mesmo que ele tivesse trinta anos, ainda estaria muito longe da idade atual de Abbot. O médico assistente também sabia que Dennis havia passado por muita coisa, e que ele sabia muito bem se virar sozinho, mas isso não significa que ele precisava.

Droga, Jack não conseguia não se preocupar com seu namorado em meio aos perigos de um pronto socorro, não quando ele tinha aquela cara de gato molhado.

Era por isso que Abbot vinha fazendo turnos duplos, começou quando eles oficialmente começaram a namorar algumas semanas atrás. E era pelo excesso de trabalho o motivo da discussão que ele estava tendo naquele momento com Robby.

— Eu posso aceitar um turno duplo, com muita dificuldade, mas eu posso! Agora um triplo é loucura! Vá embora, Jack! Eu não quero ver mais sua cara por pelo menos três dias!

Michael Robbinavich, como um bom médico assistente, chegou mais cedo para ajudar o turno da madrugada a finalizar os trabalhos. O turno do dia estava chegando aos poucos e lentamente, mas ainda era cedo demais para exigir qualquer coisa. Aquela madrugada havia sido complicada, muitos moradores de ruas, usuários de drogas, e até mesmo batedores de carteira. Jack passou a madrugada toda se apressando para curar logo todos aqueles sujeitos, para que eles pudessem ganhar alta antes do amanhecer. Infelizmente houve algumas complicações e alguns dos rostos suspeitos precisariam ficar mais tempo em observação, foi quando Jack tomou a decisão de passar mais doze horas no hospital, totalizando trinta e seis horas trabalhadas. Ele estaria morto no final do dia, mas se recusava a deixar seu precioso namorado a mercê de tantas más intenções.

Foi quando ele puxou Robby de lado e noticiou um turno triplo.

O veterano revirou os olhos com o drama do homem mais alto. Os braços cruzados se apertaram com irritação. Jack tensionou os ombros e abriu mais as pernas, se colocando em defesa do que quer que ele tinha para se defender.

— Eu estou bem, consigo dobrar mais uma vez. — Abbot disse pausadamente.

— Eu não te quero no meu turno, vá embora. — Robby esfregou o rosto.

— Você está me expulsando? — Jack levantou a sobrancelha.

Robby suspirou cansado.

— Sim, estou.

Jack riu debochado.

— Cara, você precisa relaxar.

Robby estava prestes a protestar mais uma vez, quando uma terceira presença invadiu a sala.

— Bom dia. — Olhos grandes e curiosos adentraram na sala, o par azul focados como faróis diretamente a Jack.

Jack descruzou os braços e sorriu torto para o estudante de medicina.

— Bom dia, Dr. Whitaker.

— Estudante de medicina. — O garoto corrigiu daquele jeito estupidamente humilde que ele tinha. Jack achava adorável. — Bom dia, Dr. Abbot.

Whitaker sorriu tímido para o médico assistente que cumpria hora em sua frente. Brincando com a única alça da mochila presa em seu ombro, Dennis encarou através de seus cílios o rosto cansado de Abbot. O rapaz lentamente se aproximou do médico veterano, sua própria expressão se tornando preocupada ao perceber as grandes poças escuras abaixo dos olhos de Jack. Dennis estava prestes a levantar a mão e tocar o rosto pálido do mais alto, mas foi interrompido no meio do caminho.

Robby pigarreou com força, acabando com todo o clima de comédia romântica que estava acontecendo ali.

— Bom dia para você também, Whitaker. — Robby levantou as sobrancelhas e franziu os lábios, balançando o corpo ainda com os braços cruzados.

Whitaker, que de repente percebeu a presença de seu verdadeiro médico assistente, se avermelhou com a sua própria falta de educação e com a falta de senso ao flertar em meio ao hospital.

— B-bom dia, Dr. Robby. — Whitaker disse se afastando de Abbot.

Jack e Dennis estavam juntos há algumas semanas, mas oficialmente nada havia sido declarado. Não que Jack se importasse muito com que terceiros pensariam sobre o relacionamento deles, isso era uma preocupação que talvez afetasse a Robby, que naturalmente era alguém que se preocupava muito, mas ele? Abbot tinha mais com o que se preocupar, como, por exemplo, Dennis. O garoto era, de fato, a única coisa com que ele se importava nos últimos tempos, além de seus próprios pacientes. Mas muito importava para Jack o futuro de seu protegido no meio em que eles trabalhavam, uma vez que Jack sabia muito bem o quão preconceituoso a medicina poderia ser, em mais de uma questão. Então como sempre fazia, Jack estava prevenindo antes de remediar.

Porém, Robby sendo o bastardo que era, pescou toda a situação antes mesmo que Jack tivesse a chance de contar a ele. Não que Abbot estivesse escondendo de seu amigo, de qualquer jeito. Mas também nunca falou sobre o assunto diretamente, só presumiu Robby já estava inteirado sobre o assunto por conta própria.

— Whitaker, você poderia nos dar um minutinho? Estou tentando dar uma bronca no Dr. Abbot. — Robby disse abaixo e gentil, com um um leve humor seco em seu tom.

Whitaker balançou a cabeça rapidamente em concordância. Obediente como sempre, o que apavorava Jack, mas também fazia suas calças se apertarem.

— Claro! Claro! Só queria me despedir antes que o turno fosse trocado. — Dennis murmurou.

— Não precisa se despedir, Whitaker. — Jack levou uma das mãos até o ombro do mais jovem. — Não estou indo a lugar nenhum. — Jack sorriu para Robby com a cara de quem estava o desafiando.

Robby grunhiu de frustração, esfregando as mãos nos cabelos já bagunçados.

— Vou deixar vocês a sós. — Robby suspirou. — Mas isso ainda não acabou, Jack Abbot. —Robby apontou para o outro médico enquanto se afastava. — Ainda não acabou! — Robby gritou pelo corredor.

Jack murmurou se sentindo vitorioso.

Dennis se desvencilhou do toque do homem mais velho e se virou para que ficassem frente a frente.

— O que você está fazendo aqui, Jackie? -- Dennis murmurou preocupado, os olhos arregalados estudando todo o rosto do namorado.

— Hmm, trabalhando? — Jack levantou a sobrancelha, o que fez Dennis fazer aquela cara de hamster irritado. — Resposta errada?

— Jack! Você está aqui há um dia inteiro! Por favor, vá para casa! — Dennis disse irritado, ou pelo menos parecia ser um tom de irritação, Jack não sabia muito bem, as vezes confundia Whitaker com um ursinho carinhoso.

— Eu não vou ficar o dia todo, só mais algumas horas! Está tudo bem, eu aguento! — Jack colocou as mãos nos ombros do mais novo, acalmando-o.

— Mais algumas horas, e aí você vai voltar para a casa, dormir mais ou menos e logo terá que voltar para o turno da madrugada. — Dennis resmungou.

— Vou folgar essa noite, está tudo bem.

Whitaker franziu a testa.

— Pensei que sua folga fosse só daqui duas noites.

Jack deu os ombros.

— Oras, estou trabalhando aqui há vinte quatro horas. Eu também preciso descansar. — Abbot sussurrou cúmplice.

O mais jovem revirou os olhos.

— Além do mais, se eu folgar hoje, o que a Glória irá fazer? Me mandar embora? — Jack riu. — Ela precisa de mim!

— Estou falando sério com você. Vá para casa! Descanse um pouco, eu passo lá depois daqui.

— E vai dormir comigo? — Jack levantou a sobrancelha questionador.

— Só se você for agora.

O médico assistente balançou a cabeça, suas mãos caindo para os quadris de Dennis brevemente.

— Hmm, vou pensar no caso. — E então foi embora.

Whitaker balançou a cabeça, vendo o homem mais velho se afastar em direção a outro leito ocupado. O rapaz suspirou fundo e se virou para ir até seu armário, encontrando uma recém chegada Trinity no meio do caminho.

— Ei, virgem! — Saudou a garota.

— Oi, Trin! — Eles deram um soquinho cúmplice enquanto caminhavam juntos em direção aos guarda-volumes. — O acelerador do carro da Dra. Garcia estava funcionando bem hoje? Você nunca chega no horário quando dorme fora.

— É porque não dormimos, então foi fácil chegar no horário. — Dennis riu. — Fale mais uma vez alto desse jeito e eu faço você dormir com os cachorros do vizinho para sempre.

Dennis riu enquanto abria seu armário.

— Você não pode mais me ameaçar assim, agora eu tenho uma outra casa para dormir.

Santos revirou os olhos, socando sua bolsa dentro de seu armário rudemente.

— Desde que Abbot colocou essa aliança idiota nesse seu dedo, você ficou um pé no saco. — Ela bateu a porta com força e apoiou o ombro na lataria enquanto cruzava os braços.

Dennis sorriu tímido ao lembrar do material que circulava seu anelar direito. Era a primeira vez que usava uma aliança em vinte seis anos de vida.

— Ficou sabendo? — Perguntou Santos enquanto aguardava o amigo a guardar suas próprias coisas cuidadosamente em seu armário.

— Hm? — Dennis murmurou.

— O hospital hoje está cheio de detentos. Bandidos, traficantes, ouvi até falar até mesmo de assassinos. A malandragem inteira de Pittsburgh está nesse pronto-socorro. — Santos se inclinou para Dennis enquanto sussurrava.

Dennis fechou seu armário e se virou para a amiga.

— Primeiramente, mesmo que legalmente incorretos, eles ainda são nossos pacientes. — Whitaker tinha aquela cara de cansado que fazia toda vez que tinha que explicar um fundamento básico de ética da humanidade geral. — Segundamente, você precisa seriamente parar de falar com as enfermeiras.

O loiro virou as costas e saiu andando.

— É você quem diz que eu tenho que saber o nome de todas elas! Eu nem queria me envolver! — Santos gritou enquanto Whitaker se afastava.

Em meio ao caminho da central, Dennis viu o dono dos cachos grisalhos mais bonitos da cidade em mais um leito repleto de sangue. O rapaz suspirou cansado e olhou para os lados, em busca de uma resposta divina que poderia o ajudar com aquele problema.

— Dr. Robby! — Whitaker gritou quando seus olhos encontraram o moletom azul do outro lado do corredor. O médico assistente se virou em direção ao seu chamado, e Whitaker correu até ele.

— Dr. Robby! Você precisa fazer alguma coisa, Dr. Abbot não vai embora!

Robby riu com as maneiras do mais jovem.

— Pensei que você gostasse dele, rapaz. — Disse Robby enquanto olhava para o tablet apoiado em sua cintura, seu óculos de leitura escorregando na ponta de seu nariz.

— Não quando ele decide fazer um turno de trinta e seis horas.

Robby balançou a cabeça, e voltou o olhar para o médico mais baixo.

— É, eu também não gosto quando Jack teima com algo. Infelizmente ele é naturalmente muito teimoso, então eu tento relevar para não desgostar dele todos os dias. — Robby ajeitou seus óculos em seu rosto com seu dedo indicador. — Relaxa, garoto. Vou falar com ele mais uma vez. Antes das oito horas da manhã a cara dele não estará mais nesse pronto-socorro, vou fazer esse esforço pelo bem de todos.

Whitaker suspirou cansado e continuou a andar em direção a central, deixando seu médico assistente para trás. Com os ombros caídos, o loiro andou até o balcão onde Dana se encontrava, e apoiou os cotovelos na superfície enquanto tentava se concentrar no quadro de pacientes.

— Bom dia, Dana. — Dennis murmurou com os dedos sob os lábios.

— Bom dia, Cowboy! — Dana disse com aquele humor que apenas ela conseguia ter naquele horário da manhã. Dennis sorriu fraco para ela, seus olhos ainda focados no telão da central. Ele sentiu o olhar da mulher queimando seu rosto, sabendo que ela estava estudando seu humor igual ela fazia com todos naquele hospital. — Está tudo bem, docinho? Você parece cansado para quem deveria ter dormido a noite toda.

Dennis mordeu o lábio inferior.

— Hmm, Abbot ainda está pelo hospital.

Dana riu.

— Eu achei que você gostava do cara.

Whitaker quase revirou os olhos, mas sabia que era rude fazer isso com Dana.

— Eu gosto quando ele tem pelo menos oito horas dormidas por dia, ao menos quatro, não sou exigente.

Dana riu.

Dana era a única outra pessoa além de Robby que sabia, e ela de fato sabia, tinha essa informação por mérito próprio. A história é bem simples, ela viu Jack rodeando o jovem estudante de medicina e o encurralou na parede com uma ameaça afiada na ponta da língua. Dennis precisou intervir e dizer que estava tudo bem. Jack lhe disse mais tarde que nunca ficou tão aterrorizado em toda a sua vida.

— Soube que ele quer dobrar mais uma vez. — Dana suspirou fundo. — E a culpa é sua.

Whitaker franziu a testa, tirando os olhos da TV e fitando Dana que trabalhava incansavelmente com as mãos sob aquele balcão.

— Desculpa? — Whitaker piscou incrédulo. — Como assim minha culpa?

Dana parou brevemente o que estava fazendo para colocar as mãos a cintura e olhar para Dennis com aquela cara de quem estava falando com um completo idiota.

— Você acha mesmo que um veterano de guerra como Jack iria deixar o pãozinho de mel dele sozinho em um hospital cheio de Hienas e trogloditas que são os pacientes que temos hoje?

Dennis arregalou os olhos.

— Você acha que é por isso que ele quer dobrar? Para ficar de olho em mim? — Whitaker se dobrou no balcão.

— Eu não acho, garoto. — Dana se inclinou. — Eu sei.

Não houve muito o que Whitaker pudesse dizer, primeiro porque não sabia o que dizer. E segundo que de repente Langdon estava ao seu lado, falando rápido e muito como sempre, e o arrastando para algum caso no qual ele precisava de sua ajuda.

Para sua própria saúde mental, o estudante de medicina enterrou aquela história no fundo de sua mente.

O primeiro caso do dia era um homem de trinta anos com uma concussão na cabeça. Ele tinha uma aparência um pouco desgrenhada, cabelos sujos e barba espetada para todos os lados, Dennis desconfiava ser um morador de rua. A concussão não era tão feia, mas a pancada tinha sido forte o suficiente para que o homem apagasse e se mantivesse assim até então. Dennis examinou o paciente com orientações de Langdon e orientou alguns exames necessários. As enfermeiras tomaram conta da situação e logo Dennis correu para verificar se mais alguém precisava de ajuda.

— Hey, Whitaker! — O loiro ouviu uma voz feminina o chamando em meio aos ruídos do hospital.

— Bom dia, Dra. McKay! — Whitaker sorriu.

— Qual foi! Eu disse que você pode me chamar de Cassie. — A ruiva sorriu.

— Desculpa, é o hábito. — Dennis encolheu os ombros.

— Tenho um acidente de carro chegando daqui cinco minutos. Você tem exatos quinze segundos para aceitar antes que sua amiga Dra. Santos apareça implorando pelo caso.

Whitaker riu.

— Estou dentro, obrigado.

— De nada. Achei que seria bom para você pegar casos mais complicados. Sei que perder pacientes nos faz ficar com medo, mas não podemos nos deixar consumir por isso. — Dennis balançou a cabeça em concordância. Cassie olhou para ele com pena por um momento, antes de se inclinar e sussurrar. — E também, Robby me mandou proibir você de ficar na triagem hoje.

Dennis riu.

Os dois médicos se viraram com o barulho de borracha de tênis rangendo contra o piso.

— Dra. McKay, por favor… — Santos iria começar seu ritual de humilhação para conseguir um caso radical, mas Cassie levantou a mão a interrompendo.

— Desculpe, Whitaker já pegou. — McKay se virou para se preparar para o paciente que estava chegando.

Whitaker disfarçou a risada que queria sair pela derrota de Santos. O rapaz pode ouvir um murmúrio de “traidor” antes que ela se afastasse.

O loiro voltou a caminhar pelos corredores do pronto-socorro, agora seguindo Cassie para ajudá-la com o acidente que estava por vir. Mas o rapaz parou em meio ao caminho quando viu na esquina de um bloco uma presença indesejada batendo papo com Mateo.

Ele iria deixar passar, ele realmente iria, ele tinha um paciente em menos de poucos minutos. Mas a fala de Dana então voltou em sua mente, o que fez ele agir rápido.

Antes mesmo que seu cérebro pudesse processar, sua mão já estava cercando um bíceps rígido e o arrastando para algum outro lugar.

— Tem um segundo?

Jack assentiu e se despediu rapidamente do enfermeiro antes de acompanhar Dennis a um lugar mais tranquilo.

— Aconteceu alguma coisa? — Abbot pareceu preocupado, imediatamente estudando todo o corpo do mais jovem em busca de um alarme.

— Não, não… nada. É só… — Dennis mordeu o lábio, atraindo a atenção de Jack que ainda parecia confuso. — É verdade que você está dobrando seu turno porque não quer me deixar sozinho com tantos pacientes delinquentes pelo hospital. — Whitaker cuspiu de uma vez.

Jack travou por um momento, sem parecer saber o que dizer, ou sem conseguir processar a informação. Aquilo era incomum, Dennis raramente era direto daquele jeito.

— Uhm… — Abbot pareceu pensar. — Depende?

— Depende? — Whitaker cruzou os braços.

— Se eu disser que sim e você ficar bravo, aí a minha resposta vai ser não.

Whitaker grunhiu em resposta.

— Jack, é sério? — Whitaker disse meio desacreditado.

O homem mais velho o olhou meio culpado.

— Jack! — Dennis passou as mãos no rosto irritado. O rapaz deu um giro de trezentos e sessenta graus, olhando em volta como se procurasse algo para se acalmar. O loiro se voltou em direção a Jack, que quis se encolher quando viu a expressão irritada do menor. Dennis colocou uma mão na cintura, enquanto a outra usou para apontar para o peito do médico assistente. — Olha aqui, eu não sou criança! Eu sei que sou mais novo que você e tudo mais, mas se você me vê dessa maneira, nós temos um problema muito sério aqui!

Jack tentou abrir a boca para rebater, mas desistiu quando viu os olhos do outro se arregalarem ainda mais com a audácia.

— Eu não quero você me vigiando por aqui como se eu fosse uma ovelha no pasto, eu não preciso da sua proteção! Eu sou um homem adulto que pode se cuidar muito bem sozinho, e se qualquer coisa acontecer no meu turno, eu com certeza vou me reportar ao Dr. Michael Robbinavich, e não correr contar para o meu namorado durão que alguém fez mal para mim! Você me entendeu? — Whitaker franziu a testa para o outro.

Jack o encarou de volta, estático.

— Jack, eu te fiz uma pergunta. Você me entendeu? — Dennis cutucou o dedo indicador no peito do outro.

Abbot balançou a cabeça em concordância, ainda receoso em falar algo.

Dennis recolheu sua mão, mas não desfez sua expressão mal humorada. O mais jovem se aproximou do outro, ainda com as mãos nos quadris, ainda o encarando nos olhos.

— Esse hospital tem cinco seguranças fixos, e pelo menos uns dez policiais que circulam por aqui a todo momento. Eu sei que parece pouco, e porque é, mas acredite, Jack, se algo acontecer, e tomara Deus que não aconteça, você não será mais rápido do que Ahmad. — Dennis sussurrou contra o rosto tenso de Jack. — Agora eu preciso ir, porque tenho muito o que aprender. Mas, se eu te ver de novo aqui nesses corredores ainda no dia de hoje, Jack, você vai ter que começar a abraçar os travesseiros para se esquentar durante suas noites de folga.

O médico assistente assentiu obediente, e observou em silêncio o rapaz mais novo virar as costas e sumir pelos corredores do pronto-socorro.

Abbot ainda estava processando a atitude irritadiça e incomum de seu namorado, quando ouviu um assobio vindo por trás dele.

— Uau! — Um gargalhar alto ecoou pelo corredor. — Isso foi interessante de se ver. Não imaginava que Whitaker poderia ser tão mandão assim.

Jack não precisou se virar para ver o sorriso divertido no rosto de Robby, porque ele conhecia bem o suficiente o outro homem para saber que aquele sorriso certamente estava lá. Michael apareceu em seu campo de visão, as mãos grandes segurando os dois lados do estetoscópio ao redor de seu pescoço.

— Não comece. — Jack murmurou irritado e um pouco derrotado.

— Não estou dizendo nada! — O outro homem levantou as mãos em rendição. — Mas você sabe que o garoto está certo.

O veterano revirou os olhos.

— Eu suponho que sim. — Jack bufou e cruzou os braços.

Michael balançou o corpo para frente e para trás, fingindo não encarar com diversão o rosto do médico menor.

— Uhm. — Robby cantarolou. — E agora, o que você vai fazer?

Jack fechou a cara e olhou para ele de volta.

— Voltar pra a casa, oras! O que mais eu posso fazer nessa situação?

Robby riu baixo.

— É, meu amigo. O garoto te pegou de jeito, nunca vi alguém te dobrar desse jeito antes. Mesmo errado, você nunca deixa uma discussão sem dar a palavra final. — Robby assobiou. — Uma batalha impressionante essa.

Jack desviou o olhar.

— O que eu posso fazer? O cara sabe mesmo como fazer uma massagem em uma perna amputada. — Abbot resmungou.

Robby soltou uma risada nasal.

Abbot suspirou mais uma vez, e encarou o outro médico com um olhar cansado, como quem de fato havia passado um dia inteiro trabalhando incansavelmente. Michael estava feliz que seu amigo havia encontrado alguém insistente o suficiente para não deixá-lo sucumbir em sua própria teimosa, ele mesmo esperava que um dia encontrasse alguém como Whitaker, mas no fundo já havia perdido as esperanças.

Abbot estava prestes a estender a mão e dar um cumprimento de despedida a Michael, quando um grito feminino rasgou o ar em um corredor próximo a eles. Ambos os médicos se encararam, antes de correrem em direção a confusão eminente.

O cenário que encontraram foi um paciente se debatendo agressivamente na maca, sendo segurado por duas enfermeiras e uma estudante que pareciam que iriam ser derrubadas violentamente no chão a qualquer momento.

Os médicos correram para lados opostos da maca e seguraram o corpo do homem.

— O que aconteceu, Dr. Santos?

— Paciente encontrado inconsciente no meio da rua com sangramento na cabeça. Exames identificaram uma concussão média. Ele estava inconsciente até então, mas estável. Até ele acordar com comportamento agressivo.

Robby gritou pelo ombro uma ordem a enfermeira para aplicar um medicamento que acalmaria o paciente. Robby e Abbot continuaram a segurar o homem incontrolável até que o remédio fizesse efeito.

— Dr. Santos, prováveis diagnósticos pelo comportamento violento? — Gritou Abbot em meio as ameaças do homem que ele segurava.

— Uso de opioides? — Trinity disse com a testa franzida.

— Pupilas dilatadas, sudorese excessiva, tremedeira extrema. Bingo! — Abbot balançou a cabeça positivamente para a estudante.

— Só peça exames que comprove isso, antes que a Dra. Mohan descubra que estamos diagnosticando com base no óbvio e se envolva no caso. — Robby disse em meio a suspiros cansados.

O remédio aplicado lentamente passou a fazer efeito. Aos poucos, os braços e pernas do paciente começaram a ficar pesados, e seus movimentos mais lentos. Até que seus olhos se fecharam completamente e os médicos assistentes puderam suspirar aliviados.

— Não entendi, o paciente é claramente um morador de rua, e seus sintomas levam a hipótese mais óbvia de uso de drogas. Por que a Dra. Mohan discordaria disso?

— É. — Robby gemeu cansado. — Se você não quiser ser comida viva, é melhor nunca diagnosticar previamente um paciente com base em preconceitos sociais. — Robby esfregou as mãos na cabeça.

— Ou diagnosticar previamente no que é óbvio. — Jack deu uma piscadela divertida para a garota.

Uma cabeça loira apareceu de supetão ao lado de Trinity. Com o peito cansado pela provável corrida até ali, um par de olhos azuis encarou alarmado para a situação já estabilizada.

— Ouvi as enfermeiras falarem sobre um paciente violento. Vocês precisam de ajuda por aqui?

— Já está tudo sob controle, Whitaker. Obrigado pela a preocupação. — Robby agradeceu com um sorriso gentil.

Whitaker balançou a cabeça positivamente, e então seus olhos pousaram na outra pessoa na sala. Seus olhos se conectaram com os de Jack, que o encarava desde o momento em que o rapaz entrou no leito. Eles se encararam brevemente, a tensão crescendo entre os ombros dos dois homens, então Jack desviou os olhos para o chão, mordendo o interior da boca enquanto escondia as mãos nos bolsos da calça.

Percebendo o clima pesado, Michael pigarreou um pouco nervoso, e encarou o paciente mais uma vez.

— Ei, Whitaker. Paciente com concussão e provavelmente usuário de drogas. Você quer ajudar a Dra. Santos com isso? — Michael se inclinou para apoiar sua grande mão no ombro de seu aluno.

— Eu não preciso de ajuda. — Trinity revirou os olhos.

— Yep, você está definitivamente nessa, meu grande homem. — Robby olhou para Trinity com aquele olhar de essa é sua punição pela falta de humildade.

Ainda com a mão apoiada próximo ao pescoço de Dennis, Robby direcionou o rapaz para ficar ao lado da cabeça do paciente. Dennis encarou o homem desacordado por um momento, antes de seus olhos subirem para o homem do outro lado da maca, que já o encarava furtivamente.

— Dra. Santos, por que há bisturis na mesa de preparo? — Dennis ouviu a voz de Michael se arrastar próximo ao seu ouvido, mas ainda estava preocupado em encarar o veterano que parecia querer se esconder dentro da própria pele de tão desconfortável sob seu olhar.

— Paciente está com uma pequena e redonda protuberância na perna, só queria verificar se é superficial ou algo que precisaríamos nos alarmar. — Trinity explicou.

— Eu posso ver? — Dennis se virou para a garota, que deu os ombros.

— Claro, florzinha. Aqui. — Ela levantou o lençol que cobria o torso do paciente.

Michael afastou suas mãos de Dennis para que o estudante pudesse se inclinar e analisar a situação.

— Alguma opinião?

— Poderia ser um coágulo. — Dennis murmurou.

— Ou um corpo estranho. — Santos apontou.

— Bem, essa vocês terão que descobrir. Vou indo nessa, vou pedir que a Dra. McKay ou a Dra. Collins venham acompanhar vocês. — Robby disse já andando para fora do leito. O médico estava prestes a matracar mais alguma coisa, quando um grito fez ele e seus dois estudantes pularem.

— Puta merda!

E a próxima coisa que eles viram foi Dr. Abbot em cima do paciente que havia acordado silenciosamente, e que curiosamente estava com um bisturi na mão. Dennis, que percebeu que estava perigosamente próximo tanto do paciente, quantos dos bisturis na mesa de mayo, quanto de toda a situação, deu um pulo para trás.

Antes que todos os outros três presentes pudessem fazer alguma coisa, Abbot já estava com uma mão firme torcendo o pulso do paciente, machucando o suficiente para fazê-lo soltar o bisturi e o objeto ricochetear pelo chão. De repente, Robby e os outros dois estavam em cima do paciente mais uma vez, e o caos que havia recém indo embora estava instaurado mais uma vez, e em questão de segundos haviam enfermeiras e médicos gritando um com os outros até que o paciente estivesse desmaiado mais uma vez.

— Parece que temos mais um Kraken por aqui. — Trinity disse enquanto sentia as pernas do paciente ficarem pesadas.

— Dobrem a dose desse filho da puta. Tripliquem se for necessário. — Abbot urrou irritado.

— Jack. — Robby disse em um tom de bronca.

O veterano virou para o estudante em sua frente, e com as sobrancelhas unidas pela irritação, murmurou entre dentes.

— Eu não vou embora nem por um caralho.

Whitaker tensionou a mandíbula e semicerrou os olhos.

— É isso galera, paciente apagado.

Whitaker soltou os membros adormecidos do paciente na maca, e deu as costas ao namorado, marchando pelo hospital com passos duros.

O estudante não tinha chegando nem mesmo na saída do hospital quando ouviu seu nome sendo gritado pelos corredores.

— Dennis! Dennis! Espera! — O loiro continuou marchando para o lado de fora. Ele abriu a porta de vidro que dava para a rua com força, mas não ouviu ela se fechar.

— Dennis! Dennis Whitaker! — Uma mão grande e calejada alcançou seu bíceps, e o virou para que ele encarasse íris verdes.

— O que você quer? — O homem mais baixo praticamente latiu.

— Você está irritado? Eu quem deveria estar irritado! Aquele homem quase te esfaqueou!

— Você não sabe disso, ele poderia ter feito isso com qualquer um!

— Eu sei disso sim! Eu quem impedi ele de chegar até você! Ele ia abrir um corte feio bem no seu fígado! Você sabe o quão difícil é um transplante de fígado, Dennis?

— Claro que eu sei! Eu também sou médico, sabia? — O rapaz se desvencilhou do aperto leve do outro homem, e continuou andando até uma mureta que havia ali próximo. O estudante se jogou derrotado no chão, com as costas apoiadas nos tijolos vermelhos e a cabeça enterrada nas mãos.

O rapaz ficou ali por um momento, tentando acalmar sua respiração pesada pela adrenalina. Ele pensou que estaria sozinho novamente, quando sentiu uma presença quente se sentar ao seu lado.

— Eu não entendo, você está bravo comigo? — Jack parecia genuinamente confuso.

Whitaker não disse nada, continuou com as mãos escondendo o rosto. E assim eles ficaram por um momento. Ambos em silêncio enquanto se perdiam dentro da própria confusão.

As coisas ali fora eram muito diferente, e Jack só percebia quando se dava o luxo de tirar cinco minutos para respirar, ou quando se arriscava na beira da cobertura do hospital. Mas ele não fazia mais isso há muito tempo, desde que conheceu Dennis ele não sentia mais vontade de ver a cidade por aquele ângulo, ou pelo menos não depois da grade de segurança. Porém Jack não se lembrava de alguma vez já ter tido a chance de ver como era o hospital do lado de fora durante o dia, talvez fosse a primeira vez.

Agora Jack entendia o motivo de Robby chamar o hospital de buraco. Quer dizer, ele já entendia antes, mas agora fazia muito mais sentido. Robby e os outros ficavam presos durante todo o dia dentro daquele prédio, o qual tinha uma entrada um pouco abaixo do nível da rua, e que parecia estar sempre coberto por uma nuvem que nunca deixava os raios de sol chegarem até as janelas do pronto-socorro. Era um lugar naturalmente escuro, todos que entravam ali tinham que se acostumar com a diferença de iluminação do lado de fora para o lado de dentro, e Jack não achava que isso era culpa de má estruturação. Agora, ali ao lado de fora, Jack conseguia apreciar a paisagem bonita que cercava o seu local de trabalho, o veterano realmente não se lembrava que haviam tantas árvores naquela região, e nem que o bairro era tão limpo, ele supôs que a noite esconde esse tipo de beleza mesmo.

O homem encostou a nuca preguiçosamente contra a parede de tijolinhos e encarou o céu limpo. Sem pensar muito, Jack enfiou a mão na gola de sua camiseta e tirou sua dog tag que ficava escondida por baixo de seu uniforme. Ele tinha aquele costume de brincar com aquela plaquinha tão pequena entre seus dedos desde que fora para a guerra pela primeira vez, e então nunca mais conseguiu parar.

O homem fechou os olhos enquanto ouvia o canto dos pássaros que pareciam estar muito longe. Se ele fosse chutar, diria que todos estariam se escondendo no quarteirão de trás para que não tivessem muita proximidade com o hospital. Mas ao contrário deles, as árvores ainda não haviam os abandonados, balançavam suavemente com a brisa e faziam sombra na calçada do pronto-socorro sem preconceito de que eles fossem todos sem salvação.

Se Jack trabalhasse durante dia e soubesse que era privado dessa sensação de paz que morava bem ali ao lado de fora, também chamaria aquele lugar de buraco.

Perdido na sensação de paz com os estímulos ao redor dele, Jack se assustou levemente quando uma mão macia pousou em seu antebraço. Ele abriu os olhos com urgência e virou a cabeça rápido demais para o rapaz ao seu lado.

— Jackie, amor… — Dennis sussurrou suave, o que fez Abbot se imediatamente se inclinar em sua direção como um ímã.

Dennis levou sua mão livre até a bochecha do homem mais velho, e acariciou as olheiras dele com o polegar. Whitaker ainda tinha um olhar cansado, mas sua expressão estava muito mais suave do que há minutos atrás.

— Eu preciso que você vá para casa. — O rapaz sussurrou.

— Denny, bebê… — Jack fechou os olhos.

— Jack, você está esgotado, eu consigo sentir o seu cansaço daqui. — Ele sussurrou contra os lábios do maior. Dane-se se alguém passasse ali e os visse, eles não estavam escondendo de qualquer maneira.

— Eu não posso, eu não posso ir embora e deixar você aí. — Jack engoliu seco. — Você viu o que quase aconteceu? Você viu-

— Eu vi, meu amor, eu estava lá. Mas você não pode ficar de guarda o dia todo, nem um homem forte como você consegue.

Jack riu debochado.

— Ah, Dennis, eu já passei por coisas piores quando eu estava na guerra. Trinta e seis horas de trabalho não são nada para mim.

Dennis encostou suas testas.

— Jackie. — O homem abriu os olhos. — Você não está mais na guerra, você não precisa mais lutar. Não precisa mais se atentar o tempo todo, você está seguro agora. — A voz de Dennis era quase inaudível.

— Claro que eu preciso, se eu não precisasse mais me atentar nós estaríamos agora marcando um transplante para você.

Whitaker riu sem humor.

— Obrigado por me salvar. — Dennis esfregou seus narizes. — Mas se você realmente me ama, você precisa deixar eu me arriscar.

Jack levantou a sobrancelha em questionamento.

— Jack, quando eu escolhi fazer medicina, eu sabia que não ia ser fácil, e eu não queria que fosse. Eu ainda não quero que seja. Meu amor, todos nós corremos perigo aqui, nossas enfermeiras são constantemente agredidas em seus plantões, mas você não as veem com seus maridos grudados em suas pernas em seu expediente de trabalho.

Jack sorriu, deixando seus ombros caírem.

— Jack, por favor, em respeito a mim como profissional, eu preciso que você vá para casa. Senão vou pensar que você acha que sou um médico incompetente, e um adulto disfuncional.

— Não, isso jamais. — Abbot juntou as sobrancelhas.

— Então me deixe trabalhar.

Jack encarou aqueles olhos grandes e carentes, e sentiu seu coração doer. Ele esperava que fosse um infarto.

— E se acontecer de novo?

— Não vai. Mas se acontecer, estarei mais esperto. E se acontecer outra vez, estarei duplamente mais esperto. É assim que adquiro experiência, não é, velhote?

Uma risada retumbou pelo peito de Abbot, o homem não conseguiu disfarçar o grande sorriso orgulhoso que queria desesperadamente aparecer.

— Suponho que sim. — Jack sussurrou uma última vez antes de se inclinar para pressionar suas bocas.

Foi apenas um colar de lábios, Dennis ainda era muito reprimido para fazer algo muito mais além a céu aberto. Mas aquele beijo simples era o suficiente para dizer muitas coisas.

Me desculpe.

Eu te perdoo.

E…

— Eu te amo. — Jack sussurrou quando se separaram.

— Não mais do que eu te amo.

Dennis beijou sua bochecha mais uma vez antes de se levantar.

— Volte para casa e descanse, quando eu voltar eu serei todo seu para você proteger de quem você quiser.

Jack revirou os olhos e sorriu mais uma vez. O homem fez uma menção de se levantar, quando viu o outro levantar as sobrancelhas.

— Onde você vai?

— Buscar minhas coisas para ir embora.

— Não vai não.

Jack já estava meio levantado quando se virou com uma expressão de confusão no rosto.

— Você não entra mais nesse hospital hoje. Fique aqui que eu vou ir buscar suas coisas no armário.

Whitaker se virou e começou a caminhar de volta para o hospital.

— Você nem sabe minha senha!

— Você quem pensa! — Whitaker gritou já distante. — Ahmed, não deixe mais esse senhor entrar no hospital até a madrugada de amanhã.

Jack viu Ahmed assentir obediente.

— Onde você estava quando nós precisávamos? — Abbot quase esbugalhou os olhos de tão indignado.

Ahmed apenas deu de ombros.

Jack bufou irritado. Aquela seria uma longa folga.

 

[…]

Eram em torno de nove da noite quando Jack ouviu a porta da frente ser aberta. Ele já havia se acostumado ao fato de Dennis ter sua própria chave, oras, ele mesmo tinha sido o responsável por aquilo, mas ele ainda não conseguia evitar a tensão que sentia quando seu lado sobrevivente era quem primeiro notava que havia uma outra pessoa tentando entrar em sua casa.

 

O homem estava assistindo seu habitual documentário do Discovery Channel, ele raramente conseguia assistir os melhores programas porque todos os bons passavam de madrugada, por isso ele sempre colocava para gravar antes de sair de casa. Dennis constantemente zombava ele por ainda ter um aparelho de gravar programas, mas Jack sabia que o garoto também odiava perder um programa, e que ele secretamente assistia os documentários todas as noites enquanto Jack não estava em casa. Se ele o questionasse por causa disso, Whitaker se defenderia ferozmente dizendo que não assistia, só ficava no sofá tendo certeza que o aparelho estava gravando os programas corretamente.

Abbot não havia dormido nada durante o dia todo, preocupado como o inferno com seu docinho em meio a pessoas com intenções tão ruins. Ele sabia que estava errado por isso, Whitaker era adulto e sabia o que estava fazendo, mas Jack não conseguia evitar. Ele se sentiu um pouco mal pela situação quando chegou em casa, se sentiu um pouco invasivo com seu namorado, ele com certeza colocaria essa pauta com seu terapeuta em sua próxima consulta.

O barulho de chaves sendo jogadas no potinho de cerâmica ecoou por todo o cômodo. Jack virou o rosto em direção ao homem moribundo que se arrastava como um zumbi em sua direção.

— Boa noite, flor do dia. — Jack disse animado, recebendo apenas um grunhido cansado como resposta.

Whitaker jogou sua mochila no chão e se derramou sobre o corpo do homem mais velho. Instintivamente, Jack abriu os braços para dar espaço para seu namorado se acomodar, e quando o rapaz parecia confortável o suficiente, Abbot circulou sua cintura com os braços e beijou seus cabelos macios.

— Tudo bem? — Abbot sussurrou contra os cachos loiros.

Era uma pergunta retórica, Jack sabia que nada estava bem após um turno de doze horas, mas com muitos anos de terapia, Jack sabia que essas perguntas bobas eram importantes a serem feitas constantemente.

Dennis murmurou coisas inaudíveis contra o peito do namorado, que riu carinhoso como resposta.

— Não consigo te ouvir, bebê. Você quer ir para cama?

Dennis afastou metade da boca da camisa de algodão de Jack e resmungou algo que Abbot acha ter sido “muito cansado”.

Jack riu mais uma vez, e continuou a acariciar os cachos do garoto enquanto assistia o documentário sobre as aranha mais perigosas das Américas que ainda passava na TV.

Mesmo com um Whitaker quase adormecido em seus braços, Jack sentia como se um peso tivesse saído de suas costas agora que sentia suas peles se tocando.

A imaginação fértil e depressiva de Jack havia martelado na cabeça dele o dia todo, todas as formas possíveis que aqueles delinquentes poderiam esfaquear, enforcar ou agredir Dennis de alguma forma, e Jack não estaria lá para poder fazer nada, e se ele recebesse alguma ligação de Robby ou Dana, era porque a situação já estava grave demais.

Abbot sabia que esses pensamentos não eram saudáveis para ele e nem para o relacionamento deles. Ele sabia que era um traço tóxico que estava se desenvolvendo, ou que nunca saiu dele desde que ele deixou os campos de guerra sem uma perna. Mas ele iria resolver isso, ele iria levar isso para o terapeuta dele, e ele seria um namorado melhor.

Mas enquanto isso não acontecia, ele iria se deleitar com a sensação de conforto e alívio de ter o seu amor de volta em seus braços, seguro de qualquer perigo externo. Jack podia sentir a respiração de Whitaker se acalmando lentamente em seus peitos colados, ou pela respiração do rapaz que batia contra seu pescoço. Ele podia sentir seus próprios olhos pesarem, sabia que se não fizesse algo a respeito suas costas acordariam doendo como se tivesse sido atropelado, mas sua prótese estava muito longe para alcançá-la e levar eles para o quarto, e ele estava cansado demais para fazer qualquer coisa senão levar dois dedos no pulso de Whitaker e sentir seu coração batendo na frequência correta.

Dennis estava de volta em casa, e estava em seus braços mais uma vez. Se todos os dias forem assim até o final de seus dias, a vida de Jack Abbot terá valido a pena.