Work Text:
Entrega-te ao desejo que arde além do corpo e consome o que nem o toque alcança
O badalo do sino reverbera além dos limites do crânio, como se o som não se contentasse em existir fora, precisando atravessar ossos, carne e lembranças. A vibração se espalha por dentro – um tremor que percorre cada espaço onde ainda possa haver algo vivo, algo que responda. É como se a alma fosse arrastada junto, dilatada pelo toque metálico, confundida entre o que sente e o que apenas recorda sentir.
Kemi é repentinamente dominada pelo desejo desordenado de ser adulada, prestigiada, ter seu nome exaltado – ela merece—não. É muito mais. Ela necessita ser bajulada e glorificada.
Dalmo é repentinamente dominado pelo desejo desordenado de ser reconhecido, aplaudido por seu triunfo – ele quase pode sentir o cheiro do poder, da glória e da fama que é estar acima de todos, o êxtase cercando-o.
Jae é repentinamente dominado pelo desejo desordenado da voracidade. Ela sente fome de conquistas, de sabores e posses; sede de tudo o que o mundo oferece. Anseia embriagar-se no consumo, na experiência, na doce vertigem de acumular. Jae sabe que a liberdade tem um gosto delicioso.
Henri é repentinamente dominado pelo desejo desordenado de ser adorado e apreciado, de viver apenas para o próprio prazer e vaidade – recomeçar. É a sua maior fantasia. A mais impura, corrupta, sangrenta, volúpia—
Labirinto é repentinamente dominado pelo desejo desordenado de ver além do que lhe é dado. Tudo o que seus olhos tocam se torna promessa de posse, reflexo de poder; imagens e miragens, onde cada forma o seduz, cada brilho o engana. Mas ele sabe que por mais que a cobiça seja tentadora, a resposta está no fim do labirinto.
Aguiar é repentinamente dominado pelo desejo desordenado de tocar, controlar e ferir. Precisa sentir o mundo afundar sob suas mãos. Almeja a submissão no outro enquanto o instinto o governa, selvagem e cego, até que o prazer da perversão de sua autoridade se confunda com a dor que inflige
Por um instante, o silêncio que vem depois parece mais pesado que o som, e eles não sabem se o que pulsa é o coração, o medo ou a lembrança de terem sido inteiros. Agora, qual alma vibra ali – se a de um, do outro, ou de ambos – já não há como saber.
Ainda assim, ninguém diz nada.
