Chapter Text
— Que cheiro é esse?
— Huh?
Labirinto questiona distraído, os olhos passando por um jornal que estava na mesa pouco adornada da cafeteria onde se encontravam, a atenção voltada para as notícias. A data da primeira folha anunciava que era uma publicação da semana passada, mas o homem nas últimas décadas aprendeu a colocar um freio na quantidade de informação absorvida sobre a sociedade.
Viver por tanto tempo lhe trouxe uma sensação de marasmo que a popularização da internet parece querer afundar, honestamente uma das últimas coisas que ele precisa neste momento.
Seus olhos percorrem pelas letras até encontrarem palavras que realmente interessem: assassinato, corpo descoberto, desaparecimentos. Familiaridade.
Aos olhos humanos, dentro do estabelecimento pouco popular por não ser um grande ponto de interesse, ele seria somente um paranóico com segurança pública. Na visão, entretanto, de alguém que sabe o que está procurando, alguns casos soavam para si mais como a presença desenfreada de outros vampiros que uma ocasião entre mortais.
Murmúrios eram sussurrados pelas vielas do município entre os seus, a presença de um grupo que parecia mais atento nas suas vontades que no disfarce que era obrigatório manterem. O jornal velho gritava que agora seria de interesse humano também, as ocasiões passando de crimes sem conexão para algo passível de assassinato em série.
Quando seu coração ainda batia no compasso dos vivos, era um rapaz bastante religioso e acreditava que a vida importava acima de tudo, o corpo seu templo, o vaso divino onde a alma residia. Atualmente segue vendo seu corpo como um templo, agora ornado por labirintos, mas a vida é efêmera, alimento para alguns, tudo para outros, nada para a maioria. O divino, a percepção utópica de que seu espírito vale algo, se foi com a mortalidade.
Morde o lábio numa contração involuntária dos músculos.
— Eu perguntei — o policial o encara por cima, sem se sentar na cadeira oposta ao vampiro — que porra de cheiro é esse? Você está fedendo mais que o normal.
Nesse momento, o franzino ergue o olhar para encarar a arma que são as íris de Aguiar sobre si. Também finge ignorar a outra arma, presa num coldre, o desconforto nítido nas poucas pessoas do estabelecimento. Quem, porém, desafiaria Jonas com sua estatura forte, cicatrizes e um distintivo no meio do peito? “Um belo disfarce, realmente”, Labirinto reflete, piscando rápido de um lado por causa do tique.
— Não sei exatamente do que você está falando, Aguiar. Pode ser qualquer pessoa no recinto, Kemi nos visitou no esconderijo ontem, Escarlata… Nos últimos anos você ofendeu o suficiente meu povo pra que eu entenda que qualquer coisa é fedor pra sua… Espécie. — tentando ser delicado e fluído como um humano, fecha o jornal e o joga em uma mesa lateral vazia. Depois recalcularia as mortes causadas pelo Psikolera, que nitidamente saíram do critério de visitantes para um problema. — De toda maneira, você me chamou aqui. Um olá teria sido mais educado. Pensei que estivéssemos sendo amigos recentemente.
Labirinto sabe que está falando mais que o normal, todavia o frenesi de ter se alimentado ontem ainda não passou completamente — inclusive ele havia refletido se era sábio sair tão cedo, sua herança vampírica mais viva que nunca nas veias, a urgência na mensagem de Aguiar o retirando do estupor delicioso do sangue para a realidade. Pela sua idade, a alimentação poderia ser mais contida, menos caótica; a noite de ontem fora um evento além de sua curva, um caminho nos labirintos que ele não previu e abraçou contente.
Sua sede não era somente pelo carmesim, o saber lhe chamava. Preencher as lacunas do período onde foi recém transformado, o que ocorreu, de onde veio e quem foi seu criador — pensou que o banquete de sexo e sangue ao menos engatilharia suas memórias, o que se provou em partes correto. Um novo tique percorreu seu corpo, o pescoço virando em um ângulo incomum… E uma das cicatrizes da noite anterior repuxa. A dor, descobriu, não o incomodava. Pelo contrário.
— Pro caralho, Labirinto. Você sabe do que estou falando. Parece que você se esfregou num bando de flor morta, o cheiro está horrível. — Jonas enfim senta, a pose altiva e austera demais para um humano comum. Realmente, o disfarce como policial caía bem para alguém que não consegue passar por muito tempo como um homem mediano. — Enfim. Preciso que vocês resolvam de uma vez a porra que está acontecendo na cidade. Logo a estadual vai vir atrás de respostas, não tem como esconder corpos mortos da mesma maneira por muito mais tempo, porra. Pensei que vocês fossem, sei lá, mais educados. Mais limpos, já que nos chamam de cachorros.
Traçando um dos caminhos em seu punho direito, Labirinto deixa alguns tiques percorrerem seu corpo antes de começar a falar. Seu tom é baixo, assim como o de Jonas, alto apenas para ouvidos como os deles escutarem. Qualquer não-criatura iria apenas achar que estavam resmungando por baixo do fôlego, não entendendo uma sílaba sequer. A diferença é que Aguiar parece rosnar entre as frases, claramente segurando o pouco fio de paciência que resta.
E um lobisomem irado não está nos planos de Labirinto. Ainda carrega as marcas de quando isso aconteceu uma única vez, aprendeu com a quase segunda morte que deveria ter certa cautela com lupinos.
— Estamos de olho, Aguiar. Escarlata também está incomodada. O Psikolera não deveria estar tão… Desobediente das normas. Não é a polícia que temo, é algo muito pior. Ontem discutimos uma possível aliança temporária para abatermos o grupo. Não querem conversa, tentamos por essa via.
Aguiar revira os olhos, visivelmente com pensamentos não tão agradáveis sobre a situação. O nariz do lobisomem segue enrugado, como se estivesse na presença do pior odor da história e Labirinto sente, por alguns segundos, que o homem o encara como se buscasse por algo, as sobrancelhas saindo de sua quase fusão quando inspira profundamente o ar. Talvez tenha encontrado o que almeja, inveja emaranhando as entranhas de Labirinto. Parece tão simples para Aguiar encontrar. Seja pelo olfato, visão, sorte ou simplesmente instinto, quando Aguiar queria algo, ele achava. Ao vampiro, resta somente suas vias de labirinto, o rombo em sua história que parece cada vez mais distante, longe do toque de sua consciência.
São opostos. Frio e calor, coração batendo rápido e quase sem pressão, encontrar e perder.
O elo entre os dois foi bastante fora do convencional. Embora vampiros sejam abominados pelos lobisomens, línguas antigas dizem que o fator predatório faz com que lobisomens sejam quase atraídos para a raça vampírica, um rato encantado pelo queijo em sua ratoeira. Labirinto já ouviu de clãs inteiros que usavam lobos como guardas, o pensamento causando arrepios por sua espinha. Parecia instintivamente repugnado pela ideia de prisão que isso traz, tanto aos lobos quanto a ter uma necessidade por tal segurança tão afiada, além da precaução com a predisposição ao instinto que o sangue de Aguiar carrega. O destino dos dois homens colidiu quando estiveram em uma disputa, uma carnificina, onde o inimigo virou amigo e vice versa.
“Não é sábio lembrar das mãos ensanguentadas pelo sangue de Jonas ao enfaixar um ferimento causado por uma mordida, muito menos durante o frenesi”, reflete quando algo em si esquenta, a visão escurecendo por segundos. Tão perto de um banquete.
Um tique violento corta seus pensamentos, como se a consciência estivesse lhe punindo com isso. Revira os olhos e retesa os ombros, desconfortável. Daria tudo pra entender de onde isso vem e mesmo assim parece que tudo nunca é o suficiente.
Parece que sabe de tanto, ao mesmo tempo, o mais importante lhe escapa entre os dedos.
Um barulho abrupto corta a maré de insatisfação, a madeira da cadeira reclamando da força de Aguiar ao sair do lugar, bufando.
— De qualquer maneira, eu só preciso que essa porra acabe. Seja porque estão enchendo o saco na polícia, seja porque vai começar a aparecer uma penca de lobos perdidos por aqui e você sabe bem que isso vai dar merda.
— Entendo.
O dizer era nítido: ou vocês fazem algo ou não reclamem das consequências. Como se não bastasse os próprios da raça de Labirinto o perseguirem.
— E Labirinto. Você sabe melhor que ninguém que existem bolsas de sangue melhores do que aquela vampira.
Num arquejo, o rosto adornado por riscos fraqueja e solta o ar, a inspiração profunda e quente. Quente demais. Sangue, pessoas, café, madeira, eucalipto, plástico, isopor, sangue, sangue, sangue. Sangue e banquete. Um vinco no formato de seus dedos surge na mesa onde a mão de Labirinto repousa, a fachada humana caindo pela rédea solta de sua natureza profana. Sangue.
Precisa sair e rápido, o aroma pulsante das veias de Aguiar quase propositalmente embargando qualquer outro cheiro com o passar dos segundos. “Parece um cachorro marcando território”, xinga ao perceber os tiques surgindo com força total. O espasmo chega em seu braço, o movimento fazendo os traços e caminhos ficarem sobressaltados.
Sabe que exclamar é inútil, apenas aumentaria o fluxo de ar entrando e saindo de seus pulmões. Levanta num rompante, a velocidade beirando ao sobre humano se não fosse por um medo enraizado ao fundo de seu cérebro sobre os acontecimentos com quem quebrava regras. É quando o cheiro do asfalto e poluição lhe abraça que olha pra trás, pouco antes de seguir seu rumo, a vitrine suja da cafeteria deixando passar a imagem de um Aguiar de braços cruzados, um sorriso curto em seus lábios.
