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Subjetivo

Summary:

Onde Ricardo quer dar um passo mais íntimo em seu relacionamento
ou
Onde Leandro é assexual e não sente a necessidade ou vontade de tornar a relação mais íntima do que já é, mas tem medo do namorado não gostar

Notes:

História originalmente postada no formato de AU no twitter (@sochaewry) e no wattpad (@mimi-suu)

Essa é minha queridinha, espero que gostem! <3

Work Text:

Leandro adora ser mimado pelo namorado. Receber beijinhos e carícias enquanto se vê envolvido em seus braços era o seu céu.

Ricardo adora mimar o namorado. Observar suas bochechas ficarem vermelhas com cada carinho enquanto o tem junto a si era o seu paraíso.

A imagem de ser uma pessoa fria, distante, sempre tão reclusa e isolada, anda lado a lado com o moreno. Cercado de olhares cheios de julgamento, as pessoas perguntam-se como um cara desses namora um dos garotos mais gentis da universidade. Invejam-no por ter o coração daquele que é cobiçado por muitos, o "atleta gatinho". Apesar disso, mal sabem que, entre quatro paredes, os mais belos sorrisos e as mais deliciosas risadas são esboçadas pelo "emo rabugento".

As pessoas custam a aceitar que não conhecem ninguém além do que são permitidas ver. De até onde são permitidas chegar. E tiram conclusões baseadas no pouco que sabem, muitas vezes se negando a saber o todo.

Na mente dessas pessoas, Leandro possivelmente estaria sentado em um quarto escuro, retocando o esmalte preto em suas unhas. Mas, na verdade, neste momento sua risada ecoa alta pela cozinha de Ricardo, que o detêm jogado por cima do ombro, como quem carrega sacos de batatas.

Em meio a risos e movimentos bruscos na tentativa de se soltar, reclamações nada sérias são ouvidas.

— Me coloca no chão, Roberto! 

— Ou? — riu, balançando-o e fazendo cócegas em seus pés descalços, causando mais risadas.

Continuou se debatendo, quase perdendo as forças de tanto rir. Estava reclamando, é claro, não podia perder sua "pose de mau", mesmo na presença do namorado. Mas, a verdade é que estava adorando, e Ricardo sabia disso.

— Ou o brownie vai queimar, porra! 

E ia mesmo. Um leve cheiro de queimado começava a exalar do forno, deixando um aroma amargo no ar.

Leandro se moveu de forma brusca novamente, dessa vez aproveitando a distração do mais alto com o forno, e conseguiu se soltar. Mas teve o azar de ser da forma errada, e começou a escorregar pelas costas do namorado, em direção ao chão. Agarrou-se na camisa amarela dos Ahnidras que o atleta usava, tentando evitar ir de cabeça ao chão.

Prendeu a respiração, preparado para o possível baque. Mas, antes mesmo disso, sentiu seu quadril ser segurado firmemente, e então braços fortes o amparando e o colocando de pé no chão.

— Lê! — ralhou, ainda com uma mão firme o segurando, subindo do seu quadril para a sua cintura. — 'Tá maluco? Poderia ter se machucado! — Leandro riu.

— Você me segurou, então 'tá tudo certo. — passou uma mão pela extensão do braço do mais alto, aquele cuja mão estava em sua cintura, sentindo seus músculos. — Pra que ter medo quando se tem um namorado forte desses?

Observou-o rir e balançar a cabeça, com um sorriso malicioso crescendo em seu rosto.

— Ah, então você 'tava confiando que eu ia te segurar, é?

— Hm. — murmurou, aproximando-se, e usou sua mão livre para fazer um carinho suave no pescoço de Ricardo, seus dedos contornando as veias visíveis. — Você sempre vai me segurar, não vai?

Sentiu sua cintura ser envolvida e seus corpos sendo colados novamente. Seu rosto corou ao ter o queixo segurado e erguido, perdendo o ar ao se deparar com olhos intensos e desejosos.

— Pode apostar. — sua respiração se descompassou ao ouvir sua voz rouca, os lábios já roçando nos seus como um estímulo lento e atrativo.

Começou a abrir um sorriso, mas surpreendeu-se ao ter os lábios tomados antes disso, iniciando um ósculo tão intenso que o fez perder toda a sua estrutura. Suas pernas bambearam, sentiu-se fraco, e quase cedeu quando sentiu a língua quente invadir sua boca. Novamente foi segurado pelas mãos firmes, tentando reestabelecer suas forças perdidas.

Suspiro. Os lábios se separando, a intensidade aumentando.

Foi quando sentiu a boca quente e úmida em seu pescoço que se deu conta de para onde aquilo estava indo. Um receio abrupto tomou conta do seu corpo, e de sua mente. Percebeu, então, que não queria passar desses contatos.

— Ric... — sussurrou, a voz falha. — Os brownies...

Era uma boa desculpa para parar, e funcionou. O contato parou, e o mais alto o encarou sorrindo. Alívio.

— Tinha me esquecido. — jogou a cabeça para trás, rindo. — Denovo. — o soltou com cuidado, e Leandro se surpreendeu ao quase cair, as pernas ainda bambas. Por sorte, Ricardo não notou, havia acabado de se virar para ir até o forno, desligando-o. — Não se preocupa, se queimou eu como mesmo assim. Seus brownies nunca ficam ruins.

Não conteve uma risadinha boba, ainda um pouco inerte, o corpo tão quente que parecia estar com febre.

— Agora, voltando ao que realmente me importa. — voltou-se subitamente para o moreno, indo até ele em passos largos e erguendo-o em seus braços, fazendo-o instintivamente envolver seu quadril com suas pernas como apoio. Selou seus lábios longamente, de forma carinhosa, e Leandro se viu novamente entregue aquilo quase que involuntariamente.

Notou ele se mover, dando passos desajeitados em direção ao quarto enquanto ainda o mantinha em seus braços. Uma onda de medo tomou conta de si. Ao mesmo tempo que queria aquilo, também não queria. Não sentia vontade de dar aquele passo, não achava necessário.

A mente a mil, arrependimentos de não ter contado ao namorado antes sobre a sua assexualidade vindo a tona. Deveria ser sincero, ele não o julgaria, não é? Não é?

Se sentia estranho. Ao mesmo tempo que estava tão imerso naquela intensidade, naqueles estímulos e toques, também não queria passar disso. Que diferença faria em seu relacionamento? Deveria, talvez, deixar acontecer apenas para "ver como é" e agradar a Ricardo?

Não, nunca se prestaria a esse papel. Ambos tinham que querer, um consentimento mútuo. E tinha certeza que ele concordaria. Não tinha?

Estava confuso, e o sentimento apenas aumentou quando sentiu-se ser deitado no colchão macio com tamanho cuidado. O atleta o encarou, apoiando-se nos braços para ficar por cima do moreno, intenso, carinhoso, desejoso. E essa visão o hipnotizou por alguns segundos, podia passar a eternidade ali, em seus olhos. Sentia que poderia fazer qualquer coisa por ele.

— Você é tão lindo. — ouviu-o murmurar, parecia também estar hipnotizado. Observou-o erguer uma mão e tocar seu rosto, acariciando-o com um cuidado que não parecia condizer com seu porte.

Essa não era a primeira vez que estavam nessa situação, e também não seria a primeira vez que Leandro recusaria os toques íntimos. E isso o corroía por dentro.

Suspirou, deixando-se navegar nos olhos alheios mais um pouco. Queria se perder ali para sempre, não ter que lidar com mais nada.

— Amor? — foi chamado, dessa vez arrancado completamente da hipnose com o tom preocupado na voz de Ricardo. — 'Tá tudo bem?

— O quê? — tentou dizer, mas apenas articulou, sua voz não saiu. Parecia estar impossibilitado de falar.

Não havia reparado no quão visivelmente inquieto estava, o corpo refletindo sua mente. Entrou em um estado inerte provocado pelo acúmulo de sentimentos, os principais dentre todos sendo o medo e o nervosismo. E é claro que isso não passou despercebido.

Sua mente vagueou para longe, pensando em mil possibilidades, enquanto era puxado cuidadosamente para sentar na cama. Os olhos preocupados ainda o fitando, cada vez mais atentos. O toque carinhoso em seu rosto se tornando mais suave, tão suave que parecia pesar. Por quanto tempo mais teria aqueles carinhos? Não sabia se suportaria perdê-los.

— O que 'tá te incomodando? Foi alguma coisa que eu fiz?

Subiu lentamente o olhar até encontrar os do atleta, e assim que os alcançou sentiu como se fosse desabar, em todos os sentidos possíveis que conseguia imaginar. Era a hora. Estava ali, vulnerável, frágil, e claramente incomodado com algo que só ele sabia.

— Não sei como dizer... — disse, após longos segundos, talvez minutos, em silêncio, a voz craquelando. — Você pode me odiar... ou pior, querer terminar...

— Eu nunca seria capaz de te odiar, Lê. E nem vou terminar com você.

A firmeza clara na voz de Ricardo o surpreendeu, e novamente perdeu o rumo das palavras que sequer havia encontrado. Sentia-se pequeno como um boneco naquele momento, que a qualquer momento poderia ser jogado no chão e despedaçado, esquecido entre as sombras e a poeira.

O silêncio novamente prevaleceu, tornando o ambiente incômodo, como se encolhesse a cada segundo.

— É sobre sexo, não é? — a calmaria e compreensão na voz do mais alto tornou a confusão de Leandro ainda maior. — Você não quer agora, né? 'Tá tudo bem, eu entendo.

— E... — respirou fundo, era o momento. — E se eu não quiser nunca?

— Ahn...? — dessa vez a confusão era mútua. — Bom, nesse caso...— coçou a garganta, pensativo. — Nesse caso, continua tudo bem, não?

Se encararam, tentando encontrar uma forma de lerem os pensamentos um do outro. Estava sendo uma conversa estranha, desconfortável por diversos motivos, a atmosfera estava densa.

O moreno abaixou o olhar, sentiu que choraria, e sentiu-se um idiota por isso. Não entendia porque tinha que ser tão difícil e, por um momento, condenou-se por ser quem é, por não sentir atração sexual como os outros, por não querer ter relações nem mesmo com o seu namorado. Sentiu-se defeituoso, e tentou mentalmente buscar formas de concertar sua falha.

Sua inquietude deve ter aumentado, pois sentiu os braços fortes de Ricardo envolverem seu corpo em um abraço quente e carinhoso. Novamente, quase chorou.

— Não 'tô entendendo o que você 'tá querendo dizer, Lê, mas se você não quiser... — uma timidez invadiu sua voz. — dormir comigo agora, 'tá tudo bem, mesmo. E se você nunca quiser 'tá tudo bem também, se esse é o seu medo. — acariciou os fios morenos, depositando um beijo no topo de sua cabeça. — Nosso relacionamento vai muito além dessas coisas carnais. Não vou terminar com você por isso, nunca.

Uma gigante onda de alívio tomou conta de seu corpo, como uma chuva após muitos dias de seca. Agarrou-se ao corpo do atleta, retribuindo seu abraço de forma desesperada, como se achasse que nunca mais teria essa oportunidade. E realmente achava, há alguns segundos.

De repente, notou o quão bobo estava sendo. Estavam juntos há tanto tempo, e nunca houve sequer uma vez que Ricardo o desrespeitou, sequer uma vez que ele questionou o seu não querer. Sempre houve respeito, de ambas as partes, compreensão e carinho. Como pôde achar que ele o repudiaria por uma coisa tão fútil quanto sexo, sendo que já haviam passado por momentos muito mais difíceis do que receber um "não" para um toque íntimo?

Nossas mentes nos fazem refém de nossos próprios pensamentos, usam nossas inseguranças como arma e nossas características como munição. Cabe a nós decidirmos se seremos atingidos ou não, mas nem sempre uma tentativa de desvio é bem sucedida.

— Você — limpou a garganta, recompondo-se. — sabe o que é ser assexual? — finalmente teve coragem de olhar o atleta nos olhos novamente, logo notando sua expressão curiosa, e então pensativa.

— Hmm. É aquilo de não sentir vontade de ter relações sexuais, né? — olhou o moreno, que esboçou uma leve expressão e movimentou a cabeça como se dissesse "mais ou menos". — É isso que você queria me contar? Você é assexual? — assentiu timidamente. — Tudo bem, meu amor, não tem problema, não.

Novamente, sentiu um enorme alívio, e respirou fundo.

— Eu 'tava com medo de te contar. — aproveitou o ombro livre do atleta e deitou sua cabeça, escondendo seu rosto ali. — Desculpa...

— Não precisa pedir desculpas por isso. — recebeu um beijo na testa. — Eu entendo, de verdade.

Foi puxado cuidadosamente contra o corpo de Ricardo, e então ambos se deitaram na cama macia. Leandro, mais uma vez, suspirou, tranquilizando-se. Sentiu as carícias e o calor do corpo do namorado, preenchendo sua mente e coração com calmaria e amor, e aninhou-se em seus braços. Nenhum resquício de medo e confusão sobrando naquela noite.

– • –

Acordou na manhã seguinte com o outro lado da cama vazio, o edredom todo jogado sobre si, como se o maior quisesse prevenir que o moreno passasse frio antes de sair.

Levantou-se, confuso e cambaleando um pouco, ainda estava com sono. Conseguia ouvir um estranho som baixo vindo do outro lado do apartamento, juntamente com murmúrios que pareciam ser de reclamação.

— Ric? — chamou-o com a voz rouca, saindo do quarto e seguindo em direção a cozinha, tropeçando nos próprios pés enquanto coça e limpa os olhos. — Cadê você?

Chegou a cozinha, a visão já limpa e clara o possibilitando enxergar, da porta, um Ricardo lutando para abrir a embalagem de plástico de um bolo de chocolate recém comprado. Ouviu-o praguejando, tendo mais dificuldade do que deveria.

— Porcaria de embalagem, quem inventou essa merda? — reclamou em murmúrios, claramente preocupado em não acordar o moreno que pensava ainda estar dormindo no quarto.

— 'Tá difícil aí?

Observou-o pular de susto, arrancando-lhe uma risada entrecortada e divertida.

— Lê, amor! Eu te acordei?

Negou com a cabeça, aproximando-se e envolvendo seu pescoço, precisando ficar na ponta dos pés para isso. Recebeu, logo, um beijo longo de bom dia.

— Onde conseguiu isso? — indicou o bolo.

— Fui naquela padaria que você gosta e comprei. — disse, orgulhoso de si mesmo. — Acordei antes de você, como sempre, e fui pesquisar sobre esse negócio de assexualidade, pra te entender melhor, e vi alguma coisa sobre assexuais gostarem de bolo? — parecia estar um pouco confuso, e Leandro riu alto. — Então fui comprar um pra você. Viu? 'Tá tudo certo, não tenho nenhum problema com isso, meu bem.

Um sorriso enorme tomou conta do rosto do moreno, e seu peito se encheu de calor e amor. Não teve outra resposta, apenas o beijou outra vez, profundamente.

— Sim, você acertou. — disse ao se separarem, ainda sorrindo tanto que suas bochechas doíam. — Nós amamos bolo. Obrigado, amor!

— Vi alguma coisa sobre baralho também. — comentou enquanto observava de forma boba a felicidade estampada no rosto do moreno, não resistindo a sorrir também. — Não entendi muito bem.

— Depois eu te explico. — riu. — Agora, vamos comer essa belezinha! — segurou a embalagem do bolo e abriu-a com facilidade, causando uma indignação no outro, que riu também, alto.

— Ah, 'tá de sacanagem!