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A chuva caia forte do lado de fora da mansão. Miranda nunca foi uma admiradora dela, mas gostava do silêncio que vinha de brinde.
Naquele noite, Stephen havia levado as meninas para uma festa de pijama, com sua outra e nova família: Scarlett, uma ruiva sem sal e apática e uma garotinha linda, Camilla, apenas dois anos mais nova que suas gêmeas, fruto da relação extraconjugal que mantinha com a ruiva, enquanto ainda era casado com Miranda. Irrelevante e previsível.
Miranda usava apenas uma camisola e um robe, ambos pretos e de seda. Uma taça de vinho nas mãos e uma música baixinha ecoava de fundo. Sentada na poltrona do canto, observava a chuva cair com brutalidade, machucando algumas flores do extenso jardim na entrada. Soltou um suspiro raivoso, imaginando a quantidade exorbitante de barro que teria logo pela manhã, anotando mentalmente a necessidade de podar as árvores.
Não se importava com a solidão que insistiam em dizer que ela tinha, só não pensava o suficiente no assunto, afim de que não se machucaria se não pensasse. Mas, a verdade, é que sempre manteve distância de tudo e todos, os que mais haviam chegado perto do seu verdadeiro eu, eram suas filhas e uma parcela mínima de sua família, nem seus ex-maridos chegaram tão longe.
Sempre teve medo de se entregar e acabar se magoando ainda mais, optando por nem ao menos tentar.
De repente, a campainha toca. Baixa, quase nula.
Ela franze o cenho. Quem seria o impertinente? Já se passava das onze horas.
Decidida a não abrir, ela ignora o som. Se senta de uma maneira mais confortável no sofá, as pernas, totalmente dobradas no acolchoado macio, flexibilidade obtida através do pilates e da yoga, ambas as aulas feitas semanalmente, desde que tinha quinze anos. Também foi adepta ao balé, quando bem pequena, entretanto, nunca foi apaixonada pela dança e, muito menos pelas pontas dos pés machucados em toda santa aula.
Novamente, a campainha toca.
Além de impertinente, a pessoa, com certeza, não teve a educação bem dada. Não é óbvio que quando não é atendida de primeira, ela se torna um incômodo?
E novamente, a maldita campainha toca.
Sem paciência o suficiente de ouvir o som tocar pela quarta vez, ela se levanta. Não se dá nem o trabalho de calçar as pantufas, apenas deixa a taça solta na mesinha de centro, indo de encontro a porta de madeira. Bufa de maneira audível antes de, finalmente, abrir a porta. E o que ela encontra, a deixa surpresa e, levemente, desconfortável pelo pouco uso de roupas.
Sua assistente. Andrea Sachs.
Totalmente encharcada, abraçando o próprio corpo e sentada nos pequenos degraus da escada. O olhar cabisbaixo, nervoso. A roupa colada no corpo, quase transparente.
— Andrea. — Chamou, a voz baixa, perigosa.
Ela levantou os olhos castanhos, cruzando-os com a imensidão do mar azul.
— Miranda. — Pressionou os lábios, respirando fundo.
— Pode me explicar o que significa isso? — Perguntou, se afastando da porta. Um gesto claro para a morena entrar na residência, essa que, em segundos, tirou os saltos molhados da Prada, os deixando no cantinho da porta e entrou, fechando a porta atrás de si.
Andrea apenas a olhava. Seus olhos, mostravam uma variedade de emoções, mas o medo era a mais evidente para Miranda. A respiração falha, resultado da chuva gelada que havia enfrentado nos degraus da escada, os lábios carnudos e vermelhos, tremiam com força. Uma poça de água se formando abaixo da assistente.
— Não vou repetir a pergunta.
Miranda estava parada em sua frente, a expressão rígida. Não tirava os olhos dela nem um por segundo, aguardando de forma impaciente a fala.
— Precisava falar com você. — A voz saiu medrosa e pela primeira vez, abaixou os olhos, sentindo o olhar fulminante da chefe.
— Pensou que seria um ótimo horário para fazer isso? Você já foi mais inteligente, Andrea. — A voz ecoou pelo corredor, tão gelada quanto os pingos de chuva.
— Você não dorme antes da meia noite na sexta — Parecia que a cada palavra, a voz diminuía um décimo — Sabia que ia te encontrar acordada.
— E mesmo assim, achou uma boa ideia? — Miranda suspirou, desacreditada.
Andrea não respondeu. Levantou a cabeça, sentindo os olhos azuis colidirem com os seus. Miranda sabia que ela queria falar, que precisava falar. Mesmo assim, ela era humana, não iria deixar sua subordinada naquele estado deplorável e correndo o risco de adoecer, com isso, disse:
— Você sabe onde fica o banheiro. Tome um banho, se aqueça e escolha um pijama. — Virou-se, caminhando de volta até a poltrona.
— Não há necessidade, — Ela até tentou, mesmo sabendo que não tinha poder nenhum para ir contra a platinada.
— Não foi um pedido, Andrea — Concluiu, levando a taça aos lábios — Se apresse, não tenho a noite toda.
Sachs subiu as escadas quase que correndo, visivelmente aflita. Priestly começava a se preocupar com o que ela tinha para lhe dizer. Andrea pediria demissão, igual quase fez a dois meses atrás, em Paris? Havia cansado da vida de assistente? Havia conseguido uma vaga no Times? Pediria um aumento?
Nada era importante o suficiente para fazer a garota vir à sua casa, no meio da noite. Só se ela fosse louca. Andrea podia ser lenta, mas maluca ela não era.
Em questão de minutos, ela voltou do banheiro. Usava um dos pijamas disponíveis no quarto de hóspedes, meias nos pés e uma pantufa. Como se estivesse em suas própria casa. Aquilo não incomodou a outra, a fez apenas sentir algo no peito, algo que não tinha nome.
— Então — Miranda falou, apontando com a taça para o sofá em sua frente — Vinho?
— Não, obrigada. — Ela mordeu o lábio inferior, os olhos percorrendo as pernas expostas de Priestly.
— Diga-me, Andrea. Qual é o assunto tão importante, que você não pode aguentar dois dias para me dizer? — A frase saiu, em completo sarcasmo.
— Na verdade, aguento há quase um ano. — Sussurrou, fazendo Miranda arquear uma sobrancelha.
— Como é?
— Nada.
Sachs colocou os cotovelos sobre os joelhos, passando as mãos pelo rosto. Um sinal claro de frustração, o que viria a seguir, custaria seu emprego atual e talvez, seus empregos futuros. Sabia muito bem o poder que a chefe tinha nas mãos e aquilo que o sobrenome Priestly carregada consigo.
— Não vai fazer isso — A voz de Miranda saiu baixa, cortante — É ousado demais até pra você.
— Hã? — Ela disse, ainda com o rosto entre as mãos.
— Você não vai vir à minha casa de noite. Me atormentar com o som insuportável da campainha e me dizer que não é nada. — Deixando a taça de vinho de lado, se levantou, parando na frente de Andrea. — Te dou dois minutos, Sachs. Dois.
Tirando o rosto das mãos, Andy a encarou. Frustrada, nervosa e desconfortável, essas eram as três palavras que a definiam naquele momento.
— Eu, — Respirou fundo, olhando para a janela — Eu me apaixonei.
— Desde quando suas relações afetivas são do meu interesse? O que vive, ou deixa de viver fora da Runway, diz respeito a você e somente a você. — Cruzou os braços sob os seios, um bico torto nos lábios rosados.
— Esse é o problema.
Andrea se colocou de pé, poucos centímetros de distância de Miranda. Por ser pouco mais alta, sua boca ficava quase na testa da menor, riu mentalmente por isso. Os corpos tão perto, fizeram ambas tremerem levemente, o calor humano quase mais forte que o frio da chuva, que, aparentemente, havia engrossado ainda mais. Por necessidade, ou talvez, por ousadia, Sachs tocou o rosto da chefe. Os dedos longos fazendo linhas invisíveis pela testa, descendo pelo nariz aquilino, pelas bochechas, pelo queixo e subindo pelos lábios finos e rosados, demorando tempo demais neles.
— Eu me apaixonei por você, Miranda.
Atônita, Priestly nem piscava. Aquela era uma das primeiras vezes que não tinha nenhuma resposta na ponta da língua, nenhum trocadilho ácido. Não tinha nada.
— Você, — Limpou a garganta, tentando recuperar a postura — Você só pode estar de brincadeira com a minha cara.
O mar azul, percorrendo o rosto da mais nova. Os olhos castanhos grandes, expressivos demais, o nariz empinado, as bochechas rosadas, os lábios vermelhos entreabertos, respirando com força demais. Se perdeu no rosto limpo e jovem por segundos que pareciam uma eternidade.
— É a mais pura verdade — A mão de Andy, segurou sua mão, acariciando-a com o polegar — Me diz uma vez que menti pra você. Nunca.
— Isso não faz sentido, e, — Tentou se afastar, sentindo a mão agarrar seu pulso, de forma delicada, quase carinhosa — Solte.
— Pra quê? Pra você fugir de mim? — Ela não soltou, mas também não colocou força, se Miranda realmente tentasse, se soltaria fácil — Você nunca reparou como eu te olho? Como espero ansiosa a sua chegada? Como eu sempre estou lá, mesmo sem você pedir? Como eu nunca reclamo das suas ordens absurdas? Como eu sempre te vejo?
Miranda se manteve calada, absorvendo aquelas informações que pareciam demais para uma noite só. Até teria a pachorra de culpar o vinho, mas duas taças nunca a deixariam aérea. Só não sabia como reagir a aquela investida da assistente.
— Diz pra mim que você não sente nada, e eu saio daqui sem olhar pra trás — Ela estava implorando por uma reação, qualquer uma que fosse — Fala olhando nos meus olhos que não é recíproco, Miranda.
Engolindo em seco, ela fechou os olhos. Nem sentiu sua mão acariciando a de Andy, de forma automática. Não conseguia lembrar em que momento Andrea havia se tornado tão insolente assim, tão direta e tão sincera. Sobre tudo, sobre ela, sobre seu sentimento, sobre Miranda.
— Isso..., Isso definitivamente não é recíproco, Andrea — A voz sempre cortante, saiu baixa, incerta. Os olhos não olhavam diretamente os castanhos — Como pode pensar que seria?
— Olha nos meus olhos e repete isso. — Não foi um pedido, foi uma ordem. A mão solta tocou o queixo de Miranda, forçando-a a olhar para si, recebendo as pálpebras abaixadas, tampando os azuis que ela tanto era apaixonada.
No fundo, Andrea sabia que Miranda mentia. Conhecia ela o suficiente para saber quando mentia, quando sentia dor, quando queria silêncio absoluto, ou, apenas quando queria a companhia confortável da morena.
— Olha pra mim, Miranda, por favor. — Pediu, suplicante.
Como se fosse um imã, Andrea se aproximou ainda mais da platinada, a mão, enrolando sua cintura, colando de forma respeitosa os corpos femininos. Podia sentir os seios dela contra os seus, as roupas eram finais demais, lisas demais. Priestly deixou um suspiro exaurido sair de seus lábios, praguejava mentalmente suas ações a seguir.
— Miranda.
— Não diz mais nada.
Abrindo os olhos, Miranda a encarou e negou com a cabeça, segundos antes de colar os lábios nos de Andrea. Surpresa, soltou um gemido baixo. O beijo foi calmo, delicado e sincero. As mãos de Priestly tocando a nuca de Andrea, enquanto sentia sua cintura ser apertada com devoção.
Sabia que aquele beijo, era um caminho sem volta.
