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Português brasileiro
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Published:
2025-12-09
Words:
6,084
Chapters:
1/1
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29
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267
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20
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1,902

Aquele calor no peito.

Summary:

Eloy nunca precisou ouvir a palavra “namorados” para saber o que Kemi significava pra ele, bastava olhar pra ela, sentir a calma que ela trazia, o jeito como encaixavam sem esforço. Eles já eram um casal, mesmo sem dizer.

Mas nada no mundo preparou Eloy para o convite que Kemi fez: conhecer a filha dela.

Notes:

Oieee, essa historia já estava presa no meu bloco de notas e trouxe pra cá depois que fiquei pensando em Eloy pai de menina. Se quiser conversar sobre ou me acompanhar pode me encontrar no tt como @Manuscrita666.

Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Eloy sempre achou que não tinha medo de nada. Palco, multidão, barulho, turnês caóticas, gente demais falando alto, brigas, o submundo que ele costumava frequentar com seus amigos… nada mexia com ele.

Mas naquela tarde, sentado no sofá da própria sala, ele recebeu uma noticia meio impactante, deva-se dizer. Encarando a mulher que desfilava por seu apartamente de calcinha, ele batia a perna inquieta no chão, ele descobriu uma verdade surpreendente:

Ele estava nervoso.

Nervoso de um jeito bom. Nervoso de um jeito que deixava o peito quente, as mãos grandes inquietas, e a mente presa em uma só coisa: Kemi comentou sobre ele para conhecer sua filha.

Ela ainda não tinha marcado o dia. Não era um encontro.Era só um pensamento dela, talvez um anúncio.

Mas Eloy sentia como se o mundo tivesse ficado… diferente. Maior. Mais importante.

Kemi era luz.

 

De um jeito doce, nada discreto, forte.

 

Ela tinha chegado na vida dele devagar, como quem vai pisando num chão desconhecido com cuidado e de repente ele já não sabia como era existir sem ela.

Mas ela também carregava sombras. Algumas profundas.

 

Ele sabia das perdas.

 

Do medo de confiar.

 

Da sensação de já ter se machucado demais no passado.

 

Da filha que ela protegia como se o mundo fosse um lugar perigoso e que tirariam dela a qualquer momento.

E agora… ela estava dizendo que queria que ele entrasse nesse mundo protegido.

Eloy quase explodiu por dentro.

Mas por fora, claro, ele só assentiu. Calmo. Voz grave. Tentando não parecer um idiota.

— Quando você achar certo, você me fala, tá? — tinha dito, num tom quase suave demais pra combinar com o tamanho dele.

Kemi sorriu daquele jeito que sempre desmontava sua alma. Eloy passou a noite inteira revendo esse sorriso na cabeça.
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A campainha do seu apartamento tocou de forma suave, recém saído do banho, já pronto para sua visita favorita.

— Oi, grandão.
— Oi, amor. — escapou. Ele nem tentou corrigir sendo sincero.

Ela entrou, tirou os sapatos, encostou no peito dele naquele abraço que sempre, sempre, sempre acalmava o mundo inteiro.

Ele a segurou com cuidado, sempre com cuidado. Ela era forte, mas pra ele… era preciosa demais pra qualquer gesto brusco.

Kemi suspirou contra seu peito.

— Eu fiquei pensando sobre… apresentar você para ela no sábado, o que você acha? — ela disse baixo.
Eloy sentiu o coração acelerar daquele jeito besta.
— Uhum. Claro, adoraria.

— E eu… — ela ergueu o rosto, insegura. — Eu tô com medo, mas tô feliz também. É importante pra mim.

Ele não hesitou. Nem por um segundo.

— Pra mim também.

Os olhos dela suavizaram.Eloy levantou sua mão grande, passando os dedos no rosto dela com delicadeza que nunca combinava com o tamanho dele.

— Eu sei que isso… que ela… é a parte mais importante da tua vida.
— É — ela admitiu, num sussurro.
— Então se você quer que eu faça parte disso… - Ele respirou fundo, abrindo um sorriso pequeno, sincero — Eu prometo que vou honrar essa confiança. Mesmo antes de conhecer ela. Mesmo antes de você saber se eu fico ou não. Eu já tô aqui. E eu não vou a lugar nenhum.

Kemi piscou rápido, emocionada.

Seus dedos agarraram a camiseta dele.

Eloy a puxou para perto, encostando a testa na dela.

— Você sempre faz parecer tão simples — ela murmurou, com a voz embargada.
— Amar você é simples — ele respondeu sem pensar.

Kemi congelou por meio segundo.

Depois sorriu.

Um sorriso pequeno, doce, cheio de significado.

O tipo de sorriso que muda destinos.

Eloy sentiu o coração aquecer como um raio de sol no peito. Talvez eles ainda não tivessem dito oficialmente “somos namorados”.

 

Talvez o mundo ainda não tivesse visto eles juntos assim.

 

Talvez o futuro fosse assustador e grande.

Mas naquele instante, ao segurar Kemi nos braços… ao saber que ela confiava nele com a parte mais preciosa da vida dela…
Ele tinha medo de admitir mas... ele já era dela.

E estava pronto para ser o que ela precisasse, namorado, parceiro, porto seguro, tudo.

Porque Kemi não tinha só apresentado a ideia. Ela tinha aberto uma porta.

E Eloy entrou de coração inteiro.
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Eloy estava confiante que estava preparado. Sério. Tinha passado anos lidando com fãs berrando, público esmagando grade, pirotecnia, som estourando… nada abalava ele.
Mas agora?

Agora ele estava parado no corredor do mercado, encarando prateleiras de suco de caixinha como se estivesse prestes a fazer a escolha da sua vida.

E tudo por causa de uma menina de cinco anos.

A parte mais preciosa do mundo dela.

Eloy queria, não, ele precisava, fazer tudo certo.

Kemi estava ao lado, apoiada no carrinho, observando seu gigante de quase dois metros entrar em colapso silencioso diante de versões diferentes de suco de caixinha.

Ele pigarreou, sério demais pra situação.

— Kemi...— ele apontou para as caixas. — Ela… pode tomar isso?

Kemi mordeu a boca para não rir.

— Pode, Eloy. Ela é uma criança, não um filhote de panda.

Ele estreitou os olhos de leve.

— É que… tem uns que têm açúcar demais. E outros que têm uns nomes esquisitos que eu não sei se criança pode beber. E eu não quero ser o idiota que dá suco proibido pra tua filha no primeiro dia que a vê.

Kemi cobriu a boca, mas não impediu a risada suave.

— Isso aqui — ela pegou uma caixa qualquer — é só suco de uva, amor.

Eloy encarou a caixa como se estivesse avaliando uma bomba.

Depois suspirou e colocou três sabores diferentes no carrinho. Por segurança.

Eles andaram mais alguns passos.

 

Eloy parou de novo.

 

Agora diante da sessão de biscoitos.

Ele cruzou os braços enormes, analisando embalagens

— Ela pode comer isso?
— Sim, Eloy.
— E isso?
— Pode também.
— E esse aqui que parece uma bomba de açúcar?

Kemi deu de ombros.

— É o favorito dela.

Eloy arregalou os olhos.

— O favorito? Mas isso aqui deve deixar a criança correndo pelas paredes.
— Sim — Kemi confirmou. — Mas eu não vou te deixar sozinho com ela até você aprender a lidar com isso.

Ele a encarou, indignado.

— Caralho, eu sei lidar com crianças!
— Sabe? — ela arqueou a sobrancelha.
— Claro!
— Quantas?
— …
— Eloy?
— Tá, nenhuma. Mas não deve ser tão difícil.

Kemi riu alto dessa vez.

— Você tá nervoso.
— Não tô. — ele respondeu, muito rápido.
— Tá sim.
— Não tô, porra.
— Eloy.
— Tá, tô um pouco. — Ele passou a mão pelo cabelo. — É que… eu quero que ela goste de mim. Não quero estragar nada.

Kemi parou o carrinho. Segurou o rosto dele entre as mãos pequenas.

— Dandara vai te amar. Você é gentil, divertido, cuidadoso… e ela adora gente grande.
— Ela adora?
— Uhum. Ela acha que atletas, seguranças e gente muito alta são super-heróis.

Eloy piscou.

— Você tá dizendo que…
— Sim — Kemi sorriu. — Na cabeça dela, você já meio que vai ser um herói.

Eloy apertou a boca para tentar conter o sorriso bobo. Não conseguiu.

Eles continuaram andando.

Eloy parou de novo, dessa vez diante da sessão de desenhos infantis no catálogo da TV do supermercado.
— Amor… qual é o desenho favorito dela?
— Eloy, você não precisa estudar antes do encontro.
Ele virou para ela, completamente sério:
— Claro que preciso. Se ela gosta de dinossauro, eu vou ver dinossauro. Se ela gosta de princesa, eu vou aprender o nome de todas. Se ela gosta de robô, eu vejo robô. Eu vou chegar preparado.
— Você… está literalmente fazendo lista de tudo que minha filha pode gostar?
— Sim. — Ele abriu o celular. — Tô anotando:
suco de uva, biscoito bomba-de-açúcar, desenho favorito não identificado.
— “Biscoito bomba-de-açúcar”?
— Nome técnico.

Kemi o abraçou pela cintura. Ele a envolveu automaticamente.

— Você é tão… fofo — ela disse, ainda rindo contra o peito dele.
— Não sou fofo.
— É sim.
— Sou forte e sério.
— Não, amor, você é um gigante ansioso por aprovação de uma criança de cinco anos.
— Isso é diferente.

Ela ergueu o rosto, deu um beijo leve na boca dele, e Eloy derreteu.

— Vai dar tudo certo, Eloy.
— Promete?
— Prometo.

Ele respirou fundo, finalmente se acalmando.

Kemi começou a empurrar o carrinho, mas Eloy a segurou pelo pulso.

— Espera.
— Hm?
— Falta uma coisa.
— O quê?
—Brinquedos.
— Pra quê???
— Qual criança não gosta de receber brinquedo?
— Não! Chega! Sair com você está sendo mesmo que sair com ela e comprar coisas desnecessárias
— Eu não posso deixar faltar nada, porra.
— Na volta a gente compra.
—Kemi!!!

Kemi começou a rir tão forte que precisou apoiar no carrinho.

Eloy apenas seguiu ao lado dela, já abrindo o celular para anotar comprar brinquedos após a primeira visita.

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Eloy achava que estava pronto.

Tinha tomado banho duas vezes.

Passado o perfume que Kemi gostava.

Até penteou o cabelo direito!

Mas agora, estava em pé no meio da sala do pequeno apartamento da Kemi, ele tinha certeza absoluta de que ia desmaiar. Porque bem à sua frente estava ela.

Dandara.

Cinco anos.
Cabelinho preso em maria-chiquinha.
Um vestidinho com glitter.
Olhos enormes e curiosos.
Segurando o que parece ser um axolotinho de pelucia.

Kemi estava um pouco atrás dela, sorrindo com aquela calma irritante de quem acha a situação fofa. Eloy, porém, tinha certeza de que estava prestes a enfrentar o maior desafio da vida dele.

A criança deu um passo à frente.

Ele também.

Os dois se encararam.

Um gigante de quase dois metros.

Uma miniatura de gente.

Silêncio mortal.

Dandara apertou os olhos, analisando.

 

— Caralh… digo, nossa, ela é menor do que eu imaginei…

Ela inclinou a cabeça.

Ele inclinou a cabeça também.

Ela estreitou os olhos.

Ele estreitou também.

— Vocês dois estão… brincando de imitar?

— Tô só… avaliando.

— Avaliando o quê? — a menina perguntou, voz miudinha.

Ele pigarreou, tentando parecer menos assustador.

— Se você é… perigosa.

Dandara arregalou os olhos.

— Eu???

— É — Eloy cruzou os braços. — Sua mãe disse que você corre mais rápido que ela. Isso é suspeito.

Dandara cruzou os bracinhos, ofendida.

— Eu não sou suspeita! Eu só sou rápida.

— Rápida quanto? — Eloy ergueu uma sobrancelha.

— RÁPIDA RÁPIDA.

O gigante assentiu, sério.

— Entendi. Atenção necessária.

Kemi não conseguiu evitar o sorriso enorme.

Eloy respirou fundo, ajoelhando-se com cuidado para ficar na altura da menina. Ele tinha medo de ser grande demais, assustador demais, sério demais. Mas quando Dandara encostou a mão na testa na dele, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo… O peito dele derreteu inteiro.

— Mãe… — Dandara sussurrou, mas ainda encarando Eloy. — Ele é gigante mesmo.
— Eu avisei — Kemi disse, rindo.

Dandara segurou o rosto dele com as duas mãozinhas pequenas.

— Você comeu muita verdura?

Eloy piscou.

— É… — tossiu. — Bastante.

Ela ficou pensativa.

Depois deu uma conclusão séria:

— Você parece um super-herói.

Ele arregalou um pouco os olhos, genuinamente surpreso.

— Eu… quê?

— Uhum — Dandara confirmou. — Grandão assim só pode ser super-herói.

Eloy abriu um sorriso tão leve e tão bonito que Kemi sentia o seu coração dobrar.

— Eu posso ser sua amiga? — Dandara perguntou.

A boca dele se abriu.

Fechou.

Abriu.

— Claro. — Ele finalmente conseguiu, a voz grave saindo surpreendentemente suave. — Pode sim, pequena.

A menina puxou sua mão — Vem ver meu desenho novo.

Eloy deixou.

Docemente
.
Sem pensar duas vezes.

Enquanto ele se deixava arrastar pela sala como se fosse leve, Kemi encostou na porta, observando a cena.

Eloy olhou para trás, ainda andando pela mãozinha de Dandara.

— Amor… ela gosta de dinossauro?
— Gosta sim.
— Graças a Deus, eu vi todos.
Kemi riu.
Dandara puxou ele.
— Vem, Eloy! Você tem que ver meu dragão rosa! Ele voa!

— Dragão rosa? Porr,quer dizer, caramba, isso deve ser incrível — ele tentou se corrigir um pouco depressa.
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Eloy não tinha muita noção de quanto tempo estava ali, parado na frente da pequena mesinha onde Dandara montava um quebra-cabeça, ela já tinha mostrado os seus desenhos e agora estava entretida com outra coisa, ele só tinha certeza absoluta de uma coisa: nunca ficou tão consciente de cada palavra que pensava antes de falar.

A menina de cinco anos o encarava com a mesma intensidade que ele encarava ela — olhos grandes, curiosos, brilhando como se estivesse tentando decifrá-lo peça por peça. E ele, se sentia… minúsculo.
Kemi observava a cena da cozinha, disfarçando um sorriso enquanto secava as mãos no pano.

A menina se levantou, marchou até ele com a segurança de quem não teme absolutamente nada e parou bem na frente dele. Seu pescoço esticadinho para olhar lá em cima.

— O que você faz? — perguntou com total naturalidade.

A pergunta deixou Eloy travado por um segundo. Ele limpou a garganta, olhou rápido para Kemi e voltou para a pequena.

— Eu… trabalho com música, eu sou baterista.

Os olhos dela brilharam como se ele tivesse dito algo tipo “astronauta ninja”.

— BATÉRISTAAA? — ela repetiu, encantada, abrindo os braços como se fosse algo enorme. — Você toca tum tum pá?

Eloy engasgou numa risada curta, nervosa, mas derretida por dentro.

 

— Exatamente isso — concordou. — Tum tum pá é comigo mesmo.

Dandara o olhou mais um pouco, avaliando o rosto dele.

— Mamãe disse que você é legal — ela afirmou sem cerimônia.

Eloy congelou. O coração dele deu um tropeço tão forte que ele achou que Kemi ouviria da cozinha.Tentou procurar ela mas viu que ela estava ocupada guardando algumas coisas na geladeira, ele piscou lentamente, voltando a olhar para a menina.

— Disse, é? — Ele falou baixo, tentando não parecer emocionado. — Fico feliz que ela ache isso.

Dandara deu de ombros, como se fosse óbvio.

— Mamãe não fala que alguém é legal se a pessoa for boba — disse ela com sabedoria infantil.

Eloy passou a mão pelo cabelo, completamente nervoso, mas sorrindo de um jeito que ele nem percebia.

— Bom… eu prometo tentar não ser bobo — falou, fazendo a menina dar uma risadinha curta.

Dandara então se aproximou mais ainda e tocou a mão dele com a pontinha do dedo.

Como quem decide uma coisa muito importante, ela disse:

— Você pode sentar aqui do meu lado. Vou te mostrar meu quebra-cabeça.

Eloy sentiu o peito esquentar de um jeito suave, profundo, diferente de qualquer adrenalina de palco. Seu olhar procurou novamente a Kemi — que sorriu de volta, com os olhos brilhando de ternura — e depois se abaixou devagar, cuidando para não parecer desengonçado.

Sentou perto da menininha, sem invadir o espaço dela, e deixou que ela lhe entregasse uma peça colorida.

— Essa aqui é difícil — ela explicou, muito séria. — Quero ver se você sabe onde coloca.

Eloy segurou a pecinha, a mão grande em contraste com o objeto minúsculo.

— Vou fazer o meu melhor, mocinha.

E ali ficou. Quieto, atento, com o coração batendo rápido… mas de um jeito lindo. Ela estava tentando deixá-lo participar do mundo dela.

 

E para Eloy, isso significava mais do que ele sabia colocar em palavras. Talvez tentasse transmitir em uma música depois.

Dandara dava pequenos pulinhos ao lado dele, seus dois coquinhos que balançavam toda vez que ela se animava com algo e ela estava ficando animada com tudo que Eloy fazia.

— Ali, ali, ali! — ela apontava para um espaço claramente errado.

Eloy franziu o cenho, fingindo uma dúvida dramática.

— Hm… tem certeza? Essa peça é azul. Aqui é amarelo…

Ela cruzou os braços, tentando ficar séria, como se estivesse sendo desafiada.

— Tio Eloy… eu sei as cores.

Eloy mordeu o lábio inferior para não rir.

— Ah, me desculpe, mocinha. Quem sou eu, não né?

Dandara então tomou a peça da mão dele com autoridade e colocou… exatamente no lugar certo, não no amarelo.

Eloy arregalou os olhos, exagerando a surpresa.

— Eu sabia que você sabia, só estava testando — disse ele, balançando a cabeça com falsa importância.
— Você é bobo — ela riu, batendo no braço dele com a mãozinha leve.

Eloy levou a mão ao peito, teatral.

— Bobo? Eu? Pois eu sou muito sério. Muito — ele tentou manter a expressão, mas Dandara aproximou o rosto dele com os dedinhos na bochecha e o encarou com a intensidade de quem lê mentes.
— Mamãe disse que você tem olhos de quem rir — ela decretou.

Ele tinha certeza que estava com o maior sorriso de sua vida nesse momento enquanto olhava a menina bateu palminhas e começar a procurar outra peça.

— Olha essa! — Dandara trouxe outra peça e colocou na frente dele como quem traz um tesouro. — Essa parece com você!

A peça tinha o desenho de um leãozinho.

— Um leão? — ele perguntou, rindo.
— Sim! Porque você é grande e forte e… — ela tocou o braço dele, apertando o músculo com seriedade científica —… e porque você fica assim, ó — ela imitou ele concentrado, franzindo o cenho.
Eloy gargalhou de verdade dessa vez, o riso profundo, limpo, que ele nem lembrava a última vez que tinha soltado.

— Ah, Dandara… se você continuar me elogiando assim, eu vou ficar convencido.

— Convencido é o quê? — ela perguntou de imediato.

— É tipo se achar muito importante — explicou ele calmamente.

Dandara pensou por dois segundos.

— Mas você é importante. Mamãe gosta de você — ela disse, voltando ao quebra-cabeça como se tivesse dito algo simples.

Só que Eloy ficou sem ar por um instante.

A garganta fechou. As mãos esquentaram.

Aperto no peito, mas daquele tipo bom, que dá vontade de sorrir sem motivo.

E então…

— Você tá vermelho — Dandara avisou, apontando com a peça do leãozinho.
Eloy levou a mão ao rosto, rindo baixo.
— É que você fala umas coisas que deixam a gente… assim.
— Bobo!— ela cantarolou, encostando o ombro nele com confiança absoluta.
— Sim.. vou te contar um segredo - Eloy falava fingindo estar falando baixo conquistando toda atenção da criança — Estar perto da sua mãe me deixa sempre meio bobo.

A criança ali em sua frente gargalhava divertida.

 

A criança terminou o lanche com as pernas balançando no sofá, o pacote de biscoito já meio amassado no canto e a caixinha de suco quase vazia sendo segurada pelo rapaz que foi obrigado a sentar do seu lado. Eloy, sentado ao lado, ainda encarava o biscoito que ela insistiu em dividir com ele, mesmo depois de ele ter dito umas três vezes:

— Não precisa dividir comigo, isso é seu.

Mas ela apenas empurrou o biscoito na direção dele com a seriedade de uma diplomata:

— Você é meu amigo. Amigo divide.

Ele engoliu seco na hora, sem nem saber como responder, então aceitou o biscoito como se fosse feito de ouro.

Agora, após terminar seu suco e deixar que ele segurasse a caixinha, ela escorregou do sofá e veio até ele com o rosto iluminado por uma ideia que claramente acabara de surgir.

— Tio Eloy… — ela começou, dramática.

Ele já sorriu, reconhecendo o tom.

— Lá vem.
— Eu quero te mostrar uma coisa MUITO importante. Tipo… muito — ela abriu os braços para mostrar o “tamanho” da importância.
— Ah é? — ele cruzou os braços, entrando no jogo. — E o que é tão importante assim?

Ela se aproximou até ficar praticamente encostada no joelho dele, como se estivesse guardando um segredo do mundo inteiro.

— Eu tô quase andando de bicicleta sem rodinhas.

Eloy piscou, surpreso de verdade.

— Quase? Poxa, isso é sério mesmo — ele disse, abrindo um sorriso orgulhoso que Dandara prontamente retribuiu.
— Eu sei! — ela ergueu o queixo com orgulho. — E eu quero mostrar pra você.

Ele riu, sem conseguir controlar o próprio brilho nos olhos.

— Quer me mostrar hoje?
— AGORA. — Ela já pegava o tênis como quem se prepara para uma missão. — No parque lá embaixo. Mamãe sempre me leva.

Eloy olhou para a porta, depois para ela, que já se equilibrava no pé só para colocar o tênis sozinha. Ele sentiu algo se ajeitar dentro dele, um sentimento quente, doce, gostoso. O tipo de coisa que dava vontade de levantar na mesma hora e seguir aquela criança e proteger ela do mundo, entregar tudo o que ela quisesse.

— Bom… — ele levantou as mãos em rendição — …se você me convidou, então eu tenho que ir.

Dandara abriu um sorriso tão grande que parecia iluminar a sala.

— Vamos! Vamos! Vamos!

Ela já estava pronta para correr até onde fica sua bicicleta, quase pulando de ansiedade, apertando a mão de Eloy como se ele fosse um foguete pronto pra decolagem. Mas antes mesmo de chegar a porta, Eloy freou suavemente, dando uma leve puxadinha na mão dela.

— Ei, campeã… — ele se agachou um pouco para ficar mais perto do nível dela — …antes da gente ir, você precisa pedir pra sua mãe. Eu não faço nada sem autorização da sua mãe, tá?

Dandara fez um biquinho indignado, daqueles que deixam qualquer adulto a um fio de dizer “tá bom, pode tudo”. Mas Eloy se manteve firme… ou tentou, pelo menos.

— Mas eu quero mostrar pra você agora! — ela protestou.

Ele sorriu e afagou a cabeça dela com toda delicadeza do mundo.

— Eu sei, pequenininha. Eu também quero ver. Mas a sua mãe manda, né?

Ela respirou fundo como se estivesse prestes a fazer um discurso importante… e então saiu correndo de volta para a cozinha.

— MAMÃE!! — a voz ecoou no apartamento.
— O que foi, Dan?

Dandara apontou para Eloy com a urgência dramática

— Mãe, preciso ir no parque AGORA mostrar pro tio Eloy que eu tô quase andando sem rodinhas!
Kemi suspirou, cruzando os braços.

— Filha..você acabou de lanchar.

— Mãe, POR FAVOR! — ela juntou as mãozinhas em prece. — É rapidinho! Ele quer ver!

Kemi olhou para a filha… depois, lentamente, virou o olhar para Eloy, que imediatamente ficou rígido, endireitando a postura como se estivesse prestes a responder uma autoridade militar.

— Eloy… — ela perguntou com aquela calma que é pior que grito — …tem certeza que você quer levar ela agora? Acabou de comer, tá cheia de energia, e você sabe como ela corre, né?

Eloy abriu a boca… fechou… abriu de novo.

Ele olhou para Dandara, que o encarava com olhos enormes e brilhantes. Depois olhou para Kemi, que o encarava como quem diz "tenha certeza, porque é VOCÊ que vai lidar com ela pulando igual um cabrito."

Ele engoliu seco.

— Eu… tenho. — respondeu, firme, mesmo sentindo o frio na barriga.

— Se você deixar… eu cuido dela direitinho. Prometo.

Kemi estreitou os olhos, analisando cada mísero milímetro do rosto dele.

Dandara se agarrou na perna de Eloy num abraço emocionado, como se já tivesse recebido o sim universal.

Kemi suspirou de novo, mas dessa vez com um sorriso pequeno e derrotado surgindo no canto da boca.

— Tá bom. MAS… nada de correr igual maluca logo depois de comer. Vai devagar.
— SIIIM! — Dandara comemora, “escalejando”, como ela mesmo dizia, Eloy para subir no colo dele sem pedir.

Eloy a pegou com a mesma suavidade de sempre, segurando a menina firme, mas delicado, e Kemi apenas observou com aquele olhar carinhoso, meio divertido, meio apaixonado.

— Você tem certeza mesmo? — ela perguntou de novo, desta vez mais suave.

Eloy olhou para ela… e sorriu daquele jeito tranquilo e sincero que só ele conseguia ter.

— Se é pra deixar ela feliz… tenho sim.

E Kemi sentiu o coração derreter um pouco mais.

—Ta, vou só terminar de limpar aqui e vou pegar a bicicleta para a gente descer.

Dandara já tinha se jogado dos braços de Eloy e desapareceu pelo corredor, e a voz dela ecoava:

— MÃE, TÁ AQUI!!! ELOY, VEM VER, É A MINHA BICICLETA!!!

Eloy riu baixo, meio nervoso, meio derretido, e seguiu na direção do quarto. Quando entrou, encontrou a menina tentando arrastar a bicicleta com toda força, o corpinho de cinco anos inclinado para trás, língua pra fora, determinação absoluta.

— Deixa eu te ajudar, campeã — ele disse.

Antes que ela respondesse, Eloy pegou a bicicleta com uma única mão, erguendo como se fosse nada. Até porque era somente uma bicicleta infantil.
Dandara arregalou os olhos de um tamanho absurdo.

— ELOOOOY??? — ela levou as duas mãos à cabeça, chocada. — Você é forte igual super-herói!

Kemi, parada na porta, cruzou os braços com um sorriso suave, observando a cena com um calor no peito que ela não admitiria tão cedo.

— Ele é forte, né? — ela comentou, divertida.

Dandara balançou a cabeça tão rápido que quase caiu pra trás.
— ELE É MUITO FORTE! Mãe, olha isso! Ele segurou com UMA MÃO! Uma só! Você viu? Você viu??

Eloy, corando desviou o olhar.

— Ah… é… é só prática. — Ele pigarreou. — Não é nada demais.

Dandara deu dois pulinhos animados.

— Você pode segurar ela assim lá no parque também? Tipo… igual quando os adultos seguram os pesos no desenho dos heróis? — perguntou, impressionada por existir alguém que pudesse competir com a ideia infantil de força máxima.

— Acho que… posso tentar — ele sorriu, tímido.
— Ele pode, sim — Kemi afirmou, aproximando-se e dando um tapinha leve no braço do Eloy. — E sem fingir que não tá todo bobo porque ganhou elogio.

Eloy ficou vermelho até a orelha.

— Eu… eu só quero que ela aproveite — murmurou.

Mas Dandara já tinha saído correndo pelo corredor outra vez, agora gritando:

— VEM, VEM! EU VOU MOSTRAR TUDO PRA VOCÊS DOIS! EU QUASE NÃO USO MAIS AS RODINHAS!

Eloy riu, ajustou a bicicleta com facilidade e olhou para Kemi.

Ela sorriu de volta.

— Pronto pro caos? — ela perguntou.

Ele respirou fundo, mas com um brilho cheio de carinho no olhar.

— Se for com vocês duas… sempre.

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Ele não estava pronto para o caos.

O parque estava cheio de crianças correndo, cachorros latindo e pais reclamando do sol, mesmo sendo final da tarde.

Mas nada disso parecia existir para Eloy.

A única coisa que ele conseguia ver era Dandara.

A menininha disparava pelo caminho de paralelepípedos com a bicicleta como se tivesse sido lançada por um estilingue gigante, correndo entre as árvores, rindo alto,as rodinhas balançando, cabelo voando ao vento. Uma bala. Uma criatura sem medo da morte.

Eloy estava sentado ao lado de Kemi no banco, mas totalmente rígido, mãos apoiadas nos joelhos, coluna ereta, olhos arregalados.

— Meu Deus… isso é… isso é seguro? — ele murmurou pela quinta vez em trinta segundos.

Kemi, tranquila, bebendo um gole de água, deu de ombros.

— Ela tá ótima, Eloy.

— Mas… mas o capacete… tá firme? — ele falou baixinho, inclinando-se pra frente. — Eu apertei, mas… e se afrouxou? E se bateu em algum galho? E os protetores de joelho… tão no lugar? Eu acho que o esquerdo mexeu um pouco quando ela pulou aquele… negócio ali.

— Aquele “negócio ali” era um galho de dois centímetros — Kemi riu, tocando de leve o braço dele. — E sim, tá tudo certo. Respira.

Eloy não respirou.

Dandara fez uma curva mais fechada e a bicicleta balançou. Só isso.

Eloy deu um pulo no banco.

— MEU— VAI CAIR!

— Ela não caiu — Kemi disse, sem nem olhar. — Ela anda assim mesmo.

— Assim mesmo?! Desse jeito?? Meu Deus, ela tá indo muito rápido…

Kemi riu, finalmente virando o rosto para ele.

— Você tá tremendo?

— Não tô — ele disse rápido, claramente tremendo.

A cena não poderia ser mais oposta: Dandara completamente destemida, pedalando como uma campeã olímpica de velocidade infantil; e Eloy, um homem gigante, baterista de banda de metal, pânico puro estampado na cara.

— Se ela cair, eu vou — ele começou.
— Você vai correr e pegar ela no ar? — Kemi adivinhou, segurando a risada.

Eloy pensou um instante.

— … se der tempo, sim.

Kemi encostou o ombro no dele, rindo de verdade agora.

— Você é tão bobo — disse com carinho. — Ela tá feliz, Eloy. Olha a cara dela.

Dandara passou por eles num flash, gritando:

— MÃE, EU SOU MUITO RÁPIDA! ELOY, TÁ VENDO? TÁ VENDOOO?!

Eloy levantou a mão num aceno trêmulo.

— Tô vendo, campeã… cuidado, por favor…

Kemi virou o rosto pra ele, ainda com aquele sorriso quente.

— Ela gostou de você, sabia?

Ele engoliu seco, o olhar preso na menina.

— Eu gostei muito dela também.

E, do jeito mais natural do mundo, a mão dele escorregou para segurar a de Kemi sobre o banco.

Dandara tomou velocidade de novo, dessa vez ainda mais confiante ou mais insana. Era difícil dizer.

Kemi só observava, tranquila. Quase relaxada demais pro gosto dele.

Foi então que aconteceu. A roda dianteira da bicicleta encontrou uma pedrinha ou um galho. A bicicleta deu uma quicada.
Dandara perdeu o equilíbrio.

E caiu.

— MEU DEUS! — Eloy avançou um passo, coração disparado como se tivesse visto um acidente na BR.

Kemi levantou a mão no mesmo instante e segurou o braço dele por reflexo.

— Calma, Eloy.

— CALMA? ELA CAIU! ELA— EU— KEMI, EU PRECISO—!

— Eloy. — Kemi apertou levemente o braço dele, firme. — Relaxa.

Ele parou, mas só porque ela mandou.Alguns pais ao redos se assustaram com o grito do homem, e falavam que ele parecia estar com fumaça saindo do topo da cabeça dele. Os olhos do homem, enormes, apavorados, brilhando, estavam grudados na filha dela.

Dandara ficou de bruços por um segundo.

Um segundo eterno pro Eloy.

— Kemi, ele— ela tá— ela precisa de— ela vai—

— Espera — Kemi disse, segurando a risada.

E então…

Dandara levantou a cabeça.

— HAHAHAHAHA! — ela deu uma gargalhada tão alta que até uns passarinhos voaram das árvores.

Eloy ficou paralisado.

A menininha levantou sozinha, deu tapinhas na roupa, pegou a bicicleta, ergueu ela com esforço, ajeitou o capacete (que estava perfeitamente ajustado) e montou de novo como se absolutamente nada tivesse acontecido.

— MÃE!!! ELOY!!! VIU EU CAINDO? FOI MUITO ENGRAÇADO!!!

Eloy abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

— Ela… ela… tá… bem? — ele perguntou como se fosse um milagre divino.

— Claro que tá — Kemi riu. — Ela cai umas seis vezes por semana.

Dandara saiu pedalando como se tivesse turbo recarregado.

Kemi encostou no ombro dele, rindo baixinho.

— Bem-vindo à experiência de conviver com uma criança.
— Eu vou ter um ataque cardíaco — Eloy murmurou, mão ainda travada onde ela segurava.

Kemi sorriu.

— Você tá indo muito bem.

Kemi se aproximou mais dele, aproveitando que Eloy passou o braço por trás dela, a segurando mais próximo de si, dando apoio para ela descansar a cabeça nele e pela primeira vez desde que chegaram ao parque… Eloy acreditou um pouco nisso.
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Já fazia algumas semanas desde o dia no parque, e a banda inteira tinha tomado uma decisão silenciosa, automática e unânime: Dandara agora era patrimônio emocional da Psikolera.

Kemi entrou no estúdio de ensaio com a menina pela mão, e a reação foi imediata, como se alguém tivesse anunciado a chegada da realeza.

— DANDAAAN!! — Caio berrou, abrindo os braços.

Dandara largou a mão de sua mãe e correu pra ele pulando, mesmo sendo pequena demais para alcançar. Caio a pegou no ar como se fosse automático, girando ela uma vez enquanto ela gargalhava.

— Trouxe seu kit Psikolera? — ele perguntou animado.

Dandara desceu, pegou sua mochila com pressa, abriu o zíper e tirou de lá uma camisetinha oficial da banda, feita especialmente do tamanho dela, com o nome “DANDAN” estampado atrás.

— EU TENHO! — ela anunciou com orgulho.

Do outro lado, Cindy quase teve um treco de fofura.

— MEU DEUS DO CÉU, OLHA ESSE COQUE DUPLO DELA! Isso é um crime de tão fofo — disse, apertando as bochechinhas da menina. — Você tá estilosa demais hoje, pequena.

— Eu que fiz!! — Dandara respondeu empolgada. — Bom… a mamãe que fez mas eu ajudei segurando o elástico!

Cindy bateu palmas.

— Ícone! Fashion icon.

Franco, sentado no canto polindo a guitarra, ergueu a mão para acenar.

— Oi, Dandan.

— OI, FRANCO! — ela acenou energicamente.

— Eu não trouxe fogo hoje — ele disse sério, apontando para uma caixa de ferramentas afastada.

— Ninguém trouxe fogo hoje — Cindy completou, encarando Franco com aquele olhar de “não me faça repetir”.

Dandara deu risadinhas. Ela achava que Franco era um “mágico do rock” desde o dia em que o viu acender sua guitarra.

Alê, o mais quieto, estava sentado no teclado, dedilhando algo suave. Quando Dandara se aproximou, ele fez um gesto sutil com a cabeça e tocou algumas notas melódicas que soaram como um “oi” musical, do jeitinho dele.

— Essa música é pra você — ele murmurou baixinho.

Só Dandara ouviu. Mas ela ouviu como se fosse um segredo mágico e abriu um sorriso enorme.

E então…

Eloy.

O motivo da animação descontrolada da pequena.

Ele estava terminando de montar sua bateria, mas assim que ouviu os passos acelerados dela, virou para trás.

E Dandara disparou.

— ELOYYYYYYYY!!!

— DANDAAAAN!!! — ele respondeu no mesmo tom, abrindo os braços.

Ela colidiu com ele como um míssil infantil, e Eloy a levantou com a mesma facilidade que levantaria uma almofada. Gira ela uma vez, muito devagar, ele sempre toma cuidado, e depois apoia sentada em seu antebraço como se fosse a posição “oficial”.

— Você veio ver a gente ensaiar hoje? — ele perguntou, tocando a pontinha do nariz dela.

— SIM! E eu trouxe biscoito! Quer? — ela ofereceu com a maior seriedade do universo.

Eloy sorriu daquele jeito suave que só saía quando ela estava por perto.

— Depois, quando a gente parar. Mas guarda pra mim, hein?

Ela assentiu com força, como se fosse uma promessa de vida ou morte.

— Eu guaaardo. Só pra você.

Kemi, encostada na parede, observava a cena com os braços cruzados, segurando um sorriso que ameaçava escapar.

Era uma cena tão natural, tão fácil, tão cheia de carinho… que doía de tão bonita.

— Bora começar? — Caio chamou.

— Bora — Eloy respondeu, ainda segurando Dandara com um braço e ajeitando a baqueta com a outra.

Kemi riu.

— Eloy, você vai ensaiar segurando ela?

— Se ela quiser — ele disse, olhando pra menina.

Dandara se encolheu mais perto dele, sorrindo.

— EU QUERO.

Cindy colocou as mãos na cintura.

— Eloy, você realmente virou um pai.

Eloy ficou vermelho até a orelha.

— Cala a boca e toca logo, porra.

— ELOY! — Dandara o repreendeu.

Ele arregalou os olhos.

— Ai… é… desculpa, pequena. Eu quis dizer: “porcaria”.

Ela deu um tapinha no ombro dele, satisfeita.

E então a banda começou a tocar.

Ale se aproximou de Dandara, sentada no colo do baterista gigante, colocando um protetor de ouvido maior que a cabeça da pequena criança que já balançava os pés no ritmo da música.
Psikolera nunca pareceu tão completa.

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O ensaio termina com risadas, instrumentos sendo guardados e Dandara correndo de um lado para o outro. Depois de todos se despedirem com o mesmo cuidado de sempre, Cindy ajeitando o lacinho da menina, Caio fazendo ela dar um gritinho desafinado no microfone, Franco prometendo que “um dia você vai ver fogo, mas sua mãe tem que deixar” e Ale acenando gentilmente, Eloy carrega a mochilinha rosa dela até o seu carro.

No caminho para o estacionamento, a pequena segura um dedo de Eloy como se fosse a coisa mais natural do mundo.

No caminho do carro até o elevador, ela encosta no braço dele e fecha os olhos por dez segundos até abrir assustada dizendo que esqueceu de dar tchau para o Caio. Kemi e Eloy riem da preocupação da criança.

Quando chegam no apartamento, a menina já está contando as aventuras do dia pela milésima vez, enquanto Kemi tenta organizar as coisas e Eloy ajuda como pode, guardando tênisinhos no canto, colocando a mochilinha no lugar, abrindo espaço na mesa.

Kemi olha para ele enquanto pega uma panela:

— Se quiser… fica pra jantar com a gente.

Eloy nem hesita.

— Fico. — Ele sorri.

A janta é simples, mas gostosa. Arroz, frango assado, legumes que Dandara insiste que são “mais gostosos quando o Eloy corta”. Ele corta. Pequeno, devagar, com a mesma concentração de quando regula a bateria antes de um show importante.

A cena é tão doméstica que chega a bater nele de uma forma mais forte.

A mesa pequena. Os três juntos. A criança falando sem parar. Kemi olhando a filha com carinho… e às vezes olhando Eloy com um brilho diferente.

Depois de comer, Dandara estica os bracinhos para Eloy:

— Eloy, pega colo?

Ele pega. Senta com ela no sofá. A menina encosta a cabeça no peito dele, ainda segurando um guardanapo amassado. Kemi volta com um suco pra ela e, quando entrega, Dandara solta sem pensar, com toda naturalidade do mundo infantil:

— Obrigada, mamãe… e obrigada, papai.

Silêncio.

Eloy congela.

Kemi congela.

A criança continua bebendo o suco, totalmente alheia ao terremoto que acabou de causar.

Eloy engole seco, o coração batendo rápido. Ele sente um calor subindo ao rosto, e os olhos… ah, os olhos marejam na hora. Ele tenta piscar para dissipar um pequeno choro que tenta se acumular.
Kemi coloca a mão na boca, surpresa.

Dandara olha pra cima, inocente, e pergunta:

— Papai, posso ver desenho depois?

A voz de Eloy falha, mas ele responde num sussurro cheio de carinho:

— Pode sim, Dan…

Ele sorri. Um sorriso tão grande, tão puro, tão cheio de amor que até dói. Ajeita a franjinha dela com a mão tremendo de emoção.

E, quando olha para Kemi, ele dá uma piscadinha, daquela cheia de significado, de promessa, de tô aqui.

Kemi sorri. Um sorriso macio, emocionado, grato. Após o suco, a criança solta um pequeno bocejo denunciando que sua bateria estava finalmente acabando, mas sorri satisfeita se sentindo protegida e aquecida no meio dos dois.

Notes:

Espero que tenha gostado :)

Keloy é sempre um quentinho no coração