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Menino

Summary:

Onde habitar um corpo que não é seu traz um tipo diferente de sofrimento para Aguiar.

Inspirado na música Menina - Lua Dultra

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Habitar um corpo que não é seu tem consequências e Aguiar entende isso mais que qualquer um deles.

Deitado ao lado de Jae enquanto sentia um dos braços de Labirinto rodeando ambos os corpos, Jonas encarava o teto sem conseguir fechar os olhos para pegar no sono.

As lembranças o acertavam como um machado, cada vez mais densas, mais reais, mais doloridas. Os sentimentos se misturavam como sangue e terra, não os sabia distinguir, não sabia a quem pertencia a sensação de culpa, o medo, a angústia. E então, outro machado chegava, o prazer mórbido, os gritos, as súplicas, o instinto quase animalesco.

Colocar a máscara apenas ajudava em sua confusão mental e depois a utilizar por um longo tempo durante a batalha contra os Couraça, se via dividido.

Os sentimentos do Mutilador Noturno, o corpo que habitava, falavam cada vez mais alto em sua cabeça, sentimentos digeridos de forma quase animalesca.

Queria levantar se sua cama improvisada dentro do circo dos psikoleras e sozinho invadir a base dos Vampiros, atacar, destruir, dizimar, cada um deles com as próprias mãos até que eles sejam reduzidos a irreconhec-

Balançou a cabeça para afastar os pensamentos. Seus pensamentos, porque, se não eram dele, de quem mais seriam?

Jonas não sabia onde os pensamentos do Mutilador Noturno terminavam e os seus começavam, não sabia se o desejo brutal e a vontade primordial de sangue eram impulsos do corpo ou se realmente queria aquilo.

Se sentia exaurido, exausto de brigar com o próprio inconsciente. Uma parte sua, cruel e sombria, não o cansava de lembrar que não importa o quanto tentasse, ele nunca conseguiria com que sua irmã parasse de o temer. Que se soubesse de seus pensamentos apenas se afastaria mais e ele, novamente, falharia na missão de a proteger. Pensou na irmã, uma figura sem rosto ou voz em suas memórias confusas e embaralhadas. Pensou nos seus anos de tortura, dor e medo. Se perguntou se esses anos realmente lhe pertenciam.

Suspirou fundo em uma tentativa de afastar a nuvem de pensamentos e se desvencilhou dos braços de Jae e Labirinto da maneira mais delicada que conseguiu para que não os acordasse. Odiaria que eles presenciassem mais um de seus colapsos. Se esforçou para que seus passos até o lado de fora fossem o mais silenciosos possíveis.

Aguiar se sentia enorme, desajeitado, como se o espaço que ocupasse fosse dez vezes menor que seu corpo. Não era o melhor exemplo de agilidade daquele lugar e os pensamentos nebulosos e a visão embaçada dificultavam sua missão silenciosa. Cambaleou para fora tentando ao máximo não pisar nos integrantes da banda. Viu Cindy e Caio mais afastados, viu Kemi, Eloy, Pomba e Franco em outro canto, juntos como se fossem uma única massa incapaz de se manter separada. Viu Dalmo dormindo sentado perto de Alê e Henri. Desviou sua atenção e seguiu até o lado de fora do alojamento improvisado.

Se vendo banhado pela luz da lua, Aguiar sentiu suas pernas fraquejarem, seu coração acelerar e sua visão se tornar cada vez mais embaçada. Caiu de joelhos no chão e enfiou o rosto por entre suas mãos. Sua respiração aumentava a cada pensamento que o atingia.

Era um covarde.
Era fraco.
Não era nada sem a máscara do Mutilador Noturno.
Não era ninguém fora daquele joguinho sádico.
Não conseguiu proteger a própria irmã.
Veria toda sua equipe morrer e seria sua culpa.
Era apenas mais um inut-

Sentiu mãos firmes e cheias de calos segurando seus pulsos e fazendo com que suas mãos se afastassem de seu rosto.

— Aguiar porra, olha pra mim — Ouviu a voz de Labirinto distante, como se estivesse o escutando embaixo d'água. O pensamento o fez estremecer involuntariamente. Sentiu as mãos frias do outro fazerem um carinho suave em seu pulso — Olha pra mim, por favor, meu bem.

Jonas não sabe exatamente o quê o fez erguer os olhos, se foi o tom de voz, preocupado enquanto tentava transmitir calma, o apelido usado ou o calor que sentia crescendo com o toque do outro. Levou seu olhar em direção a voz, encontrou um Labirinto o olhando preocupado e intrigado e ao seu lado viu também Jae, o olhando do mesmo jeito. Tentou falar, ensaiou abrir a boca diversas vezes, tentou buscar em sua mente palavras que fariam sentido, mas a única coisa que saiu foi um soluço. Um soluço carregado de dor.

Não demorou muito para que Labirinto soltasse seus pulsos e Jae se aproximasse mais de si, enxugando as lágrimas que Aguiar não mais se importava em segurar. O policial se sentia estranhamente confortável com a dupla o vendo no estado em que estava. Sentia que não seria julgado por eles.

As mãos de Jae eram leves e cuidadosas em seu rosto, secando as lágrimas em suas bochechas. O asiático não emitia uma palavra desde que chegou, mas seu olhar transmitia conforto, lembrando Aguiar que ela estava ali com ele. Labirinto sentou ao seu lado e levou a mão até a nuca do policial, fazendo um leve carinho na região.

Aguiar olhou para Jae com uma pergunta silenciosa em seu olhar.

— Eu acordei porque não 'tava sentindo você na cama, você faz falta, sabia? O Laby é muito gelado.

— E então, a bonitinha me acordou também pra gente te procurar. — Completou Labirinto, — Te achamos aqui fora sozinho. Por que você não acordou a gente, Aguiar?

— Vocês precisam descansar...

— E você não precisa? — Esbravejou Jae. — Não me leva a mal não, mas você tá só o bagaço viu Aguiar.

— O que Jae 'tá tentando dizer, — interviu Labirinto, — é que você também precisa descansar, mais do que eu ou elu. Foi uma noite muito... agitada, pra dizer o mínimo. Você deveria estar deitado também, descansando com a gente.

A ênfase na última parte fez com que o estômago de Aguiar desse uma fisgada. Não era uma sensação ruim, mas, com os pensamentos embolados, conseguia sentir apenas algo semelhante a culpa. Isso deve ter ficado transparente em sua cara, já que Jae estalou a língua e se sentou no chão em sua frente.

— Olha aqui Aguiar, essa sua carinha de cachorro abandonado não vai funcionar comigo não. A gente ‘tá aqui com você porque quer e nem adianta reclamar, porque eu só vou levantar daqui se você voltar com a gente.

Labirinto olhava a cena em silêncio, ainda acariciando a nuca do outro, seus dedos teimosamente desenhando labirintos sem fim ou começo.

— Vai contar o que aconteceu pra você estar assim?

— Eu…Comecei a pensar demais.

Aguiar se sentia como uma criança, um menino. Se sentia vulnerável. Talvez os anos de abusos e torturas o fizeram assim e, de uma maneira muito estranha, aqueles dois o enxergavam com clareza. Talvez por se sentir venerável suficiente, se virou para Labirinto e com os olhos já embargados em lágrimas perguntou:

— Você... Me acha fraco? — Se virou também para Jae, — e você acha?

— Você usou a rubra do Labirinto? Tá na nóia porra? Aguiar, você é uma das pessoas mais fortes do nosso grupo, só perde pro Dalmo.

— É isso que você veio pensar? Aguiar, você matou um dos vampiros sozinho.

— Foi a máscara...

— A máscara só aprimora suas habilidades — explicou Labirinto, — ela não te dá nada que já não seja seu. Você salvou o Henri, você foi crucial pra luta de hoje. Você é você, com ou sem a máscara.

Era estranho, pra se dizer o mínimo. Aguiar se sentia cada vez menor, tentando se encolher até desaparecer.

Estava cansado. Exausto de tentar ser forte.

Sentiu uma das mãos de Jae fazendo um carinho suave em sua coxa enquanto Labirinto o puxava para mais perto para que Jonas conseguisse encostar a cabeça no ombro do outro.

— Você não precisa se esconder, não da gente — Jae disse, com uma suavidade que nunca a viu usar, — Não sabemos se vamos morrer amanhã, ou se vamos ganhar o Hexatombe, ou o que acontece se tentarmos parar isso aqui. Então, o melhor que você pode fazer é parar de se esconder. Você pode bancar o durão o quanto quiser pra eles, mas não pra gente, principalmente pra esse esquisito ai.

— Vai se fuder, Jae — Labirinto diz, tentando segurar o sorriso. — Mas é, você 'ta certa. Você pode chorar com a gente. Lembra da nossa conversa? Vamos ser a parte boa desse lugar, Jonas. Mas, pra isso, eu preciso que você seja você de verdade, com as partes bonitas, mas principalmente as partes que você considera ruins.

Aguiar sentiu alguma coisa mudar e sentindo a coisa mudar, chorou. Chorou todas as lágrimas acumuladas, lágrimas suas, lágrimas de um agente que perdeu a irmã, lágrimas de um menino que cresceu com medo.

Sentiu Jae se aproximando e o puxando para perto de seu peito apenas para Labirinto se juntar ao abraço, fazendo carinho nos fios encaracolados do policial.

Não sabe quanto tempo ficaram assim, mas seus parceiros foram pacientes, não saindo do lugar enquanto Aguiar chorava e quando finalmente se soltou do abraço para encarar os dois foi a vez de Labirinto enxugar seus olhos.

Sentiu os lábios de Jae em seus cabelos e se permitiu sorrir com o gesto.

— A gente pode por favor voltar pra cama agora? Eu 'tô com muito frio. — Jae disse com os lábios ainda nos cabelos do policial.

— Você não disse que só ia quando o Aguiar fosse?

— Ah, mas ela já 'tá indo, não tá Aguiar? Fala pro Laby.

Aguiar não pode conter a risada que escapou de seus lábios. Olhou para Jae, que já ameaçava fazer biquinho e depois para Labirinto, calmo como sempre.

— É... Acho que a gente já pode voltar.

Sem dizer nada, Labirinto levantou e ajudou Jonas a se colocar de pé também enquanto Jae se erguia quase que magicamente, o de cabelos pretos se colou na frente de Aguiar e, gentilmente, segurou seu rosto entre as mão para um selar de lábios rápido. Labirinto enroscou sua mão junto a do policial e, assim que Jae se afastou, começou a o guiar para dentro da base.

Sentiu a mão de Jae se enroscar na sua mãe livre e os três assim seguiram até a cama improvisada que dividiam. Jae fez questão de se deitar no meio, enquanto Aguiar deitava à sua esquerda e Labirinto terminava de ocupar o espaço da cama, colocando seu braço por cima dos dois.

Aguiar se permitiu fechar os olhos e sorrir.
Talvez não fosse de todo ruim se sentir um menino perto deles.

Notes:

essa é a minha primeira tentativa de escrita depois de mais de um ano parada. espero que vocês gostem :)