Chapter Text
Era a quarta vez naquele mês que pegava a estrada de Inquisidor do Vale para São Paulo, naquele ano, de janeiro até maio – mês que estava agora – chegava a vinte vezes. Basicamente todo final de semana, religiosamente. Ele saía de casa na sexta feira, sempre às oito da noite, com uma mochila grande contendo roupas, batatinhas e seu machado… a máscara também, não saía de casa sem ela, não para tão longe.
O fato é que era inconveniente pra caralho, era cansativo, sentia raiva de si mesmo toda vez que a sexta chegava, odiava o modo como passava o dia inteiro organizando tudo, o dia todo como se tivesse uma tomada enfiada no rabo, detestava o sentimento de pressa, o sangue que parecia correr mais rápido, frenético. Detestava ter que ligar.
Ainda assim repetia e repetia, vez após outra, como se estivesse em um episódio de mania incontrolável. Saía do escritório na delegacia às seis, dirigia até o acampamento, checava se tudo estava em ordem, soltava animais pequenos no terreno, deixava as meninas livres para caçar, então trancava tudo e voltava ao apartamento apertado na cidadezinha.
Esse seria o momento de tomar um banho. Ele sempre caprichava nessa parte mesmo com os nervos formigando de antecipação, lavava os cabelos cuidadosamente, esfregava o corpo com esfoliante de andiroba – isso disfarçava o cheiro residual de sangue quase totalmente – então passava um hidratante sem cheiro, perfume daqueles baratos que dona Olinda vendia, escovava os dentes e vestia uma roupa despretensiosa, algo casual.
Quando estivesse bem perto das sete e meia, ligaria. Sentaria no sofá da sala com uma xícara de café forte nas mãos, então passaria os contatos até chegar no dele: O Labirinto. Não foi Aguiar quem salvou assim. Nem sabia o nome de verdade do maldito, mas isso não importava.
O toque da operadora iria fazer sua garganta fechar, a boca secar, o peito bater mais forte. Estava acostumado com tudo isso, sempre acontecia, desde o primeiro dia em que cedeu. Um… dois… três… no quarto toque ele atendeu.
— Não posso falar agora. — podia ouvir um tipo de máquina ao fundo acompanhado do som inconfundível de gritos abafados por, provavelmente, uma mordaça.
— É sexta.
— Eu sei, aconteceu um imprevisto, vou chegar um pouco atrasa… — mais grunhidos, gemidos de dor — Cala essa boca, porra, não ta vendo que tô no telefone? — o tom calmo foi acompanhado do som metálico se chocando contra carne, Aguiar se recostou no sofá sorrindo.
— Quer ajuda?
— Vou terminar antes de você chegar aqui, provavelmente.
— Vou esperar no seu cativeiro.
— Trás alguma coisa pra comer, eu tô faminto.
— Como quiser. Alguma preferência?
— Churrasco tá bom.
E desligou sem se despedir. A euforia tomou conta novamente, precisava pegar a estrada imediatamente, passou a semana inteira evitando pensar nisso, mas naquele momento, tão próximo da partida, sentia todo seu sangue correndo e vibrando, exigindo chegar ao destino o mais rápido possível.
Não precisava nem pensar no caminho, seu corpo fazia todo trabalho de tão acostumado que estava. Gostava de ouvir as rádios locais, mesmo tendo uma pancada de músicas ruins e muitas – muitas mesmo – propagandas locais, de vez em quando o radialista falava sobre algum desaparecido, um corpo mutilado, membros encontrados em sacos de lixo; seu trabalho, suas conquistas. Era bom escutar.
O celular vibrou insistentemente, Aguiar deu uma breve olhada de rabo de olho apenas para se certificar que não era ele dizendo algo, obviamente não era, Labirinto teria ligado, não gostava de perder tempo escrevendo mensagens de texto; em vez disso leu “Cleo” no contato – a novata que dava no saco. Ela estava interessada, sabia disso, a mulher não deixava espaço para dúvidas e bom, meses atrás era até empolgante flertar, mandar indiretas, confundir, manipular. Deixar uma subordinada babando por ele era útil, elas se tornavam mais palatáveis, mais tolerantes com seus sumiços, compreensivas com sua escala confusa, prestativas ao contatá-lo quando algo dava errado – quando algum campista espertinho conseguia chamar a polícia.
Mas a brincadeira estava ficando chata. Ela perguntava demais, queria saber quando sairiam, conversar sobre filmes e sobre a vida; ela queria vê-lo na folga! Onde já se viu? Sua folga à qual dedicava totalmente ao filho da puta maluco que conseguia deixar ele puto, faminto, maníaco… tudo ao mesmo tempo. Se ela atrapalhasse demais, teria que dar um jeito.
Deixou o celular no carro quando estacionou em frente ao aglomerado de kitnets de um dos bairros periféricos de São Paulo, era perigoso, podia muito bem ser assaltado e até esperava por isso com ânsia, afinal, Labirinto havia marcado o carro, poderia localizar o ladrão e então teria um motivo para brincar; infelizmente os vizinhos conheciam a fama do oculista, sabiam que Aguiar e ele tinham uma certa… relação? Então mantinham-se longe do seu caminho e das suas coisas.
Entrou na porta 108. Não precisava mais esperar – como alguns meses antes – até que o dono voltasse, afinal tinha uma cópia da chave, assim como o outro tinha cópias das chaves de todas as suas propriedades, desde a cabana mais decrépita do acampamento até o casarão, do seu apartamento particular, da delegacia, tudo. Era mais conveniente assim, gostava de quando invadia seu espaço sem avisar.
O apartamento em si era pequeno, quase não tinha decoração ou móveis, contava com uma saleta minúscula acoplada a uma cozinha menor ainda, um banheiro e um quarto. As paredes eram pintadas de azul bem claro cobertas por padrões de labirintos desenhados em tinta vermelha. Aguiar havia o presenteado com um sofá verde militar, uma TV de tela plana e uma estante de madeira rústica – onde o ocultista colocou alguns cds, livros e vasos decorativos, sem planta alguma.
Antes de começarem a seja lá o que tivessem, o kitnet era praticamente vazio, tinha o fogão, a geladeira e um colchão sem cama. Lembrava direitinho do que havia dito ao ocultista quando, na terceira visita, trouxe o sofá na caçamba da picape: “quero ter onde sentar sem ter dor nas costas, porra”. A tv teve um pretexto semelhante: “sua casa é silenciosa demais, dá pra ouvir os vizinhos fodendo”. E a estante: “tava pegando poeira lá em casa.” Teria dado mais se o ocultista não tivesse o provocado com um sorriso maldoso quando posicionou o último item perto da janela: “vai me pedir em casamento, delegado? Devo me arrumar?”
Agora olhava ao redor ainda desgostoso, era muito vazio, muito monocromático e eles ainda tinham o problema do colchão sem cama, mesmo que Labirinto tenha comprado mais colchas e fronhas, ainda era ruim. O ocultista havia ficado razoavelmente mais zeloso depois da segunda visita, o chão parecia limpo, as paredes sem teias, os móveis sem poeira, bem diferente da primeira vez que Aguiar esteve ali – quando teve um ataque de rinite tão forte que não conseguiram fazer nada além de limpar os ferimentos da caçada da vez.
Outro ponto de interseção na relação dos dois foi o guarda-roupa limitado do ocultista. Ele nem tinha um, as “roupas” ficavam jogadas pelos cantos ou dividiam espaço com as armas, dentro de um baú velho e fedorento ao lado do colchão. Aguiar olhou feio para aquela situação, mas não disse nada. Na semana seguinte havia uma cômoda de quatro gavetas e nenhuma roupa espalhada pela casa.
O delegado entrou, ainda deixando a porta encostada, já passava da uma da manhã, mas sabia exatamente onde ir para conseguir uns espetinhos de carne, só queria checar se Labirinto havia ao menos comprado arroz. Foi até a geladeira e se agachou, vendo ali dois quilos intocados ainda com o preço colado nas embalagens, também viu uma caixa de leite integral, um pacote de café, açúcar e até verduras, sorriu.
— Bom garoto.
Puxou um dos pacotes e pegou uma vasilha de alumínio no armário embaixo da pia, jogou um punhado sem medir, um pouco de água e sal, ligou o fogo. Então pegou dois tomates, algumas folhas de alface, cheiro verde e couve; cortou tudo e misturou, não havia azeite para jogar por cima, então seria no seco mesmo. Guardou a salada na geladeira e aguardou o arroz aprontar, cronometrando o tempo com o relógio, batendo o pé, impaciente. Em cinco minutos tampou o arroz com um prato de vidro, saiu porta afora e foi comprar os espetinhos na barraquinha ao lado de um motel.
— Finalmente — disse, sentado com as mãos cruzadas sobre as coxas no sofazinho que fez questão de posicionar bem em frente a porta. Já passava das duas e meia da manhã.
Labirinto manteve o rosto impassível, sem se incomodar com o tom autoritário do delegado, estava com uma capa de chuva amarela que cobria o corpo inteiro, mas Aguiar, mesmo de longe podia sentir o cheiro de sangue.
— Foi um imprevisto — a voz era calma, o olhar vítreo — Nem sequer foi divertido, estava só limpando a bagunça de outra pessoa.
Ele tira a capa revelando por baixo uma roupa que Aguiar chamava de “traje de fim de semana”, ou, uma bermuda de tecido, camiseta sem estampa e chinelo – presentes seus para que não parecesse tão maluco enquanto estivessem juntos. Tudo isso empapado de sangue.
— O Dalmo fez merda de novo?
— Não. — ele trancou a porta, afastou os chinelos — Tem um novo membro pro time, vou apresentá-la pra vocês no domingo.
— Você tava até agora limpando a merda de um novato?
Labirinto se aproximou do delegado, fixando os olhos do rosto dele, gostava daquela expressão carrancuda, enciumada? Não sabia ler as emoções muito bem, mas gostava mesmo assim.
— É, o nome desse novato é Jae, ela é boa, mas ainda é jovem, muito impulsiva, um pouco descuidado, é difícil lidar.
Aguiar finalmente o puxa, fazendo-o sentar em seu colo.
— Tá me dizendo que tava esse tempo todo correndo por aí com um novato?
— É. Eu chequei seu carro quando cheguei. Deixou seu celular lá dentro. Quem é Cleo?
— Uma novata com quem tenho que lidar. — o tom do delegado era rosnado, parecia estar com raiva, queria machucar.
— E por que exatamente essa novata tem seu número?
— Isso importa? Não tá ocupado demais com seus próprios assuntos pra prestar atenção aos meus?
Labirinto franze o cenho e agarra o queixo de Aguiar com força, obrigando-o a encarar seus olhos.
— Tá fodendo com ela?
— E se eu tiver? Que diferença isso faz pra você? — pergunta, dando um risinho de lado. O ocultista afunda mais as unhas no queixo dele então o empurra e sai de cima do seu colo.
— Não importa. Vou tomar banho.
Aguiar imediatamente se põe de pé e o segue.
— Qual é? Só você pode dar respostas evasivas? — Labirinto o ignora e entra no quarto — Você gosta de me torturar evitando minhas perguntas, gosta de me ignorar e me faz vir até aqui pra quê? — o ocultista pega uma muda de roupas, uma toalha e segue para o banheiro — Pra ficar falando da porra de um novato que sequer importa? Enquanto eu trago sua comida, arrumo sua casa e te espero como um…
Labirinto vira para ele e os dois trombam antes de chegar ao banheiro.
— Jae Yoon se voluntariou — diz, cortando a frase do outro no meio — Conhece o Dalmo e o seguiu até a arena, então confrontou ele e perguntou se o nosso Colosso podia ajudar com uma vingança pessoal. Isso tudo enquanto o Giovanni me passava um trabalho urgente, perto de uma escola de riquinhos. — Aguiar fica calado, absorvendo as informações — Quando você ligou eu estava finalizando o trabalho do Giovanni, logo em seguida recebi uma ligação do Dalmo pedindo que eu fosse até o novato e testasse ele. Foi uma dor de cabeça sem fim, Jae matou uma modelo ou uma prostituta, não entendi bem a profissão da garota, dentro do banheiro de um clube de striptease. Teve testemunhas, tive que silenciar mais três outras mulheres, recolher os corpos, tirar de lá sem ser visto e encontrar um lugar bom pra descartar. Isso com a porra da novata eufórica dizendo que tinha sido “muito foda”. Então se você puder parar de me encher com suas ladainhas melodramáticas e só esperar no sofá enquanto eu me limpo e como…
— Eu não tô fodendo com a Cleo. — corta Aguiar — Ela é uma policial novata, tem seis meses de polícia, é boba o suficiente pra acreditar no que eu falo e prestativa o bastante pra ser útil. — o delegado consegue ver a cara de deleite do parceiro mesmo que minimamente, sorri de lado e continua — Ela acha que eu tô afim de algo mais, não vou negar que incentivo um pouco, mas, vamos lá, Labirinto, você sabe que ela não é meu tipo.
O ocultista pisca lentamente, desfazendo a carranca quase totalmente.
— Se ela é útil, mantenha assim, estamos bem perto agora e temos gente suficiente, mas não se distraia, entendeu? Não temos tempo pra empecilhos.
Aguiar puxa a cintura dele e encaixa seus quadris, sorrindo, mostrando os dentes.
— Anotado.
Labirinto tenta manter a cara neutra, mas o delegado aprendeu a triunfar em suas micro expressões, no momento em que seus quadris se encaixaram, causando aquele atrito gostoso que o policial tanto gostava, viu o lábio dele tremer, as sobrancelhas baixarem em contentamento, os olhos cruéis emudeceram de satisfação. Gostava tanto de causar isso nele que chegava a ser perigoso. Eles se conheciam há anos, Aguiar já havia o visto matar inúmeras vezes, seu próprio jeito de tratar as vítimas era até piedoso comparado a Labirinto e arrancar algo além de crueldade pura afogava seu peito em uma coisa distópica da sua realidade, algo quase puro demais para alguém como ele sentir.
— Deixa eu dar banho em você, sei que teve um dia ruim, posso te ajudar com isso. — a pressão dos dedos do delegado, os movimentos circulares na cintura do ocultista, passeando em uma massagem lenta, no intuito de corroborar com a fala, fez Labirinto se inclinar para ele e subir as duas mãos pelo peito largo. O ocultista detestava confessar, odiava ceder, mas adorava tocar Aguiar. Gostava demais dos músculos densos, sólidos o suficente para socar e seus dedos doerem, também gostava dos pêlos marrons enroladinhos, que se adensavam apenas no peitoral e então desciam em um funil reto até partes que gostava ainda mais. E não queria confessar, se perguntassem mentiria veementemente, mas adorava o modo como o rosto do delegado ficava lindo, ameno, contente, enquanto recebia carinho, os cílios baixos, os lábios entreabertos. “Porra, se eu tivesse mais tempo.”
— Entra comigo.
Aguiar obedece.
