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Language:
English
Stats:
Published:
2025-12-12
Words:
815
Chapters:
1/1
Comments:
18
Kudos:
225
Bookmarks:
8
Hits:
3,181

Quero te ver outra vez, quero te ver outra vez

Summary:

Lorena responde às mensagens de Eduarda depois do primeiro beijo.

Work Text:


“Então, Lorena Ferette, você deixou saudade no meu coração… Fazer o que, né?” 


As mãos tremem, o nó vem na garganta, o arrepio desperta os mamilos e sobe da lombar até o couro cabeludo. Lorena se esparrama na cama, com o riso frouxo, sua voz de sono repetindo bom dia bom dia bom diiaaaaa contra o celular, suas pernas se cruzando sob a colcha. Ela nem sabe quando foi a última vez que sentiu essa coisa, essa alegria ao acordar. Seu coração palpita - pula - parece querer sair para fora. Tudo isso é novo, rápido, estonteante até. 


É uma coisa incomum nessa casa, nessa vida, nessa culpa carregada entre os dentes, na boca do estômago, na náusea que a faz nem querer sair de casa para não ver o injusto no mundo e sua conta nele.

Mas teimoso, agora, seu coração salta. Seu estômago dá cambalhota. Frio na barriga. 


Não sabe como subiu as escadas na noite anterior. As pernas estavam bambas, tropeçou quando tirou os sapatos, fantasiou quando jogou a jaqueta de lado, os cabelos da nuca se arrepiando, o coração acelerando mais ao ouvir o áudio de Eduarda. Posso te dar outros beijos se você quiser. Imagens mentais embaçadas de amassos afoitos no banco do motorista e as coxas de Eduarda entre seus joelhos seu peso em vai-e-vem contra ela a respiração ofegante as unhas curtas fazendo pressão contra nuca e ombros a risada alta ao bater as costas no volante-- fazem Lorena rir como boba, fazem com que ela cubra o rosto com as almofadas.


Ela não sabe o que responder agora, não soube ontem, nunca fez esse tipo de investida antes, não com esse negócio estranho que parece um aperto no peito.


Nunca tinha sido algo que tinha lhe acontecido; ela achava até que não era feita para aquilo, tendo tido relações pontuais e protocolares desde os anos de colégio. 

Achava que as amigas exageravam. Tudo lhe parecia mecânico, moderadamente agradável, mas nada enlouquecedor. 


Ela entende agora. Não consegue pensar em mais nada, nem quando pensa em Rogério, porque se pensa em Rogério ali estão as mãos de Eduarda em seu antebraço, seu cenho franzido de preocupação e suspeita, seu sorrisão que encolhe os olhos e os deixa miudinhos, miudinhos, balas de tamarindo que já foram consumidas pela metade. 


Pensar nisso também a deixa trêmula. 

Ela quer responder que sim, que precisa vê-la também, que sente saudade o tempo todo e não sabe o que fazer com as horas, que está doida para beijá-la de novo— Mas melhor respirar, primeiro. Melhor olhar o dia, comer alguma coisa, tomar um suco. 

Quer ser honesta, e não parecer uma desvairada. Flashes da ponta da língua de Eduarda traçando seu lábio inferior fazem sua respiração vacilar. 


Tinha sido um beijo casto, até. Lorena sabia que Juquinha estava tentando não ultrapassar nenhum limite. 

Será que ela não tinha deixado claro…? 


Escova os dentes com a cabeça em outro lugar, troca de roupa, decide responder depois do café, do suco, da torrada. Desce com as bochechas quentes, esbarrando em Léo, rindo ao pedir desculpa. O pai olha torto, desconfiado. Zenilda sorri de canto como quem já entendeu, e desvia a atenção para o marido. 


Lorena come depressa, os pés batendo contra o chão incessantemente. Não quer parecer desesperada. Mas precisa ver Eduarda de novo. Precisa colocar os braços ao redor de seu pescoço, puxá-la para perto, porque nunca sentiu essa coisa, isso tudo, essa possibilidade de vida e de paz e de (parece loucura mas ela jura de pés juntos que não) quem sabe no futuro ela viver em uma casa sendo feliz entre suas paredes e sob seu teto. 


“Ei. Lorena! Terra chamando!” Léo diz, o tom de voz implicante de sempre. “Tsc! Ô, Lorena! Agora deu pra isso, mano, fica viajando na maionese…”


Num sobressalto, sua mente volta para a mesa da família, deixando imagens de suas mãos puxando a lapela de Juquinha quando——


“Vai, minha filha, vai fazer o que cê quer fazer, que tá escrito na tua testa!” Zenilda diz, apertando sua mão sobre a dela uma vez, notando seus dedos gelados. “Depois traz pra sogrinha conhecer.” 


Lorena engasga com o suco, se levanta desajeitada, num rompante, as pernas bambas outra vez. 


Esperança. 

É isso que ela está sentindo, essa coisa nova e estranha. 


Pega o celular, liga, ouve um toque e a voz de Eduarda em resposta. 


“Oi, guria, tu recebeu minhas mensagens? Te deixei sem palavras, vai.” Ela brinca, mas quando nota o silêncio na linha, fala ansiosa, “Te assustei? Lorena, eu—“ 


“Não. Não!” Lorena responde depressa, e respira fundo uma vez, mantendo a voz calma, com medo de gaguejar. “Eduarda… Posso te levar um café aí mais tarde, durante seu plantão?” 


Antes que ela responda, Lorena sabe que ela está sorrindo aquele sorriso maior que o mundo. 

Sua mão se estende e puxa a bolsa, já de saída pra vida.