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Insidioso

Summary:

Por anos incontáveis Hornet tinha desaprendido a dar nome a esse sentimento tão suprimido e punido por sua história. Porém, um pesadelo atormentado e uma visita da cartógrafa a fazem perceber o que sua maturidade se recusava a entender. Ignorar um sentimento não o faz ir embora.

Notes:

O pesadelo da Hornet foi inspirado em uma fanart de partir o coração de usuárie momoiiroo no Tumblr.

A tag Mature está aí porque acho que posso considerar que temos uma cena de sexo, embora não seja tão explícita ou longa - a maior parte do texto é diálogo e carinhos. Queria explorar essa forma nova de discutir a relação delas, porque já pensei em umas 10 diferentes! Elas me fascinam. Localizada no Ato 3, mas não acredito que é um spoiler grande. Algumas traduções, eu tomei a liberdade de mudar para adequar ao meu estilo de escrita.

Uma boa leitura e deixe um comentário!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O sono de um inseto raramente era profundo o suficiente para que pudesse ser sequestrado por pesadelos. Nas raras vezes em que se deixava estar tão vulnerável, cenas pinceladas pela própria consciência conseguiam perfurar a carapaça de Hornet. Nestes momentos, era violentamente despertada por máscaras e figuras abandonadas no passado, por inocentes abatidos por sua agulha, pelas memórias dos que a geraram. Um reino onde, majoritariamente, habitavam os mortos e condenados. Com uma rara e recente exceção.

O corpo da aranha, endurecido pela caça e pelas atribulações da mente, estranhava a suavidade dos lençóis de uma cama, de um lugar propriamente voltado ao descanso. A forma que o leito se amolecia e se adaptava ao seu peso ainda a incomodava, encontrando suavidade em vez da resistência do chão embaixo de si. Encontrando calor em vez de frio irredutível. Hornet não se sentia no próprio corpo semi-divino deitando para dormir e encontrando pesadelos, em vez do sono seco e supérfluo de um inseto.

Naquele dia, a mente da semideusa a castigou com a imagem do corpo de uma vespa, pacificamente adormecida, abatida contra frias pedras. Seu corpo longilíneo jazia encolhido, como se dormisse de bruços, suas antenas escorridas por suas curvas e serpenteando sobre sua armadura dourada. Os grossos anéis que antes anunciavam sua presença e eram empunhados em batalha, espalhados pelo chão. A vespa tinha a carapaça escurecida, maculada pela tormenta, olhos como poços de negrume, porém abertos, engolindo a alma de Hornet. O estrondo do choque de seus anéis dourados ainda ecoava em seus ouvidos. Hornet estava capturada pela visão da morte vindo encontrar a cartógrafa Shakra por sua própria agulha, como a única forma de libertá-la.

Nestes pesadelos, a tecelã batalhava controlada por outra mente, outra que não a dela, a mente de uma caçadora sem história, sem palavras, sem dor ou alegria. A voz antes cálida da amazona soava desfigurada por dor e agonia quando a pouca vida que lhe restava ia embora. E quando isso acontecia, o corpo esguio e alto da vespa caía como se nada pesasse aos seus pés. Hornet era engolida por um silêncio canino, comendo sua seda e sua alma por dentro. Tentava tomar o corpo da amazona nos braços, mas eles derretiam e não a obedeciam. Estendia as garras para tocar a máscara enegrecida de Shakra e seu rosto se distorcia, roubando-a de sua despedida e sua memória. Hornet despertava com o corpo quente e alerta, se concentrando em cada lamparina e cada objeto de sua casa até o pânico irracional se dissipar. Era a terceira vez que a cena era revivida em seu sono. Como iria lutar contra um inimigo que não se anunciava e chegava por dentro de sua máscara? Ofegante, recuperou a capa vermelha e concentrou-se em organizar a sua escrivaninha, cheia de pinos e artefatos espalhados.

Não moveu nem mesmo uma ferramenta de lugar antes de ouvir três toques em sua porta, seguidos de uma voz que a carregou diretamente de volta para o pesadelo lúgubre que lhe perturbou o descanso.

— Garota da agulha! — Shakra cantou abafada pela porta — nosso último encontro já me é distante. Venho visitar.

Hornet nem mesmo a respondeu antes de se apressar até a porta, imaginando a vespa viva, de pé, com olhos afiados, como se a qualquer momento fossem se degladiar por diversão. Pensava em como aquela visão ajudaria a apagar as cenas de seu pesadelo mórbido.

Ao abrir a porta, de alguma forma, Shakra estava mais exuberante que a sua memória. As sinuosas antenas se alinhavam presas confortavelmente uma a outra, com um novo enfeite azulado e brilhante, iluminando ainda mais o dourado da armadura da amazona. Hornet precisou se conter para não suspirar aliviada ao vê-la, para não estender as garras e tocá-la, como sempre lhe era negado em seu pesadelo.

— Shakra — cumprimentou, resquícios de calor escapando pela voz — de fato, não nos encontramos há muito tempo.

Como de costume, a vespa se abaixou para ficarem na mesma altura, um chiste que ela fazia com todos de menor estatura que ela. De perto, sua figura era ainda mais impressionante. Pequenos arranhões pontuavam sua máscara branca e sua armadura, mostrando por onde ela havia passado. O cheiro metálico da presença de Shakra lhe invadiu os sentidos. A vespa inclinou analítica a cabeça e também perscrutou a figura de Hornet, tomando nota se a passagem do tempo também havia lhe trazido mudanças, ou se estava a mesma tecelã que encontrara da última vez.

— Se me permite, garota da agulha, você parece cansada. Me pergunto se tem tido oportunidade de repousar sua carapaça e a sua mente — ela advertiu, diminuindo a voz.

Entrelaçada entre o horror de seu pesadelo e o calor da presença da amazona, Hornet precisou se concentrar para entender por onde começar a falar. Não se percebia cansada de forma alguma. Se percebia empurrada pelo dever de reconstruir e destrinchar aquelas terras, em uma prolongada pausa pela Campânula. Resistiu até mesmo contra o estabelecimento do próprio lar, porém, logo percebeu que, estrategicamente, ter um local dedicado ao repouso e ao armazenamento de suas ferramentas iria lhe ajudar em vez de atrasar. Sim, percebia que às vezes a agulha em batalha parecia mais pesada. Ou que a esquiva de um golpe acontecia milissegundos após o que ela imaginava. No entanto, cansada? Hornet não sabia se já havia se sentido de verdade dessa forma. A consciência lhe era roubada quando caía em desvantagem em alguma luta contra um inseto infeliz, sim. Mas para haver cansaço, faltava paz. E embora Hornet tivesse vivido anos incontáveis, era capaz de contar conscientemente os anos de paz.

— Estas terras não vão se reconstruir sozinhas. Em adição a isso, estou em débito com você de notas sobre explorações passadas. Não me esqueci — assegurou — por favor entre, e conheça onde tenho passado meus dias.

Foi pelo olhar atento de Shakra que ela percebeu que a amazona não tinha se dado por satisfeita com a resposta. Deixou a passagem livre para a vespa entrar em seu lar temporário. Seus sentidos se deleitaram no som de seus adornos em movimento e no cheiro suave de de ferro e chama que emanava da carapaça da amazona. A luz amarelada das lamparinas parecia ter sido feita especialmente para dançar no corpo dela. Talvez, Hornet tivesse olhado para cima por tempo demais, até que Shakra ocupasse a cadeira de seu escritório.

— É impressionante, garota da agulha — mas esta casa ainda precisa carregar mais de você. Ainda não vejo muitos sinais da sua própria presença.

Com sua casa pensada para um único inseto, Hornet sentou na beira da própria cama, ainda formalmente tensa e analisando cada passo da visitante. Seu lar passageiro não recebia muitas visitas.

— Não pretendo me demorar aqui. Descobri muitas vantagens em ter um lugar como esse, mas tudo que preciso fazer por Fiarlongo, precisa ser feito fora dessas paredes — lamentou, passando despretensiosamente as garras pela barra da capa vermelha.

Shakra já estava muito mais a vontade que ela própria, se debruçando no encosto de sua cadeira e cruzando as longas pernas. O móvel, tão confortável para a figura de Hornet, parecia de brinquedo quando usado pela amazona.

— Faço recomendação que fique o tanto que precisar. Você só chegará onde precisa se souber fazer paradas pelo caminho, garota da agulha — ela pediu suavemente — e, preciso dizer, também me agrada muito encontra-la pelo acaso, fora das paredes desta casa, e observá-la em batalha.

Hornet não estava travando nenhuma batalha agora, mas o calor que crepitava por sua carapaça se recusava a ceder.

— Você entende que é da minha natureza — declarou a caçadora — é de nossa natureza. Você foi movida por alguma coisa quando deixou a sua tribo para nunca mais voltar. Temos isso em comum.

Hornet já sabia, após tantos encontros, reconhecer um sorriso por trás da máscara da vespa.

— Precisamente por isso que estimo tanto quando cruzo caminhos com você. Encontro e sou encurralada por tantos insetos perdidos, em perigo, tomados pela maldição, inertes, se lançando à morte — ela lamentou — nascemos em cantos tão opostos do mundo e do tempo, e sou entendida por você com facilidade, Hornet.

Cada pedaço de seu nome que caiu das mandíbulas da vespa preencheu seus ouvidos, pesada e longamente, seguidos pela morbidade da lembrança de seu pesadelo.

— E o que traz você de um desses cantos de volta para a Campânula e até o meu lar? Este foi mais um encontro do acaso? — questionou, parte para si mesma — mesmo você tendo estabelecido acampamento aqui, não tenho a visto.

—Estive ocupada em alguns lugares entre aqui e a Cidadela, mas cheguei a um ponto do meu registro em que preciso das suas anotações. E, como disse mais cedo, soube que era o momento de repousar e afiar meus sentidos, amolecer minha carapaça com o néctar de Creige… — uma ínfima risada coloriu seu relato — preferi fazer isso perto de rostos familiares.

Como um fio tensionado de seda que a qualquer momento iria se partir, Hornet a qualquer momento falaria de seu pesadelo absurdo. Limitava as próprias palavras para ter tempo de medi-las e não ceder. Mas por algum motivo, perto de Shakra, todos os seus limites eram consideravelmente mais curtos, todas as cordas mais frágeis, e seus pensamentos, mais levianos.

— Não posso oferecer o néctar, mas tenho as anotações que você precisa — levantou-se apressadamente da cama para o escritório, tentando manter a distância de Shakra — vamos a isso, para eu não desperdiçar seu tempo.

— Garota da agulha — ela anunciou, a voz mais baixa que seu normal, quase um sussurro — nenhum momento na sua presença é desperdiçado. — ela garantiu como se nada fosse, as garras ocupadas em abrir os papéis que Hornet a entregou.

Era sempre assim com ela, como se nada fosse. O contraste de seus mundos também era um contraste do peso das palavras, dos toques. Assim como lhe era estranho o toque do colchão suave e de lençóis, o calor das águas termais, também chegava com estranheza a ternura sem delongas da vespa. Seus vários convites para dormir ao seu lado em passagem por algum acampamento, e para velar seu descanso, sem pedir nada em troca, sem longas conversas, sem Hornet ao mesmo merecer. Pousos pueris de suas garras sobre seus ombros pesados. Palavras que a aranha não ouvia e nem sabia mais reconhecer saíam de suas mandíbulas e nunca cobravam retorno. Tinha conhecido a intimidade com a vespa por meio de batalhas e treinos uma com a outra, e foi aí que aprendeu a se acostumar e a buscar o corpo que tanto a fascinava e permeava seus pensamentos, ausente ou presente. O fascínio vinha por ternura, por curiosidade, por admiração e, finalmente, pelo terror de perde-la. Seu costume com a perda transformava ternura em uma contagem regressiva para o sofrimento e o desespero, como aquele pesadelo não cansava de lembrar a tecelã. Hornet tinha vivido o suficiente para saber que não poderia ter uma coisa sem ter a outra.

Passaram horas se debruçando e discutindo as notas que Hornet tinha tomado sobre diversos salões, montanhas, passagens e cavernas que tinha perpassado, e Shakra brevemente elogiou a precisão do material que tinha lhe trazido. Ela já debruçava preguiçosamente a figura esguia sobre a mesa e confabulava dando voltas confusas, os olhos ameaçando vacilar. Shakra tinha estado tão preocupada com o cansaço de Hornet, enquanto ela mesma parecia precisar de repouso.

— Se eu te levasse de volta para a minha tribo, garota da agulha, você poderia ter ensinado minha mentora a não se perder — ela elogiou, a voz amendoada se arrastando nas palavras.

— É só uma fração do que você é capaz — Hornet tentou devolver, mas já falava para uma vespa adormecida sobre a mesa.

Bastou um breve momento de silêncio para que sua alma afundasse em medo, um sentimento inútil para uma caçadora. Quase ressentia Shakra por trazer de volta para ela coisas que já tinha há muito tempo sufocado no fundo de sua seda. A visão das antenas da amazona escorridas por seu corpo quiescente era a mesma de seu pesadelo. Suas pernas quiseram vagar pela casa sem rumo, mas nunca encontravam satisfação. Recorreu ao descanso nas águas borbulhantes que mantia no segundo andar de casa, mas seu corpo estava em uma nação e a água em outra. Nada aquietava a urgência que a movia como uma marionete, e se tivesse para onde, Hornet correria até aquela sensação passar.

Por fim, em uma derrota para o próprio desespero, culposamente, despertou a amazona com um toque casto em suas costas. Shakra voltou a si alarmada, quase sem saber que havia dormido.

— Perdão! — ela pediu, se levantando apressadamente — Cobrei que você fosse descansar, e adormeci sobre a sua mesa. Peço desculpas.

Com a mente tão desordenada, mal havia acendido as luzes, e um crepúsculo as separava. Pode ter sido a ausência de luz que a protegeu e encorajou. Se não se livrasse imediatamente daquela prisão imaginária, Hornet não conseguiria nem ao mesmo levantar a própria agulha. Suas mandíbulas quase coçavam querendo falar todas as palavras já registradas, abrir um caleidoscópio para sua mente e dizer tudo que a presença de Shakra estava lhe causando. Na falta de palavras decentes, precisou recorrer à pobre literalidade.

— Tenho tido pesadelos com a tormenta, Shakra — ela cuspiu, evitando os olhos da vespa — tenho tido pesadelos onde você sucumbe. Um pesadelo irracional. Se repete toda vez que você retorna. Não sei se lhe agradeço por vir me visitar e me relembrar que você vive, ou se me preocupo com este estado de alerta que a sua presença me traz. Daria tudo para que esse pesadelo nunca mais se repetisse.

Hornet recorreu a encarar a abóbada elaborada da casa Campanária, fixando-se onde cada segmento convergia em um ponto. Nenhum combate era mais desafiador do que se colocar daquela forma, especialmente em frente a outra guerreira.

Sentiu um toque elétrico puxar sua máscara gentilmente de volta. A amazona queria vê-la, olho no olho. Shakra a encarou por um momento, antes de se abaixar para inundar seu espaço com a própria presença.

— Em outras circunstâncias, eu poderia me ofender e dizer que estou sendo subestimada. Porém falamos de um inimigo insidioso, um inimigo da mente — Shakra lamentou — eu não diria que seu medo é irracional, garota da agulha.

Hornet suspirou, a ponta de garra da vespa repousando em sua máscara. Queimava como a ponta de um fósforo, assim como qualquer toque dela nos últimos dias.

— Eu tanto lutei, Shakra. E ainda me vejo cercada por algo, como você diz, insidioso. Traiçoeiro. Escorregadio e imprevisível. Eu lamentei imensamente tantos que se perderam para a tormenta — Hornet lamuriou quase sussurrando — e me sinto, honestamente, enfraquecida por sequer gastar tempo em tamanha lamentação.

— Tempos atrás, eu concordaria com você. Porém… — ela brevemente desviou o olhar para analisar sua casa, quase querendo relembrar como era o mundo lá fora — eu vi muito desde que cheguei aqui. A força e a fraqueza de um inseto vem de outros lugares além da sua capacidade em batalha. E não acho que temer que um mal que já levou tantos, me leve também, é uma fraqueza sua. Tive provas de sua força.

Hornet suspirou lamentosa, sem saber onde pousar os olhos.

— De que jeito posso tirar esta visão de sua mente, garota da agulha? Não responda que quer que me afaste. O que você precisa de mim? — Shakra inquiriu sem hesitar, a ponta de uma garra insistente em seu queixo, para que não desviasse o olhar.

O que Hornet precisava de Shakra não podia ser explicado com palavras. Talvez seu corpo tivesse se condicionado a ignorar e desfigurar esse sentimento, travestindo-o em uma mera inquietude. Após incontáveis anos sem experimentar a companhia e o corpo de outro inseto, o que ela sentia tinha perdido até mesmo o nome.

Sem resposta sobre o que Hornet precisava, as garras de Shakra envolveram seus ombros e seu tórax, a pressão gentil esmagando as defesas da tecelã. Seu olhar determinado não se daria por satisfeito com o silêncio. Hornet pensou em uma miríade de respostas. Ela não era mais jovem e boba, sabia exatamente do que precisava de Shakra. E, pior, sabia que ela lhe daria sem hesitar. E que iria pedir de novo, iria pedir toda vez que ela batesse à sua porta, caçaria aquilo de novo quantas vezes o corpo lhe permitisse. A fome em suas mandíbulas não a deixaria dormir.

— Me deixe tocar você — deu dois passos para a frente, sua máscara alongada quase encontrando a perdição que a esperava à frente — eu não consigo te tocar neste pesadelo, nunca. Seu corpo vira areia e escorre por minha garras. Deixe que eu toque você, eu te peço.

— Se é o seu desejo — a vespa anuiu, o traço de um sorriso na fala.

Shakra tomou delicadamente uma de suas garras como se fosse feita de vidro, e levou à própria máscara, aos próprios ombros. A vespa se deleitou nas garras de Hornet e as direcionou por onde alcançasse, fosse armadura, fosse a carapaça negra, fossem as próprias mandíbulas quentes, fossem os anéis pesados que adornavam os membros. A tecelã tomou nota de cada textura, de cada temperatura, e que alívio era ver que eram vivas, pulsantes, quentes, e que puxavam suspiros da outra. Plenamente viva e consciente, a vespa roçou a cabeça contra sua garra, fechando os olhos como se ouvisse música por elas.

— Veja você mesma que estou viva— ela soprou, fazendo a mente de Hornet escaldar.

Montanhas no ar da casa campanária se moveram quando a Hornet imitou seu gesto, tomando uma garra crescida da vespa e fazendo-a tocar sua máscara, suas mandíbulas, seu pescoço, os pêlos eriçados de aranha que permeavam suas juntas, a gola de sua capa. O frio do metal dos anéis contra sua carapaça e os suspiros carregados de Shakra fizeram sua cabeça girar e as pernas vacilarem. A mão livre da amazona, como se nada fosse, a puxou para mais perto. Tocá-la não era mais suficiente. Precisava estar em cada canto de seu corpo e que ela tomasse posse de cada placa, pêlo e sensbilidade de sua casca, sentia as mandíbulas aguarem em desespero. Pousou as pontas dos dentes no pescoço da amazona, se demorou em guardar seu gosto.

— Vê, garota da agulha? Basta pedir — a vespa advertiu — eu nem ao mesmo pedi e estou tendo o que eu desejo.

Hornet precisou apoiar-se nos ombros largos da amazona, com as pernas lhe faltando.

— O que… — um suspiro entre os dentes — o que você desejou?

Sentiu seu peso ser levantado do chão e seus instintos quiseram protestar, mas a aranha sabia que não devia e não teria forças. Se deixou encaixar nos braços esguios da vespa, que a levaram de volta para a cama, ainda bagunçada por seu sono inquieto. Shakra se espalhou pelos lençóis, deixando Hornet sobre seu corpo, fazendo sua cama parecer tão pequena. Nada tinha lhe preparado para o toque de suas pernas diretamente com a carapaça quente da outra, nem mesmo parceiros de outras vidas. Ainda esperando resposta para sua pergunta, se curvou e se apoiou sobre o corpo agitado da vespa, plantando um beijo em seu peito, e outro em seu queixo.

— Eu desejei exatamente o que estamos fazendo agora — Shakra confessou, dedilhando suas costas — eu desejei o mesmo que você. Tocá-la. Ver o que seu corpo e sua voz fazem quando não estão em luta, mas sim relaxados. Tenho certeza que não fui a única.

— Alguns insetos tentaram — revelou, pousando sobre Shakra, uma mão se apoiando em seu peito.

Garras exploraram suas pernas, ventre, quadris, testando as águas de onde Hornet quebraria. Com a cartográfa, não precisava de muito para quebrar. Ela pressionava seu corpo gentilmente procurando seus pontos fracos, e onde uma garra pressionava outra lhe acariciava, desmontando suas defesas. Um raio correu por seu corpo inteiro quando a vespa finalmente encontrou o que procurava. Sua ascendência lhe dava uma trilha de pelos grossos e sensíveis pelas costas, que aguçavam seus sentidos. Em batalha, a ajudavam a sentir vibrações mínimas e prever aproximações inimigas onde os olhos não viam. Sendo essas cerdas tão sensíveis, o toque das garras curiosas de Shakra a fez estremecer violentamente, expulsando um gemido arranhado. Tomando nota de sua reação, os toques desaceleraram, derretendo em carícias breves.

Hornet procurou palavras e não encontrou, nada no mundo que não fosse Shakra não encontrava espaço em sua cabeça. Queria a voz de metal derretido da amazona em seus ouvidos outra, e outra, e outra vez. E perto, e em todo o seu alcance. Deitou-se para repousar a máscara entre seu pescoço e seu ombro, onde sentia a vitalidade da vespa pulsar.

— Como tudo que é raro, você é deslumbrante — uma garra dedilhou a gola de sua capa, tocando seu pescoço — em batalha, sua dança, sua seda. Como estava preocupada em honrar você e dar o meu melhor, eu podia pouco olhar. Menos ainda tocar. Mas isso não me impediu de ficar impressionada.

Suas cerdas estavam encrispadas como fios desencapados, descarregando energia por seu corpo a cada pouso das garras de Shakra. Cada toque arrancava gemidos baixos e agudos, vibrando sua garganta. O fecho de sua capa grená se desfez, e as garras de Shakra ficaram dedicadas a acariciar aquela parte tão sensível e secreta de seu corpo, reclusa no meio das escápulas, mas agora, obscenamente exposta. A amazona deve ter sentido sua respiração cavalar e ficar mais pesada, e manteve um ritmo, acompanhando atenta suas reações.

— Eu estaria mentindo se…. se dissesse que meu pesadelo foi a única vez que sonhei com você — Hornet confessou com a voz quebrada, a máscara confortavelmente aninhada nos ombros da vespa — eu tive sonhos bons com você, também. Nas poucas vezes em que dormi.

Um riso satisfeito se derramou das mandíbulas de Shakra.

— Não era necessário ficar sonhando tanto tempo — um beijo em sua máscara, quente, vivo — você quer me dizer o que acontece se eu continuar te tocando nesse lugar, ou quer que eu descubra sozinha? — a vespa provocou, e cada vibração de sua voz tomou posse da mente de Hornet.

— Você é uma exploradora — gracejou do fundo da garganta, saliva quente escapando pelos dentes — sei que você sabe onde isso termina.

Voltou a se deitar inteira sobre ela, fixada em um transe regido pela respiração da amazona. Suas mandíbulas se partiram contra o pescoço de Shakra, flertando com uma mordida. O gosto metálico e amargo dos pontos de carne perdidos entre a carapaça dura encheram sua língua. Deslizou e se deleitou no que foi encontrando pelo caminho, e um rosnado obsceno da vespa vibrou contra sua máscara, fazendo Hornet arquear as costas em reflexo.

Os toques antes suaves sobre a trilha de pêlos que corria por suas costas viraram escovadas firmes, tufos sendo tomados entre as garras da cartográfa. Ondas longas e serenas de prazer viraram aos poucos uma torrente sufocante, fazendo seu corpo se retorcer sobre o de Shakra e sua mente virar vapor. Um arrepio apertou seus músculos, e teve que abafar um choro esganiçado no pescoço da amazona.

— Sobreviverei à sua mordida se eu continuar até o final, Hornet? — a vespa provocou.

Hornet engoliu uma lufada apressada de ar, e sem perceber, seu corpo buscava contato onde podia com o corpo de Shakra, roçando os quadris contra os dela, eliminando qualquer centímetro que ousasse separá-las. Era o que Hornet desejava desde a primeira vez que a viu, mas antes de pensar isso, outros tormentos muito mais imediatos passavam na frente. Percebendo que sua capa desabotoada ainda separava as duas, agressivamente a arrancou do meio de seus corpos e jogou o tecido para longe. Pairou sobre Shakra usando a ínfima consciência que ainda tinha para ver e guardar como era sua máscara tomada por luxúria, uma expressão que ela ainda não conhecia.

— Estou certa de que você já sobreviveu a coisas piores que a minha mordida — garantiu, bebendo da sensação nova de te-la contra o seu corpo, sem a interferência da própria capa.

— É um risco que posso assumir pela recompensa.

Uma garra longa da outra agarrou seu queixo e pediu espaço por entre suas presas, e a aranha precisou se concentrar para não usar força contra ela. A amálgama de seus instintos de caça e de desejo se misturando tornava impossível pensar, era quase pacífico ser tão dominada pelo próprio corpo e quase nada dominada pela mente. Uma garra embebida em saliva correu bruscamente por suas cerdas enquanto outra as apertou, os braços da cartógrafa como gaiolas contendo seus membros à beira do descontrole. Quando um espasmo violento estremeceu cada junta do corpo da tecelã, bastou uma perna para contê-la.

— Eu sei onde você está indo, garotinha da agulha — ela floreou.

Hornet não foi capaz de palavras. Uma súplica patética e lamuriosa encheu o quarto e ela agarrou os ombros musculosos da amazona, tentando dar vazão ao que estava lhe comendo por dentro, como se quisesse se segurar numa queda. Shakra não lhe dava tempo para respirar naquela carícia agressiva da parte mais sensível de seu corpo, e tudo que Hornet queria era que ela não parasse. Seria capaz de fatalmente cravar as presas no pescoço de Shakra se ela tentasse parar. Até mesmo a visão estava começando a ficar tunelada, turva, quando soube que estava perto do clímax.

— Não segure nada. Você sabe que eu consigo suportar — a vespa rosnou, assertivamente.

A voz que preenchia tão deliciosamente os sentidos de Hornet foi sua gota d'água. Sentiu a própria força primeiro esmagadora e depois como uma onda leve quando chegou ao clímax, suplicando sem perceber o nome da cartográfa.

Em espasmos deliriosos, seus sentidos sentidos foram retornando. Visão, a máscara da amazona entrelaçando fascínio e cautela embaixo dela; audição, ouvindo a própria respiração em estrondos desproporcionais; e por fim tato e paladar, quando sentiu as presas cheias de algo rígido como pedra pressionando suas arcadas, uma dor insuportável perturbando seu prazer. O gosto não era de carne, mas sim de metal. Hornet demorou o que pareceram horas para entender que estava abocanhando os anéis que envolviam o braço de Shakra, em uma manobra defensiva da vespa, protegendo-se com o membro. A tecelã retraiu-se imediatamente percebendo o que havia feito, ainda tonta pelo orgasmo há muito tempo dormente.

— S-Shakra… eu peço perdão — murmurou, massageando o prróprio queixo — eu não percebi. Se passou tempo demais desde a última vez que me deitei com outro inseto. Eu… não estou mais acostumada.

Uma risada quase parental escapou da boca da vespa, que acariciou suas pernas trêmulas.

— Eu não digo o que não tenho certeza, garota da agulha. Eu disse que conseguia suportar — ela reafirmou.

— É um resquício peculiar da minha ascendência que tento suprimir — lamentou, saindo do topo do corpo da vespa para sentar-se na cama ao seu lado.

— Sua ascendência é parte do seu orgulho, não? — Shakra desembaraçou e ajustou as próprias antenas, mexendo no enfeite recém colocado — não poderia me chamar de sua amante se te pedisse para abrir mão disso.

Mesmo no estado atordoado em que se encontrava, a nova alcunha ainda fez a respiração de Hornet pular um tempo.

— Amante? — ela silvou, curiosa.

De pé, Shakra se ergueu ao seu lado, obrigando Hornet a olhar para cima novamente.

— Não deseja que eu te chame dessa forma? Esta palavra não exige nada que já não temos. Nem mesmo que você permaneça ao meu lado, pois sei quem você é. Uma caçadora. E eu não sou sua única presa — ela assegurou, a ponta de uma garra tracejando as curvas precisas da máscara da aranha.

Tudo na natureza de Hornet dizia para recusar aquela alcunha de amante. E sabia até mesmo que, se recusasse, Shakra pouco se importaria, e continuaria ao seu lado. Porém, a recusa de um nome não apagaria o que sentia por causa dela, não apagaria nada, seria apenas uma formalidade. Recusaria a alcunha de amante continuando a se perder na voz amendoada da amazona e sonhar com sua presença. E nada mudaria.

— Chamarei a você de amante da próxima vez que isso se repetir — prometeu — mas eu não posso prometer que chamarei sempre. Em meu longo tempo de vida chamei muitos parceiros de amantes e chorei suas mortes, as mortes de sua cria, e da cria de sua cria, até nada restar de quem eu amei. Em algum momento, meus olhos e minhas palavras de amor secaram. Tenho dúvidas se tenho algo para te oferecer além… além disso.

A cartográfa permaneceu de pé, estendendo uma garra para Hornet, querendo encurtar a distância entre seus corpos outra vez. Hesitante, resolveu aceitar — tanto havia pedido para tocá-la, que seria rude recusar a sua mão.

— Você me trouxe calor nas entranhas mais hostis de Fiarlongo, me trouxe de volta para o descanso final de minha mestra. Me concedeu a raridade de tê-la nos braços, o que assumo que não acontece nem a mim nem a você há muito tempo. O que você diz não ter para me dar, me parece absolutamente real — ela tranquilizou — você tem jeito com as palavras, mas eu não preciso delas agora. E quando vierem, estarei aberta a ouvir.

Assim, esgotada de palavras, Hornet meramente anuiu. Talvez a ascendência guerreira de Shakra valorizasse muito mais o que diz o corpo do que as palavras, no fim das contas.

Shakra flutuou pela casa consertando as pequenas bagunças que as duas fizeram, recolhendo cuidadosamente sua capa vermelha e trazendo-a de volta para Hornet. Até mesmo gesticulou para coloca-la de volta. Hornet não precisava, mas com os membros ainda tão relaxados, aceitou a ajuda.

Garras habilidosas ajustaram sua capa e eliminaram algumas dobras por trás dela. Hornet quis que sua capa tivesse botões infinitos.

— Como você chamaria isso, Shakra? — indagou, ainda de costas para a vespa.

— Ainda em busca de palavras, garota da agulha? — ela riu, acariciando os chifres de Hornet.

Hornet se perguntou se em sua expectativa de vida inestimável e divina, ainda restava tempo para lhe dar palavras. Se Shakra esperaria mesmo esse tempo. Se Fiarlongo esperaria antes de arrancá-la de seus braços e lhe dar mais uma morte para chorar e mais uma marcha fúnebre para nascer de seu agulino. Sem resposta para sua pergunta, virou-se para Shakra e buscou a boca da amazona para um beijo, esperando que assim, ela sentisse a impressão de suas palavras não ditas.

Separaram-se ainda hesitantes, Hornet evitando o olhar da vespa, com medo do que estaria lhe dizendo sem falar.

— Não vou a lugar nenhum. Tome seu tempo — ela garantiu, gentilmente puxando Hornet pelos ombros para que deitasse de novo.

E assim ela o fez, se aconchegando no colo da cartográfa. Ao menos assim, lhe era mais garantido o direito ao silêncio. E a tecelã permaneceria neste silêncio até entender como chamaria Shakra de amante. Como diria a ela que estava começando a preferir, indubitavelmente, uma vida inteira chorando em seu túmulo de saudades, a negar o que a alma estava lhe pedindo.

Notes:

eu sou a primeira da minha árvore genealógica a escrever uma fanfic de Hollow Knight Silksong inspirada por uma música da Maria Betânia.

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